A velha

Então eu vejo essa menininha entrando nesse jardim abandonado.

O mato cresce solto, sem nenhum cuidado, por toda a parte.

Não entendi bem de onde a menina veio. Parece que chegou aqui por acaso. Talvez esteja perdida.

Ao mesmo tempo que eu, a menina vê a velha sentada no banco.

A velha tricota infindavelmente uma manta que se arrasta pelo chão.

Não consigo explicar essa sensação de perigo que sinto ao ver a menina se aproximando da velha para pedir, talvez, informações sobre como sair daqui.

“Bom dia, eu estou procurando a saída desse lugar.”

“Talvez seja uma boa idéia você voltar por onde veio.” – responde a velha, usando a lógica com a qual tricota.

“Não sei por onde vim. Quando me dei conta, já estava aqui.”

“Hmmm.”- resmunga a velha, como se estivesse diante de um problema de difícil resolução.

“Desculpe. Eu não me apresentei antes. Meu nome é Carolina. Eu cheguei até aqui, não sei como e agora gostaria de sair. Estou preocupada com os meus pais.”

“Carolina?”- a velha então ri.

“Sim, Carolina. Por que a senhora riu?”

“Porque você disse que seu nome é Carolina.”

“Sim. A senhora conhece alguém com esse nome?”

“Seu nome não é Carolina.”

“É sim!”- responde a menina sem entender direito onde a velha pretende chegar com a conversa.

“Entendi. Eles disseram a você que seu nome é Carolina.”

“Todo mundo me chama de Carolina.”

“Mas o seu nome verdadeiro é Nádia.”

“Como?”

“Nádia.”

“Não. Nunca.”

“Esse casal, que você chama de pais, eles não são seus pais de verdade. Eu conheci sua família, muito tempo atrás…”- foi aqui que eu me dei conta do que a velha estava fazendo. Eu queria gritar, avisar a menina para sair dali, mas estava paralisado.

“Seus pais morreram num acidente de carro quando você ainda era um bebê. Você foi a única sobrevivente e então esse casal lhe adotou e chamou você de Carolina.”

“Não, não é verdade!”

“Nádia. Filha de Ivan e Micaela. Os dois mortos, num acidente de carro.”

Eu sabia que era mentira.

Que a velha estava inventando essa biografia por pura maldade.

Mas a menina, a menina não sabia.

Ela estava acreditando na velha.

A velha e todas as histórias já contadas, todos os roteiros já previstos, toda tragédia do mundo, esmagando a história que a menina conhecia sobre si mesma, também essa uma história contada por outros.

Eu sabia que a esperança estava em a menina ser capaz de tecer a própria história, mas não podia me mover. Não podia fazer nada a respeito.

Eu era testemunha dessa morte e não podia sair dessa condição.

Foi então que eu percebi o pesadelo.

E acordei.

Uma nova democracia

Eu hoje perdi meu sono mais uma vez, porque confiei algo essencial para mim a um terceiro que me traiu. Fui tomando decisões ao longo do curso de minha vida que acabaram me impedindo de agir sobre a água que bebo e agora, ela corre o risco de acabar. Pensei que bastava eu cumprir uma grade escolar e depois decidir sobre uma maneira determinada de participar da coletividade, que seria o trabalho, cumprindo uma função especializada em troca de alguns benefícios e de dinheiro para que eu pudesse ter opções de serviço e de conforto, de acordo com meus méritos.

E agora, me vejo sem água. Algo tão simples, tão ridículo. E eu não sei como gerar essa água de que necessito. Eu tenho reservas aqui, porque antevi esse problema a quatro anos atrás. Então, fiz como meu avô, que construiu uma cisterna em casa para se prevenir contra as épocas de seca lá na Paraíba. E quando construí minha casa, coloquei duas caixas de mil litros para armazenar a água que viria desse traidor. Então, entre cisterna, caixa de reúso e água que o traidor me fornece eu tenho uma reserva de 6500l.

Nós agüentaríamos uma seca breve, mas não o cenário sombrio que se aproxima.

E por ter feito essas opções todas que me impediram de agir sobre a água antes, eu acordei e fiquei tentando resolver os 40 anos de negligência de minha parte. O que eu poderia ter feito? O que precisa ser feito agora? Porque chegamos a isso?

Eu tinha uns 10 anos e fui visitar meu avô Manoel Guilherme. Do lado de fora da casa, uma construção em forma de caixa, toda em alvenaria. Do telhado, descia um cano que entrava naquela construção e um outro que saia dela.

“O que é isso, pai?”

“Uma cisterna.”

“Pra quê serve?”

“Seu avô mandou construir isso para guardar a água da chuva.”

Meu avô então acrescentou: “Quando eu era menino, costumava faltar água sempre. Então, quando eu cresci, pensei que podia guardar a água da chuva para as épocas de seca. Aqui em Sapé, quando falta água na cidade, só quem tem água sou eu e o hospital.” E ria.

Eu, que via meu pai reclamando o tempo todo sobre a conta d’água achei aquela idéia genial. E pensei que se um dia eu construísse a minha casa, eu também teria uma cisterna.

O que aconteceu ali? Uma experiência compartilhada que me gerou repertório de ações. Quando eu tive a oportunidade, agi e construi minha cisterna. Mesmo assim, tive que contratar pedreiros, que também me traíram, cada um à sua maneira. E foi durante essa enorme obra, esse trabalho colossal, que eu comecei a pensar sobre esse assunto: pra essas coisas que nos são essenciais, não podemos delegar tudo a alguém. Temos que ter mecanismos de supervisionar, de agir, de aprender a partir da experiência, de intercambiar.

