Estupra, mas não mata

Recentemente teve essa história da pesquisa do IPEA sobre o estupro, dando conta de que 58% dos entrevistados acham que o estupro acontece por causa de um comportamento da mulher. A pesquisa em questão é parte do Sistema de Indicadores de Percepção Social, que revela uma determinada mentalidade dessa amostragem populacional.

Ok. Que amostragem é essa?

3810 brasileiros, homens e mulheres com idade a partir dos 16 anos. Não consegui encontrar os indicadores de classe social (baseados apenas em aspectos econômicos, como o número de salários mínimos que o sujeito ganha mensalmente), mas dá para ter uma certa idéia de que os entrevistados são pessoas como eu e você. Pelo menos isso é o que garante a eficácia de uma determinada pesquisa.

Você pode ser qualquer um, que eu desconheço. Então vou te dizer quem sou eu. Sou um sujeito que trabalha por conta própria. Não estou empregado em nenhuma empresa, em nenhuma corporação. Aqui em casa, a renda fixa vem do emprego da minha companheira, a Clau, que vende seu tempo para uma Escola.

Nós fazemos parte da classe média, essa coisa cada vez mais misteriosa. Temos uma receita mensal que sempre me parece enorme, se comparada a outras famílias, e gira em torno dos R$ 6mil. Com essa grana, temos que pagar a escola dos meninos, supermercado, feira, petróleo, contas de consumo, prestação da casa, gente que trabalha para a gente, etc…

No dia 12 do mês, já estamos no vermelho. Ou perto dele.

Tem uns quatro anos que nós fizemos uma operação limpeza nas nossas finanças, porque eu perdi o emprego numa escola e a Claudia teve o número de horas aulas reduzido, enquanto estávamos com uma casa em construção, grávidos do segundo filho e cheio de empréstimos para honrar. Nós enxugamos nosso orçamento ao máximo, diminuímos excessos e mudamos hábitos de consumo. Nesses quatro últimos anos, nós conseguimos fechar o mês de dezembro bem. Fomos diminuindo o vermelho na conta e finalmente conseguimos colocar um pouquinho de azul.

Como vamos lidando com a vermelhidão? O banco gentilmente nos oferece um limite de cheque especial. Um crédito. O banco que acredita na gente. Então, o que a gente costumava fazer? Quando a gente ficava muito ansioso, com as contas assombrosamente no vermelho, com aquele negativo todo nos assombrando, a gente precisava muito ver TV a cabo ou tomar cerveja. Ou então, precisava muito comprar aquela oportunidade de ouro.

Eu precisava daquele celular em 20x. Ou do computador. Ou daquele livro, mais um deles, que ia ser empilhado com todos os outros que ainda falta eu ler. Eu precisava ser mimado, precisava que me colocassem no colo e me dessem carinho. E quem é que me dava? O banco. O banco e as casas Bahia. E as livrarias. E aquele site da china que me vende bugingangas que chegam aqui em casa e eu não sei como. O Paypal me salvou.

Eles todos me diziam: pega cara, é seu! Pode pegar. Depois você vê como resolve. Passa a mão. Leva pra casa.

Eles todos iam me colocando na cabeça que eu posso ter o que quiser, não importam as consequências. Depois você divide em 50x, vai pagando um pouquinho por mês. Não precisa pagar, fica aí. Pega mais. É teu. O que é meu é teu.

Então, num país machista, com boa parte da programação constituída por bundas à mostra e mulheres num papel ridículo, então nesse país, a mulher virou um bem de consumo. E é fácil entender porque o estupro é uma modalidade de crédito. O sujeito quer, ele não pode ter, ele tira o pau pra fora e passa na bunda que está na frente dele. E o outro sujeito do lado, ele olha, ele tem nojo, ele quer dar uma porrada no cara, mas por algum motivo não consegue. Ele acha que não é problema dele. Aquela mercadoria não lhe pertence.

Pode pegar cara! Mas não destrói. Não quebra. A bunda no metrô é uma mercadoria no show room. É essa a associação nefasta que está sendo feita.

