Dignidade

Querido amigo,

Eu hoje testemunhei o maior ato de bravura da minha vida, naquele teu olhar.

Eu só posso imaginar a tamanha dor ali contida, naquele luto, naquela despedida, naquela singela rosa depositada com tanto amor.

Eu estava lá e vi. Você, com seus oito anos, um homem nobre como teu pai. Como a tua mãe que hoje nos deixa.

Gratidão querido, desse teu amigo para toda vida.

“Deus te abençoe, filho”. Eu só pude dizer isso.

“Deus te abençoe”.

Economia que gera saúde

Queria partilhar esse aprendizado com o dinheiro. Eu sempre tive um certo rechaço com a idéia de concentração de recursos e desigualdade. Normalmente se cria uma justificativa para a concentração de renda tentando igualar diversidade com desigualdade, dizendo que é natural que algumas pessoas tenham mais capacidade de ganhar dinheiro do que outras e que isso faz com que a renda fique concentrada nas mãos de poucos.

Não entendo que é bem assim, mas entendo essa confusão. No nosso aprendizado sobre a partilha,escolhemos um único mediador para a troca de todos os nossos recursos que é a dívida e não a fartura. A dívida do outro, para comigo e não o meu excesso daquele recurso, que se não for empregado na troca, vai virar lixo.

Então chamamos a dívida de dinheiro e supostamente criamos um isolante emocional para a degradação. Então as coisas passam a “valer” dinheiro e esse valor é supostamente algo objetivo e isento. Tudo pode ser trocado por dinheiro e cada coisa tem seu preço. O preço é dado pela lei de oferta e procura. Quanto menos se tem da coisa, mais valiosa ela se torna. Quanto mais banal, menos valor tem.

O macabro na coisa é isso: você diminui o dinheiro em circulação. Então o dinheiro se torna raro. Com isso, você precisa aumentar o preço das coisas, para que o dinheiro chegue na suas mãos o quanto antes. Para aumentar o preço das coisas, você precisa usar simultaneamente duas estratégias: primeiro precisa comprar barato, isso é usar menos dinheiro para adquirir as coisas; segundo, precisa vender mais caro, parecendo que o preço é justo.

Na primeira estratégia, você precisa degradar o produto de quem te fornece. Dizer que a qualidade não é boa, etc… Para isso, você vai precisar criar para ele um concorrente. Alguém que vende melhor e mais barato do que ele. Qualquer outra qualidade que esse suposto concorrente tenha a mais do que o sujeito em questão serve para baixar o preço da mercadoria. Mesmo que o concorrente não exista na realidade. E para que seus fornecedores não saibam disso, você precisa criar alguma maneira de dividi-los, alguma intriga, alguma coisa secundária. Isso já é o suficiente para que os preços se mantenham baixos.

Na segunda estratégia, basta que você atribua alguma vantagem fictícia ao produto vendido. Quer dizer, você faz exatamente o contrário do que foi feito na primeira estratégia. É preciso que você diga que o seu produto é algo valioso. Único. Você cria valores adicionais ao seu produto. Você pode vender um produto pior, comprado bem mais barato, pelo valor do produto em excelência. O que vale é como você chama o produto e como você agrega valor a ele. O “concorrente” nesse caso é o produto antigo. Que é sempre pior do que o novo, que é mais caro.

Se isso não for possível, crie variações sobre o mesmo tema. Venda tomates menores pelo preço antigo e tomates do tamanho antigo por um preço mais alto. Ou ainda, atribua o aumento do preço a instâncias não presentes, como o governo ou o sindicato. Não importa.

Essas estratégias no lidar com a matéria vão ficando cada vez mais enroladas, no momento em que tentamos estabelecer o valor de um “homem”. Seja através daquilo que ele faz, daquilo que ele significa emocionalmente para mim, não importa… Todo homem tem seu preço. Essa frase sozinha anula completamente toda a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Transforma o homem numa coisa a ser comprada pelo menor preço. Num escravo.

Então eu sou algo que passa a ter que valer mais que o outro. Para isso tenho que diminuir o outro. Ele é mais jovem, menos experiente, preto, mulher, homossexual, nordestino… qualquer coisa, menos eu, porque eu valho mais. E sempre com a sensação de que algo vai mal nessa conta. Porque sempre aparece aquele que é “mais”  que eu. Mais branco, mais bonito, mais inteligente, mais esperto…

E somos lançados ao lugar do fornecedor, ali daquele parágrafo sobre a primeira estratégia. O outro fornece algo melhor que eu e eu preciso me vender mais barato. Preciso aceitar qualquer condição, qualquer troca.

