Notas sobre o Palhaço

Hoje é quatro de fevereiro de 2015.

Sem nenhuma das minhas velhas razões para fazer isso, eu me inscrevi num curso de palhaço, com a Quito. Não estou fazendo teatro, não tenho nenhum projeto em mente, não estou à procura de editais e nem me cooperativei novamente.

Eu só estava cansado da seriedade e me lembrei de o quanto era divertido ver as pessoas rindo por uma coisa que eu tinha inventado. Queria entender esse lugar do humor na vulnerabilidade, pensei que isso poderia me ajudar como terapeuta, que é como eu estou agora.

Então estou indo para o meu terceiro dia no workshop. E até ontem à noite, eu estava muito a vontade. Mas daí, eu fiquei inquieto… Comecei a pensar que devo estar fazendo alguma coisa errada. Devo estar escondido atrás de alguma técnica invisível, dessas que a gente desenvolve depois de longos anos praticando uma coisa.

Eu entro em cena e não tenho nada muito claro. Tenho uma vaga idéia de um caminho por onde eu poderia seguir. Se ele dá certo, ótimo. Se ele não dá certo, tudo bem. A cabeça funciona numa velocidade incrível e sempre dá para aproveitar alguma coisa que está acontecendo e resolver a cena de um jeito engraçado. Timming, sempre, já internalizado, já resolvido. Vinte anos fazendo comédia. Praticamente. Improvisando, resolvendo.

A Quito propõe o jogo e eu fico ali um tempo, vendo como meus colegas jogam. Vendo essa hora em que a estratégia não funciona e ninguém acha a menor graça no que você faz. Vendo como a gente cai na tristeza nessa hora e como isso te leva a energia de cena. E então, quando eu tento fazer isso, não acontece nada. De algum jeito, muito rapidamente, eu resolvo a coisa e a platéia gosta.

Estou fodido, entende?

Eu sei exatamente que lugar é aquele ali que aparece nas cenas dos meus colegas. Eu sei. E eu passo por ele batido. Dou um jeito. Ao menos ali, na cena, eu resolvo a coisa. Mas então eu fiquei pensando que eu não resolvo isso sempre na minha vida. No tempo em que eu estava atuando.

Não.

Eu chegava para fazer um teste numa produtora qualquer e me davam um papel com meu nome e idade. Depois, alguém me vestia de acordo e o assistente me dava um papel com um texto pequeno para decorar.

Desde o momento em que eu chego na produtora e vejo mil colegas na fila, todos eles endividados como eu, todos eles tentando ser divertidos, falando sobre os projetos e etc, desde o primeiro segundo até o momento em que finalmente chega a minha vez e eu começo a cena, sem ter certeza de que é isso o que eles querem, se eu estou bem, se vou ganhar aquela grana, se o outro cara foi melhor do que eu, se aquela cara do assistente é cansaço, tédio, desolação pela minha cena ou se é algo da vida dele que não vai bem, se aquele cara da câmera atendendo o celular durante o trabalho se ele já sabe que eu não sirvo pra isso… E então eu me lembro que esqueci a DRT em casa e eles não vão me pagar o cachê teste, que é uma miséria sempre… Ali eu não consigo me divertir! Ali entra algo que acaba com o Palhaço, se é que é ele quem se expressa quando eu entro em cena.

Somente uma vez na minha carreira eu não senti isso. Foi quando eu fiz o teste para o “Cabeça”, num seriado on-line para a Locaweb. Foi algo externo a mim, algo que eu não manejei ainda. O briefing era muito bom e o personagem não tinha tantas falas no roteiro. Eu podia fazer o que quisesse. Então eu me diverti. Fiz o que bem entendi, mesmo que desse errado. Eu aproveitava qualquer estímulo e incluia no aloprado. Pronto.

E aí peguei o papel. Voltei de um outro trabalho e parece que toda a equipe falava do meu teste, que tinha sido ótimo. As pessoas já sabiam quem eu era. E nas filmagens, eu sempre me divertia muito.

Isso até que o Cabeça deu certo.

Então, o cliente arranjou mais texto para o Cabeça. Criamos o “funk do cabeça”e aí, depois disso, esse outro “algo”apareceu e tudo aquilo ficou muito amargo para mim.

Hoje está parecendo pra mim que o Palhaço é o diabo desse Ator que pretende o sucesso, a fama, a glória, os rios de dinheiro. Parece que ele é a verdade desse “Gênio-incompreendido”, desse ator sem importância, fracassado, cheio de dívidas e mentiroso.

De volta ao palco e então eu sinto o perigo da situação. A platéia pode gostar ou não do que eu faço. À princípio, eu esqueço completamente deles. Só me lembro que estão ali, quando dão as primeiras risadas. Então percebo que funcionou  e continuo jogando.  Ali, na terra da Micagem, eu domino.

Mas nessa vida a sério, essa sensação de fracasso, de humilhação, de miséria, de incompreensão, de abandono, ela me desanima e me faz desistir de ser visto.

Sabendo que sou eu, num estado ou no outro, aquele que atribui valor em ambas as situações.

Eu gostaria de tomar contato com esse lugar de desconforto e ver o que acontece, quando eu entro nele. Será que isso vai acontecer em algum momento, nesse workshop?

Será que eu descobri, de algum modo, com essa associação de idéias um modo de trazer o Palhaço adiante quando a humilhação for inevitável?

Me parece que tudo o que fiz de arriscado foi conduzido por esse espírito do Palhaço. Tudo. Essa maneira de dar respostas à vida com o mote: “Não sei fazer isso, nunca fiz isso, preciso desse recurso e na hora eu dou um jeito, faço qualquer coisa, resolvo, mesmo que dê errado”. E resolvo.

Então entra o “ARTISTA”, o “GÊNIO” e ele me fode!

