Um novo Nuremberg

Não há inocência ao se trabalhar numa organização que comete crimes contra a humanidade. O trabalho parece purificar qualquer crime e ganhar dinheiro parece eliminar o cheiro da morte. Mas a verdade é que você acorda e põe seu sangue, sua mente e seu corpo na máquina que mata milhões. Depois lamenta a ineficácia do Estado e do Governo, mas você mesmo já abriu mão da sociedade quando se tornou um soldado corporativo.

Você não tem mais horas para se dedicar à sociedade, para ser um cidadão. Você quer apenas votar, num dia de sol, escolher o mal menor e assistir a TV, cansado de ter dado o sangue para a Empresa, em troca da possibilidade de comprar mais cacarecos e de pagar mais contas. O Governo é esse amontoado de funcionários corruptos, numa Empresa ineficiente. Aliás, todo agrupamento humano que não é a Empresa é ineficiente, amador, corrupto.

Aquele Governo do lado de fora da Empresa não se relaciona com você. Ele parece impedi-lo de se desenvolver. Ele tarifa você e você pensa que é injusto, porque aquele Governo não trabalha para você, como a Empresa diz que faz. O Governo não te oferece benefícios. Não te bajula e ainda te tarifa para pagar os pobres, os velhos, os inválidos, os desempregados, os políticos, os juízes e os policiais.

Então o Estado se desmantela numa bandalheira. Os políticos, comprados também pelas Empresas, também eles soldados corporativos, eles fazem o que podem para implementar o novo regime. Atacam por todas as frentes, atropelam os direitos civis. O que são direitos civis, quando não há Estado? Quando não existe ninguém mediando, a não ser o lucro? Os improdutivos, os fracos, os não lucrativos, esses todos… Quem governa para eles? Ninguém.

Enxugam os custos dos nossos direitos e transformam direito em produto, com faixas de preços e níveis de atendimento. E só descobrimos a lástima de serviço prestado quando precisamos dele.

Mas você também envelhece, se deprime, perde o rumo da vida, fica em dívida. Finalmente deixa de ter utilidade para a Empresa e se vê pendurado no Estado. O terror é enorme, porque agora você é o pobre que  o Estado sustenta. Você se recusa a pedir o benefício e se contenta com as indenizações até ser recolocado. Mas seu preço baixa mais e mais. Agora tem um moleque mais novo que você e ainda mais implacável. Ele se vende por um preço ainda menor e é mais eficiente do que você. Você aceita trabalhar por menos, ou não. Mas não dura mais.

Te sobra ser um Empreendedor. Ninguém vai te contratar pelo preço que você vale. Então você abre uma pequena empresa para prestar serviço para as Empresas. Você não percebe, mas agora você é ainda menos que o funcionário, porque paga ainda mais para o governo, com mais responsabilidades. Fatalmente, em nome do lucro e do crescimento, você vai treinar mais moleques, pagando ainda menos, e com isso você vai preparando mais soldados para essa máquina. Gente que trabalha o mês inteiro para comprar o melhor celular que for possível, mesmo que fique em dívida eterna.

Esses serão os homens que matarão o mundo.

Ainda mais rápidos e ferozes do que você.

 

 

 

Dinheiro e Tabefe

Oi. Eu quero te ver pessoalmente.

Não dá para falar o que é preciso falar por aqui. Não é seguro pra nenhum de nós.

Eu sei que você está achando que está sozinho, que os outros estão loucos ou burros, que ninguém vai fazer nada, que não vai adiantar chorar, espernear, protestar, nada…

Eu sei que você está vendo esses senhores sinistros, recebendo seus cargos com a clara intenção de nos manter em silêncio, de retroceder os nossos direitos e de leiloar nossos bens. O Sinistrério é um balcão de negócios escusos. Os donos do golpe não vão aparecer nunca. Nunca.

Sei que parece que não há justiça, com um supremo agindo dessa maneira. Sei que parece que não existem os três poderes e sua independência. Sei que a mídia constrói a narrativa em termos de esperança, paz e vamos mudar de assunto…

Não brigue na sua timeline. Não.

Não se obrigue a corrigir seu parente. Não.