E com isso, o dinheiro passa a valer ainda mais e o homem cada vez menos. Com a mesma quantidade de dinheiro é possível comprar cada vez mais homens e tudo o que eles produzem.

E a concentração acontece dessa maneira, bem simples. E sabemos disso. Sabemos disso e não conseguimos sair dessa ciranda. Porquê?

Não é porque o ser humano é assim, ou qualquer besteira simples dita assim sem pensar. Não. É simples.

O que é que só você veio fazer aqui?

Você: único, diferente de qualquer outro ser humano que exista agora e de qualquer outro que já tenha existido.

Essa é a questão a ser respondida. A única que vale a pena e estamos afastados dela por tempo demais. E ela libera o recurso único que cada um de nós tem a oferecer.

Os hindus tem essa sabedoria das quatro grandes metas, que eu acho muito bonita, embora não tenha servido para resolver a questão da igualdade social na própria Índia: Cumprir o dever (realizar o propósito), Gerar fartura, Sentir prazer de estar vivo e por fim Liberação (fazer as coisas com um fim em si mesmas).

Se ocupar desse assunto e atender a que outros se ocupem desse assunto. Isso seria economia. Partilhar esse recurso e ao fazê-lo, colocar o outro em situação de fazer o mesmo.

Cada um de nós, ocupado em atender a esses quatro objetivos, de forma integral em nossa vida e estaríamos falando de economia, no sentido pleno. Economia de fartura, de recursos renováveis, de vida.

Uma economia que gere saúde.

Autonomia é Rebelião

Na escola eu aprendi que os modos de viver de outros povos eram atrasados e que a história era uma sucessão de progressos que levava fatalmente à Revolução Industrial, depois à Revolução Verde e finalmente à Hiroshima e depois ao Vietnã de Stallone. Na minha adolescência, a ficção e a história se misturaram definitivamente e durante algum tempo, eu cheguei a crer na guerra e na matança como ferramentas de limpeza daquilo que era indesejado. A guerra sendo o Pinho Sol da história.

Então o desconforto de achar algo errado nessa lógica. Esse desconforto e mais a imensa quantidade de hormônios circulando por todos os lados e uma enorme confusão mental.

E eu fui seguindo o roteiro pronto. Seguindo o roteiro pronto daquele que se rebela e resolve fazer as coisas “do seu jeito”. Então, enquanto meus amigos iam por ali, eu ia por lá. Enquanto se meteram a ganhar dinheiro, eu me opus a isso. E achei que essa oposição era fazer o que se gosta e que fazer o que se gosta era não ganhar dinheiro. Neguei o dinheiro. Neguei o meu próprio valor ao negar o dinheiro e o caminho de meus amigos. Na verdade, eu traçava o caminho dos meus amigos ao negá-lo. Era preciso que eu estivesse ali, negando esse caminho, para que aquele caminho se definisse como verdadeiro.

Fui dando o meu jeito de permanecer abastado, mesmo à margem. Mas permanecia dependente daquele caminho, como se aquele caminho também margeasse o meu. Como se, na ausência dessa oposição entre os caminhos, não houvesse nenhum contorno definido entre uma opção e outra. Como se nessa ausência, eu me desse conta de que não tínhamos ali nenhuma opção. Ficar entre alternativas já estabelecidas não significa fazer as coisas do seu jeito.

Qual a escolha real?

Fazer as coisas do meu jeito. O que significa isso? O quanto estou disposto a isso? Isso realmente significa autonomia? Eu precisaria me apartar de todos os outros para fazer as coisas do meu jeito?

Então vamos a isso.

Enquanto eu permanecer à margem, o caminho que impera vai continuar definido. Então não ficarei à margem. Enquanto eu negar esse caminho, ele se afirmará. Então não o negarei. Enquanto me oponho a ele, mas dependente dele eu fico. Não me oporei a ele. Mas também não posso colocar nele nenhum recurso meu. Nada. Nem meu afeto, nem minha mente, nem meus atos.

É preciso cortar a dependência desse outro caminho para que o meu se defina. Então é preciso definir o meu caminho para além da oposição. É preciso ganhar minha própria ação e arcar com a responsabilidade total sobre isso. Coração, mente e braços totalmente engajados nisso que chamo de autonomia. Que é um caminho meu apenas e não tem nada com o outro. Não tenho nada com ele e ao mesmo tempo, busco relação com ele sem me envolver nas suas coisas. Busco o benefício da relação, ofereço o meu melhor e deixo o outro em paz com sua escolha e seu caminho.

