O soldado corporativo é o inimigo da democracia

Surtou com a headline.

Isso porque ele fez todo o processo educacional para chegar a esse ponto, de trabalhar nesse grande empresa.

Aprendeu uma série de processos e de maneiras de coordenar ações; recebe uma série de bônus, quando desempenha sua missão de forma exemplar; goza de uma série de benefícios. Um terço do seu dia é dedicado a agir dessa maneira solicitada pela corporação. Entre um sexto e um décimo do seu dia ele gasta no trajeto. Com sorte, dorme outro terço de dia e goza o que sobra. Gozar o que sobra é comprar algo.

Na empresa ele é apenas uma pequena engrenagem de um grande sistema. É preciso realizar as etapas todas do processo no momento adequado, visando sempre o objetivo maior da empresa, que hoje é o de gerar lucro para seus acionistas.

Gerar lucro é moleza: criar valor e diminuir custos.

Você cria valor basicamente usando marketing, que é um jeito de temperar a carniça. Você baixa custos basicamente criando maneiras engenhosas de pagar menos por qualquer etapa do processo (acelerando-o, terceirizando mão de obra para reduzir o valor, usando matéria prima mais barata). Em resumo, o produto é essa coisa mal feita, que vai quebrar logo, que não atende o cliente, mas que você diz que atende. E bem.

As empresas vão ficando apenas com essas pessoas que desempenham funções que estão distantes desse lugar onde o custo precisa baixar.Gerentes, vendedores, técnicos operacionais, engenheiros….

O homem que faz o produto, aquele que realmente lida com a produção, ele trabalha o mais longe possível e de maneira mais barata. De preferência, num outro país, num continente longínquo.

Fora da empresa, naquelas horas que sobram pra ele: ele vê o país através dos meios de comunicação; ele paga suas contas, cada vez mais caras por serviços cada vez piores; ele não tem tempo para participar de política, política é aquela canalhice que aparece no jornal da noite; ele não tem tempo nem gosto de participar de uma reunião, porque as pessoas “falam falam e ninguém decide nada” e ele não vê que ficou acostumado a ter chefe, a receber ordem e que ele mesmo fala fala e não decide, porque tem medo de decidir; e porque está cansado também, porque passa horas e horas no trânsito ouvindo rádio de seguradora; quando ele caga, ele lê aquelas revistas que são empresas como a dele, dizendo as mesmas coisas que ele ouve dentro da empresa; ele não vê que a empresa cercou ele, que quando ele dorme, sonha que foi promovido, que está de férias. Na empresa sempre, mesmo no sonho.

Na TV os ladrões são esses homens que roubam os bancos, que levam as pessoas embora ou que recebem propina. Os ladrões pobres morrem em loop. Mas os ladrões ricos se candidatam a novos cargos. Os ladrões ricos dão lucro a alguém. Como ele. Ele não se sente ladrão, mas vocifera contra o trombadinha e não consegue ver o político sem uma certa dose de admiração. O político é, afinal de contas, um homem bem sucedido. É rico. Tem coisas.

Fatalmente chega o dia do desemprego. O nome: desemprego. Querendo dizer que você não serve para nada. Que você não funciona mais e por isso não merece ser funcionário. Uma coisa velha, sendo descartada com uma indenização e o fundo de garantia (cada vez mais ameaçado, porque uma empresa está de olho na lucratividade da previdência e um grupo de funcionários dessa empresa estuda maneiras de tomá-la de uma vez das mãos do governo). Ele entra com o pedido de seguro desemprego e volta para o mercado de trabalho.

Ele espera uma “recolocação”, porque agora faz parte do estoque de mão de obra desempregada. Ele vale menos agora. Porque a reserva está acabando e ninguém quer pagar o que ele ganhava. Ele precisa desesperadamente entrar no mercado, porque fora do mercado, fora da empresa, ele vê o país que ele construiu não com sua omissão, como ele costuma pensar vez ou outra. Ele vê o país que ele construiu ajudando a empresa a roubar o cidadão.

Mas ele volta aos políticos, aos juízes corruptos e ao fato de esse país ser o Brasil.

“O problema é a gente.”

A gente que ele sangra, quando trabalha e sangra.

A gente que ele é, mas esquece.

Que ele é, mas parece que era na Indonésia, China, Índia, África, Haiti, Bolívia, Taiwan, Bom Retiro… O mesmo, ele.

 

Um novo Nuremberg

Não há inocência ao se trabalhar numa organização que comete crimes contra a humanidade. O trabalho parece purificar qualquer crime e ganhar dinheiro parece eliminar o cheiro da morte. Mas a verdade é que você acorda e põe seu sangue, sua mente e seu corpo na máquina que mata milhões. Depois lamenta a ineficácia do Estado e do Governo, mas você mesmo já abriu mão da sociedade quando se tornou um soldado corporativo.