Em tudo o que eu estive fazendo dessa maneira na obra da minha casa, eu aprendi. Aquilo que eu optei por não fazer, porque achei pesado demais, sujo demais, braçal demais, isso foi o que me gerou complicação. Eu detinha o poder econômico mas não detinha o poder de ação. É preciso ter os dois. Os dois e também o poder de fazer o acordo e de julgar se esse acordo estava ou não sendo cumprido. E não reinvidico esse poder apenas para mim, senão para todos os envolvidos, cada um com suas famílias e contas a pagar.

E agora, de volta a essa questão da água e da democracia como já pode ser. Existem essas ferramentas de participação na gestão pública, em temas pontuais, como o Bicidade, o Colab e o DemocracyOS. Mas ainda me parecem um pouco com a experiência que tive de colocar as contas numa planilha de custos para poder não extrapolar meu orçamento e não ser lesado pela equipe que trabalhava pra mim. Funcionava para ter as informações às claras, na ação de reinvidicar, mas ainda não serviam como ferramentas que facilitassem minha participação no processo.

Na minha vida prática, existem essas situações em que a reinvidicação encontra uma barreira intransponível. Você tenta negociar com o prestador e o sujeito trava. Se você não tem opções, fica sequestrado e acaba decidindo com base no que o prestador oferece. É preciso ter meios ágeis de cortar o financiamento e de encontrar opções. Se algo não anda, você corta o recurso e investe sua energia em encontrar alternativas. Não pode ser obrigado a escolher entre o menos pior. Isso a gente faz por falta de informação sobre as opções disponíveis.

Por isso essas plataformas de financiamento como Kickstarter, Vaquinha, Indiegogo, Catarse entre outras são tão geniais. E já poderiam ser usadas para financiar diretamente obras do interesse da comunidade. Isso poderia ser um substitutivo ao imposto de renda, além de servir como um incentivo ao pequeno empreendedor local. Ao invés de favorecer grandes construtoras e obras gigantescas, boa parte do dinheiro da comunidade serviria para atender pequenos empreiteiros que seriam diretamente inspecionados pela comunidade.

Coisas como a água, eletricidade, comida… tudo isso está armado dessa maneira, com grandes fornecedores centralizando a produção e a distribuição desses recursos, por que esses sujeitos ganham muito dinheiro com isso. Mas não é eficiente de maneira alguma. O mundo opensource é a maior prova disso. A agilidade nas implementações, no desenvolvimento e na correção de problemas é impressionante. A única regra é que não pode haver segredos. Todo o código é compartilhado e qualquer pessoa que queira participar é bem vinda.

Abra o código do tratamento de água domiciliar, da geração de energia elétrica a partir do sol, das hortas caseiras e das hortas comunitárias e então, cortamos um monte de recursos financeiros que estão indo para as mãos dos 5% que centralizam a produção e distribuição de recursos. Compartilhe e receba mil vezes mais.

Saúde, educação, energia, água… muita coisa já poderia ser resolvida na esfera de participação popular. Temos hoje mecanismos mais eficientes do que as aborrecidas reuniões de comitês para deliberar sobre isso ou aquilo. E quando isso acontecer, veremos quem são aqueles que ganham com as grandes obras e a quem elas realmente favorecem.

Óbvio que isso vai mexer com o sistema de trabalho, que é todo estruturado em representatividade. Porque elejo especialistas que me oferecem determinado serviço, sem que eu possa me engajar no aprendizado desse serviço, porque o macete é segredo, aprendido por um sistema de ensino que centraliza essas informações. Mas se a experiência for a participação, qualquer cidadão pode aprender a fazer qualquer coisa, se engajando nos projetos de acordo com seus interesses e sendo recompensado proporcionalmente aos seus méritos e à importância de sua ação para a comunidade.

Vai desacomodar muita coisa. Inclusive esse nosso hábito de consumir a realidade, como se ela fosse algo pronto e não tivésemos que fazer mais nada à respeito.

Decrépita democracia

Eu hoje me dei conta de que faço parte de alguma minoria.

Eu não estou envolvido em militância partidária faz algum tempo. Não acredito nisso. Tenho procurado outras maneiras de viver a democracia e isso implicou em mudar meu estilo de vida, abrindo espaço na minha agenda para me envolver em participação social em alguns itens que realmente são essenciais para mim e minha família.

Então eu hoje faço parte do Conselho de Pais da escola dos meus filhos, trabalho atendendo as pessoas que precisam de amparo emocional para decidirem seus rumos de vida em situações de crise, acompanho alguns produtores orgânicos e ainda fico pensando o que mais eu poderia fazer com meus vizinhos e amigos para resolver as necessidades que temos em comum.

Mas existe o macro. Existem essas empresas que nos prestam serviços horríveis a preços exorbitantes com a anuência do governo e de seus órgãos reguladores. Existem essas corporações cuidando de bens essenciais, como a água e os nossos alimentos, fazendo o que bem entendem com eles, também com a anuência do governo.

