Propósito

Não como uma função ou um trabalho na linha de montagem da vida.

Um talento, talvez. Um dom, não como uma distinção que o coloque acima dos demais.

Um dever, não como algo imposto de fora, mas como algo que precisa se expressar de qualquer modo.

Então, essa ação interna é algo que se dirige a outros, mas não segundo os termos do outro. É algo que se feito, gera ao redor a fartura.

Fartura não como excesso de reservas, mas como fluxo. Como um rio, que sempre flui e está sempre disponível para ser gozado. Então é preciso ter a disposição e a ciência de gozar o rio, que não significa retê-lo na memória, atê-lo ao passado. Gozar no agora, no presente. Aceitar a possibilidade da mudança, o fluxo. Não matar o futuro, reduzindo-o a uma repetição do passado.

Acima de tudo, manter-se livre do outro. Do externo, da recompensa externa. Do resultado. Da estagnação.

Então como isso tudo é feito?

Como é a prática disso?

De mil maneiras se chega a isso, como algo interno. Mas nenhum método externo vai trazer qualquer resultado. Não é um efeito, um estado, um produto, um objeto a ser adquirido. Não é outra identidade.

É um jogo estranho esse…

Porque me sento aqui e escrevo sobre isso, na esperança de que você, ao ler, esteja instigado? Porque isso para mim, vem no lugar da fartura. É um oferta. Não espero nada de você. Não posso esperar.

Então você vem até mim e espera respostas e estamos os dois condenados.

Você me segue, porque espera que eu me responsabilize pelo que você deveria fazer. Você espera que eu diga o que você precisa fazer. Me autoriza a isso. Em mim, você vê algo que seria capaz de tomar a sua ação nas mãos e realizá-la. Você se isenta da responsabilidade e colhe os frutos daquilo que foi feito. Isso é o que você espera, quando decide me seguir.

E eu, me seduzo com isso, porque você, ao me seguir, parece estar validando a minha busca. Sem você, eu estaria reduzido aos meus fracassos insistentes. À dúvida de cada experiência. À luta, para não transformar tudo em morte, em memória, em medo. Ao movimento permanente em busca de equilíbrio. Você me estabiliza, me diz que eu já cheguei no lugar, que não preciso mais continuar a busca. Isso é o que eu espero, quando aceito que você me siga.

Então me ocupo de você. E de outros mil. Quanto mais seguidores, mais validado estou no meu caminho. Passo a depender dessas opiniões. Onde eu estou? Diariamente estou em vocês. Eu agora me chamo Legião, porque sou muitos. Eu tenho a cara daquilo que agrada a todos, daquilo que mantém todos vocês na linha, na minha linha. Naquilo que eu entendo por método.

Mas eu mesmo já me perdi do método. Eu agora sou vocês. E o que somos?

Eu amaria vocês se vocês fizessem exatamente como eu digo? Eu olho para você seguindo o meu método e você é infeliz com ele. Você é dependente dele, não consegue trilhar seu rumo sem ele. Eu olho para você e vejo meu método inutilizado em você. Eu inutilizo meu método, então. Não. Isso não dá certo para vocês. Não dá certo para mim.

Então estamos perdidos.

Mas eu não consigo deixar você de lado, porquê agora não tenho mais nenhum método para seguir. Ao menos você acredita em mim. Isso vai passar. Tudo passa. Daqui a pouco eu vou saber direito o que precisa ser feito.

Mas não sei. Não tenho tempo de saber. Você me ocupa. Vocês todos me ocupam. Preciso de todos vocês para me certificar de que meu método vai dar certo. Eu estou perdido. Estamos todos perdidos, mas eu estou na frente. Guiando todos vocês rumo a esse abismo que se tornou a minha ausência de método. Aonde vamos chegar com isso? Eu não sei. Não sei mais.

Mas preciso continuar. Eu sou a mentira e por isso, não posso deixar que ninguém perceba minha real natureza. E quanto mais me afirmo nisso, mais dúvida eu sou.

Não! Não venha atrás de mim! Eu agora já te odeio! Você e eu nos culpamos pela infelicidade que disputamos. Eu quero ser mais infeliz que você, porque isso te tornaria mais culpado. E você tem a mesma pretensão a meu respeito. Eu agora fico exigente, intransigente. Eu crio demandas impossíveis. Eu preciso ver quem vai sobrar ao meu lado. Eu preciso ficar só.

Mesmo o último dos meus asseclas me será sempre um traidor. Ele traiu a si mesmo, como poderá não me trair?

Não. Não vou por esse caminho.

Não me siga. Não me obedeça. Não adote o meu método.

Permaneça livre, em você mesmo. Fazendo a experiência segundo a sua particular maneira.

É preciso que eu lide com você desta maneira.

Esse é o único modo de nos mantermos livres.

Eu estarei aqui.

Eu aceito você desta maneira.

Mas não serei seu escravo.

