Cinco perguntas sobre paternidade

Você poderia listar 3 coisas que você gostaria de ter sabido com antecedência para se programar/preparar/integrar em relação a

1. Antes de conceber
2. A concepção em si
3. A gravidez
4. Pós parto, puerpério, amamentação
5. Os primeiros 3 anos de vida
Eu sempre quis gerar filhos. Três filhos. Nunca imaginei que seriam três meninos, mas quando eles chegaram, isso também não me incomodou.
Eu soube que a Clau tinha engravidado todas as quatro vezes. De algum jeito. A sensação corporal é um pouco diferente, e ainda hoje, eu não consigo explicar direito. Existe uma conexão diferente. Uma intensidade e profundidade diferentes.
Acho melhor falar de “Gravidezes”. Porque foram quatro e foram muito diferentes entre si.
Pedro: Nós nos casamos e fomos morar juntos, numa casa alugada lá na Vila Romana. Continuávamos nossa vida de ativistas do Movimento Humanista e de artistas de teatro. Mantínhamos uma rotina de namorados, ainda. Mesmo com a barriga enorme, ainda achávamos que a vida seguia igual. Eu já tinha algum receio de que a Clau estivesse forçando algumas situações, mas ela queria tocar a vida como se nada estivesse acontecendo. Pedro nos ensina o que é sonho e o que é real.
Gabriel: Nós havíamos comprado a nossa casa no Butantã. Gabriel veio num momento lindo, de prosperidade. Eu tinha feito uma websérie de duas temporadas, depois de ter feito um trabalho no Caribe. Logo em seguida, peguei um longa e acabei tendo algumas diárias extras. Virei professor de uma escola Waldorf muito perto da casa nova. E a Clau também tinha assumido mais coisas na ESPM. Eu queria mudar para a casa como estava mas a Claudia quis transformar logo a casa num sobrado. A gravidez do Gabriel foi a obra da reforma da casa.  A obra havia se convertido num campo de batalha! Com 36 semanas, Claudia me pede para acompanhá-la numa consulta ao obstetra. Eu fico irritado, indignado. Tenho tanta coisa para acompanhar da obra. E ela, porque não pega o carro e vai sozinha? Quando o médico disse a ela que ela já estava de 36 semanas, só aí eu me dei conta de que a gravidez estava tão avançada. Daí eu chorei. Chorei por ter sido injusto com ela, por ter sido insensível. Tive medo de não amar essa criança, de não notá-la, de não percebê-la… E ainda tenho. Gabriel nos ensina a tolerância e a autoridade.
Miguel(?): Eu teria outro menino? Mais um? Nunca soubemos. Depois de uma jornada intensa de auto-conhecimento nos trabalhos do Movimento Humanista, eu tive a intuição de estudar massagem Ayurvédica. As coisas se encaminharam de maneira que eu larguei o teatro, larguei as aulas e me dediquei exclusivamente a esse assunto.  