E eu sei que a muito tempo, aquilo que chamamos de “governo” na verdade é uma fachada para negócios escusos entre proprietários, e nós estamos de fora. Nós trabalhamos para essa gente e pagamos impostos para eles. Nós consumimos as coisas que eles nos vendem. Pagamos produzindo, pagamos comprando, pagamos vendendo, pagamos jogando no lixo. E com o que pagamos? Com nossa energia vital, principalmente. É ela, e não o dinheiro, o que está em cheque aqui.

Então nos pintam esse cenário de escolhermos entre vermelhos e azuis. E nessa eleição, ainda tivemos a opção do magenta, além dos habituais tons de azul e vermelho, chegando ao preto absoluto em ambos os lados. Mas não há nada real ali. Os candidatos todos têm alguns minutos por dia para nos convencer a escolhê-los. E como fazem isso? Criando drama.

Os marqueteiros constroem esses personagens durante meses e os vão adequando ao sabor das pesquisas. É uma enorme novela, o que vemos como campanha eleitoral. Vemos os debates e pensamos que significam algo. Mas não significam nada. Às vésperas das eleições eu tinha amigos me pedindo opinião sobre os deputados estaduais e federais. Gente que sabe que esses sujeitos vão lidar com as nossas leis e com os nossos direitos. Eles não sabiam onde encontrar a informação de que necessitavam. Não sabiam onde encontrar programas de governo e projetos de lei. Não tinham energia vital disponível para estudarem esse assunto e realmente decidirem em quem iriam votar.

Então temos esse resultado realmente assombroso nestas eleições:

39,9% dos eleitores optaram por não lidar com esse assunto. Ou votaram nulo (10,17%) ou em branco (10,18%) ou se abstiveram (19,55%). Isso referente às apurações para deputado estadual, aqui em São Paulo.

E então, se olharmos para os mais votados, temos Telhada, Xerife do Consumidor, Feliciano e toda uma gente que representa soluções simplistas, radicais e pouco prováveis, atacando algum “culpado social”, exatamente como foi feito na Alemanha de Hitler. São candidatos-produto, criados para satisfazer alguma demanda emocional da população.

É um indicador de pânico social. De impotência. Parece burrice, mas é impotência e falta de vivência do que é decidir em grupo…

Vamos ter muito trabalho pela frente… Existe algo sem nome que precisa ser articulado, no lugar dessa farsa que virou nossa democracia…

Eu me recuso a olhar para o resultado dessa eleição e achar que isso tem algo a ver com o país. Não é. Não foi o outro quem votou errado. Quase 40% das pessoas não achou que essa eleição iria mudar alguma coisa. Boa parte dos sujeitos eleitos foi criado dramaticamente para atender uma demanda emocional da população. É um indicador de esse modelo não funciona. É preciso ir além das urnas e começar a construir outra coisa. Não basta reclamar do vizinho. Não basta dizer que não temos opções. É preciso investir energia no que queremos construir. Se não são mais os políticos ou partidos, que seja outra democracia.

Mas é preciso agir.

 

 

Quadrilha

Eu sinto que é impossível ter qualquer opinião útil sobre o que está acontecendo. Me parece que estamos todos com os ânimos exaltados demais e nos deixamos influenciar por qualquer coisa que tenha o leve aroma de informação. Mas os fluxos de informação estão todos congestionados por um estado de “suspensão pelo terror”, que nada do que vejo e ouço me parece real. Não me refiro à informação que viria da mídia tradicional, porque faz algum tempo que não procuro esse tipo de canal para me informar. Tampouco o canal que utilizo habitualmente, que são alguns blogs e as timelines de alguns amigos queridos, porque os amigos são sempre a melhor fonte de informação, mesmo quando você não concorda com nada do que eles estão falando.

Não.

As ruas mesmo. Meu trajeto para o trabalho ou as visitas ao supermercado. A conversa entre as pessoas num ônibus e suas opiniões sobre o que “está acontecendo”. O que “está acontecendo” é o mesmo de sempre. O cara continua “fazendo” as mesmas coisas, tentando seguir seu programa diário e então, surgem essas histórias sobre a escassez futura. E o sujeito começa a imaginar o que ele terá que fazer para seguir seu programa, mesmo com essas novas condições, que ainda não se manifestaram. Ele vai preparando essa reação. Vai cozinhando essa resposta ao mundo dentro dele, com uma imaginação que vai crescendo a cada nova informação fragmentada que ele recebe.

As pessoas imaginam que sabem o que é a mentira. E isso não é o problema. A mentira é sempre a opinião com a qual eu não concordo. Isso é fato. O problema é que as pessoas sabem que não têm a menor idéia do que é a verdade, porque não recebem a informação completa e não conseguiriam lidar com ela, de qualquer modo. Então, entre a cruz e a espada, optam pela imaginação e pela manipulação. Estão sozinhas em sua opinião e buscam amparo no outro, tentando convencê-lo de uma história que contam para si mesmas, sobre um futuro terrível onde serão obrigadas a abandonar o programa que cumprem a contragosto em direção a algo absolutamente incerto e ameaçador.

Então as histórias sempre carregam esses mesmos elementos: aqueles que instauram o caos e a necessidade de que as forças da ordem se instaurem. Mas quem são as forças da ordem nesse momento? Aqueles que clamam justiça, se entendendo como vítimas de algo a que se sujeitam? Ou aqueles cujo programa consiste em eliminar as opiniões com as quais eu não concordo? Cada fragmento isolado em si mesmo, com as mesmas demandas e a mesma sensação de que a mentira é o outro.

