O Cume

Bancos, Mídia, Comida Industrializada e Petróleo.

Essa postagem no RealFarmacy.com me fez refletir enormemente. São apenas 85 pessoas que detém 46% dos recursos mundiais. Como isso é possível? Essa gente se alimenta dos nossos hábitos.

Os fóruns de economia e alguns grupos políticos se concentram na idéia de que é preciso distribuir renda, entendendo por renda um certo montante de dinheiro que permita a uma família continuar comprando os produtos que vão manter os mesmos 85 no topo da cadeia alimentar. Mas eu de repente comecei a pensar em uma outra abordagem, baseado numa outro escrito meu chamado “Rebelião”: e se nós simplesmente parássemos de depender dessas pessoas?

É possível? Como isso seria feito?

Eu fui criado desde a origem completamente dependente dessa infra-estrutura. Saí da amamentação e cai direto no supermercado. Fui adestrado numa escola e depois caí no mercado de trabalho ao mesmo tempo em que me eram exigidos certos deveres de cidadão da nação. Assumi uma família e me vi endividado com bancos pertencentes a todo tipo de quadrilhas.

Então essa coisa toda me parece uma mãe. Como se aquela teta original tivesse se transformado nessa chantagem horrenda da qual eu tomo parte todos os dias através desses hábitos dos quais eu não consigo me livrar.

E me parece que é isso. É justamente esse o ponto: lidar com o fato de que eu estou viciado nessa estrutura e só posso me liberar dela da mesma maneira que um alcoólatra faz com o seu vício. De uma vez só e ao mesmo tempo, um dia de cada vez. Sabendo que todo o tempo vão tentar me vender os benefícios de permanecer nessa estrutura. E que eu posso cair nessa conversa e levar minha família e meus queridos amigos todos ladeira abaixo.

Onde estão esses nós que fazem com que eu alimente essas 85 pessoas, que estão loucas? Eu acredito que dinheiro é o único recurso que tenho, perdi a noção do meu valor, porque ele passou a ser associado a um preço. Então meu valor é o valor que o mercado me atribui e é preciso que esse valor seja sempre baixo, porque o mercado está me comprando e é preciso que eu esteja em liquidação (ou liquidado, de preferência).

Eu perdi a capacidade de plantar, de cozinhar, de cultivar. Olho para uma planta na rua e não sei se ela é remédio. Vou ao mercado e compro uma carne na bandeja de isopor que quando eu abro fede a carniça. Mas eu a tempero bem e como assim mesmo, porque está cara. Porque carne de mercado é assim mesmo. Porque eu não tenho tempo de ficar na fila do açougue e o dono do mercado sabe disso e me vende a carne quase podre, porque quer ganhar dinheiro porque esse também é o preço dele e ele não pode ficar liquidado ou falido.

Eu fico doente e preciso continuar valendo algo. Eu sou a carne podre na bandeja e peço a um médico que me embale com algum plástico para que o patrão não sinta que estou podre por dentro. O médico também não pode ficar liquidado, porque o convênio paga mal para oferecer a ele um nomezinho e telefone no guia de associados. Ele então me receita uma remédio para o mau cheiro, porque o rapaz da farmacêutica vai dar a ele e a esposa uma viagem para um congresso de medicina. Esse congresso é o tempero do médico e da mulher dele. E o rapaz também oferece a viagem porque sem essa oferta, ele está liquidado.

E me movo de um lado a outro, de uma bandeja a outra, de um plástico a outro, de uma balança a outra. E para cada movimento desses, o petróleo é o que deveria me levar. Mas não leva. Porque eu continuo queimando petróleo enquanto o que não anda é a rua. Eu digo que a estrada não anda, que a rua não anda, mas elas nunca andaram. Elas sempre estiveram ali. Eu é que deveria estar andando, porque comprometo mais de 20% do meu orçamento com petróleo, que me promete esse movimento, mas que não cumpre.

Não cumpre, como qualquer outro desses serviços. Como qualquer coisa dessas. Como esse modelo inteiro, de cabo a rabo, começando pelos meus hábitos.

E é por eles que eu posso começar.

Não conheço essas 85 pessoas. Não saberia diferenciá-los de você ou de mim, porque para mim, somos todos iguais. O problema é tanto poder nas mãos de gente tão louca.

E quando você encontra um louco, é melhor deixá-lo falando sozinho.

Vamos deixar essa gente falando sozinhos?

Você consegue?

Mude os seus hábitos e se libere dessa merda toda!

 

Querido Abílio

Nós somos pais de crianças que estudam numa escola Waldorf em Embu e estamos tentando que a prefeitura faça valer o imposto que os cidadãos pagam para a melhoria das condições das vias de circulação pública da cidade. Infelizmente, a rua onde a escola se situa é habitada por apenas dez famílias e o secretário de obras da cidade de Embu nos disse que isso torna inviável a sua pavimentação. Por outro lado, ele nos fez a gentileza de apresentar um orçamento estimado de R$ 100 mil para asfaltar 200m de rua. Sugeriu que poderíamos nos cotizar e dividir esse valor em até três vezes sem juros.

