Autonomia é Rebelião

Na escola eu aprendi que os modos de viver de outros povos eram atrasados e que a história era uma sucessão de progressos que levava fatalmente à Revolução Industrial, depois à Revolução Verde e finalmente à Hiroshima e depois ao Vietnã de Stallone. Na minha adolescência, a ficção e a história se misturaram definitivamente e durante algum tempo, eu cheguei a crer na guerra e na matança como ferramentas de limpeza daquilo que era indesejado. A guerra sendo o Pinho Sol da história.

Então o desconforto de achar algo errado nessa lógica. Esse desconforto e mais a imensa quantidade de hormônios circulando por todos os lados e uma enorme confusão mental.

E eu fui seguindo o roteiro pronto. Seguindo o roteiro pronto daquele que se rebela e resolve fazer as coisas “do seu jeito”. Então, enquanto meus amigos iam por ali, eu ia por lá. Enquanto se meteram a ganhar dinheiro, eu me opus a isso. E achei que essa oposição era fazer o que se gosta e que fazer o que se gosta era não ganhar dinheiro. Neguei o dinheiro. Neguei o meu próprio valor ao negar o dinheiro e o caminho de meus amigos. Na verdade, eu traçava o caminho dos meus amigos ao negá-lo. Era preciso que eu estivesse ali, negando esse caminho, para que aquele caminho se definisse como verdadeiro.

Fui dando o meu jeito de permanecer abastado, mesmo à margem. Mas permanecia dependente daquele caminho, como se aquele caminho também margeasse o meu. Como se, na ausência dessa oposição entre os caminhos, não houvesse nenhum contorno definido entre uma opção e outra. Como se nessa ausência, eu me desse conta de que não tínhamos ali nenhuma opção. Ficar entre alternativas já estabelecidas não significa fazer as coisas do seu jeito.

Qual a escolha real?

Fazer as coisas do meu jeito. O que significa isso? O quanto estou disposto a isso? Isso realmente significa autonomia? Eu precisaria me apartar de todos os outros para fazer as coisas do meu jeito?

Então vamos a isso.

Enquanto eu permanecer à margem, o caminho que impera vai continuar definido. Então não ficarei à margem. Enquanto eu negar esse caminho, ele se afirmará. Então não o negarei. Enquanto me oponho a ele, mas dependente dele eu fico. Não me oporei a ele. Mas também não posso colocar nele nenhum recurso meu. Nada. Nem meu afeto, nem minha mente, nem meus atos.

É preciso cortar a dependência desse outro caminho para que o meu se defina. Então é preciso definir o meu caminho para além da oposição. É preciso ganhar minha própria ação e arcar com a responsabilidade total sobre isso. Coração, mente e braços totalmente engajados nisso que chamo de autonomia. Que é um caminho meu apenas e não tem nada com o outro. Não tenho nada com ele e ao mesmo tempo, busco relação com ele sem me envolver nas suas coisas. Busco o benefício da relação, ofereço o meu melhor e deixo o outro em paz com sua escolha e seu caminho.

E sigo adiante, quando bem entender.

 

 

Chiaroscuro • A predominancia da visão

Sendo um blog, eu posso me dar ao luxo de publicar um artigo incompleto, uma reflexão ainda em processo. Não é uma tese, ou dissertação e ainda me faltam mais dados para expor claramente essas associações. Então elas ficam no lugar onde o artista predomina sobre o cientista, e logo ali adiante, num outro artigo ou numa conversa qualquer, a idéia brota inteira.

Celeritas, (velocidade ou a relação entre tempo e espaço) é a origem do nome da constante c=299 792 458 m/s, que corresponde à velocidade da luz no vácuo.  Um objeto a altas velocidades, próximo à velocidade da luz, não pode ser acelerado até, ou mais que, a velocidade da luz, não importando quanta energia é transferida ao sistema. Matéria estando sempre abaixo dessa velocidade, não importa quanta energia se transfira ao sistema. Quanto recurso se use para isso.

A quantia máxima de energia que se pode obter de um objeto é dada pela massa do objeto multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. E então, estamos limitados a isso, essa é uma espécie de cerca para os objetos materiais se manterem como objetos materiais, ali adiante, perdem coesão, perdem consistência e geram enormes quantidades de energia nestes processos. Uma energia que desintegra o objeto material como tal, que não lhe permite a continuidade. Então, em direção à luz, objeto material se converte em algo similar à luz, mas tal movimento não lhe acrescenta nada. Ao contrário, lhe desintegra completamente. Ele muda de qualidade.

E mais as equações complexas e mais as elocubrações sustentadas nessas equações. E mais o trabalho de mil homens e a prova cabal disso, de que a matéria convertida em energia se transforma em morte, quando bombardeamos Hiroshima. Então, essa violência nos colocou uma barreira. E dali em diante, a matéria e seus processos passou a ser cada vez mais degradada. E com isso o corpo. E todos os outros sentidos que o conectam com o mundo.

