Uma nova geografia

A web se tornou um incrível impulso para o meu autodidatismo. Acredito que isso tenha sido bastante comum nessa época, mas somente hoje é que eu me dei conta da extensão desta invenção. Desde 1995 eu venho lidando com a ferramenta, passando primeiro pelo acesso mediado através dos BBSs e depois ao acesso direto.

Eu entrei na Universidade em 1996 e lá, o acesso era rápido e gratuito. A USP também dispunha de uma biblioteca multimeios, repleta de CDs musicais, DVDs, Filmes em VHS e até mesmo alguns CD-ROMs.

Na época, pude suprir deficiências na minha formação escolar. Li todos os clássicos da literatura universal que pude, ouvi muita música, refiz meu caminho nas histórias em quadrinhos, melhorei meu inglês, li sobre psicologia, filosofia, sociologia, neurociências, arquitetura, artes plásticas.

Eu aprendi muito usando as bibliotecas da USP, mas a utilização da Internet foi se tornando cada vez mais importante para mim. De casa eu acessava o sistema Dedalus e podia descobrir se havia um livro determinado em toda a rede de bibliotecas da Universidade. Eu podia levar um CD para casa e ripá-lo totalmente em MP3.

Mais tarde eu conseguia PDFs inteiros e podia imprimi-los (no começo eu ainda fazia muito isso) para consultar a qualquer momento. E ainda os filmes, as séries, as legendas, Youtube, Vimeo e tantas outras idéias.

O que sempre foi notável para mim era essa sensação de horizontalidade. Você podia começar a conhecer algo em qualquer ponto e encontrar pessoas no mundo todo, em diferentes momentos de estudo do mesmo conhecimento e pedir ajuda. A cultura do compartilhamento começou a se formar.

E como eu imaginava no início, a Internet começou a se tornar um espaço que também permitiria novas interações sociais e isso iria transformar nossa noção de governo, democracia e participação social.

Então o cerco se fechou. As grandes corporações começaram a comprar start-ups interessantes. As políticas de privacidade passaram a valorizar mais a capacidade de vendas dos dados do que a privacidade real. As interações com outras pessoas passaram a ser mais restritas, a não ser que você pague algo (e ainda assim, o resultado sempre me parece uma fraude completa). Empresas e órgãos de segurança começaram a formar essa aliança funesta, desvendada por Snowden e Assange.

E agora eu vejo essa geografia como uma espécie de vale de lágrimas. A internet virou o terreno da lamúria, da mentira, do inútil. A potência inicial ainda está lá, mas se tornou mais difícil de ser vista por todos. Estou preso a essa rede social limitada, porque todos os meus amigos estão lá…

Não.

Hoje eu vi isso. As corporações e o governo percebem o perigo de se estabelecer relações horizontais com seres humanos de qualquer lugar do planeta. Percebem que isso pode mexer nos bolsos desses 1% que dividem os 50% dos nossos recursos. Percebem que podemos compartilhar informações que nos permitam saber quem são esses, como estamos dando dinheiro a eles e de que maneira podemos cortar essa remessa de recursos.

Somente a web poderia trazer essa informação para todos.

Parece que é sobre a privacidade, parece que é sobre direitos autorais, ou sobre terrorismo. Mas na verdade é sobre uma possível democracia real que se vislumbra no horizonte.

A web pode ser uma espécie de Eldorado.

Um novo continente, com leis próprias.

 

Uma nova democracia

Eu hoje perdi meu sono mais uma vez, porque confiei algo essencial para mim a um terceiro que me traiu. Fui tomando decisões ao longo do curso de minha vida que acabaram me impedindo de agir sobre a água que bebo e agora, ela corre o risco de acabar. Pensei que bastava eu cumprir uma grade escolar e depois decidir sobre uma maneira determinada de participar da coletividade, que seria o trabalho, cumprindo uma função especializada em troca de alguns benefícios e de dinheiro para que eu pudesse ter opções de serviço e de conforto, de acordo com meus méritos.

E agora, me vejo sem água. Algo tão simples, tão ridículo. E eu não sei como gerar essa água de que necessito. Eu tenho reservas aqui, porque antevi esse problema a quatro anos atrás. Então, fiz como meu avô, que construiu uma cisterna em casa para se prevenir contra as épocas de seca lá na Paraíba. E quando construí minha casa, coloquei duas caixas de mil litros para armazenar a água que viria desse traidor. Então, entre cisterna, caixa de reúso e água que o traidor me fornece eu tenho uma reserva de 6500l.

Nós agüentaríamos uma seca breve, mas não o cenário sombrio que se aproxima.

E por ter feito essas opções todas que me impediram de agir sobre a água antes, eu acordei e fiquei tentando resolver os 40 anos de negligência de minha parte. O que eu poderia ter feito? O que precisa ser feito agora? Porque chegamos a isso?

Eu tinha uns 10 anos e fui visitar meu avô Manoel Guilherme. Do lado de fora da casa, uma construção em forma de caixa, toda em alvenaria. Do telhado, descia um cano que entrava naquela construção e um outro que saia dela.

