A velha

Então eu vejo essa menininha entrando nesse jardim abandonado.

O mato cresce solto, sem nenhum cuidado, por toda a parte.

Não entendi bem de onde a menina veio. Parece que chegou aqui por acaso. Talvez esteja perdida.

Ao mesmo tempo que eu, a menina vê a velha sentada no banco.

A velha tricota infindavelmente uma manta que se arrasta pelo chão.

Não consigo explicar essa sensação de perigo que sinto ao ver a menina se aproximando da velha para pedir, talvez, informações sobre como sair daqui.

“Bom dia, eu estou procurando a saída desse lugar.”

“Talvez seja uma boa idéia você voltar por onde veio.” – responde a velha, usando a lógica com a qual tricota.

“Não sei por onde vim. Quando me dei conta, já estava aqui.”

“Hmmm.”- resmunga a velha, como se estivesse diante de um problema de difícil resolução.

“Desculpe. Eu não me apresentei antes. Meu nome é Carolina. Eu cheguei até aqui, não sei como e agora gostaria de sair. Estou preocupada com os meus pais.”

“Carolina?”- a velha então ri.

“Sim, Carolina. Por que a senhora riu?”

“Porque você disse que seu nome é Carolina.”

“Sim. A senhora conhece alguém com esse nome?”

“Seu nome não é Carolina.”

“É sim!”- responde a menina sem entender direito onde a velha pretende chegar com a conversa.

“Entendi. Eles disseram a você que seu nome é Carolina.”

“Todo mundo me chama de Carolina.”

“Mas o seu nome verdadeiro é Nádia.”

“Como?”

“Nádia.”

“Não. Nunca.”

“Esse casal, que você chama de pais, eles não são seus pais de verdade. Eu conheci sua família, muito tempo atrás…”- foi aqui que eu me dei conta do que a velha estava fazendo. Eu queria gritar, avisar a menina para sair dali, mas estava paralisado.

“Seus pais morreram num acidente de carro quando você ainda era um bebê. Você foi a única sobrevivente e então esse casal lhe adotou e chamou você de Carolina.”

“Não, não é verdade!”

“Nádia. Filha de Ivan e Micaela. Os dois mortos, num acidente de carro.”

Eu sabia que era mentira.

Que a velha estava inventando essa biografia por pura maldade.

Mas a menina, a menina não sabia.

Ela estava acreditando na velha.

A velha e todas as histórias já contadas, todos os roteiros já previstos, toda tragédia do mundo, esmagando a história que a menina conhecia sobre si mesma, também essa uma história contada por outros.

Eu sabia que a esperança estava em a menina ser capaz de tecer a própria história, mas não podia me mover. Não podia fazer nada a respeito.

Eu era testemunha dessa morte e não podia sair dessa condição.

Foi então que eu percebi o pesadelo.

E acordei.

Ação

Considerando a Vida primeiramente como um problema subjetivo. A Vida, sendo um significado para o homem. Então as ações desse homem passam a ser as suas soluções imediatas ao desafio chamado Vida. Algo passa a esse homem e ele então responde a esse estímulo.

De volta à mente. A um certo modo de a mente operar buscando no mundo a completude. Buscando realizar algo no mundo que decifre algo que está num outro modo da mente operar, que é o da interioridade. Buscando obter algo do mundo que traga a sensação de plenitude e nunca encontrando este objeto que permaneça pleno. Porque a mente externa reduz tudo ao tédio, ao mesmo, ao passado, à repetição, à memória.

As ações desse homem passam a ser seu método para resolver a Vida como um problema externo a ele. O homem olha para a Vida e espera obter algo dela e nesse momento, este homem se torna a Morte. Ele busca a vida como um recurso externo a ele, algo que preencha o vazio que é a antítese da plenitude. O homem operando na mente externa é esse vazio. Um vazio buscando algo que o complete. E ele não pode obter nenhuma satisfação usando esse método, porque a mente externa, quando obtiver a plenitude, vai desmembrá-la em pedaços e lançá-la aos quatro ventos, agrupando-a em pequenos conjuntos de insatisfações, até que a plenitude fique reduzida ao tédio. O homem, neste estado, matará a plenitude. Então esse homem perderá o agora e o amanhã. E repetirá o passado até o fim de seus dias, sempre refazendo a mesma ação em busca de um significado para a Vida que o preencha.

O método desse homem passa a ser seu condicionamento. A repetição eterna de uma mesma ação subjetiva, buscando sempre no mundo externo algo que conclua a ação. Um método através do qual ele extraia da vida a plenitude e a degrade em vazio. Esse homem é o diabo e a Vida ao redor dele é o seu próprio inferno.