Ele não entra em cena, como o Palhaço.

Não. Ele fica nos bastidores, contando os espectadores, lutando contra as opiniões e as críticas, reclamando das péssimas condições de trabalho, chorando pelo cachê teste e a falta das políticas culturais.

Eu ainda não sei se esse estado em que entro quando estou em cena e as pessoas riem é o estado do Palhaço. Eu me sinto vulnerável ali, mas não me importo.

E parece que com isso sou invulnerável.

Só gostaria de ser assim durante mais tempo na minha vida.

Physique é preconceito. E não é só…

Em que medida o corpo de um homem representa, significa, expressa o que ele é?

O que define, na aparência de um homem, a adequação a determinada função, a determinado papel que é esperado por outros? Como isso se dá?

O Physique du Rôle sendo o inferno do ator. O lugar intransponível para muitos. Aquele reconhecimento que não se deseja: “chame o fulano, ele tem aquela cara de…”. E fulano segue, representando o mesmo personagem até o final da vida. Encontrado na rua, ele é chamado por esse nome. “Ei, você não é aquele que fazia o …”

Peguemos a nobreza, por exemplo. O que a define na aparência de um homem? Em seus gestos, em seu movimento e na sua maneira de se relacionar com os outros? O que ele gera à sua volta que faz com que nós o interpretemos como rei dos demais? Como ele chega a isso?

Então todos nós, em algum momento da vida, fazemos a opção por um dos papéis disponíveis: eu escolho ser médico. Meus pais pensam que eu seria um bom arquiteto. Meus professores acreditam que eu seria um excelente advogado. Essas pessoas me vêem, de fora, e atribuem a mim um significado. Acreditam que, por determinada coisa externa que eles interpretam em mim, eu poderia cumprir determinada função para eles.

Eu insisto na medicina. E então cumpro todas as ações que as outras pessoas esperam de um médico. Um ritual, um conjunto dessas ações. Que vou cumprindo com maior ou menor dificuldade, fazendo os ajustes necessários, até que chega um momento em que os outros me vêem como sendo o médico. Mas eu ainda não me sinto preparado. O outro, me vê como médico. Eu já significo isso para ele e no entanto, para mim mesmo, ainda falta algo. Esse desajuste entre aquilo que sentimos que somos e aquilo que o outro nos atribui.

Então há o Physique? Eu teria o Physique de um arquiteto para uns e de advogado para outros. E hoje chego a ser um médico. As pessoas me olham e ainda me vêem como o arquiteto? Qual a razão disso? Eu agora sou médico, médico para mim mesmo? Ou diante daqueles que me viam como arquiteto eu fico inseguro das minhas escolhas?

Há sim, no corpo, um sistema de tensões mais ou menos constante intimamente relacionado a algumas estratégias emocionais que usamos nas relações com as outras pessoas. Isso nos veste, mesmo nus. O outro nos vê e vê primeiro esse figurino de carne, com a história das nossas estratégias que deram certo. Ele olha pra mim como um menino frágil, porque isso sempre funcionou na minha relação com outros. Ele olha para mim e vê a minha rigidez de estratégia, a minha doença, a minha prisão. O que eu sou é algo além desse personagem constante e está perdido para mim mesmo.

O homem pode ser o que ele bem entender, mas primeiro precisa chegar a uma nudez ainda mais profunda. Uma nudez que é uma morte.

Então primeiro é preciso desvestir-se desse personagem que criamos para os outros. E se expor numa nudez profunda, uma nudez que revela aquilo que realmente somos, aquilo que viemos expressar aqui. É preciso essa coragem de expressar essa nudez e depois vestir na carne o significado que queremos dar à nossa vida. Muito além do outro e suas chantagens. O outro e aquilo que ele espera que eu seja para ele.

Então o homem pode ser aquilo que ele bem entender.

E ele é livre.

Rebelião

O que faz um homem ser um rei de outros? O que determina a riqueza, o valor, o poder de um homem sobre os demais? O que faz com que o critério de um se sobreponha a todos os outros e determine os limites do crescimento de outros? Um homem, sendo o aval dos demais.

Existe essa intuição que me acompanha faz algum tempo. Eu escutei muitas vezes que, num trabalho, os aspectos subjetivos devem ficar fora da equação. Ninguém tem nada a ver com seus problemas pessoais. O que vale é o acordo coletivo ou a eficácia da tarefa no tempo. Isso é uma herança do fordismo, da linha de montagem e do sistema de controle da energia vital que vem desse sistema inteiro. Mas o que eu vejo na prática é que, quanto mais os aspectos subjetivos dos indivíduos são negligenciados, mais o trabalho conjunto fracassa e mais doente se torna o grupo.

Então há esse homem, o rei. Ele coordena os esforços coletivos em uma direção determinada. Há um acordo aí. Ele diz o que deve ser feito e os outros o seguem. Mas o seguem apenas quando lhes convém. Esse homem vai necessitar de um aparato repressor enorme, na forma de leis, de outros homens que as façam ser cumpridas pela força ou pela lógica que se sobrepõe à dos demais. Entre o rei e sua lei, existem mil homens, cada um deles pretendendo ser o rei dos que estão abaixo dele. Cada um deles defendendo seus próprios interesses em nome do rei. O rei então passa a ser uma máscara.

O rei mesmo precisa honrar a máscara do rei. Essa máscara que se torna a somatória dos entendimentos individuais sobre o poder, sobre a autoridade, sobre a sabedoria. O rei precisa honrar um critério que se expande para além dele e que se torna o critério da época, o espírito do tempo. Então o rei se rebela. Ele mesmo se torna a rebelião e passa a agir conforme seu próprio juízo. Ele quer corromper o papel de rei, quer moldá-lo conforme aquilo que ele pretende que seja. O rei desonra a si mesmo e aos demais e avança cada vez mais esse limite, buscando ser quem realmente é, buscando a ruptura da máscara sem o abandono da função. E então os nobres também se rebelam. Eles passam a agir conforme os seus próprios interesses e exercem seu poder com força ainda maior. Eles oprimem seus servos, agora sem a máscara do rei. Eles apresentam a face dos seus caprichos, totalmente exposta.