“O que é isso, pai?”

“Uma cisterna.”

“Pra quê serve?”

“Seu avô mandou construir isso para guardar a água da chuva.”

Meu avô então acrescentou: “Quando eu era menino, costumava faltar água sempre. Então, quando eu cresci, pensei que podia guardar a água da chuva para as épocas de seca. Aqui em Sapé, quando falta água na cidade, só quem tem água sou eu e o hospital.” E ria.

Eu, que via meu pai reclamando o tempo todo sobre a conta d’água achei aquela idéia genial. E pensei que se um dia eu construísse a minha casa, eu também teria uma cisterna.

O que aconteceu ali? Uma experiência compartilhada que me gerou repertório de ações. Quando eu tive a oportunidade, agi e construi minha cisterna. Mesmo assim, tive que contratar pedreiros, que também me traíram, cada um à sua maneira. E foi durante essa enorme obra, esse trabalho colossal, que eu comecei a pensar sobre esse assunto: pra essas coisas que nos são essenciais, não podemos delegar tudo a alguém. Temos que ter mecanismos de supervisionar, de agir, de aprender a partir da experiência, de intercambiar.

Em tudo o que eu estive fazendo dessa maneira na obra da minha casa, eu aprendi. Aquilo que eu optei por não fazer, porque achei pesado demais, sujo demais, braçal demais, isso foi o que me gerou complicação. Eu detinha o poder econômico mas não detinha o poder de ação. É preciso ter os dois. Os dois e também o poder de fazer o acordo e de julgar se esse acordo estava ou não sendo cumprido. E não reinvidico esse poder apenas para mim, senão para todos os envolvidos, cada um com suas famílias e contas a pagar.

E agora, de volta a essa questão da água e da democracia como já pode ser. Existem essas ferramentas de participação na gestão pública, em temas pontuais, como o Bicidade, o Colab e o DemocracyOS. Mas ainda me parecem um pouco com a experiência que tive de colocar as contas numa planilha de custos para poder não extrapolar meu orçamento e não ser lesado pela equipe que trabalhava pra mim. Funcionava para ter as informações às claras, na ação de reinvidicar, mas ainda não serviam como ferramentas que facilitassem minha participação no processo.

Na minha vida prática, existem essas situações em que a reinvidicação encontra uma barreira intransponível. Você tenta negociar com o prestador e o sujeito trava. Se você não tem opções, fica sequestrado e acaba decidindo com base no que o prestador oferece. É preciso ter meios ágeis de cortar o financiamento e de encontrar opções. Se algo não anda, você corta o recurso e investe sua energia em encontrar alternativas. Não pode ser obrigado a escolher entre o menos pior. Isso a gente faz por falta de informação sobre as opções disponíveis.

Por isso essas plataformas de financiamento como Kickstarter, Vaquinha, Indiegogo, Catarse entre outras são tão geniais. E já poderiam ser usadas para financiar diretamente obras do interesse da comunidade. Isso poderia ser um substitutivo ao imposto de renda, além de servir como um incentivo ao pequeno empreendedor local. Ao invés de favorecer grandes construtoras e obras gigantescas, boa parte do dinheiro da comunidade serviria para atender pequenos empreiteiros que seriam diretamente inspecionados pela comunidade.

Coisas como a água, eletricidade, comida… tudo isso está armado dessa maneira, com grandes fornecedores centralizando a produção e a distribuição desses recursos, por que esses sujeitos ganham muito dinheiro com isso. Mas não é eficiente de maneira alguma. O mundo opensource é a maior prova disso. A agilidade nas implementações, no desenvolvimento e na correção de problemas é impressionante. A única regra é que não pode haver segredos. Todo o código é compartilhado e qualquer pessoa que queira participar é bem vinda.

Abra o código do tratamento de água domiciliar, da geração de energia elétrica a partir do sol, das hortas caseiras e das hortas comunitárias e então, cortamos um monte de recursos financeiros que estão indo para as mãos dos 5% que centralizam a produção e distribuição de recursos. Compartilhe e receba mil vezes mais.

Saúde, educação, energia, água… muita coisa já poderia ser resolvida na esfera de participação popular. Temos hoje mecanismos mais eficientes do que as aborrecidas reuniões de comitês para deliberar sobre isso ou aquilo. E quando isso acontecer, veremos quem são aqueles que ganham com as grandes obras e a quem elas realmente favorecem.

Óbvio que isso vai mexer com o sistema de trabalho, que é todo estruturado em representatividade. Porque elejo especialistas que me oferecem determinado serviço, sem que eu possa me engajar no aprendizado desse serviço, porque o macete é segredo, aprendido por um sistema de ensino que centraliza essas informações. Mas se a experiência for a participação, qualquer cidadão pode aprender a fazer qualquer coisa, se engajando nos projetos de acordo com seus interesses e sendo recompensado proporcionalmente aos seus méritos e à importância de sua ação para a comunidade.