Você não tem mais horas para se dedicar à sociedade, para ser um cidadão. Você quer apenas votar, num dia de sol, escolher o mal menor e assistir a TV, cansado de ter dado o sangue para a Empresa, em troca da possibilidade de comprar mais cacarecos e de pagar mais contas. O Governo é esse amontoado de funcionários corruptos, numa Empresa ineficiente. Aliás, todo agrupamento humano que não é a Empresa é ineficiente, amador, corrupto.

Aquele Governo do lado de fora da Empresa não se relaciona com você. Ele parece impedi-lo de se desenvolver. Ele tarifa você e você pensa que é injusto, porque aquele Governo não trabalha para você, como a Empresa diz que faz. O Governo não te oferece benefícios. Não te bajula e ainda te tarifa para pagar os pobres, os velhos, os inválidos, os desempregados, os políticos, os juízes e os policiais.

Então o Estado se desmantela numa bandalheira. Os políticos, comprados também pelas Empresas, também eles soldados corporativos, eles fazem o que podem para implementar o novo regime. Atacam por todas as frentes, atropelam os direitos civis. O que são direitos civis, quando não há Estado? Quando não existe ninguém mediando, a não ser o lucro? Os improdutivos, os fracos, os não lucrativos, esses todos… Quem governa para eles? Ninguém.

Enxugam os custos dos nossos direitos e transformam direito em produto, com faixas de preços e níveis de atendimento. E só descobrimos a lástima de serviço prestado quando precisamos dele.

Mas você também envelhece, se deprime, perde o rumo da vida, fica em dívida. Finalmente deixa de ter utilidade para a Empresa e se vê pendurado no Estado. O terror é enorme, porque agora você é o pobre que  o Estado sustenta. Você se recusa a pedir o benefício e se contenta com as indenizações até ser recolocado. Mas seu preço baixa mais e mais. Agora tem um moleque mais novo que você e ainda mais implacável. Ele se vende por um preço ainda menor e é mais eficiente do que você. Você aceita trabalhar por menos, ou não. Mas não dura mais.

Te sobra ser um Empreendedor. Ninguém vai te contratar pelo preço que você vale. Então você abre uma pequena empresa para prestar serviço para as Empresas. Você não percebe, mas agora você é ainda menos que o funcionário, porque paga ainda mais para o governo, com mais responsabilidades. Fatalmente, em nome do lucro e do crescimento, você vai treinar mais moleques, pagando ainda menos, e com isso você vai preparando mais soldados para essa máquina. Gente que trabalha o mês inteiro para comprar o melhor celular que for possível, mesmo que fique em dívida eterna.

Esses serão os homens que matarão o mundo.

Ainda mais rápidos e ferozes do que você.

 

 

 

Dinheiro e Tabefe

Oi. Eu quero te ver pessoalmente.

Não dá para falar o que é preciso falar por aqui. Não é seguro pra nenhum de nós.

Eu sei que você está achando que está sozinho, que os outros estão loucos ou burros, que ninguém vai fazer nada, que não vai adiantar chorar, espernear, protestar, nada…

Eu sei que você está vendo esses senhores sinistros, recebendo seus cargos com a clara intenção de nos manter em silêncio, de retroceder os nossos direitos e de leiloar nossos bens. O Sinistrério é um balcão de negócios escusos. Os donos do golpe não vão aparecer nunca. Nunca.

Sei que parece que não há justiça, com um supremo agindo dessa maneira. Sei que parece que não existem os três poderes e sua independência. Sei que a mídia constrói a narrativa em termos de esperança, paz e vamos mudar de assunto…

Não brigue na sua timeline. Não.

Não se obrigue a corrigir seu parente. Não.

Não escreva em caixa alta.

Não faça piada.

Não ventile memes.

Saia da tela.

Largue o mouse, o celular, o tablet e o i-treco qualquer.

Vamos nos ver?

Nós precisamos construir outra coisa. Mas é preciso que a gente se encontre e converse. Nós precisamos reunir gente como a gente.

Temos que refazer um acordo. Temos que refazer uma nação.

Direitos

Hoje eu contei pra um amigo que muitos figuras do SEBRAE eram ligados ao PSDB. E que esse lance do M.E.I. (micro empreendedor individual) era um jeito de a gente ir aceitando a perda dos direitos trabalhistas. Comentei com ele que a “pejotização” do trabalho era uma das linhas de estratégia para essa agenda. E falei que a M.E.I., como alternativa “simples” era na verdade uma outra linha de estratégia dessa mesma agenda.