Me parece que a equação é a bomba. A grande bomba, antes mesmo de ser detonada. E a detonação como trauma da equação, nos limitando a esse axioma de que, rumo à luz, estamos fadados à morte. E=mc² sendo o Cristo crucificado, a morte do Deus elevado à luz. Então, nos contemos. Paramos aí. Não seguimos adiante. Não avançamos ante à realidade paradoxal que a morte e o além da luz nos propõe. E nossa vida material perde atributos e valores.

Não te parece o mesmo? O mesmo recurso traduzido em novo idioma, em nova época, em nova cultura, mas o mesmo limite? A mesma luz, usada como cerca, o mesmo círculo de giz?

Fadados a permanecer sempre aquém desse ponto onde o particular se converte em movimento para fora, em movimento em direção a algo, sendo esse algo o outro eterno, a realidade para além da cerca do indivíduo.

Que passa com essas metáforas de realidade? De onde surgem essas idéias? E porque, para mim, a imagem de Einstein não difere em nada das construções taoístas de Yin e Yang, da árvore sefirotal Cabalística, do Zodíaco de diversos povos, do Arqueômetro?

Sete cores do arco-íris, doze cores somando as primárias, secundárias e terciárias. Sete e doze, aparecendo milhares de vezes em distintos povos para dividir distintos atributos. Luz e trevas, claro e escuro. A luz, aquilo que possibilita o horizonte e as trevas, que nos colocam em contato com os outros sentidos do corpo. Com aquilo que ouvimos, tateamos, sentimos de dentro de nós mesmos. Com a nossa introspecção. Com aquilo que sentimos para além do que deveríamos estar vendo.

E as ilusões visuais. O rei, vestido de ouro. O rei sol. O máximo em luz. Aquele a quem nós empoderamos porque é um deus. A fronteira para além da qual está a morte certa e a desintegração. E então, o cidadão-corpo, o cidadão-partícula, o cidadão-matéria, ele se conforma com a sua condição. Ele sonha. Ele é lançado nesse mundo de sonhos, onde a luz é algo a ser evitado para que a mente permaneça mais tempo sonhando. Ele abre o olho e então, as ilusões lhe são lançadas. A cerca está lá. A luz, gerada por outros para que ele permaneça ali, sendo particular em seu medo da morte.

E no corpo, o cidadão sente a fome, a escassez, a violência, a presença indesejada de um outro que se converte numa matéria tão suja quanto ele. Seus impulsos em direção ao outro são contidos por decretos, por religiões, por ameaças de todo o tipo. E ele segue só, sentindo que essas coisas são suas. Lhe falta a luz, para perceber o outro à distância. O outro com sua peculiaridade, distinto, mas ainda, o mesmo humano que ele. No escuro, ele só sente a si mesmo. E quanto mais registros de sofrimento tiver do próprio corpo, mais terror ele terá da luz, porque a luz desde sempre significou a morte.

Para onde vamos, quando a luz deixa de fazer sentido?

Para onde vamos quando não estamos atrelados àquilo que vemos e sim aquilo que sentimos? O que diabos é isso que chamamos de energia, que é maior que nós, que está em nós, que processamos de diferentes maneiras inclusive, vendo a realidade de maneira ilusória. Atrás dessa cortina chamada percepção visual.

Atados ao ritmo circadiano, agimos na luz e sonhamos nas sombras. Isso tem alguma relação com o hipotálamo, que regula nossa homeostase (capacidade de adaptação térmica),  conecta-se ao sistema endócrino (todas as secreções hormonais que regulam a química interna do corpo), e o sistema nervoso autônomo (sistema neurovegetativo ou sistema nervoso visceral – o lugar de excelência do centro Vegetativo, de Gurdjieff e Silo). O controle do sistema da vida está intimamente relacionado com a percepção do dia e da noite. O hipotálamo era chamado pelos egípcios de “Olho de Hórus” (o deus dos céus – ou da percepção do dia e da noite, pois um olho do deus era a lua e o outro o sol).

Não é possível atuar sobre esse aspecto do sistema nervoso voluntariamente, quer dizer, um indivíduo controlar o próprio sistema  nervoso autônomo (mas existem relatos de grandes iogues que chegaram a isso). No entanto, você conseguiria uma atuação sobre o sistema nervoso de outros seres humanos se fosse capaz de alterar a percepção deles do ambiente circundante. Como?

Manipulando a imagem. Gerando dia e noite a partir de imagens. Atribuindo significado a determinadas imagens poderosas. Representações de forças titânicas do homem como se fossem figuras externas, na forma de deuses e mitos.

Então você engendraria em milhares o temor à morte pelo temor à lucidez. E os manteria presos a um sonho.

Essa técnica tem sido usada milhares de vezes em distintos momentos da história e funciona repetidas vezes. Do mito de Prometeus  à Lúcifer, de Mitra a Cristo até chegar em Einstein e sua equação. A mesma tradução da luz como limite. E depois da luz, a noite paradoxal e sem imagens.