Vai desacomodar muita coisa. Inclusive esse nosso hábito de consumir a realidade, como se ela fosse algo pronto e não tivésemos que fazer mais nada à respeito.

Decrépita democracia

Eu hoje me dei conta de que faço parte de alguma minoria.

Eu não estou envolvido em militância partidária faz algum tempo. Não acredito nisso. Tenho procurado outras maneiras de viver a democracia e isso implicou em mudar meu estilo de vida, abrindo espaço na minha agenda para me envolver em participação social em alguns itens que realmente são essenciais para mim e minha família.

Então eu hoje faço parte do Conselho de Pais da escola dos meus filhos, trabalho atendendo as pessoas que precisam de amparo emocional para decidirem seus rumos de vida em situações de crise, acompanho alguns produtores orgânicos e ainda fico pensando o que mais eu poderia fazer com meus vizinhos e amigos para resolver as necessidades que temos em comum.

Mas existe o macro. Existem essas empresas que nos prestam serviços horríveis a preços exorbitantes com a anuência do governo e de seus órgãos reguladores. Existem essas corporações cuidando de bens essenciais, como a água e os nossos alimentos, fazendo o que bem entendem com eles, também com a anuência do governo.

E eu sei que a muito tempo, aquilo que chamamos de “governo” na verdade é uma fachada para negócios escusos entre proprietários, e nós estamos de fora. Nós trabalhamos para essa gente e pagamos impostos para eles. Nós consumimos as coisas que eles nos vendem. Pagamos produzindo, pagamos comprando, pagamos vendendo, pagamos jogando no lixo. E com o que pagamos? Com nossa energia vital, principalmente. É ela, e não o dinheiro, o que está em cheque aqui.

Então nos pintam esse cenário de escolhermos entre vermelhos e azuis. E nessa eleição, ainda tivemos a opção do magenta, além dos habituais tons de azul e vermelho, chegando ao preto absoluto em ambos os lados. Mas não há nada real ali. Os candidatos todos têm alguns minutos por dia para nos convencer a escolhê-los. E como fazem isso? Criando drama.

Os marqueteiros constroem esses personagens durante meses e os vão adequando ao sabor das pesquisas. É uma enorme novela, o que vemos como campanha eleitoral. Vemos os debates e pensamos que significam algo. Mas não significam nada. Às vésperas das eleições eu tinha amigos me pedindo opinião sobre os deputados estaduais e federais. Gente que sabe que esses sujeitos vão lidar com as nossas leis e com os nossos direitos. Eles não sabiam onde encontrar a informação de que necessitavam. Não sabiam onde encontrar programas de governo e projetos de lei. Não tinham energia vital disponível para estudarem esse assunto e realmente decidirem em quem iriam votar.

Então temos esse resultado realmente assombroso nestas eleições:

39,9% dos eleitores optaram por não lidar com esse assunto. Ou votaram nulo (10,17%) ou em branco (10,18%) ou se abstiveram (19,55%). Isso referente às apurações para deputado estadual, aqui em São Paulo.

E então, se olharmos para os mais votados, temos Telhada, Xerife do Consumidor, Feliciano e toda uma gente que representa soluções simplistas, radicais e pouco prováveis, atacando algum “culpado social”, exatamente como foi feito na Alemanha de Hitler. São candidatos-produto, criados para satisfazer alguma demanda emocional da população.

É um indicador de pânico social. De impotência. Parece burrice, mas é impotência e falta de vivência do que é decidir em grupo…

Vamos ter muito trabalho pela frente… Existe algo sem nome que precisa ser articulado, no lugar dessa farsa que virou nossa democracia…

Eu me recuso a olhar para o resultado dessa eleição e achar que isso tem algo a ver com o país. Não é. Não foi o outro quem votou errado. Quase 40% das pessoas não achou que essa eleição iria mudar alguma coisa. Boa parte dos sujeitos eleitos foi criado dramaticamente para atender uma demanda emocional da população. É um indicador de esse modelo não funciona. É preciso ir além das urnas e começar a construir outra coisa. Não basta reclamar do vizinho. Não basta dizer que não temos opções. É preciso investir energia no que queremos construir. Se não são mais os políticos ou partidos, que seja outra democracia.

Mas é preciso agir.

 

 

Estupra, mas não mata

Recentemente teve essa história da pesquisa do IPEA sobre o estupro, dando conta de que 58% dos entrevistados acham que o estupro acontece por causa de um comportamento da mulher. A pesquisa em questão é parte do Sistema de Indicadores de Percepção Social, que revela uma determinada mentalidade dessa amostragem populacional.

Ok. Que amostragem é essa?

3810 brasileiros, homens e mulheres com idade a partir dos 16 anos. Não consegui encontrar os indicadores de classe social (baseados apenas em aspectos econômicos, como o número de salários mínimos que o sujeito ganha mensalmente), mas dá para ter uma certa idéia de que os entrevistados são pessoas como eu e você. Pelo menos isso é o que garante a eficácia de uma determinada pesquisa.