Há um certo ponto em que alguns homens sentem uma espécie de fadiga do próprio tédio. Esse homem passa a se debater no inferno. Um dia ele acorda e percebe que está vivendo no ontem, que aquele homem diante dele é um homem novo, mas ele olha para ele como se fosse alguém de outra época. Ele se percebe doente e então adoece. Ele encontra a Vida e mais uma vez se empanturra dela, sem obter satisfação. A Vida é insossa. Escassa. Sem graça.

Ele percebe que já tem tudo e deveria ser feliz por isso, mas não consegue. Percebe que não é a presença do dinheiro ou a falta dele. Percebe que não é nada fora dele é algo com ele. Finalmente ele percebe esse vazio e com isso, percebe que tem uma interioridade. E usando a mesma mente externa, esse homem olha para dentro e não vê nada. Ou degrada o que vê, reduz a si mesmo ao vazio. Ele se deprime. Ele se entristece. Ele delega sua possibilidade de agir a outra pessoa. Ele busca mais uma vez uma saída externa. E isso é tudo o que ele pode fazer nesse momento.

E mais uma vez, fora dele, a mesma mente vai degradar o remédio, o método de outro, o livro sagrado, o procedimento, o guru, a Vida em si. Esse homem tem a chance de sair disso, mas novamente ele se torna a morte. Ele ainda acha que Vida é essa busca permanente pelo externo na tentativa vã de escapar da morte, mas a morte é ele mesmo. Ele um dia se cansa disso, ele percebe que o estado em que se encontra é pior do que a morte. Ele então decide morrer. De um jeito ou de outro, esse homem está disposto a romper com os demais. Ele quer sair do inferno. A qualquer custo. E ele não confia em mais ninguém.

Ele é falso para si mesmo e reconhece no outro a mesma farsa. Ele reconhece o inferno.

Ele agora é uma semente de algo.

Quando esse homem encontra o terreno propício, o ambiente adequado, ele se percebe Vida, porque algo dentro dele brota. Ele não sabe o que é. Não está buscando resultado algum nisso. Sabe que não pode buscar. De algum modo, ele sabe que isso é o que ele é de fato, esse algo sem par. Esse átomo.

E ele volta à mesma ação de antes, fatalmente voltará.

Mas não é mais a morte.

Ele é essa semente. E então extrai a Vida de si naquela situação. E a revitaliza. Ele ressuscita os mortos, dá vida ao passado e o atualiza. Ele se reconcilia e o método é refeito.

A ação desse homem é extrair de si aquilo que expressa a Vida em qualquer situação.

Esse é o seu propósito.

 

A memória como toxina

Engraçado que nós aprendemos a valorizar a memória através da educação. Aprendemos a decorar as respostas corretas e somos premiados proporcionalmente. Acertar é repetir o memorizado. Errar é não se lembrar do certo. Então a memória fica super estimada como ferramenta para o nosso discernimento.

Isso vai derivando para muitas coisas que acabam perpetuando o status quo. Daí deriva a falsa premissa de quanto mais experiência (memória) maior a capacidade de dar respostas. Então o antigo é sempre mais certo do que o novo. E vamos ficando com medo das mudanças.

Mas eu não observo que isso é sempre assim.

Porque sucede que alguns idosos nos pareçam obtusos demais e a outros nos parecem sábios? Porque algumas crianças nos parecem superficiais e outras são tão profundas? Acho que isso tem algo a ver com a capacidade de refinar a memória, de torná-la efetivamente útil.

Como todo medicamento, é preciso ter cuidado com a dosagem de memória que vamos usar para avaliar uma situação nova. Se a memória está gerando paralisia, medo, insegurança, obstrução da visão, talvez a dosagem esteja excessiva. É muito difícil se livrar de uma memória tão potente assim. Você não pode negá-la, escondê-la. Os sentimentos que esse tipo de memória provocam são intensos, genuínos. A pressão que exercem é enorme.

Então não se pode usar o recurso da negação para lidar com esse excesso. A memória está ali, íntegra, excessiva, perigosa. Como lidar com ela? Negando-a, seremos violentos com ela. E ela vai revidar isso depois, se tornando mais intensa, porque será a memória do primeiro fato e mais a memória da violência contra a lembrança desse primeiro fato. Então memória gerada em cima de memória. Veneno de feito de veneno.