E sigo adiante, quando bem entender.

 

 

Despedida

Queridos,

Eu sempre soube que essa hora chegaria, o tempo em que a casa ficaria justa demais para os meus sonhos e seria preciso remover o teto para voar ainda além. Eu estive aqui, com vocês durante todo esse tempo e partilhei um sonho. Lutei por ele dia a dia, construí dentro de mim essa coisa que agora viva, pede para explorar outros espaços.

Eu não posso permanecer na companhia de vocês sem me sentir tolhendo essa coisa. Eu podia dar a mão a vocês e dizer, “não eu venho um pouco mais, eu fico aqui até que vocês se habituem à minha ausência crescente”. Mas não. É preciso ir e já. É preciso que eu vá, que me distancie desse espaço que compartilhamos durante todo esse tempo. Preciso encontrar o que sou fora daí. Preciso ver o que sobra, quando não estou apoiado nessa estrutura que vocês me oferecem.

De minha parte, dei tudo o que pude e sei que vocês também o fizeram. Se não demos mais do que isso, é porque sentíamos que não podíamos, que seria demais para nós mesmos. E tudo bem para mim.

Foi uma honra partilhar da presença de vocês.

Mas agora, eu parto.

E não nos veremos por um longo tempo.

Estarei ocupado semeando esse sonho.

Nunca deixarei de amar nenhum de vocês.

Vou embora sem mágoas, sem nenhum ressentimento.

Nesse peito, só gratidão.

Namastê

(Para meus queridos amigos e amigas do Viavidya, lugar onde atendi nos últimos três anos)

Ação

Considerando a Vida primeiramente como um problema subjetivo. A Vida, sendo um significado para o homem. Então as ações desse homem passam a ser as suas soluções imediatas ao desafio chamado Vida. Algo passa a esse homem e ele então responde a esse estímulo.

De volta à mente. A um certo modo de a mente operar buscando no mundo a completude. Buscando realizar algo no mundo que decifre algo que está num outro modo da mente operar, que é o da interioridade. Buscando obter algo do mundo que traga a sensação de plenitude e nunca encontrando este objeto que permaneça pleno. Porque a mente externa reduz tudo ao tédio, ao mesmo, ao passado, à repetição, à memória.

As ações desse homem passam a ser seu método para resolver a Vida como um problema externo a ele. O homem olha para a Vida e espera obter algo dela e nesse momento, este homem se torna a Morte. Ele busca a vida como um recurso externo a ele, algo que preencha o vazio que é a antítese da plenitude. O homem operando na mente externa é esse vazio. Um vazio buscando algo que o complete. E ele não pode obter nenhuma satisfação usando esse método, porque a mente externa, quando obtiver a plenitude, vai desmembrá-la em pedaços e lançá-la aos quatro ventos, agrupando-a em pequenos conjuntos de insatisfações, até que a plenitude fique reduzida ao tédio. O homem, neste estado, matará a plenitude. Então esse homem perderá o agora e o amanhã. E repetirá o passado até o fim de seus dias, sempre refazendo a mesma ação em busca de um significado para a Vida que o preencha.

O método desse homem passa a ser seu condicionamento. A repetição eterna de uma mesma ação subjetiva, buscando sempre no mundo externo algo que conclua a ação. Um método através do qual ele extraia da vida a plenitude e a degrade em vazio. Esse homem é o diabo e a Vida ao redor dele é o seu próprio inferno.

Há um certo ponto em que alguns homens sentem uma espécie de fadiga do próprio tédio. Esse homem passa a se debater no inferno. Um dia ele acorda e percebe que está vivendo no ontem, que aquele homem diante dele é um homem novo, mas ele olha para ele como se fosse alguém de outra época. Ele se percebe doente e então adoece. Ele encontra a Vida e mais uma vez se empanturra dela, sem obter satisfação. A Vida é insossa. Escassa. Sem graça.

Ele percebe que já tem tudo e deveria ser feliz por isso, mas não consegue. Percebe que não é a presença do dinheiro ou a falta dele. Percebe que não é nada fora dele é algo com ele. Finalmente ele percebe esse vazio e com isso, percebe que tem uma interioridade. E usando a mesma mente externa, esse homem olha para dentro e não vê nada. Ou degrada o que vê, reduz a si mesmo ao vazio. Ele se deprime. Ele se entristece. Ele delega sua possibilidade de agir a outra pessoa. Ele busca mais uma vez uma saída externa. E isso é tudo o que ele pode fazer nesse momento.

