Jogo

Eu aprendi a tentar definir uma experiência usando as palavras, e aqui estou eu, tentando transformar experiência em raciocínio, raciocínio em palavra, palavra em comunicação, de um jeito que a experiência chegue até você.

Então você faz o caminho inverso e pega as palavras para chegar ao meu raciocínio, para então ver se consegue se colocar no meu lugar e então entender como aquela experiência me afetou.

Me parece um caminho longo e tortuoso. Parece que perdemos mais tempo tentando desenlaçar as intepretações para chegar a uma coisa que não se transmite dessa maneira.

E a escola, sendo isso. Sendo pior que isso, porque muitas vezes se tenta transmitir não a experiência, mas o conceito da experiência. O resumo escrito de algo, na forma de informação, de dados a serem alocados na memória para serem repetidos depois, de forma escrita, falada. Isso nunca vai ser experiência e nunca será conhecimento.

Talvez controle social. Só talvez. Parece-me que essa idéia de conhecimento, essa idéia de memorizar dados e transmitir informações tem a pretensão de gerar padrões de conduta, modelos de comportamento, uma programação de usos específicos para a sua energia vital. Mas isso tampouco funciona.

Lá está o governo e as empresas, vasculhando seus dados para ver se conseguem prever quais são as suas necessidades, qual é a melhor maneira de mantê-lo acuado, sob controle, quieto e sem ação. Olhando suas fotos, seus textos, sua comunicação digital, suas falas ao telefone, os filmes que você assiste, os produtos que você consome… então, nessa falsa premissa de que a experiência do que você é pode ser transmitida na forma de dados, imaginam que você pode ficar sob controle, seguindo o programa estabelecido. Mas não.

Não é que você se rebele, ou proteste. Você simplesmente é mais que o amontoado de dados transmitidos e essa é a maior encriptação que você possui. Você é o enigma.

Por isso o jogo. O jogo como maneira de partilhar experiências, não conceitos. O jogo, a festa, o rito puro.

Escolho o conceito e jogo com ele. Brinco. Crio a brincadeira para extrair do conceito a diversidade de experiências que ele contempla. Não se busca a interpretação única, a história linear do uso daquele conceito. Se busca a diversidade nas interpretações a multi-dimensionalidade do conceito. Não se joga para procurar respostas, mas para refinar perguntas.

O olho esse “algo”, isso que me toca e que transformo em conceito, como uma espécie de síntese. Enquanto o conceito guarda a interrogação do primeiro contato com esse “algo” , ele possui potência. Quando conceito se transforma em ponto final, ele morre. E fatalmente, se converterá em exclamação, como um movimento inútil para se tornar vivo.

Jogo é uma pergunta, com regras pontuais, para exclamar o humano e sua potência revelando a eterna reticência que o acompanha.

Physique é preconceito. E não é só…

Em que medida o corpo de um homem representa, significa, expressa o que ele é?

O que define, na aparência de um homem, a adequação a determinada função, a determinado papel que é esperado por outros? Como isso se dá?

O Physique du Rôle sendo o inferno do ator. O lugar intransponível para muitos. Aquele reconhecimento que não se deseja: “chame o fulano, ele tem aquela cara de…”. E fulano segue, representando o mesmo personagem até o final da vida. Encontrado na rua, ele é chamado por esse nome. “Ei, você não é aquele que fazia o …”

Peguemos a nobreza, por exemplo. O que a define na aparência de um homem? Em seus gestos, em seu movimento e na sua maneira de se relacionar com os outros? O que ele gera à sua volta que faz com que nós o interpretemos como rei dos demais? Como ele chega a isso?

Então todos nós, em algum momento da vida, fazemos a opção por um dos papéis disponíveis: eu escolho ser médico. Meus pais pensam que eu seria um bom arquiteto. Meus professores acreditam que eu seria um excelente advogado. Essas pessoas me vêem, de fora, e atribuem a mim um significado. Acreditam que, por determinada coisa externa que eles interpretam em mim, eu poderia cumprir determinada função para eles.

Eu insisto na medicina. E então cumpro todas as ações que as outras pessoas esperam de um médico. Um ritual, um conjunto dessas ações. Que vou cumprindo com maior ou menor dificuldade, fazendo os ajustes necessários, até que chega um momento em que os outros me vêem como sendo o médico. Mas eu ainda não me sinto preparado. O outro, me vê como médico. Eu já significo isso para ele e no entanto, para mim mesmo, ainda falta algo. Esse desajuste entre aquilo que sentimos que somos e aquilo que o outro nos atribui.

Então há o Physique? Eu teria o Physique de um arquiteto para uns e de advogado para outros. E hoje chego a ser um médico. As pessoas me olham e ainda me vêem como o arquiteto? Qual a razão disso? Eu agora sou médico, médico para mim mesmo? Ou diante daqueles que me viam como arquiteto eu fico inseguro das minhas escolhas?

Há sim, no corpo, um sistema de tensões mais ou menos constante intimamente relacionado a algumas estratégias emocionais que usamos nas relações com as outras pessoas. Isso nos veste, mesmo nus. O outro nos vê e vê primeiro esse figurino de carne, com a história das nossas estratégias que deram certo. Ele olha pra mim como um menino frágil, porque isso sempre funcionou na minha relação com outros. Ele olha para mim e vê a minha rigidez de estratégia, a minha doença, a minha prisão. O que eu sou é algo além desse personagem constante e está perdido para mim mesmo.

O homem pode ser o que ele bem entender, mas primeiro precisa chegar a uma nudez ainda mais profunda. Uma nudez que é uma morte.

Então primeiro é preciso desvestir-se desse personagem que criamos para os outros. E se expor numa nudez profunda, uma nudez que revela aquilo que realmente somos, aquilo que viemos expressar aqui. É preciso essa coragem de expressar essa nudez e depois vestir na carne o significado que queremos dar à nossa vida. Muito além do outro e suas chantagens. O outro e aquilo que ele espera que eu seja para ele.

Então o homem pode ser aquilo que ele bem entender.

E ele é livre.

A memória como toxina

Engraçado que nós aprendemos a valorizar a memória através da educação. Aprendemos a decorar as respostas corretas e somos premiados proporcionalmente. Acertar é repetir o memorizado. Errar é não se lembrar do certo. Então a memória fica super estimada como ferramenta para o nosso discernimento.

Isso vai derivando para muitas coisas que acabam perpetuando o status quo. Daí deriva a falsa premissa de quanto mais experiência (memória) maior a capacidade de dar respostas. Então o antigo é sempre mais certo do que o novo. E vamos ficando com medo das mudanças.

Mas eu não observo que isso é sempre assim.

Porque sucede que alguns idosos nos pareçam obtusos demais e a outros nos parecem sábios? Porque algumas crianças nos parecem superficiais e outras são tão profundas? Acho que isso tem algo a ver com a capacidade de refinar a memória, de torná-la efetivamente útil.

Como todo medicamento, é preciso ter cuidado com a dosagem de memória que vamos usar para avaliar uma situação nova. Se a memória está gerando paralisia, medo, insegurança, obstrução da visão, talvez a dosagem esteja excessiva. É muito difícil se livrar de uma memória tão potente assim. Você não pode negá-la, escondê-la. Os sentimentos que esse tipo de memória provocam são intensos, genuínos. A pressão que exercem é enorme.

Então não se pode usar o recurso da negação para lidar com esse excesso. A memória está ali, íntegra, excessiva, perigosa. Como lidar com ela? Negando-a, seremos violentos com ela. E ela vai revidar isso depois, se tornando mais intensa, porque será a memória do primeiro fato e mais a memória da violência contra a lembrança desse primeiro fato. Então memória gerada em cima de memória. Veneno de feito de veneno.

Estamos no presente, diante de uma situação inteiramente nova e a memória se sobrepõe, distorcendo a nossa maneira de ver as coisas. Como resolver esse impasse? Olhar para a memória como algo que surge agora, entre eu e o fato inédito que se apresenta. Porque estou olhando para essa situação como se fosse aquela? Essa situação presente e inesperada e aquela que já me ocorreu e que me gerou dor, sofrimento ou contradição… Porque aquela situação não foi resolvida de forma satisfatória no momento em que se apresentou, eu estou aqui hoje, carregando-a como um peso. Naquele momento eu não dispunha de ferramentas apropriadas para lidar com aquilo, mas talvez hoje, olhando para essa memória que se interpõe entre o que eu sou agora e esse fato inteiramente novo, talvez agora eu possa fazer algo.