Estamos no presente, diante de uma situação inteiramente nova e a memória se sobrepõe, distorcendo a nossa maneira de ver as coisas. Como resolver esse impasse? Olhar para a memória como algo que surge agora, entre eu e o fato inédito que se apresenta. Porque estou olhando para essa situação como se fosse aquela? Essa situação presente e inesperada e aquela que já me ocorreu e que me gerou dor, sofrimento ou contradição… Porque aquela situação não foi resolvida de forma satisfatória no momento em que se apresentou, eu estou aqui hoje, carregando-a como um peso. Naquele momento eu não dispunha de ferramentas apropriadas para lidar com aquilo, mas talvez hoje, olhando para essa memória que se interpõe entre o que eu sou agora e esse fato inteiramente novo, talvez agora eu possa fazer algo.

Olho para essa situação atual e somente vejo a memória de um fato que me foi desagradável. Olho e sei que não estou vendo a situação atual ainda, estou vendo o que me passou antes. Como posso agir agora, de maneira que aquilo que me passou antes não me suceda novamente? E agora não é o que foi antes, e então me encontro preso à memória, agindo cegamente em relação ao agora. O que é essa situação nova que não a minha memória? O que realmente é essa coisa e o que é a memória? Posso fazer alguma distinção entre essas duas coisas?

Esse questionamento vai retirando da memória toda a certeza. A memória vai ficando só, na sua inteireza. O fato se atualiza, como algo que foi resolvido daquela maneira por aquelas pessoas naquele momento com base nos dados de que elas dispunham à respeito da situação. O próprio questionamento sobre a “veracidade” da minha perspectiva frente aos fatos contaminada pela memória já presente na situação ocorrida vai eliminando da memória todo teor de verdade que ela possa ter.

Então fico com um fato, que ocorreu de uma maneira tal e que foi interpretado por mim naquela ocasião, sob o efeito das minhas memórias na época. E então me senti vítima daquelas circunstâncias e jurei para mim mesmo que tal situação não deveria acontecer novamente. E então vejo que a mesma situação aconteceu ainda mil outras vezes. Não de fato, mas por efeito dessa memória presente, vivi diversas outras situações sempre significando aquele mesmo fato mal resolvido. E em cada uma dessas vezes busquei uma saída dessa repetição e nenhuma dessas saídas foi satisfatória.

Nenhuma ação externa irá resolver a toxicidade da memória. Nenhuma.

Somente essa operação sobre o significado da memória, sobre a sua subjetividade, sobre as ações externas que tendem a validar a memória e sua supremacia sobre a nossa capacidade de decidir.

Olhar para a memória e extrair dela toda a certeza, até que a dúvida do agora fique cristalina e então, se pode decidir em liberdade, tomando para si toda responsabilidade pelas consequências dessa ação.

 

Take it back

Mãe, eu fiquei dependente de você. Me senti um incapaz e então eu fui deixando que você fizesse todas as coisas por mim, por puro conforto. Então eu me tornei essa coisa excessivamente pesada, preguiçosa e insegura. Hoje eu percebo que você é quem fez com que eu me sentisse um incapaz para que eu me sentisse dependente de você. Mãe, teu nome é corporação.

Pai, eu fiquei dependente de você. Por preguiça e eu deixei de buscar meu próprio sustento e então eu me tornei esse covarde, escondido embaixo das saias de minha mãe. Me senti um incapaz de lidar com o mundo e com os meus irmãos e necessitava de sua constante mediação nas nossas relações. Hoje eu percebo que foi a sua omissão quem me deixou neste estado. Pai, teu nome é governo.

Irmãos, eu fiquei dependente de vocês. Não suportava a vossa presença e fiz da minha vida o esforço de ficar só. Queria tudo para mim, queria que vocês fossem meus escravos, que me atendessem as vontades. Queria anulá-los para que eu brilhasse mais. Eu me sentia um incapaz, um covarde. Hoje eu percebo que vocês também se sentiam da mesma maneira e por isso todos nós estávamos presos nessa condição. Irmão, teu nome é religião.

Hoje eu decreto a minha liberdade.

Ainda pesado demais, preguiçoso, inseguro, covarde, egoísta, selvagem e incapaz eu me liberto da necessidade da presença dessa família na minha vida. Vou construir minha própria família. Serei minha mãe, meu pai e meus irmãos. E os serei à minha própria maneira. Serei a teta, o dinheiro e a companhia de mim mesmo.

Serei minha esposa e meus filhos.

Serei meu próprio chefe, meu próprio governo, meu próprio deus.

Propósito

Não como uma função ou um trabalho na linha de montagem da vida.

Um talento, talvez. Um dom, não como uma distinção que o coloque acima dos demais.