Você pode ser qualquer um, que eu desconheço. Então vou te dizer quem sou eu. Sou um sujeito que trabalha por conta própria. Não estou empregado em nenhuma empresa, em nenhuma corporação. Aqui em casa, a renda fixa vem do emprego da minha companheira, a Clau, que vende seu tempo para uma Escola.

Nós fazemos parte da classe média, essa coisa cada vez mais misteriosa. Temos uma receita mensal que sempre me parece enorme, se comparada a outras famílias, e gira em torno dos R$ 6mil. Com essa grana, temos que pagar a escola dos meninos, supermercado, feira, petróleo, contas de consumo, prestação da casa, gente que trabalha para a gente, etc…

No dia 12 do mês, já estamos no vermelho. Ou perto dele.

Tem uns quatro anos que nós fizemos uma operação limpeza nas nossas finanças, porque eu perdi o emprego numa escola e a Claudia teve o número de horas aulas reduzido, enquanto estávamos com uma casa em construção, grávidos do segundo filho e cheio de empréstimos para honrar. Nós enxugamos nosso orçamento ao máximo, diminuímos excessos e mudamos hábitos de consumo. Nesses quatro últimos anos, nós conseguimos fechar o mês de dezembro bem. Fomos diminuindo o vermelho na conta e finalmente conseguimos colocar um pouquinho de azul.

Como vamos lidando com a vermelhidão? O banco gentilmente nos oferece um limite de cheque especial. Um crédito. O banco que acredita na gente. Então, o que a gente costumava fazer? Quando a gente ficava muito ansioso, com as contas assombrosamente no vermelho, com aquele negativo todo nos assombrando, a gente precisava muito ver TV a cabo ou tomar cerveja. Ou então, precisava muito comprar aquela oportunidade de ouro.

Eu precisava daquele celular em 20x. Ou do computador. Ou daquele livro, mais um deles, que ia ser empilhado com todos os outros que ainda falta eu ler. Eu precisava ser mimado, precisava que me colocassem no colo e me dessem carinho. E quem é que me dava? O banco. O banco e as casas Bahia. E as livrarias. E aquele site da china que me vende bugingangas que chegam aqui em casa e eu não sei como. O Paypal me salvou.

Eles todos me diziam: pega cara, é seu! Pode pegar. Depois você vê como resolve. Passa a mão. Leva pra casa.

Eles todos iam me colocando na cabeça que eu posso ter o que quiser, não importam as consequências. Depois você divide em 50x, vai pagando um pouquinho por mês. Não precisa pagar, fica aí. Pega mais. É teu. O que é meu é teu.

Então, num país machista, com boa parte da programação constituída por bundas à mostra e mulheres num papel ridículo, então nesse país, a mulher virou um bem de consumo. E é fácil entender porque o estupro é uma modalidade de crédito. O sujeito quer, ele não pode ter, ele tira o pau pra fora e passa na bunda que está na frente dele. E o outro sujeito do lado, ele olha, ele tem nojo, ele quer dar uma porrada no cara, mas por algum motivo não consegue. Ele acha que não é problema dele. Aquela mercadoria não lhe pertence.

Pode pegar cara! Mas não destrói. Não quebra. A bunda no metrô é uma mercadoria no show room. É essa a associação nefasta que está sendo feita.

Tá com desejo sexual?  Estupra, mas não mata. Não quebra o brinquedo do outro.

E seguimos todos sendo estuprados.

Pelo crédito oferecido, pelo salário que é pouco, não importa o quanto você trabalhe, por essas necessidades todas, criadas, fabricadas. Por essa carência sem fim que eu tenho que suprir já, agora, imediatamente. Eu não posso esperar. Não consigo esperar. Não. Eu quero agora!

E isso faz essa máquina toda continuar girando.

 

Take it back

Mãe, eu fiquei dependente de você. Me senti um incapaz e então eu fui deixando que você fizesse todas as coisas por mim, por puro conforto. Então eu me tornei essa coisa excessivamente pesada, preguiçosa e insegura. Hoje eu percebo que você é quem fez com que eu me sentisse um incapaz para que eu me sentisse dependente de você. Mãe, teu nome é corporação.

Pai, eu fiquei dependente de você. Por preguiça e eu deixei de buscar meu próprio sustento e então eu me tornei esse covarde, escondido embaixo das saias de minha mãe. Me senti um incapaz de lidar com o mundo e com os meus irmãos e necessitava de sua constante mediação nas nossas relações. Hoje eu percebo que foi a sua omissão quem me deixou neste estado. Pai, teu nome é governo.

Irmãos, eu fiquei dependente de vocês. Não suportava a vossa presença e fiz da minha vida o esforço de ficar só. Queria tudo para mim, queria que vocês fossem meus escravos, que me atendessem as vontades. Queria anulá-los para que eu brilhasse mais. Eu me sentia um incapaz, um covarde. Hoje eu percebo que vocês também se sentiam da mesma maneira e por isso todos nós estávamos presos nessa condição. Irmão, teu nome é religião.