Eu fui caçando esses links porque tem um diretor do SEBRAE que saiu candidato pelo PSDB nas últimas eleições. Esse mesmo cara foi assessor do Geraldinho, na época em que eu estava na faculdade. Eu pensei isso sozinho, tá. Porque eu conheço o sujeito em questão, que era namorado de uma amiga minha (que eu adoro) e eu me lembrei dessa divergência. Só hoje é que eu achei essa notícia aqui: http://jornalggn.com.br/noticia/aparelhamento-politico-no-sebrae-sp-gera-demissoes

Daí que o SEBRAE tem palestra com o Skaf, da FIESP, que é membro do seu conselho deliberativo. E é também quem paga o pato.

O lance do M.E.I. é que parece um enorme benefício para quem está na informalidade (isso é, quem trabalha sem carteira assinada, sem contrato, sem benefício, etc…). A gente agora tem que ser empreendedor e é super bem assessorado pelo SEBRAE nesse processo. O negócio é que essa assessoria é uma baita vaselina para o sujeito que já está com os seus direitos trabalhistas reduzidos pela “pejotização” do trabalho aguentar a tora dessa agenda nefasta do neoliberalismo.

Então ninguém tá vendo que é a mesma coisa. Os políticos lá no congresso ou na assembléia (a legislativa e a de Deus) são só cortina de fumaça. Os operadores reais são as associações de empresários do nosso país, de empresários estrangeiros e os banqueiros. Então essa operação toda, que você fica achando que é coisa de Brasil corrupto é na verdade uma coisa toda orquestrada pelo pessoal que comanda onde é que o dinheiro vai estar. As corporações e seus funcionários.

São sempre os mesmos, entende?

Daí meu amigo “ficou de cara”, como ele mesmo disse…

Eu tô pensando que é engraçado esse negócio todo. Porque os empresários, mesmo os pequenos, reclamam que os encargos para o governo são enormes. E que a “máquina governamental” é ineficiente e corrupta. Que muito dinheiro desaparece…

Então a gente fala de reforma tributária. E ela não anda.

A gente fala de reforma política. E ela não anda.

E os políticos que deveriam ter essas coisas na pauta são financiados pelo setor que deseja ardentemente que o Estado seja ineficiente.

E eu me dou conta de que se o Estado for ineficiente, alguém vai ganhar com esses serviços que ele deveria prestar.

A democracia corre perigo aqui em casa. A gente sem emprego, tentando empreender nossas idéias, o país nesse estado. Sabe quem é que ganha com a minha mulher chorando? O banco.

Ele vai dar um empréstimo para a gente esperar a crise passar.

A crise que ele mesmo gerou.

E o governo, que deveria estar nos defendendo? Cadê ele?

Nunca houve. Não esse. Nem nenhum, já faz algum tempo.

O governo é essa coisa corroída por interesses corporativos.

Esse zumbi.

Então eu estou pensando que o governo não pode ser essa coisa gerida por políticos. Tem que ser algo gerido pelos miseráveis. Por mim. Pela Claudia, que chora. Pelos meus filhos e amigos. O parceiros da minha timeline real. Aqueles com quem eu tomo café, cerveja e discordo. Mas que lavam a louça antes de ir pra casa.

Eu não me importei com o fato desse rapaz que namorava a minha amiga na época pensar diferente de mim. Nós fomos criados em situações muito diferentes. E eu acho mesmo que ele é bastante eficiente naquilo que decidiu fazer. E ele encontra apoio de outras pessoas que também acreditam nisso.

Isso eu admiro neles. Eles encontram apoio uns nos outros, enquanto a gente desmorona, fracassa e se endivida. Porque a gente se envergonha disso e abaixa a cabeça. E fica sozinho no escuro. Esperando a crise passar.

Eu não quero mais isso.

Quero tomar café com você, na crise mesmo. Quero te ajudar, com aquilo que eu puder. Eu estou aqui. Estou com você.

Quero atravessar isso e superar.

Eu não confio nesses senhores.

Não confio nem um pouco.

 

Humanum est

Eu fui crescendo e as coisas prontas do mundo foram aumentando.

Eu digo as coisas prontas, porque quando eu era menino, eu ia criando coisas com pedaços de coisas e fazendo isso, eu aprontava um mundo que se acabava em brincadeira.

No começo de quando eu fiquei grande, eu ainda era esse menino aprontador.
Eu pensei que trabalhar era isso e brincava no serviço, criando coisas que o cliente não aprovava. Num é certo.

Daí peguei o jeito daquilo que funciona pra todo mundo e quando eu vi, já estava fazendo coisas que estavam prontas antes mesmo de eu começar a fazê-las.