E mais uma vez, fora dele, a mesma mente vai degradar o remédio, o método de outro, o livro sagrado, o procedimento, o guru, a Vida em si. Esse homem tem a chance de sair disso, mas novamente ele se torna a morte. Ele ainda acha que Vida é essa busca permanente pelo externo na tentativa vã de escapar da morte, mas a morte é ele mesmo. Ele um dia se cansa disso, ele percebe que o estado em que se encontra é pior do que a morte. Ele então decide morrer. De um jeito ou de outro, esse homem está disposto a romper com os demais. Ele quer sair do inferno. A qualquer custo. E ele não confia em mais ninguém.

Ele é falso para si mesmo e reconhece no outro a mesma farsa. Ele reconhece o inferno.

Ele agora é uma semente de algo.

Quando esse homem encontra o terreno propício, o ambiente adequado, ele se percebe Vida, porque algo dentro dele brota. Ele não sabe o que é. Não está buscando resultado algum nisso. Sabe que não pode buscar. De algum modo, ele sabe que isso é o que ele é de fato, esse algo sem par. Esse átomo.

E ele volta à mesma ação de antes, fatalmente voltará.

Mas não é mais a morte.

Ele é essa semente. E então extrai a Vida de si naquela situação. E a revitaliza. Ele ressuscita os mortos, dá vida ao passado e o atualiza. Ele se reconcilia e o método é refeito.

A ação desse homem é extrair de si aquilo que expressa a Vida em qualquer situação.

Esse é o seu propósito.

 

A memória como toxina

Engraçado que nós aprendemos a valorizar a memória através da educação. Aprendemos a decorar as respostas corretas e somos premiados proporcionalmente. Acertar é repetir o memorizado. Errar é não se lembrar do certo. Então a memória fica super estimada como ferramenta para o nosso discernimento.

Isso vai derivando para muitas coisas que acabam perpetuando o status quo. Daí deriva a falsa premissa de quanto mais experiência (memória) maior a capacidade de dar respostas. Então o antigo é sempre mais certo do que o novo. E vamos ficando com medo das mudanças.

Mas eu não observo que isso é sempre assim.

Porque sucede que alguns idosos nos pareçam obtusos demais e a outros nos parecem sábios? Porque algumas crianças nos parecem superficiais e outras são tão profundas? Acho que isso tem algo a ver com a capacidade de refinar a memória, de torná-la efetivamente útil.

Como todo medicamento, é preciso ter cuidado com a dosagem de memória que vamos usar para avaliar uma situação nova. Se a memória está gerando paralisia, medo, insegurança, obstrução da visão, talvez a dosagem esteja excessiva. É muito difícil se livrar de uma memória tão potente assim. Você não pode negá-la, escondê-la. Os sentimentos que esse tipo de memória provocam são intensos, genuínos. A pressão que exercem é enorme.

Então não se pode usar o recurso da negação para lidar com esse excesso. A memória está ali, íntegra, excessiva, perigosa. Como lidar com ela? Negando-a, seremos violentos com ela. E ela vai revidar isso depois, se tornando mais intensa, porque será a memória do primeiro fato e mais a memória da violência contra a lembrança desse primeiro fato. Então memória gerada em cima de memória. Veneno de feito de veneno.

Estamos no presente, diante de uma situação inteiramente nova e a memória se sobrepõe, distorcendo a nossa maneira de ver as coisas. Como resolver esse impasse? Olhar para a memória como algo que surge agora, entre eu e o fato inédito que se apresenta. Porque estou olhando para essa situação como se fosse aquela? Essa situação presente e inesperada e aquela que já me ocorreu e que me gerou dor, sofrimento ou contradição… Porque aquela situação não foi resolvida de forma satisfatória no momento em que se apresentou, eu estou aqui hoje, carregando-a como um peso. Naquele momento eu não dispunha de ferramentas apropriadas para lidar com aquilo, mas talvez hoje, olhando para essa memória que se interpõe entre o que eu sou agora e esse fato inteiramente novo, talvez agora eu possa fazer algo.