Não escreva em caixa alta.

Não faça piada.

Não ventile memes.

Saia da tela.

Largue o mouse, o celular, o tablet e o i-treco qualquer.

Vamos nos ver?

Nós precisamos construir outra coisa. Mas é preciso que a gente se encontre e converse. Nós precisamos reunir gente como a gente.

Temos que refazer um acordo. Temos que refazer uma nação.

Humanum est

Eu fui crescendo e as coisas prontas do mundo foram aumentando.

Eu digo as coisas prontas, porque quando eu era menino, eu ia criando coisas com pedaços de coisas e fazendo isso, eu aprontava um mundo que se acabava em brincadeira.

No começo de quando eu fiquei grande, eu ainda era esse menino aprontador.
Eu pensei que trabalhar era isso e brincava no serviço, criando coisas que o cliente não aprovava. Num é certo.

Daí peguei o jeito daquilo que funciona pra todo mundo e quando eu vi, já estava fazendo coisas que estavam prontas antes mesmo de eu começar a fazê-las.

Daí a invenção foi se apagando e o mundo ficou cheio dessas coisas prontas.
E por mais que eu trabalhasse, não tinha nada pra fazer.
Já tava tudo feito.

Um dia eu acordei com dor no peito de ir pro trabalho.
Queria ficar na cama, achei aquilo tudo errado.
Tinha boleto, conta no vermelho, prestação e prazo.
Se eu levantasse aquele dia, era só pra ganhar dinheiro que eu acordaria.
Não quis acordar.
Não teve acordo.
Fiquei doente e era remédio que me deram.
Remédio pra eu ficar bom.
Pra amansar o peito.
Pra continuar acertando, fazendo o pronto.
Batendo ponto.

Daí não teve jeito de eu acertar o rumo.
E eu tive que sair.
Fiquei sem serviço.
Sem nada pra fazer.
Sem função nenhuma.
Sem emprego.

No começo eu nem achei falta.
Mas a vida tava toda tão penhorada nas contas, que uma hora eu me desmantelei.
A luz sumiu, cortaram a água, a saúde ficou sem plano e eu tive que devolver a casa.
Sobrou só as ferramentas.

Daí eu voltei pra trás, atrás do menino.
Fui caçar o rumo do acerto.
Fui brincar, zanzando pra lá e pra cá.

Eu queria experimentar coisas novas, mas não sabia botar dinheiro nelas.

Larguei mão dele, então.
Daí eu vi que num era o dinheiro.

Era que eu tinha medo que não gostassem.
Tinha medo de fazer de novo e de novo e de novo… até chegar numa coisa que o cliente gosta, mas eu acho bosta.

Tava com medo de fazer coisa errada.

Daí que eu pensei que a gente não pode levar a vida tentando agradar. A gente tem que se agradar dessa coisa que fica dentro de nós e que nunca tá pronta.

E a gente vai botando ela pra fora, nas coisas que a gente faz.

E que a gente não pode ter medo de errar.

A gente anda sem rumo, mas anda no nosso passo.

E vai tentando e tentando.

E quando cai, levanta.

E uma hora, fica bão.

A prisão

Lançado numa casa sem saída, ele temia o homem de mil faces.

Caminhava desde sempre, buscando a luz do dia. Mas não a encontrava em parte alguma. Sempre a sensação de estar passando pelo mesmo lugar. Sempre a mesma esquina. Sempre a mesma escuridão incerta.

E então, o homem surgia, armado sempre.

Lutavam, espantados um com o outro. Por fim, o homem morria com aquela face para ressurgir no dia seguinte, num outro ponto, numa outra escuridão, com face renovada e a mesma disposição assassina.

O Minotauro não tinha paz em sua prisão e o homem de mil faces era o seu demônio e seu castigo eterno.

O Coyote

Enquanto eu escrevo esse post, na minha mente se desenha um cenário cada vez mais sombrio. São Paulo está sem água, crise anunciada há anos. Os movimentos desenhados por parte da população são: cobrar o poder público, denunciar e especialmente, reclamar do vizinho.