As grandes metas

  • Realizar o propósito.
  • Gerar a fartura.
  • Sentir prazer de estar vivo.
  • Libertação.

Dois dos maiores impedimentos a isso são a nossa brevidade e ignorância.

Essas são as nossas principais doenças. Temos a tendência a viver pouco. A usufruir pouco dessa benção. E ignoramos essa condição.

Realizar o propósito. Na tradução do “Charaka Samrita” está implícita a idéia de um dever. Mas não é algo com a nação, com a pátria ou com as outras pessoas. É algo consigo mesmo. Expressar o melhor que se pode ser, a razão de se estar aqui. Essa é a grande ética, o princípio de tudo. Isso é o que, ofertado a outros, gera a fartura. Perceber esse movimento, perceber esse dom que se extravasa e alimenta o outro. Perceber que a vida é essa abundância é esse dar de si. Gozar a vida nessa dimensão. E fazer isso sem esperar nada do outro. E acima de tudo, sem se envolver com as expectativas do outro sobre nós. Isso é estar livre.

A doença é a manifestação de um obstáculo interno que se interpõe à nossa capacidade de concretizar as quatro grandes metas. Essa contradição absorve nosso tempo e energia vital. E surge porque não percebemos as implicações de nossas ações.

Em todas as grandes tradições surgiram essas prescrições, esses conselhos sobre quais as ações que conduzem à liberdade interna. Em nossa ignorância, nos sentimos aprisionados por essas prescrições e nos tornamos rebeldes a elas. Compreendendo-as como leis externas, nós lutamos contra uma suposta tirania. E então, nos tornamos ainda mais automáticos e estúpidos.

Alguns povos incluíram essas prescrições sob a forma de lei de estado. Outros, inseriram-nas como um código moral ou religioso. Outros ainda incluíram essas prescrições como conselhos sobre saúde e bem viver. E ainda assim, persistimos nessa desobediência, buscando nossa própria maneira de resolver o problema chamado Vida.

A doença

A mente condicionada persegue o contraste para negá-lo.

A sucessão de estímulos vai sendo negligenciada por esta mente. É então agrupada em conjuntos de semelhanças, sintetizada e rotulada.

Então surge o contrastante, o diferente e esta mente se apega a ele enquanto busca um conjunto já existente para enquadrá-lo. Quando o estímulo não pode ser enquadrado, a alternativa mais fácil para ela é negá-lo através de um processo de degradação. A mente condicionada tenta reduzir o objeto às suas categorias mais simples. Tenta reduzi-lo a um amontoado de conjuntos que se agregaram construindo aquilo que se apresenta.

Ainda assim, esse estímulo se impõe pela sua inteireza. Ela então nega a existência do estímulo enquadrando-o na categoria “ilusão”, e o mantém lá. Se o estímulo se impõe, acentuando o contraste, a mente condicionada busca outra maneira de lidar com ele. Ela então cria um conjunto específico para este tipo de estímulo e então passa a buscar algo que se assemelhe a ele. Ela então se intriga ao não conseguir encontrar nada igual. Então torna aquele estímulo algo a ser destacado. E assim o reduz ao especial. O estímulo fica “fetichezado” e a mente se mantêm condicionada, perseguindo um fetiche.

Quando adoecemos, o sintoma é esse objeto que salta à nossa vista. Algo desobedece o nosso esforço em manter a mente na percepção da normalidade, da continuidade. Então buscamos a medicação. A redução do estímulo, do sintoma. Somente quando o sintoma se impõe é que temos a possibilidade de investigar com maior profundidade as causas que o estão gerando. A mente condicionada se põe a investigar as causas, de objeto em objeto, de contraste em contraste. A mente se lança ao labirinto. E então sobrevêm a fadiga e a mente se contenta com as respostas obtidas. Ela agrupa essas respostas num conjunto denominado “realidade”. O sintoma desaparece e a mente segue, perseguindo a continuidade.

O que condiciona a mente? A perseguição da continuidade, da permanência. A mente quer se manter destacada, apesar de tantos estímulos que vêm e vão. Ela quer permanecer, embora os pensamentos e os estímulos não permaneçam. Há esse algo na mente que a mantém destacada dos estímulos e para que a mente não perca esse destaque, ela precisa lidar com os estímulos reduzindo-os a objetos mais simples para que ela os possa manipular. Então esse algo na mente não é a mente em si, porque esse algo parece usar certas características da mente em benefício de sua permanência. A mente em si flui, digerindo os estímulos, reduzindo-os a objetos manipuláveis. Mas esse algo transforma essa função da mente em uma ferramenta para que ele se mantenha destacado.

E o que é ele, em si? O que é esse algo que usa a mente dessa maneira? É um aspecto da mente ou algo alheio a ela?

Quando persigo esse “algo”, não o tangencio. Não o toco. Ele se retrai em mim. Se o busco, ele se dissipa. Parece não existir. Porque quando o busco com minha mente, também me destaco dele. Me parece que sou isso e quando uso a mente para buscá-lo fora dessa identidade, não o encontro. Então reconheço que esse “algo” é uma identidade.