E no meio disso, a gravidez. Não é hora. Eu não posso lidar com isso. E depois, eu terminei aceitando. Acreditando que a vida sempre dá um jeito. Apostando na vida sempre. Ela estava inquieta um dia. E me pediu uma massagem. Sentia algo estagnado… A noite veio e ela sangrava. Então fomos para o hospital. Eles não sabem dizer a palavra morte. Falam em termos mecânicos: coração que não bate, malformação… Morte. Um ano depois, na primavera, eu atendi uma cliente que havia abortado. E foi através dela que eu me lembrei do que tinha acontecido com a Clau. Liguei para casa e ela me disse que tinha sido algumas semanas antes. Que ela se lembrou, mas não quis contar nada. Ela assumiu isso sozinha. Dos partos, eu participei. Mas essa experiência, eu tive que resolver mais tarde. Muito depois. Com bodytalk, constelação familiar e missa. Miguel nos ensina a Morte.
Francisco: Chico, o pequeno. Eu não queria mais filhos. Na minha opinião, já havia tido os três que imaginava. Mesmo que o terceiro não estivesse presente. Pedro e Gabriel já formavam uma dupla, já brincavam entre eles. A casa estava completa! Quando descobrimos a gravidez, a Claudia ficou apreensiva, porque eu já tinha dito isso de não querer mais filhos. Mas eu não liguei. Fiquei feliz! Já tinha percebido essa coisa de a vida toda se alterar completamente quando surge a criança e estava sentindo que algo grande ia se passar comigo. “Eu vou ser pai de mim mesmo”. E estava com medo disso. Fiz um trabalhão gigante para reorganizar o masculino, assumir o poder, o dinheiro, a prosperidade, o meu tamanho. Eu tinha essa sensação de que o Chico vinha trazer isso tudo na minha vida. Chico me ensina a ser grande.
Nós temos a grande felicidade de contar com os meus pais por perto. Então, sempre temos esse apoio nas grandes transições. Minha sogra se chama Auxiliadora. E minha mãe, Socorro. Duas Marias. Dois amparos.
Essa fase do pós parto é a fase em que a gente aprende a dividir. Dividir o bebê com a mãe, dividir a mãe com o bebê. Dividir a família com a família. E também aprende a criar limites. No primeiro filho eu senti que delimitava a fronteira entre os nossos pais e os pais que somos. Quando o Gabri nasceu, eu ensinei o Pedro a não ser só. Quando nasceu o Chico, ensinei o Gabri a dividir, o Pedro a cuidar e Chico a conviver.
A molecada aqui de casa mama até cansar! Então isso fica incorporado na rotina. O que eu sempre tenho que trabalhar com eles é o limite da mãe… Porque pra ela é mais difícil…
E por fim, os três primeiros anos… Nesse caso, eu prefiro falar de forma geral. Eu acho esses três primeiros anos a escola da vida no planeta. Nós saímos ali, de seres unicelulares num meio líquido e vamos evolundo, mês a mês, como fetos. Depois, chegamos à terra. Primeiro imóveis, depois rastejando, engatinhando, ficando em pé, andando. Então aprendemos a criar linguagem, a negociar, a pedir. Criamos laços e por fim, a diferença.
Foi sendo melhor ter mais crianças em casa. Melhor para eles. E para a gente. Se eu fosse fazer tudo de novo, teria o primeiro filho numa casa em que já houvesse outras crianças. Isso seria a única coisa que eu faria diferente. A gente fica tenso demais quando tem uma criança só para cuidar. O melhor é que sejam muitas. Quanto mais melhor! Nem todas precisam ser geradas por você.