Olho para essa situação atual e somente vejo a memória de um fato que me foi desagradável. Olho e sei que não estou vendo a situação atual ainda, estou vendo o que me passou antes. Como posso agir agora, de maneira que aquilo que me passou antes não me suceda novamente? E agora não é o que foi antes, e então me encontro preso à memória, agindo cegamente em relação ao agora. O que é essa situação nova que não a minha memória? O que realmente é essa coisa e o que é a memória? Posso fazer alguma distinção entre essas duas coisas?

Esse questionamento vai retirando da memória toda a certeza. A memória vai ficando só, na sua inteireza. O fato se atualiza, como algo que foi resolvido daquela maneira por aquelas pessoas naquele momento com base nos dados de que elas dispunham à respeito da situação. O próprio questionamento sobre a “veracidade” da minha perspectiva frente aos fatos contaminada pela memória já presente na situação ocorrida vai eliminando da memória todo teor de verdade que ela possa ter.

Então fico com um fato, que ocorreu de uma maneira tal e que foi interpretado por mim naquela ocasião, sob o efeito das minhas memórias na época. E então me senti vítima daquelas circunstâncias e jurei para mim mesmo que tal situação não deveria acontecer novamente. E então vejo que a mesma situação aconteceu ainda mil outras vezes. Não de fato, mas por efeito dessa memória presente, vivi diversas outras situações sempre significando aquele mesmo fato mal resolvido. E em cada uma dessas vezes busquei uma saída dessa repetição e nenhuma dessas saídas foi satisfatória.

Nenhuma ação externa irá resolver a toxicidade da memória. Nenhuma.

Somente essa operação sobre o significado da memória, sobre a sua subjetividade, sobre as ações externas que tendem a validar a memória e sua supremacia sobre a nossa capacidade de decidir.

Olhar para a memória e extrair dela toda a certeza, até que a dúvida do agora fique cristalina e então, se pode decidir em liberdade, tomando para si toda responsabilidade pelas consequências dessa ação.

 

Explicando o super-herói

Pai, olha só, veja! Um super-herói!

O sujeito em questão era o Wolverine, cara de mau, garras de fora, estampado no baú de um caminhão.

E eu, pai de três filhos homens, que li histórias em quadrinhos até os 25 anos…

Ele tá nervoso. Ele tá assustado. Ele tá muito bravo.

Pedrão, com sua simplicidade em expressar as emoções.

Eu gosto de Wolverine. Ele é forte.

Ai caralho, filho! Ai merda! Gabriel se entusiasma com Wolverine.

Eu gosto mais do Kiriku. Ele é muito esperto.

Ele é corajoso, né pai? – Gabriel parece estar comprando a idéia.

Eu acho filho. Acho mais legal assim. Você lembra da feiticeira Caravá?

Ela tava muito nervosa porque ela tinha um espinho nas costas. – Diz o Pedro.

Ela tava nervosa e ela quebrava tudo e bagunçava tudo. – Reforça o Gabriel.

Ufa. Parece que estamos andando.

Engraçado esses super-heróis. Eu acho eles parecidos com a feiticeira Caravá. Porque eles estão sempre nervosos, sempre quebrando tudo, jogando o carro no outro…

O Homem Aranha ficou muito nervoso. Ele está assustado. – Diz o Pedro.

Pra mim, super-herói mesmo tinha que resolver as coisas que nem o Kiriku. Com coragem e esperteza. Esses super-heróis que nem o Hulk, o Homem Aranha…

O Capitão América, tem o Ben 10… – Diz o Pedro.

O Bátima. – Diz o Gabriel.

Eles estão muito de cabeça quente, filho. Estão quebrando tudo. E eu acho que quando a gente fica nervoso e bate no outro é porque a gente se perdeu. A gente fica sem saber o que fazer e acaba batendo no outro porque perdeu a cabeça.

Lembrando que eu faço muito isso. Lembrando que eu sou covarde com eles. Lembrando que eu me sinto um bosta quando perco a cabeça com eles porque não sei o que fazer e parte do pacote de ser um pai é não saber o que fazer e fazer bosta.

Eu gosto do Hulk. – Diz o Gabriel.

Eu também filho. Eu também. Mas o Hulk é o mais nervoso. É tão nervoso que as calças dele até se rasgam.

É. E ele fica só de cueca. – Diz o Gabriel.

De cueca não, seu malucão! – Diz o Pedro.

É, de cueca. – Diz o Gabriel.

Não é cueca, Gabri. É a calça dele que fica bem pequena e rasga porque ele cresce de tanta raiva. Cresce, fica nervoso e sai quebrando tudo.

Lembrando que eu sou o Hulk. Que eu já fui mais Hulk do que hoje. Que eu sou viciado em ser Hulk. Que eu preciso lutar com esse Hulk o tempo todo.

É. Ele joga o carro no prédio. Ele pega assim ó, e joga lá longe. – Diz o Gabriel.

E as lojas que tem no prédio? E as pessoas que estão no prédio? E o dono da loja? O Hulk fica nervoso e não pensa em nada disso. Ele joga o carro e quebra tudo. Mas tem também aquelas pessoas todas.

É. – Diz o Gabriel.

E tem o Capitão América, o Batman, o Homem Aranha, o Ben 10… – Diz o Pedro.

E eu, sem saber direito como é que isso ia entrar neles, sem saber se estava fazendo bosta ou não, eu então disse a eles:

Filhos, as pessoas que inventaram esses super-heróis, o Hulk, o Capitão América, o Batman, todos esses… eles estavam tentando convencer a gente de que bater no outro é uma coisa legal. Que tem gente que merece apanhar e que isso é certo. Eles fazem isso para tentar fazer com que a gente apóie uma coisa chamada Guerra, que é a coisa mais vergonhosa que o ser humano pode fazer. A Guerra é um monte de gente que bate uma na outra, que quer ver o outro chorando, que quer ver o outro machucado e acha isso certo. A Guerra é uma perda de tempo, uma vergonha. Por isso é que o papai gosta do Kiriku. Porque o Kiriku consegue gostar de todo mundo…

Até da feiticeira Caravá, né pai? – Diz o Gabriel.

É filho. Até da feiticeira.

 

A Máscara

Filho, é muito importante que você tenha sempre isso em mente, quando estiver diante de uma situação em que a sua liberdade estiver ameaçada. Não existem instituições. É isso mesmo. Elas não existem. Aquele homem que está ali na sua frente e que diz representar uma instituição qualquer, ele está mentindo. Ele talvez não saiba disso inteiramente, conscientemente. Mas em algum lugar dele, isso está emitindo sinais.

Ele está usando uma máscara, que é a instituição que ele diz representar. E qualquer homem que use uma máscara é alguém amedrontado. Do que ele tem medo? De você. Do outro. Do diferente. De alguém livre.

David Thoreau olhava para o homem que vinha insistentemente lhe cobrar impostos do governo e sabia com o quê estava lidando. Com um homem, seu vizinho, vestido de governo, que se incomodava com a coragem dele de ser um homem livre. Então esse vizinho chegava na sua porta, a título de cumprir “o seu trabalho” e lhe impunha o pagamento de um tributo ao “governo”. Quem era o governo? Era o vizinho. O dinheiro chegaria ao seu destino, dilapidado, com toda certeza por mil outros vizinhos, cada um deles cobrando o seu tributo ao anterior.

Isso é como quando vocês dois estão brincando aqui na sala e por acaso disputam um brinquedo. Aqui em casa, a priori, os brinquedos são de vocês. De ninguém em particular, nem seu, nem do Pedro. Eu e sua mãe fazemos questão disso, mesmo quando as pessoas dão um brinquedo para você e outro para o Pedro. A gente acha que um recurso dividido é um recurso que se multiplica e então não fazemos essa distinção para vocês.

Mas quando vocês disputam um brinquedo e não conseguem resolver esse assunto entre vocês, e vou observando a progressão de argumentos que levam inevitavelmente à solicitação de um de vocês para que eu, ou sua mãe, ou qualquer outro adulto seja o mediador da relação. Porque vocês fazem isso? Porque querem usar algo que submeta o outro à sua vontade de brincar com o brinquedo que está agora nas mãos dele. Esse algo é o adulto. O maior, o mais forte.

“Porque não resolvem entre vocês?” Eu pergunto. E um responde: “Foi o Pedro” e o outro “Foi o Gabri”.