A forma dessa identidade usar a mente para se manter é a identificação. Esse “algo” adere à mente se identificando com ela. Então ele e a mente parecem ser a mesma coisa, de tal maneira que a pouco eu pensava que a mente é que queria se manter destacada. Não. A mente está operando como uma ferramenta desse “algo”, dessa identidade. Esse “algo” usa a mente para se manter destacado e a maneira de fazer isso é através da identificação com a mente. Estranhamente esse algo, que busca o destaque, se oculta por trás da mente. Esse algo quer permanecer  e ao mesmo tempo, não quer ser visto. Que coisa é essa?

Claro! Esse algo precisa se manter fora desta função que ele escolheu para a mente: a de reduzir tudo a objetos mais simples para que possam ser manipulados. Então quando aplico a mente para lidar com esse “algo” ele se simplifica também. E o que se torna?

Se torna essa pergunta, essa incógnita sem nenhuma resposta.

Um vazio completo.

Um vazio e ainda, uma potência.

 

Rebelião

O que faz um homem ser um rei de outros? O que determina a riqueza, o valor, o poder de um homem sobre os demais? O que faz com que o critério de um se sobreponha a todos os outros e determine os limites do crescimento de outros? Um homem, sendo o aval dos demais.

Existe essa intuição que me acompanha faz algum tempo. Eu escutei muitas vezes que, num trabalho, os aspectos subjetivos devem ficar fora da equação. Ninguém tem nada a ver com seus problemas pessoais. O que vale é o acordo coletivo ou a eficácia da tarefa no tempo. Isso é uma herança do fordismo, da linha de montagem e do sistema de controle da energia vital que vem desse sistema inteiro. Mas o que eu vejo na prática é que, quanto mais os aspectos subjetivos dos indivíduos são negligenciados, mais o trabalho conjunto fracassa e mais doente se torna o grupo.

Então há esse homem, o rei. Ele coordena os esforços coletivos em uma direção determinada. Há um acordo aí. Ele diz o que deve ser feito e os outros o seguem. Mas o seguem apenas quando lhes convém. Esse homem vai necessitar de um aparato repressor enorme, na forma de leis, de outros homens que as façam ser cumpridas pela força ou pela lógica que se sobrepõe à dos demais. Entre o rei e sua lei, existem mil homens, cada um deles pretendendo ser o rei dos que estão abaixo dele. Cada um deles defendendo seus próprios interesses em nome do rei. O rei então passa a ser uma máscara.

O rei mesmo precisa honrar a máscara do rei. Essa máscara que se torna a somatória dos entendimentos individuais sobre o poder, sobre a autoridade, sobre a sabedoria. O rei precisa honrar um critério que se expande para além dele e que se torna o critério da época, o espírito do tempo. Então o rei se rebela. Ele mesmo se torna a rebelião e passa a agir conforme seu próprio juízo. Ele quer corromper o papel de rei, quer moldá-lo conforme aquilo que ele pretende que seja. O rei desonra a si mesmo e aos demais e avança cada vez mais esse limite, buscando ser quem realmente é, buscando a ruptura da máscara sem o abandono da função. E então os nobres também se rebelam. Eles passam a agir conforme os seus próprios interesses e exercem seu poder com força ainda maior. Eles oprimem seus servos, agora sem a máscara do rei. Eles apresentam a face dos seus caprichos, totalmente exposta.

O nobre, não sendo o portador da máscara do rei, é apenas um homem mau. Alguém que come, enquanto povo passa fome. Nessa lógica simples de barriga vazia, um homem que não é dono nem do próprio corpo, nem de sua força de vontade, ele decide que o nobre não significa nada para ele. Então busca a destruição da nobreza, e avança contra seu senhor, na intenção de encher a barriga e fugir. A revolução. A torre de Babel. Cada homem falando a língua de seu estômago, a língua de seus caprichos.

O que cria a nobreza, e o rei, e o escravo? Significados. Valores. Papéis. Personagens. Jogos.

Um homem é rei enquanto significa isso e deixa de sê-lo quando o significado se perde.

Então a rebelião é uma questão de significado.

Quando a palavra rei for esvaziada, quando o sentido de um homem estar acima dos demais for ausente, nessa hora, seremos livres.

Enquanto buscarmos em outro homem o aval para os nossos atos, enquanto formos incapazes de ser responsáveis pelos desdobramentos de nossas ações e enquanto pretendermos sujeitar outros homens aos nossos caprichos, enquanto isso, os reis povoarão a terra e a torre de Babel tenderá sempre a se repetir.

Psico-história

Em Fundação, Asimov postula a existência de uma ciência que mesclaria história, sociologia e estatística para prever com exatidão as ações coletivas de populações muito grandes. A segunda guerra mundial trouxe Goebbels e a guerra fria trouxe a máquina de propaganda comunista e a indústria de publicidade dos Estados Unidos. O mapeamento de tendências começou a ser empregado exaustivamente desde então, chegando hoje às redes sociais e ao controle, pretendido pelo Estado.