Uma vez eu tive essa sensação estranha, quando o ex-prefeito e hoje ministro das Cidades, Gilberto Kassab, impediu o trânsito dos caminhões na cidade em determinados horários. Os entregadores de combustível protestaram e a cidade ficou alguns dias sem entrega. As pessoas faziam filas nos postos de gasolina.

Também me lembro da mesma sensação quando enchentes terríveis impediam o trânsito pela cidade e as pessoas ficavam desoladas porque não conseguiriam chegar ao trabalho.

Essa idéia de seguir com tudo normalmente, como se nada estivesse acontecendo, isso me assusta um pouco. A professora, na minha timeline, reclamando porque vai ter de ir trabalhar sem tomar banho.

Então compramos galões e estocamos a água da chuva e achamos que podemos seguir mais alguns dias. Fiscalizamos o vizinho lavando a calçada. Exigimos que o governo e a empresa sejam transparentes e revelem quem está sendo favorecido com a escassez de água… E os reservatórios seguem baixando, apesar das chuvas constantes.

Seguiremos passando talco no suvaco, cagando no seco, bebendo água contaminada, tudo para continuar trabalhando, produzindo e consumindo.

Isso pra mim parece o Coyote, do Papa Léguas, caindo no vazio, pensando que ainda tem pista para correr.

Não existe essa coisa chamada “O governo”.

Pense nas eleições do ano passado e veja quantos votos nulos e em branco existiram. Isso sem contar as inúmeras pessoas que votaram num ou noutro candidato para que seu opositor não ganhasse. Um voto chantageado, não uma opção.

Então esses sujeitos que aí estão, quem é que eles estão representando?

AMBEV, FRIBOI, o agronegócio em si. Empreiteiras, Previdência Privada, Bancos, Seguradoras, Conglomerado de mídia, Igrejas. Seus financiadores de campanha.

Enquanto isso, de nossa parte, aprendemos que democracia é produzir e consumir. E cidadania é pagar mais caro pela melhor opção ou reclamar. Que merda é essa? Isso é escravidão, amigo. Enquanto você segue prestando serviço de má vontade nessa empresa, fazendo esse trabalho só para garantir que você possa pagar suas contas e comprar produtos feitos por outras empresas, com a mesma qualidade péssima de serviço, enquanto isso, você não percebe mas é um escravo.

Experimente boicotar o supermercado, por exemplo. Veja quão complicado é. Ou parar de consumir aquele produto que você sabe que vai te gerar uma doença grave. Abandone esse emprego onde você é maltratado diariamente. Esse trabalho em que, de algum modo, você faz veneno para o seu filho e o do seu vizinho tomarem, agora ou no futuro.

Pegue sua energia vital e direcione para algo que gere mais vida. Veja se você consegue pensar em algo. Veja se é fácil. Se vida, para você, não sempre significou essa máquina de moer carne que se chama mercado. Em suas infinitas variações, certificações, diplomas e créditos facilitados. E depois, as dívidas sem fim. E essa dificuldade de abandonar aquilo que não te serve, mesmo quando a catástrofe se anuncia.

Existe água aqui, na quadra de baixo. Um rio, mal gerido pela SABESP, como tantos outros. Existem terrenos vazios no meu bairro. Existem vizinhos, que se não estivessem ocupados com essa lavagem cerebral que tem por mote “trabalho, consumo e vejo TV”, estariam comigo, agora mesmo, construindo reservatórios…

Não é preciso ser especialista em nada, para resolver esse tipo de coisa. Um grupo de pessoas dedicado a isso, empenhado na sobrevivência de sua comunidade e tudo se resolveria localmente.

Essa empresa que administra nossa água se converteu num Leviatã. Não sabemos quem lucra com nossa penúria e muito menos quem ainda continua recebendo água diariamente enquanto bairros inteiros permanecem sem água. É a prova mais que evidente que, para nós cidadãos, essa empresa consiste num obstáculo ao nosso direito democrático de gerir a nossa própria água.

Isso, só para começar.

Água, alimento, moradia, saúde e a educação dos seus filhos. Para perpetuar essa idiotice ou para tomar de volta o que é meu e seu?

Decrépita democracia

Eu hoje me dei conta de que faço parte de alguma minoria.