De nossa parte pensamos em propor à prefeitura a isenção eterna de IPTU, ou até que os R$ 100 mil sejam totalmente amortizados, nesse caso, sem juros. E a prefeitura mesmo faria o asfaltamento completo da pequena rua, bem como o sistema de escoamento de águas pluviais.

Felizmente para nós, somos seus vizinhos.

No dia de ontem eu descobri esse fator até então desconhecido. Alguns pais  trouxeram a informação de que foi você o comprador daquele haras que havia na estrada do Capuava. Sabe qual é? Aquele que tinha uma mata de eucaliptos que foi toda cortada essa semana, ali perto do templo Budista e da sede dos Arautos do Evangelho. Lembrou? Pois é. Eles comentaram que você tem a intenção de construir ali um frigorífico, para dar escoamento a toda carne que entra na nossa querida metrópole. Houve também a sugestão de que você iria construir uma estrada com quatro pistas até a Régis Bittencourt passando justamente pela região onde fica nossa pequena rua de dez moradores e a escola de nossos filhos.

Eu achei excelente!

Foi apontada a idéia de que poderíamos ver contigo se a nossa rua não poderia fazer parte do seu plano de ampliação das condições viárias da cidade de Embu, uma vez que a rua tem apenas uns 400 metros de extensão (a sim, os valores fornecidos por nosso secretário de obras só serviam para cobrir metade da extensão da rua, numa parte crítica onde os buracos são tão profundos que uma pessoa que desce a rua dirigindo um Land Rover pode subir pilotando o equivalente a uma Brasilia).

Veja, usando a mesma lógica do IPTU, nós todos somos compradores das suas carnes de um jeito ou de outro. A partir de agora, todos nós estaremos levando a sua salsicha também. Então de alguma maneira, estamos colaborando com esse seu projeto de construir o frigorífico ali tão pertinho da escola e de sua parte, seria uma política de boa vizinhança na região. O que você acha?

Nós claro, nos comprometemos a suportar o aumento do tráfego na região e o estupro da mata de eucalipto, bem como o discreto cheiro de carniça, que agora irá nos acompanhar para todo o sempre.

Podemos contar com a sua colaboração?

Uma conversa

Escute, eu não tenho nada a dizer sobre essas pessoas. Eu não acompanho isso, não as conheço realmente. Aquilo que estão mostrando na sua televisão foi feito para que você e eu tenhamos uma conversa sobre aquelas pessoas, uma conversa que eu não tenho a menor intenção de estabelecer contigo.

Desculpe.

Sabe, é muito estranho para mim que todas essas pessoas à nossa volta estejam se ocupando daquelas pessoas na televisão. Daquele atleta ou do outro comediante. Ou do político e aquele criminoso, ou ainda da vilã malvada da novela. De todas essas fábulas, de todas essas histórias da carochinha. Essas opiniões solicitadas.

Então você e eu nos encontramos e você me aborda com a questão da atitude daquela pessoa na novela ou do criminoso que foi mostrado no telejornal. Eu deveria dizer alguma coisa como, nossa, que barbaridade, ou sei lá eu o quê. Mas eu não tenho nada a dizer sobre eles, assim como não tenho nada a dizer sobre papai noel ou outro amiguinho imaginário.

E te pergunto como anda a vida e você diz que está trabalhando muito e que não tem tempo de nada. Ou que o emprego é uma merda e que você só não muda porque não conseguiu coisa melhor. Ou que o filho está com um problema x. Vai arrematar com algo do tipo, fazer o quê, é a vida… Ou graças a deus, isso ou aquilo. Pelo menos não é como fulano ou sicrano…

E você, em algum momento, vai usar sem perceber um roteiro de novela para explicar a sua importância, a minha ou a do seu filho. Em algum momento, você vai usar um jargão que nem sabe de onde veio, você vai atuar como um protagonista de novela das oito. Em algum momento você vai falar assim, vamos falar de coisa melhor. Chega de baixo astral.  E aí, vai sair da novela pro futebol, do futebol para uma piada, da piada para alguma reclamação sobre o parceiro.

Sempre contando basicamente as mesmas histórias, imprimindo o mesmo significado a elas, a mesma importância. Seguindo um programa, que muda de ritmo quando o tédio se instaura e a audiência do outro diminui.

Mas a vida, ela mesmo, ela não está aí.

Não tem vida nenhuma nessas histórias. Nenhuma ação transformadora, nada.

Você acorda amanhã e se encontra aprisionado nessa narrativa, com poucas variações de fluxo, repetindo uma ação cujo produto final é um tédio pior que a morte. E o tempo segue seu curso, até que o ridículo te alcança e você já não sabe mais o que fazer com ele.