Daí a invenção foi se apagando e o mundo ficou cheio dessas coisas prontas.
E por mais que eu trabalhasse, não tinha nada pra fazer.
Já tava tudo feito.

Um dia eu acordei com dor no peito de ir pro trabalho.
Queria ficar na cama, achei aquilo tudo errado.
Tinha boleto, conta no vermelho, prestação e prazo.
Se eu levantasse aquele dia, era só pra ganhar dinheiro que eu acordaria.
Não quis acordar.
Não teve acordo.
Fiquei doente e era remédio que me deram.
Remédio pra eu ficar bom.
Pra amansar o peito.
Pra continuar acertando, fazendo o pronto.
Batendo ponto.

Daí não teve jeito de eu acertar o rumo.
E eu tive que sair.
Fiquei sem serviço.
Sem nada pra fazer.
Sem função nenhuma.
Sem emprego.

No começo eu nem achei falta.
Mas a vida tava toda tão penhorada nas contas, que uma hora eu me desmantelei.
A luz sumiu, cortaram a água, a saúde ficou sem plano e eu tive que devolver a casa.
Sobrou só as ferramentas.

Daí eu voltei pra trás, atrás do menino.
Fui caçar o rumo do acerto.
Fui brincar, zanzando pra lá e pra cá.

Eu queria experimentar coisas novas, mas não sabia botar dinheiro nelas.

Larguei mão dele, então.
Daí eu vi que num era o dinheiro.

Era que eu tinha medo que não gostassem.
Tinha medo de fazer de novo e de novo e de novo… até chegar numa coisa que o cliente gosta, mas eu acho bosta.

Tava com medo de fazer coisa errada.

Daí que eu pensei que a gente não pode levar a vida tentando agradar. A gente tem que se agradar dessa coisa que fica dentro de nós e que nunca tá pronta.

E a gente vai botando ela pra fora, nas coisas que a gente faz.

E que a gente não pode ter medo de errar.

A gente anda sem rumo, mas anda no nosso passo.

E vai tentando e tentando.

E quando cai, levanta.

E uma hora, fica bão.

Decrépita democracia

Eu hoje me dei conta de que faço parte de alguma minoria.

Eu não estou envolvido em militância partidária faz algum tempo. Não acredito nisso. Tenho procurado outras maneiras de viver a democracia e isso implicou em mudar meu estilo de vida, abrindo espaço na minha agenda para me envolver em participação social em alguns itens que realmente são essenciais para mim e minha família.

Então eu hoje faço parte do Conselho de Pais da escola dos meus filhos, trabalho atendendo as pessoas que precisam de amparo emocional para decidirem seus rumos de vida em situações de crise, acompanho alguns produtores orgânicos e ainda fico pensando o que mais eu poderia fazer com meus vizinhos e amigos para resolver as necessidades que temos em comum.

Mas existe o macro. Existem essas empresas que nos prestam serviços horríveis a preços exorbitantes com a anuência do governo e de seus órgãos reguladores. Existem essas corporações cuidando de bens essenciais, como a água e os nossos alimentos, fazendo o que bem entendem com eles, também com a anuência do governo.

E eu sei que a muito tempo, aquilo que chamamos de “governo” na verdade é uma fachada para negócios escusos entre proprietários, e nós estamos de fora. Nós trabalhamos para essa gente e pagamos impostos para eles. Nós consumimos as coisas que eles nos vendem. Pagamos produzindo, pagamos comprando, pagamos vendendo, pagamos jogando no lixo. E com o que pagamos? Com nossa energia vital, principalmente. É ela, e não o dinheiro, o que está em cheque aqui.

Então nos pintam esse cenário de escolhermos entre vermelhos e azuis. E nessa eleição, ainda tivemos a opção do magenta, além dos habituais tons de azul e vermelho, chegando ao preto absoluto em ambos os lados. Mas não há nada real ali. Os candidatos todos têm alguns minutos por dia para nos convencer a escolhê-los. E como fazem isso? Criando drama.

Os marqueteiros constroem esses personagens durante meses e os vão adequando ao sabor das pesquisas. É uma enorme novela, o que vemos como campanha eleitoral. Vemos os debates e pensamos que significam algo. Mas não significam nada. Às vésperas das eleições eu tinha amigos me pedindo opinião sobre os deputados estaduais e federais. Gente que sabe que esses sujeitos vão lidar com as nossas leis e com os nossos direitos. Eles não sabiam onde encontrar a informação de que necessitavam. Não sabiam onde encontrar programas de governo e projetos de lei. Não tinham energia vital disponível para estudarem esse assunto e realmente decidirem em quem iriam votar.