E em mim sempre a sensação de que nos bastidores existem forças que operam quando os homens se vêem acuados por sua imaginação. Forças que lucram com esses movimentos precipitados.

E mesmo esses homens das coxias, mesmo eles, agora não detém um pensamento único. Estão em guerra entre eles, lutando para ver quem se alimentará do nosso terror. Então se expõem mutuamente, elaboram histórias sobre escassez para expor o adversário ao ridículo, enquanto exaltam seus acertos também fictícios. Recolhem informações que sejam suficientes para gerar na população o estado de terror desejado. Ficamos sem referência alguma, acreditando que o estado de terror se deve à uma polaridade não resolvida entre ordem e caos e já não sabemos quem pertence a que lado.

Enquanto isso, os homens das coxias investem pesado em ambos os lados da equação.

O que percebo é que isso nos coloca numa situação extremamente reacionária. Esse estado de terror faz com que entremos em modo de sobrevivência e nesse ponto, sacrificamos nossa parca racionalidade e capacidade de uma ação que vá além de cumprir um programa inútil e isolado. Nesse lugar, estamos prontos para as soluções milagrosas, as revoluções e os golpes.

Para mim, a pergunta continua sendo sempre a mesma: quem está ganhando com o homem que cumpre um programa, mesmo que o mundo caia ao seu redor? Quem é que diz “olha a cobra!”, para depois dizer “é mentira!”, levando a quadrilha de um lado a outro do arraiá?

O sintoma

Eu venho trabalhando essa idéia de que um líder é o sintoma da fragilidade de um grupo. O que não quer dizer que eu tenha abdicado da importância temporária de uma liderança.

Em dada circunstância, nos trabalhos em conjunto, quer por estreiteza das diversas perspectivas, quer seja por uma escassez objetiva de determinado recurso, o grupo se vê empacado na tomada de decisões, com diversas opiniões sobre um determinado assunto e dificuldade em levar a termo qualquer ação.

Nesses momentos de processo, por ansiedade ou determinação, surgem alguns indivíduos que se destacam através de uma iniciativa que abre passagem para o crescimento de todo o grupo. Esse é o líder, alguém que localiza um recurso onde os demais só percebem escassez.

A grande questão é que esse movimento acaba gerando prestígio para o indivíduo, através do reconhecimento por parte dos demais. Em muitas circunstâncias a iniciativa individual acontece porque o sujeito resolve agir, apesar das deliberações do conjunto, mas em casos ainda mais numerosos, o sujeito já se move dependendo do mérito que obterá dos demais. Já se move em busca de uma autoridade sobre os outros, o que significa que os outros lhe cederão a autonomia de suas ações por algum tempo(Assim deveria ser!)

Esse movimento em busca do reconhecimento já é o sinal de que algo vai mal na equipe. Por algum motivo, este sujeito se lança em busca de algo que o destaque dos demais e provavelmente, já se acentua o processo em que ele se sente desvalorizado por qualquer motivo. O que para mim é um indicador de que os processos de comunicação do grupo não estão funcionando à contento.

Por isso a manutenção do poder de um indivíduo sempre se dá às custas de uma comunicação direta e clara entre os indivíduos do grupo. O sujeito terá que se transformar na figura central em termos de comunicação, centralizando todas as respostas sobre aquele determinado assunto. Com o tempo, sua memória individual sobre os passos requeridos para se resolver aquela escassez temporária passará a se sobrepor sobre a capacidade dos outros indivíduos do grupo de desenvolverem outras iniciativas igualmente eficientes, segundo as suas particulares maneiras, o que abriria espaço para o grupo desenvolver-se ainda mais. Nesse caso, a cegueira de um passa a ser a cegueira de todos.

Ainda mais grave se torna esse processo quando este indivíduo passa a centralizar respostas para todo tipo de problemas. Neste caso, os demais membros do grupo abrem mão de sua autonomia em favor de “crenças” individuais sobre diversos assuntos. Então as ações se vêem tolhidas pela estreiteza de perspectiva de um indivíduo. E o mesmo sujeito se vê desprendendo enormes quantidades de energia para manter restrito o circuito de comunicação, usando todo tipo de estratégia para desqualificar as opiniões e impressões dos demais membros. Passa a buscar uma monocultura de mentes: a sua. O que é  sinal de doença e escassez.

Com o andamento desse processo, abre-se um hiato entre aquilo que os indivíduos declaram que irão realizar em benefício dos demais e aquilo que realmente fazem. Isso transparece pelo alargamento dos prazos na realização das tarefas. Possivelmente é um sinal de que aquele grupo não atende completamente a demanda daquele indivíduo e que ele precisa dividir seu tempo e suas prioridades com outras associações grupais. Isso passa a ser um indicador de problema no grupo em questão quando os indivíduos justificam sua inação neste grupo por estarem engajados em atribuições de outros grupos, realizando uma comparação que não possui nenhuma lógica coerente para o grupo, somente para o indivíduo em questão.

Fatalmente isso vai levar à dissidências, porque é o único recurso que o grupo dispõe, nesse tipo de processo, para novamente abrir espaço para lideranças emergentes e a diversidade.

Quando há suficiente autocrítica no grupo, a emergência das dissidências consiste num impulso para que os posicionamentos sejam revistos e em alguns casos ou ocorre uma alternância de líderes ou o próprio líder abre mão do papel que lhe consolidou no poder.