Um dever, não como algo imposto de fora, mas como algo que precisa se expressar de qualquer modo.

Então, essa ação interna é algo que se dirige a outros, mas não segundo os termos do outro. É algo que se feito, gera ao redor a fartura.

Fartura não como excesso de reservas, mas como fluxo. Como um rio, que sempre flui e está sempre disponível para ser gozado. Então é preciso ter a disposição e a ciência de gozar o rio, que não significa retê-lo na memória, atê-lo ao passado. Gozar no agora, no presente. Aceitar a possibilidade da mudança, o fluxo. Não matar o futuro, reduzindo-o a uma repetição do passado.

Acima de tudo, manter-se livre do outro. Do externo, da recompensa externa. Do resultado. Da estagnação.

Então como isso tudo é feito?

Como é a prática disso?

De mil maneiras se chega a isso, como algo interno. Mas nenhum método externo vai trazer qualquer resultado. Não é um efeito, um estado, um produto, um objeto a ser adquirido. Não é outra identidade.

É um jogo estranho esse…

Porque me sento aqui e escrevo sobre isso, na esperança de que você, ao ler, esteja instigado? Porque isso para mim, vem no lugar da fartura. É um oferta. Não espero nada de você. Não posso esperar.

Então você vem até mim e espera respostas e estamos os dois condenados.

Você me segue, porque espera que eu me responsabilize pelo que você deveria fazer. Você espera que eu diga o que você precisa fazer. Me autoriza a isso. Em mim, você vê algo que seria capaz de tomar a sua ação nas mãos e realizá-la. Você se isenta da responsabilidade e colhe os frutos daquilo que foi feito. Isso é o que você espera, quando decide me seguir.

E eu, me seduzo com isso, porque você, ao me seguir, parece estar validando a minha busca. Sem você, eu estaria reduzido aos meus fracassos insistentes. À dúvida de cada experiência. À luta, para não transformar tudo em morte, em memória, em medo. Ao movimento permanente em busca de equilíbrio. Você me estabiliza, me diz que eu já cheguei no lugar, que não preciso mais continuar a busca. Isso é o que eu espero, quando aceito que você me siga.

Então me ocupo de você. E de outros mil. Quanto mais seguidores, mais validado estou no meu caminho. Passo a depender dessas opiniões. Onde eu estou? Diariamente estou em vocês. Eu agora me chamo Legião, porque sou muitos. Eu tenho a cara daquilo que agrada a todos, daquilo que mantém todos vocês na linha, na minha linha. Naquilo que eu entendo por método.

Mas eu mesmo já me perdi do método. Eu agora sou vocês. E o que somos?

Eu amaria vocês se vocês fizessem exatamente como eu digo? Eu olho para você seguindo o meu método e você é infeliz com ele. Você é dependente dele, não consegue trilhar seu rumo sem ele. Eu olho para você e vejo meu método inutilizado em você. Eu inutilizo meu método, então. Não. Isso não dá certo para vocês. Não dá certo para mim.

Então estamos perdidos.

Mas eu não consigo deixar você de lado, porquê agora não tenho mais nenhum método para seguir. Ao menos você acredita em mim. Isso vai passar. Tudo passa. Daqui a pouco eu vou saber direito o que precisa ser feito.

Mas não sei. Não tenho tempo de saber. Você me ocupa. Vocês todos me ocupam. Preciso de todos vocês para me certificar de que meu método vai dar certo. Eu estou perdido. Estamos todos perdidos, mas eu estou na frente. Guiando todos vocês rumo a esse abismo que se tornou a minha ausência de método. Aonde vamos chegar com isso? Eu não sei. Não sei mais.

Mas preciso continuar. Eu sou a mentira e por isso, não posso deixar que ninguém perceba minha real natureza. E quanto mais me afirmo nisso, mais dúvida eu sou.

Não! Não venha atrás de mim! Eu agora já te odeio! Você e eu nos culpamos pela infelicidade que disputamos. Eu quero ser mais infeliz que você, porque isso te tornaria mais culpado. E você tem a mesma pretensão a meu respeito. Eu agora fico exigente, intransigente. Eu crio demandas impossíveis. Eu preciso ver quem vai sobrar ao meu lado. Eu preciso ficar só.

Mesmo o último dos meus asseclas me será sempre um traidor. Ele traiu a si mesmo, como poderá não me trair?

Não. Não vou por esse caminho.

Não me siga. Não me obedeça. Não adote o meu método.

Permaneça livre, em você mesmo. Fazendo a experiência segundo a sua particular maneira.