Por isso algumas iniciações podem ser assustadoras para o status quo. A idéia de “iluminação” (novamente a luz), de acordar de um sonho, de união com o divino, de realizar o propósito, de liberação e finalmente, sair da cerca e do circadiano.

Lucidez vai implicar em ação. Ação verdadeira. Ação conectada com o propósito, com a Verdadeira Vontade.

Dharma.

E rebelião.

Dia 16 – Quarentena

Eu aceitei esse único plano, ir embora definitivamente do deserto da minha ira.

Para isso eu iria até o fim dela e mataria deus. Deus que a havia gerado, lançando-me nessa piada patética, com outros ao meu lado. Deus e seu senso de humor ridículo. Deus e suas religiões em guerra para ver quem sabe a verdade sobre a paz. Deus, isso que meu deu a razão para eu odiá-lo.

Eu eliminei a paz. Eliminei qualquer religião.

Queria encontrar deus e desmembrá-lo, entendê-lo, humilhá-lo, destruí-lo até que não restasse dele senão uma vaga idéia.

Eu fui até ele, escolhendo uma única trilha: a ira. A ira que alimentou os passos desde então. A ira que me era como um perfume de uma mulher lasciva.

Eu matei a crença em todos os homens. Matei cada um deles para mim. Eu destruí a significância de suas lamúrias, de sua chantagem à meu respeito. Matei seu desejo de que eu permanecesse. Eu fui embora, mesmo estando aqui.

E deus, onde estava? Onde estava enquanto eu cometia esse crime com meu semelhante? O crime de não me importar com mais nada, a não ser a minha ira e seu único foco? Porque deus não me deu a si, para que eu aplacasse a minha ira? Porque não se apiedou do meu semelhante e se sacrificou para que eu encerrasse minha trilha de mortandade?

Eu e meu deserto. O deserto se alastrando pela terra e eu, eliminando a cada passo o significado do humano para mim. Secando-o. Dissecando-o. Desmembrando suas lástimas, sua ignorância, seu vazio.

E deus?

Houve um deus?

E isso que caminha pela terra e pensa sobre si e o deserto… Que coisa é essa?

Até onde irá em seu ato?

 …antes disso • um outro dia…

Ação

Considerando a Vida primeiramente como um problema subjetivo. A Vida, sendo um significado para o homem. Então as ações desse homem passam a ser as suas soluções imediatas ao desafio chamado Vida. Algo passa a esse homem e ele então responde a esse estímulo.

De volta à mente. A um certo modo de a mente operar buscando no mundo a completude. Buscando realizar algo no mundo que decifre algo que está num outro modo da mente operar, que é o da interioridade. Buscando obter algo do mundo que traga a sensação de plenitude e nunca encontrando este objeto que permaneça pleno. Porque a mente externa reduz tudo ao tédio, ao mesmo, ao passado, à repetição, à memória.

As ações desse homem passam a ser seu método para resolver a Vida como um problema externo a ele. O homem olha para a Vida e espera obter algo dela e nesse momento, este homem se torna a Morte. Ele busca a vida como um recurso externo a ele, algo que preencha o vazio que é a antítese da plenitude. O homem operando na mente externa é esse vazio. Um vazio buscando algo que o complete. E ele não pode obter nenhuma satisfação usando esse método, porque a mente externa, quando obtiver a plenitude, vai desmembrá-la em pedaços e lançá-la aos quatro ventos, agrupando-a em pequenos conjuntos de insatisfações, até que a plenitude fique reduzida ao tédio. O homem, neste estado, matará a plenitude. Então esse homem perderá o agora e o amanhã. E repetirá o passado até o fim de seus dias, sempre refazendo a mesma ação em busca de um significado para a Vida que o preencha.

O método desse homem passa a ser seu condicionamento. A repetição eterna de uma mesma ação subjetiva, buscando sempre no mundo externo algo que conclua a ação. Um método através do qual ele extraia da vida a plenitude e a degrade em vazio. Esse homem é o diabo e a Vida ao redor dele é o seu próprio inferno.

Há um certo ponto em que alguns homens sentem uma espécie de fadiga do próprio tédio. Esse homem passa a se debater no inferno. Um dia ele acorda e percebe que está vivendo no ontem, que aquele homem diante dele é um homem novo, mas ele olha para ele como se fosse alguém de outra época. Ele se percebe doente e então adoece. Ele encontra a Vida e mais uma vez se empanturra dela, sem obter satisfação. A Vida é insossa. Escassa. Sem graça.