Liderança, acompanhada de comunicação direta, aberta e disposição para partilhar com os demais o conhecimento obtido por uma ação só pode implicar em autonomia. Para isso, o grupo precisa ter como acordo a autonomia completa dos indivíduos. Sob nenhum pretexto pode haver um ser humano acima dos demais. Mas a agenda do grupo não pode conter nada além do ser humano.

Manipulação é violência.

Poder é discriminação.

Um líder pode deixar de ser alguém que manda e se tornar alguém que orienta um processo consensual sem deixar de contemplar as iniciativas individuais, as lideranças emergentes, os novos focos de ação.

Diversidade é força.

 

O melhor de nós

O que ontem era o sol, agora é a lua.

Mas ao sol, atou-se o rei

o ouro

a riqueza

a razão

os valores

a lucidez

e então, quando a lua veio

o rei tornou-se um louco

o ouro desapareceu

a riqueza de apagou

a razão se perdeu

a torpeza virou moeda

a loucura virou hábito

Como foi que aconteceu?

Atado ao sol e percebendo a chegada da lua, o rei gastou enormes somas pretendendo manter para sempre o sol em seu lugar. Chamou para si os maiores sábios da terra e deu a ele recursos ilimitados para que resolvessem a seguinte questão: o que pode ser mais importante que o sol?

Mil homens se queimaram, por buscar as respostas além do sol, até que os sábios restantes entraram em acordo que além do sol só havia a morte.

Os homens que se lembravam da existência da lua tentaram argumentar, primeiro com os sábios e depois com o próprio rei. Mas foram enviados para além do sol, de maneira que pudessem provar seu argumento. Nenhum deles retornou.

Os poucos que permaneceram resolveram seus dilemas com segredos, códigos, mentiras e silêncio. Eles sabiam que além do sol havia a lua, que de fato, aquilo que já se avistava no céu já era a lua, mas que o rei e os sábios haviam mudado o nome da coisa para manter o significado do sol.

E isso sucedeu de tal maneira que, ao cabo de algumas gerações, os homens não sabiam mais o que era sol e o que não era e se tornaram dependentes dos sábios para que esses lhes interpretassem os sinais. Nesse tempo, não havia mais os homens que se lembravam de que aquele céu negro era de fato a noite. E os homens dessa época eram acometidos por estranhas imagens e monstros com os quais raramente podiam lutar.

Se tornou comum as histórias de gente que, enfrentando esses espíritos eram subitamente lançados e outro lugar, onde encontravam seus familiares, também eles acossados por monstros em distintos pontos do reino. Homens e mulheres dessa época já não distinguiam entre sonho e realidade e passaram a se armar contra os monstros imaginários, concluindo seus atos com assassinatos reais.

Rei, sábios, homens comuns, todos submetidos a uma cartografia impossível, a um território sem limites e a monstros que os atormentavam a todo instante, por mais escondidos que estivessem, sem que se pudesse diferenciar o dia da noite; o sonho, do real; a crença, do recurso.

Os homens empobreciam dia a dia, pois trabalhavam no sonho esperando a colheita na realidade. Sábios gastavam recursos reais com sonhos que nunca se esgotavam. E o rei perseguia miragens de homens obedientes e monumentos feitos em sonho, enquanto que na realidade, se via envolto em traições e intrigas, com seu valor decaindo mais e mais.

Os homens-segredo, aqueles que se lembravam da realidade do sol e da realidade da lua imaginaram que, a única maneira de fazer com que seus semelhantes acordassem de tal pesadelo era criar, na realidade, atos de sonho. Ordenar o sonhar, de tal maneira que a loucura dessa época fosse abalada pelo sublime.

Então criaram esses grandes espetáculos coletivos, monumentos fabulosos, direcionando recursos de reis e homens sábios para criar miragens que dessem direção ao sonhar. Mas a cada geração, tornavam os homens ainda mais dependentes.

Ainda se esforçando para resgatar o sentido, os homens-segredo tentaram o caminho inverso: criar no sonhar, atos de realidade. Nesse caminho entraram homens comuns, sábios e até mesmo o rei, buscando um espírito perdido em miríades de sonhos e imagens desconexas. Almas se silenciaram, sabedorias se abalaram, e reis se perderam, mas a realidade e o sonho continuavam mescladas com a loucura.

Nesse tempo, o tempo do agora, é o tempo em que os homens-segredo tentam trazer mais uma vez, sol e lua de volta. Eles agem na realidade e re-significam seus atos no sonhar. Ações de sol e ações de lua, para finalmente, colocar as coisas no devido lugar.

A tradução do ir-se

No passado, eu teria apenas ido para uma outra geografia e estaria distante de você e de seus assuntos. Mas agora, com tantos aparatos, você me demanda mesmo à distância. Um número de celular e já estou novamente nas suas coordenadas, recebendo seus pensamentos e suas preocupações e sua idéia de que eles me pertencem de algum modo. Demandando as minhas ações para os seus problemas. Trocando isso por algum afeto existente entre nós. Usando o afeto como a moeda, agora de forma clara.

Então um recado e suas garras se estendendo ao meu redor, pretendendo me mover novamente para a sua órbita. Não.

Não farei. Não me moverei. Não resolverei seus problemas.

Não tenho nada com eles e só me importo com o fato de que você ainda não compreendeu a noção de distância.

Me deixe em paz.