 

 

Dignidade

Querido amigo,

Eu hoje testemunhei o maior ato de bravura da minha vida, naquele teu olhar.

Eu só posso imaginar a tamanha dor ali contida, naquele luto, naquela despedida, naquela singela rosa depositada com tanto amor.

Eu estava lá e vi. Você, com seus oito anos, um homem nobre como teu pai. Como a tua mãe que hoje nos deixa.

Gratidão querido, desse teu amigo para toda vida.

“Deus te abençoe, filho”. Eu só pude dizer isso.

“Deus te abençoe”.

O Cume

Bancos, Mídia, Comida Industrializada e Petróleo.

Essa postagem no RealFarmacy.com me fez refletir enormemente. São apenas 85 pessoas que detém 46% dos recursos mundiais. Como isso é possível? Essa gente se alimenta dos nossos hábitos.

Os fóruns de economia e alguns grupos políticos se concentram na idéia de que é preciso distribuir renda, entendendo por renda um certo montante de dinheiro que permita a uma família continuar comprando os produtos que vão manter os mesmos 85 no topo da cadeia alimentar. Mas eu de repente comecei a pensar em uma outra abordagem, baseado numa outro escrito meu chamado “Rebelião”: e se nós simplesmente parássemos de depender dessas pessoas?

É possível? Como isso seria feito?

Eu fui criado desde a origem completamente dependente dessa infra-estrutura. Saí da amamentação e cai direto no supermercado. Fui adestrado numa escola e depois caí no mercado de trabalho ao mesmo tempo em que me eram exigidos certos deveres de cidadão da nação. Assumi uma família e me vi endividado com bancos pertencentes a todo tipo de quadrilhas.

Então essa coisa toda me parece uma mãe. Como se aquela teta original tivesse se transformado nessa chantagem horrenda da qual eu tomo parte todos os dias através desses hábitos dos quais eu não consigo me livrar.

E me parece que é isso. É justamente esse o ponto: lidar com o fato de que eu estou viciado nessa estrutura e só posso me liberar dela da mesma maneira que um alcoólatra faz com o seu vício. De uma vez só e ao mesmo tempo, um dia de cada vez. Sabendo que todo o tempo vão tentar me vender os benefícios de permanecer nessa estrutura. E que eu posso cair nessa conversa e levar minha família e meus queridos amigos todos ladeira abaixo.

Onde estão esses nós que fazem com que eu alimente essas 85 pessoas, que estão loucas? Eu acredito que dinheiro é o único recurso que tenho, perdi a noção do meu valor, porque ele passou a ser associado a um preço. Então meu valor é o valor que o mercado me atribui e é preciso que esse valor seja sempre baixo, porque o mercado está me comprando e é preciso que eu esteja em liquidação (ou liquidado, de preferência).

Eu perdi a capacidade de plantar, de cozinhar, de cultivar. Olho para uma planta na rua e não sei se ela é remédio. Vou ao mercado e compro uma carne na bandeja de isopor que quando eu abro fede a carniça. Mas eu a tempero bem e como assim mesmo, porque está cara. Porque carne de mercado é assim mesmo. Porque eu não tenho tempo de ficar na fila do açougue e o dono do mercado sabe disso e me vende a carne quase podre, porque quer ganhar dinheiro porque esse também é o preço dele e ele não pode ficar liquidado ou falido.

Eu fico doente e preciso continuar valendo algo. Eu sou a carne podre na bandeja e peço a um médico que me embale com algum plástico para que o patrão não sinta que estou podre por dentro. O médico também não pode ficar liquidado, porque o convênio paga mal para oferecer a ele um nomezinho e telefone no guia de associados. Ele então me receita uma remédio para o mau cheiro, porque o rapaz da farmacêutica vai dar a ele e a esposa uma viagem para um congresso de medicina. Esse congresso é o tempero do médico e da mulher dele. E o rapaz também oferece a viagem porque sem essa oferta, ele está liquidado.

E me movo de um lado a outro, de uma bandeja a outra, de um plástico a outro, de uma balança a outra. E para cada movimento desses, o petróleo é o que deveria me levar. Mas não leva. Porque eu continuo queimando petróleo enquanto o que não anda é a rua. Eu digo que a estrada não anda, que a rua não anda, mas elas nunca andaram. Elas sempre estiveram ali. Eu é que deveria estar andando, porque comprometo mais de 20% do meu orçamento com petróleo, que me promete esse movimento, mas que não cumpre.

Não cumpre, como qualquer outro desses serviços. Como qualquer coisa dessas. Como esse modelo inteiro, de cabo a rabo, começando pelos meus hábitos.

E é por eles que eu posso começar.

Não conheço essas 85 pessoas. Não saberia diferenciá-los de você ou de mim, porque para mim, somos todos iguais. O problema é tanto poder nas mãos de gente tão louca.

E quando você encontra um louco, é melhor deixá-lo falando sozinho.

Vamos deixar essa gente falando sozinhos?

Você consegue?

Mude os seus hábitos e se libere dessa merda toda!