É preciso que eu lide com você desta maneira.

Esse é o único modo de nos mantermos livres.

Eu estarei aqui.

Eu aceito você desta maneira.

Mas não serei seu escravo.

A Preocupação do Pai de Família

Alguns dizem que a palavra Odradek deriva do eslavo e com base nisso procuram demonstrar a formação dela. Outros por sua vez entendem que deriva do alemão, tendo sido apenas influenciada pelo eslavo. Mas a incerteza das duas interpretações permite concluir, sem dúvida com justiça, que nenhuma delas procede, sobretudo porque não se pode descobrir através de nenhuma um sentido para a palavra.

Naturalmente ninguém se ocuparia de estudos como esses se de fato não existisse um ser que se chama Odradek. À primeira vista ele tem o aspecto de um carretel de linha achatado e em forma de estrela, e com efeito parece também revestido de fios; de qualquer modo devem ser só pedaços de linha rebentados, velhos, atados uns aos outros, além de emaranhados e de tipo e cor dos mais diversos. Não é contudo apenas um carretel, pois do cento da estrela sai uma vare tinha e nela se encaixa depois uma outra, em ângulo reto. Com a ajuda desta última vareta de um lado e de um dos raios da estrela do outro, o conjunto é capaz de permanecer em pé como se estivesse sobre duas pernas.

Alguém poderia ficar tentado a acreditar que essa construção teria tido anteriormente alguma forma útil e que agora ela está apenas quebrada. Mas não parece ser este o caso; pelo menos não se encontra nenhum indício nesse sentido; em parte alguma podem ser vistas emendas ou rupturas assinalando algo dessa natureza; o todo na verdade se apresenta sem sentido, mas completo à sua maneira. Aliás não é possível dizer nada mais preciso a esse respeito, já que Odradek é extraordinariamente móvel e não se deixa capturar.

Ele se detém alternadamente no sótão, na escadaria, nos corredores, no vestíbulo. Às vezes fica meses sem ser visto; com certeza mudou-se então para outras casas; depois porém volta infalivelmente à nossa casa. Às vezes quando se sai pela porta e ele está inclinado sobre o corrimão logo embaixo, tem-se vontade de interpelá-lo. É natural que não se façam perguntas difíceis, mas sim que ele seja tratado – já que o seu minúsculo tamanho induz a isso – como uma criança. “Como você se chama?”, pergunta-se a ele. “Odradek”, ele responde. “E onde você mora?” “Domicílio incerto” diz e ri; mas é um riso como só se pode emitir sem pulmões. Soa talvez como o farfalhar de folhas caídas. Em geral com isso a conversa termina. Aliás mesmo essas respostas nem sempre podem ser obtidas; muitas vezes ele se conserva mudo por muito tempo como a madeira que parece ser.

Inutilmente eu me pergunto o que vai acontecer com ele. Será que pode morrer? Tudo o que morre teve antes uma espécie de meta, um tipo de atividade e nela se desgastou; não é assim com Odradek. Será então que a seu tempo ele ainda irá rolar escada abaixo diante dos pés dos meus filhos e dos filhos dos meus filhos, arrastando atrás de si os fios do carretel? Evidentemente ele não prejudica ninguém, mas a idéia de que ainda por cima ele deva me sobreviver me é quase dolorosa.

(Tradução de Modesto Carone in: Franz Kafka. Um Médico Rural. SP: Cia das Letras, 2003, p. 43-45)

A doença

A mente condicionada persegue o contraste para negá-lo.

A sucessão de estímulos vai sendo negligenciada por esta mente. É então agrupada em conjuntos de semelhanças, sintetizada e rotulada.

Então surge o contrastante, o diferente e esta mente se apega a ele enquanto busca um conjunto já existente para enquadrá-lo. Quando o estímulo não pode ser enquadrado, a alternativa mais fácil para ela é negá-lo através de um processo de degradação. A mente condicionada tenta reduzir o objeto às suas categorias mais simples. Tenta reduzi-lo a um amontoado de conjuntos que se agregaram construindo aquilo que se apresenta.

Ainda assim, esse estímulo se impõe pela sua inteireza. Ela então nega a existência do estímulo enquadrando-o na categoria “ilusão”, e o mantém lá. Se o estímulo se impõe, acentuando o contraste, a mente condicionada busca outra maneira de lidar com ele. Ela então cria um conjunto específico para este tipo de estímulo e então passa a buscar algo que se assemelhe a ele. Ela então se intriga ao não conseguir encontrar nada igual. Então torna aquele estímulo algo a ser destacado. E assim o reduz ao especial. O estímulo fica “fetichezado” e a mente se mantêm condicionada, perseguindo um fetiche.