Hari Seldon, o criador da psico-história postulava que o comportamento de grandes conjuntos humanos era altamente previsível, embora o comportamento de um único indivíduo fosse absolutamente imprevisível. Mas como o comportamento de um único indivíduo afetaria os rumos da história psíquica de uma civilização? Como a ciência de Seldon determinou a destruição do império galático? Como o “caos” particular se transforma na entropia do sistema inteiro?

“Qual é a idéia, uma idéia simples, acessível ao mais simples dos homens, que fez a humanidade aceitar as doutrinas que a levam a autodestruição?” (RAND, Ayn – A Revolta do Atlas)

Sem entrar em coisas estranhas como a Ressonância Mórfica, de Sheldrake ou a hipótese do centésimo macaco de Ken Keyes Jr., como é que uma idéia, um ato, um movimento simples iniciado por um homem pode afetar a estrutura social inteira, como vemos sucessivas vezes na história? Quais as condições para que esse ato seja assimilado por outros homens e reproduzido? Algo que entre no cotidiano dos homens como um hábito, pouco a pouco,  e que mude de uma vez por todas a trajetória de autodestruição?

Um fractal de movimento, como uma coreografia de Pina Bausch, a música de John Cage ou Philip Glass uma mandala tibetana. Um tema, repetido até o automatismo, gerando um novo fractal, uma nova complexidade.

Não me interessa a observação externa, topográfica da rede. Interessa o pequeno loop que a transforma por completo. Aquele minúsculo ato, em si mesmo libertador porque é imprevisível, a revelação do propósito de um homem que acaba por afetar toda a rede.

É possível gerar um fractal que gatilhe atos de liberdade? Que gere a entropia completa? A imprevisibilidade de grandes conjuntos humanos e a impossibilidade da existência de qualquer império, na terra ou nas galáxias?

 

Ainda o Algoritmo

Dez anos atrás eu estava seguindo o Algoritmo nessa direção: um personagem era algo que surgia de reações predeterminadas com outros personagens. O personagem tinha um objetivo a ser alcançado na trama e para conseguí-lo usava de uma estratégia simples: ele mostrava aos outros aquilo que ele inferia que os outros gostariam de ver nele, ou aquilo que se fosse visto pelos outros, facilitaria ao personagem a consecução do seu objetivo. Então se podia gerar uma peça a partir de um conjunto simples de regras que deveria ser seguido à risca pelos atores.

Eu fiz algumas experiências com isso, com relativo sucesso, até que um dia me dei conta de que isso era Commédia de L’arte. Fiquei desagradado com o fato de não ter criado nada de novo, mas continuei perturbado com essa idéia, porque em algum lugar ela me parecia a razão de estarmos aprisionados num programa que só gera estupidez e sofrimento.

“Essa é a razão de sofrermos”, eu pensei na época e continuo insistindo nesta perspectiva. Ao invés de nos atermos a expressar aquilo que realmente somos, entramos nesse jogo de nos definirmos por aquilo que acreditamos que os outros querem ver de nós. Porque fazemos isso? Onde esse jogo começa?

Essa pergunta me conduziu por muitos estudos e eu acabei me afastando do teatro em si, para explicar essa intuição misteriosa. Entrei de cabeça na psicologia, especialmente em Reich (“O assassinato de Cristo”, “A revolução sexual”, “A função do orgasmo”, “Escuta Zé Ninguém”, “Análise do Caráter”, principalmente “A psicologia das massas do fascismo”), nos estudos de Erwin Goffman (“A representação do eu na vida cotidiana” e “Manicômios, prisões e conventos“), na Teoria dos Jogos, associada à política e ciência social (o incrível “Jogos Ocultos” de George Tsebelis), na associação entre a ciência cognitiva e os computadores feita por Steven Pinker em “Como a mente funciona”, no portal aberto por Howard Gardner em seu “A nova ciência da mente” e Noam Chomsky em “Reflexões sobre a linguagem”.

Minha pesquisa não parou por aí, mas esses sujeitos foram os principais expoentes da ciência acadêmica. Mas eu me inquietei ainda mais com isso, avançando para um terreno da mente ainda não muito explicado. Continuei minhas pesquisas tentando entender a existência corpo/mente do homem nas tradições místicas de vários povos. Sempre me inquietando com a disposição de algumas tradições em colocar certas coisas como exteriores ao homem, como se forças desconhecidas realizassem no homem algo que o torna um joguete. Sempre rejeitando a simplificação do maravilhoso conhecida pelo nome de deus.