Chiaroscuro • A predominancia da visão

Sendo um blog, eu posso me dar ao luxo de publicar um artigo incompleto, uma reflexão ainda em processo. Não é uma tese, ou dissertação e ainda me faltam mais dados para expor claramente essas associações. Então elas ficam no lugar onde o artista predomina sobre o cientista, e logo ali adiante, num outro artigo ou numa conversa qualquer, a idéia brota inteira.

Celeritas, (velocidade ou a relação entre tempo e espaço) é a origem do nome da constante c=299 792 458 m/s, que corresponde à velocidade da luz no vácuo.  Um objeto a altas velocidades, próximo à velocidade da luz, não pode ser acelerado até, ou mais que, a velocidade da luz, não importando quanta energia é transferida ao sistema. Matéria estando sempre abaixo dessa velocidade, não importa quanta energia se transfira ao sistema. Quanto recurso se use para isso.

A quantia máxima de energia que se pode obter de um objeto é dada pela massa do objeto multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. E então, estamos limitados a isso, essa é uma espécie de cerca para os objetos materiais se manterem como objetos materiais, ali adiante, perdem coesão, perdem consistência e geram enormes quantidades de energia nestes processos. Uma energia que desintegra o objeto material como tal, que não lhe permite a continuidade. Então, em direção à luz, objeto material se converte em algo similar à luz, mas tal movimento não lhe acrescenta nada. Ao contrário, lhe desintegra completamente. Ele muda de qualidade.

E mais as equações complexas e mais as elocubrações sustentadas nessas equações. E mais o trabalho de mil homens e a prova cabal disso, de que a matéria convertida em energia se transforma em morte, quando bombardeamos Hiroshima. Então, essa violência nos colocou uma barreira. E dali em diante, a matéria e seus processos passou a ser cada vez mais degradada. E com isso o corpo. E todos os outros sentidos que o conectam com o mundo.

Me parece que a equação é a bomba. A grande bomba, antes mesmo de ser detonada. E a detonação como trauma da equação, nos limitando a esse axioma de que, rumo à luz, estamos fadados à morte. E=mc² sendo o Cristo crucificado, a morte do Deus elevado à luz. Então, nos contemos. Paramos aí. Não seguimos adiante. Não avançamos ante à realidade paradoxal que a morte e o além da luz nos propõe. E nossa vida material perde atributos e valores.

Não te parece o mesmo? O mesmo recurso traduzido em novo idioma, em nova época, em nova cultura, mas o mesmo limite? A mesma luz, usada como cerca, o mesmo círculo de giz?

Fadados a permanecer sempre aquém desse ponto onde o particular se converte em movimento para fora, em movimento em direção a algo, sendo esse algo o outro eterno, a realidade para além da cerca do indivíduo.

Que passa com essas metáforas de realidade? De onde surgem essas idéias? E porque, para mim, a imagem de Einstein não difere em nada das construções taoístas de Yin e Yang, da árvore sefirotal Cabalística, do Zodíaco de diversos povos, do Arqueômetro?

Sete cores do arco-íris, doze cores somando as primárias, secundárias e terciárias. Sete e doze, aparecendo milhares de vezes em distintos povos para dividir distintos atributos. Luz e trevas, claro e escuro. A luz, aquilo que possibilita o horizonte e as trevas, que nos colocam em contato com os outros sentidos do corpo. Com aquilo que ouvimos, tateamos, sentimos de dentro de nós mesmos. Com a nossa introspecção. Com aquilo que sentimos para além do que deveríamos estar vendo.

E as ilusões visuais. O rei, vestido de ouro. O rei sol. O máximo em luz. Aquele a quem nós empoderamos porque é um deus. A fronteira para além da qual está a morte certa e a desintegração. E então, o cidadão-corpo, o cidadão-partícula, o cidadão-matéria, ele se conforma com a sua condição. Ele sonha. Ele é lançado nesse mundo de sonhos, onde a luz é algo a ser evitado para que a mente permaneça mais tempo sonhando. Ele abre o olho e então, as ilusões lhe são lançadas. A cerca está lá. A luz, gerada por outros para que ele permaneça ali, sendo particular em seu medo da morte.

E no corpo, o cidadão sente a fome, a escassez, a violência, a presença indesejada de um outro que se converte numa matéria tão suja quanto ele. Seus impulsos em direção ao outro são contidos por decretos, por religiões, por ameaças de todo o tipo. E ele segue só, sentindo que essas coisas são suas. Lhe falta a luz, para perceber o outro à distância. O outro com sua peculiaridade, distinto, mas ainda, o mesmo humano que ele. No escuro, ele só sente a si mesmo. E quanto mais registros de sofrimento tiver do próprio corpo, mais terror ele terá da luz, porque a luz desde sempre significou a morte.

Para onde vamos, quando a luz deixa de fazer sentido?

Para onde vamos quando não estamos atrelados àquilo que vemos e sim aquilo que sentimos? O que diabos é isso que chamamos de energia, que é maior que nós, que está em nós, que processamos de diferentes maneiras inclusive, vendo a realidade de maneira ilusória. Atrás dessa cortina chamada percepção visual.