Então temos esse resultado realmente assombroso nestas eleições:

39,9% dos eleitores optaram por não lidar com esse assunto. Ou votaram nulo (10,17%) ou em branco (10,18%) ou se abstiveram (19,55%). Isso referente às apurações para deputado estadual, aqui em São Paulo.

E então, se olharmos para os mais votados, temos Telhada, Xerife do Consumidor, Feliciano e toda uma gente que representa soluções simplistas, radicais e pouco prováveis, atacando algum “culpado social”, exatamente como foi feito na Alemanha de Hitler. São candidatos-produto, criados para satisfazer alguma demanda emocional da população.

É um indicador de pânico social. De impotência. Parece burrice, mas é impotência e falta de vivência do que é decidir em grupo…

Vamos ter muito trabalho pela frente… Existe algo sem nome que precisa ser articulado, no lugar dessa farsa que virou nossa democracia…

Eu me recuso a olhar para o resultado dessa eleição e achar que isso tem algo a ver com o país. Não é. Não foi o outro quem votou errado. Quase 40% das pessoas não achou que essa eleição iria mudar alguma coisa. Boa parte dos sujeitos eleitos foi criado dramaticamente para atender uma demanda emocional da população. É um indicador de esse modelo não funciona. É preciso ir além das urnas e começar a construir outra coisa. Não basta reclamar do vizinho. Não basta dizer que não temos opções. É preciso investir energia no que queremos construir. Se não são mais os políticos ou partidos, que seja outra democracia.

Mas é preciso agir.

 

 

Quadrilha

Eu sinto que é impossível ter qualquer opinião útil sobre o que está acontecendo. Me parece que estamos todos com os ânimos exaltados demais e nos deixamos influenciar por qualquer coisa que tenha o leve aroma de informação. Mas os fluxos de informação estão todos congestionados por um estado de “suspensão pelo terror”, que nada do que vejo e ouço me parece real. Não me refiro à informação que viria da mídia tradicional, porque faz algum tempo que não procuro esse tipo de canal para me informar. Tampouco o canal que utilizo habitualmente, que são alguns blogs e as timelines de alguns amigos queridos, porque os amigos são sempre a melhor fonte de informação, mesmo quando você não concorda com nada do que eles estão falando.

Não.

As ruas mesmo. Meu trajeto para o trabalho ou as visitas ao supermercado. A conversa entre as pessoas num ônibus e suas opiniões sobre o que “está acontecendo”. O que “está acontecendo” é o mesmo de sempre. O cara continua “fazendo” as mesmas coisas, tentando seguir seu programa diário e então, surgem essas histórias sobre a escassez futura. E o sujeito começa a imaginar o que ele terá que fazer para seguir seu programa, mesmo com essas novas condições, que ainda não se manifestaram. Ele vai preparando essa reação. Vai cozinhando essa resposta ao mundo dentro dele, com uma imaginação que vai crescendo a cada nova informação fragmentada que ele recebe.

As pessoas imaginam que sabem o que é a mentira. E isso não é o problema. A mentira é sempre a opinião com a qual eu não concordo. Isso é fato. O problema é que as pessoas sabem que não têm a menor idéia do que é a verdade, porque não recebem a informação completa e não conseguiriam lidar com ela, de qualquer modo. Então, entre a cruz e a espada, optam pela imaginação e pela manipulação. Estão sozinhas em sua opinião e buscam amparo no outro, tentando convencê-lo de uma história que contam para si mesmas, sobre um futuro terrível onde serão obrigadas a abandonar o programa que cumprem a contragosto em direção a algo absolutamente incerto e ameaçador.

Então as histórias sempre carregam esses mesmos elementos: aqueles que instauram o caos e a necessidade de que as forças da ordem se instaurem. Mas quem são as forças da ordem nesse momento? Aqueles que clamam justiça, se entendendo como vítimas de algo a que se sujeitam? Ou aqueles cujo programa consiste em eliminar as opiniões com as quais eu não concordo? Cada fragmento isolado em si mesmo, com as mesmas demandas e a mesma sensação de que a mentira é o outro.

E em mim sempre a sensação de que nos bastidores existem forças que operam quando os homens se vêem acuados por sua imaginação. Forças que lucram com esses movimentos precipitados.

E mesmo esses homens das coxias, mesmo eles, agora não detém um pensamento único. Estão em guerra entre eles, lutando para ver quem se alimentará do nosso terror. Então se expõem mutuamente, elaboram histórias sobre escassez para expor o adversário ao ridículo, enquanto exaltam seus acertos também fictícios. Recolhem informações que sejam suficientes para gerar na população o estado de terror desejado. Ficamos sem referência alguma, acreditando que o estado de terror se deve à uma polaridade não resolvida entre ordem e caos e já não sabemos quem pertence a que lado.

