Estupra, mas não mata

Recentemente teve essa história da pesquisa do IPEA sobre o estupro, dando conta de que 58% dos entrevistados acham que o estupro acontece por causa de um comportamento da mulher. A pesquisa em questão é parte do Sistema de Indicadores de Percepção Social, que revela uma determinada mentalidade dessa amostragem populacional.

Ok. Que amostragem é essa?

3810 brasileiros, homens e mulheres com idade a partir dos 16 anos. Não consegui encontrar os indicadores de classe social (baseados apenas em aspectos econômicos, como o número de salários mínimos que o sujeito ganha mensalmente), mas dá para ter uma certa idéia de que os entrevistados são pessoas como eu e você. Pelo menos isso é o que garante a eficácia de uma determinada pesquisa.

Você pode ser qualquer um, que eu desconheço. Então vou te dizer quem sou eu. Sou um sujeito que trabalha por conta própria. Não estou empregado em nenhuma empresa, em nenhuma corporação. Aqui em casa, a renda fixa vem do emprego da minha companheira, a Clau, que vende seu tempo para uma Escola.

Nós fazemos parte da classe média, essa coisa cada vez mais misteriosa. Temos uma receita mensal que sempre me parece enorme, se comparada a outras famílias, e gira em torno dos R$ 6mil. Com essa grana, temos que pagar a escola dos meninos, supermercado, feira, petróleo, contas de consumo, prestação da casa, gente que trabalha para a gente, etc…

No dia 12 do mês, já estamos no vermelho. Ou perto dele.

Tem uns quatro anos que nós fizemos uma operação limpeza nas nossas finanças, porque eu perdi o emprego numa escola e a Claudia teve o número de horas aulas reduzido, enquanto estávamos com uma casa em construção, grávidos do segundo filho e cheio de empréstimos para honrar. Nós enxugamos nosso orçamento ao máximo, diminuímos excessos e mudamos hábitos de consumo. Nesses quatro últimos anos, nós conseguimos fechar o mês de dezembro bem. Fomos diminuindo o vermelho na conta e finalmente conseguimos colocar um pouquinho de azul.

Como vamos lidando com a vermelhidão? O banco gentilmente nos oferece um limite de cheque especial. Um crédito. O banco que acredita na gente. Então, o que a gente costumava fazer? Quando a gente ficava muito ansioso, com as contas assombrosamente no vermelho, com aquele negativo todo nos assombrando, a gente precisava muito ver TV a cabo ou tomar cerveja. Ou então, precisava muito comprar aquela oportunidade de ouro.

Eu precisava daquele celular em 20x. Ou do computador. Ou daquele livro, mais um deles, que ia ser empilhado com todos os outros que ainda falta eu ler. Eu precisava ser mimado, precisava que me colocassem no colo e me dessem carinho. E quem é que me dava? O banco. O banco e as casas Bahia. E as livrarias. E aquele site da china que me vende bugingangas que chegam aqui em casa e eu não sei como. O Paypal me salvou.

Eles todos me diziam: pega cara, é seu! Pode pegar. Depois você vê como resolve. Passa a mão. Leva pra casa.

Eles todos iam me colocando na cabeça que eu posso ter o que quiser, não importam as consequências. Depois você divide em 50x, vai pagando um pouquinho por mês. Não precisa pagar, fica aí. Pega mais. É teu. O que é meu é teu.

Então, num país machista, com boa parte da programação constituída por bundas à mostra e mulheres num papel ridículo, então nesse país, a mulher virou um bem de consumo. E é fácil entender porque o estupro é uma modalidade de crédito. O sujeito quer, ele não pode ter, ele tira o pau pra fora e passa na bunda que está na frente dele. E o outro sujeito do lado, ele olha, ele tem nojo, ele quer dar uma porrada no cara, mas por algum motivo não consegue. Ele acha que não é problema dele. Aquela mercadoria não lhe pertence.

Pode pegar cara! Mas não destrói. Não quebra. A bunda no metrô é uma mercadoria no show room. É essa a associação nefasta que está sendo feita.

Tá com desejo sexual?  Estupra, mas não mata. Não quebra o brinquedo do outro.

E seguimos todos sendo estuprados.

Pelo crédito oferecido, pelo salário que é pouco, não importa o quanto você trabalhe, por essas necessidades todas, criadas, fabricadas. Por essa carência sem fim que eu tenho que suprir já, agora, imediatamente. Eu não posso esperar. Não consigo esperar. Não. Eu quero agora!

E isso faz essa máquina toda continuar girando.

 

O Cume

Bancos, Mídia, Comida Industrializada e Petróleo.

Essa postagem no RealFarmacy.com me fez refletir enormemente. São apenas 85 pessoas que detém 46% dos recursos mundiais. Como isso é possível? Essa gente se alimenta dos nossos hábitos.

Os fóruns de economia e alguns grupos políticos se concentram na idéia de que é preciso distribuir renda, entendendo por renda um certo montante de dinheiro que permita a uma família continuar comprando os produtos que vão manter os mesmos 85 no topo da cadeia alimentar. Mas eu de repente comecei a pensar em uma outra abordagem, baseado numa outro escrito meu chamado “Rebelião”: e se nós simplesmente parássemos de depender dessas pessoas?