O que você deixou aqui para as gerações futuras? Um monte de coisas começadas e não concluídas? Lixo, lixo e mais lixo? Milhares de historinhas sem sentido, enchendo as cabeças dos próximos a herdar a terra? Atrelado à importância que o outro dá ao seu “trabalho”, entre muitas aspas esse trabalho, porque deveria ser uma ação que gerasse algo, efetivo em direção à vida e não o adiamento da destruição que nós chamamos de fazer algo no mundo.

Privando-os de serem pessoas reais, pessoas com histórias reais, com ações feitas por elas, com gente que arca com a própria responsabilidade de ser vivo, único e estar aqui nesse momento junto com todos esses outros fazendo do mundo algo que respire humanidade?

Então, eu não tenho nada a dizer sobre essa farsa. Não.

Não me ocupo dela. Não digo a você que a televisão tem que melhorar, ou que acabaram-se os bons roteiros ou que o ser humano é algo terrível e que devemos ter sempre cuidado com ele.

Eu sou algo terrível porque me recuso a seguir esse roteirinho mamão com açúcar. Eu ajo segundo minhas próprias opiniões, segundo aquilo que eu acredito que deve ser feito.

Eu sou o terror de estado. O desempregado. O não funcional.

Eu me recuso a isso. Me rebelo e não me importo.

Eu estou aqui, agora e faço o mundo a minha maneira. Eu esbanjo isso. Eu ofereço isso a você e não temo o fato de que amanhã eu possa não ter mais disso. Eu tenho. Tive e sempre terei. Sempre darei um jeito de estar vivo. Agindo conforme meu coração, contando minha própria história através de todos esses atos.

Eu olho o hoje, o ontem e vejo essa linha reta implacável que foi se definindo como sendo a marca que deixo nessa Terra. Essa é minha única oferta e a razão de toda fartura. Pegue isso se te serve e se não te serve, me deixe em paz. Siga seu rumo. Encontre sua linha, sua direção. Conte a sua própria história. Se ocupe das suas coisas e resolva-as. Pare de fugir nas histórias dos outros.

Então, só então, quando você estiver realmente vivo nessa terra, agindo dessa maneira, só então nós teremos uma conversa que realmente nos importará.

E nessa hora, não diremos nada. Porque não será necessário.

 

Gargalhada

Não vou conseguir. Não vou.

Os outros não estão vendo como isso é ridículo.

Eu olho para eles e então acho ridículo o fato de eles não saberem que essa situação é ridícula.

Acho essa minha percepção ridícula também.

Então os olhos começam a lacrimejar e eu sinto esse gosto amargo.

Eu preciso falar.

Não.

Não preciso.

Eu só não consigo não falar. É um maldito vício.

A piada, a maldita piada se formou em algum lugar e é perfeita. Eu preciso fazer.

Meu deus! Meu deus!

Eu estou falando isso? Eu disse mesmo isso?

Olhe a cara deles quando eu digo isso.

De onde veio isso? Eu não consigo parar isso, alguém me ajude a parar.

Eles riem.

Eles ainda riem.

Isso tudo é ridículo, meus amigos. Isso tudo!

E eles riem me incentivam a falar mais. Eu não quero mais. Não quero.

Então brota o ódio. Eu odeio todos vocês e essa situação ridícula.

E falo isso, mas todos riem de mim.

E permanecem imersos no ridículo dessa gargalhada que nos levará a morte.

Ação

Considerando a Vida primeiramente como um problema subjetivo. A Vida, sendo um significado para o homem. Então as ações desse homem passam a ser as suas soluções imediatas ao desafio chamado Vida. Algo passa a esse homem e ele então responde a esse estímulo.

De volta à mente. A um certo modo de a mente operar buscando no mundo a completude. Buscando realizar algo no mundo que decifre algo que está num outro modo da mente operar, que é o da interioridade. Buscando obter algo do mundo que traga a sensação de plenitude e nunca encontrando este objeto que permaneça pleno. Porque a mente externa reduz tudo ao tédio, ao mesmo, ao passado, à repetição, à memória.

As ações desse homem passam a ser seu método para resolver a Vida como um problema externo a ele. O homem olha para a Vida e espera obter algo dela e nesse momento, este homem se torna a Morte. Ele busca a vida como um recurso externo a ele, algo que preencha o vazio que é a antítese da plenitude. O homem operando na mente externa é esse vazio. Um vazio buscando algo que o complete. E ele não pode obter nenhuma satisfação usando esse método, porque a mente externa, quando obtiver a plenitude, vai desmembrá-la em pedaços e lançá-la aos quatro ventos, agrupando-a em pequenos conjuntos de insatisfações, até que a plenitude fique reduzida ao tédio. O homem, neste estado, matará a plenitude. Então esse homem perderá o agora e o amanhã. E repetirá o passado até o fim de seus dias, sempre refazendo a mesma ação em busca de um significado para a Vida que o preencha.

O método desse homem passa a ser seu condicionamento. A repetição eterna de uma mesma ação subjetiva, buscando sempre no mundo externo algo que conclua a ação. Um método através do qual ele extraia da vida a plenitude e a degrade em vazio. Esse homem é o diabo e a Vida ao redor dele é o seu próprio inferno.