Quando adoecemos, o sintoma é esse objeto que salta à nossa vista. Algo desobedece o nosso esforço em manter a mente na percepção da normalidade, da continuidade. Então buscamos a medicação. A redução do estímulo, do sintoma. Somente quando o sintoma se impõe é que temos a possibilidade de investigar com maior profundidade as causas que o estão gerando. A mente condicionada se põe a investigar as causas, de objeto em objeto, de contraste em contraste. A mente se lança ao labirinto. E então sobrevêm a fadiga e a mente se contenta com as respostas obtidas. Ela agrupa essas respostas num conjunto denominado “realidade”. O sintoma desaparece e a mente segue, perseguindo a continuidade.

O que condiciona a mente? A perseguição da continuidade, da permanência. A mente quer se manter destacada, apesar de tantos estímulos que vêm e vão. Ela quer permanecer, embora os pensamentos e os estímulos não permaneçam. Há esse algo na mente que a mantém destacada dos estímulos e para que a mente não perca esse destaque, ela precisa lidar com os estímulos reduzindo-os a objetos mais simples para que ela os possa manipular. Então esse algo na mente não é a mente em si, porque esse algo parece usar certas características da mente em benefício de sua permanência. A mente em si flui, digerindo os estímulos, reduzindo-os a objetos manipuláveis. Mas esse algo transforma essa função da mente em uma ferramenta para que ele se mantenha destacado.

E o que é ele, em si? O que é esse algo que usa a mente dessa maneira? É um aspecto da mente ou algo alheio a ela?

Quando persigo esse “algo”, não o tangencio. Não o toco. Ele se retrai em mim. Se o busco, ele se dissipa. Parece não existir. Porque quando o busco com minha mente, também me destaco dele. Me parece que sou isso e quando uso a mente para buscá-lo fora dessa identidade, não o encontro. Então reconheço que esse “algo” é uma identidade.

A forma dessa identidade usar a mente para se manter é a identificação. Esse “algo” adere à mente se identificando com ela. Então ele e a mente parecem ser a mesma coisa, de tal maneira que a pouco eu pensava que a mente é que queria se manter destacada. Não. A mente está operando como uma ferramenta desse “algo”, dessa identidade. Esse “algo” usa a mente para se manter destacado e a maneira de fazer isso é através da identificação com a mente. Estranhamente esse algo, que busca o destaque, se oculta por trás da mente. Esse algo quer permanecer  e ao mesmo tempo, não quer ser visto. Que coisa é essa?

Claro! Esse algo precisa se manter fora desta função que ele escolheu para a mente: a de reduzir tudo a objetos mais simples para que possam ser manipulados. Então quando aplico a mente para lidar com esse “algo” ele se simplifica também. E o que se torna?

Se torna essa pergunta, essa incógnita sem nenhuma resposta.

Um vazio completo.

Um vazio e ainda, uma potência.

 

Projeto Manhattan, a lógica da especialização

Há um modelo de roteiro para filmes de hollywood que sempre garante alguma bilheteria. É aquele em que o sujeito comum se envolve em algum tipo de conspiração criminosa gigantesca porque sua família está sendo mantida como refém. Quase todos os atores-blockbuster já estiveram envolvidos em uma produção deste tipo e elas pipocam nas telas praticamente em todos os anos. Então o sujeito se mete em todo o tipo de encrencas e vai se tornando cada vez mais um inimigo público número um e no final, ele pega uma arma na mão e mata a bandidagem toda enquanto salva sua família. Ele precisa se tornar esse assassino, e tem justificativas para isso, uma vez que ele foi provocado por esses inimigos terríveis.

A gente recebe esse estímulo constantemente, porque essas produções são sempre repetidas em todos os canais de TV. É um tipo de roteiro chave, sempre reutilizado, sempre na média e sempre funciona do mesmo jeito. Não é genial, mas tem adesão imediata. É como o clássico “mataram meu parceiro e seqüestraram a minha garota”. E isso tudo é gerado para o seu entretenimento, quero dizer, vai ser visto naquela hora em que você só quer relaxar e ver o que está passando na TV. E você abre a sua latinha e se senta diante da tela bem relaxadinho, enquanto o assunto passa a fazer parte da sua programação mental.