Hoje eu decreto a minha liberdade.

Ainda pesado demais, preguiçoso, inseguro, covarde, egoísta, selvagem e incapaz eu me liberto da necessidade da presença dessa família na minha vida. Vou construir minha própria família. Serei minha mãe, meu pai e meus irmãos. E os serei à minha própria maneira. Serei a teta, o dinheiro e a companhia de mim mesmo.

Serei minha esposa e meus filhos.

Serei meu próprio chefe, meu próprio governo, meu próprio deus.

Vida: faça você mesmo (DIY)

Eu sempre gostei disso, de fazer eu mesmo, de descobrir como se faz uma coisa e tentar fazê-la do meu jeito. E ainda assim, eu tenho preguiça. Falta de habilidade. Medo que dê errado. Medo de perder tempo. Medo do ridículo. Medo de errar.

Com o passar dos anos, eu fui adquirindo habilidades que vieram dessa prática de recombinar as coisas à minha volta.

Nem sempre eu sei o que estou fazendo ou como fazer alguma coisa. Mas é muito difícil para mim essa etapa de as pessoas ficarem discutindo algo para ver qual a melhor maneira de resolver um problema qualquer. Eu fico pensando sozinho, a maior parte do tempo. Olhando os recursos à minha volta e pensando se eu não poderia resolver o problema presente com aquilo que já está na minha frente. Sem precisar adicionar nenhum recurso a mais. Mesmo quando eu não consigo resolver a situação dessa maneira, não faço a opção de me juntar aos outros e ficar discutindo. Eu prefiro um mutirão a um debate.

Então eu prefiro fazer, mesmo que eu não saiba como fazer. Prefiro me mover logo e ir explorando todos os recursos que estão à minha volta. Fazendo tentativas e erros. Recombinando formas, possibilidades. Às vezes eu consulto um manual qualquer, para descobrir se alguém já pensou em usar aquele recurso de outra maneira. Ou se o manual prevê algo assim. Muitas vezes não. O manual foi escrito para aquele recurso ser usado somente daquela forma, da maneira mais rápida possível. Então, quando você se vê diante de um recurso que não funciona mais da maneira que está escrita no manual, a nossa idéia é a de que ele não funciona mais. É lixo e precisa ser substituído por outro recurso. E eu ainda duvido disso e continuo investigando. Aquele recurso é feito de recursos menores. É algo que se compõe de outras coisas e talvez algumas dessas coisas ainda sejam úteis à sua maneira.

Então vou acumulando esses recursos inúteis à minha volta. Coisas que eu ainda não sei o que fazer com elas, mas que percebo que poderiam ser úteis de alguma maneira. Chega então esse momento em que eu tenho que dispensar coisas porque não terei disposição, energia ou tempo para usar esses recursos e os espaços de que disponho para guardar o que pode ser útil são limitados. Preciso liberar espaço, distribuir esses recursos de alguma maneira, jogar fora e esperar que aquele excesso sirva para alguém ali adiante. Então descubro que o espaço vazio é um recurso valiosíssimo.

Esses dias eu estava pensando sobre democracia e cheguei à conclusão que é algo desse tipo: faça você mesmo. Porque quando eu desisto de fazer eu mesmo e resolvo contratar um profissional para resolver algo, o sujeito olha para a minha roupa e tenta enxergar o que eu tenho na carteira. O trabalho dele vai valer o quanto ele acha que eu posso pagar. Ele me cobra esse imposto e vê quanto eu consigo pagar disso. Se colar, colou e ele vai faturar muito às minhas custas. Então democracia de representação é isso: um cara que vai mentir para você para conseguir o seu recurso enquanto ele não cumpre o que promete. Faz mal feito, sem atenção e vai embora, largando o problema na sua frente e você ainda vai ter que dispor de mais recursos para resolver.

Então porque eu faço isso? Porque tenho medo de fazer errado, de não dar certo. De pagar o preço pelas minhas ações. Porque não consigo lidar com o outro de forma direta, elejo um grupo qualquer e me faço representante daquelas pessoas. Ou elejo um representante entre eles. E é esse infeliz aquele que vai lidar com os meus desafetos. Se eu não quero que aquele sujeito faça isso, reclamo com o síndico, o guardinha da rua, o gerente da loja, o patrão, o segurança, o vereador, o prefeito, o governador, o presidente. Preguiça de tomar a ação nas minhas mãos. Preguiça de ir lá conversar com o sujeito e ver ele me dizer que o direito dele é mais direito que o meu. Preguiça de ir lá e achar nessa relação quais são os nossos direitos. O que pode ser melhor para nós dois. Preguiça de dizer bom dia pro vizinho e de responder quando ele diz. Preguiça de saber o nome da pessoa.

É em nome dessa preguiça que eu contrato um filho da puta que vai me decepcionar ali na frente, com a ilusão de que estou ganhando tempo, dinheiro e recurso. Não. Não estou. É uma tremenda perda de tempo isso.