Vocês estão tentando me manipular. Eu estou nos meus assuntos e então me aparece essa solicitação. E vocês como crianças são muito intensos e nos exigem resposta imediata. Repetem mil vezes a mesma coisa. O mesmo tipo de técnica que os torturadores usam para dobrar os prisioneiros. E então, se não estamos atentos ao nosso psiquismo, a gente se dobra por uma solução simples. E o processo acontece assim: se o Gabriel sempre mente, com certeza o Pedro tem razão. Se o Pedro sempre chora por qualquer coisa, com certeza o Gabriel não fez nada. Reduções estúpidas de cada um de vocês.

E eu tomo uma decisão limitada, com base em argumentos fúteis, numa situação na qual eu não tenho nenhum interesse a não ser que vocês me deixem em paz. E eu nunca estive envolvido nisso. Nunca. Não quero brincar com o carrinho. Quero escrever, conversar com sua mãe, brincar com o Francisco, ou quero estar com vocês sem estar nesse papel estúpido de juiz de quem deve ficar com o pedaço de argila maior.

E então eu digo: “Gabri, quem estava com o carrinho?” e você responde “O Pedro”. E você então fica murcho e devolve o brinquedo ao seu irmão. E o Pedro fica sendo esse bunda mole, que precisa pedir sempre a minha intermediação.

Ou então eu digo: “Pedro, tá chorando porquê?” e o Pedro responde “O Gabri”. E eu digo: “Vá lá e tome dele o carrinho!”. E autorizo o outro a usar a força contra você. E você fica sendo um covarde, que vai ter que mentir sempre para conseguir o que quer.

Eu às vezes digo, sem paciência: “Me deixem em paz! Lutem entre vocês e eu crio quem sobreviver.” Mas também é inútil tudo isso.

E quando eu nem ligo para vocês, ou percebo que vocês estão com sono, ou querem minha atenção, quando eu não ligo para o carrinho ou qualquer outra coisa, aí vocês resolvem o assunto.

Então, filho, a instituição é essa coisa. Uma máscara que a gente usa para conseguir que o outro faça aquilo que a gente acha que ele deve fazer para nos agradar. E aquilo que nos aprisiona na instituição é essa manobra que fazemos para tentar agradá-la. Pagar imposto, bater continência, ajoelhar e fazer um sinal da cruz. Bobagem tudo isso. Deixe o outro em paz!

Tenha coragem de dizer o que realmente quer e de ver o limite do próprio desejo expresso na presença do outro e do querer dele. Aprenda a dividir com o outro, a negociar com o outro. Aprenda a ver que com o outro a brincadeira é melhor, mais legal, mais gostosa. Pare de ter medo do outro, de manipular o outro, de torcer as palavras de um terceiro para que o segundo lhe obedeça e você seja o primeiro. Pare com isso.

Olhe para o homem na sua frente e veja o homem. Veja como é frágil, como tem medo de estar vivo, como está só com suas coisas. Veja como ele se sente único, como ele também quer ser o primeiro porque acha que não é amado o suficiente, porque agora ele tem um irmãozinho menor e mais fofo do que ele. Veja como ele perdeu o amor próprio em algum momento.

E então, olhando esse homem, não se sinta melhor que ele. Veja como você é igual a ele, em tudo. Por fora, é diferente. As histórias de cada um parecem ser diferentes. Mas no fim, filho, somos tão iguais. Sete bilhões de seres iguais em natureza. Iguais nesses sentimentos, nessas dúvidas sobre o que é estar aqui dividindo tantos brinquedos com tantos outros, todos iguais. E sem nenhum papai ou mamãe para dizer de quem é o carrinho. Estamos sós aqui. E todo mundo tem esse lugar que dói.

E então filho, na frente desse homem que se acovarda, veja esse lugar que dói nele. Veja como dói. E aperte esse ponto, sem piedade.

Aperte nesse homem o lugar que lhe dói. Seja firme com ele. Mas seja delicado, lembre-se do quanto ele é frágil. Lembre-se do quanto ele é você. Aperte o homem na esperança de que ele veja quem é, por trás da máscara. Aperte o homem e veja que ele e você são um e que tudo é de todos.

E agradeça ao homem quando ele apertar esse lugar em você, porque quando ser aperta um homem no lugar em que lhe dói, a gente também aperta esse lugar na gente. E isso traz tudo o que precisamos saber sobre nós mesmos e sobre o outro.

Se algum dia, filho, existisse uma instituição real, teria que vir desse encontro.

Dessa generosidade entre duas pessoas que se mostram inteiramente, como eu e sua mãe buscamos viver todos os dias.

O resto, filho, é máscara. É covardia.

 

O Homem Livre

O recurso mais valioso de que se pode dispor é um homem livre.

Ele está ao seu lado voluntariamente, segundo seus próprios motivos, segundo seus interesses.

Não está condicionado a nada, está ali porque quer e porque sente que se beneficia desta relação.

Ele pode passar sem você, nada que você pode oferecer vai lhe causar dependência.

Ele é o tempo todo aprendizado, autonomia.

Quando age é com todo o seu ser. Se move no mundo realizando seu propósito e ao seu redor é só fartura.

O homem livre sempre gera ações que favorecem a liberdade.

O homem livre é primeiro uma decisão de trabalhar pela própria liberdade.

Se você quer ser um homem livre, semeie ações de liberdade.

Ninguém pode ser livre se depende do aval de outros para sê-lo.

Deixe o outro em paz e fique em paz.

Um corpo

Paulinho me pediu isso para a entrevista e me dei conta de que não saberia contar minha história assim. Então resolvi escrever para ir pensando desse jeito antes. Eu sempre contei a história das minhas referências, daqueles que de alguma maneira me inspiraram, mas isso tinha muito a ver com a minha mente e não com a minha perspectiva sobre o corpo.

Eu cresci na década de 80. Sou de 74 e em 1980 estava no pré-primário. E tenho um sopro cardíaco. Naquela época, uma criança com problemas no coração era alguém com uma contagem regressiva para uma cirurgia. E além disso, eu tinha febre reumática, uma condição provocada por uma bactéria que justamente tinha a capacidade de comer as células das válvulas cardíacas. Essa febre doía pra cacete! Você começa sentindo uma dor infernal no joelho direito e uma febre só no joelho. Depois a febre vai para o esquerdo, e a dor também. A febre é muito alta e a dor parece que não vai acabar.

Os médicos acharam melhor que eu não fizesse educação física. Também recomendaram à minha mãe que eu não me machucasse ou que não tivesse nenhum tipo de infecção séria por estafilococos. Eu também não podia tomar nada gelado, nem friagem, nem andar descalço. E todo mês eu tinha que tomar benzetacil.

Lindo, né?

Primeira referência: minha mãe. Criando o único filho homem numa bolha, segundo as recomendações médicas. Minha mãe me ensinou a dar valor à minha força de vontade e a ter fé. Ela me ensinou que era preciso respeitar os meus limites, mas eu entendi que era preciso temê-los. Minha mãe sempre me estimulou a ser disciplinado, a estudar, a aprender fazendo, a ler, a criar. Minha mãe me protegeu por tempo demais, mas ela fez o que conseguia fazer.

Segunda referência: Dr. Carlos Niel Freire, meu médico homeopata. Ensinou minha mãe a não me mimar demais. Me deixou tomar sorvete e andar descalço. Me ensinou a atravessar a febre, sabendo que ela ia acabar um dia. Me curou da febre reumática na infância e do líquen plano na idade adulta. Me curou de uma namorada ruim. Me ajudou com a falta de paciência com a carreira que não decolou nunca. Me ensinou que corpo e mente eram expressões de uma mesma coisa.

Depois da cura eu comecei a fazer educação física. Mas já era um pré-adolescente e péssimo em qualquer esporte. Eu era o último a ser escolhido. Ou o penúltimo. Não sabia o lado certo de chutar a bola. Não agüentava correr por muito tempo. Não queria saber de futebol, nem volei, nem handebol. A única coisa que eu jogava bem era queimada, que era coisa de menina. E taco, que era brincadeira de rua. Eu era bom em taco, mas era melhor jogando a bolinha na lata do que rebatendo com o taco. E quem joga a bolinha não marca ponto. Ganhei uma Caloi Cross, mas não tinha força para empinar. Treinei Karatê durante uns meses, mas tomei um chute na cara depois das férias e desisti. Minha vida de atleta foi uma desgraça completa.