Ele percebe que já tem tudo e deveria ser feliz por isso, mas não consegue. Percebe que não é a presença do dinheiro ou a falta dele. Percebe que não é nada fora dele é algo com ele. Finalmente ele percebe esse vazio e com isso, percebe que tem uma interioridade. E usando a mesma mente externa, esse homem olha para dentro e não vê nada. Ou degrada o que vê, reduz a si mesmo ao vazio. Ele se deprime. Ele se entristece. Ele delega sua possibilidade de agir a outra pessoa. Ele busca mais uma vez uma saída externa. E isso é tudo o que ele pode fazer nesse momento.

E mais uma vez, fora dele, a mesma mente vai degradar o remédio, o método de outro, o livro sagrado, o procedimento, o guru, a Vida em si. Esse homem tem a chance de sair disso, mas novamente ele se torna a morte. Ele ainda acha que Vida é essa busca permanente pelo externo na tentativa vã de escapar da morte, mas a morte é ele mesmo. Ele um dia se cansa disso, ele percebe que o estado em que se encontra é pior do que a morte. Ele então decide morrer. De um jeito ou de outro, esse homem está disposto a romper com os demais. Ele quer sair do inferno. A qualquer custo. E ele não confia em mais ninguém.

Ele é falso para si mesmo e reconhece no outro a mesma farsa. Ele reconhece o inferno.

Ele agora é uma semente de algo.

Quando esse homem encontra o terreno propício, o ambiente adequado, ele se percebe Vida, porque algo dentro dele brota. Ele não sabe o que é. Não está buscando resultado algum nisso. Sabe que não pode buscar. De algum modo, ele sabe que isso é o que ele é de fato, esse algo sem par. Esse átomo.

E ele volta à mesma ação de antes, fatalmente voltará.

Mas não é mais a morte.

Ele é essa semente. E então extrai a Vida de si naquela situação. E a revitaliza. Ele ressuscita os mortos, dá vida ao passado e o atualiza. Ele se reconcilia e o método é refeito.

A ação desse homem é extrair de si aquilo que expressa a Vida em qualquer situação.

Esse é o seu propósito.

 

Vida: faça você mesmo (DIY)

Eu sempre gostei disso, de fazer eu mesmo, de descobrir como se faz uma coisa e tentar fazê-la do meu jeito. E ainda assim, eu tenho preguiça. Falta de habilidade. Medo que dê errado. Medo de perder tempo. Medo do ridículo. Medo de errar.

Com o passar dos anos, eu fui adquirindo habilidades que vieram dessa prática de recombinar as coisas à minha volta.

Nem sempre eu sei o que estou fazendo ou como fazer alguma coisa. Mas é muito difícil para mim essa etapa de as pessoas ficarem discutindo algo para ver qual a melhor maneira de resolver um problema qualquer. Eu fico pensando sozinho, a maior parte do tempo. Olhando os recursos à minha volta e pensando se eu não poderia resolver o problema presente com aquilo que já está na minha frente. Sem precisar adicionar nenhum recurso a mais. Mesmo quando eu não consigo resolver a situação dessa maneira, não faço a opção de me juntar aos outros e ficar discutindo. Eu prefiro um mutirão a um debate.

Então eu prefiro fazer, mesmo que eu não saiba como fazer. Prefiro me mover logo e ir explorando todos os recursos que estão à minha volta. Fazendo tentativas e erros. Recombinando formas, possibilidades. Às vezes eu consulto um manual qualquer, para descobrir se alguém já pensou em usar aquele recurso de outra maneira. Ou se o manual prevê algo assim. Muitas vezes não. O manual foi escrito para aquele recurso ser usado somente daquela forma, da maneira mais rápida possível. Então, quando você se vê diante de um recurso que não funciona mais da maneira que está escrita no manual, a nossa idéia é a de que ele não funciona mais. É lixo e precisa ser substituído por outro recurso. E eu ainda duvido disso e continuo investigando. Aquele recurso é feito de recursos menores. É algo que se compõe de outras coisas e talvez algumas dessas coisas ainda sejam úteis à sua maneira.

Então vou acumulando esses recursos inúteis à minha volta. Coisas que eu ainda não sei o que fazer com elas, mas que percebo que poderiam ser úteis de alguma maneira. Chega então esse momento em que eu tenho que dispensar coisas porque não terei disposição, energia ou tempo para usar esses recursos e os espaços de que disponho para guardar o que pode ser útil são limitados. Preciso liberar espaço, distribuir esses recursos de alguma maneira, jogar fora e esperar que aquele excesso sirva para alguém ali adiante. Então descubro que o espaço vazio é um recurso valiosíssimo.

Esses dias eu estava pensando sobre democracia e cheguei à conclusão que é algo desse tipo: faça você mesmo. Porque quando eu desisto de fazer eu mesmo e resolvo contratar um profissional para resolver algo, o sujeito olha para a minha roupa e tenta enxergar o que eu tenho na carteira. O trabalho dele vai valer o quanto ele acha que eu posso pagar. Ele me cobra esse imposto e vê quanto eu consigo pagar disso. Se colar, colou e ele vai faturar muito às minhas custas. Então democracia de representação é isso: um cara que vai mentir para você para conseguir o seu recurso enquanto ele não cumpre o que promete. Faz mal feito, sem atenção e vai embora, largando o problema na sua frente e você ainda vai ter que dispor de mais recursos para resolver.