Há um certo ponto em que alguns homens sentem uma espécie de fadiga do próprio tédio. Esse homem passa a se debater no inferno. Um dia ele acorda e percebe que está vivendo no ontem, que aquele homem diante dele é um homem novo, mas ele olha para ele como se fosse alguém de outra época. Ele se percebe doente e então adoece. Ele encontra a Vida e mais uma vez se empanturra dela, sem obter satisfação. A Vida é insossa. Escassa. Sem graça.

Ele percebe que já tem tudo e deveria ser feliz por isso, mas não consegue. Percebe que não é a presença do dinheiro ou a falta dele. Percebe que não é nada fora dele é algo com ele. Finalmente ele percebe esse vazio e com isso, percebe que tem uma interioridade. E usando a mesma mente externa, esse homem olha para dentro e não vê nada. Ou degrada o que vê, reduz a si mesmo ao vazio. Ele se deprime. Ele se entristece. Ele delega sua possibilidade de agir a outra pessoa. Ele busca mais uma vez uma saída externa. E isso é tudo o que ele pode fazer nesse momento.

E mais uma vez, fora dele, a mesma mente vai degradar o remédio, o método de outro, o livro sagrado, o procedimento, o guru, a Vida em si. Esse homem tem a chance de sair disso, mas novamente ele se torna a morte. Ele ainda acha que Vida é essa busca permanente pelo externo na tentativa vã de escapar da morte, mas a morte é ele mesmo. Ele um dia se cansa disso, ele percebe que o estado em que se encontra é pior do que a morte. Ele então decide morrer. De um jeito ou de outro, esse homem está disposto a romper com os demais. Ele quer sair do inferno. A qualquer custo. E ele não confia em mais ninguém.

Ele é falso para si mesmo e reconhece no outro a mesma farsa. Ele reconhece o inferno.

Ele agora é uma semente de algo.

Quando esse homem encontra o terreno propício, o ambiente adequado, ele se percebe Vida, porque algo dentro dele brota. Ele não sabe o que é. Não está buscando resultado algum nisso. Sabe que não pode buscar. De algum modo, ele sabe que isso é o que ele é de fato, esse algo sem par. Esse átomo.

E ele volta à mesma ação de antes, fatalmente voltará.

Mas não é mais a morte.

Ele é essa semente. E então extrai a Vida de si naquela situação. E a revitaliza. Ele ressuscita os mortos, dá vida ao passado e o atualiza. Ele se reconcilia e o método é refeito.

A ação desse homem é extrair de si aquilo que expressa a Vida em qualquer situação.

Esse é o seu propósito.

 

A memória como toxina

Engraçado que nós aprendemos a valorizar a memória através da educação. Aprendemos a decorar as respostas corretas e somos premiados proporcionalmente. Acertar é repetir o memorizado. Errar é não se lembrar do certo. Então a memória fica super estimada como ferramenta para o nosso discernimento.

Isso vai derivando para muitas coisas que acabam perpetuando o status quo. Daí deriva a falsa premissa de quanto mais experiência (memória) maior a capacidade de dar respostas. Então o antigo é sempre mais certo do que o novo. E vamos ficando com medo das mudanças.

Mas eu não observo que isso é sempre assim.

Porque sucede que alguns idosos nos pareçam obtusos demais e a outros nos parecem sábios? Porque algumas crianças nos parecem superficiais e outras são tão profundas? Acho que isso tem algo a ver com a capacidade de refinar a memória, de torná-la efetivamente útil.

Como todo medicamento, é preciso ter cuidado com a dosagem de memória que vamos usar para avaliar uma situação nova. Se a memória está gerando paralisia, medo, insegurança, obstrução da visão, talvez a dosagem esteja excessiva. É muito difícil se livrar de uma memória tão potente assim. Você não pode negá-la, escondê-la. Os sentimentos que esse tipo de memória provocam são intensos, genuínos. A pressão que exercem é enorme.

Então não se pode usar o recurso da negação para lidar com esse excesso. A memória está ali, íntegra, excessiva, perigosa. Como lidar com ela? Negando-a, seremos violentos com ela. E ela vai revidar isso depois, se tornando mais intensa, porque será a memória do primeiro fato e mais a memória da violência contra a lembrança desse primeiro fato. Então memória gerada em cima de memória. Veneno de feito de veneno.

Estamos no presente, diante de uma situação inteiramente nova e a memória se sobrepõe, distorcendo a nossa maneira de ver as coisas. Como resolver esse impasse? Olhar para a memória como algo que surge agora, entre eu e o fato inédito que se apresenta. Porque estou olhando para essa situação como se fosse aquela? Essa situação presente e inesperada e aquela que já me ocorreu e que me gerou dor, sofrimento ou contradição… Porque aquela situação não foi resolvida de forma satisfatória no momento em que se apresentou, eu estou aqui hoje, carregando-a como um peso. Naquele momento eu não dispunha de ferramentas apropriadas para lidar com aquilo, mas talvez hoje, olhando para essa memória que se interpõe entre o que eu sou agora e esse fato inteiramente novo, talvez agora eu possa fazer algo.