Terceira referência: Professor Hélio Scaglioni. O Hélião era professor de educação física. Quando eu cheguei a sua turma, já tinha desenvolvido uma técnica de cabular aulas, junto com o Edward. A gente respondia a chamada e dava um perdido, ia para a classe desenhar até o final da aula. O Hélio era mestre na malandragem e logo descobriu o nosso esquema. Eu não lembro o que ele fazia com o Edward. Mas ele dava um jeito de eu entrar no time dele no futebol de campo. Eu tinha um chute forte, mas não conseguia acertar a bola no lugar certo. Mas era muito bom com as canelas dos amigos. Então o Helião me pedia para fazer faltas em certos caras do jogo. E depois me dava cobertura. Isso me garantiu um lugar nos jogos de rua com meus amigos. Eu entrava no jogo na hora em que era preciso fazer falta em alguém. Hélião achava um jeito de eu participar da bagunça na escola, que era um jeito de ser corpo. Acho que foi por causa dele que mais tarde eu acabei virando comediante.

Eu terminei o ginásio e fui estudar eletrônica na Fundação Bradesco. Na mesma época, comecei a fazer natação na ACM, por indicação médica. Então conheci a quarta referência: Professor Teixeira. Ele parecia o sargento Pincel, dos Trapalhões. Era um sujeito gente fina e tinha uma paciência enorme. Foi o cara que me ensinou a nadar. Eu nunca consegui aprender o nado borboleta, mas o Teixeira foi o sujeito que me ensinou judô aquático. E me deu um ensinamento que é útil até hoje: ele me disse que quando o sujeito está se afogando, ele não tem discernimento para olhar para você e entender que você tem a chance de salvá-lo. Nada disso. O sujeito vai se agarrar em você e usar você para boiar, porque ele está em pânico. Nessa hora, você precisa aprender a tirar a autonomia do cara por alguns momentos e ajudá-lo a não se afogar. Então ele nos ensinou maneiras de evitar estrangulamentos e imobilizar alguém que você está tentando salvar.

Na Fundação eu comecei a jogar handebol em times mistos. Handebol parecia queimada, de algum jeito. Então eu virei goleiro e jogava usando óculos. A gente tinha algumas aulas de atletismo e aprendia salto triplo e esse tipo de coisa. Foi aí que eu tive a minha primeira experiência corporal de pico. O James era um cara que estudava comigo e que praticava atletismo. Era um sujeito alto e tinha experiência com as corridas. Eu resolvi naquele dia que iria tentar ganhar do James na corrida. Sabia que não tinha resistência para uma prova de 400m, mas poderia tentar ganhar na de 100m. Então eu corri e corri. E num dado momento eu me lembro de ultrapassar o James, que me olhava com um cara assustada. A minha pressão ia baixar na hora e então eu me imaginei como uma águia voando. Eu não senti mais nada, e ganhei a corrida. Foi a única vez. Mas eu ganhei. E a águia ficou comigo nessa experiência.

Quinta referência, professora Luciana, de História, O.S.P.B e Educação Moral e Cívica. Eu desenhava. Para passar o tempo, para descansar a cabeça, para aliviar as insuportáveis enxaquecas. Eu nunca anotei muita coisa em sala de aula. Desde a infância. Desde o momento em que os professores param de conferir se você está copiando a matéria eu passei a desenhar no caderno, como forma pessoal de anotar as coisas. Quando eu estudava eletrônica, as dores de cabeça aumentaram muito. Uma náusea insuportável que me acompanhava todas as vezes em que eu realizava um enorme esforço mental. E o desenho, que me acalmava. A professora passou pelo corredor e ficou olhando meus desenhos, todos violentos, todos relacionados à matança. Mas eram bons desenhos. Então ela me perguntou o que diabos eu estava fazendo ali, naquele curso de eletrônica. Ela me disse que eu era um sujeito criativo, um artista e que aquele curso era uma coisa para bitolados, para gente sem opção. Me indicou um curso de desenho na prefeitura de Osasco, um curso gratuito.

Sexta referência, Inácio Gurgel, ator, diretor e professor de Teatro. Eu comecei o curso de desenho na prefeitura. Um curso de dois anos de duração. Mas em três semanas eu já tinha terminado o primeiro ano, porque levava a pasta para casa e adiantava a matéria depois que terminava de fazer as minhas lições de casa. Depois desse prazo, os outros alunos ficavam vendo os meus desenhos e não faziam mais nada. O professor me pediu para mudar para turma do segundo ano, onde eu aprenderia a pintar. Mas eu odiava as cores. Odiava pintar. Acho que pintar tem algo a ver com o corpo e desenhar tem muito a ver com a mente. A Denise, minha irmã, me pediu para ficar de olho se aparecesse um curso de Teatro gratuito, porque ela estava querendo muito fazer. Então aparece um velho no curso de desenho e fica fazendo propaganda do curso de Teatro da prefeitura com a mão no meu ombro. Eu acho viadagem, mas chego em casa e falo para a Denise. Ela me pede para acompanhá-la, a Dayse também resolve ir e chama uma amiga. Eu convido o Júlio e a gente começa a fazer teatro no Espaço Cultural Grande Otelo.

O teatro me deu uma perspectiva inteiramente nova sobre corpo, sexualidade, amizade, relacionamento. Eu me apaixonei por aquilo tudo, me apaixonei por mim mesmo naquilo. Então comecei a pensar em deixar o curso de eletrônica para me tornar um ator, coisa que foi muito mal vista na família.

Sétima referência, Beto. Foi meu professor de teatro no Anglo Osasco. Era um sujeito complicado emocionalmente, ficava o tempo todo fazendo joguinhos emocionais com a galera. Mas eu conheci muita gente bacana e conseguia ter uma relação mais ou menos tranqüila com o Beto. Ali eu me meti com o teatro de cabeça e comecei a aprender um pouco de mímica e clown.

Oitava referência, Antônio Januzzelli, o Janô. Mestre total. Eu achava que a aula dele era pura enrolação. Me divertia tentando enrolar, fazendo qualquer coisa que me desse na telha, porque achava que ele não estava vendo nada. Mas ele vê tudo. Vê até o que você não vê. O velho é foda! Ali eu aprendi o que é fluxo. Aprendi a pensar num método de trabalho criativo, aprendi a pensar no ensinamento que um ator necessita. Ali eu li Homo Ludens, do Huizinga. Janô foi companheiro em outras empreitadas, como “Frio 36 e meio C” e os trabalhos na casa da Paula Picarelli, com o Marcelo Airoldi e o Guilherme Jorge.

Nona referência, Maria Lucia Pupo. Jogos teatrais, Viola Spolin, jogar o jogo. Participar do jogo com o corpo. A precisão no jogar.

Décima referência, Eduardo Tessari Coutinho, doutor em mímica. Coutinho não só me ensinou muito sobre mímica, como me ajudou muito a abrir meu peito. Meu trabalho com ele foi o que mudou meu corpo nerd em corpo de ator. Eu aprendi Feldenkrais, Rolfing, alongamento, aikido. Trabalhei com ele mais tarde num espetáculo que eu mesmo escrevi chamado “A construção”.

Décima primeira, Patrícia Noronha, dança. Ali eu voltei a cabular as aulas de educação física. Não coordenava nada com nada. Não conseguia assimilar nenhuma coreografia. Nada. Eu odiava aquilo tudo. Mas ela se divertia tanto com aquilo e era tão linda que me fazia pensar que eu poderia aprender a dançar.

Décima segunda, Desirée Veiga, artista plástica e educadora. Me ensinou sobre o meu corpo. Me ensinou a olhar para o meu próprio corpo de uma maneira inteiramente nova. Acompanhou a enorme transformação que me aconteceu nos trabalhos com o Coutinho.

Décima terceira, Juliana Jardim e Elton Vagner. Me ensinaram a criar partituras. Me ajudaram com a precisão. Então eu criei uma coisa muito forte em “O olho azul da falecida”. Eu fui absolutamente radical naquilo. E era bom pra cacete!

Décima quarta, Arthur Belloni, Laís Marques e Helena Cerello. Lindos. Me ensinaram a dançar, a olhar a dança, a opinar sobre ela. Me ensinaram que eu podia ir mais longe do que jamais tinha sonhado. Construiram junto comigo aquilo que chamamos de “Frio 36 e meio C”. Coisa da alma impressionante de Arthur Belloni, mineiro inesquecível.

Décima quinta, Claudia Pucci. Mulher, parceira, mãe dos meus queridos filhos, Pedro, Gabriel e Francisco, que está quase chegando. Me deu a honra de assistir todos os partos e nosso único aborto. Me ensinou a amar meu corpo e o dela. O apoio de todos os dias.