O nobre, não sendo o portador da máscara do rei, é apenas um homem mau. Alguém que come, enquanto povo passa fome. Nessa lógica simples de barriga vazia, um homem que não é dono nem do próprio corpo, nem de sua força de vontade, ele decide que o nobre não significa nada para ele. Então busca a destruição da nobreza, e avança contra seu senhor, na intenção de encher a barriga e fugir. A revolução. A torre de Babel. Cada homem falando a língua de seu estômago, a língua de seus caprichos.

O que cria a nobreza, e o rei, e o escravo? Significados. Valores. Papéis. Personagens. Jogos.

Um homem é rei enquanto significa isso e deixa de sê-lo quando o significado se perde.

Então a rebelião é uma questão de significado.

Quando a palavra rei for esvaziada, quando o sentido de um homem estar acima dos demais for ausente, nessa hora, seremos livres.

Enquanto buscarmos em outro homem o aval para os nossos atos, enquanto formos incapazes de ser responsáveis pelos desdobramentos de nossas ações e enquanto pretendermos sujeitar outros homens aos nossos caprichos, enquanto isso, os reis povoarão a terra e a torre de Babel tenderá sempre a se repetir.

Um corpo

Paulinho me pediu isso para a entrevista e me dei conta de que não saberia contar minha história assim. Então resolvi escrever para ir pensando desse jeito antes. Eu sempre contei a história das minhas referências, daqueles que de alguma maneira me inspiraram, mas isso tinha muito a ver com a minha mente e não com a minha perspectiva sobre o corpo.

Eu cresci na década de 80. Sou de 74 e em 1980 estava no pré-primário. E tenho um sopro cardíaco. Naquela época, uma criança com problemas no coração era alguém com uma contagem regressiva para uma cirurgia. E além disso, eu tinha febre reumática, uma condição provocada por uma bactéria que justamente tinha a capacidade de comer as células das válvulas cardíacas. Essa febre doía pra cacete! Você começa sentindo uma dor infernal no joelho direito e uma febre só no joelho. Depois a febre vai para o esquerdo, e a dor também. A febre é muito alta e a dor parece que não vai acabar.

Os médicos acharam melhor que eu não fizesse educação física. Também recomendaram à minha mãe que eu não me machucasse ou que não tivesse nenhum tipo de infecção séria por estafilococos. Eu também não podia tomar nada gelado, nem friagem, nem andar descalço. E todo mês eu tinha que tomar benzetacil.

Lindo, né?

Primeira referência: minha mãe. Criando o único filho homem numa bolha, segundo as recomendações médicas. Minha mãe me ensinou a dar valor à minha força de vontade e a ter fé. Ela me ensinou que era preciso respeitar os meus limites, mas eu entendi que era preciso temê-los. Minha mãe sempre me estimulou a ser disciplinado, a estudar, a aprender fazendo, a ler, a criar. Minha mãe me protegeu por tempo demais, mas ela fez o que conseguia fazer.

Segunda referência: Dr. Carlos Niel Freire, meu médico homeopata. Ensinou minha mãe a não me mimar demais. Me deixou tomar sorvete e andar descalço. Me ensinou a atravessar a febre, sabendo que ela ia acabar um dia. Me curou da febre reumática na infância e do líquen plano na idade adulta. Me curou de uma namorada ruim. Me ajudou com a falta de paciência com a carreira que não decolou nunca. Me ensinou que corpo e mente eram expressões de uma mesma coisa.

Depois da cura eu comecei a fazer educação física. Mas já era um pré-adolescente e péssimo em qualquer esporte. Eu era o último a ser escolhido. Ou o penúltimo. Não sabia o lado certo de chutar a bola. Não agüentava correr por muito tempo. Não queria saber de futebol, nem volei, nem handebol. A única coisa que eu jogava bem era queimada, que era coisa de menina. E taco, que era brincadeira de rua. Eu era bom em taco, mas era melhor jogando a bolinha na lata do que rebatendo com o taco. E quem joga a bolinha não marca ponto. Ganhei uma Caloi Cross, mas não tinha força para empinar. Treinei Karatê durante uns meses, mas tomei um chute na cara depois das férias e desisti. Minha vida de atleta foi uma desgraça completa.

Terceira referência: Professor Hélio Scaglioni. O Hélião era professor de educação física. Quando eu cheguei a sua turma, já tinha desenvolvido uma técnica de cabular aulas, junto com o Edward. A gente respondia a chamada e dava um perdido, ia para a classe desenhar até o final da aula. O Hélio era mestre na malandragem e logo descobriu o nosso esquema. Eu não lembro o que ele fazia com o Edward. Mas ele dava um jeito de eu entrar no time dele no futebol de campo. Eu tinha um chute forte, mas não conseguia acertar a bola no lugar certo. Mas era muito bom com as canelas dos amigos. Então o Helião me pedia para fazer faltas em certos caras do jogo. E depois me dava cobertura. Isso me garantiu um lugar nos jogos de rua com meus amigos. Eu entrava no jogo na hora em que era preciso fazer falta em alguém. Hélião achava um jeito de eu participar da bagunça na escola, que era um jeito de ser corpo. Acho que foi por causa dele que mais tarde eu acabei virando comediante.