Tá com desejo sexual?  Estupra, mas não mata. Não quebra o brinquedo do outro.

E seguimos todos sendo estuprados.

Pelo crédito oferecido, pelo salário que é pouco, não importa o quanto você trabalhe, por essas necessidades todas, criadas, fabricadas. Por essa carência sem fim que eu tenho que suprir já, agora, imediatamente. Eu não posso esperar. Não consigo esperar. Não. Eu quero agora!

E isso faz essa máquina toda continuar girando.

 

Take it back

Mãe, eu fiquei dependente de você. Me senti um incapaz e então eu fui deixando que você fizesse todas as coisas por mim, por puro conforto. Então eu me tornei essa coisa excessivamente pesada, preguiçosa e insegura. Hoje eu percebo que você é quem fez com que eu me sentisse um incapaz para que eu me sentisse dependente de você. Mãe, teu nome é corporação.

Pai, eu fiquei dependente de você. Por preguiça e eu deixei de buscar meu próprio sustento e então eu me tornei esse covarde, escondido embaixo das saias de minha mãe. Me senti um incapaz de lidar com o mundo e com os meus irmãos e necessitava de sua constante mediação nas nossas relações. Hoje eu percebo que foi a sua omissão quem me deixou neste estado. Pai, teu nome é governo.

Irmãos, eu fiquei dependente de vocês. Não suportava a vossa presença e fiz da minha vida o esforço de ficar só. Queria tudo para mim, queria que vocês fossem meus escravos, que me atendessem as vontades. Queria anulá-los para que eu brilhasse mais. Eu me sentia um incapaz, um covarde. Hoje eu percebo que vocês também se sentiam da mesma maneira e por isso todos nós estávamos presos nessa condição. Irmão, teu nome é religião.

Hoje eu decreto a minha liberdade.

Ainda pesado demais, preguiçoso, inseguro, covarde, egoísta, selvagem e incapaz eu me liberto da necessidade da presença dessa família na minha vida. Vou construir minha própria família. Serei minha mãe, meu pai e meus irmãos. E os serei à minha própria maneira. Serei a teta, o dinheiro e a companhia de mim mesmo.

Serei minha esposa e meus filhos.

Serei meu próprio chefe, meu próprio governo, meu próprio deus.

Haja SAC!

São Paulo, cidade mimada.

Quando eu saio daqui, não suporto a demora no atendimento. Não suporto ficar de braços levantados esperando o garçom que finge não me ver. Eu quero ser bem atendido, logo, com opções.

Então a manifestação de Sampa tem essa coisinha mimada. Um temperinho a mais. Tem tanta coisa que não está boa, tanto garçom farsante. Cansei de reclamar por telefone com a menina do atendimento e agora vou pra rua com uma bandeira na mão. Eu reclamo e se não me atendem, quero que saiam, quero outro serviço, quero a volta da ditadura.

É esse discursinho reaça que está aparecendo agora, e isso é constrangedor.

“Cansei da Dilma, agora quero outro”.

“O Lula é analfabeto, fora Alckmin, fora Haddad, fora Kassab”.

Fora sempre, fora.

E então, se vota no próximo candidato. Democraticamente. E no dia seguinte ao resultado, já começam a reclamar.

Não é que o paulista seja direitoso. Ele é a Rainha de Copas. Ele gosta de cortar cabeças.

Confissões

Eu quis comprar essa TV nova de 55 polegadas pra colocar aqui na nossa sala. Então a mulher lembrou que o nosso plano de TV a cabo não tinha todos os canais de filme, e eu liguei na operadora e coloquei aquele plano que pega tudo, até os canais pornôs e a pancadaria.

A menina da TV a cabo me ofereceu um aumento de banda larga no pacote e mais uma rede sem fio pra casa toda. Falou também que se eu assinasse um outro negocinho lá eu ia ganhar um plano de internet no meu celular e que se eu pagasse um pouco a mais, conseguia um celular novo, smartphone 3G, com torpedo, internet, tudo.