Olho para essa situação atual e somente vejo a memória de um fato que me foi desagradável. Olho e sei que não estou vendo a situação atual ainda, estou vendo o que me passou antes. Como posso agir agora, de maneira que aquilo que me passou antes não me suceda novamente? E agora não é o que foi antes, e então me encontro preso à memória, agindo cegamente em relação ao agora. O que é essa situação nova que não a minha memória? O que realmente é essa coisa e o que é a memória? Posso fazer alguma distinção entre essas duas coisas?

Esse questionamento vai retirando da memória toda a certeza. A memória vai ficando só, na sua inteireza. O fato se atualiza, como algo que foi resolvido daquela maneira por aquelas pessoas naquele momento com base nos dados de que elas dispunham à respeito da situação. O próprio questionamento sobre a “veracidade” da minha perspectiva frente aos fatos contaminada pela memória já presente na situação ocorrida vai eliminando da memória todo teor de verdade que ela possa ter.

Então fico com um fato, que ocorreu de uma maneira tal e que foi interpretado por mim naquela ocasião, sob o efeito das minhas memórias na época. E então me senti vítima daquelas circunstâncias e jurei para mim mesmo que tal situação não deveria acontecer novamente. E então vejo que a mesma situação aconteceu ainda mil outras vezes. Não de fato, mas por efeito dessa memória presente, vivi diversas outras situações sempre significando aquele mesmo fato mal resolvido. E em cada uma dessas vezes busquei uma saída dessa repetição e nenhuma dessas saídas foi satisfatória.

Nenhuma ação externa irá resolver a toxicidade da memória. Nenhuma.

Somente essa operação sobre o significado da memória, sobre a sua subjetividade, sobre as ações externas que tendem a validar a memória e sua supremacia sobre a nossa capacidade de decidir.

Olhar para a memória e extrair dela toda a certeza, até que a dúvida do agora fique cristalina e então, se pode decidir em liberdade, tomando para si toda responsabilidade pelas consequências dessa ação.

 

Take it back

Mãe, eu fiquei dependente de você. Me senti um incapaz e então eu fui deixando que você fizesse todas as coisas por mim, por puro conforto. Então eu me tornei essa coisa excessivamente pesada, preguiçosa e insegura. Hoje eu percebo que você é quem fez com que eu me sentisse um incapaz para que eu me sentisse dependente de você. Mãe, teu nome é corporação.

Pai, eu fiquei dependente de você. Por preguiça e eu deixei de buscar meu próprio sustento e então eu me tornei esse covarde, escondido embaixo das saias de minha mãe. Me senti um incapaz de lidar com o mundo e com os meus irmãos e necessitava de sua constante mediação nas nossas relações. Hoje eu percebo que foi a sua omissão quem me deixou neste estado. Pai, teu nome é governo.

Irmãos, eu fiquei dependente de vocês. Não suportava a vossa presença e fiz da minha vida o esforço de ficar só. Queria tudo para mim, queria que vocês fossem meus escravos, que me atendessem as vontades. Queria anulá-los para que eu brilhasse mais. Eu me sentia um incapaz, um covarde. Hoje eu percebo que vocês também se sentiam da mesma maneira e por isso todos nós estávamos presos nessa condição. Irmão, teu nome é religião.

Hoje eu decreto a minha liberdade.

Ainda pesado demais, preguiçoso, inseguro, covarde, egoísta, selvagem e incapaz eu me liberto da necessidade da presença dessa família na minha vida. Vou construir minha própria família. Serei minha mãe, meu pai e meus irmãos. E os serei à minha própria maneira. Serei a teta, o dinheiro e a companhia de mim mesmo.

Serei minha esposa e meus filhos.

Serei meu próprio chefe, meu próprio governo, meu próprio deus.

Propósito

Não como uma função ou um trabalho na linha de montagem da vida.

Um talento, talvez. Um dom, não como uma distinção que o coloque acima dos demais.

Um dever, não como algo imposto de fora, mas como algo que precisa se expressar de qualquer modo.

Então, essa ação interna é algo que se dirige a outros, mas não segundo os termos do outro. É algo que se feito, gera ao redor a fartura.

Fartura não como excesso de reservas, mas como fluxo. Como um rio, que sempre flui e está sempre disponível para ser gozado. Então é preciso ter a disposição e a ciência de gozar o rio, que não significa retê-lo na memória, atê-lo ao passado. Gozar no agora, no presente. Aceitar a possibilidade da mudança, o fluxo. Não matar o futuro, reduzindo-o a uma repetição do passado.

Acima de tudo, manter-se livre do outro. Do externo, da recompensa externa. Do resultado. Da estagnação.

Então como isso tudo é feito?

Como é a prática disso?

