Um caminho para morrer

Tão protegido do tempo, o homem de hoje tem dificuldades para o morrer.

As coisas que ele ainda não tem o lançam para o futuro, sempre sendo o mesmo que o ontem. O domingo antecedendo a dura segunda. O assunto do momento, automatizado pela mídia. A conversinha sem sentido, sem sentimento. A fofoca requentada. A vida seguindo automaticamente, salário após salário, conta após conta, dívida após dívida. A vida em débito automático.

Deus é o papai Noel pelado e sentado nas nuvens, que dá presentes o ano inteiro, desde que você fique devendo um pouco mais. Graças a deus! Não é de graça.

Com diversas opções para falsamente escolher e ser previsível nos sabores tutti-frutti, hortelã, morango, abacaxi, anis, cereja radical e uma miriade de sabores e cores fabricadas. No horizonte, um outro concorrente, igual a você, só que com o cabelo azul e um celular diferente. Respire fundo, coloque o peito para a frente e se faça mais forte. Repita a frase do momento, a opinião inteligente do momento, o jargão do momento. Se faça aceito. Mostre que é melhor que ele que mostra que é melhor que você. Mais do mesmo. Mesmo do mais.

Acorda, abre o olho e lembra que não tem dinheiro para pagar as contas do mês. A garganta se fecha, pensa em pedir emprestado e se lembra que já pediu, porque no mês passado ou no outro ainda já havia tido esse pensamento quando o dinheiro também acabou. Na melhor das hipóteses, vai trabalhar pagando imposto automaticamente quando o dinheiro cai na conta. Pagando as contas automaticamente. O dinheiro sempre cai na conta. Na dele ou na de outros. Ultimamente, mais na de outros do que na dele. Caindo na dívida, mês a mês, enquanto o dinheiro deixa de cair. Pintando também a dívida de vermelho, como tudo que é mal: menstruação, comunismo e fanta-uva.

Ele gosta do que faz? Ele gosta do que faz? O que ele faz? Compra e paga? Paga? Ultimamente, compra a crédito. Um dia eu pago. Um dia antes de morrer. Um dia. Amanhã não devo mais. O que ele faz? Ele quem é?

Ele é quem deve.

E a culpa não é do governo nem do patrão. A culpa é dele mesmo que gasta mais do que pode comprar. Por isso deve. Porque não sabe economizar, apesar dos eletrodomésticos dele serem todos de linha branca e do celular, que já não funciona, ter sido comprado em doze vezes sem juros. Apesar de ele escolher o sabão em pó mais barato que já deixa as roupas mais brancas para ele não ter de comprar mais um produto só para deixar as roupas brancas. Ele que tenta fazer compra do mês no atacadista para comprar a preço de fábrica.

Ele quem é?

Ele é o que reza pouco. Que tem pouca fé. Que não está acreditando muito em deus porque está demorando um pouco para ele ganhar na loteria ou para algum parente dele virar político ou pastor de igreja para ele arranjar um emprego melhor em que ele não precise trabalhar tento para ganhar tão pouco. Que ele possa não trabalhar para ganhar muito, como os políticos e os milionários, que para ele não trabalham pesado.

Ele quem é?

Ele é quem vai passar o pau naquela bunda daqui a pouco porque ficou excitado desde que ela entrou no ônibus. É ele quem está comendo pouco a sua mulher, porque anda muito preocupado com as contas todas que ainda faltam pagar. É ele aquele cujo peito dói e quando ele percebe, a bunda já está sendo encoxada por outra pica e ele, de pau duro, vai ter que passar por trás de outro homem porque o ponto dele já chegou e ele precisa descer. Nem a bunda do ônibus ele consegue encoxar.

Esse é o homem que vem ao teatro.

Na porta do labirinto o homem vê uma cabeça de touro.

Ele quem é?

O minotauro.

Funcionar ou Viver

Tinha ido conversar com ele porque achava que estava com algum problema que fazia com que não funcionasse direito. Achava que a vida estava se esvaindo sem que tivesse feito nada de significativo.

– Pare de funcionar e viva.

– Se eu parar de funcionar, morro.

– Eu já não funciono.

– E como vive?

– Vivo pelos meus meios.

– Eu também vivo. Mas ganho pouco com isso.

– Então não vive. Você apenas funciona.
É preciso deixar de funcionar para viver.

O outro apenas riu. Mediu o sujeito de cima a baixo e pensava que estava diante de alguma criatura rara. Uma esfíngie, talvez.

– Você pode escolher entre funcionar ou viver.
Não se pode ter os dois ao mesmo tempo.
Se escolher a vida, estarei aqui para ajudá-lo.
Mas, se você escolhe funcionar… não posso consertar isso.
Porque perdi a crença na máquina.