Um novo Nuremberg

Não há inocência ao se trabalhar numa organização que comete crimes contra a humanidade. O trabalho parece purificar qualquer crime e ganhar dinheiro parece eliminar o cheiro da morte. Mas a verdade é que você acorda e põe seu sangue, sua mente e seu corpo na máquina que mata milhões. Depois lamenta a ineficácia do Estado e do Governo, mas você mesmo já abriu mão da sociedade quando se tornou um soldado corporativo.

Você não tem mais horas para se dedicar à sociedade, para ser um cidadão. Você quer apenas votar, num dia de sol, escolher o mal menor e assistir a TV, cansado de ter dado o sangue para a Empresa, em troca da possibilidade de comprar mais cacarecos e de pagar mais contas. O Governo é esse amontoado de funcionários corruptos, numa Empresa ineficiente. Aliás, todo agrupamento humano que não é a Empresa é ineficiente, amador, corrupto.

Aquele Governo do lado de fora da Empresa não se relaciona com você. Ele parece impedi-lo de se desenvolver. Ele tarifa você e você pensa que é injusto, porque aquele Governo não trabalha para você, como a Empresa diz que faz. O Governo não te oferece benefícios. Não te bajula e ainda te tarifa para pagar os pobres, os velhos, os inválidos, os desempregados, os políticos, os juízes e os policiais.

Então o Estado se desmantela numa bandalheira. Os políticos, comprados também pelas Empresas, também eles soldados corporativos, eles fazem o que podem para implementar o novo regime. Atacam por todas as frentes, atropelam os direitos civis. O que são direitos civis, quando não há Estado? Quando não existe ninguém mediando, a não ser o lucro? Os improdutivos, os fracos, os não lucrativos, esses todos… Quem governa para eles? Ninguém.

Enxugam os custos dos nossos direitos e transformam direito em produto, com faixas de preços e níveis de atendimento. E só descobrimos a lástima de serviço prestado quando precisamos dele.

Mas você também envelhece, se deprime, perde o rumo da vida, fica em dívida. Finalmente deixa de ter utilidade para a Empresa e se vê pendurado no Estado. O terror é enorme, porque agora você é o pobre que  o Estado sustenta. Você se recusa a pedir o benefício e se contenta com as indenizações até ser recolocado. Mas seu preço baixa mais e mais. Agora tem um moleque mais novo que você e ainda mais implacável. Ele se vende por um preço ainda menor e é mais eficiente do que você. Você aceita trabalhar por menos, ou não. Mas não dura mais.

Te sobra ser um Empreendedor. Ninguém vai te contratar pelo preço que você vale. Então você abre uma pequena empresa para prestar serviço para as Empresas. Você não percebe, mas agora você é ainda menos que o funcionário, porque paga ainda mais para o governo, com mais responsabilidades. Fatalmente, em nome do lucro e do crescimento, você vai treinar mais moleques, pagando ainda menos, e com isso você vai preparando mais soldados para essa máquina. Gente que trabalha o mês inteiro para comprar o melhor celular que for possível, mesmo que fique em dívida eterna.

Esses serão os homens que matarão o mundo.

Ainda mais rápidos e ferozes do que você.

 

 

 

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