No dia seguinte, você se envolve no seu trabalho. Justamente fazendo uma pequena parte de algo cujo todo você desconhece. Vamos dizer, você trabalha numa fábrica de chocolates fazendo pesquisas sobre a quantidade exata de aromatizante artificial de baunilha a ser colocada no chocolate para que as vendas aumentem. Ou traduzindo manuais em alemão para ajudar a linha de montagem da empresa aqui no Brasil. Não importa. Essa mesma empresa está envolvida em crimes ambientais, conseguindo licitações ilegais para a exploração de água mineral, por exemplo, usando um sistema de propinas e lobbies com setores do governo em diversas instâncias. Você até sabe que isso acontece, porque leu em alguma postagem da internet. Mas o seu trabalho não tem nada a ver com isso, você diz.

E segue em seu trabalho, se perguntando como é que alguém consegue fazer isso em sã consciência. Quero dizer, como é que o sujeito se corrompe assim só por causa de dinheiro. Mas não é só por causa de dinheiro. É porque a família dele está seqüestrada. E a sua também. É isso o que faz com que você diga que, apesar da empresa está fazendo aquela merda toda, seu trabalho não tem nada a ver com isso, embora você também colabore com a eficácia do grupo em destruir o meio ambiente. Se você parar com isso, como vai sobreviver? E a sua família?

E você vai sendo promovido. Quanto mais insensível for se tornando aos danos colaterais, mais chances você tem de ter um salário maior e maiores responsabilidades dentro da empresa. Você está se tornando um assassino, mas não está percebendo isso porque o seu padrão de vida melhorou muito. Agora você pode colocar seu filho nas aulas de inglês e levar o menino para tomar ritalina em algum médico muito bom. Você bebe mais caro, come mais caro. Comprou um carro mais caro. As coisas só estão desagradáveis porque você, apesar de ser tão eficiente, ainda é forçado a conviver com os outros, os medianos, nas avenidas congestionadas da cidade.

E é claro, as coisas fora da empresa não estão boas porque o governo é ineficiente, corrupto. De direita ou esquerda. Do partido azul ou do partido vermelho. Porque o presidente é analfabeto ou sociólogo. Qualquer coisa simplista e estúpida. E amanhã, você vai bater cartão na máquina de moer gente.

Veja, para assegurar as suas necessidades básicas, por exemplo, sua casa. Um cidadão médio pode levar até 30 anos em financiamento para pagar a sua casa. Considerando que o sujeito se aposenta por tempo de serviço no mesmo tempo. Imagine: um homem começa a sua carreira e resolve tomar um financiamento. O banco não vai lhe fornecer crédito suficiente para que ele compre a casa que vai necessitar nos próximos trinta anos. Ele vai ter que trabalhar ainda uns dez anos para poder atingir a renda que vai possibilitar a ele conseguir do banco um empréstimo. Como os juros são altíssimos, o sujeito vai se esforçar muito para acabar de pagar a casa em pouco tempo. Mas a vida vai passando e as contas aumentam. Os filhos, a escola dos filhos, a alimentação de mais pessoas, a saúde de todos… Ele vai ficando cada vez mais assombrado com o dia de amanhã.

E se ele sair do emprego agora? É melhor fazer um seguro de vida porque senão, se acontecer algo com ele, a família vai passar necessidades. Esse homem é um escravo. Ele é o homem do filme americano e a sua família está seqüestrada pela ameaça de uma vida terrível. Esse sujeito está pronto para matar o outro.

Nós estamos aprendendo isso a muito tempo. Entendemos que vida é essa coisa, dessa maneira, mas estamos sentindo essa coisa estranha dentro de nós. Olhamos o mundo desabando, as coisas se degenerando mais e mais, o homem se perdendo e nos perguntamos o que podemos fazer. Nos metemos em alguma caridade nas horas livres cada vez menores, tentamos ajudar aqueles que nos parecem vítimas da sociedade, tentamos aplacar uma culpa que não sabemos de onde vem. Achamos que é a culpa por termos dinheiro enquanto os outros não têm. Achamos que é a culpa por termos esse tipo de emprego enquanto o outro fica catando latinhas na rua. Damos roupas velhas aos que passam frio, comida a quem nos pede dinheiro. E a culpa não some nunca.

Descobrimos que há homens e mulheres que vivem dessa culpa manifesta e que nos exploram por ela. Então passamos a ter ódio da culpa e de quem explora o outro por esse ponto fraco. E pouco a pouco, nem culpa sentimos. Nem ódio. Nada. Somente a indiferença e uma certa tristeza não se sabe bem pelo quê. Vamos ao médico e ele nos diz que estamos deprimidos e tomamos drogas para não sentirmos mais nada. Nem culpa, nem tristeza, nem alegria. Nada. Um cinza em nosso sentir.