Eu terminei o ginásio e fui estudar eletrônica na Fundação Bradesco. Na mesma época, comecei a fazer natação na ACM, por indicação médica. Então conheci a quarta referência: Professor Teixeira. Ele parecia o sargento Pincel, dos Trapalhões. Era um sujeito gente fina e tinha uma paciência enorme. Foi o cara que me ensinou a nadar. Eu nunca consegui aprender o nado borboleta, mas o Teixeira foi o sujeito que me ensinou judô aquático. E me deu um ensinamento que é útil até hoje: ele me disse que quando o sujeito está se afogando, ele não tem discernimento para olhar para você e entender que você tem a chance de salvá-lo. Nada disso. O sujeito vai se agarrar em você e usar você para boiar, porque ele está em pânico. Nessa hora, você precisa aprender a tirar a autonomia do cara por alguns momentos e ajudá-lo a não se afogar. Então ele nos ensinou maneiras de evitar estrangulamentos e imobilizar alguém que você está tentando salvar.

Na Fundação eu comecei a jogar handebol em times mistos. Handebol parecia queimada, de algum jeito. Então eu virei goleiro e jogava usando óculos. A gente tinha algumas aulas de atletismo e aprendia salto triplo e esse tipo de coisa. Foi aí que eu tive a minha primeira experiência corporal de pico. O James era um cara que estudava comigo e que praticava atletismo. Era um sujeito alto e tinha experiência com as corridas. Eu resolvi naquele dia que iria tentar ganhar do James na corrida. Sabia que não tinha resistência para uma prova de 400m, mas poderia tentar ganhar na de 100m. Então eu corri e corri. E num dado momento eu me lembro de ultrapassar o James, que me olhava com um cara assustada. A minha pressão ia baixar na hora e então eu me imaginei como uma águia voando. Eu não senti mais nada, e ganhei a corrida. Foi a única vez. Mas eu ganhei. E a águia ficou comigo nessa experiência.

Quinta referência, professora Luciana, de História, O.S.P.B e Educação Moral e Cívica. Eu desenhava. Para passar o tempo, para descansar a cabeça, para aliviar as insuportáveis enxaquecas. Eu nunca anotei muita coisa em sala de aula. Desde a infância. Desde o momento em que os professores param de conferir se você está copiando a matéria eu passei a desenhar no caderno, como forma pessoal de anotar as coisas. Quando eu estudava eletrônica, as dores de cabeça aumentaram muito. Uma náusea insuportável que me acompanhava todas as vezes em que eu realizava um enorme esforço mental. E o desenho, que me acalmava. A professora passou pelo corredor e ficou olhando meus desenhos, todos violentos, todos relacionados à matança. Mas eram bons desenhos. Então ela me perguntou o que diabos eu estava fazendo ali, naquele curso de eletrônica. Ela me disse que eu era um sujeito criativo, um artista e que aquele curso era uma coisa para bitolados, para gente sem opção. Me indicou um curso de desenho na prefeitura de Osasco, um curso gratuito.

Sexta referência, Inácio Gurgel, ator, diretor e professor de Teatro. Eu comecei o curso de desenho na prefeitura. Um curso de dois anos de duração. Mas em três semanas eu já tinha terminado o primeiro ano, porque levava a pasta para casa e adiantava a matéria depois que terminava de fazer as minhas lições de casa. Depois desse prazo, os outros alunos ficavam vendo os meus desenhos e não faziam mais nada. O professor me pediu para mudar para turma do segundo ano, onde eu aprenderia a pintar. Mas eu odiava as cores. Odiava pintar. Acho que pintar tem algo a ver com o corpo e desenhar tem muito a ver com a mente. A Denise, minha irmã, me pediu para ficar de olho se aparecesse um curso de Teatro gratuito, porque ela estava querendo muito fazer. Então aparece um velho no curso de desenho e fica fazendo propaganda do curso de Teatro da prefeitura com a mão no meu ombro. Eu acho viadagem, mas chego em casa e falo para a Denise. Ela me pede para acompanhá-la, a Dayse também resolve ir e chama uma amiga. Eu convido o Júlio e a gente começa a fazer teatro no Espaço Cultural Grande Otelo.

O teatro me deu uma perspectiva inteiramente nova sobre corpo, sexualidade, amizade, relacionamento. Eu me apaixonei por aquilo tudo, me apaixonei por mim mesmo naquilo. Então comecei a pensar em deixar o curso de eletrônica para me tornar um ator, coisa que foi muito mal vista na família.

Sétima referência, Beto. Foi meu professor de teatro no Anglo Osasco. Era um sujeito complicado emocionalmente, ficava o tempo todo fazendo joguinhos emocionais com a galera. Mas eu conheci muita gente bacana e conseguia ter uma relação mais ou menos tranqüila com o Beto. Ali eu me meti com o teatro de cabeça e comecei a aprender um pouco de mímica e clown.

Oitava referência, Antônio Januzzelli, o Janô. Mestre total. Eu achava que a aula dele era pura enrolação. Me divertia tentando enrolar, fazendo qualquer coisa que me desse na telha, porque achava que ele não estava vendo nada. Mas ele vê tudo. Vê até o que você não vê. O velho é foda! Ali eu aprendi o que é fluxo. Aprendi a pensar num método de trabalho criativo, aprendi a pensar no ensinamento que um ator necessita. Ali eu li Homo Ludens, do Huizinga. Janô foi companheiro em outras empreitadas, como “Frio 36 e meio C” e os trabalhos na casa da Paula Picarelli, com o Marcelo Airoldi e o Guilherme Jorge.

Nona referência, Maria Lucia Pupo. Jogos teatrais, Viola Spolin, jogar o jogo. Participar do jogo com o corpo. A precisão no jogar.

Décima referência, Eduardo Tessari Coutinho, doutor em mímica. Coutinho não só me ensinou muito sobre mímica, como me ajudou muito a abrir meu peito. Meu trabalho com ele foi o que mudou meu corpo nerd em corpo de ator. Eu aprendi Feldenkrais, Rolfing, alongamento, aikido. Trabalhei com ele mais tarde num espetáculo que eu mesmo escrevi chamado “A construção”.