Então porque eu faço isso? Porque tenho medo de fazer errado, de não dar certo. De pagar o preço pelas minhas ações. Porque não consigo lidar com o outro de forma direta, elejo um grupo qualquer e me faço representante daquelas pessoas. Ou elejo um representante entre eles. E é esse infeliz aquele que vai lidar com os meus desafetos. Se eu não quero que aquele sujeito faça isso, reclamo com o síndico, o guardinha da rua, o gerente da loja, o patrão, o segurança, o vereador, o prefeito, o governador, o presidente. Preguiça de tomar a ação nas minhas mãos. Preguiça de ir lá conversar com o sujeito e ver ele me dizer que o direito dele é mais direito que o meu. Preguiça de ir lá e achar nessa relação quais são os nossos direitos. O que pode ser melhor para nós dois. Preguiça de dizer bom dia pro vizinho e de responder quando ele diz. Preguiça de saber o nome da pessoa.

É em nome dessa preguiça que eu contrato um filho da puta que vai me decepcionar ali na frente, com a ilusão de que estou ganhando tempo, dinheiro e recurso. Não. Não estou. É uma tremenda perda de tempo isso.

Quando eu tenho a disposição, alegria e energia para isso, me junto com esses que estão à minha volta e compartilhamos algo que vai ser legal para todos. Cada um faz o melhor que pode, o melhor que consegue. E o resultado desse arranjo é do tamanho da nossa disposição. Se hoje não foi tão bom, a gente melhora na próxima.

Democracia é esse piquenique com os amigos.

É o dia em que as famílias se juntam aqui em casa e decidimos que vai ser legal colocar nossos filhos para brincar enquanto a gente cozinha alguma coisa e conversa sobre a vida. Estamos em momentos parecidos e de repente o manual do outro tem alguma informação que o meu não tem. O jeito que o outro está tentando viver talvez tenha alguma pista sobre a minha dificuldade em viver. Que recurso maravilhoso esse!

Ou aquele momento, num grupo, numa reunião em que o sujeito diz a coisa de uma maneira que me incomoda e eu tenho a coragem de dizer isso a ele, diretamente. Naquele momento exato e não depois. Não para o outro que está do meu lado, fazendo intriga ou fofoca. Não em nome do grupo ou do partido ou da empresa. Em meu nome. Digo a ele que aquilo me desagrada porque parece que ele está tentando me ferir com aquilo. Ele me diz que não era a sua intenção. Que aquele é o seu jeito de expor as coisas. E então vamos chegando numa maneira em que eu entendo o seu jeito e ele entende que se passar de certo ponto vai me ferir. Vai invadir o meu espaço. E porque eu sou sincero, o outro passa a me considerar. Ele não vai me ferir intencionalmente. E se o fizer, vou perguntar a ele porque ele o fez e ouvir as suas motivações. Eu exponho meus limites e ele expõe os seus.

Não posso ter medo desse sujeito. Não posso criar um governo que me proteja dele. Não serei covarde. Vou cuidar da minha relação com ele da minha maneira. Fazendo eu mesmo, porque isso pra mim é a democracia.

Pra isso eu tenho que ter calma porque os recursos à nossa volta, incluindo a linguagem que usamos, a cultura, etc… já foram tão usados para essa covardia, para essa preguiça, para essa maneira de eleger um representante que me limpe a bunda ou lave a louça que eu não desejo lavar, que é muito comum que eu nem saiba como expressar o meu limite ou aquilo que estou disposto a cumprir numa relação com outras pessoas. Eu mesmo nem sei como agir nessa situação.

Então volto ao meu velho procedimento, que por hora tem dado certo. Ao invés de passar horas discutindo sobre como as pessoas deveriam agir para que aquele encontro fosse bom para todos, eu vou tentando me encontrar com as pessoas. Já ajo em termos de encontro. Não faço planos, não legislo, não me protejo. Me abro. Digo como me sinto, permito que o outro se expresse, mesmo quando ele quer fazer planos e eu não, e sigo adiante.

Democracia não é uma lei para ser executada amanhã. Não é um projeto. É uma prática diária, ou nada.

O Homem Livre

O recurso mais valioso de que se pode dispor é um homem livre.

Ele está ao seu lado voluntariamente, segundo seus próprios motivos, segundo seus interesses.

Não está condicionado a nada, está ali porque quer e porque sente que se beneficia desta relação.

Ele pode passar sem você, nada que você pode oferecer vai lhe causar dependência.

Ele é o tempo todo aprendizado, autonomia.

Quando age é com todo o seu ser. Se move no mundo realizando seu propósito e ao seu redor é só fartura.

O homem livre sempre gera ações que favorecem a liberdade.