Quando eu tenho a disposição, alegria e energia para isso, me junto com esses que estão à minha volta e compartilhamos algo que vai ser legal para todos. Cada um faz o melhor que pode, o melhor que consegue. E o resultado desse arranjo é do tamanho da nossa disposição. Se hoje não foi tão bom, a gente melhora na próxima.

Democracia é esse piquenique com os amigos.

É o dia em que as famílias se juntam aqui em casa e decidimos que vai ser legal colocar nossos filhos para brincar enquanto a gente cozinha alguma coisa e conversa sobre a vida. Estamos em momentos parecidos e de repente o manual do outro tem alguma informação que o meu não tem. O jeito que o outro está tentando viver talvez tenha alguma pista sobre a minha dificuldade em viver. Que recurso maravilhoso esse!

Ou aquele momento, num grupo, numa reunião em que o sujeito diz a coisa de uma maneira que me incomoda e eu tenho a coragem de dizer isso a ele, diretamente. Naquele momento exato e não depois. Não para o outro que está do meu lado, fazendo intriga ou fofoca. Não em nome do grupo ou do partido ou da empresa. Em meu nome. Digo a ele que aquilo me desagrada porque parece que ele está tentando me ferir com aquilo. Ele me diz que não era a sua intenção. Que aquele é o seu jeito de expor as coisas. E então vamos chegando numa maneira em que eu entendo o seu jeito e ele entende que se passar de certo ponto vai me ferir. Vai invadir o meu espaço. E porque eu sou sincero, o outro passa a me considerar. Ele não vai me ferir intencionalmente. E se o fizer, vou perguntar a ele porque ele o fez e ouvir as suas motivações. Eu exponho meus limites e ele expõe os seus.

Não posso ter medo desse sujeito. Não posso criar um governo que me proteja dele. Não serei covarde. Vou cuidar da minha relação com ele da minha maneira. Fazendo eu mesmo, porque isso pra mim é a democracia.

Pra isso eu tenho que ter calma porque os recursos à nossa volta, incluindo a linguagem que usamos, a cultura, etc… já foram tão usados para essa covardia, para essa preguiça, para essa maneira de eleger um representante que me limpe a bunda ou lave a louça que eu não desejo lavar, que é muito comum que eu nem saiba como expressar o meu limite ou aquilo que estou disposto a cumprir numa relação com outras pessoas. Eu mesmo nem sei como agir nessa situação.

Então volto ao meu velho procedimento, que por hora tem dado certo. Ao invés de passar horas discutindo sobre como as pessoas deveriam agir para que aquele encontro fosse bom para todos, eu vou tentando me encontrar com as pessoas. Já ajo em termos de encontro. Não faço planos, não legislo, não me protejo. Me abro. Digo como me sinto, permito que o outro se expresse, mesmo quando ele quer fazer planos e eu não, e sigo adiante.

Democracia não é uma lei para ser executada amanhã. Não é um projeto. É uma prática diária, ou nada.

Um pouco mais do que parece

Isso tudo é um pouco mais do que parece.

Essas manifestações acontecendo ao redor do mundo, elas parecem desconectadas. Parecem que são sobre coisas diferentes. A mídia dá um jeito de fazer com que elas pareçam fatos isolados. Ainda nos atrapalhamos com a manipulação, ainda tentamos covardemente colocar no outro uma bandeira que é nossa, usando o grupo como máscara. Ainda fazemos essa bobagem.

A coisa é organizada por aqui, pela rede. Eu escrevo uma coisa sobre como eu me sinto sobre isso e meus amigos começam a compartilhar esse negócio, porque de algum jeito, essa fala também estava dentro deles. Então essa fala vai escapando e vai chegando a mais e mais pessoas. Então alguém me devolve um comentário, uma nova idéia. Eu reflito, e escrevo algo. Ou compartilho algo outro ainda.

Eu estou aqui pensando em amanhã. Em mil maneiras de facilitar a vida de quem vai estar lá. Num jeito de deixar internet todo o tempo durante o ato. Eu pesquiso na internet sobre todo tipo de tecnologia de internet portátil. Eu assisto vídeos sobre como me portar, sobre como lidar com a polícia. Eu sei, também pela rede, que existem advogados preparados para defender qualquer pessoa dos abusos dos policiais.

Eu entro num site e baixo um aplicativo para o meu celular que o transforma num distribuidor de internet. Eu compartilho essa idéia com meus amigos e com gente que eu nem conheço, mas que faz parte do grupo de discussão que está sendo usado para distribuir idéias sobre o ato de amanhã. Eu fico feliz com o programa, vejo como é simples o seu funcionamento e vejo que os criadores estão conectados com dois projetos muito legais, de transformar a internet em um direito humano e outro, de levar internet a todos os pontos do planeta. Eu descubro que os caras aceitam doações para continuar trabalhando e então eu pego e faço uma doação mensal de 5 dolares. Não é nada que vai me arrebentar financeiramente, mas eu sei que isso vai ajudar.

Isso é autogestão.

Ainda estamos engatinhando nisso, mas já não precisamos do governo.