Eu não estou envolvido em militância partidária faz algum tempo. Não acredito nisso. Tenho procurado outras maneiras de viver a democracia e isso implicou em mudar meu estilo de vida, abrindo espaço na minha agenda para me envolver em participação social em alguns itens que realmente são essenciais para mim e minha família.

Então eu hoje faço parte do Conselho de Pais da escola dos meus filhos, trabalho atendendo as pessoas que precisam de amparo emocional para decidirem seus rumos de vida em situações de crise, acompanho alguns produtores orgânicos e ainda fico pensando o que mais eu poderia fazer com meus vizinhos e amigos para resolver as necessidades que temos em comum.

Mas existe o macro. Existem essas empresas que nos prestam serviços horríveis a preços exorbitantes com a anuência do governo e de seus órgãos reguladores. Existem essas corporações cuidando de bens essenciais, como a água e os nossos alimentos, fazendo o que bem entendem com eles, também com a anuência do governo.

E eu sei que a muito tempo, aquilo que chamamos de “governo” na verdade é uma fachada para negócios escusos entre proprietários, e nós estamos de fora. Nós trabalhamos para essa gente e pagamos impostos para eles. Nós consumimos as coisas que eles nos vendem. Pagamos produzindo, pagamos comprando, pagamos vendendo, pagamos jogando no lixo. E com o que pagamos? Com nossa energia vital, principalmente. É ela, e não o dinheiro, o que está em cheque aqui.

Então nos pintam esse cenário de escolhermos entre vermelhos e azuis. E nessa eleição, ainda tivemos a opção do magenta, além dos habituais tons de azul e vermelho, chegando ao preto absoluto em ambos os lados. Mas não há nada real ali. Os candidatos todos têm alguns minutos por dia para nos convencer a escolhê-los. E como fazem isso? Criando drama.

Os marqueteiros constroem esses personagens durante meses e os vão adequando ao sabor das pesquisas. É uma enorme novela, o que vemos como campanha eleitoral. Vemos os debates e pensamos que significam algo. Mas não significam nada. Às vésperas das eleições eu tinha amigos me pedindo opinião sobre os deputados estaduais e federais. Gente que sabe que esses sujeitos vão lidar com as nossas leis e com os nossos direitos. Eles não sabiam onde encontrar a informação de que necessitavam. Não sabiam onde encontrar programas de governo e projetos de lei. Não tinham energia vital disponível para estudarem esse assunto e realmente decidirem em quem iriam votar.

Então temos esse resultado realmente assombroso nestas eleições:

39,9% dos eleitores optaram por não lidar com esse assunto. Ou votaram nulo (10,17%) ou em branco (10,18%) ou se abstiveram (19,55%). Isso referente às apurações para deputado estadual, aqui em São Paulo.

E então, se olharmos para os mais votados, temos Telhada, Xerife do Consumidor, Feliciano e toda uma gente que representa soluções simplistas, radicais e pouco prováveis, atacando algum “culpado social”, exatamente como foi feito na Alemanha de Hitler. São candidatos-produto, criados para satisfazer alguma demanda emocional da população.

É um indicador de pânico social. De impotência. Parece burrice, mas é impotência e falta de vivência do que é decidir em grupo…

Vamos ter muito trabalho pela frente… Existe algo sem nome que precisa ser articulado, no lugar dessa farsa que virou nossa democracia…

Eu me recuso a olhar para o resultado dessa eleição e achar que isso tem algo a ver com o país. Não é. Não foi o outro quem votou errado. Quase 40% das pessoas não achou que essa eleição iria mudar alguma coisa. Boa parte dos sujeitos eleitos foi criado dramaticamente para atender uma demanda emocional da população. É um indicador de esse modelo não funciona. É preciso ir além das urnas e começar a construir outra coisa. Não basta reclamar do vizinho. Não basta dizer que não temos opções. É preciso investir energia no que queremos construir. Se não são mais os políticos ou partidos, que seja outra democracia.

Mas é preciso agir.