O negócio é que eu estou tendo que trabalhar até mais tarde todo dia, porque agora eu tenho essas prestações pra pagar e ainda tenho que ver o lance da hidromassagem que a gente colocou no banheiro da suíte, porque o eletricista tá falando que deu um problema no encanamento e o encanador falou que a bomba da hidro queimou… Maior rolo, rapaz!

Ontem eu levei umas três horas pra chegar em casa depois que eu saí do trampo. Foda! Comprei esse puta carro e não consigo nem dar um rolê direito, rapaz! E o pior é que eu tava seco para deitar na hidro e ficar na boa e o negócio tá fudido. A mulher não quer nem olhar na minha cara. Chega do trampo e tá só o pó da rabiola. Ontem ela chegou depois de mim ainda, cê acredita?

Depois eu fui caçar um filme pra assistir depois e só tem merda!

Até os pornozão são tudo repetido.

Hahahaha.

Bosta.

Mas beleza, né? Fazer o quê? É assim mesmo.

Pior se tivesse sem trampo, deus me livre.

 

 

Feito pra ser gostoso

Essa vidinha besta toda ajeitada, toda perfeitinha, isso está acabando com a gente.

O colchão ortopédico, o travesseiro, o edredon, o despertador à mão, a TV no quarto, o controle remoto, o café na cama. A comidinha já semi-pronta, semi-digerida, semi-morta. O carro que anda por você, a empregada que cuida da sua casa. A caça, a pesca e a agricultura nas prateleiras de um supermercado. O ofício que você podia exercer para aifar o espírito sendo executado mecanicamente por um sujeito na China, que troca seus dias por colchões ortopédicos, travesseiros, contas a pagar exatamente igual a você.

Tudo isso é uma delícia, cara! Uma delícia!

A batata que te mata, o açúcar em excesso, o cloro lixo industrial na tua água, o sabão em pó com mil aromas, o inseticida que afasta os mosquitos, o xarope de cola gelado, o chocolate que aplaca tuas tensões, a cerveja cada dia pior, hoje feita de milho, amanhã de beterraba, o que for mais barato e prático. Teu cigarro e a fumaça cheinha de câncer, igual ao escapamento do teu carro, imprescindível, afinal, como é que se pode viver de transporte coletivo?

Esse convívio digitado, esse sorriso de pontos e parênteses, as máximas, os abaixo-assinados, a reclamação virtual, as campanhas sem fim. E tua má postura, teu desconforto, tua tendinite medicada. Tua depressão à base de tarja preta e essa falta do que fazer. Tudo isso é gostoso demais!

Aquele empréstimo facilitado, o novo plano de TV à cabo, esse smartphone, o próximo e o anterior. O novo modelo de qualquer merda. Aquela mulher na TV com a xoxota de Barbie e o sujeito com músculos de plástico. Tudo isso é muito bom, amigo! É gostoso. Enche a pança, levanta o astral!

E amanhã, você vai de novo fazer nada. Acordar com relutância. Sair da cama com relutância. Tomar café, sempre o mesmo café, sempre o mesmo pão, o mesmo recheio. Entra no carro relutante, num congestionamento gigantesco, que também ele reluta em fazer alguma coisa. Reluta em se mexer. Reluta em sair do lugar. É gostoso ser aquele congestionamento. É gostoso chegar atrasado e ter alguém para culpar. E depois, o trabalho só começa mesmo às dez da manhã. Mas não começa…

E é bom, não é? É bom não ter nada para fazer. No final do mês vem o salário e é bom. É uma delícia ter aquele dinheiro por cinco ou seis dias e poder se enfiar em mais parcelas. Eu quero tanto aquilo tudo e posso. É uma delícia poder.

Caralho, como é gostosa essa morte toda!

A bolachinha mais recheada

Ai ai ai.

Tá se sentindo deslocado no mundo, né? Olha pras pessoas do seu lado e fica se perguntando como é que elas podem ser tão esquisitas. Que mundo estranho, né? Será que eu estou errado?