De mil maneiras se chega a isso, como algo interno. Mas nenhum método externo vai trazer qualquer resultado. Não é um efeito, um estado, um produto, um objeto a ser adquirido. Não é outra identidade.

É um jogo estranho esse…

Porque me sento aqui e escrevo sobre isso, na esperança de que você, ao ler, esteja instigado? Porque isso para mim, vem no lugar da fartura. É um oferta. Não espero nada de você. Não posso esperar.

Então você vem até mim e espera respostas e estamos os dois condenados.

Você me segue, porque espera que eu me responsabilize pelo que você deveria fazer. Você espera que eu diga o que você precisa fazer. Me autoriza a isso. Em mim, você vê algo que seria capaz de tomar a sua ação nas mãos e realizá-la. Você se isenta da responsabilidade e colhe os frutos daquilo que foi feito. Isso é o que você espera, quando decide me seguir.

E eu, me seduzo com isso, porque você, ao me seguir, parece estar validando a minha busca. Sem você, eu estaria reduzido aos meus fracassos insistentes. À dúvida de cada experiência. À luta, para não transformar tudo em morte, em memória, em medo. Ao movimento permanente em busca de equilíbrio. Você me estabiliza, me diz que eu já cheguei no lugar, que não preciso mais continuar a busca. Isso é o que eu espero, quando aceito que você me siga.

Então me ocupo de você. E de outros mil. Quanto mais seguidores, mais validado estou no meu caminho. Passo a depender dessas opiniões. Onde eu estou? Diariamente estou em vocês. Eu agora me chamo Legião, porque sou muitos. Eu tenho a cara daquilo que agrada a todos, daquilo que mantém todos vocês na linha, na minha linha. Naquilo que eu entendo por método.

Mas eu mesmo já me perdi do método. Eu agora sou vocês. E o que somos?

Eu amaria vocês se vocês fizessem exatamente como eu digo? Eu olho para você seguindo o meu método e você é infeliz com ele. Você é dependente dele, não consegue trilhar seu rumo sem ele. Eu olho para você e vejo meu método inutilizado em você. Eu inutilizo meu método, então. Não. Isso não dá certo para vocês. Não dá certo para mim.

Então estamos perdidos.

Mas eu não consigo deixar você de lado, porquê agora não tenho mais nenhum método para seguir. Ao menos você acredita em mim. Isso vai passar. Tudo passa. Daqui a pouco eu vou saber direito o que precisa ser feito.

Mas não sei. Não tenho tempo de saber. Você me ocupa. Vocês todos me ocupam. Preciso de todos vocês para me certificar de que meu método vai dar certo. Eu estou perdido. Estamos todos perdidos, mas eu estou na frente. Guiando todos vocês rumo a esse abismo que se tornou a minha ausência de método. Aonde vamos chegar com isso? Eu não sei. Não sei mais.

Mas preciso continuar. Eu sou a mentira e por isso, não posso deixar que ninguém perceba minha real natureza. E quanto mais me afirmo nisso, mais dúvida eu sou.

Não! Não venha atrás de mim! Eu agora já te odeio! Você e eu nos culpamos pela infelicidade que disputamos. Eu quero ser mais infeliz que você, porque isso te tornaria mais culpado. E você tem a mesma pretensão a meu respeito. Eu agora fico exigente, intransigente. Eu crio demandas impossíveis. Eu preciso ver quem vai sobrar ao meu lado. Eu preciso ficar só.

Mesmo o último dos meus asseclas me será sempre um traidor. Ele traiu a si mesmo, como poderá não me trair?

Não. Não vou por esse caminho.

Não me siga. Não me obedeça. Não adote o meu método.

Permaneça livre, em você mesmo. Fazendo a experiência segundo a sua particular maneira.

É preciso que eu lide com você desta maneira.

Esse é o único modo de nos mantermos livres.

Eu estarei aqui.

Eu aceito você desta maneira.

Mas não serei seu escravo.

Rebelião

O que faz um homem ser um rei de outros? O que determina a riqueza, o valor, o poder de um homem sobre os demais? O que faz com que o critério de um se sobreponha a todos os outros e determine os limites do crescimento de outros? Um homem, sendo o aval dos demais.

Existe essa intuição que me acompanha faz algum tempo. Eu escutei muitas vezes que, num trabalho, os aspectos subjetivos devem ficar fora da equação. Ninguém tem nada a ver com seus problemas pessoais. O que vale é o acordo coletivo ou a eficácia da tarefa no tempo. Isso é uma herança do fordismo, da linha de montagem e do sistema de controle da energia vital que vem desse sistema inteiro. Mas o que eu vejo na prática é que, quanto mais os aspectos subjetivos dos indivíduos são negligenciados, mais o trabalho conjunto fracassa e mais doente se torna o grupo.