Décima primeira, Patrícia Noronha, dança. Ali eu voltei a cabular as aulas de educação física. Não coordenava nada com nada. Não conseguia assimilar nenhuma coreografia. Nada. Eu odiava aquilo tudo. Mas ela se divertia tanto com aquilo e era tão linda que me fazia pensar que eu poderia aprender a dançar.

Décima segunda, Desirée Veiga, artista plástica e educadora. Me ensinou sobre o meu corpo. Me ensinou a olhar para o meu próprio corpo de uma maneira inteiramente nova. Acompanhou a enorme transformação que me aconteceu nos trabalhos com o Coutinho.

Décima terceira, Juliana Jardim e Elton Vagner. Me ensinaram a criar partituras. Me ajudaram com a precisão. Então eu criei uma coisa muito forte em “O olho azul da falecida”. Eu fui absolutamente radical naquilo. E era bom pra cacete!

Décima quarta, Arthur Belloni, Laís Marques e Helena Cerello. Lindos. Me ensinaram a dançar, a olhar a dança, a opinar sobre ela. Me ensinaram que eu podia ir mais longe do que jamais tinha sonhado. Construiram junto comigo aquilo que chamamos de “Frio 36 e meio C”. Coisa da alma impressionante de Arthur Belloni, mineiro inesquecível.

Décima quinta, Claudia Pucci. Mulher, parceira, mãe dos meus queridos filhos, Pedro, Gabriel e Francisco, que está quase chegando. Me deu a honra de assistir todos os partos e nosso único aborto. Me ensinou a amar meu corpo e o dela. O apoio de todos os dias.

Décima sexta, Silo. O argentino, o negro. Foi ele quem ajeitou o Movimento Humanista e todo trabalho com a alquimia que eu depois realizei. Aquilo me transformou absolutamente, me trouxe uma nova percepção de recursos, de fartura, de transformação da realidade. Aquele processo acabou com o sujeito que eu conhecia até então e abriu as portas para uma coisa inteiramente nova.

Décima sétima, Paulinho Panzeri, o entrevistador. Paulinho faz um trabalho chamado desbloqueio corporal. A gente tentou fazer um espetáculo com essa coisa toda, mas é impossível! Eu não entendia na época como é que o Paulinho via o que ele via, mas sei que tinha tudo a ver com que eu estou fazendo agora.

Décima oitava, Pedro Nebesnyj, terapeuta corporal. Eu quis aprender uma massagem e queria entender o ayurveda. Minha irmã Denise me indicou esse grupo de estudos no lugar onde ela recebia a massagem ayurvédica. Eu conheci o Pedrão e um dia resolvi conhecer a massagem que ele fazia. Nesse dia eu soltei todos os cachorros que eu não sabia que estavam presos dentro de mim. Eu tinha tanta raiva da vida, tanta! Eu queria arrebentar tudo, queria quebrar o Pedro no meio. E ele assistiu esse exorcismo todo e foi impassível. Eu me entreguei absolutamente e atravessei aquilo tudo. Então, um dia eu criei coragem e pedi a ele que me ensinasse a massagem. Hoje é o meu principal trabalho.

Décima nona, Françoise Otondo, terapeuta corporal. Nós três assumimos a gerência do espaço depois que os outros todos foram tocar as suas coisas fora de lá. Nenhum de nós entende nada disso e estamos aprendendo a tocar o barco uns com os outros. As conversas com a Fran e com o Pedrão são sempre espetaculares.

Vigésima e última, todos os corpos que eu já massageei. Todos e suas histórias, seu jeito de lidar com a vida. Eu aprendo sempre com cada um deles e isso é a principal razão de eu ir trabalhar amanhã.

Do novo mundo

Era como um relógio, um software, uma equação. Aquilo tudo ia acontecer da mesma forma já ensaiada durante meses. Minha satisfação era sempre essa exatidão, essa precisão. Mas aquela cena final, aquilo, ainda faltava algo, parecia. Algo que eu não conseguia entender o que era.

Eu entrava e executava tudo conforme tínhamos ensaiado. A coreografia aprendida a duras penas. A luta contra a minha vergonha de dançar. Fazia sentido aquilo, o personagem só expressaria sua máxima contradição se chegasse a esse ponto. Assim me parecia. Mas ainda assim, a cada vez que eu entrava em cena, parecia que me faltava alguma intenção além do mecanismo já conhecido.

Então, naquele dia, eu entrei e vocês três estavam lá sentados. A água iria cair na cabeça de vocês dali a pouco e a cortina de polvilho em pó também. Eu faria os sons dos animais e serviria a vocês a bebida azul e finalmente, iria para o centro da cena fazer a cena final, a dança. Naquele dia eu senti a humilhação daquele homem, a inutilidade daquele trabalho e a piada terrível de ele fazer aquele trabalho mecânico, repetitivo e infinito ao som de “From New World”, de Dvorak.

Eu sentia um prazer enorme de ter usado minha mente daquele jeito para montar aquela peça com vocês. Eu adorava cada problema que a gente resolvia juntos, cada máquina que eu criava e submetia ao uso e aprovação de vocês, cada percepção da coreografia, porque nessa peça eu não só aprendi a dançar, como aprendi a ver a dança. Mas naquele dia, naquela exata percepção, meu olhar ficou turvado pelo do “contraregra”. E dali em diante, eu não consegui me livrar disso.

Cada vez que uma máquina apresentava problemas, cada vez que um cenário seria montado, a cada vez, eu me sentia como ele e não consegui entender que era isso até essa semana. Imaginem… Quantos anos já fazem? Dez?