Olho para essa situação atual e somente vejo a memória de um fato que me foi desagradável. Olho e sei que não estou vendo a situação atual ainda, estou vendo o que me passou antes. Como posso agir agora, de maneira que aquilo que me passou antes não me suceda novamente? E agora não é o que foi antes, e então me encontro preso à memória, agindo cegamente em relação ao agora. O que é essa situação nova que não a minha memória? O que realmente é essa coisa e o que é a memória? Posso fazer alguma distinção entre essas duas coisas?

Esse questionamento vai retirando da memória toda a certeza. A memória vai ficando só, na sua inteireza. O fato se atualiza, como algo que foi resolvido daquela maneira por aquelas pessoas naquele momento com base nos dados de que elas dispunham à respeito da situação. O próprio questionamento sobre a “veracidade” da minha perspectiva frente aos fatos contaminada pela memória já presente na situação ocorrida vai eliminando da memória todo teor de verdade que ela possa ter.

Então fico com um fato, que ocorreu de uma maneira tal e que foi interpretado por mim naquela ocasião, sob o efeito das minhas memórias na época. E então me senti vítima daquelas circunstâncias e jurei para mim mesmo que tal situação não deveria acontecer novamente. E então vejo que a mesma situação aconteceu ainda mil outras vezes. Não de fato, mas por efeito dessa memória presente, vivi diversas outras situações sempre significando aquele mesmo fato mal resolvido. E em cada uma dessas vezes busquei uma saída dessa repetição e nenhuma dessas saídas foi satisfatória.

Nenhuma ação externa irá resolver a toxicidade da memória. Nenhuma.

Somente essa operação sobre o significado da memória, sobre a sua subjetividade, sobre as ações externas que tendem a validar a memória e sua supremacia sobre a nossa capacidade de decidir.

Olhar para a memória e extrair dela toda a certeza, até que a dúvida do agora fique cristalina e então, se pode decidir em liberdade, tomando para si toda responsabilidade pelas consequências dessa ação.

 

Explicando o super-herói

Pai, olha só, veja! Um super-herói!

O sujeito em questão era o Wolverine, cara de mau, garras de fora, estampado no baú de um caminhão.

E eu, pai de três filhos homens, que li histórias em quadrinhos até os 25 anos…

Ele tá nervoso. Ele tá assustado. Ele tá muito bravo.

Pedrão, com sua simplicidade em expressar as emoções.

Eu gosto de Wolverine. Ele é forte.

Ai caralho, filho! Ai merda! Gabriel se entusiasma com Wolverine.

Eu gosto mais do Kiriku. Ele é muito esperto.

Ele é corajoso, né pai? – Gabriel parece estar comprando a idéia.

Eu acho filho. Acho mais legal assim. Você lembra da feiticeira Caravá?

Ela tava muito nervosa porque ela tinha um espinho nas costas. – Diz o Pedro.

Ela tava nervosa e ela quebrava tudo e bagunçava tudo. – Reforça o Gabriel.

Ufa. Parece que estamos andando.

Engraçado esses super-heróis. Eu acho eles parecidos com a feiticeira Caravá. Porque eles estão sempre nervosos, sempre quebrando tudo, jogando o carro no outro…

O Homem Aranha ficou muito nervoso. Ele está assustado. – Diz o Pedro.

Pra mim, super-herói mesmo tinha que resolver as coisas que nem o Kiriku. Com coragem e esperteza. Esses super-heróis que nem o Hulk, o Homem Aranha…

O Capitão América, tem o Ben 10… – Diz o Pedro.

O Bátima. – Diz o Gabriel.

Eles estão muito de cabeça quente, filho. Estão quebrando tudo. E eu acho que quando a gente fica nervoso e bate no outro é porque a gente se perdeu. A gente fica sem saber o que fazer e acaba batendo no outro porque perdeu a cabeça.

Lembrando que eu faço muito isso. Lembrando que eu sou covarde com eles. Lembrando que eu me sinto um bosta quando perco a cabeça com eles porque não sei o que fazer e parte do pacote de ser um pai é não saber o que fazer e fazer bosta.

Eu gosto do Hulk. – Diz o Gabriel.

Eu também filho. Eu também. Mas o Hulk é o mais nervoso. É tão nervoso que as calças dele até se rasgam.

É. E ele fica só de cueca. – Diz o Gabriel.

De cueca não, seu malucão! – Diz o Pedro.

É, de cueca. – Diz o Gabriel.

Não é cueca, Gabri. É a calça dele que fica bem pequena e rasga porque ele cresce de tanta raiva. Cresce, fica nervoso e sai quebrando tudo.