Enquanto isso, os homens das coxias investem pesado em ambos os lados da equação.

O que percebo é que isso nos coloca numa situação extremamente reacionária. Esse estado de terror faz com que entremos em modo de sobrevivência e nesse ponto, sacrificamos nossa parca racionalidade e capacidade de uma ação que vá além de cumprir um programa inútil e isolado. Nesse lugar, estamos prontos para as soluções milagrosas, as revoluções e os golpes.

Para mim, a pergunta continua sendo sempre a mesma: quem está ganhando com o homem que cumpre um programa, mesmo que o mundo caia ao seu redor? Quem é que diz “olha a cobra!”, para depois dizer “é mentira!”, levando a quadrilha de um lado a outro do arraiá?

Chiaroscuro • A predominancia da visão

Sendo um blog, eu posso me dar ao luxo de publicar um artigo incompleto, uma reflexão ainda em processo. Não é uma tese, ou dissertação e ainda me faltam mais dados para expor claramente essas associações. Então elas ficam no lugar onde o artista predomina sobre o cientista, e logo ali adiante, num outro artigo ou numa conversa qualquer, a idéia brota inteira.

Celeritas, (velocidade ou a relação entre tempo e espaço) é a origem do nome da constante c=299 792 458 m/s, que corresponde à velocidade da luz no vácuo.  Um objeto a altas velocidades, próximo à velocidade da luz, não pode ser acelerado até, ou mais que, a velocidade da luz, não importando quanta energia é transferida ao sistema. Matéria estando sempre abaixo dessa velocidade, não importa quanta energia se transfira ao sistema. Quanto recurso se use para isso.

A quantia máxima de energia que se pode obter de um objeto é dada pela massa do objeto multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. E então, estamos limitados a isso, essa é uma espécie de cerca para os objetos materiais se manterem como objetos materiais, ali adiante, perdem coesão, perdem consistência e geram enormes quantidades de energia nestes processos. Uma energia que desintegra o objeto material como tal, que não lhe permite a continuidade. Então, em direção à luz, objeto material se converte em algo similar à luz, mas tal movimento não lhe acrescenta nada. Ao contrário, lhe desintegra completamente. Ele muda de qualidade.

E mais as equações complexas e mais as elocubrações sustentadas nessas equações. E mais o trabalho de mil homens e a prova cabal disso, de que a matéria convertida em energia se transforma em morte, quando bombardeamos Hiroshima. Então, essa violência nos colocou uma barreira. E dali em diante, a matéria e seus processos passou a ser cada vez mais degradada. E com isso o corpo. E todos os outros sentidos que o conectam com o mundo.

Me parece que a equação é a bomba. A grande bomba, antes mesmo de ser detonada. E a detonação como trauma da equação, nos limitando a esse axioma de que, rumo à luz, estamos fadados à morte. E=mc² sendo o Cristo crucificado, a morte do Deus elevado à luz. Então, nos contemos. Paramos aí. Não seguimos adiante. Não avançamos ante à realidade paradoxal que a morte e o além da luz nos propõe. E nossa vida material perde atributos e valores.

Não te parece o mesmo? O mesmo recurso traduzido em novo idioma, em nova época, em nova cultura, mas o mesmo limite? A mesma luz, usada como cerca, o mesmo círculo de giz?

Fadados a permanecer sempre aquém desse ponto onde o particular se converte em movimento para fora, em movimento em direção a algo, sendo esse algo o outro eterno, a realidade para além da cerca do indivíduo.

Que passa com essas metáforas de realidade? De onde surgem essas idéias? E porque, para mim, a imagem de Einstein não difere em nada das construções taoístas de Yin e Yang, da árvore sefirotal Cabalística, do Zodíaco de diversos povos, do Arqueômetro?

Sete cores do arco-íris, doze cores somando as primárias, secundárias e terciárias. Sete e doze, aparecendo milhares de vezes em distintos povos para dividir distintos atributos. Luz e trevas, claro e escuro. A luz, aquilo que possibilita o horizonte e as trevas, que nos colocam em contato com os outros sentidos do corpo. Com aquilo que ouvimos, tateamos, sentimos de dentro de nós mesmos. Com a nossa introspecção. Com aquilo que sentimos para além do que deveríamos estar vendo.

E as ilusões visuais. O rei, vestido de ouro. O rei sol. O máximo em luz. Aquele a quem nós empoderamos porque é um deus. A fronteira para além da qual está a morte certa e a desintegração. E então, o cidadão-corpo, o cidadão-partícula, o cidadão-matéria, ele se conforma com a sua condição. Ele sonha. Ele é lançado nesse mundo de sonhos, onde a luz é algo a ser evitado para que a mente permaneça mais tempo sonhando. Ele abre o olho e então, as ilusões lhe são lançadas. A cerca está lá. A luz, gerada por outros para que ele permaneça ali, sendo particular em seu medo da morte.