Eu não agüentava mais o que eu via. Era insuportável. A peça foi ficando insuportável. Minha carreira foi ficando insuportável, o teatro em si. A idéia de trabalho, de seguir profissionalmente, alimentando uma máquina sem sentido e criando a ilusão de um mundo novo onde a novidade de hoje era a indignidade de ontem. Aquilo entrou nas minhas tripas e achou lugar no meu culto à desistência, desenvolvido a duras penas com os conselhos de mamãe sobre respeitar os meus limites.

E a soma das coisas foi que eu desisti de qualquer coisa quando percebi que aquilo só ia perpetuar o andamento da máquina infernal.

Eu não pude ver isso na época.

O mineiro me ligou no final da temporada para perguntar porque eu não tinha ido à reunião de avaliação e eu nem me lembrava da reunião. Não tinha anotado em lugar nenhum. Tinha dado uma aula péssima e quando ele me ligou eu estava tentando esfriar a cabeça. Eu disse que não iria, mas que estava cansado de fazer a peça e só tinha percebido isso quando um espetáculo foi cancelado porque a prefeitura de São Paulo não estava pagando as contas de luz e eu senti alívio.

Eu estava cansado da vida. Estava vivendo um sobre-esforço e fazendo a única coisa que eu conseguia nessa situação: desistir.

Abri mão disso para me casar com a Clau, para buscar um trabalho com teatro que também me desse dinheiro. E então fui fazendo essas coisas todas em troca de dinheiro. O sacrifício constante. Não fiz mais nenhum trabalho com aquele envolvimento criativo, aquele uso da minha mente. Nada. Tudo o que fiz foi pela grana, pela possibilidade da grana. Da grana atual ou futura. De novos trabalhos.

E aí larguei de vez o teatro, cansado da pobreza permanente.

Abri um buraco dividindo meu prazer de estar vivo com a necessidade de sobreviver. E então me transformei no contraregra durante algum tempo.

Eu entrei em contato com essa massagem e ela foi me propondo essas coisas.

Um dia eu comecei a caminhar por duas horas, durante a manhã. Mantive essa prática durante alguns meses e descobri um lugar onde eu comecei a treinar kung fu. No começo eu chegava todos os dias no meu lugar de desistência. E desistia, como sempre. A pressão baixava e eu me sentava no chão, querendo vomitar.

Meus treinos duravam uma hora, duas vezes por semana. No primeiro ano, aproveitei a promoção de férias e fui treinar todos os dias por duas semanas. Quando eu passei do primeiro nível para o segundo, ia ter que aumentar em dez o número de flexões de braço. Eu treinava às terças e quintas e o exame era no sábado. Então fiz o exame num sábado e na terça seguinte já tinha que fazer mais flexões.

Não consegui de primeira. Daquele dia em diante, fui aumentando uma flexão a cada treino e então quando eu termino um nível já tenho preparo corporal para o seguinte. O mesmo para as abdominais e todas as outras resistências.

Nos chutes de aquecimento, a minha pressão seguiu baixando durante muito tempo. Mas eu fui aprendendo a poupar energia e adotei o sistema de não parar. Eu respiro, recupero a energia e vou.

Meus treinos passaram a ser mais longos.

Quando eu estava fazendo o curso de massagem com o Pedro, ele disse para a gente que tinha dias em que ele fazia onze massagens. Eu ficava exausto se fizesse duas na seqüência e então criei esse objetivo de ter estrutura corporal para fazer ao menos umas cinco massagens por dia.

Comecei a usar as bicicletas do Banco para ir embora para casa. Nas primeiras vezes, fui até a Estação Berrini, da CPTM. Os trens estavam cheios, um inferno. Então resolvi testar se agüentava ir até o Shopping Eldorado. E consegui. Do Shopping até a minha casa no Butantã, eu seguia a pé, e tudo bem.

Fiz uma revisão na minha bicicleta e comecei a ir até o metrô Butantã com ela. Deixava a bike estacionada lá. Pegava metrô, ônibus e caminhava até o trabalho. Na volta, pegava a bike do Banco, ia até o Shopping, atravessava a ponte a pé, pegava a minha bike e seguia para casa. Três subidas à nossa volta são impossíveis e eu comecei a pesquisar a história da bike elétrica.

Mesmo assim, continuei usando esse método.

Usar a bike todo dia foi melhorando a minha performance nos chutes de aquecimento.

Quando eu me mantenho treinando duas vezes por semana, em pouco tempo a minha pressão já não baixa mais. Só que eu começo a trabalhar mais, a atender mais. E volta e meia tenho que faltar num treino da semana e às vezes em dois. Mesmo assim, sigo treinando. E lutando com o lugar da desistência.

Quatro meses atrás eu comprei a bike elétrica. Não sei porque, mas eu me lembrei de vocês três naquele dia. A bike parecia uma invenção minha e acho que isso o que eu gosto nela. De algum jeito ela me lembra do “Frio”. Desde o dia em que eu comprei tenho usado a bicicleta para percorrer um trajeto de 36km (18 ida e volta) até o trabalho. Deixei de usar o carro, o metrô ou o ônibus. Isso diminuiu bem os nossos custos domésticos, embora eu ainda esteja pagando a bike.

Ela resolve meus problemas com as subidas críticas e me ajudou muito com o condicionamento físico.

A sexta-feira é o dia em que a minha agenda de clientes está mais cheia. Tenho atendido no mínimo três pessoas, mas chego a quatro ou cinco.

Eu estava pensando justamente como fazer com que os outros dias da semana cheguem nos cinco atendimentos e então chego numa sexta feira e tenho seis pessoas para atender. As meninas da recepção me perguntam se tudo bem e eu resolvo assumir o risco. Atendo as seis pessoas e no dia seguinte, vou treinar meu kung fu por duas horas.

Ali eu me dei conta de que eu tinha criado um limite arbitrário e que talvez eu pudesse atender mais gente do que imaginava.