Décima sexta, Silo. O argentino, o negro. Foi ele quem ajeitou o Movimento Humanista e todo trabalho com a alquimia que eu depois realizei. Aquilo me transformou absolutamente, me trouxe uma nova percepção de recursos, de fartura, de transformação da realidade. Aquele processo acabou com o sujeito que eu conhecia até então e abriu as portas para uma coisa inteiramente nova.

Décima sétima, Paulinho Panzeri, o entrevistador. Paulinho faz um trabalho chamado desbloqueio corporal. A gente tentou fazer um espetáculo com essa coisa toda, mas é impossível! Eu não entendia na época como é que o Paulinho via o que ele via, mas sei que tinha tudo a ver com que eu estou fazendo agora.

Décima oitava, Pedro Nebesnyj, terapeuta corporal. Eu quis aprender uma massagem e queria entender o ayurveda. Minha irmã Denise me indicou esse grupo de estudos no lugar onde ela recebia a massagem ayurvédica. Eu conheci o Pedrão e um dia resolvi conhecer a massagem que ele fazia. Nesse dia eu soltei todos os cachorros que eu não sabia que estavam presos dentro de mim. Eu tinha tanta raiva da vida, tanta! Eu queria arrebentar tudo, queria quebrar o Pedro no meio. E ele assistiu esse exorcismo todo e foi impassível. Eu me entreguei absolutamente e atravessei aquilo tudo. Então, um dia eu criei coragem e pedi a ele que me ensinasse a massagem. Hoje é o meu principal trabalho.

Décima nona, Françoise Otondo, terapeuta corporal. Nós três assumimos a gerência do espaço depois que os outros todos foram tocar as suas coisas fora de lá. Nenhum de nós entende nada disso e estamos aprendendo a tocar o barco uns com os outros. As conversas com a Fran e com o Pedrão são sempre espetaculares.

Vigésima e última, todos os corpos que eu já massageei. Todos e suas histórias, seu jeito de lidar com a vida. Eu aprendo sempre com cada um deles e isso é a principal razão de eu ir trabalhar amanhã.

Do novo mundo

Era como um relógio, um software, uma equação. Aquilo tudo ia acontecer da mesma forma já ensaiada durante meses. Minha satisfação era sempre essa exatidão, essa precisão. Mas aquela cena final, aquilo, ainda faltava algo, parecia. Algo que eu não conseguia entender o que era.

Eu entrava e executava tudo conforme tínhamos ensaiado. A coreografia aprendida a duras penas. A luta contra a minha vergonha de dançar. Fazia sentido aquilo, o personagem só expressaria sua máxima contradição se chegasse a esse ponto. Assim me parecia. Mas ainda assim, a cada vez que eu entrava em cena, parecia que me faltava alguma intenção além do mecanismo já conhecido.

Então, naquele dia, eu entrei e vocês três estavam lá sentados. A água iria cair na cabeça de vocês dali a pouco e a cortina de polvilho em pó também. Eu faria os sons dos animais e serviria a vocês a bebida azul e finalmente, iria para o centro da cena fazer a cena final, a dança. Naquele dia eu senti a humilhação daquele homem, a inutilidade daquele trabalho e a piada terrível de ele fazer aquele trabalho mecânico, repetitivo e infinito ao som de “From New World”, de Dvorak.

Eu sentia um prazer enorme de ter usado minha mente daquele jeito para montar aquela peça com vocês. Eu adorava cada problema que a gente resolvia juntos, cada máquina que eu criava e submetia ao uso e aprovação de vocês, cada percepção da coreografia, porque nessa peça eu não só aprendi a dançar, como aprendi a ver a dança. Mas naquele dia, naquela exata percepção, meu olhar ficou turvado pelo do “contraregra”. E dali em diante, eu não consegui me livrar disso.

Cada vez que uma máquina apresentava problemas, cada vez que um cenário seria montado, a cada vez, eu me sentia como ele e não consegui entender que era isso até essa semana. Imaginem… Quantos anos já fazem? Dez?

Eu não agüentava mais o que eu via. Era insuportável. A peça foi ficando insuportável. Minha carreira foi ficando insuportável, o teatro em si. A idéia de trabalho, de seguir profissionalmente, alimentando uma máquina sem sentido e criando a ilusão de um mundo novo onde a novidade de hoje era a indignidade de ontem. Aquilo entrou nas minhas tripas e achou lugar no meu culto à desistência, desenvolvido a duras penas com os conselhos de mamãe sobre respeitar os meus limites.

E a soma das coisas foi que eu desisti de qualquer coisa quando percebi que aquilo só ia perpetuar o andamento da máquina infernal.

Eu não pude ver isso na época.

O mineiro me ligou no final da temporada para perguntar porque eu não tinha ido à reunião de avaliação e eu nem me lembrava da reunião. Não tinha anotado em lugar nenhum. Tinha dado uma aula péssima e quando ele me ligou eu estava tentando esfriar a cabeça. Eu disse que não iria, mas que estava cansado de fazer a peça e só tinha percebido isso quando um espetáculo foi cancelado porque a prefeitura de São Paulo não estava pagando as contas de luz e eu senti alívio.

Eu estava cansado da vida. Estava vivendo um sobre-esforço e fazendo a única coisa que eu conseguia nessa situação: desistir.

Abri mão disso para me casar com a Clau, para buscar um trabalho com teatro que também me desse dinheiro. E então fui fazendo essas coisas todas em troca de dinheiro. O sacrifício constante. Não fiz mais nenhum trabalho com aquele envolvimento criativo, aquele uso da minha mente. Nada. Tudo o que fiz foi pela grana, pela possibilidade da grana. Da grana atual ou futura. De novos trabalhos.

E aí larguei de vez o teatro, cansado da pobreza permanente.

Abri um buraco dividindo meu prazer de estar vivo com a necessidade de sobreviver. E então me transformei no contraregra durante algum tempo.

Eu entrei em contato com essa massagem e ela foi me propondo essas coisas.

Um dia eu comecei a caminhar por duas horas, durante a manhã. Mantive essa prática durante alguns meses e descobri um lugar onde eu comecei a treinar kung fu. No começo eu chegava todos os dias no meu lugar de desistência. E desistia, como sempre. A pressão baixava e eu me sentava no chão, querendo vomitar.

Meus treinos duravam uma hora, duas vezes por semana. No primeiro ano, aproveitei a promoção de férias e fui treinar todos os dias por duas semanas. Quando eu passei do primeiro nível para o segundo, ia ter que aumentar em dez o número de flexões de braço. Eu treinava às terças e quintas e o exame era no sábado. Então fiz o exame num sábado e na terça seguinte já tinha que fazer mais flexões.

Não consegui de primeira. Daquele dia em diante, fui aumentando uma flexão a cada treino e então quando eu termino um nível já tenho preparo corporal para o seguinte. O mesmo para as abdominais e todas as outras resistências.

Nos chutes de aquecimento, a minha pressão seguiu baixando durante muito tempo. Mas eu fui aprendendo a poupar energia e adotei o sistema de não parar. Eu respiro, recupero a energia e vou.

Meus treinos passaram a ser mais longos.

Quando eu estava fazendo o curso de massagem com o Pedro, ele disse para a gente que tinha dias em que ele fazia onze massagens. Eu ficava exausto se fizesse duas na seqüência e então criei esse objetivo de ter estrutura corporal para fazer ao menos umas cinco massagens por dia.

Comecei a usar as bicicletas do Banco para ir embora para casa. Nas primeiras vezes, fui até a Estação Berrini, da CPTM. Os trens estavam cheios, um inferno. Então resolvi testar se agüentava ir até o Shopping Eldorado. E consegui. Do Shopping até a minha casa no Butantã, eu seguia a pé, e tudo bem.

Fiz uma revisão na minha bicicleta e comecei a ir até o metrô Butantã com ela. Deixava a bike estacionada lá. Pegava metrô, ônibus e caminhava até o trabalho. Na volta, pegava a bike do Banco, ia até o Shopping, atravessava a ponte a pé, pegava a minha bike e seguia para casa. Três subidas à nossa volta são impossíveis e eu comecei a pesquisar a história da bike elétrica.

Mesmo assim, continuei usando esse método.

Usar a bike todo dia foi melhorando a minha performance nos chutes de aquecimento.