Então há esse homem, o rei. Ele coordena os esforços coletivos em uma direção determinada. Há um acordo aí. Ele diz o que deve ser feito e os outros o seguem. Mas o seguem apenas quando lhes convém. Esse homem vai necessitar de um aparato repressor enorme, na forma de leis, de outros homens que as façam ser cumpridas pela força ou pela lógica que se sobrepõe à dos demais. Entre o rei e sua lei, existem mil homens, cada um deles pretendendo ser o rei dos que estão abaixo dele. Cada um deles defendendo seus próprios interesses em nome do rei. O rei então passa a ser uma máscara.

O rei mesmo precisa honrar a máscara do rei. Essa máscara que se torna a somatória dos entendimentos individuais sobre o poder, sobre a autoridade, sobre a sabedoria. O rei precisa honrar um critério que se expande para além dele e que se torna o critério da época, o espírito do tempo. Então o rei se rebela. Ele mesmo se torna a rebelião e passa a agir conforme seu próprio juízo. Ele quer corromper o papel de rei, quer moldá-lo conforme aquilo que ele pretende que seja. O rei desonra a si mesmo e aos demais e avança cada vez mais esse limite, buscando ser quem realmente é, buscando a ruptura da máscara sem o abandono da função. E então os nobres também se rebelam. Eles passam a agir conforme os seus próprios interesses e exercem seu poder com força ainda maior. Eles oprimem seus servos, agora sem a máscara do rei. Eles apresentam a face dos seus caprichos, totalmente exposta.

O nobre, não sendo o portador da máscara do rei, é apenas um homem mau. Alguém que come, enquanto povo passa fome. Nessa lógica simples de barriga vazia, um homem que não é dono nem do próprio corpo, nem de sua força de vontade, ele decide que o nobre não significa nada para ele. Então busca a destruição da nobreza, e avança contra seu senhor, na intenção de encher a barriga e fugir. A revolução. A torre de Babel. Cada homem falando a língua de seu estômago, a língua de seus caprichos.

O que cria a nobreza, e o rei, e o escravo? Significados. Valores. Papéis. Personagens. Jogos.

Um homem é rei enquanto significa isso e deixa de sê-lo quando o significado se perde.

Então a rebelião é uma questão de significado.

Quando a palavra rei for esvaziada, quando o sentido de um homem estar acima dos demais for ausente, nessa hora, seremos livres.

Enquanto buscarmos em outro homem o aval para os nossos atos, enquanto formos incapazes de ser responsáveis pelos desdobramentos de nossas ações e enquanto pretendermos sujeitar outros homens aos nossos caprichos, enquanto isso, os reis povoarão a terra e a torre de Babel tenderá sempre a se repetir.

Projeto Manhattan, a lógica da especialização

Há um modelo de roteiro para filmes de hollywood que sempre garante alguma bilheteria. É aquele em que o sujeito comum se envolve em algum tipo de conspiração criminosa gigantesca porque sua família está sendo mantida como refém. Quase todos os atores-blockbuster já estiveram envolvidos em uma produção deste tipo e elas pipocam nas telas praticamente em todos os anos. Então o sujeito se mete em todo o tipo de encrencas e vai se tornando cada vez mais um inimigo público número um e no final, ele pega uma arma na mão e mata a bandidagem toda enquanto salva sua família. Ele precisa se tornar esse assassino, e tem justificativas para isso, uma vez que ele foi provocado por esses inimigos terríveis.

A gente recebe esse estímulo constantemente, porque essas produções são sempre repetidas em todos os canais de TV. É um tipo de roteiro chave, sempre reutilizado, sempre na média e sempre funciona do mesmo jeito. Não é genial, mas tem adesão imediata. É como o clássico “mataram meu parceiro e seqüestraram a minha garota”. E isso tudo é gerado para o seu entretenimento, quero dizer, vai ser visto naquela hora em que você só quer relaxar e ver o que está passando na TV. E você abre a sua latinha e se senta diante da tela bem relaxadinho, enquanto o assunto passa a fazer parte da sua programação mental.

No dia seguinte, você se envolve no seu trabalho. Justamente fazendo uma pequena parte de algo cujo todo você desconhece. Vamos dizer, você trabalha numa fábrica de chocolates fazendo pesquisas sobre a quantidade exata de aromatizante artificial de baunilha a ser colocada no chocolate para que as vendas aumentem. Ou traduzindo manuais em alemão para ajudar a linha de montagem da empresa aqui no Brasil. Não importa. Essa mesma empresa está envolvida em crimes ambientais, conseguindo licitações ilegais para a exploração de água mineral, por exemplo, usando um sistema de propinas e lobbies com setores do governo em diversas instâncias. Você até sabe que isso acontece, porque leu em alguma postagem da internet. Mas o seu trabalho não tem nada a ver com isso, você diz.

E segue em seu trabalho, se perguntando como é que alguém consegue fazer isso em sã consciência. Quero dizer, como é que o sujeito se corrompe assim só por causa de dinheiro. Mas não é só por causa de dinheiro. É porque a família dele está seqüestrada. E a sua também. É isso o que faz com que você diga que, apesar da empresa está fazendo aquela merda toda, seu trabalho não tem nada a ver com isso, embora você também colabore com a eficácia do grupo em destruir o meio ambiente. Se você parar com isso, como vai sobreviver? E a sua família?