Precisamos desses espaços para nos encontrarmos e fazermos coisas. Precisamos de uma democracia que seja sempre manifestação. Não a democracia que espera, que vota e confia. Mas a democracia que partilha, que põe a mão na massa como pode. A democracia de quem quer fazer o que é certo para todos.

Eu poderia financiar uma creche no Kickstarter. Uma escola melhor. Eu aplicaria diretamente os meus esforços naquilo que me convém aplicar. Apresento a minha idéia detalhadamente, espalho isso na rede e vejo a relevância. As pessoas que estão interessadas naquilo aportam com algum recurso (dinheiro, conhecimento, arte). E todos nós ganhamos.

Eu vejo algo mal resolvido e escrevo um comunicado. Uma rede encontra o sujeito que pode resolver o assunto e nos conecta. Eu e o sujeito encontramos outras pessoas interessadas em resolver o assunto e nos juntamos todos.

Meu trabalho diário seria o de resolver as coisas que são realmente necessárias. Eu não teria que trabalhar com algo estúpido para ganhar dinheiro e deixar uma empresa ou o governo me prestarem um serviço de merda pelo qual eu não tenho outra alternativa  a não ser pagar e reclamar.

Eu me junto com você amanhã, sem me preocupar com os vinte centavos que o governo quer nos dar de esmola.

Eu me junto com você amanhã, porque o nosso amanhã construiremos juntos.

Te amo.

Mono

Acabei de encontrar uns amigos e em algum momento da nossa roda de conversas eu me lembrei do Russomano, naquela entrevista do SPTV com o César Tralli. O episódio ficou conhecido pelo meme “Vamos falar de São Paulo”, resposta que o candidato dava para se esquivar da incômoda pergunta sobre a Igreja que o financiava.


É um jeito interessante de se manipular um grupo.

Primeiro, você desqualifica tudo o que está sendo conversado pelo grupo. Coloca tudo num mesmo pacote de inconsequências. E depois, você insere o seu bordão, como se fosse o único assunto digno de ser conversado. Provavelmente o assunto anterior de incomoda de alguma maneira. Te tira do sério. Isso é assunto seu, de mais ninguém. Mas é insuportável lidar com isso. Você começa a achar que as pessoas deveriam estar falando de outra coisa. Do seu problema. Daquilo que te interessa.

Então você prepara a sua voadora com os dois pés e entra de sola.

Legal.

No pior dos casos, você consegue trazer o assunto à tona e as pessoas até se comprometem com a sua causa. Você é genial! Delega tarefas, decide pelos outros o que cada um vai fazer, estabelece prazos, faz suas promessas. O tempo passa e ninguém faz nada. Nem você.

Uma pessoa sai, a outra inventa uma desculpa. Você decide que a coisa vai sair de qualquer maneira e toca tudo sozinho, numa espécie de martírio. Quer mostrar que não precisa da ajuda de ninguém. Que você dá conta da coisa. Vai ficar um pouco mal feito, mas você fez tudo sozinho. Você fica rude com as pessoas, ainda mais. As pessoas não estão fazendo aquilo que você esperava que elas estivessem fazendo. Estão regulando.

Então a coisa não dá certo. Você culpa o cosmos, os outros, a puta que o pariu.

Mas hoje não foi assim que aconteceu com você.

Você falou, usou sua técnica, foi rude com as pessoas e ninguém deu a mínima. Ou melhor, ninguém te autorizou a isso.

As pessoas continuaram com a sua conversa, que estava sendo muito mais útil para elas. Você ficou remoendo, achando que ninguém quer nada com nada, mas as pessoas só não queriam nada com a sua ditadura.

Essa anarquia é o inferno do ditador que você é.

Uma experiência difícil

Eu não consigo lidar com isso.

Existem esses lugares em que eu me encontro com outras pessoas para fazermos algo juntos. Precisamos nos colocar de acordo em algumas coisas, um mínimo acordo coletivo e então podemos nos lançar nesta experiência. Às vezes nos reunimos em torno de uma pessoa, às vezes nos reunimos em torno de um assunto, não importa.

Então surge essa doença. Não consigo olhar para isso sem sentir isso como uma doença. Um de nós decide usar o grupo como uma ferramenta para conseguir o que deseja para si. E ao fazer isso, sacrifica as intenções dos demais. Ele vai falar como representante, vai falar “nós” em algum momento. Vai dizer “devíamos”. E é só dele que se trata.

Porque me juntei a você, eu me pergunto.

Então ele segue com suas idéias. Ele se inclui. Inclui seus desejos particulares, solicita que nós todos entremos nisso. Ele nos delega funções. Então eu sou seu rim, o outro um pulmão, aquele uma mão, o próximo um pé… Ele é o cérebro, sempre. Na verdade, é o cu, cagando regras.

E me pergunto, como é que isso aparece? Que brecha nós demos para que isso surja?

Porque, imediatamente, essa conduta é acatada. E é reconhecida como liderança. “Finalmente alguém nos disse o que fazer”.