Então sábado passado, no treino de kung fu, eu estava dando um soco num aparador sustentado por um colega e de repente me dei conta de que eu colocaria um sujeito em knockout com uma seqüência daquelas. Eu tinha conseguido o corpo que eu sempre quis. Mas ao mesmo tempo, eu percebi que botar alguém no chão não seria nunca a minha primeira opção.

Fiquei com isso.

Até essa percepção, eu achava que nunca colocaria um sujeito no chão. Mas não sabia se essa fala tinha a ver com essa sensação de não ter capacidade corporal. Entendem? Então no sábado eu percebi que tinha chegado na capacidade corporal que eu sempre imaginei que chegaria por causa dessa percepção da capacidade de nocautear alguém.

Bom, eu tive febre desde o sábado.

É um baque no fígado que é um dos maiores indicadores do terreno da desistência. Eu fico prostrado, sem energia, com a vista amarelada, amargor na boca. E a febre.

Mesmo assim, eu fui trabalhar na segunda.

Eu teria desistido, sabem.

Eu só percebi esse circuito todo que tinha vindo desde aquele nosso encontro porque, por outras razões resolvi enfrentar essa desistência de frente. E numa noite, no meio da febre, eu me vi entrando no palco e tendo a percepção do contraregra e me dei conta de que era isso o que eu precisava curar.

Um sonho

Eu não sei como cheguei aqui. Um enorme galpão, mal cuidado, repleto desses gaveteiros estranhos. São cômodas gigantes. Será que isso é o cenário de alguma coisa?

Ninguém chegou ainda, então eu posso escolher um ponto e ficar aqui.

Deixo a mochila no chão e vou em direção aquela enorme janela. Estou escutando vozes e pode ser que as outras pessoas já estejam chegando.

Quem são elas?

O calor é infernal!

Eles entram no galpão, em procissão. São atores e atrizes, uma multidão deles. Uma atriz imensamente gorda chega aos gritos. Me parece que ela representa um grande crítico de teatro numa peça biográfica. Ela critica incessantemente tudo, parece estar tomada por esta função. Todos os espetáculos, todos os atores ausentes. Tudo é péssimo.

Ela se aloja em uma das gavetas e então eu entendo que essas gavetas são dormitórios. Ela enche a gaveta de água e começa a se banhar, se esfrega nas costas e critica tudo, com seu óculos aro de tartaruga e o cabelo channel. Eu vejo que ela tem um pequeno séquito, mas algumas pessoas fora dessa órbita imediata têm sérias restrições quanto ao comportamento da gorda. Eles fofocam, fazem caras e bocas. Tecem críticas sussurradas.

Então ela chega, a ex-atriz mirim. Ela tinha sido uma estrela na infância, mas agora está sempre aparecendo em segundo plano. Um inferno, evidentemente. Ela odeia a atriz gorda e começa então a tecer críticas terríveis. Elas se destroem verbalmente, agora. E as outras pessoas se somam, tomando partido de uma ou de outra.

Eu estou aqui nesta escadaria, olhando isso tudo acontecer e não quero tomar partido de ninguém. Mas a pressão é enorme. Eu escondo o rosto, meu peito dói. Eu não quero fazer essa concessão. Não suporto isso! Então eu começo a criticar a todos! Critico a inteligentzia. Mando tudo à merda.

Então esse amigo me faz ver que com esse meu ato eu estaria arrebanhando seguidores. As pessoas covardemente se esconderiam atrás de mim e me empurrariam para o enfrentamento. Eu seria uma figura a mais, como a gorda e a ex-atriz-mirim.

“Eu quero que vocês se fodam! Não me sigam! Não me sigam!”

Então ele me diz que as pessoas não faziam aquilo por maldade. “Veja como dói em você ser fiel ao que você sente. Isso é um decisão difícil e a maioria das pessoas não suporta essa dor. Então eles cedem e essa covardia é a origem de todo esse estado de coisas”.

Então eu respondo: “Mas eu preciso fazer isso. Preciso ser fiel a mim mesmo porque isso é a única coisa que eu posso oferecer. Não quero ficar na frente deles, não quero dizer a eles o que fazer. Só preciso ser fiel a mim mesmo”.

E tudo se dissolve em sangue e fezes.

Um redomoinho se forma dentro do meu peito e a dor se transforma num ponto luminoso que atrai todo o terror para dentro de mim e o transforma.

 

 

Representação

Ainda sobre a representação.

Aquilo que você expressa de você, para o outro já significa algo.

O outro o vê desde uma outra perspectiva, desde um para si. Para ele, você representa algo e então ele espera de você determinadas ações, uma certa dramaturgia coerente com aquilo que você representa para ele.

Seu ajustamento a essa perspectiva dos outros, daqueles poucos outros vinculados diretamente à sua vida emocional, aqueles cinquenta sujeitos cuja opinião sobre você é capaz de mudar seu rumo, de exigir um ajuste, isso vai sendo efetuado no corpo, de algum modo.

Por dentro, por fora, em muitos níveis. Mas no corpo de algum modo.

Adquiro o corpo que é esperado de mim. O corpo como essa espécie de figurino primeiro, que se molda ao personagem desejado por outros. O corpo sendo resultante de um confronto, entre aquilo que sou realmente e aquilo que é segundo o que os outros esperam.

Será possível detectar o que somos além das nossas relações com outros? Uma espécie de essência, além de toda representação?

Veja, esse “personagem” não é construído de dentro para fora, como o trabalho de um ator. É algo visto desde fora. Algo feito para se ajustar ao que se crê ser a expectativa do outro.

Liberar do corpo o esforço em representar para outros aquilo que eles desejam.

Extrair do corpo a essência, permitir que ele expresse aquilo que você é.