E você vai sendo promovido. Quanto mais insensível for se tornando aos danos colaterais, mais chances você tem de ter um salário maior e maiores responsabilidades dentro da empresa. Você está se tornando um assassino, mas não está percebendo isso porque o seu padrão de vida melhorou muito. Agora você pode colocar seu filho nas aulas de inglês e levar o menino para tomar ritalina em algum médico muito bom. Você bebe mais caro, come mais caro. Comprou um carro mais caro. As coisas só estão desagradáveis porque você, apesar de ser tão eficiente, ainda é forçado a conviver com os outros, os medianos, nas avenidas congestionadas da cidade.

E é claro, as coisas fora da empresa não estão boas porque o governo é ineficiente, corrupto. De direita ou esquerda. Do partido azul ou do partido vermelho. Porque o presidente é analfabeto ou sociólogo. Qualquer coisa simplista e estúpida. E amanhã, você vai bater cartão na máquina de moer gente.

Veja, para assegurar as suas necessidades básicas, por exemplo, sua casa. Um cidadão médio pode levar até 30 anos em financiamento para pagar a sua casa. Considerando que o sujeito se aposenta por tempo de serviço no mesmo tempo. Imagine: um homem começa a sua carreira e resolve tomar um financiamento. O banco não vai lhe fornecer crédito suficiente para que ele compre a casa que vai necessitar nos próximos trinta anos. Ele vai ter que trabalhar ainda uns dez anos para poder atingir a renda que vai possibilitar a ele conseguir do banco um empréstimo. Como os juros são altíssimos, o sujeito vai se esforçar muito para acabar de pagar a casa em pouco tempo. Mas a vida vai passando e as contas aumentam. Os filhos, a escola dos filhos, a alimentação de mais pessoas, a saúde de todos… Ele vai ficando cada vez mais assombrado com o dia de amanhã.

E se ele sair do emprego agora? É melhor fazer um seguro de vida porque senão, se acontecer algo com ele, a família vai passar necessidades. Esse homem é um escravo. Ele é o homem do filme americano e a sua família está seqüestrada pela ameaça de uma vida terrível. Esse sujeito está pronto para matar o outro.

Nós estamos aprendendo isso a muito tempo. Entendemos que vida é essa coisa, dessa maneira, mas estamos sentindo essa coisa estranha dentro de nós. Olhamos o mundo desabando, as coisas se degenerando mais e mais, o homem se perdendo e nos perguntamos o que podemos fazer. Nos metemos em alguma caridade nas horas livres cada vez menores, tentamos ajudar aqueles que nos parecem vítimas da sociedade, tentamos aplacar uma culpa que não sabemos de onde vem. Achamos que é a culpa por termos dinheiro enquanto os outros não têm. Achamos que é a culpa por termos esse tipo de emprego enquanto o outro fica catando latinhas na rua. Damos roupas velhas aos que passam frio, comida a quem nos pede dinheiro. E a culpa não some nunca.

Descobrimos que há homens e mulheres que vivem dessa culpa manifesta e que nos exploram por ela. Então passamos a ter ódio da culpa e de quem explora o outro por esse ponto fraco. E pouco a pouco, nem culpa sentimos. Nem ódio. Nada. Somente a indiferença e uma certa tristeza não se sabe bem pelo quê. Vamos ao médico e ele nos diz que estamos deprimidos e tomamos drogas para não sentirmos mais nada. Nem culpa, nem tristeza, nem alegria. Nada. Um cinza em nosso sentir.

E isso nos faz eficientes na matança.

E se abandonamos o barco, somos substituídos por outro. Mais novo, mais insensível, mais estúpido, com um salário menor. Mais necessitado ainda do que nós. Mais capaz de matar.

Veja é ainda onde está o valor. Se um homem não está ocupado de matar outro, como vai ganhar seu sustento? Existem esses homens que não estão ocupados com a matança. Homens e mulheres que fazem da sua vida um testemunho de que o ser humano é algo maior do que esse que mata o outro para sobreviver. Homens e mulheres ocupados do melhor do ser humano, da capacidade humana de superar qualquer condicionamento, de criar, de transformar as condições do meio, de se superar. E a pergunta que o homem envolvido na sobrevivência faz é: como podem ganhar a vida se não estão envolvidos com a matança? Que valor pode ter um trabalho que não seja o assassinato?

É o medo do assassino. Um medo aprendido. Um medo que o impede de desistir da matança de agora e de amanhã. O medo de não sobreviver. De não conseguir. O medo de que sua família seja feita em pedaços por um mundo cruel que só existe porque ele colabora com sua inteligência e sua força de trabalho para que exista e se perpetue.

O assassino precisa superar o medo, porque enquanto não descobrir como sobreviver sem aniquilar o próximo, terá sua sobrevivência ameaçada.

“Tu és o assassino que procuras” – (Sófocles, Édipo Rei)