Foi no médico e o cara falou pra você que isso que você sente tem um nome de transtorno qualquer. Ganhou um distintivo, né? Agora tem licença para ser xarope.  Com esse seu transtorno de nome estranho e esse remédio tarja preta.

Então você se autoriza a ser agressivo com seu semelhante. Você agora pode mandar ele à merda e dizer que esqueceu de tomar o remédio. Puxa vida!

Olha como aquele ali é esquisito. Gente… Como é que pode ter alguém tão esquisito? Aposto que dorme mal à noite.

Chama o outro de brasileiro e diz que ele é assim por uma questão da cultura, né? Acha ele feio. Acha feio o povo brasileiro. Não gosta de conviver com o povo, não quer andar de transporte coletivo para não ter que conviver com as pessoas espremidas umas nas outras, mas não tem dinheiro pra comprar um carro novo e  então ter que ficar convivendo com as outras pessoas espremidas dentro dos seus carros num congestionamento permanente.

Então amanhã você acorda de novo e vai para aquele seu trabalhinho enganar o chefe, né? Sabe que não está fazendo nada, de verdade. Olha para o lado e vê que seus colegas também não têm nada para fazer. Não fazem nada de importante, nada de útil. Você grita, reclama que o outro não fez nada, mas sabe que você também não fez. Cada um cuida da sua vida. Que dia é que a gente vai receber mesmo? Queria comprar um celular… Que horas são? Nossa, ainda faltam tantos minutos para a hora de ir embora…

Se junta com esse coleguinha que teima em ficar do seu lado e então começa a falar da vida de um terceiro. Comentando como ele é esquisito no seu jeito de viver e de fazer as coisas. Começa a ser moralista. Começa a definir suas regrinhas de convivência. Ai, você viu o que ele falou? Você viu como ele se veste? Você viu como ele come?

Ai que droga! Queria ganhar na loteria para não ter que fazer mais isso tudo! Queria ganhar na loteria para não ter mais que trabalhar e encontrar com essa gente feia, fedida e suja. Queria ganhar na loteria para comprar tudo o que eu quisesse. Queria ganhar na loteria pra daí eu poder viajar pro mundo inteiro e conhecer aquelas cidades todas, tipo Paris, França, Inglaterra, Londres… E tem o Japão também e Nova York.

Quem sabe eu ganho né. Mas pra ganhar, tem que jogar. E você não quer perder. Não quer perder nessa semana, nem na próxima. Não quer ver que já perdeu. Que está perdendo. Que nunca ganhou. Que não apostou na própria vida. Que está morto, falido, fudido e acovardado.

E acha que é o único. Então finge que vai ganhar amanhã. Finge que vai vencer, que sua vida vai dar certo. Finge que é esse emprego que é uma merda, que esse patrão não te valoriza, que as pessoas não te entendem.

Você pensa que é a bolachinha mais recheada do pacote, mas o pacote está cheio de outras bolachas que pensam a mesma merda. E todas vão ser comidas algum dia.

 

Walking Dead

Eu não saberia como puxar essa conversa contigo pessoalmente. De certa maneira, eu venho te falando essas coisas em pequenas prestações a cada vez que a gente se encontra. Mas nunca consigo encadear o raciocínio, porque teu sofrimento vem sempre primeiro, teu coração dói e então, nada mais me importa.

Aqui eu tenho tempo de desenrolar a coisa toda, de voltar atrás, de engatilhar um pensamento até o final.

Então, vamos lá.

Isso aqui é sobre essa sensação de estar perdendo tempo na vida. Sobre esse trabalho em que você está metido até o pescoço e essa sensação de que nada do que você está fazendo é realmente relevante para os outros seres da nossa espécie. Então o cliente te pede o impossível, teu chefe promete o impossível, você entrega o produto que consegue, o cliente te humilha, teu chefe te humilha, você agüenta isso tudo por causa da mensalidade da escola do teu filho e na semana seguinte, depois do trabalho entregue, tua vida não mudou, a vida do cliente não mudou, a vida do teu chefe não mudou e a vida do teu filho não vai ser melhor por isso.