É possível? Como isso seria feito?

Eu fui criado desde a origem completamente dependente dessa infra-estrutura. Saí da amamentação e cai direto no supermercado. Fui adestrado numa escola e depois caí no mercado de trabalho ao mesmo tempo em que me eram exigidos certos deveres de cidadão da nação. Assumi uma família e me vi endividado com bancos pertencentes a todo tipo de quadrilhas.

Então essa coisa toda me parece uma mãe. Como se aquela teta original tivesse se transformado nessa chantagem horrenda da qual eu tomo parte todos os dias através desses hábitos dos quais eu não consigo me livrar.

E me parece que é isso. É justamente esse o ponto: lidar com o fato de que eu estou viciado nessa estrutura e só posso me liberar dela da mesma maneira que um alcoólatra faz com o seu vício. De uma vez só e ao mesmo tempo, um dia de cada vez. Sabendo que todo o tempo vão tentar me vender os benefícios de permanecer nessa estrutura. E que eu posso cair nessa conversa e levar minha família e meus queridos amigos todos ladeira abaixo.

Onde estão esses nós que fazem com que eu alimente essas 85 pessoas, que estão loucas? Eu acredito que dinheiro é o único recurso que tenho, perdi a noção do meu valor, porque ele passou a ser associado a um preço. Então meu valor é o valor que o mercado me atribui e é preciso que esse valor seja sempre baixo, porque o mercado está me comprando e é preciso que eu esteja em liquidação (ou liquidado, de preferência).

Eu perdi a capacidade de plantar, de cozinhar, de cultivar. Olho para uma planta na rua e não sei se ela é remédio. Vou ao mercado e compro uma carne na bandeja de isopor que quando eu abro fede a carniça. Mas eu a tempero bem e como assim mesmo, porque está cara. Porque carne de mercado é assim mesmo. Porque eu não tenho tempo de ficar na fila do açougue e o dono do mercado sabe disso e me vende a carne quase podre, porque quer ganhar dinheiro porque esse também é o preço dele e ele não pode ficar liquidado ou falido.

Eu fico doente e preciso continuar valendo algo. Eu sou a carne podre na bandeja e peço a um médico que me embale com algum plástico para que o patrão não sinta que estou podre por dentro. O médico também não pode ficar liquidado, porque o convênio paga mal para oferecer a ele um nomezinho e telefone no guia de associados. Ele então me receita uma remédio para o mau cheiro, porque o rapaz da farmacêutica vai dar a ele e a esposa uma viagem para um congresso de medicina. Esse congresso é o tempero do médico e da mulher dele. E o rapaz também oferece a viagem porque sem essa oferta, ele está liquidado.

E me movo de um lado a outro, de uma bandeja a outra, de um plástico a outro, de uma balança a outra. E para cada movimento desses, o petróleo é o que deveria me levar. Mas não leva. Porque eu continuo queimando petróleo enquanto o que não anda é a rua. Eu digo que a estrada não anda, que a rua não anda, mas elas nunca andaram. Elas sempre estiveram ali. Eu é que deveria estar andando, porque comprometo mais de 20% do meu orçamento com petróleo, que me promete esse movimento, mas que não cumpre.

Não cumpre, como qualquer outro desses serviços. Como qualquer coisa dessas. Como esse modelo inteiro, de cabo a rabo, começando pelos meus hábitos.

E é por eles que eu posso começar.

Não conheço essas 85 pessoas. Não saberia diferenciá-los de você ou de mim, porque para mim, somos todos iguais. O problema é tanto poder nas mãos de gente tão louca.

E quando você encontra um louco, é melhor deixá-lo falando sozinho.

Vamos deixar essa gente falando sozinhos?

Você consegue?

Mude os seus hábitos e se libere dessa merda toda!

 

Crise da justiça

Eu fui assaltado uma vez, ali na região da Santa Efigênia. Estava com R$ 800 no bolso direito e um celular Sony, com MP3, que era uma novidade na época. A dupla de assaltantes ficou com o celular e me deixou com o dinheiro e uma bermuda toda rasgada (porque eu resisti, colocando as duas mãos nos bolsos da bermuda enquanto eles tentavam rasgar os meus bolsos para pegar o celular).

Quando acontecia uma ocorrência dessas, quando eu era criança, juntávamos a nossa turma da rua e íamos até a casa do “assaltante” para descer-lhe a porrada e tomar de volta aquilo que ele tinha roubado de nós. Eu era criança e mais selvagem, e a mãe do nosso amigo “assaltante” era autoridade o suficiente para que nós não chegássemos às vias de fato, mas tivéssemos nossos pertences restituídos e a justiça efetivada.

Então eu fui até a delegacia, achando que ia encontrar meus amigos lá. A recepção tinha um cara de mau humor, armado, atendendo mal a uma pessoa que estava na minha frente tentando prestar queixas. Ele olhou pra mim e disse: “que foi?”. Eu tentei contar a história do assalto, mas ele me cortou no meio e disse: “senta aí e espera” e em seguida se virou para um outro policial que apareceu e começou a desfiar o rosário. “São aqueles nóias ali da Rio Branco. Que merda essa delegacia, só tem ocorrência, esses nóias do caralho, os caras podiam ter me mandado para…”

Eu saí, revoltado. Fiquei indignado com o fato de alguém ter sido contratado para fazer um trabalho e reclamar do trabalho, fazer mal o seu trabalho, reclamar quando alguém lhe pede que faça o seu trabalho. E mais indignado ainda de ser eu o patrão e não poder demitir um merda desses. Fiquei indignado de ser praticamente coagido a respeitar um funcionário público que não teve o menor respeito pelos cidadãos ali presentes.