E isso nos faz eficientes na matança.

E se abandonamos o barco, somos substituídos por outro. Mais novo, mais insensível, mais estúpido, com um salário menor. Mais necessitado ainda do que nós. Mais capaz de matar.

Veja é ainda onde está o valor. Se um homem não está ocupado de matar outro, como vai ganhar seu sustento? Existem esses homens que não estão ocupados com a matança. Homens e mulheres que fazem da sua vida um testemunho de que o ser humano é algo maior do que esse que mata o outro para sobreviver. Homens e mulheres ocupados do melhor do ser humano, da capacidade humana de superar qualquer condicionamento, de criar, de transformar as condições do meio, de se superar. E a pergunta que o homem envolvido na sobrevivência faz é: como podem ganhar a vida se não estão envolvidos com a matança? Que valor pode ter um trabalho que não seja o assassinato?

É o medo do assassino. Um medo aprendido. Um medo que o impede de desistir da matança de agora e de amanhã. O medo de não sobreviver. De não conseguir. O medo de que sua família seja feita em pedaços por um mundo cruel que só existe porque ele colabora com sua inteligência e sua força de trabalho para que exista e se perpetue.

O assassino precisa superar o medo, porque enquanto não descobrir como sobreviver sem aniquilar o próximo, terá sua sobrevivência ameaçada.

“Tu és o assassino que procuras” – (Sófocles, Édipo Rei)

Linearidade

Um sistema é dito ser um sistema complexo quando suas propriedades não são uma consequência natural de seus elementos constituintes vistos isoladamente. As propriedades emergentes de um sistema complexo decorrem em grande parte da relação não-linear entre as partes. Costuma-se dizer de um sistema complexo que o todo é mais que a soma das partes.

A vida é complexa. O arranjo linear de causa, efeito, passado, presente e futuro é ilusório. Cada ato gera um número enorme de ramificações possíveis em relação aos outros seres que nos circundam. Sofrimento ou benção.

O ego, nessa vocação para o controle, passa a definir a identidade em termos de ações feitas em outros tempos e que servem para justificar condutas presentes e estratégias futuras. 

No afã de permanecer, o ego estrutura o tempo e se identifica com ele. O ego é a fração infinita do tempo, a medida incompleta do espaço, o ponto para onde tudo deveria convergir. Um umbigo eterno. O buraco negro. Uma ilusão.

Aquele que busca a identidade, o ego, busca compreender-se agora a partir daquilo que foi feito por ele. Disso nasce a culpa, o julgamento, o arrependimento, a penitência. O ego se enreda no passado e permanece sempre insatisfeito com o agora, almejando um futuro que o preencha. “Eu fiz isso, por isso as coisas estão dessa maneira. Se eu fizer diferente, as coisas serão diferentes.”

Os “ajustes” na sua ilusão de trajetória linear são correções feitas no tempo, um projeto quase sempre lançado ao futuro na forma de expectativas. Quando lançado ao passado, como se o que aconteceu tivesse que ter sido diferente para que as condições presentes fossem outras, chegamos ao ressentimento.

A vida, que não é minha nem sua, é um sistema complexo.

Aquilo que realmente somos se expressa em nossas ações e na maneira como nos relacionamos uns com os outros.

Não é possível isolar a identidade das relações que estabelecemos nem extraí-la dos nossos atos.

A vida que se expressa em você é algo que acontece na maneira como você se relaciona com ela.

Isso é o que somos.

Vazio

Então você chega a esse ponto.

Você percebe que tudo o que você fez até aqui estava condicionado. De algum jeito você se traiu achando que com isso obteria o amor das pessoas que te rodeiam. Em algum lugar, você se decepcionou com alguém que deveria te amar, não importa o que você fizesse. Você foi odiado ali.

Você foi aprendendo a maneira certa de ser alguém a ser amado. E a cada lição, você ficava mais longe daquilo que era no inicio. E então, resolve voltar até ali para ver quem sobra. E se depara com isso. O vazio.

Sem as condições para o amor, sem nenhuma das coisas que te definem, sem ninguém para culpar por seus problemas, você se encontra ali. Só. Então você sofre com isso. Com essa solidão insuportável. E sente que isso é o morrer, de alguma maneira.

Então se lança numa nova aventura, sabendo que o vazio vai adiante.

Você não sabe, mas teme o vazio por aquilo que te disseram que é o vazio.

Para lidar com o vazio, é preciso esvaziá-lo ainda.

O vazio do vazio é o vazio, sem aquilo que lhe disseram dele.

Isso é você.