Lembrando que eu sou o Hulk. Que eu já fui mais Hulk do que hoje. Que eu sou viciado em ser Hulk. Que eu preciso lutar com esse Hulk o tempo todo.

É. Ele joga o carro no prédio. Ele pega assim ó, e joga lá longe. – Diz o Gabriel.

E as lojas que tem no prédio? E as pessoas que estão no prédio? E o dono da loja? O Hulk fica nervoso e não pensa em nada disso. Ele joga o carro e quebra tudo. Mas tem também aquelas pessoas todas.

É. – Diz o Gabriel.

E tem o Capitão América, o Batman, o Homem Aranha, o Ben 10… – Diz o Pedro.

E eu, sem saber direito como é que isso ia entrar neles, sem saber se estava fazendo bosta ou não, eu então disse a eles:

Filhos, as pessoas que inventaram esses super-heróis, o Hulk, o Capitão América, o Batman, todos esses… eles estavam tentando convencer a gente de que bater no outro é uma coisa legal. Que tem gente que merece apanhar e que isso é certo. Eles fazem isso para tentar fazer com que a gente apóie uma coisa chamada Guerra, que é a coisa mais vergonhosa que o ser humano pode fazer. A Guerra é um monte de gente que bate uma na outra, que quer ver o outro chorando, que quer ver o outro machucado e acha isso certo. A Guerra é uma perda de tempo, uma vergonha. Por isso é que o papai gosta do Kiriku. Porque o Kiriku consegue gostar de todo mundo…

Até da feiticeira Caravá, né pai? – Diz o Gabriel.

É filho. Até da feiticeira.

 

Vida: faça você mesmo (DIY)

Eu sempre gostei disso, de fazer eu mesmo, de descobrir como se faz uma coisa e tentar fazê-la do meu jeito. E ainda assim, eu tenho preguiça. Falta de habilidade. Medo que dê errado. Medo de perder tempo. Medo do ridículo. Medo de errar.

Com o passar dos anos, eu fui adquirindo habilidades que vieram dessa prática de recombinar as coisas à minha volta.

Nem sempre eu sei o que estou fazendo ou como fazer alguma coisa. Mas é muito difícil para mim essa etapa de as pessoas ficarem discutindo algo para ver qual a melhor maneira de resolver um problema qualquer. Eu fico pensando sozinho, a maior parte do tempo. Olhando os recursos à minha volta e pensando se eu não poderia resolver o problema presente com aquilo que já está na minha frente. Sem precisar adicionar nenhum recurso a mais. Mesmo quando eu não consigo resolver a situação dessa maneira, não faço a opção de me juntar aos outros e ficar discutindo. Eu prefiro um mutirão a um debate.

Então eu prefiro fazer, mesmo que eu não saiba como fazer. Prefiro me mover logo e ir explorando todos os recursos que estão à minha volta. Fazendo tentativas e erros. Recombinando formas, possibilidades. Às vezes eu consulto um manual qualquer, para descobrir se alguém já pensou em usar aquele recurso de outra maneira. Ou se o manual prevê algo assim. Muitas vezes não. O manual foi escrito para aquele recurso ser usado somente daquela forma, da maneira mais rápida possível. Então, quando você se vê diante de um recurso que não funciona mais da maneira que está escrita no manual, a nossa idéia é a de que ele não funciona mais. É lixo e precisa ser substituído por outro recurso. E eu ainda duvido disso e continuo investigando. Aquele recurso é feito de recursos menores. É algo que se compõe de outras coisas e talvez algumas dessas coisas ainda sejam úteis à sua maneira.

Então vou acumulando esses recursos inúteis à minha volta. Coisas que eu ainda não sei o que fazer com elas, mas que percebo que poderiam ser úteis de alguma maneira. Chega então esse momento em que eu tenho que dispensar coisas porque não terei disposição, energia ou tempo para usar esses recursos e os espaços de que disponho para guardar o que pode ser útil são limitados. Preciso liberar espaço, distribuir esses recursos de alguma maneira, jogar fora e esperar que aquele excesso sirva para alguém ali adiante. Então descubro que o espaço vazio é um recurso valiosíssimo.