Quando eu me mantenho treinando duas vezes por semana, em pouco tempo a minha pressão já não baixa mais. Só que eu começo a trabalhar mais, a atender mais. E volta e meia tenho que faltar num treino da semana e às vezes em dois. Mesmo assim, sigo treinando. E lutando com o lugar da desistência.

Quatro meses atrás eu comprei a bike elétrica. Não sei porque, mas eu me lembrei de vocês três naquele dia. A bike parecia uma invenção minha e acho que isso o que eu gosto nela. De algum jeito ela me lembra do “Frio”. Desde o dia em que eu comprei tenho usado a bicicleta para percorrer um trajeto de 36km (18 ida e volta) até o trabalho. Deixei de usar o carro, o metrô ou o ônibus. Isso diminuiu bem os nossos custos domésticos, embora eu ainda esteja pagando a bike.

Ela resolve meus problemas com as subidas críticas e me ajudou muito com o condicionamento físico.

A sexta-feira é o dia em que a minha agenda de clientes está mais cheia. Tenho atendido no mínimo três pessoas, mas chego a quatro ou cinco.

Eu estava pensando justamente como fazer com que os outros dias da semana cheguem nos cinco atendimentos e então chego numa sexta feira e tenho seis pessoas para atender. As meninas da recepção me perguntam se tudo bem e eu resolvo assumir o risco. Atendo as seis pessoas e no dia seguinte, vou treinar meu kung fu por duas horas.

Ali eu me dei conta de que eu tinha criado um limite arbitrário e que talvez eu pudesse atender mais gente do que imaginava.

Então sábado passado, no treino de kung fu, eu estava dando um soco num aparador sustentado por um colega e de repente me dei conta de que eu colocaria um sujeito em knockout com uma seqüência daquelas. Eu tinha conseguido o corpo que eu sempre quis. Mas ao mesmo tempo, eu percebi que botar alguém no chão não seria nunca a minha primeira opção.

Fiquei com isso.

Até essa percepção, eu achava que nunca colocaria um sujeito no chão. Mas não sabia se essa fala tinha a ver com essa sensação de não ter capacidade corporal. Entendem? Então no sábado eu percebi que tinha chegado na capacidade corporal que eu sempre imaginei que chegaria por causa dessa percepção da capacidade de nocautear alguém.

Bom, eu tive febre desde o sábado.

É um baque no fígado que é um dos maiores indicadores do terreno da desistência. Eu fico prostrado, sem energia, com a vista amarelada, amargor na boca. E a febre.

Mesmo assim, eu fui trabalhar na segunda.

Eu teria desistido, sabem.

Eu só percebi esse circuito todo que tinha vindo desde aquele nosso encontro porque, por outras razões resolvi enfrentar essa desistência de frente. E numa noite, no meio da febre, eu me vi entrando no palco e tendo a percepção do contraregra e me dei conta de que era isso o que eu precisava curar.

Psico-história

Em Fundação, Asimov postula a existência de uma ciência que mesclaria história, sociologia e estatística para prever com exatidão as ações coletivas de populações muito grandes. A segunda guerra mundial trouxe Goebbels e a guerra fria trouxe a máquina de propaganda comunista e a indústria de publicidade dos Estados Unidos. O mapeamento de tendências começou a ser empregado exaustivamente desde então, chegando hoje às redes sociais e ao controle, pretendido pelo Estado.

Hari Seldon, o criador da psico-história postulava que o comportamento de grandes conjuntos humanos era altamente previsível, embora o comportamento de um único indivíduo fosse absolutamente imprevisível. Mas como o comportamento de um único indivíduo afetaria os rumos da história psíquica de uma civilização? Como a ciência de Seldon determinou a destruição do império galático? Como o “caos” particular se transforma na entropia do sistema inteiro?

“Qual é a idéia, uma idéia simples, acessível ao mais simples dos homens, que fez a humanidade aceitar as doutrinas que a levam a autodestruição?” (RAND, Ayn – A Revolta do Atlas)

Sem entrar em coisas estranhas como a Ressonância Mórfica, de Sheldrake ou a hipótese do centésimo macaco de Ken Keyes Jr., como é que uma idéia, um ato, um movimento simples iniciado por um homem pode afetar a estrutura social inteira, como vemos sucessivas vezes na história? Quais as condições para que esse ato seja assimilado por outros homens e reproduzido? Algo que entre no cotidiano dos homens como um hábito, pouco a pouco,  e que mude de uma vez por todas a trajetória de autodestruição?

Um fractal de movimento, como uma coreografia de Pina Bausch, a música de John Cage ou Philip Glass uma mandala tibetana. Um tema, repetido até o automatismo, gerando um novo fractal, uma nova complexidade.

Não me interessa a observação externa, topográfica da rede. Interessa o pequeno loop que a transforma por completo. Aquele minúsculo ato, em si mesmo libertador porque é imprevisível, a revelação do propósito de um homem que acaba por afetar toda a rede.

É possível gerar um fractal que gatilhe atos de liberdade? Que gere a entropia completa? A imprevisibilidade de grandes conjuntos humanos e a impossibilidade da existência de qualquer império, na terra ou nas galáxias?

 

Ainda o Algoritmo

Dez anos atrás eu estava seguindo o Algoritmo nessa direção: um personagem era algo que surgia de reações predeterminadas com outros personagens. O personagem tinha um objetivo a ser alcançado na trama e para conseguí-lo usava de uma estratégia simples: ele mostrava aos outros aquilo que ele inferia que os outros gostariam de ver nele, ou aquilo que se fosse visto pelos outros, facilitaria ao personagem a consecução do seu objetivo. Então se podia gerar uma peça a partir de um conjunto simples de regras que deveria ser seguido à risca pelos atores.

Eu fiz algumas experiências com isso, com relativo sucesso, até que um dia me dei conta de que isso era Commédia de L’arte. Fiquei desagradado com o fato de não ter criado nada de novo, mas continuei perturbado com essa idéia, porque em algum lugar ela me parecia a razão de estarmos aprisionados num programa que só gera estupidez e sofrimento.

“Essa é a razão de sofrermos”, eu pensei na época e continuo insistindo nesta perspectiva. Ao invés de nos atermos a expressar aquilo que realmente somos, entramos nesse jogo de nos definirmos por aquilo que acreditamos que os outros querem ver de nós. Porque fazemos isso? Onde esse jogo começa?

Essa pergunta me conduziu por muitos estudos e eu acabei me afastando do teatro em si, para explicar essa intuição misteriosa. Entrei de cabeça na psicologia, especialmente em Reich (“O assassinato de Cristo”, “A revolução sexual”, “A função do orgasmo”, “Escuta Zé Ninguém”, “Análise do Caráter”, principalmente “A psicologia das massas do fascismo”), nos estudos de Erwin Goffman (“A representação do eu na vida cotidiana” e “Manicômios, prisões e conventos“), na Teoria dos Jogos, associada à política e ciência social (o incrível “Jogos Ocultos” de George Tsebelis), na associação entre a ciência cognitiva e os computadores feita por Steven Pinker em “Como a mente funciona”, no portal aberto por Howard Gardner em seu “A nova ciência da mente” e Noam Chomsky em “Reflexões sobre a linguagem”.

Minha pesquisa não parou por aí, mas esses sujeitos foram os principais expoentes da ciência acadêmica. Mas eu me inquietei ainda mais com isso, avançando para um terreno da mente ainda não muito explicado. Continuei minhas pesquisas tentando entender a existência corpo/mente do homem nas tradições místicas de vários povos. Sempre me inquietando com a disposição de algumas tradições em colocar certas coisas como exteriores ao homem, como se forças desconhecidas realizassem no homem algo que o torna um joguete. Sempre rejeitando a simplificação do maravilhoso conhecida pelo nome de deus.

Como entrar nessa senda do esoterismo, da magia, do misticismo e da religião e extrair disso algo que não seja o medo, a covardia e o dogmatismo? Como encontrar a ciência disso? A arte real nisso? O que há de sólido nesse emaranhado de códigos sobre códigos, de interpretações sobre interpretações? Porque esse tipo de descrição da realidade surge em diversos povos e os orienta de alguma maneira? Porque sentimos que essas definições são de alguma maneira explicativas da realidade, embora sejam paradoxalmente absurdas e fantásticas? Que é que pode ser isso que se chama de espírito? Ou essência? Que coisas são essas que são chamadas de iluminação, samadhi, nirvana? Isso é acessível ao homem? Que faria eu com isso? Que diferença isso faria na minha vida e na vida daqueles que me rodeiam? Isso é útil? Em que medida?