 

 

Quadrilha

Eu sinto que é impossível ter qualquer opinião útil sobre o que está acontecendo. Me parece que estamos todos com os ânimos exaltados demais e nos deixamos influenciar por qualquer coisa que tenha o leve aroma de informação. Mas os fluxos de informação estão todos congestionados por um estado de “suspensão pelo terror”, que nada do que vejo e ouço me parece real. Não me refiro à informação que viria da mídia tradicional, porque faz algum tempo que não procuro esse tipo de canal para me informar. Tampouco o canal que utilizo habitualmente, que são alguns blogs e as timelines de alguns amigos queridos, porque os amigos são sempre a melhor fonte de informação, mesmo quando você não concorda com nada do que eles estão falando.

Não.

As ruas mesmo. Meu trajeto para o trabalho ou as visitas ao supermercado. A conversa entre as pessoas num ônibus e suas opiniões sobre o que “está acontecendo”. O que “está acontecendo” é o mesmo de sempre. O cara continua “fazendo” as mesmas coisas, tentando seguir seu programa diário e então, surgem essas histórias sobre a escassez futura. E o sujeito começa a imaginar o que ele terá que fazer para seguir seu programa, mesmo com essas novas condições, que ainda não se manifestaram. Ele vai preparando essa reação. Vai cozinhando essa resposta ao mundo dentro dele, com uma imaginação que vai crescendo a cada nova informação fragmentada que ele recebe.

As pessoas imaginam que sabem o que é a mentira. E isso não é o problema. A mentira é sempre a opinião com a qual eu não concordo. Isso é fato. O problema é que as pessoas sabem que não têm a menor idéia do que é a verdade, porque não recebem a informação completa e não conseguiriam lidar com ela, de qualquer modo. Então, entre a cruz e a espada, optam pela imaginação e pela manipulação. Estão sozinhas em sua opinião e buscam amparo no outro, tentando convencê-lo de uma história que contam para si mesmas, sobre um futuro terrível onde serão obrigadas a abandonar o programa que cumprem a contragosto em direção a algo absolutamente incerto e ameaçador.

Então as histórias sempre carregam esses mesmos elementos: aqueles que instauram o caos e a necessidade de que as forças da ordem se instaurem. Mas quem são as forças da ordem nesse momento? Aqueles que clamam justiça, se entendendo como vítimas de algo a que se sujeitam? Ou aqueles cujo programa consiste em eliminar as opiniões com as quais eu não concordo? Cada fragmento isolado em si mesmo, com as mesmas demandas e a mesma sensação de que a mentira é o outro.

E em mim sempre a sensação de que nos bastidores existem forças que operam quando os homens se vêem acuados por sua imaginação. Forças que lucram com esses movimentos precipitados.

E mesmo esses homens das coxias, mesmo eles, agora não detém um pensamento único. Estão em guerra entre eles, lutando para ver quem se alimentará do nosso terror. Então se expõem mutuamente, elaboram histórias sobre escassez para expor o adversário ao ridículo, enquanto exaltam seus acertos também fictícios. Recolhem informações que sejam suficientes para gerar na população o estado de terror desejado. Ficamos sem referência alguma, acreditando que o estado de terror se deve à uma polaridade não resolvida entre ordem e caos e já não sabemos quem pertence a que lado.

Enquanto isso, os homens das coxias investem pesado em ambos os lados da equação.

O que percebo é que isso nos coloca numa situação extremamente reacionária. Esse estado de terror faz com que entremos em modo de sobrevivência e nesse ponto, sacrificamos nossa parca racionalidade e capacidade de uma ação que vá além de cumprir um programa inútil e isolado. Nesse lugar, estamos prontos para as soluções milagrosas, as revoluções e os golpes.

Para mim, a pergunta continua sendo sempre a mesma: quem está ganhando com o homem que cumpre um programa, mesmo que o mundo caia ao seu redor? Quem é que diz “olha a cobra!”, para depois dizer “é mentira!”, levando a quadrilha de um lado a outro do arraiá?

O sintoma

Eu venho trabalhando essa idéia de que um líder é o sintoma da fragilidade de um grupo. O que não quer dizer que eu tenha abdicado da importância temporária de uma liderança.