Atados ao ritmo circadiano, agimos na luz e sonhamos nas sombras. Isso tem alguma relação com o hipotálamo, que regula nossa homeostase (capacidade de adaptação térmica),  conecta-se ao sistema endócrino (todas as secreções hormonais que regulam a química interna do corpo), e o sistema nervoso autônomo (sistema neurovegetativo ou sistema nervoso visceral – o lugar de excelência do centro Vegetativo, de Gurdjieff e Silo). O controle do sistema da vida está intimamente relacionado com a percepção do dia e da noite. O hipotálamo era chamado pelos egípcios de “Olho de Hórus” (o deus dos céus – ou da percepção do dia e da noite, pois um olho do deus era a lua e o outro o sol).

Não é possível atuar sobre esse aspecto do sistema nervoso voluntariamente, quer dizer, um indivíduo controlar o próprio sistema  nervoso autônomo (mas existem relatos de grandes iogues que chegaram a isso). No entanto, você conseguiria uma atuação sobre o sistema nervoso de outros seres humanos se fosse capaz de alterar a percepção deles do ambiente circundante. Como?

Manipulando a imagem. Gerando dia e noite a partir de imagens. Atribuindo significado a determinadas imagens poderosas. Representações de forças titânicas do homem como se fossem figuras externas, na forma de deuses e mitos.

Então você engendraria em milhares o temor à morte pelo temor à lucidez. E os manteria presos a um sonho.

Essa técnica tem sido usada milhares de vezes em distintos momentos da história e funciona repetidas vezes. Do mito de Prometeus  à Lúcifer, de Mitra a Cristo até chegar em Einstein e sua equação. A mesma tradução da luz como limite. E depois da luz, a noite paradoxal e sem imagens.

Por isso algumas iniciações podem ser assustadoras para o status quo. A idéia de “iluminação” (novamente a luz), de acordar de um sonho, de união com o divino, de realizar o propósito, de liberação e finalmente, sair da cerca e do circadiano.

Lucidez vai implicar em ação. Ação verdadeira. Ação conectada com o propósito, com a Verdadeira Vontade.

Dharma.

E rebelião.

Estupra, mas não mata

Recentemente teve essa história da pesquisa do IPEA sobre o estupro, dando conta de que 58% dos entrevistados acham que o estupro acontece por causa de um comportamento da mulher. A pesquisa em questão é parte do Sistema de Indicadores de Percepção Social, que revela uma determinada mentalidade dessa amostragem populacional.

Ok. Que amostragem é essa?

3810 brasileiros, homens e mulheres com idade a partir dos 16 anos. Não consegui encontrar os indicadores de classe social (baseados apenas em aspectos econômicos, como o número de salários mínimos que o sujeito ganha mensalmente), mas dá para ter uma certa idéia de que os entrevistados são pessoas como eu e você. Pelo menos isso é o que garante a eficácia de uma determinada pesquisa.

Você pode ser qualquer um, que eu desconheço. Então vou te dizer quem sou eu. Sou um sujeito que trabalha por conta própria. Não estou empregado em nenhuma empresa, em nenhuma corporação. Aqui em casa, a renda fixa vem do emprego da minha companheira, a Clau, que vende seu tempo para uma Escola.

Nós fazemos parte da classe média, essa coisa cada vez mais misteriosa. Temos uma receita mensal que sempre me parece enorme, se comparada a outras famílias, e gira em torno dos R$ 6mil. Com essa grana, temos que pagar a escola dos meninos, supermercado, feira, petróleo, contas de consumo, prestação da casa, gente que trabalha para a gente, etc…

No dia 12 do mês, já estamos no vermelho. Ou perto dele.

Tem uns quatro anos que nós fizemos uma operação limpeza nas nossas finanças, porque eu perdi o emprego numa escola e a Claudia teve o número de horas aulas reduzido, enquanto estávamos com uma casa em construção, grávidos do segundo filho e cheio de empréstimos para honrar. Nós enxugamos nosso orçamento ao máximo, diminuímos excessos e mudamos hábitos de consumo. Nesses quatro últimos anos, nós conseguimos fechar o mês de dezembro bem. Fomos diminuindo o vermelho na conta e finalmente conseguimos colocar um pouquinho de azul.

Como vamos lidando com a vermelhidão? O banco gentilmente nos oferece um limite de cheque especial. Um crédito. O banco que acredita na gente. Então, o que a gente costumava fazer? Quando a gente ficava muito ansioso, com as contas assombrosamente no vermelho, com aquele negativo todo nos assombrando, a gente precisava muito ver TV a cabo ou tomar cerveja. Ou então, precisava muito comprar aquela oportunidade de ouro.

Eu precisava daquele celular em 20x. Ou do computador. Ou daquele livro, mais um deles, que ia ser empilhado com todos os outros que ainda falta eu ler. Eu precisava ser mimado, precisava que me colocassem no colo e me dessem carinho. E quem é que me dava? O banco. O banco e as casas Bahia. E as livrarias. E aquele site da china que me vende bugingangas que chegam aqui em casa e eu não sei como. O Paypal me salvou.

Eles todos me diziam: pega cara, é seu! Pode pegar. Depois você vê como resolve. Passa a mão. Leva pra casa.

Eles todos iam me colocando na cabeça que eu posso ter o que quiser, não importam as consequências. Depois você divide em 50x, vai pagando um pouquinho por mês. Não precisa pagar, fica aí. Pega mais. É teu. O que é meu é teu.