O homem livre é primeiro uma decisão de trabalhar pela própria liberdade.

Se você quer ser um homem livre, semeie ações de liberdade.

Ninguém pode ser livre se depende do aval de outros para sê-lo.

Deixe o outro em paz e fique em paz.

Propósito

Não como uma função ou um trabalho na linha de montagem da vida.

Um talento, talvez. Um dom, não como uma distinção que o coloque acima dos demais.

Um dever, não como algo imposto de fora, mas como algo que precisa se expressar de qualquer modo.

Então, essa ação interna é algo que se dirige a outros, mas não segundo os termos do outro. É algo que se feito, gera ao redor a fartura.

Fartura não como excesso de reservas, mas como fluxo. Como um rio, que sempre flui e está sempre disponível para ser gozado. Então é preciso ter a disposição e a ciência de gozar o rio, que não significa retê-lo na memória, atê-lo ao passado. Gozar no agora, no presente. Aceitar a possibilidade da mudança, o fluxo. Não matar o futuro, reduzindo-o a uma repetição do passado.

Acima de tudo, manter-se livre do outro. Do externo, da recompensa externa. Do resultado. Da estagnação.

Então como isso tudo é feito?

Como é a prática disso?

De mil maneiras se chega a isso, como algo interno. Mas nenhum método externo vai trazer qualquer resultado. Não é um efeito, um estado, um produto, um objeto a ser adquirido. Não é outra identidade.

É um jogo estranho esse…

Porque me sento aqui e escrevo sobre isso, na esperança de que você, ao ler, esteja instigado? Porque isso para mim, vem no lugar da fartura. É um oferta. Não espero nada de você. Não posso esperar.

Então você vem até mim e espera respostas e estamos os dois condenados.

Você me segue, porque espera que eu me responsabilize pelo que você deveria fazer. Você espera que eu diga o que você precisa fazer. Me autoriza a isso. Em mim, você vê algo que seria capaz de tomar a sua ação nas mãos e realizá-la. Você se isenta da responsabilidade e colhe os frutos daquilo que foi feito. Isso é o que você espera, quando decide me seguir.

E eu, me seduzo com isso, porque você, ao me seguir, parece estar validando a minha busca. Sem você, eu estaria reduzido aos meus fracassos insistentes. À dúvida de cada experiência. À luta, para não transformar tudo em morte, em memória, em medo. Ao movimento permanente em busca de equilíbrio. Você me estabiliza, me diz que eu já cheguei no lugar, que não preciso mais continuar a busca. Isso é o que eu espero, quando aceito que você me siga.

Então me ocupo de você. E de outros mil. Quanto mais seguidores, mais validado estou no meu caminho. Passo a depender dessas opiniões. Onde eu estou? Diariamente estou em vocês. Eu agora me chamo Legião, porque sou muitos. Eu tenho a cara daquilo que agrada a todos, daquilo que mantém todos vocês na linha, na minha linha. Naquilo que eu entendo por método.

Mas eu mesmo já me perdi do método. Eu agora sou vocês. E o que somos?

Eu amaria vocês se vocês fizessem exatamente como eu digo? Eu olho para você seguindo o meu método e você é infeliz com ele. Você é dependente dele, não consegue trilhar seu rumo sem ele. Eu olho para você e vejo meu método inutilizado em você. Eu inutilizo meu método, então. Não. Isso não dá certo para vocês. Não dá certo para mim.

Então estamos perdidos.

Mas eu não consigo deixar você de lado, porquê agora não tenho mais nenhum método para seguir. Ao menos você acredita em mim. Isso vai passar. Tudo passa. Daqui a pouco eu vou saber direito o que precisa ser feito.

Mas não sei. Não tenho tempo de saber. Você me ocupa. Vocês todos me ocupam. Preciso de todos vocês para me certificar de que meu método vai dar certo. Eu estou perdido. Estamos todos perdidos, mas eu estou na frente. Guiando todos vocês rumo a esse abismo que se tornou a minha ausência de método. Aonde vamos chegar com isso? Eu não sei. Não sei mais.

Mas preciso continuar. Eu sou a mentira e por isso, não posso deixar que ninguém perceba minha real natureza. E quanto mais me afirmo nisso, mais dúvida eu sou.

Não! Não venha atrás de mim! Eu agora já te odeio! Você e eu nos culpamos pela infelicidade que disputamos. Eu quero ser mais infeliz que você, porque isso te tornaria mais culpado. E você tem a mesma pretensão a meu respeito. Eu agora fico exigente, intransigente. Eu crio demandas impossíveis. Eu preciso ver quem vai sobrar ao meu lado. Eu preciso ficar só.

Mesmo o último dos meus asseclas me será sempre um traidor. Ele traiu a si mesmo, como poderá não me trair?

Não. Não vou por esse caminho.

Não me siga. Não me obedeça. Não adote o meu método.

Permaneça livre, em você mesmo. Fazendo a experiência segundo a sua particular maneira.