Em dada circunstância, nos trabalhos em conjunto, quer por estreiteza das diversas perspectivas, quer seja por uma escassez objetiva de determinado recurso, o grupo se vê empacado na tomada de decisões, com diversas opiniões sobre um determinado assunto e dificuldade em levar a termo qualquer ação.

Nesses momentos de processo, por ansiedade ou determinação, surgem alguns indivíduos que se destacam através de uma iniciativa que abre passagem para o crescimento de todo o grupo. Esse é o líder, alguém que localiza um recurso onde os demais só percebem escassez.

A grande questão é que esse movimento acaba gerando prestígio para o indivíduo, através do reconhecimento por parte dos demais. Em muitas circunstâncias a iniciativa individual acontece porque o sujeito resolve agir, apesar das deliberações do conjunto, mas em casos ainda mais numerosos, o sujeito já se move dependendo do mérito que obterá dos demais. Já se move em busca de uma autoridade sobre os outros, o que significa que os outros lhe cederão a autonomia de suas ações por algum tempo(Assim deveria ser!)

Esse movimento em busca do reconhecimento já é o sinal de que algo vai mal na equipe. Por algum motivo, este sujeito se lança em busca de algo que o destaque dos demais e provavelmente, já se acentua o processo em que ele se sente desvalorizado por qualquer motivo. O que para mim é um indicador de que os processos de comunicação do grupo não estão funcionando à contento.

Por isso a manutenção do poder de um indivíduo sempre se dá às custas de uma comunicação direta e clara entre os indivíduos do grupo. O sujeito terá que se transformar na figura central em termos de comunicação, centralizando todas as respostas sobre aquele determinado assunto. Com o tempo, sua memória individual sobre os passos requeridos para se resolver aquela escassez temporária passará a se sobrepor sobre a capacidade dos outros indivíduos do grupo de desenvolverem outras iniciativas igualmente eficientes, segundo as suas particulares maneiras, o que abriria espaço para o grupo desenvolver-se ainda mais. Nesse caso, a cegueira de um passa a ser a cegueira de todos.

Ainda mais grave se torna esse processo quando este indivíduo passa a centralizar respostas para todo tipo de problemas. Neste caso, os demais membros do grupo abrem mão de sua autonomia em favor de “crenças” individuais sobre diversos assuntos. Então as ações se vêem tolhidas pela estreiteza de perspectiva de um indivíduo. E o mesmo sujeito se vê desprendendo enormes quantidades de energia para manter restrito o circuito de comunicação, usando todo tipo de estratégia para desqualificar as opiniões e impressões dos demais membros. Passa a buscar uma monocultura de mentes: a sua. O que é  sinal de doença e escassez.

Com o andamento desse processo, abre-se um hiato entre aquilo que os indivíduos declaram que irão realizar em benefício dos demais e aquilo que realmente fazem. Isso transparece pelo alargamento dos prazos na realização das tarefas. Possivelmente é um sinal de que aquele grupo não atende completamente a demanda daquele indivíduo e que ele precisa dividir seu tempo e suas prioridades com outras associações grupais. Isso passa a ser um indicador de problema no grupo em questão quando os indivíduos justificam sua inação neste grupo por estarem engajados em atribuições de outros grupos, realizando uma comparação que não possui nenhuma lógica coerente para o grupo, somente para o indivíduo em questão.

Fatalmente isso vai levar à dissidências, porque é o único recurso que o grupo dispõe, nesse tipo de processo, para novamente abrir espaço para lideranças emergentes e a diversidade.

Quando há suficiente autocrítica no grupo, a emergência das dissidências consiste num impulso para que os posicionamentos sejam revistos e em alguns casos ou ocorre uma alternância de líderes ou o próprio líder abre mão do papel que lhe consolidou no poder.

Liderança, acompanhada de comunicação direta, aberta e disposição para partilhar com os demais o conhecimento obtido por uma ação só pode implicar em autonomia. Para isso, o grupo precisa ter como acordo a autonomia completa dos indivíduos. Sob nenhum pretexto pode haver um ser humano acima dos demais. Mas a agenda do grupo não pode conter nada além do ser humano.

Manipulação é violência.

Poder é discriminação.