Sempre tendo o homem como a medida. Sempre tendo essa fé no humano, acima de tudo, nessa capacidade do homem de tornar tudo manejável, de trazer tudo para suas mãos e moldar a realidade segundo sua intenção. Sempre apostando nisso, na beleza do homem, apesar de todo erro, de toda grosseria. Então encontrei um pensador argentino que me trouxe a primeira integração de tudo isso: Silo, em seu “Contribuições ao Pensamento“. Ele postulou, numa psicologia da imagem, uma característica de nossa mente chamada “Espaço de representação”. Essa tela mental está intimamente conectada com os nossos sentidos externos (visão, audição, tato, paladar, olfato) e com os nossos sentidos internos. O que ele chama de “imagem” não é algo puramente visual, mas qualquer representação que aconteça nessa tela mental. Consciência é intencionalidade.

Silo trazia a consciência como algo manejável, com estruturação própria. Com um trabalho chamado “Autoliberação“( de Luis Ammann) tínhamos a oportunidade de investigar os mecanismos da consciência e nos propor um plano de manejo desses mecanismos, revertendo situações que nos geram sofrimento. O todo do trabalho de Silo, vai muito além de seus escritos e de sua visão extremamente lúcida do homem. Ele deixou como legado, um grupo de pessoas que ainda hoje segue estudando, segue investigando o homem, segue lidando com a superação do sofrimento humano. Silo criou o Movimento Humanista, uma organização internacional cujas bases são o ser humano como valor central, a não violência e a não discriminação.

Foi no interior do Movimento Humanista que eu encontrei a ponte que ligava os estudos sobre a consciência desde o ponto de vista do ocultismo com a psicologia da imagem. Todo o tempo evitávamos abordagens sobre espíritos, entidades, alienígenas e qualquer coisa que tivesse a característica de ser externa ao homem. Olhávamos para esses fenômenos como traduções do espaço de representação. Algumas tradições colocam essas imagens como exteriores ao homem e negociam a interpretação delas a partir de um dogmatismo. Na abordagem de Silo, as imagens estão sempre relacionadas à aquele que as vê. Não se anula a carga informacional que estas imagens contém, usando para isso o termo pejorativo “fantasia” ou ainda “imaginação”. Segundo ele a “fantasia” é composta de imagens que possuem cargas emocionais fortíssimas e que podem ser integradas ao psiquismo através de técnicas transferenciais. Como Jung, mas ainda além dele, porque o enfoque de Silo é a superação do sofrimento humano não apenas no nível individual, mas nas relações humanas e na sociedade definida por elas.

O periodo de imersão no Movimento Humanista durou sete anos. De 2004 a 2011, estive envolvido com o aspecto social do Movimento, participando ativamente da estrutura organizacional no inicio (até 2009) e depois, envolvido ainda com os estudos realizados em forma de retiros. Depois que realizamos a Marcha Mundial Pela Paz e a Não Violência, Silo retomou um trabalho que era realizado nos primórdios do Movimento Humanista (nos anos 60), que envolvia o estudo de quatro disciplinas: Energética, Formal, Mental e Material. Cada uma delas consistia num trabalho realizado em doze etapas, divididas em três momentos distintos de quatro etapas cada um. Estavam relacionadas com estudos realizados no tantra yoga (energética), na geometria sagrada (formal), na meditação transcendental (mental) e na alquimia (material).

Tivemos um trabalho prévio, de cerca de um ano, chamado Nivelação. Nesse trabalho estudávamos ativamente todo o material contido em “Autoliberação” e “Psicologia”. Os trabalhos práticos eram feitos em duplas e periodicamente nos encontrávamos todos para intercambiar sobre as práticas e os estudos. No final dessa etapa, escolhíamos com qual disciplina iríamos trabalhar e então nos reuníamos em grupo. Os trabalhos passavam a ser individuais.

O enfoque do trabalho com a Alquimia era perceber o que acontecia com o operador (aquele que realiza os trabalhos) enquanto ele desestabiliza os elementos externos. Esse trabalho foi feito em escala mundial e especialmente os trabalhos com alquimia acabavam sendo afetados pela legislação dos diversos países quanto ao uso de compostos químicos perigosos, como o mercúrio, o ácido sulfúrico e outros. Então recebemos a orientação de que deveríamos fazer os trabalhos sem realizar as experiências de laboratório. Como isso poderia ser feito?

No próprio material de orientação haviam algumas indicações que acabaram por orientar os meus trabalhos práticos. O que poderia ser o objeto externo a ser manipulado, se não seriam os elementos químicos? Os trabalhos poderiam ser realizados somente sob o aspecto alegórico? Como? Lembrei-me dos estudos de Jung sobre a alquimia e comecei minha pesquisa.

Eu estava num processo de pesquisa em improvisação teatral, sob a orientação de Antônio Januzelli. Estudávamos alguns personagens de Shakespeare, especialmente Ricardo III e Timon de Atenas. Em um momento do trabalho resolvi colocar na cena as minhas investigações em alquimia e então descobri o objeto externo que seria manipulado em meu laboratório: meu próprio corpo.

A partir de então, decidi que realizaria um passo da disciplina por semana, levando três meses para concluí-la. Isso me daria uma folga de mais alguns meses para refazer etapas, realizar sínteses, etc… Minha rotina semanal consistia no seguinte: no inicio da semana eu estudava o passo da disciplina, buscando já as correspondências alegóricas entre os elementos trabalhados e operações a serem realizadas. Buscava referência em livros, na internet, em vídeos diversos e nas gravuras da tradição alquímica. Ia estabelecendo relações entre os elementos e operações alquímicas e os meus conteúdos psíquicos. As emoções recorrentes, os ressentimentos, as tendências, os vícios emotivos. Os monstros internos.

Comecei a perceber as ressonâncias entre os estudos e o meu estado de saúde, como se eu estivesse realmente me intoxicando e me limpando a cada etapa. Como isso acontecia? Como os estados emocionais extremamente difíceis geravam estados de saúde também complicados? Como essa relação era possível? Como explicar o efeito psicosomático do trabalho?

Durante o trabalho com a Alquimia eu só tive olhos para as etapas a serem cumpridas. Apenas aceitei o que acontecia naquele momento, mas a questão seguiu depois que os trabalhos foram concluídos.

Onde eu poderia encontrar essa co-relação entre os estados mentais, as posições corporais, os climas emotivos, a atitude perante a vida, a postura de vida, o posicionamento frente a vida?

Um homem tem determinada perspectiva sobre si mesmo e desde ela se coloca em relação aos demais. Essa perspectiva sobre si gera uma espécie de personagem que este homem representa no mundo. Isso se parecia demais com o algoritmo! O personagem é representado no corpo do ator. Na maneira como ele se expressa, na fala, nas maneiras, na postura… O que somos é para o outro uma representação, um significado. E isso vai definir a maneira como nos relacionamos.

Como fazemos isso? Os processos que eu vivi na alquimia, moldando meu corpo a cada etapa, moldando o significado da minha presença em relação aos outros, redefinindo um projeto de vida, clareando meu propósito de estar aqui. Me localizando em relação a minha própria experiência. Como fazemos isso? Como isso acontece? Isso já foi estudado? Onde eu posso encontrar essa informação?

O Propósito. A razão de estar vivo, de fazer parte da experiência, aquilo que realmente vim expressar para além do algoritmo das expectativas tinha algo a ver com “toque e transcendência”. Isso é o que consigo traduzir da experiência. É possível um amor sem objeto externo que o condicione? Um amor que não vê o externo como algo para si? É difícil trazer algo claro desse lugar de onde o Propósito brota. O registro da experiência é claro, mas não consigo definir melhor do que isso.

Em algum momento do meu processo no Movimento Humanista eu conheci um sujeito chamado Nestor Luz, que foi a pessoa que me apresentou o Ayurveda e os tipos constitutivos (Vata, Pitta, Kapha). Isso era muito similar ao que o Movimento Humanista apresentava como tipos humanos (Motriz, Intelectual, Emotivo, Vegetativo). Só muito mais tarde é que eu vim conhecer Gurdjieff, que acabou sendo a ponte entre esses dois mundos.

Depois o Paulo Panzeri trouxe uma abordagem toda sua, num trabalho com os desbloqueios corporais que em alguma medida usava o conhecimento que ele tem de yoga. A teoria do Ayurveda não me era estranha, porque eu já tinha encontrado algumas coisas do Deepak Chopra nos livros do Fritjoff Capra. Mas não tinha nenhum conhecimento além desse.