É preciso que eu lide com você desta maneira.

Esse é o único modo de nos mantermos livres.

Eu estarei aqui.

Eu aceito você desta maneira.

Mas não serei seu escravo.

As grandes metas

  • Realizar o propósito.
  • Gerar a fartura.
  • Sentir prazer de estar vivo.
  • Libertação.

Dois dos maiores impedimentos a isso são a nossa brevidade e ignorância.

Essas são as nossas principais doenças. Temos a tendência a viver pouco. A usufruir pouco dessa benção. E ignoramos essa condição.

Realizar o propósito. Na tradução do “Charaka Samrita” está implícita a idéia de um dever. Mas não é algo com a nação, com a pátria ou com as outras pessoas. É algo consigo mesmo. Expressar o melhor que se pode ser, a razão de se estar aqui. Essa é a grande ética, o princípio de tudo. Isso é o que, ofertado a outros, gera a fartura. Perceber esse movimento, perceber esse dom que se extravasa e alimenta o outro. Perceber que a vida é essa abundância é esse dar de si. Gozar a vida nessa dimensão. E fazer isso sem esperar nada do outro. E acima de tudo, sem se envolver com as expectativas do outro sobre nós. Isso é estar livre.

A doença é a manifestação de um obstáculo interno que se interpõe à nossa capacidade de concretizar as quatro grandes metas. Essa contradição absorve nosso tempo e energia vital. E surge porque não percebemos as implicações de nossas ações.

Em todas as grandes tradições surgiram essas prescrições, esses conselhos sobre quais as ações que conduzem à liberdade interna. Em nossa ignorância, nos sentimos aprisionados por essas prescrições e nos tornamos rebeldes a elas. Compreendendo-as como leis externas, nós lutamos contra uma suposta tirania. E então, nos tornamos ainda mais automáticos e estúpidos.

Alguns povos incluíram essas prescrições sob a forma de lei de estado. Outros, inseriram-nas como um código moral ou religioso. Outros ainda incluíram essas prescrições como conselhos sobre saúde e bem viver. E ainda assim, persistimos nessa desobediência, buscando nossa própria maneira de resolver o problema chamado Vida.

A doença

A mente condicionada persegue o contraste para negá-lo.

A sucessão de estímulos vai sendo negligenciada por esta mente. É então agrupada em conjuntos de semelhanças, sintetizada e rotulada.

Então surge o contrastante, o diferente e esta mente se apega a ele enquanto busca um conjunto já existente para enquadrá-lo. Quando o estímulo não pode ser enquadrado, a alternativa mais fácil para ela é negá-lo através de um processo de degradação. A mente condicionada tenta reduzir o objeto às suas categorias mais simples. Tenta reduzi-lo a um amontoado de conjuntos que se agregaram construindo aquilo que se apresenta.

Ainda assim, esse estímulo se impõe pela sua inteireza. Ela então nega a existência do estímulo enquadrando-o na categoria “ilusão”, e o mantém lá. Se o estímulo se impõe, acentuando o contraste, a mente condicionada busca outra maneira de lidar com ele. Ela então cria um conjunto específico para este tipo de estímulo e então passa a buscar algo que se assemelhe a ele. Ela então se intriga ao não conseguir encontrar nada igual. Então torna aquele estímulo algo a ser destacado. E assim o reduz ao especial. O estímulo fica “fetichezado” e a mente se mantêm condicionada, perseguindo um fetiche.

Quando adoecemos, o sintoma é esse objeto que salta à nossa vista. Algo desobedece o nosso esforço em manter a mente na percepção da normalidade, da continuidade. Então buscamos a medicação. A redução do estímulo, do sintoma. Somente quando o sintoma se impõe é que temos a possibilidade de investigar com maior profundidade as causas que o estão gerando. A mente condicionada se põe a investigar as causas, de objeto em objeto, de contraste em contraste. A mente se lança ao labirinto. E então sobrevêm a fadiga e a mente se contenta com as respostas obtidas. Ela agrupa essas respostas num conjunto denominado “realidade”. O sintoma desaparece e a mente segue, perseguindo a continuidade.

O que condiciona a mente? A perseguição da continuidade, da permanência. A mente quer se manter destacada, apesar de tantos estímulos que vêm e vão. Ela quer permanecer, embora os pensamentos e os estímulos não permaneçam. Há esse algo na mente que a mantém destacada dos estímulos e para que a mente não perca esse destaque, ela precisa lidar com os estímulos reduzindo-os a objetos mais simples para que ela os possa manipular. Então esse algo na mente não é a mente em si, porque esse algo parece usar certas características da mente em benefício de sua permanência. A mente em si flui, digerindo os estímulos, reduzindo-os a objetos manipuláveis. Mas esse algo transforma essa função da mente em uma ferramenta para que ele se mantenha destacado.

E o que é ele, em si? O que é esse algo que usa a mente dessa maneira? É um aspecto da mente ou algo alheio a ela?