Então, num país machista, com boa parte da programação constituída por bundas à mostra e mulheres num papel ridículo, então nesse país, a mulher virou um bem de consumo. E é fácil entender porque o estupro é uma modalidade de crédito. O sujeito quer, ele não pode ter, ele tira o pau pra fora e passa na bunda que está na frente dele. E o outro sujeito do lado, ele olha, ele tem nojo, ele quer dar uma porrada no cara, mas por algum motivo não consegue. Ele acha que não é problema dele. Aquela mercadoria não lhe pertence.

Pode pegar cara! Mas não destrói. Não quebra. A bunda no metrô é uma mercadoria no show room. É essa a associação nefasta que está sendo feita.

Tá com desejo sexual?  Estupra, mas não mata. Não quebra o brinquedo do outro.

E seguimos todos sendo estuprados.

Pelo crédito oferecido, pelo salário que é pouco, não importa o quanto você trabalhe, por essas necessidades todas, criadas, fabricadas. Por essa carência sem fim que eu tenho que suprir já, agora, imediatamente. Eu não posso esperar. Não consigo esperar. Não. Eu quero agora!

E isso faz essa máquina toda continuar girando.

 

O Cume

Bancos, Mídia, Comida Industrializada e Petróleo.

Essa postagem no RealFarmacy.com me fez refletir enormemente. São apenas 85 pessoas que detém 46% dos recursos mundiais. Como isso é possível? Essa gente se alimenta dos nossos hábitos.

Os fóruns de economia e alguns grupos políticos se concentram na idéia de que é preciso distribuir renda, entendendo por renda um certo montante de dinheiro que permita a uma família continuar comprando os produtos que vão manter os mesmos 85 no topo da cadeia alimentar. Mas eu de repente comecei a pensar em uma outra abordagem, baseado numa outro escrito meu chamado “Rebelião”: e se nós simplesmente parássemos de depender dessas pessoas?

É possível? Como isso seria feito?

Eu fui criado desde a origem completamente dependente dessa infra-estrutura. Saí da amamentação e cai direto no supermercado. Fui adestrado numa escola e depois caí no mercado de trabalho ao mesmo tempo em que me eram exigidos certos deveres de cidadão da nação. Assumi uma família e me vi endividado com bancos pertencentes a todo tipo de quadrilhas.

Então essa coisa toda me parece uma mãe. Como se aquela teta original tivesse se transformado nessa chantagem horrenda da qual eu tomo parte todos os dias através desses hábitos dos quais eu não consigo me livrar.

E me parece que é isso. É justamente esse o ponto: lidar com o fato de que eu estou viciado nessa estrutura e só posso me liberar dela da mesma maneira que um alcoólatra faz com o seu vício. De uma vez só e ao mesmo tempo, um dia de cada vez. Sabendo que todo o tempo vão tentar me vender os benefícios de permanecer nessa estrutura. E que eu posso cair nessa conversa e levar minha família e meus queridos amigos todos ladeira abaixo.

Onde estão esses nós que fazem com que eu alimente essas 85 pessoas, que estão loucas? Eu acredito que dinheiro é o único recurso que tenho, perdi a noção do meu valor, porque ele passou a ser associado a um preço. Então meu valor é o valor que o mercado me atribui e é preciso que esse valor seja sempre baixo, porque o mercado está me comprando e é preciso que eu esteja em liquidação (ou liquidado, de preferência).

Eu perdi a capacidade de plantar, de cozinhar, de cultivar. Olho para uma planta na rua e não sei se ela é remédio. Vou ao mercado e compro uma carne na bandeja de isopor que quando eu abro fede a carniça. Mas eu a tempero bem e como assim mesmo, porque está cara. Porque carne de mercado é assim mesmo. Porque eu não tenho tempo de ficar na fila do açougue e o dono do mercado sabe disso e me vende a carne quase podre, porque quer ganhar dinheiro porque esse também é o preço dele e ele não pode ficar liquidado ou falido.

Eu fico doente e preciso continuar valendo algo. Eu sou a carne podre na bandeja e peço a um médico que me embale com algum plástico para que o patrão não sinta que estou podre por dentro. O médico também não pode ficar liquidado, porque o convênio paga mal para oferecer a ele um nomezinho e telefone no guia de associados. Ele então me receita uma remédio para o mau cheiro, porque o rapaz da farmacêutica vai dar a ele e a esposa uma viagem para um congresso de medicina. Esse congresso é o tempero do médico e da mulher dele. E o rapaz também oferece a viagem porque sem essa oferta, ele está liquidado.

E me movo de um lado a outro, de uma bandeja a outra, de um plástico a outro, de uma balança a outra. E para cada movimento desses, o petróleo é o que deveria me levar. Mas não leva. Porque eu continuo queimando petróleo enquanto o que não anda é a rua. Eu digo que a estrada não anda, que a rua não anda, mas elas nunca andaram. Elas sempre estiveram ali. Eu é que deveria estar andando, porque comprometo mais de 20% do meu orçamento com petróleo, que me promete esse movimento, mas que não cumpre.

Não cumpre, como qualquer outro desses serviços. Como qualquer coisa dessas. Como esse modelo inteiro, de cabo a rabo, começando pelos meus hábitos.

E é por eles que eu posso começar.

Não conheço essas 85 pessoas. Não saberia diferenciá-los de você ou de mim, porque para mim, somos todos iguais. O problema é tanto poder nas mãos de gente tão louca.

E quando você encontra um louco, é melhor deixá-lo falando sozinho.

Vamos deixar essa gente falando sozinhos?

Você consegue?

Mude os seus hábitos e se libere dessa merda toda!