Então vem um novo cliente, um novo job. Você coloca chantilly pra ver se a coisa fica mais macia, mas continua com essa sensação terrível de que aquilo não significa nada. Não precisamos de mais versões daquele produto. Não precisamos de novas maneiras de convencer as pessoas a continuarem comprando aquilo. De fato, aquilo faz mal. Aquilo vai envenenar seu filho e o filho dele também.

É hora de mudar de empresa, você pensa. Então busca uma nova oportunidade só para enxergar que é a mesma, só que com um chantilly que você mesmo colocou para ter a ilusão de que está fazendo alguma coisa. E é tão difícil fazer alguma coisa. Por onde começar? O meio ambiente está estragado. As relações humanas estão comprometidas. Nossos alimentos estão modificados para serem lucrativos. Nós estamos sendo modificados para sermos lucrativos.

Mil outros como você estão nos carros ao seu lado, ou na travessia do metrô, ou no ônibus cheio, ou na liquidação do próximo shopping. Mil outros com o sorriso forjado pela conta bancária no azul por alguns dias. Não fazem nada de relevante. Não podem fazer. Têm contas a pagar. Precisam dar um futuro melhor para os seus filhos, assim como os nossos pais fizeram para nós. Mas a pergunta: “É esse o futuro que meus pais imaginavam?” não sai da sua cabeça. O mundo do teu filho está indo ladeira abaixo. E você não consegue fazer nada a esse respeito, a não ser pagar contas fazendo um trabalho que não coloca o mundo nos eixos.

Parece que não tem muito jeito. Você se envergonha de se sentir assim. Não consegue conversar com outras pessoas sobre esse vazio. Não ousa partilhar isso com sua esposa, ou marido, por medo que ele o abandone. Por medo que pareça infantilidade você não querer mais trabalhar para produzir nada. Você guarda isso consigo mesmo, como se fosse uma doença. E até se medica por isso, esperando não sentir mais o fracasso.

Essa é a civilização de mortos que nós construímos.

Eu não tenho a intenção de lhe dizer o que fazer, porque eu não sei.

Posso comentar o que eu mesmo fiz, se lhe for útil. Posso comentar como foi que essa crise me acertou e como foi que eu me acertei com ela. E como estou trilhando esse caminho.

Eu me convencia que o meu trabalho poderia criar consciência nas pessoas e então elas seriam capazes de construir um mundo melhor. Então minha parte na coisa era criar consciência. Então me tornei um moralista. A cada trabalho eu me esforçava mais e mais para causar esse impacto e forçar as pessoas a mudarem sua perspectiva sobre o mundo. Então me tornei um autoritário. Meu trabalho tinha pouco impacto nesse sentido. Eu passava um longo periodo de testes, de experimentações, tentando prever o que aconteceria com as pessoas até que chegava a hora de apresenta-lo ao público e a reação das pessoas não tinha nada a ver com o que eu tinha previsto. Então eu me tornava manipulador.

Não tinha coragem de me expressar abertamente sobre certos temas, por medo do que as pessoas poderiam pensar a meu respeito. Preferia ficar nos assuntos pré-fabricados, com as opiniões permitidas pela mídia: a favor ou contra isso ou aquilo. As tragédias do momento. As políticas sempre ineficientes. Eu falava do que os outros estavam fazendo porque não conseguia falar do que eu estava fazendo. De como havia esse enorme hiato entre o que eu conseguia praticar e aquilo que eu predicava.

Era vergonhoso.

Não teve muito jeito a não ser encarar que eu tinha fracassado miseravelmente como ser humano. Que eu era um covarde. Que todo o tempo eu tinha me movido para ser para os demais uma espécie de herói, quando na maior parte do tempo eu estava acovardado de ser quem sou. Eu tinha que aceitar esse limite. O quando eu poderia ser naquele trabalho? O que eu alcançaria de verdadeiro para mim mesmo? Eu chegaria no topo da escala, os outros me olhariam e diriam “gênio” e então… O quê mais? Talvez meus ganhos fossem maiores. Talvez eu marcasse uma tendência qualquer. Mas qual a significância disso?