Um líder pode deixar de ser alguém que manda e se tornar alguém que orienta um processo consensual sem deixar de contemplar as iniciativas individuais, as lideranças emergentes, os novos focos de ação.

Diversidade é força.

 

A tradução do ir-se

No passado, eu teria apenas ido para uma outra geografia e estaria distante de você e de seus assuntos. Mas agora, com tantos aparatos, você me demanda mesmo à distância. Um número de celular e já estou novamente nas suas coordenadas, recebendo seus pensamentos e suas preocupações e sua idéia de que eles me pertencem de algum modo. Demandando as minhas ações para os seus problemas. Trocando isso por algum afeto existente entre nós. Usando o afeto como a moeda, agora de forma clara.

Então um recado e suas garras se estendendo ao meu redor, pretendendo me mover novamente para a sua órbita. Não.

Não farei. Não me moverei. Não resolverei seus problemas.

Não tenho nada com eles e só me importo com o fato de que você ainda não compreendeu a noção de distância.

Me deixe em paz.

Chiaroscuro • A predominancia da visão

Sendo um blog, eu posso me dar ao luxo de publicar um artigo incompleto, uma reflexão ainda em processo. Não é uma tese, ou dissertação e ainda me faltam mais dados para expor claramente essas associações. Então elas ficam no lugar onde o artista predomina sobre o cientista, e logo ali adiante, num outro artigo ou numa conversa qualquer, a idéia brota inteira.

Celeritas, (velocidade ou a relação entre tempo e espaço) é a origem do nome da constante c=299 792 458 m/s, que corresponde à velocidade da luz no vácuo.  Um objeto a altas velocidades, próximo à velocidade da luz, não pode ser acelerado até, ou mais que, a velocidade da luz, não importando quanta energia é transferida ao sistema. Matéria estando sempre abaixo dessa velocidade, não importa quanta energia se transfira ao sistema. Quanto recurso se use para isso.

A quantia máxima de energia que se pode obter de um objeto é dada pela massa do objeto multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. E então, estamos limitados a isso, essa é uma espécie de cerca para os objetos materiais se manterem como objetos materiais, ali adiante, perdem coesão, perdem consistência e geram enormes quantidades de energia nestes processos. Uma energia que desintegra o objeto material como tal, que não lhe permite a continuidade. Então, em direção à luz, objeto material se converte em algo similar à luz, mas tal movimento não lhe acrescenta nada. Ao contrário, lhe desintegra completamente. Ele muda de qualidade.

E mais as equações complexas e mais as elocubrações sustentadas nessas equações. E mais o trabalho de mil homens e a prova cabal disso, de que a matéria convertida em energia se transforma em morte, quando bombardeamos Hiroshima. Então, essa violência nos colocou uma barreira. E dali em diante, a matéria e seus processos passou a ser cada vez mais degradada. E com isso o corpo. E todos os outros sentidos que o conectam com o mundo.

Me parece que a equação é a bomba. A grande bomba, antes mesmo de ser detonada. E a detonação como trauma da equação, nos limitando a esse axioma de que, rumo à luz, estamos fadados à morte. E=mc² sendo o Cristo crucificado, a morte do Deus elevado à luz. Então, nos contemos. Paramos aí. Não seguimos adiante. Não avançamos ante à realidade paradoxal que a morte e o além da luz nos propõe. E nossa vida material perde atributos e valores.

Não te parece o mesmo? O mesmo recurso traduzido em novo idioma, em nova época, em nova cultura, mas o mesmo limite? A mesma luz, usada como cerca, o mesmo círculo de giz?

Fadados a permanecer sempre aquém desse ponto onde o particular se converte em movimento para fora, em movimento em direção a algo, sendo esse algo o outro eterno, a realidade para além da cerca do indivíduo.

Que passa com essas metáforas de realidade? De onde surgem essas idéias? E porque, para mim, a imagem de Einstein não difere em nada das construções taoístas de Yin e Yang, da árvore sefirotal Cabalística, do Zodíaco de diversos povos, do Arqueômetro?