Dois desses meus amigos de infância já foram policiais. Um deles, tenente. O outro soldado. O tenente tinha um tratamento muito diferenciado do soldado, e para ambos, a questão de fazer o trabalho nas ruas era uma espécie de sujeira grossa. Quase um castigo.

Um outro amigo meu é policial federal, trabalha com busca e apreensão. Basicamente ele entra numa favela com um funcionário da Caixa para cobrar empréstimos do Construcard que não foram honrados. E se o cara não paga, ele apreende algum bem em penhora, carro, geladeira, qualquer merda dessas. Lindo de se fazer, não?

Eu fui entendendo o mau humor do delegado aos poucos. Com o passar dos anos, fui colecionando depoimentos que eu nem sei se são sempre reais. Mas fui criando esse perfil do policial para mim mesmo. Um cidadão, lutando pelo seu ganha pão, presta um concurso público em busca de estabilidade financeira, recebe um treinamento e é lançado nas ruas com seu uniforme, uma arma péssima com balas limitadas, um colete que ele mesmo tem que comprar para ser de boa qualidade e depois ganha um salário de merda, então ele tem que fazer justiça, que é prender um outro fudido que nem ele que desistiu da estabilidade e resolveu que vai ganhar dinheiro ou morrer tentando.

Eu sei que os policiais prestam serviço de segurança privada nos seus dias de folga para complementar o salário. Sei também que é prática comum que eles prestem esse serviço com suas fardas, porque isso impõe respeito, que é afastar o ladrão. Então eles cumprem essas escalas de trabalho monstruosas e para completar o seu salário, precisam trabalhar nos dias de folga prestando “consultoria” para alguns comerciantes, bancos, postos de gasolina, etc.

Outro amigo mora num condomínio fechado e teve um vizinho alucinado por causa da cocaína gritando a noite inteira. Ele tem duas filhas pequenas e chamou os policiais. A esposa queria se mudar da casa. O guarda disse: “não esquenta não mano, isso é só cocaína, já vai passar. A casa é sua, não sai não mano.” Meu amigo achou insensibilidade, mas pensou que isso deveria ser coisa normal para o policial. Para que o vizinho fosse despejado do seu contrato de aluguel bastava que o policial tivesse preenchido o boletim de ocorrência com a acusação de consumo de drogas, mas ele achou melhor preencher “chamado por motivo fútil” e o caso ficou encerrado.

Um veterinário comentou comigo que trabalhava numa clínica em que um policial prestava serviço. Houve um assalto num comércio ao lado e esse veterinário viu para onde os assaltantes correram. Todos os moradores sabiam que o policial estava na clínica e foram até lá exigindo providências. Ele fez uma voz de super herói enquanto perguntava ao veterinário: “para onde foram os assaltantes”, ao que o veterinário respondeu “por ali” e o policial então disse “então eu vou para o outro lado” e foi.

Quando voltou, o veterinário indignado, perguntou a ele porque ele tinha ido para o lado contrário. A princípio ele ficou em dúvida se o policial tinha entendido mal, mas o soldado então explicou que ele tinha que prestar conta das balas que usava, que se amassasse o carro numa diligência precisava pagar do próprio bolso, que o colete que ele usava foi ele mesmo quem comprou, porque o colete fornecido é uma porcaria, etc…

E se somam os depoimentos…

Então quando eu vejo os policiais nas ruas, reprimindo violentamente os protestos, eu sinceramente não entendo…

Porque é que eles não estão do nosso lado?

Porque ainda falamos nós e eles?

Eu vejo semelhança no fato de os professores da rede pública serem maltratados pelos alunos e vice versa. Eu entendo que os professores são a tropa de choque do governo, ganhando mal, com a auto-estima péssima, em situação de castigo quando vão para as escolas públicas da periferia e encontram a molecada revoltada com as péssimas condições de vida e a educação de quinta categoria.

Cada um deles, professores, alunos e pais, querendo a tal estabilidade financeira, que consiste em comer merda e bater naquele cidadão que está ao seu lado e resolve roubar a merda do vizinho.

Porque é que não paramos com isso?

 

Querido Abílio

Nós somos pais de crianças que estudam numa escola Waldorf em Embu e estamos tentando que a prefeitura faça valer o imposto que os cidadãos pagam para a melhoria das condições das vias de circulação pública da cidade. Infelizmente, a rua onde a escola se situa é habitada por apenas dez famílias e o secretário de obras da cidade de Embu nos disse que isso torna inviável a sua pavimentação. Por outro lado, ele nos fez a gentileza de apresentar um orçamento estimado de R$ 100 mil para asfaltar 200m de rua. Sugeriu que poderíamos nos cotizar e dividir esse valor em até três vezes sem juros.