Um fracasso, mesmo que eu obtivesse algum êxito.

Desisti disso. E me entreguei ao vazio. Ao fracasso absoluto. Quando uma nova idéia surgia à respeito do que fazer, eu a observava e descobria o quanto era velha. O quanto estava impregnada daquela minha maneira de pensar que me levou a fracassar. Então eu sabia que estava fadado a me repetir. E que essa trilha “nova” na verdade me levaria para um velho caminho.

Acho que essa parte é a mais difícil. Porque a gente vai ficando ansioso. O estado emocional é terrível e a gente quer logo sair dele, então começa a improvisar. Ele drena a sua energia. Drena seu movimento. Você fica sem vontade de fazer nada. Você sabe que precisa morrer. Que precisa abandonar esse que você era e entregar esse negócio ao seu próprio calvário. Improvisar é repetir. Não tem jeito. É preciso esperar.

A gente está numa época em que o sentido de fé está perdido. Fé é uma moeda para conseguir alguma commoditie de deus.

Eu encontrei um sentido novo de fé quando cheguei nesse limite. Olhava para mim mesmo e sabia que já tinha me esgotado. Que não poderia encontrar nenhuma solução nova. Que estava absolutamente adestrado pela vida e que só repetiria os mesmos truques de sempre, fatalmente no futuro caindo nos mesmos erros e de volta a esse estado insuportável de ter fracassado como ser humano.

Então eu disse: “eu esgotei tudo o que consigo fazer e abro mão de lutar. Eu me entrego e aceito o que vier. Mesmo a morte. Mesmo o nada. Desisto de lutar pela sobrevivência.”

Então me entreguei mesmo. E aguardei. E aceitei a espera. E nada fiz. E rezei.

Todos os dias eu reafirmava essa oração: “eu não sou nada. Não sei o que fazer, nunca soube. Estou perdido aqui, com meus semelhantes e não tenho a menor idéia do que fazer. Fiz o que me foi pedido e tudo era vazio. Sinto que não realizei o que preciso realizar. Estou perdido, me ajude.”

Abandonei a pretensão de saber o que fazer. Não. Eu não sei.

Então, no meio desse cinza todo, começaram a aparecer uns lampejos de uma coisa muito delicada. É preciso uma certa atenção para não se perder no circuito da autopiedade ou da ira. Não. Se mantenha nesse lugar sem se sentir uma vítima da vida. Você não é. Isso apenas aconteceu. Não havia outra maneira. Você precisava se permitir chegar a esse lugar e é daí em diante que a coisa pode mudar. Essa mudança não é cheia de efeitos especiais. Não é um prêmio ou um castigo.

É como aquela brisa suave que você percebe de repente no meio dos seus afazeres e que te comove inexplicavelmente. É delicado. Suave. Simples. Você precisa ir tentando capturar essa brisa, no meio dessa tristeza. Ela surge ali.

Um pouco num dia. Um pouco em outro dia.

Enquanto isso, a vida segue sem sabor, como sempre seguiu. A diferença entre o antes e o agora é que no momento você percebe o lugar de morte em que sempre esteve e antes, você fingia que estava vivo. Só isso. Viver é decidir estar vivo.

Mas agora surgiu essa brisa, que não se parece com nada. Você sente que ela é algo que já passou por sua vida algumas vezes. Não é uma espécie de euforia. Não é nada parecido com isso. Mas está lá.

Isso é o que você é. Suave, como essa brisa. Delicado. Simples. Nem mais nem menos que ela.

À medida que você vai espreitando essa delicadeza, ela vai se manifestando através de você. Viva. Pulsante. Linda. Simples.