Quando persigo esse “algo”, não o tangencio. Não o toco. Ele se retrai em mim. Se o busco, ele se dissipa. Parece não existir. Porque quando o busco com minha mente, também me destaco dele. Me parece que sou isso e quando uso a mente para buscá-lo fora dessa identidade, não o encontro. Então reconheço que esse “algo” é uma identidade.

A forma dessa identidade usar a mente para se manter é a identificação. Esse “algo” adere à mente se identificando com ela. Então ele e a mente parecem ser a mesma coisa, de tal maneira que a pouco eu pensava que a mente é que queria se manter destacada. Não. A mente está operando como uma ferramenta desse “algo”, dessa identidade. Esse “algo” usa a mente para se manter destacado e a maneira de fazer isso é através da identificação com a mente. Estranhamente esse algo, que busca o destaque, se oculta por trás da mente. Esse algo quer permanecer  e ao mesmo tempo, não quer ser visto. Que coisa é essa?

Claro! Esse algo precisa se manter fora desta função que ele escolheu para a mente: a de reduzir tudo a objetos mais simples para que possam ser manipulados. Então quando aplico a mente para lidar com esse “algo” ele se simplifica também. E o que se torna?

Se torna essa pergunta, essa incógnita sem nenhuma resposta.

Um vazio completo.

Um vazio e ainda, uma potência.

 

Rebelião

O que faz um homem ser um rei de outros? O que determina a riqueza, o valor, o poder de um homem sobre os demais? O que faz com que o critério de um se sobreponha a todos os outros e determine os limites do crescimento de outros? Um homem, sendo o aval dos demais.

Existe essa intuição que me acompanha faz algum tempo. Eu escutei muitas vezes que, num trabalho, os aspectos subjetivos devem ficar fora da equação. Ninguém tem nada a ver com seus problemas pessoais. O que vale é o acordo coletivo ou a eficácia da tarefa no tempo. Isso é uma herança do fordismo, da linha de montagem e do sistema de controle da energia vital que vem desse sistema inteiro. Mas o que eu vejo na prática é que, quanto mais os aspectos subjetivos dos indivíduos são negligenciados, mais o trabalho conjunto fracassa e mais doente se torna o grupo.

Então há esse homem, o rei. Ele coordena os esforços coletivos em uma direção determinada. Há um acordo aí. Ele diz o que deve ser feito e os outros o seguem. Mas o seguem apenas quando lhes convém. Esse homem vai necessitar de um aparato repressor enorme, na forma de leis, de outros homens que as façam ser cumpridas pela força ou pela lógica que se sobrepõe à dos demais. Entre o rei e sua lei, existem mil homens, cada um deles pretendendo ser o rei dos que estão abaixo dele. Cada um deles defendendo seus próprios interesses em nome do rei. O rei então passa a ser uma máscara.

O rei mesmo precisa honrar a máscara do rei. Essa máscara que se torna a somatória dos entendimentos individuais sobre o poder, sobre a autoridade, sobre a sabedoria. O rei precisa honrar um critério que se expande para além dele e que se torna o critério da época, o espírito do tempo. Então o rei se rebela. Ele mesmo se torna a rebelião e passa a agir conforme seu próprio juízo. Ele quer corromper o papel de rei, quer moldá-lo conforme aquilo que ele pretende que seja. O rei desonra a si mesmo e aos demais e avança cada vez mais esse limite, buscando ser quem realmente é, buscando a ruptura da máscara sem o abandono da função. E então os nobres também se rebelam. Eles passam a agir conforme os seus próprios interesses e exercem seu poder com força ainda maior. Eles oprimem seus servos, agora sem a máscara do rei. Eles apresentam a face dos seus caprichos, totalmente exposta.

O nobre, não sendo o portador da máscara do rei, é apenas um homem mau. Alguém que come, enquanto povo passa fome. Nessa lógica simples de barriga vazia, um homem que não é dono nem do próprio corpo, nem de sua força de vontade, ele decide que o nobre não significa nada para ele. Então busca a destruição da nobreza, e avança contra seu senhor, na intenção de encher a barriga e fugir. A revolução. A torre de Babel. Cada homem falando a língua de seu estômago, a língua de seus caprichos.

O que cria a nobreza, e o rei, e o escravo? Significados. Valores. Papéis. Personagens. Jogos.

Um homem é rei enquanto significa isso e deixa de sê-lo quando o significado se perde.

Então a rebelião é uma questão de significado.

Quando a palavra rei for esvaziada, quando o sentido de um homem estar acima dos demais for ausente, nessa hora, seremos livres.

Enquanto buscarmos em outro homem o aval para os nossos atos, enquanto formos incapazes de ser responsáveis pelos desdobramentos de nossas ações e enquanto pretendermos sujeitar outros homens aos nossos caprichos, enquanto isso, os reis povoarão a terra e a torre de Babel tenderá sempre a se repetir.