Como entrar nessa senda do esoterismo, da magia, do misticismo e da religião e extrair disso algo que não seja o medo, a covardia e o dogmatismo? Como encontrar a ciência disso? A arte real nisso? O que há de sólido nesse emaranhado de códigos sobre códigos, de interpretações sobre interpretações? Porque esse tipo de descrição da realidade surge em diversos povos e os orienta de alguma maneira? Porque sentimos que essas definições são de alguma maneira explicativas da realidade, embora sejam paradoxalmente absurdas e fantásticas? Que é que pode ser isso que se chama de espírito? Ou essência? Que coisas são essas que são chamadas de iluminação, samadhi, nirvana? Isso é acessível ao homem? Que faria eu com isso? Que diferença isso faria na minha vida e na vida daqueles que me rodeiam? Isso é útil? Em que medida?

Sempre tendo o homem como a medida. Sempre tendo essa fé no humano, acima de tudo, nessa capacidade do homem de tornar tudo manejável, de trazer tudo para suas mãos e moldar a realidade segundo sua intenção. Sempre apostando nisso, na beleza do homem, apesar de todo erro, de toda grosseria. Então encontrei um pensador argentino que me trouxe a primeira integração de tudo isso: Silo, em seu “Contribuições ao Pensamento“. Ele postulou, numa psicologia da imagem, uma característica de nossa mente chamada “Espaço de representação”. Essa tela mental está intimamente conectada com os nossos sentidos externos (visão, audição, tato, paladar, olfato) e com os nossos sentidos internos. O que ele chama de “imagem” não é algo puramente visual, mas qualquer representação que aconteça nessa tela mental. Consciência é intencionalidade.

Silo trazia a consciência como algo manejável, com estruturação própria. Com um trabalho chamado “Autoliberação“( de Luis Ammann) tínhamos a oportunidade de investigar os mecanismos da consciência e nos propor um plano de manejo desses mecanismos, revertendo situações que nos geram sofrimento. O todo do trabalho de Silo, vai muito além de seus escritos e de sua visão extremamente lúcida do homem. Ele deixou como legado, um grupo de pessoas que ainda hoje segue estudando, segue investigando o homem, segue lidando com a superação do sofrimento humano. Silo criou o Movimento Humanista, uma organização internacional cujas bases são o ser humano como valor central, a não violência e a não discriminação.

Foi no interior do Movimento Humanista que eu encontrei a ponte que ligava os estudos sobre a consciência desde o ponto de vista do ocultismo com a psicologia da imagem. Todo o tempo evitávamos abordagens sobre espíritos, entidades, alienígenas e qualquer coisa que tivesse a característica de ser externa ao homem. Olhávamos para esses fenômenos como traduções do espaço de representação. Algumas tradições colocam essas imagens como exteriores ao homem e negociam a interpretação delas a partir de um dogmatismo. Na abordagem de Silo, as imagens estão sempre relacionadas à aquele que as vê. Não se anula a carga informacional que estas imagens contém, usando para isso o termo pejorativo “fantasia” ou ainda “imaginação”. Segundo ele a “fantasia” é composta de imagens que possuem cargas emocionais fortíssimas e que podem ser integradas ao psiquismo através de técnicas transferenciais. Como Jung, mas ainda além dele, porque o enfoque de Silo é a superação do sofrimento humano não apenas no nível individual, mas nas relações humanas e na sociedade definida por elas.

O periodo de imersão no Movimento Humanista durou sete anos. De 2004 a 2011, estive envolvido com o aspecto social do Movimento, participando ativamente da estrutura organizacional no inicio (até 2009) e depois, envolvido ainda com os estudos realizados em forma de retiros. Depois que realizamos a Marcha Mundial Pela Paz e a Não Violência, Silo retomou um trabalho que era realizado nos primórdios do Movimento Humanista (nos anos 60), que envolvia o estudo de quatro disciplinas: Energética, Formal, Mental e Material. Cada uma delas consistia num trabalho realizado em doze etapas, divididas em três momentos distintos de quatro etapas cada um. Estavam relacionadas com estudos realizados no tantra yoga (energética), na geometria sagrada (formal), na meditação transcendental (mental) e na alquimia (material).

Tivemos um trabalho prévio, de cerca de um ano, chamado Nivelação. Nesse trabalho estudávamos ativamente todo o material contido em “Autoliberação” e “Psicologia”. Os trabalhos práticos eram feitos em duplas e periodicamente nos encontrávamos todos para intercambiar sobre as práticas e os estudos. No final dessa etapa, escolhíamos com qual disciplina iríamos trabalhar e então nos reuníamos em grupo. Os trabalhos passavam a ser individuais.

O enfoque do trabalho com a Alquimia era perceber o que acontecia com o operador (aquele que realiza os trabalhos) enquanto ele desestabiliza os elementos externos. Esse trabalho foi feito em escala mundial e especialmente os trabalhos com alquimia acabavam sendo afetados pela legislação dos diversos países quanto ao uso de compostos químicos perigosos, como o mercúrio, o ácido sulfúrico e outros. Então recebemos a orientação de que deveríamos fazer os trabalhos sem realizar as experiências de laboratório. Como isso poderia ser feito?