 

Crise da justiça

Eu fui assaltado uma vez, ali na região da Santa Efigênia. Estava com R$ 800 no bolso direito e um celular Sony, com MP3, que era uma novidade na época. A dupla de assaltantes ficou com o celular e me deixou com o dinheiro e uma bermuda toda rasgada (porque eu resisti, colocando as duas mãos nos bolsos da bermuda enquanto eles tentavam rasgar os meus bolsos para pegar o celular).

Quando acontecia uma ocorrência dessas, quando eu era criança, juntávamos a nossa turma da rua e íamos até a casa do “assaltante” para descer-lhe a porrada e tomar de volta aquilo que ele tinha roubado de nós. Eu era criança e mais selvagem, e a mãe do nosso amigo “assaltante” era autoridade o suficiente para que nós não chegássemos às vias de fato, mas tivéssemos nossos pertences restituídos e a justiça efetivada.

Então eu fui até a delegacia, achando que ia encontrar meus amigos lá. A recepção tinha um cara de mau humor, armado, atendendo mal a uma pessoa que estava na minha frente tentando prestar queixas. Ele olhou pra mim e disse: “que foi?”. Eu tentei contar a história do assalto, mas ele me cortou no meio e disse: “senta aí e espera” e em seguida se virou para um outro policial que apareceu e começou a desfiar o rosário. “São aqueles nóias ali da Rio Branco. Que merda essa delegacia, só tem ocorrência, esses nóias do caralho, os caras podiam ter me mandado para…”

Eu saí, revoltado. Fiquei indignado com o fato de alguém ter sido contratado para fazer um trabalho e reclamar do trabalho, fazer mal o seu trabalho, reclamar quando alguém lhe pede que faça o seu trabalho. E mais indignado ainda de ser eu o patrão e não poder demitir um merda desses. Fiquei indignado de ser praticamente coagido a respeitar um funcionário público que não teve o menor respeito pelos cidadãos ali presentes.

Dois desses meus amigos de infância já foram policiais. Um deles, tenente. O outro soldado. O tenente tinha um tratamento muito diferenciado do soldado, e para ambos, a questão de fazer o trabalho nas ruas era uma espécie de sujeira grossa. Quase um castigo.

Um outro amigo meu é policial federal, trabalha com busca e apreensão. Basicamente ele entra numa favela com um funcionário da Caixa para cobrar empréstimos do Construcard que não foram honrados. E se o cara não paga, ele apreende algum bem em penhora, carro, geladeira, qualquer merda dessas. Lindo de se fazer, não?

Eu fui entendendo o mau humor do delegado aos poucos. Com o passar dos anos, fui colecionando depoimentos que eu nem sei se são sempre reais. Mas fui criando esse perfil do policial para mim mesmo. Um cidadão, lutando pelo seu ganha pão, presta um concurso público em busca de estabilidade financeira, recebe um treinamento e é lançado nas ruas com seu uniforme, uma arma péssima com balas limitadas, um colete que ele mesmo tem que comprar para ser de boa qualidade e depois ganha um salário de merda, então ele tem que fazer justiça, que é prender um outro fudido que nem ele que desistiu da estabilidade e resolveu que vai ganhar dinheiro ou morrer tentando.

Eu sei que os policiais prestam serviço de segurança privada nos seus dias de folga para complementar o salário. Sei também que é prática comum que eles prestem esse serviço com suas fardas, porque isso impõe respeito, que é afastar o ladrão. Então eles cumprem essas escalas de trabalho monstruosas e para completar o seu salário, precisam trabalhar nos dias de folga prestando “consultoria” para alguns comerciantes, bancos, postos de gasolina, etc.

Outro amigo mora num condomínio fechado e teve um vizinho alucinado por causa da cocaína gritando a noite inteira. Ele tem duas filhas pequenas e chamou os policiais. A esposa queria se mudar da casa. O guarda disse: “não esquenta não mano, isso é só cocaína, já vai passar. A casa é sua, não sai não mano.” Meu amigo achou insensibilidade, mas pensou que isso deveria ser coisa normal para o policial. Para que o vizinho fosse despejado do seu contrato de aluguel bastava que o policial tivesse preenchido o boletim de ocorrência com a acusação de consumo de drogas, mas ele achou melhor preencher “chamado por motivo fútil” e o caso ficou encerrado.