De nossa parte pensamos em propor à prefeitura a isenção eterna de IPTU, ou até que os R$ 100 mil sejam totalmente amortizados, nesse caso, sem juros. E a prefeitura mesmo faria o asfaltamento completo da pequena rua, bem como o sistema de escoamento de águas pluviais.

Felizmente para nós, somos seus vizinhos.

No dia de ontem eu descobri esse fator até então desconhecido. Alguns pais  trouxeram a informação de que foi você o comprador daquele haras que havia na estrada do Capuava. Sabe qual é? Aquele que tinha uma mata de eucaliptos que foi toda cortada essa semana, ali perto do templo Budista e da sede dos Arautos do Evangelho. Lembrou? Pois é. Eles comentaram que você tem a intenção de construir ali um frigorífico, para dar escoamento a toda carne que entra na nossa querida metrópole. Houve também a sugestão de que você iria construir uma estrada com quatro pistas até a Régis Bittencourt passando justamente pela região onde fica nossa pequena rua de dez moradores e a escola de nossos filhos.

Eu achei excelente!

Foi apontada a idéia de que poderíamos ver contigo se a nossa rua não poderia fazer parte do seu plano de ampliação das condições viárias da cidade de Embu, uma vez que a rua tem apenas uns 400 metros de extensão (a sim, os valores fornecidos por nosso secretário de obras só serviam para cobrir metade da extensão da rua, numa parte crítica onde os buracos são tão profundos que uma pessoa que desce a rua dirigindo um Land Rover pode subir pilotando o equivalente a uma Brasilia).

Veja, usando a mesma lógica do IPTU, nós todos somos compradores das suas carnes de um jeito ou de outro. A partir de agora, todos nós estaremos levando a sua salsicha também. Então de alguma maneira, estamos colaborando com esse seu projeto de construir o frigorífico ali tão pertinho da escola e de sua parte, seria uma política de boa vizinhança na região. O que você acha?

Nós claro, nos comprometemos a suportar o aumento do tráfego na região e o estupro da mata de eucalipto, bem como o discreto cheiro de carniça, que agora irá nos acompanhar para todo o sempre.

Podemos contar com a sua colaboração?

Uma conversa

Escute, eu não tenho nada a dizer sobre essas pessoas. Eu não acompanho isso, não as conheço realmente. Aquilo que estão mostrando na sua televisão foi feito para que você e eu tenhamos uma conversa sobre aquelas pessoas, uma conversa que eu não tenho a menor intenção de estabelecer contigo.

Desculpe.

Sabe, é muito estranho para mim que todas essas pessoas à nossa volta estejam se ocupando daquelas pessoas na televisão. Daquele atleta ou do outro comediante. Ou do político e aquele criminoso, ou ainda da vilã malvada da novela. De todas essas fábulas, de todas essas histórias da carochinha. Essas opiniões solicitadas.

Então você e eu nos encontramos e você me aborda com a questão da atitude daquela pessoa na novela ou do criminoso que foi mostrado no telejornal. Eu deveria dizer alguma coisa como, nossa, que barbaridade, ou sei lá eu o quê. Mas eu não tenho nada a dizer sobre eles, assim como não tenho nada a dizer sobre papai noel ou outro amiguinho imaginário.

E te pergunto como anda a vida e você diz que está trabalhando muito e que não tem tempo de nada. Ou que o emprego é uma merda e que você só não muda porque não conseguiu coisa melhor. Ou que o filho está com um problema x. Vai arrematar com algo do tipo, fazer o quê, é a vida… Ou graças a deus, isso ou aquilo. Pelo menos não é como fulano ou sicrano…

E você, em algum momento, vai usar sem perceber um roteiro de novela para explicar a sua importância, a minha ou a do seu filho. Em algum momento, você vai usar um jargão que nem sabe de onde veio, você vai atuar como um protagonista de novela das oito. Em algum momento você vai falar assim, vamos falar de coisa melhor. Chega de baixo astral.  E aí, vai sair da novela pro futebol, do futebol para uma piada, da piada para alguma reclamação sobre o parceiro.

Sempre contando basicamente as mesmas histórias, imprimindo o mesmo significado a elas, a mesma importância. Seguindo um programa, que muda de ritmo quando o tédio se instaura e a audiência do outro diminui.

Mas a vida, ela mesmo, ela não está aí.

Não tem vida nenhuma nessas histórias. Nenhuma ação transformadora, nada.

Você acorda amanhã e se encontra aprisionado nessa narrativa, com poucas variações de fluxo, repetindo uma ação cujo produto final é um tédio pior que a morte. E o tempo segue seu curso, até que o ridículo te alcança e você já não sabe mais o que fazer com ele.

O que você deixou aqui para as gerações futuras? Um monte de coisas começadas e não concluídas? Lixo, lixo e mais lixo? Milhares de historinhas sem sentido, enchendo as cabeças dos próximos a herdar a terra? Atrelado à importância que o outro dá ao seu “trabalho”, entre muitas aspas esse trabalho, porque deveria ser uma ação que gerasse algo, efetivo em direção à vida e não o adiamento da destruição que nós chamamos de fazer algo no mundo.