No próprio material de orientação haviam algumas indicações que acabaram por orientar os meus trabalhos práticos. O que poderia ser o objeto externo a ser manipulado, se não seriam os elementos químicos? Os trabalhos poderiam ser realizados somente sob o aspecto alegórico? Como? Lembrei-me dos estudos de Jung sobre a alquimia e comecei minha pesquisa.

Eu estava num processo de pesquisa em improvisação teatral, sob a orientação de Antônio Januzelli. Estudávamos alguns personagens de Shakespeare, especialmente Ricardo III e Timon de Atenas. Em um momento do trabalho resolvi colocar na cena as minhas investigações em alquimia e então descobri o objeto externo que seria manipulado em meu laboratório: meu próprio corpo.

A partir de então, decidi que realizaria um passo da disciplina por semana, levando três meses para concluí-la. Isso me daria uma folga de mais alguns meses para refazer etapas, realizar sínteses, etc… Minha rotina semanal consistia no seguinte: no inicio da semana eu estudava o passo da disciplina, buscando já as correspondências alegóricas entre os elementos trabalhados e operações a serem realizadas. Buscava referência em livros, na internet, em vídeos diversos e nas gravuras da tradição alquímica. Ia estabelecendo relações entre os elementos e operações alquímicas e os meus conteúdos psíquicos. As emoções recorrentes, os ressentimentos, as tendências, os vícios emotivos. Os monstros internos.

Comecei a perceber as ressonâncias entre os estudos e o meu estado de saúde, como se eu estivesse realmente me intoxicando e me limpando a cada etapa. Como isso acontecia? Como os estados emocionais extremamente difíceis geravam estados de saúde também complicados? Como essa relação era possível? Como explicar o efeito psicosomático do trabalho?

Durante o trabalho com a Alquimia eu só tive olhos para as etapas a serem cumpridas. Apenas aceitei o que acontecia naquele momento, mas a questão seguiu depois que os trabalhos foram concluídos.

Onde eu poderia encontrar essa co-relação entre os estados mentais, as posições corporais, os climas emotivos, a atitude perante a vida, a postura de vida, o posicionamento frente a vida?

Um homem tem determinada perspectiva sobre si mesmo e desde ela se coloca em relação aos demais. Essa perspectiva sobre si gera uma espécie de personagem que este homem representa no mundo. Isso se parecia demais com o algoritmo! O personagem é representado no corpo do ator. Na maneira como ele se expressa, na fala, nas maneiras, na postura… O que somos é para o outro uma representação, um significado. E isso vai definir a maneira como nos relacionamos.

Como fazemos isso? Os processos que eu vivi na alquimia, moldando meu corpo a cada etapa, moldando o significado da minha presença em relação aos outros, redefinindo um projeto de vida, clareando meu propósito de estar aqui. Me localizando em relação a minha própria experiência. Como fazemos isso? Como isso acontece? Isso já foi estudado? Onde eu posso encontrar essa informação?

O Propósito. A razão de estar vivo, de fazer parte da experiência, aquilo que realmente vim expressar para além do algoritmo das expectativas tinha algo a ver com “toque e transcendência”. Isso é o que consigo traduzir da experiência. É possível um amor sem objeto externo que o condicione? Um amor que não vê o externo como algo para si? É difícil trazer algo claro desse lugar de onde o Propósito brota. O registro da experiência é claro, mas não consigo definir melhor do que isso.

Em algum momento do meu processo no Movimento Humanista eu conheci um sujeito chamado Nestor Luz, que foi a pessoa que me apresentou o Ayurveda e os tipos constitutivos (Vata, Pitta, Kapha). Isso era muito similar ao que o Movimento Humanista apresentava como tipos humanos (Motriz, Intelectual, Emotivo, Vegetativo). Só muito mais tarde é que eu vim conhecer Gurdjieff, que acabou sendo a ponte entre esses dois mundos.

Depois o Paulo Panzeri trouxe uma abordagem toda sua, num trabalho com os desbloqueios corporais que em alguma medida usava o conhecimento que ele tem de yoga. A teoria do Ayurveda não me era estranha, porque eu já tinha encontrado algumas coisas do Deepak Chopra nos livros do Fritjoff Capra. Mas não tinha nenhum conhecimento além desse.

No entanto, assim que conclui meus trabalhos com a Alquimia, eu tive certeza absoluta de que precisava aprender a massagem que o Nestor fazia (e que eu nunca recebi). Não tinha nenhuma informação de como aprender isso, nem de onde ele estudou isso. Não tenho o contato do Nestor a muitos anos e não tinha nenhum dinheiro para ir à Índia ou para pagar os cursos aqui mesmo no Brasil.

As coisas se deram de uma maneira tão interessante que eu acabei conseguindo fazer parte de um grupo de estudos sobre Ayurveda com o Pedro Nebesnyj, no Viavidya. Ali também comecei a receber a massagem ayurvédica do Pedro. Desde o início meu desejo era aprender a massagem, mas eu não tinha nenhuma familiaridade com a abordagem ayurvédica e a cultura do yoga ainda me era um tanto distante. Então o grupo de estudos foi o meu portal para esse conhecimento e algum tempo depois, recebendo uma massagem do Pedro, eu pedi a ele que me ensinasse a técnica.