Esses dias eu estava pensando sobre democracia e cheguei à conclusão que é algo desse tipo: faça você mesmo. Porque quando eu desisto de fazer eu mesmo e resolvo contratar um profissional para resolver algo, o sujeito olha para a minha roupa e tenta enxergar o que eu tenho na carteira. O trabalho dele vai valer o quanto ele acha que eu posso pagar. Ele me cobra esse imposto e vê quanto eu consigo pagar disso. Se colar, colou e ele vai faturar muito às minhas custas. Então democracia de representação é isso: um cara que vai mentir para você para conseguir o seu recurso enquanto ele não cumpre o que promete. Faz mal feito, sem atenção e vai embora, largando o problema na sua frente e você ainda vai ter que dispor de mais recursos para resolver.

Então porque eu faço isso? Porque tenho medo de fazer errado, de não dar certo. De pagar o preço pelas minhas ações. Porque não consigo lidar com o outro de forma direta, elejo um grupo qualquer e me faço representante daquelas pessoas. Ou elejo um representante entre eles. E é esse infeliz aquele que vai lidar com os meus desafetos. Se eu não quero que aquele sujeito faça isso, reclamo com o síndico, o guardinha da rua, o gerente da loja, o patrão, o segurança, o vereador, o prefeito, o governador, o presidente. Preguiça de tomar a ação nas minhas mãos. Preguiça de ir lá conversar com o sujeito e ver ele me dizer que o direito dele é mais direito que o meu. Preguiça de ir lá e achar nessa relação quais são os nossos direitos. O que pode ser melhor para nós dois. Preguiça de dizer bom dia pro vizinho e de responder quando ele diz. Preguiça de saber o nome da pessoa.

É em nome dessa preguiça que eu contrato um filho da puta que vai me decepcionar ali na frente, com a ilusão de que estou ganhando tempo, dinheiro e recurso. Não. Não estou. É uma tremenda perda de tempo isso.

Quando eu tenho a disposição, alegria e energia para isso, me junto com esses que estão à minha volta e compartilhamos algo que vai ser legal para todos. Cada um faz o melhor que pode, o melhor que consegue. E o resultado desse arranjo é do tamanho da nossa disposição. Se hoje não foi tão bom, a gente melhora na próxima.

Democracia é esse piquenique com os amigos.

É o dia em que as famílias se juntam aqui em casa e decidimos que vai ser legal colocar nossos filhos para brincar enquanto a gente cozinha alguma coisa e conversa sobre a vida. Estamos em momentos parecidos e de repente o manual do outro tem alguma informação que o meu não tem. O jeito que o outro está tentando viver talvez tenha alguma pista sobre a minha dificuldade em viver. Que recurso maravilhoso esse!

Ou aquele momento, num grupo, numa reunião em que o sujeito diz a coisa de uma maneira que me incomoda e eu tenho a coragem de dizer isso a ele, diretamente. Naquele momento exato e não depois. Não para o outro que está do meu lado, fazendo intriga ou fofoca. Não em nome do grupo ou do partido ou da empresa. Em meu nome. Digo a ele que aquilo me desagrada porque parece que ele está tentando me ferir com aquilo. Ele me diz que não era a sua intenção. Que aquele é o seu jeito de expor as coisas. E então vamos chegando numa maneira em que eu entendo o seu jeito e ele entende que se passar de certo ponto vai me ferir. Vai invadir o meu espaço. E porque eu sou sincero, o outro passa a me considerar. Ele não vai me ferir intencionalmente. E se o fizer, vou perguntar a ele porque ele o fez e ouvir as suas motivações. Eu exponho meus limites e ele expõe os seus.

Não posso ter medo desse sujeito. Não posso criar um governo que me proteja dele. Não serei covarde. Vou cuidar da minha relação com ele da minha maneira. Fazendo eu mesmo, porque isso pra mim é a democracia.

Pra isso eu tenho que ter calma porque os recursos à nossa volta, incluindo a linguagem que usamos, a cultura, etc… já foram tão usados para essa covardia, para essa preguiça, para essa maneira de eleger um representante que me limpe a bunda ou lave a louça que eu não desejo lavar, que é muito comum que eu nem saiba como expressar o meu limite ou aquilo que estou disposto a cumprir numa relação com outras pessoas. Eu mesmo nem sei como agir nessa situação.

Então volto ao meu velho procedimento, que por hora tem dado certo. Ao invés de passar horas discutindo sobre como as pessoas deveriam agir para que aquele encontro fosse bom para todos, eu vou tentando me encontrar com as pessoas. Já ajo em termos de encontro. Não faço planos, não legislo, não me protejo. Me abro. Digo como me sinto, permito que o outro se expresse, mesmo quando ele quer fazer planos e eu não, e sigo adiante.