Privando-os de serem pessoas reais, pessoas com histórias reais, com ações feitas por elas, com gente que arca com a própria responsabilidade de ser vivo, único e estar aqui nesse momento junto com todos esses outros fazendo do mundo algo que respire humanidade?

Então, eu não tenho nada a dizer sobre essa farsa. Não.

Não me ocupo dela. Não digo a você que a televisão tem que melhorar, ou que acabaram-se os bons roteiros ou que o ser humano é algo terrível e que devemos ter sempre cuidado com ele.

Eu sou algo terrível porque me recuso a seguir esse roteirinho mamão com açúcar. Eu ajo segundo minhas próprias opiniões, segundo aquilo que eu acredito que deve ser feito.

Eu sou o terror de estado. O desempregado. O não funcional.

Eu me recuso a isso. Me rebelo e não me importo.

Eu estou aqui, agora e faço o mundo a minha maneira. Eu esbanjo isso. Eu ofereço isso a você e não temo o fato de que amanhã eu possa não ter mais disso. Eu tenho. Tive e sempre terei. Sempre darei um jeito de estar vivo. Agindo conforme meu coração, contando minha própria história através de todos esses atos.

Eu olho o hoje, o ontem e vejo essa linha reta implacável que foi se definindo como sendo a marca que deixo nessa Terra. Essa é minha única oferta e a razão de toda fartura. Pegue isso se te serve e se não te serve, me deixe em paz. Siga seu rumo. Encontre sua linha, sua direção. Conte a sua própria história. Se ocupe das suas coisas e resolva-as. Pare de fugir nas histórias dos outros.

Então, só então, quando você estiver realmente vivo nessa terra, agindo dessa maneira, só então nós teremos uma conversa que realmente nos importará.

E nessa hora, não diremos nada. Porque não será necessário.

 

Gargalhada

Não vou conseguir. Não vou.

Os outros não estão vendo como isso é ridículo.

Eu olho para eles e então acho ridículo o fato de eles não saberem que essa situação é ridícula.

Acho essa minha percepção ridícula também.

Então os olhos começam a lacrimejar e eu sinto esse gosto amargo.

Eu preciso falar.

Não.

Não preciso.

Eu só não consigo não falar. É um maldito vício.

A piada, a maldita piada se formou em algum lugar e é perfeita. Eu preciso fazer.

Meu deus! Meu deus!

Eu estou falando isso? Eu disse mesmo isso?

Olhe a cara deles quando eu digo isso.

De onde veio isso? Eu não consigo parar isso, alguém me ajude a parar.

Eles riem.

Eles ainda riem.

Isso tudo é ridículo, meus amigos. Isso tudo!

E eles riem me incentivam a falar mais. Eu não quero mais. Não quero.

Então brota o ódio. Eu odeio todos vocês e essa situação ridícula.

E falo isso, mas todos riem de mim.

E permanecem imersos no ridículo dessa gargalhada que nos levará a morte.

Ação

Considerando a Vida primeiramente como um problema subjetivo. A Vida, sendo um significado para o homem. Então as ações desse homem passam a ser as suas soluções imediatas ao desafio chamado Vida. Algo passa a esse homem e ele então responde a esse estímulo.

De volta à mente. A um certo modo de a mente operar buscando no mundo a completude. Buscando realizar algo no mundo que decifre algo que está num outro modo da mente operar, que é o da interioridade. Buscando obter algo do mundo que traga a sensação de plenitude e nunca encontrando este objeto que permaneça pleno. Porque a mente externa reduz tudo ao tédio, ao mesmo, ao passado, à repetição, à memória.

As ações desse homem passam a ser seu método para resolver a Vida como um problema externo a ele. O homem olha para a Vida e espera obter algo dela e nesse momento, este homem se torna a Morte. Ele busca a vida como um recurso externo a ele, algo que preencha o vazio que é a antítese da plenitude. O homem operando na mente externa é esse vazio. Um vazio buscando algo que o complete. E ele não pode obter nenhuma satisfação usando esse método, porque a mente externa, quando obtiver a plenitude, vai desmembrá-la em pedaços e lançá-la aos quatro ventos, agrupando-a em pequenos conjuntos de insatisfações, até que a plenitude fique reduzida ao tédio. O homem, neste estado, matará a plenitude. Então esse homem perderá o agora e o amanhã. E repetirá o passado até o fim de seus dias, sempre refazendo a mesma ação em busca de um significado para a Vida que o preencha.

O método desse homem passa a ser seu condicionamento. A repetição eterna de uma mesma ação subjetiva, buscando sempre no mundo externo algo que conclua a ação. Um método através do qual ele extraia da vida a plenitude e a degrade em vazio. Esse homem é o diabo e a Vida ao redor dele é o seu próprio inferno.

Há um certo ponto em que alguns homens sentem uma espécie de fadiga do próprio tédio. Esse homem passa a se debater no inferno. Um dia ele acorda e percebe que está vivendo no ontem, que aquele homem diante dele é um homem novo, mas ele olha para ele como se fosse alguém de outra época. Ele se percebe doente e então adoece. Ele encontra a Vida e mais uma vez se empanturra dela, sem obter satisfação. A Vida é insossa. Escassa. Sem graça.