E no corpo, o cidadão sente a fome, a escassez, a violência, a presença indesejada de um outro que se converte numa matéria tão suja quanto ele. Seus impulsos em direção ao outro são contidos por decretos, por religiões, por ameaças de todo o tipo. E ele segue só, sentindo que essas coisas são suas. Lhe falta a luz, para perceber o outro à distância. O outro com sua peculiaridade, distinto, mas ainda, o mesmo humano que ele. No escuro, ele só sente a si mesmo. E quanto mais registros de sofrimento tiver do próprio corpo, mais terror ele terá da luz, porque a luz desde sempre significou a morte.

Para onde vamos, quando a luz deixa de fazer sentido?

Para onde vamos quando não estamos atrelados àquilo que vemos e sim aquilo que sentimos? O que diabos é isso que chamamos de energia, que é maior que nós, que está em nós, que processamos de diferentes maneiras inclusive, vendo a realidade de maneira ilusória. Atrás dessa cortina chamada percepção visual.

Atados ao ritmo circadiano, agimos na luz e sonhamos nas sombras. Isso tem alguma relação com o hipotálamo, que regula nossa homeostase (capacidade de adaptação térmica),  conecta-se ao sistema endócrino (todas as secreções hormonais que regulam a química interna do corpo), e o sistema nervoso autônomo (sistema neurovegetativo ou sistema nervoso visceral – o lugar de excelência do centro Vegetativo, de Gurdjieff e Silo). O controle do sistema da vida está intimamente relacionado com a percepção do dia e da noite. O hipotálamo era chamado pelos egípcios de “Olho de Hórus” (o deus dos céus – ou da percepção do dia e da noite, pois um olho do deus era a lua e o outro o sol).

Não é possível atuar sobre esse aspecto do sistema nervoso voluntariamente, quer dizer, um indivíduo controlar o próprio sistema  nervoso autônomo (mas existem relatos de grandes iogues que chegaram a isso). No entanto, você conseguiria uma atuação sobre o sistema nervoso de outros seres humanos se fosse capaz de alterar a percepção deles do ambiente circundante. Como?

Manipulando a imagem. Gerando dia e noite a partir de imagens. Atribuindo significado a determinadas imagens poderosas. Representações de forças titânicas do homem como se fossem figuras externas, na forma de deuses e mitos.

Então você engendraria em milhares o temor à morte pelo temor à lucidez. E os manteria presos a um sonho.

Essa técnica tem sido usada milhares de vezes em distintos momentos da história e funciona repetidas vezes. Do mito de Prometeus  à Lúcifer, de Mitra a Cristo até chegar em Einstein e sua equação. A mesma tradução da luz como limite. E depois da luz, a noite paradoxal e sem imagens.

Por isso algumas iniciações podem ser assustadoras para o status quo. A idéia de “iluminação” (novamente a luz), de acordar de um sonho, de união com o divino, de realizar o propósito, de liberação e finalmente, sair da cerca e do circadiano.

Lucidez vai implicar em ação. Ação verdadeira. Ação conectada com o propósito, com a Verdadeira Vontade.

Dharma.

E rebelião.

Pré-requisitos

Você  deveria saber construir um abrigo e como armazenar e purificar a água. Deveria saber como obter energia elétrica. Deveria saber o que fazer com seu lixo e com o esgoto. Deveria saber como produzir seu próprio alimento, deveria reconhecer quais as plantas à sua volta que são comestíveis, quais são tóxicas e quais são medicinais. Deveria saber produzir fogo. Você deveria saber cozinhar e deveria também saber como é que se faz uma panela. Deveria entender como fazer a natureza produzir usando o ritmo da própria natureza. Deveria saber como gerar fartura rápido e sem custos para o ambiente. Deveria se lembrar como é confiar num outro ser humano e como é tratar o outro como você quer ser tratado. Deveria aprender a cuidar de um idoso e de uma criança. Deveria saber cuidar de qualquer outro ser humano e deveria saber pedir ajuda sem se sentir chantageado e sem impor ao outro nenhuma chantagem. Deveria saber enterrar seus mortos, e aceitar a partida de entes queridos. Deveria aprender a se defender, sem eliminar o outro, sem destruir o outro. Deveria aprender o que é amar, sem manter o outro cativo. Deveria aprender que o seu real valor não é o seu preço e nem o que você tem. Você deveria aprender a fazer as coisas que mais gosta porque são as coisas que você faria bem e que iriam durar muito tempo. Você deveria aprender a viver sem manter o outro cativo.