O Pedro formou um grupo e durante quase um ano nós fomos aprendendo a técnica de massagem e estudando a parte teórica do ayurveda. Nesse periodo eu comecei a fazer parte de um grupo de estudos sobre Magia com o Hugo Leal, sem nenhum interesse a não ser a curiosidade. Não achava que isso teria nada a ver com a massagem, com o Algoritmo, com o Movimento Humanista, nada. Na realidade, eu achava que aquilo tudo era uma fraude, o Hugo incorpora algumas entidades e eu queria descobrir em que medida aquilo era atuação e porque tanta gente acredita nisso.

Ao contrário da massagem, em que eu entrei de corpo e alma, o curso de magia era sempre uma luta. Eu continuava indo, dia após dia, na esperança de entender aquela farsa toda e não cair mais em nenhuma farsa. Queria entender o esquema, como é que isso acontece sempre e sempre. No entanto, as entidades traziam informações extremamente lúcidas sobre o processo humano, sobre a nossa consciência, as nossas falhas de percepção.

Comecei a perceber que a entidade “baixava” no momento em que o grupo começava a dissipar energia no confronto, na dialética, mas também nos momentos em que o Hugo não sabia como lidar com a situação. Então comecei a pensar que era uma estratégia de manipulação, de controle. Mas porquê dá certo? Como dá certo? Nosso nível de atenção muda quando a entidade se apresenta. Não é como uma cena.

Eu fiquei praticamente um ano tentando entender como é que o truque acontecia, como a cena se dava. Conversas com o Hugo sobre como aconteceu a incorporação, como são os registros físicos, se ele se lembra de alguma coisa, como ele entende que é isso, se ele acha que é um espírito que baixa nele… Eu comecei a ver que ele realmente crê nisso, então não era uma fraude. Algo acontece com ele, algo muda nele e ele aprendeu a dizer que isso que muda é algo que se incorpora nele. Algo que vem de uma outra instância, algo além da perspectiva que ele tem sobre si mesmo. E esse “algo” tem informações que são relevantes para o processo dele e de todos nós.

O que é esse “algo”? Ele aprendeu que é uma entidade, um fluxo. Mas ele sabe que isso é só o que ele aprendeu. Então fica aí. Explica o que é, com uma enorme coerência interna, mas sabe que isso é só uma explicação e que não vai dar conta de traduzir o fenômeno. Você pode usar qualquer mítica que desejar. Vai perceber que essas míticas têm muitas coisas em comum, no sentido de descrever esse tipo de experiência, mas vai perceber que todas elas chegam nesse limite de explicação possível e não conseguem avançar a partir daí.

Ele se coloca à disposição desse “algo”. Sente a presença disso. Em alguns momentos ele dá passagem a isso e em outros ele contém. Não é porque a voz muda ou aparece um sotaque que nós sabemos que as “entidades” que ele dá passagem são diferentes. É algo que acontece com a nossa atenção. As pessoas costumam falar sobre “energia” como se nós estivéssemos sendo afetados por um campo externo que nos imanta. Acho que essa descrição faz sentido, mas eu prefiro dizer que é algo que acontece com a nossa atenção, um foco diferente, uma perspectiva diferente. Um acesso à informação que acontece num nível que eu não estou habituado.

A todo tempo eu retomava o meu trabalho com a improvisação teatral e os estados mentais e informações que chegavam neste estado. Essa consciência não-habitual. Ali eu estava incorporando, na maneira como o Hugo entende incorporação? E as experiências que fizemos com a “ressonância”, com contar uma história de nossa vida absolutamente abertos ao que ela significou para nós. Algo mudava na atenção da platéia. Não era o mesmo que contar uma história de outra maneira… É isso o que acontece no grupo? Esse é o terreno que eu atravessei na alquimia?

A informação verbal que é passada, os exemplos, etc… estão no nível de uma aula qualquer de qualquer assunto, mas existe esse campo, essa outra coisa, que é comunicada nesse lugar dessa atenção diferente. Não é verbal. Não tem imagem alguma que o traduza. No entanto, é aí que a coisa acontece. É nesse “terreno” que as orientações sobre o nosso processo são dadas. Então, alguns dias mais tarde, algo brota de nós como uma inspiração, um insight. Algo estruturado de uma maneira que para nós faz um sentido absurdo. Não é que aquela idéia foi enfiada na sua cabeça, mas aquela experiência gatilha algo que ressoa em você e é traduzido por você segundo a sua maneira. Que “campo” é esse? Como essa comunicação é possível?