Ele percebe que já tem tudo e deveria ser feliz por isso, mas não consegue. Percebe que não é a presença do dinheiro ou a falta dele. Percebe que não é nada fora dele é algo com ele. Finalmente ele percebe esse vazio e com isso, percebe que tem uma interioridade. E usando a mesma mente externa, esse homem olha para dentro e não vê nada. Ou degrada o que vê, reduz a si mesmo ao vazio. Ele se deprime. Ele se entristece. Ele delega sua possibilidade de agir a outra pessoa. Ele busca mais uma vez uma saída externa. E isso é tudo o que ele pode fazer nesse momento.

E mais uma vez, fora dele, a mesma mente vai degradar o remédio, o método de outro, o livro sagrado, o procedimento, o guru, a Vida em si. Esse homem tem a chance de sair disso, mas novamente ele se torna a morte. Ele ainda acha que Vida é essa busca permanente pelo externo na tentativa vã de escapar da morte, mas a morte é ele mesmo. Ele um dia se cansa disso, ele percebe que o estado em que se encontra é pior do que a morte. Ele então decide morrer. De um jeito ou de outro, esse homem está disposto a romper com os demais. Ele quer sair do inferno. A qualquer custo. E ele não confia em mais ninguém.

Ele é falso para si mesmo e reconhece no outro a mesma farsa. Ele reconhece o inferno.

Ele agora é uma semente de algo.

Quando esse homem encontra o terreno propício, o ambiente adequado, ele se percebe Vida, porque algo dentro dele brota. Ele não sabe o que é. Não está buscando resultado algum nisso. Sabe que não pode buscar. De algum modo, ele sabe que isso é o que ele é de fato, esse algo sem par. Esse átomo.

E ele volta à mesma ação de antes, fatalmente voltará.

Mas não é mais a morte.

Ele é essa semente. E então extrai a Vida de si naquela situação. E a revitaliza. Ele ressuscita os mortos, dá vida ao passado e o atualiza. Ele se reconcilia e o método é refeito.

A ação desse homem é extrair de si aquilo que expressa a Vida em qualquer situação.

Esse é o seu propósito.

 

A memória como toxina

Engraçado que nós aprendemos a valorizar a memória através da educação. Aprendemos a decorar as respostas corretas e somos premiados proporcionalmente. Acertar é repetir o memorizado. Errar é não se lembrar do certo. Então a memória fica super estimada como ferramenta para o nosso discernimento.

Isso vai derivando para muitas coisas que acabam perpetuando o status quo. Daí deriva a falsa premissa de quanto mais experiência (memória) maior a capacidade de dar respostas. Então o antigo é sempre mais certo do que o novo. E vamos ficando com medo das mudanças.

Mas eu não observo que isso é sempre assim.

Porque sucede que alguns idosos nos pareçam obtusos demais e a outros nos parecem sábios? Porque algumas crianças nos parecem superficiais e outras são tão profundas? Acho que isso tem algo a ver com a capacidade de refinar a memória, de torná-la efetivamente útil.

Como todo medicamento, é preciso ter cuidado com a dosagem de memória que vamos usar para avaliar uma situação nova. Se a memória está gerando paralisia, medo, insegurança, obstrução da visão, talvez a dosagem esteja excessiva. É muito difícil se livrar de uma memória tão potente assim. Você não pode negá-la, escondê-la. Os sentimentos que esse tipo de memória provocam são intensos, genuínos. A pressão que exercem é enorme.

Então não se pode usar o recurso da negação para lidar com esse excesso. A memória está ali, íntegra, excessiva, perigosa. Como lidar com ela? Negando-a, seremos violentos com ela. E ela vai revidar isso depois, se tornando mais intensa, porque será a memória do primeiro fato e mais a memória da violência contra a lembrança desse primeiro fato. Então memória gerada em cima de memória. Veneno de feito de veneno.

Estamos no presente, diante de uma situação inteiramente nova e a memória se sobrepõe, distorcendo a nossa maneira de ver as coisas. Como resolver esse impasse? Olhar para a memória como algo que surge agora, entre eu e o fato inédito que se apresenta. Porque estou olhando para essa situação como se fosse aquela? Essa situação presente e inesperada e aquela que já me ocorreu e que me gerou dor, sofrimento ou contradição… Porque aquela situação não foi resolvida de forma satisfatória no momento em que se apresentou, eu estou aqui hoje, carregando-a como um peso. Naquele momento eu não dispunha de ferramentas apropriadas para lidar com aquilo, mas talvez hoje, olhando para essa memória que se interpõe entre o que eu sou agora e esse fato inteiramente novo, talvez agora eu possa fazer algo.

Olho para essa situação atual e somente vejo a memória de um fato que me foi desagradável. Olho e sei que não estou vendo a situação atual ainda, estou vendo o que me passou antes. Como posso agir agora, de maneira que aquilo que me passou antes não me suceda novamente? E agora não é o que foi antes, e então me encontro preso à memória, agindo cegamente em relação ao agora. O que é essa situação nova que não a minha memória? O que realmente é essa coisa e o que é a memória? Posso fazer alguma distinção entre essas duas coisas?