No entanto, assim que conclui meus trabalhos com a Alquimia, eu tive certeza absoluta de que precisava aprender a massagem que o Nestor fazia (e que eu nunca recebi). Não tinha nenhuma informação de como aprender isso, nem de onde ele estudou isso. Não tenho o contato do Nestor a muitos anos e não tinha nenhum dinheiro para ir à Índia ou para pagar os cursos aqui mesmo no Brasil.

As coisas se deram de uma maneira tão interessante que eu acabei conseguindo fazer parte de um grupo de estudos sobre Ayurveda com o Pedro Nebesnyj, no Viavidya. Ali também comecei a receber a massagem ayurvédica do Pedro. Desde o início meu desejo era aprender a massagem, mas eu não tinha nenhuma familiaridade com a abordagem ayurvédica e a cultura do yoga ainda me era um tanto distante. Então o grupo de estudos foi o meu portal para esse conhecimento e algum tempo depois, recebendo uma massagem do Pedro, eu pedi a ele que me ensinasse a técnica.

O Pedro formou um grupo e durante quase um ano nós fomos aprendendo a técnica de massagem e estudando a parte teórica do ayurveda. Nesse periodo eu comecei a fazer parte de um grupo de estudos sobre Magia com o Hugo Leal, sem nenhum interesse a não ser a curiosidade. Não achava que isso teria nada a ver com a massagem, com o Algoritmo, com o Movimento Humanista, nada. Na realidade, eu achava que aquilo tudo era uma fraude, o Hugo incorpora algumas entidades e eu queria descobrir em que medida aquilo era atuação e porque tanta gente acredita nisso.

Ao contrário da massagem, em que eu entrei de corpo e alma, o curso de magia era sempre uma luta. Eu continuava indo, dia após dia, na esperança de entender aquela farsa toda e não cair mais em nenhuma farsa. Queria entender o esquema, como é que isso acontece sempre e sempre. No entanto, as entidades traziam informações extremamente lúcidas sobre o processo humano, sobre a nossa consciência, as nossas falhas de percepção.

Comecei a perceber que a entidade “baixava” no momento em que o grupo começava a dissipar energia no confronto, na dialética, mas também nos momentos em que o Hugo não sabia como lidar com a situação. Então comecei a pensar que era uma estratégia de manipulação, de controle. Mas porquê dá certo? Como dá certo? Nosso nível de atenção muda quando a entidade se apresenta. Não é como uma cena.

Eu fiquei praticamente um ano tentando entender como é que o truque acontecia, como a cena se dava. Conversas com o Hugo sobre como aconteceu a incorporação, como são os registros físicos, se ele se lembra de alguma coisa, como ele entende que é isso, se ele acha que é um espírito que baixa nele… Eu comecei a ver que ele realmente crê nisso, então não era uma fraude. Algo acontece com ele, algo muda nele e ele aprendeu a dizer que isso que muda é algo que se incorpora nele. Algo que vem de uma outra instância, algo além da perspectiva que ele tem sobre si mesmo. E esse “algo” tem informações que são relevantes para o processo dele e de todos nós.

O que é esse “algo”? Ele aprendeu que é uma entidade, um fluxo. Mas ele sabe que isso é só o que ele aprendeu. Então fica aí. Explica o que é, com uma enorme coerência interna, mas sabe que isso é só uma explicação e que não vai dar conta de traduzir o fenômeno. Você pode usar qualquer mítica que desejar. Vai perceber que essas míticas têm muitas coisas em comum, no sentido de descrever esse tipo de experiência, mas vai perceber que todas elas chegam nesse limite de explicação possível e não conseguem avançar a partir daí.

Ele se coloca à disposição desse “algo”. Sente a presença disso. Em alguns momentos ele dá passagem a isso e em outros ele contém. Não é porque a voz muda ou aparece um sotaque que nós sabemos que as “entidades” que ele dá passagem são diferentes. É algo que acontece com a nossa atenção. As pessoas costumam falar sobre “energia” como se nós estivéssemos sendo afetados por um campo externo que nos imanta. Acho que essa descrição faz sentido, mas eu prefiro dizer que é algo que acontece com a nossa atenção, um foco diferente, uma perspectiva diferente. Um acesso à informação que acontece num nível que eu não estou habituado.

A todo tempo eu retomava o meu trabalho com a improvisação teatral e os estados mentais e informações que chegavam neste estado. Essa consciência não-habitual. Ali eu estava incorporando, na maneira como o Hugo entende incorporação? E as experiências que fizemos com a “ressonância”, com contar uma história de nossa vida absolutamente abertos ao que ela significou para nós. Algo mudava na atenção da platéia. Não era o mesmo que contar uma história de outra maneira… É isso o que acontece no grupo? Esse é o terreno que eu atravessei na alquimia?

A informação verbal que é passada, os exemplos, etc… estão no nível de uma aula qualquer de qualquer assunto, mas existe esse campo, essa outra coisa, que é comunicada nesse lugar dessa atenção diferente. Não é verbal. Não tem imagem alguma que o traduza. No entanto, é aí que a coisa acontece. É nesse “terreno” que as orientações sobre o nosso processo são dadas. Então, alguns dias mais tarde, algo brota de nós como uma inspiração, um insight. Algo estruturado de uma maneira que para nós faz um sentido absurdo. Não é que aquela idéia foi enfiada na sua cabeça, mas aquela experiência gatilha algo que ressoa em você e é traduzido por você segundo a sua maneira. Que “campo” é esse? Como essa comunicação é possível?

Foi o Hugo que me trouxe o conhecimento de Castañeda (“A erva do diabo”, etc), Gurdjieff/Ouspensky (“Fragmentos de um ensinamento desconhecido”, “O quarto caminho”, “Tertium Organum”,”Um novo modelo do universo”, “Relatos de Belzebu a seu neto”, “Encontro com homens notáveis”), Pietro Ubaldi (“A grande síntese”), Jacques Monod (“Acaso e necessidade”).

Na exposição de diversos sistemas mágicos, acabamos por aprender que existem pontos em comum. Para todos eles, o ser humano não é algo concluído. É um broto de uma possibilidade. Temos a opção de fazer a fagulha de nossa intenção se tornar uma chama, ou de manter o fogo que recebemos quando nascemos, até a hora em que formos embora.

Se quisermos expressar aquilo que realmente podemos ser, existem técnicas e passos muito claros. Em outros momentos, outros homens estruturaram esses passos obedecendo certas leis de processo, de evolução, que na realidade são bastante simples de serem compreendidas. O grande impedimento é que precisamos realizar um esforço para isso. Para conservar o fogo, basta criar um berço adequado e protegê-lo das intempéries. Para produzir o fogo, é necessário esforço. Atrito. Energia aplicada. Intenção firme. Método. Um algoritmo.

Não o algoritmo das expectativas. Não.

Esse é eficaz para manter o fogo longe das intempéries, é um berço eficiente, mas não leva o fogo a altas temperaturas.

Para levar o homem a realizar seu propósito é preciso um algoritmo próprio para isso.

Nossa estrutura bio-psíquica tem alguns pontos precisos de crise e decisão de processo. Qualquer ação nesses pontos, tende a se configurar num condicionamento, num automatismo, que vai definir o funcionamento das estruturas que surgem nesses momentos de processo específicos.

Esses momentos parecem ocorrer a cada sete anos, por uma razão que eu ainda não conheço. A cada sete anos, passamos por uma grande crise processual e isso abre a porta para um próximo ciclo cujas condições de origem serão determinadas pelo ciclo anterior.

Eu intuo que isso tem algo a ver com aquilo que os orientais chamam de Chackras, porque o termo significa “Roda”, que na terminologia do algoritmo significa “loop”, “iteração”, “repetição”, “escala”. A cada etapa da vida, estamos ligados ao desenvolvimento de um desses “loops”. A maneira como interpretamos uma variável externa vai condicionar esse “loop” numa direção ou em outra. Isso vai condicionar o desenvolvimento e andamento do loop seguinte.

A cada etapa, uma experiência marcante, uma experiência de pico poderia fazer o ajuste desses loops de maneira que aquele ser possa expressar sua totalidade. Isso pensando em termos de educação, de acompanhamento passo a passo de um ser humano.

Em termos de saúde seria lidar com um ser humano em estágio avançado de desvio e ajudar a que ele encontre o seu rumo.