Ou nos rebelamos, levando a coisa a sério, se recusando a cumprir aquilo só porque veio “de cima para baixo”. De todo jeito, isso passa a ter alguma importância.

Não sei.

Parece que ficamos com vergonha de sermos nós mesmos na frente uns dos outros. Então, quando nos juntamos, nos constrangemos. Não quero desagrada-los e nem sempre estou disposto a conviver com vocês. A ouvir vocês. Não sei o que estou fazendo aqui, na maior parte das vezes. Cheguei aqui, vocês já estavam, eu achei que era só imitar o que vocês faziam e tudo ia dar certo e agora me vejo nessa situação. Sofrendo. Mentindo. Com essa sensação terrível de ter me distanciado de mim mesmo.

E agora você ainda me vem com suas coisas. Querendo que eu te siga nisso.

Não, amigo. Não posso.

Eu poderia pensar que é melhor fazer isso, porque todo mundo está achando legal fazer, mas não vou.

Todo mundo é ninguém. Todo mundo é um vazio, uma mentira, um nada.

É possível estar com outras pessoas, convivendo, trocando idéias, tentando ser você mesmo e aguardar que essa inteligência de grupo surja espontaneamente? E só quando isso surgir, passamos a fazer algo que realmente seja significativo para todos? Ou será que essa ansiedade sempre vai nos dominar? Essa sensação de “não estamos fazendo nada de útil”. Estamos aqui, nos encontramos e fazemos sempre o mesmo, que é nada. Nada significativo. Então precisamos desesperadamente desse deus, desse demiurgo, desse político, desse messias, desse líder, desse pai…

Isso se refere ao grupo? Ou se refere ao que estou fazendo da minha vida? Eu tendo a pensar que o segundo caso é mais verdadeiro, porque eu realmente não sei muito o que fazer na maioria das vezes. E isso é uma coisa que me irrita, então quando me deparo com essa incapacidade, arrumo logo um culpado ou trato de arranjar alguma coisa que me dê a sensação de estar fazendo algo.

Que há para fazer?

Nada. Não há nada para fazer. Não é demais? A única coisa real a ser feita é ser você mesmo, e não conseguimos. Temos vergonha. Achamos que o outro não vai nos amar, que vai nos ridicularizar. Como se a diferença necessariamente significasse negação da particularidade.

Não há nada para ser feito, a não ser me encontrar verdadeiramente com vocês e me permitir ser eu mesmo.

E saber que, se eu precisar de ajuda eu posso pedir e contar com vocês.

Mas eu preciso pedir ajuda. Preciso ter essa dignidade.

Não posso dizer que isso é a vontade do grupo, a missão, ou o próximo trabalho.

Porque isso é uma doença. A minha doença e eu a estou alastrando como uma epidemia.

E já não quero mais isso.

De verdade.

O Terceiro

As pessoas se integram num grupo. Cada uma delas individualmente enxerga no grupo um benefício imediato à sua situação pessoal. Então, porque se encontram com regularidade numa mesma situação espacial, acreditam que pertencem uns aos outros.

Estranhamente ocorre o seguinte: quando o sujeito manifesta claramente o que deseja do grupo, é um lider ou autoritário. O lider é só um autoritário legitimado pelos outros. O autoritário, no final das contas é um bufão. Então temos o autoritário que consegue mandar nos outros e aquele que tenta, mas não consegue.

Há uma massa cinza que não declara suas intenções, mas que age de forma oportunista. Se move apenas segundo os seus desejos e somente se compromete com ações que lhe trazem benefício imediato. Ou reconhecimento. Os oportunistas não querem o trabalho dos autoritários. Mas querem destaque.

Os oportunistas usam de várias estratégias para não serem apanhados pelos autoritários. A principal delas é o ocultamento das intenções reais. Fazem isso cortando a comunicação, fingindo incapacidade ou ignorância. Mas são incapazes de mascarar suas ações e é aí que são pegos.

Os autoritários são pegos quando são questionados e assumem que estão dando ordens. Os oportunistas são pegos quando se percebe que eles só agem segundo os seus interesses.

O grupo, em si, não existe a priori.

Então existe esse terceiro elemento na equação. Ele sabe que não existe o grupo.

Sabe que a hora própria de se atuar é a hora em que a crise se instaura.

O rei está nu e o ladrão foi pego com a mão na massa.

Com os autoritários desmoralizados e os ladrões expostos, como pode haver confiança no rumo a seguir?

O terceiro elemento não sabe o rumo e sabe que não sabe.

Que pode fazer esse terceiro elemento, que não seja o autoritarismo ou o oportunismo?

Que rumo pode dar a esse impasse?

O terceiro abre espaço para que todos declarem seus interesses, suas fragilidades, suas expectativas. O terceiro vai conversando com cada um e vai acionando essa segurança interna de que precisamos para aceitarmos quem somos. O terceiro permite que o outro seja enquanto vai se permitindo ser.

O terceiro é uma costureira. O tecido que ele costura é o que vai se transformar num grupo.