Esse questionamento vai retirando da memória toda a certeza. A memória vai ficando só, na sua inteireza. O fato se atualiza, como algo que foi resolvido daquela maneira por aquelas pessoas naquele momento com base nos dados de que elas dispunham à respeito da situação. O próprio questionamento sobre a “veracidade” da minha perspectiva frente aos fatos contaminada pela memória já presente na situação ocorrida vai eliminando da memória todo teor de verdade que ela possa ter.

Então fico com um fato, que ocorreu de uma maneira tal e que foi interpretado por mim naquela ocasião, sob o efeito das minhas memórias na época. E então me senti vítima daquelas circunstâncias e jurei para mim mesmo que tal situação não deveria acontecer novamente. E então vejo que a mesma situação aconteceu ainda mil outras vezes. Não de fato, mas por efeito dessa memória presente, vivi diversas outras situações sempre significando aquele mesmo fato mal resolvido. E em cada uma dessas vezes busquei uma saída dessa repetição e nenhuma dessas saídas foi satisfatória.

Nenhuma ação externa irá resolver a toxicidade da memória. Nenhuma.

Somente essa operação sobre o significado da memória, sobre a sua subjetividade, sobre as ações externas que tendem a validar a memória e sua supremacia sobre a nossa capacidade de decidir.

Olhar para a memória e extrair dela toda a certeza, até que a dúvida do agora fique cristalina e então, se pode decidir em liberdade, tomando para si toda responsabilidade pelas consequências dessa ação.

 

Take it back

Mãe, eu fiquei dependente de você. Me senti um incapaz e então eu fui deixando que você fizesse todas as coisas por mim, por puro conforto. Então eu me tornei essa coisa excessivamente pesada, preguiçosa e insegura. Hoje eu percebo que você é quem fez com que eu me sentisse um incapaz para que eu me sentisse dependente de você. Mãe, teu nome é corporação.

Pai, eu fiquei dependente de você. Por preguiça e eu deixei de buscar meu próprio sustento e então eu me tornei esse covarde, escondido embaixo das saias de minha mãe. Me senti um incapaz de lidar com o mundo e com os meus irmãos e necessitava de sua constante mediação nas nossas relações. Hoje eu percebo que foi a sua omissão quem me deixou neste estado. Pai, teu nome é governo.

Irmãos, eu fiquei dependente de vocês. Não suportava a vossa presença e fiz da minha vida o esforço de ficar só. Queria tudo para mim, queria que vocês fossem meus escravos, que me atendessem as vontades. Queria anulá-los para que eu brilhasse mais. Eu me sentia um incapaz, um covarde. Hoje eu percebo que vocês também se sentiam da mesma maneira e por isso todos nós estávamos presos nessa condição. Irmão, teu nome é religião.

Hoje eu decreto a minha liberdade.

Ainda pesado demais, preguiçoso, inseguro, covarde, egoísta, selvagem e incapaz eu me liberto da necessidade da presença dessa família na minha vida. Vou construir minha própria família. Serei minha mãe, meu pai e meus irmãos. E os serei à minha própria maneira. Serei a teta, o dinheiro e a companhia de mim mesmo.

Serei minha esposa e meus filhos.

Serei meu próprio chefe, meu próprio governo, meu próprio deus.

Vida: faça você mesmo (DIY)

Eu sempre gostei disso, de fazer eu mesmo, de descobrir como se faz uma coisa e tentar fazê-la do meu jeito. E ainda assim, eu tenho preguiça. Falta de habilidade. Medo que dê errado. Medo de perder tempo. Medo do ridículo. Medo de errar.

Com o passar dos anos, eu fui adquirindo habilidades que vieram dessa prática de recombinar as coisas à minha volta.

Nem sempre eu sei o que estou fazendo ou como fazer alguma coisa. Mas é muito difícil para mim essa etapa de as pessoas ficarem discutindo algo para ver qual a melhor maneira de resolver um problema qualquer. Eu fico pensando sozinho, a maior parte do tempo. Olhando os recursos à minha volta e pensando se eu não poderia resolver o problema presente com aquilo que já está na minha frente. Sem precisar adicionar nenhum recurso a mais. Mesmo quando eu não consigo resolver a situação dessa maneira, não faço a opção de me juntar aos outros e ficar discutindo. Eu prefiro um mutirão a um debate.

Então eu prefiro fazer, mesmo que eu não saiba como fazer. Prefiro me mover logo e ir explorando todos os recursos que estão à minha volta. Fazendo tentativas e erros. Recombinando formas, possibilidades. Às vezes eu consulto um manual qualquer, para descobrir se alguém já pensou em usar aquele recurso de outra maneira. Ou se o manual prevê algo assim. Muitas vezes não. O manual foi escrito para aquele recurso ser usado somente daquela forma, da maneira mais rápida possível. Então, quando você se vê diante de um recurso que não funciona mais da maneira que está escrita no manual, a nossa idéia é a de que ele não funciona mais. É lixo e precisa ser substituído por outro recurso. E eu ainda duvido disso e continuo investigando. Aquele recurso é feito de recursos menores. É algo que se compõe de outras coisas e talvez algumas dessas coisas ainda sejam úteis à sua maneira.