Você se entrega a ela. Independente das suas falhas, dos seus limites, das suas dificuldades. Você abre mão dos seus limites e busca essa delicadeza. E se entrega.

Isso é como eu experimento a fé. E deus, é essa delicadeza.

Minha vida adquire outro significado nos momentos em que eu expresso essa delicadeza.

Nesse momento eu realizo aquilo que vim realizar.

E me sinto útil aos outros seres humanos.

 

Mono

Acabei de encontrar uns amigos e em algum momento da nossa roda de conversas eu me lembrei do Russomano, naquela entrevista do SPTV com o César Tralli. O episódio ficou conhecido pelo meme “Vamos falar de São Paulo”, resposta que o candidato dava para se esquivar da incômoda pergunta sobre a Igreja que o financiava.


É um jeito interessante de se manipular um grupo.

Primeiro, você desqualifica tudo o que está sendo conversado pelo grupo. Coloca tudo num mesmo pacote de inconsequências. E depois, você insere o seu bordão, como se fosse o único assunto digno de ser conversado. Provavelmente o assunto anterior de incomoda de alguma maneira. Te tira do sério. Isso é assunto seu, de mais ninguém. Mas é insuportável lidar com isso. Você começa a achar que as pessoas deveriam estar falando de outra coisa. Do seu problema. Daquilo que te interessa.

Então você prepara a sua voadora com os dois pés e entra de sola.

Legal.

No pior dos casos, você consegue trazer o assunto à tona e as pessoas até se comprometem com a sua causa. Você é genial! Delega tarefas, decide pelos outros o que cada um vai fazer, estabelece prazos, faz suas promessas. O tempo passa e ninguém faz nada. Nem você.

Uma pessoa sai, a outra inventa uma desculpa. Você decide que a coisa vai sair de qualquer maneira e toca tudo sozinho, numa espécie de martírio. Quer mostrar que não precisa da ajuda de ninguém. Que você dá conta da coisa. Vai ficar um pouco mal feito, mas você fez tudo sozinho. Você fica rude com as pessoas, ainda mais. As pessoas não estão fazendo aquilo que você esperava que elas estivessem fazendo. Estão regulando.

Então a coisa não dá certo. Você culpa o cosmos, os outros, a puta que o pariu.

Mas hoje não foi assim que aconteceu com você.

Você falou, usou sua técnica, foi rude com as pessoas e ninguém deu a mínima. Ou melhor, ninguém te autorizou a isso.

As pessoas continuaram com a sua conversa, que estava sendo muito mais útil para elas. Você ficou remoendo, achando que ninguém quer nada com nada, mas as pessoas só não queriam nada com a sua ditadura.

Essa anarquia é o inferno do ditador que você é.

Animal humano

Fomos ao zoológico na segunda-feira. Passeio com as crianças e com a Clau, que não conhecia.

Eu me lembrando da minha primeira ida ao zoológico, quando eu era criança, num passeio de escola. Minha expectativa elevada, de ver os animais pertinho. Mas o lobo destruiu tudo isso. O lobo e sua merda fedida. Seu cativeiro apertado. Sua tristeza. Mil crianças na minha frente, tentando enxergar os animais. Reclamando, porque o urso teimava em se esconder atrás dos arbustos. “Eu queria ver o urso”. Eu não queria ver mais nada. E o passeio ia durar até as 17hs, então, bora esperar.

A gente se encanta com as crianças, se espelha no olhar deles. Então eu silenciei minha melancolia habitual em honra a tanta inocência. E me dediquei a observar o animal covarde que se chama homem.

Olhando o tigre atrás do vidro. Um tigre reduzido a uma quitinete.

E o mimo do homem, exigindo a presença do animal. A natureza humilhada. Uma ofensa, sem fim.

O homem e suas lojas de conveniência, seus stands da coca-cola em toda parte. O homem e seus carrinhos elétricos para passear no zôo. Pagando um pouco a mais para ver os animais soltos, de dentro de um carro blindado. O homem e sua banha, sua manha. O homem que apanha a merda do cão numa sacola de supermercado.