Foi o Hugo que me trouxe o conhecimento de Castañeda (“A erva do diabo”, etc), Gurdjieff/Ouspensky (“Fragmentos de um ensinamento desconhecido”, “O quarto caminho”, “Tertium Organum”,”Um novo modelo do universo”, “Relatos de Belzebu a seu neto”, “Encontro com homens notáveis”), Pietro Ubaldi (“A grande síntese”), Jacques Monod (“Acaso e necessidade”).

Na exposição de diversos sistemas mágicos, acabamos por aprender que existem pontos em comum. Para todos eles, o ser humano não é algo concluído. É um broto de uma possibilidade. Temos a opção de fazer a fagulha de nossa intenção se tornar uma chama, ou de manter o fogo que recebemos quando nascemos, até a hora em que formos embora.

Se quisermos expressar aquilo que realmente podemos ser, existem técnicas e passos muito claros. Em outros momentos, outros homens estruturaram esses passos obedecendo certas leis de processo, de evolução, que na realidade são bastante simples de serem compreendidas. O grande impedimento é que precisamos realizar um esforço para isso. Para conservar o fogo, basta criar um berço adequado e protegê-lo das intempéries. Para produzir o fogo, é necessário esforço. Atrito. Energia aplicada. Intenção firme. Método. Um algoritmo.

Não o algoritmo das expectativas. Não.

Esse é eficaz para manter o fogo longe das intempéries, é um berço eficiente, mas não leva o fogo a altas temperaturas.

Para levar o homem a realizar seu propósito é preciso um algoritmo próprio para isso.

Nossa estrutura bio-psíquica tem alguns pontos precisos de crise e decisão de processo. Qualquer ação nesses pontos, tende a se configurar num condicionamento, num automatismo, que vai definir o funcionamento das estruturas que surgem nesses momentos de processo específicos.

Esses momentos parecem ocorrer a cada sete anos, por uma razão que eu ainda não conheço. A cada sete anos, passamos por uma grande crise processual e isso abre a porta para um próximo ciclo cujas condições de origem serão determinadas pelo ciclo anterior.

Eu intuo que isso tem algo a ver com aquilo que os orientais chamam de Chackras, porque o termo significa “Roda”, que na terminologia do algoritmo significa “loop”, “iteração”, “repetição”, “escala”. A cada etapa da vida, estamos ligados ao desenvolvimento de um desses “loops”. A maneira como interpretamos uma variável externa vai condicionar esse “loop” numa direção ou em outra. Isso vai condicionar o desenvolvimento e andamento do loop seguinte.

A cada etapa, uma experiência marcante, uma experiência de pico poderia fazer o ajuste desses loops de maneira que aquele ser possa expressar sua totalidade. Isso pensando em termos de educação, de acompanhamento passo a passo de um ser humano.

Em termos de saúde seria lidar com um ser humano em estágio avançado de desvio e ajudar a que ele encontre o seu rumo.

 

 

 

Os polícias

Eu estou pensando nos polícias.

Pensando nesse tipo de trabalho em que você acorda de manhã e precisa inventar pra você mesmo uma história para justificar aquela ação que você sabe que vai gerar mal a outros. Então você cria essa ficção de que isso é para o bem da sua família.

O policial, o publicitário, o sujeito da Monsanto, o cara que trabalha no gabinete do político tal, o outro que trabalha numa indústria farmacêutica corrupta, o outro que trabalha no setor de RH de uma empresa que vai demitir milhares amanhã, e outro que vai dizer a um terceiro que o sujeito que vem e chora na frente dele toda semana é louco e incapaz de conseguir aquela vaga. Penso naquele que fabrica bombas de gás lacrimogênio e no outro que faz vinagre.

Eu penso no contador da viação de ônibus e no sujeito que sabe que o patrão está enchendo os bolsos de dinheiro enquanto ele e os outros colegas de trabalho recebem o salário atrasado. Penso no ator que vai diante da câmera e mente que adora aquele produto que ele nem come e toda a equipe que trabalha para que ele esteja ali, mentindo bem e bem tratado. Pois aquela mentira vai fazer com que a mentira de milhares continue existindo.

Penso na professora que não suporta mais aquelas crianças e começa a agredi-las. Penso na diretora da escola encenando uma preocupação com a educação, forjando números para o governo. Penso no homem que vende crack na rua para que outros o fumem e naquele que coloca os filhos para trabalhar no farol. Penso no gerente bancário que vai ganhar uma promoção se mantiver sob o encalço do banco aquele pai de família que está tentando quitar o empréstimo que fez.

Eu penso em quantos de nós seríamos capazes de abandonar uma opção de vida, um estilo de vida, hábitos, carreira em função de algo que seja o bem maior.

Então vamos para a rua e nos confrontamos com essas opções.

Não nos unimos por centavos.

Nos unimos porque talvez tenhamos que fazer essas escolhas juntos.

Eu estou feliz que você esteja aqui, porque eu também não estou suportando mais viver dessa maneira.

Vamos pensar o futuro juntos?

Eu não quero mais produzir veneno para te matar e acho que você também está cansado disso.