Então vou acumulando esses recursos inúteis à minha volta. Coisas que eu ainda não sei o que fazer com elas, mas que percebo que poderiam ser úteis de alguma maneira. Chega então esse momento em que eu tenho que dispensar coisas porque não terei disposição, energia ou tempo para usar esses recursos e os espaços de que disponho para guardar o que pode ser útil são limitados. Preciso liberar espaço, distribuir esses recursos de alguma maneira, jogar fora e esperar que aquele excesso sirva para alguém ali adiante. Então descubro que o espaço vazio é um recurso valiosíssimo.

Esses dias eu estava pensando sobre democracia e cheguei à conclusão que é algo desse tipo: faça você mesmo. Porque quando eu desisto de fazer eu mesmo e resolvo contratar um profissional para resolver algo, o sujeito olha para a minha roupa e tenta enxergar o que eu tenho na carteira. O trabalho dele vai valer o quanto ele acha que eu posso pagar. Ele me cobra esse imposto e vê quanto eu consigo pagar disso. Se colar, colou e ele vai faturar muito às minhas custas. Então democracia de representação é isso: um cara que vai mentir para você para conseguir o seu recurso enquanto ele não cumpre o que promete. Faz mal feito, sem atenção e vai embora, largando o problema na sua frente e você ainda vai ter que dispor de mais recursos para resolver.

Então porque eu faço isso? Porque tenho medo de fazer errado, de não dar certo. De pagar o preço pelas minhas ações. Porque não consigo lidar com o outro de forma direta, elejo um grupo qualquer e me faço representante daquelas pessoas. Ou elejo um representante entre eles. E é esse infeliz aquele que vai lidar com os meus desafetos. Se eu não quero que aquele sujeito faça isso, reclamo com o síndico, o guardinha da rua, o gerente da loja, o patrão, o segurança, o vereador, o prefeito, o governador, o presidente. Preguiça de tomar a ação nas minhas mãos. Preguiça de ir lá conversar com o sujeito e ver ele me dizer que o direito dele é mais direito que o meu. Preguiça de ir lá e achar nessa relação quais são os nossos direitos. O que pode ser melhor para nós dois. Preguiça de dizer bom dia pro vizinho e de responder quando ele diz. Preguiça de saber o nome da pessoa.

É em nome dessa preguiça que eu contrato um filho da puta que vai me decepcionar ali na frente, com a ilusão de que estou ganhando tempo, dinheiro e recurso. Não. Não estou. É uma tremenda perda de tempo isso.

Quando eu tenho a disposição, alegria e energia para isso, me junto com esses que estão à minha volta e compartilhamos algo que vai ser legal para todos. Cada um faz o melhor que pode, o melhor que consegue. E o resultado desse arranjo é do tamanho da nossa disposição. Se hoje não foi tão bom, a gente melhora na próxima.

Democracia é esse piquenique com os amigos.

É o dia em que as famílias se juntam aqui em casa e decidimos que vai ser legal colocar nossos filhos para brincar enquanto a gente cozinha alguma coisa e conversa sobre a vida. Estamos em momentos parecidos e de repente o manual do outro tem alguma informação que o meu não tem. O jeito que o outro está tentando viver talvez tenha alguma pista sobre a minha dificuldade em viver. Que recurso maravilhoso esse!

Ou aquele momento, num grupo, numa reunião em que o sujeito diz a coisa de uma maneira que me incomoda e eu tenho a coragem de dizer isso a ele, diretamente. Naquele momento exato e não depois. Não para o outro que está do meu lado, fazendo intriga ou fofoca. Não em nome do grupo ou do partido ou da empresa. Em meu nome. Digo a ele que aquilo me desagrada porque parece que ele está tentando me ferir com aquilo. Ele me diz que não era a sua intenção. Que aquele é o seu jeito de expor as coisas. E então vamos chegando numa maneira em que eu entendo o seu jeito e ele entende que se passar de certo ponto vai me ferir. Vai invadir o meu espaço. E porque eu sou sincero, o outro passa a me considerar. Ele não vai me ferir intencionalmente. E se o fizer, vou perguntar a ele porque ele o fez e ouvir as suas motivações. Eu exponho meus limites e ele expõe os seus.

Não posso ter medo desse sujeito. Não posso criar um governo que me proteja dele. Não serei covarde. Vou cuidar da minha relação com ele da minha maneira. Fazendo eu mesmo, porque isso pra mim é a democracia.

Pra isso eu tenho que ter calma porque os recursos à nossa volta, incluindo a linguagem que usamos, a cultura, etc… já foram tão usados para essa covardia, para essa preguiça, para essa maneira de eleger um representante que me limpe a bunda ou lave a louça que eu não desejo lavar, que é muito comum que eu nem saiba como expressar o meu limite ou aquilo que estou disposto a cumprir numa relação com outras pessoas. Eu mesmo nem sei como agir nessa situação.

Então volto ao meu velho procedimento, que por hora tem dado certo. Ao invés de passar horas discutindo sobre como as pessoas deveriam agir para que aquele encontro fosse bom para todos, eu vou tentando me encontrar com as pessoas. Já ajo em termos de encontro. Não faço planos, não legislo, não me protejo. Me abro. Digo como me sinto, permito que o outro se expresse, mesmo quando ele quer fazer planos e eu não, e sigo adiante.

Democracia não é uma lei para ser executada amanhã. Não é um projeto. É uma prática diária, ou nada.