 

Um plano

Pedro, Gabriel e Francisco:

Hoje eu tive essa idéia inteira. Ela ficou mais clara hoje. Antes eu já tinha pensado nela de algum jeito, mas as coisas estavam vindo em pedaços, como se estivessem faltando peças de um quebra-cabeça. Então agora de manhã, enquanto eu voltava da escola de vocês e pensava na dificuldade que é lidar com os pedreiros na obra aqui em casa, essa idéia ficou clara.

A essa altura eu só posso esperar que eu tenha forças para implementar isso com vocês e com a sua mãe. Não é nada garantido que a gente vá levar isso adiante, mas eu queria escrever aqui as justificativas para que vocês entendessem de onde isso veio e como.

É assim: eu estive no teatro por uns vinte anos. E o teatro me ensinou a me colocar no lugar do outro para ver o mundo segundo a perspectiva de um outro. Um outro imaginado por alguém. E a minha imaginação desse outro. Eu sempre gostei disso no teatro, mas na vida “real”, isso é, a vida fora de um palco… esqueçam isso, eu já entendi que não existe uma vida fora de um palco porque o tempo todo estamos contando aos outros essas histórias de quem somos…

De novo…

O que eu ia dizendo é o seguinte: a gente precisa aprender a pensar de um jeito que a gente consiga se colocar no lugar do outro. Eu achei um pouco disso no teatro, mas existem esses momentos, como essa situação minha com os pedreiros, existem esses momentos em que a gente tem uma educação tão rígida, que você acaba se complicando. Vejam, eu aprendi com o vovô e a vovó a ser um sujeito honesto. Eu só consigo ser trapaceiro num jogo, numa brincadeira. Mas na vida a sério, não consigo. Eu sinto um aperto no coração, um embrulho no estômago, algo tão ruim, que eu preciso ser verdadeiro, honesto, sincero. Isso me deixa em maus lençóis quando alguém é desonesto comigo também, como os pedreiros estão sendo agora. Eu fico contrariado, passo mal, meu fígado fica fragilizado.

Quando a gente é pai de alguém a gente sempre fica pensando se existe um jeito de os filhos não passarem pelas mesmas dificuldades que a gente passou. Isso é um pouco estúpido, eu acho, mas eu não consigo evitar. Acho que deve ter vindo no pacote de ser pai de alguém. Deve ser alguma urgência da natureza, ainda não sei bem…

Então eu pensei que se vocês, uma vez por ano, nas férias, se vocês pudessem ser filhos do pedreiro, vocês aprenderiam com ele como é que se faz essa conta que lesa o outro. Porque isso eu não posso ensinar. Eu não consigo olhar para os pedreiros e saber que conta é essa que eles fazem que sempre me deixam lesado. E não consigo, porque sou rígido demais com os meus padrões e muito orgulhoso também.

Vocês entendem isso?

Uma vez por ano, nas férias escolares, eu vou procurar uma pessoa que tome conta de vocês e ensine a vocês uma coisa nova sobre a vida. Vou conversar com a sua mãe antes e a gente vai olhar para cada um de vocês três (Francisco, você ainda está na barriga da mamãe, mas o pai já incluiu você nisso, tá?) e ver o que é que vocês estão tendo dificuldades em resolver. Só vocês e esses mestres. Enquanto isso, eu e sua mãe vamos cuidar da gente.

Eu não estou falando só de matemática, português ou ciências. Eu estou falando de vida mesmo, inteira. Porque se a gente é muito duro, precisa amolecer um pouco. Se a gente é mole, precisa ser mais firme. Se é muito esperto, precisa ser trapaceado. Se é muito orgulhoso, precisa ser humilhado. Ninguém pode ir tanto para os extremos, entendem? Senão a gente vai ficando cada vez mais ignorante daquela outra possibilidade. A gente vai se isolando mais e mais. E eu entendo que se a gente se isola, morre.

Então vamos procurar um mestre, a melhor pessoa que a gente conseguir encontrar naquele jeito de ver o mundo, e vamos conversar com ele e ver se ele pode fazer isso por nós. Eu pensei em pagar para as pessoas, mas agora me ocorre que o filho de alguém pode ter alguma dificuldade em ser cabeça dura, como eu sou. Então pode ser que eu consiga ensinar isso a ele nas férias.

Pode ser que você aprenda a ser filho de um ladrão, de um pescador, de um pedreiro, de um barqueiro, de um cacique, de um pai de santo. Uma vez por ano, durante o mês de férias, cada um de vocês com um novo mestre para aprender uma coisa nova sobre a vida.

Parece legal.

 

Um nome no céu

Sessenta e poucos dólares e um nome no céu.

É o preço do reconhecimento. O preço de ser alguém na vida.

Me desculpe, amiga, não conseguia nem falar.

Não consegui falar com você.

Não consegui bater palmas, nem elogiar.

O que eu poderia dizer?

Que sentido teria?

Desculpe.

 

Mais um

A comadre Ana Roxo me ligou um dia de cabeça quente com um elenco gigantesco, pouca verba e a necessidade de construir dois vagões de metrô numa peça interativa a ser apresentada no porão do Centro Cultural São Paulo (Espaço Cênico Ademar Guerra).

Eu já tinha visto uma coisa mais ou menos assim na época em que a Beth Lopes dirigiu “Súbito”, um exercício de interpretação, com histórias do Metrô. A gente usava uns andaimes de obra, com rodas e os bancos que a FEPASA (hoje CPTM) emprestou para a ECA.

O Kléber Montanheiro fez a luz disso, mas dada a concepção da coisa, quem acabou montando as lâmpadas fluorescentes fui eu. O Pardal, do SESI Santo André, fez esses bancos de metrô pra gente. E o elenco inteiro passou alguns dias pintando a coisa toda.

O resultado é um pouco esse aqui:

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