Um veterinário comentou comigo que trabalhava numa clínica em que um policial prestava serviço. Houve um assalto num comércio ao lado e esse veterinário viu para onde os assaltantes correram. Todos os moradores sabiam que o policial estava na clínica e foram até lá exigindo providências. Ele fez uma voz de super herói enquanto perguntava ao veterinário: “para onde foram os assaltantes”, ao que o veterinário respondeu “por ali” e o policial então disse “então eu vou para o outro lado” e foi.

Quando voltou, o veterinário indignado, perguntou a ele porque ele tinha ido para o lado contrário. A princípio ele ficou em dúvida se o policial tinha entendido mal, mas o soldado então explicou que ele tinha que prestar conta das balas que usava, que se amassasse o carro numa diligência precisava pagar do próprio bolso, que o colete que ele usava foi ele mesmo quem comprou, porque o colete fornecido é uma porcaria, etc…

E se somam os depoimentos…

Então quando eu vejo os policiais nas ruas, reprimindo violentamente os protestos, eu sinceramente não entendo…

Porque é que eles não estão do nosso lado?

Porque ainda falamos nós e eles?

Eu vejo semelhança no fato de os professores da rede pública serem maltratados pelos alunos e vice versa. Eu entendo que os professores são a tropa de choque do governo, ganhando mal, com a auto-estima péssima, em situação de castigo quando vão para as escolas públicas da periferia e encontram a molecada revoltada com as péssimas condições de vida e a educação de quinta categoria.

Cada um deles, professores, alunos e pais, querendo a tal estabilidade financeira, que consiste em comer merda e bater naquele cidadão que está ao seu lado e resolve roubar a merda do vizinho.

Porque é que não paramos com isso?

 

Guerra

Filhos, a gente estava ali na sala da Vó Dadora ainda a pouco e sua mãe viu que na TV estava passando “A origem dos guardiões”. Então a gente colocou no canal de TV a cabo ficamos assistindo isso juntos. Acho que a mãe tinha levado vocês ao cinema para assistir a esse filme da primeira vez e ela pensou que seria um jeito interessante de trazer a fantasia para vocês.

Então fui vendo o argumento todo da história e hoje eu me dei conta de que é uma fábula sobre o alistamento militar. Não vou contar a história de novo pra vocês, porque vocês a conhecem. Vou explicar meu argumento, para que a gente pense nisso juntos quando a hora chegar. Não é agora, claro. Pedro está com seis, Gabriel fará quatro daqui a pouco e Francisco vai fazer quatro meses. Ninguém vai entender nada…

O povo que escreve essas histórias é um povo que vive com medo. Existem alguns grupos econômicos nesse país que entenderam que o melhor jeito de ganhar dinheiro é através do medo do futuro. Então eles constroem essas fábulas em que um grupo de pessoas especiais protegem as crianças de um vilão terrível que vive do medo delas. A gente hoje viu um desenho animado, mas o papai já assistiu essa mesma fábula diversas vezes, na publicidade dos remédios, dos bancos, dos produtos de seguros e especialmente nos noticiários quando um homem jogou um avião em dois prédios numa grande cidade dessa gente. Muita gente morreu nessa história e eles inventaram um nome para o ato desse homem: terrorismo.

Então eu vi o desenho hoje e me lembrei do homem. Lembrei que eu já tinha feito essa associação quando esse episódio aconteceu.

Lembrei de outras vezes em que essas pessoas fabricaram a mesma história, variando um pouco os personagens: os índios, os mexicanos, os nazistas, os vietcongues, os cubanos, os comunistas, os russos, os palestinos, os afeganistães, os chineses… todos nós, os outros, os que vivem fora das fronteiras daquele medo todo, todos nós não somos as crianças para eles. Nós somos os bichos papões.