Democracia não é uma lei para ser executada amanhã. Não é um projeto. É uma prática diária, ou nada.

As grandes metas

  • Realizar o propósito.
  • Gerar a fartura.
  • Sentir prazer de estar vivo.
  • Libertação.

Dois dos maiores impedimentos a isso são a nossa brevidade e ignorância.

Essas são as nossas principais doenças. Temos a tendência a viver pouco. A usufruir pouco dessa benção. E ignoramos essa condição.

Realizar o propósito. Na tradução do “Charaka Samrita” está implícita a idéia de um dever. Mas não é algo com a nação, com a pátria ou com as outras pessoas. É algo consigo mesmo. Expressar o melhor que se pode ser, a razão de se estar aqui. Essa é a grande ética, o princípio de tudo. Isso é o que, ofertado a outros, gera a fartura. Perceber esse movimento, perceber esse dom que se extravasa e alimenta o outro. Perceber que a vida é essa abundância é esse dar de si. Gozar a vida nessa dimensão. E fazer isso sem esperar nada do outro. E acima de tudo, sem se envolver com as expectativas do outro sobre nós. Isso é estar livre.

A doença é a manifestação de um obstáculo interno que se interpõe à nossa capacidade de concretizar as quatro grandes metas. Essa contradição absorve nosso tempo e energia vital. E surge porque não percebemos as implicações de nossas ações.

Em todas as grandes tradições surgiram essas prescrições, esses conselhos sobre quais as ações que conduzem à liberdade interna. Em nossa ignorância, nos sentimos aprisionados por essas prescrições e nos tornamos rebeldes a elas. Compreendendo-as como leis externas, nós lutamos contra uma suposta tirania. E então, nos tornamos ainda mais automáticos e estúpidos.

Alguns povos incluíram essas prescrições sob a forma de lei de estado. Outros, inseriram-nas como um código moral ou religioso. Outros ainda incluíram essas prescrições como conselhos sobre saúde e bem viver. E ainda assim, persistimos nessa desobediência, buscando nossa própria maneira de resolver o problema chamado Vida.

Psico-história

Em Fundação, Asimov postula a existência de uma ciência que mesclaria história, sociologia e estatística para prever com exatidão as ações coletivas de populações muito grandes. A segunda guerra mundial trouxe Goebbels e a guerra fria trouxe a máquina de propaganda comunista e a indústria de publicidade dos Estados Unidos. O mapeamento de tendências começou a ser empregado exaustivamente desde então, chegando hoje às redes sociais e ao controle, pretendido pelo Estado.

Hari Seldon, o criador da psico-história postulava que o comportamento de grandes conjuntos humanos era altamente previsível, embora o comportamento de um único indivíduo fosse absolutamente imprevisível. Mas como o comportamento de um único indivíduo afetaria os rumos da história psíquica de uma civilização? Como a ciência de Seldon determinou a destruição do império galático? Como o “caos” particular se transforma na entropia do sistema inteiro?

“Qual é a idéia, uma idéia simples, acessível ao mais simples dos homens, que fez a humanidade aceitar as doutrinas que a levam a autodestruição?” (RAND, Ayn – A Revolta do Atlas)

Sem entrar em coisas estranhas como a Ressonância Mórfica, de Sheldrake ou a hipótese do centésimo macaco de Ken Keyes Jr., como é que uma idéia, um ato, um movimento simples iniciado por um homem pode afetar a estrutura social inteira, como vemos sucessivas vezes na história? Quais as condições para que esse ato seja assimilado por outros homens e reproduzido? Algo que entre no cotidiano dos homens como um hábito, pouco a pouco,  e que mude de uma vez por todas a trajetória de autodestruição?

Um fractal de movimento, como uma coreografia de Pina Bausch, a música de John Cage ou Philip Glass uma mandala tibetana. Um tema, repetido até o automatismo, gerando um novo fractal, uma nova complexidade.

Não me interessa a observação externa, topográfica da rede. Interessa o pequeno loop que a transforma por completo. Aquele minúsculo ato, em si mesmo libertador porque é imprevisível, a revelação do propósito de um homem que acaba por afetar toda a rede.

É possível gerar um fractal que gatilhe atos de liberdade? Que gere a entropia completa? A imprevisibilidade de grandes conjuntos humanos e a impossibilidade da existência de qualquer império, na terra ou nas galáxias?