Sete cores do arco-íris, doze cores somando as primárias, secundárias e terciárias. Sete e doze, aparecendo milhares de vezes em distintos povos para dividir distintos atributos. Luz e trevas, claro e escuro. A luz, aquilo que possibilita o horizonte e as trevas, que nos colocam em contato com os outros sentidos do corpo. Com aquilo que ouvimos, tateamos, sentimos de dentro de nós mesmos. Com a nossa introspecção. Com aquilo que sentimos para além do que deveríamos estar vendo.

E as ilusões visuais. O rei, vestido de ouro. O rei sol. O máximo em luz. Aquele a quem nós empoderamos porque é um deus. A fronteira para além da qual está a morte certa e a desintegração. E então, o cidadão-corpo, o cidadão-partícula, o cidadão-matéria, ele se conforma com a sua condição. Ele sonha. Ele é lançado nesse mundo de sonhos, onde a luz é algo a ser evitado para que a mente permaneça mais tempo sonhando. Ele abre o olho e então, as ilusões lhe são lançadas. A cerca está lá. A luz, gerada por outros para que ele permaneça ali, sendo particular em seu medo da morte.

E no corpo, o cidadão sente a fome, a escassez, a violência, a presença indesejada de um outro que se converte numa matéria tão suja quanto ele. Seus impulsos em direção ao outro são contidos por decretos, por religiões, por ameaças de todo o tipo. E ele segue só, sentindo que essas coisas são suas. Lhe falta a luz, para perceber o outro à distância. O outro com sua peculiaridade, distinto, mas ainda, o mesmo humano que ele. No escuro, ele só sente a si mesmo. E quanto mais registros de sofrimento tiver do próprio corpo, mais terror ele terá da luz, porque a luz desde sempre significou a morte.

Para onde vamos, quando a luz deixa de fazer sentido?

Para onde vamos quando não estamos atrelados àquilo que vemos e sim aquilo que sentimos? O que diabos é isso que chamamos de energia, que é maior que nós, que está em nós, que processamos de diferentes maneiras inclusive, vendo a realidade de maneira ilusória. Atrás dessa cortina chamada percepção visual.

Atados ao ritmo circadiano, agimos na luz e sonhamos nas sombras. Isso tem alguma relação com o hipotálamo, que regula nossa homeostase (capacidade de adaptação térmica),  conecta-se ao sistema endócrino (todas as secreções hormonais que regulam a química interna do corpo), e o sistema nervoso autônomo (sistema neurovegetativo ou sistema nervoso visceral – o lugar de excelência do centro Vegetativo, de Gurdjieff e Silo). O controle do sistema da vida está intimamente relacionado com a percepção do dia e da noite. O hipotálamo era chamado pelos egípcios de “Olho de Hórus” (o deus dos céus – ou da percepção do dia e da noite, pois um olho do deus era a lua e o outro o sol).

Não é possível atuar sobre esse aspecto do sistema nervoso voluntariamente, quer dizer, um indivíduo controlar o próprio sistema  nervoso autônomo (mas existem relatos de grandes iogues que chegaram a isso). No entanto, você conseguiria uma atuação sobre o sistema nervoso de outros seres humanos se fosse capaz de alterar a percepção deles do ambiente circundante. Como?

Manipulando a imagem. Gerando dia e noite a partir de imagens. Atribuindo significado a determinadas imagens poderosas. Representações de forças titânicas do homem como se fossem figuras externas, na forma de deuses e mitos.

Então você engendraria em milhares o temor à morte pelo temor à lucidez. E os manteria presos a um sonho.

Essa técnica tem sido usada milhares de vezes em distintos momentos da história e funciona repetidas vezes. Do mito de Prometeus  à Lúcifer, de Mitra a Cristo até chegar em Einstein e sua equação. A mesma tradução da luz como limite. E depois da luz, a noite paradoxal e sem imagens.

Por isso algumas iniciações podem ser assustadoras para o status quo. A idéia de “iluminação” (novamente a luz), de acordar de um sonho, de união com o divino, de realizar o propósito, de liberação e finalmente, sair da cerca e do circadiano.

Lucidez vai implicar em ação. Ação verdadeira. Ação conectada com o propósito, com a Verdadeira Vontade.

Dharma.

E rebelião.