E o lobo?

E o lobo e seu mau cheiro.

Não pude vê-lo.

Não suportaria.

Em meu delírio, os animais estavam soltos e nos caçavam.

Um caminho para morrer

Tão protegido do tempo, o homem de hoje tem dificuldades para o morrer.

As coisas que ele ainda não tem o lançam para o futuro, sempre sendo o mesmo que o ontem. O domingo antecedendo a dura segunda. O assunto do momento, automatizado pela mídia. A conversinha sem sentido, sem sentimento. A fofoca requentada. A vida seguindo automaticamente, salário após salário, conta após conta, dívida após dívida. A vida em débito automático.

Deus é o papai Noel pelado e sentado nas nuvens, que dá presentes o ano inteiro, desde que você fique devendo um pouco mais. Graças a deus! Não é de graça.

Com diversas opções para falsamente escolher e ser previsível nos sabores tutti-frutti, hortelã, morango, abacaxi, anis, cereja radical e uma miriade de sabores e cores fabricadas. No horizonte, um outro concorrente, igual a você, só que com o cabelo azul e um celular diferente. Respire fundo, coloque o peito para a frente e se faça mais forte. Repita a frase do momento, a opinião inteligente do momento, o jargão do momento. Se faça aceito. Mostre que é melhor que ele que mostra que é melhor que você. Mais do mesmo. Mesmo do mais.

Acorda, abre o olho e lembra que não tem dinheiro para pagar as contas do mês. A garganta se fecha, pensa em pedir emprestado e se lembra que já pediu, porque no mês passado ou no outro ainda já havia tido esse pensamento quando o dinheiro também acabou. Na melhor das hipóteses, vai trabalhar pagando imposto automaticamente quando o dinheiro cai na conta. Pagando as contas automaticamente. O dinheiro sempre cai na conta. Na dele ou na de outros. Ultimamente, mais na de outros do que na dele. Caindo na dívida, mês a mês, enquanto o dinheiro deixa de cair. Pintando também a dívida de vermelho, como tudo que é mal: menstruação, comunismo e fanta-uva.

Ele gosta do que faz? Ele gosta do que faz? O que ele faz? Compra e paga? Paga? Ultimamente, compra a crédito. Um dia eu pago. Um dia antes de morrer. Um dia. Amanhã não devo mais. O que ele faz? Ele quem é?

Ele é quem deve.

E a culpa não é do governo nem do patrão. A culpa é dele mesmo que gasta mais do que pode comprar. Por isso deve. Porque não sabe economizar, apesar dos eletrodomésticos dele serem todos de linha branca e do celular, que já não funciona, ter sido comprado em doze vezes sem juros. Apesar de ele escolher o sabão em pó mais barato que já deixa as roupas mais brancas para ele não ter de comprar mais um produto só para deixar as roupas brancas. Ele que tenta fazer compra do mês no atacadista para comprar a preço de fábrica.

Ele quem é?

Ele é o que reza pouco. Que tem pouca fé. Que não está acreditando muito em deus porque está demorando um pouco para ele ganhar na loteria ou para algum parente dele virar político ou pastor de igreja para ele arranjar um emprego melhor em que ele não precise trabalhar tento para ganhar tão pouco. Que ele possa não trabalhar para ganhar muito, como os políticos e os milionários, que para ele não trabalham pesado.

Ele quem é?

Ele é quem vai passar o pau naquela bunda daqui a pouco porque ficou excitado desde que ela entrou no ônibus. É ele quem está comendo pouco a sua mulher, porque anda muito preocupado com as contas todas que ainda faltam pagar. É ele aquele cujo peito dói e quando ele percebe, a bunda já está sendo encoxada por outra pica e ele, de pau duro, vai ter que passar por trás de outro homem porque o ponto dele já chegou e ele precisa descer. Nem a bunda do ônibus ele consegue encoxar.

Esse é o homem que vem ao teatro.

Na porta do labirinto o homem vê uma cabeça de touro.

Ele quem é?

O minotauro.