Ainda há tempo de aprender.

Ainda há tempo.

Estupra, mas não mata

Recentemente teve essa história da pesquisa do IPEA sobre o estupro, dando conta de que 58% dos entrevistados acham que o estupro acontece por causa de um comportamento da mulher. A pesquisa em questão é parte do Sistema de Indicadores de Percepção Social, que revela uma determinada mentalidade dessa amostragem populacional.

Ok. Que amostragem é essa?

3810 brasileiros, homens e mulheres com idade a partir dos 16 anos. Não consegui encontrar os indicadores de classe social (baseados apenas em aspectos econômicos, como o número de salários mínimos que o sujeito ganha mensalmente), mas dá para ter uma certa idéia de que os entrevistados são pessoas como eu e você. Pelo menos isso é o que garante a eficácia de uma determinada pesquisa.

Você pode ser qualquer um, que eu desconheço. Então vou te dizer quem sou eu. Sou um sujeito que trabalha por conta própria. Não estou empregado em nenhuma empresa, em nenhuma corporação. Aqui em casa, a renda fixa vem do emprego da minha companheira, a Clau, que vende seu tempo para uma Escola.

Nós fazemos parte da classe média, essa coisa cada vez mais misteriosa. Temos uma receita mensal que sempre me parece enorme, se comparada a outras famílias, e gira em torno dos R$ 6mil. Com essa grana, temos que pagar a escola dos meninos, supermercado, feira, petróleo, contas de consumo, prestação da casa, gente que trabalha para a gente, etc…

No dia 12 do mês, já estamos no vermelho. Ou perto dele.

Tem uns quatro anos que nós fizemos uma operação limpeza nas nossas finanças, porque eu perdi o emprego numa escola e a Claudia teve o número de horas aulas reduzido, enquanto estávamos com uma casa em construção, grávidos do segundo filho e cheio de empréstimos para honrar. Nós enxugamos nosso orçamento ao máximo, diminuímos excessos e mudamos hábitos de consumo. Nesses quatro últimos anos, nós conseguimos fechar o mês de dezembro bem. Fomos diminuindo o vermelho na conta e finalmente conseguimos colocar um pouquinho de azul.

Como vamos lidando com a vermelhidão? O banco gentilmente nos oferece um limite de cheque especial. Um crédito. O banco que acredita na gente. Então, o que a gente costumava fazer? Quando a gente ficava muito ansioso, com as contas assombrosamente no vermelho, com aquele negativo todo nos assombrando, a gente precisava muito ver TV a cabo ou tomar cerveja. Ou então, precisava muito comprar aquela oportunidade de ouro.

Eu precisava daquele celular em 20x. Ou do computador. Ou daquele livro, mais um deles, que ia ser empilhado com todos os outros que ainda falta eu ler. Eu precisava ser mimado, precisava que me colocassem no colo e me dessem carinho. E quem é que me dava? O banco. O banco e as casas Bahia. E as livrarias. E aquele site da china que me vende bugingangas que chegam aqui em casa e eu não sei como. O Paypal me salvou.

Eles todos me diziam: pega cara, é seu! Pode pegar. Depois você vê como resolve. Passa a mão. Leva pra casa.

Eles todos iam me colocando na cabeça que eu posso ter o que quiser, não importam as consequências. Depois você divide em 50x, vai pagando um pouquinho por mês. Não precisa pagar, fica aí. Pega mais. É teu. O que é meu é teu.

Então, num país machista, com boa parte da programação constituída por bundas à mostra e mulheres num papel ridículo, então nesse país, a mulher virou um bem de consumo. E é fácil entender porque o estupro é uma modalidade de crédito. O sujeito quer, ele não pode ter, ele tira o pau pra fora e passa na bunda que está na frente dele. E o outro sujeito do lado, ele olha, ele tem nojo, ele quer dar uma porrada no cara, mas por algum motivo não consegue. Ele acha que não é problema dele. Aquela mercadoria não lhe pertence.

Pode pegar cara! Mas não destrói. Não quebra. A bunda no metrô é uma mercadoria no show room. É essa a associação nefasta que está sendo feita.

Tá com desejo sexual?  Estupra, mas não mata. Não quebra o brinquedo do outro.

E seguimos todos sendo estuprados.

Pelo crédito oferecido, pelo salário que é pouco, não importa o quanto você trabalhe, por essas necessidades todas, criadas, fabricadas. Por essa carência sem fim que eu tenho que suprir já, agora, imediatamente. Eu não posso esperar. Não consigo esperar. Não. Eu quero agora!

E isso faz essa máquina toda continuar girando.