É assim: eles nos vendem a história de um jeito que nós nos sentimos como as crianças do filme. Desprotegidos, desamparados, necessitados da ajuda desses heróis incríveis. Dentro do país deles, eles vendem a mesma história, mas desta vez, as crianças são a sua gente e nós somos os bichos papões. O governo deles e algumas famílias mais abastadas passam a ser os heróis incríveis, com seus planos mirabolantes e a melhor solução de todas é sempre a mesma: a batalha do bem contra o mal. E no fim, a guerra mesmo, o mal em si. A maior vergonha que nós pudemos produzir.

O rapaz no filme não se sente aceito pelo grupo de super seres. Ele não é visto por ninguém, vive à margem de tudo, preocupando-se apenas com a delinquência. Um outro personagem que representa a recompensa para aqueles que se comportam bem vê nele a possibilidade de pertencer a esse grupo, mas ele mesmo não se vê assim. O mestre diz a ele para procurar seu cerne, sua essência e nisso eu não vi problema algum. Esse rapaz quer se lembrar do que ele era antes de ser esse delinquente, mas não sabe mais. Ele perdeu a perspectiva do que era se importar com os outros.

O Bicho Papão se aproxima do rapaz justamente por sentir que eles se assemelham nessa coisa de serem reconhecidos pelos outros. Eles se sentem excluídos do grupo principal. O vilão só quer o medo das pessoas, mas o rapaz não quer nada com ninguém ele só quer se divertir.

A prova final para que ele seja aceito no grupo, é uma batalha. Uma luta para proteger a última centelha de esperança, que é um menino como vocês.

O grupo vai se recuperando e trazendo para a batalha todos os seus exércitos, numa cena carregada daquilo que eles chamam de heroísmo. É uma brincadeira onde as sombras se dissolvem e o deus do Sono renasce das cinzas.

No final, os Guardiões triunfam, o Bicho Papão é arrastado para as profundezas, levado pelos seus próprios terrores.

Eu já vi guerras demais, filhos… Os Guardiões enviam as crianças para a matança enquanto eles tramam o quanto irão ganhar com a reconstrução do país vencido.

O Bicho Papão? Quase sempre foi treinado pelos Guardiões, como nós ao assistir esses filmes e compactuar com esses valores.

Não acredito em papai Noel, filhos.

Não acredito em nenhuma justificativa para a guerra.

 

Explicando o super-herói

Pai, olha só, veja! Um super-herói!

O sujeito em questão era o Wolverine, cara de mau, garras de fora, estampado no baú de um caminhão.

E eu, pai de três filhos homens, que li histórias em quadrinhos até os 25 anos…

Ele tá nervoso. Ele tá assustado. Ele tá muito bravo.

Pedrão, com sua simplicidade em expressar as emoções.

Eu gosto de Wolverine. Ele é forte.

Ai caralho, filho! Ai merda! Gabriel se entusiasma com Wolverine.

Eu gosto mais do Kiriku. Ele é muito esperto.

Ele é corajoso, né pai? – Gabriel parece estar comprando a idéia.

Eu acho filho. Acho mais legal assim. Você lembra da feiticeira Caravá?

Ela tava muito nervosa porque ela tinha um espinho nas costas. – Diz o Pedro.

Ela tava nervosa e ela quebrava tudo e bagunçava tudo. – Reforça o Gabriel.

Ufa. Parece que estamos andando.

Engraçado esses super-heróis. Eu acho eles parecidos com a feiticeira Caravá. Porque eles estão sempre nervosos, sempre quebrando tudo, jogando o carro no outro…

O Homem Aranha ficou muito nervoso. Ele está assustado. – Diz o Pedro.

Pra mim, super-herói mesmo tinha que resolver as coisas que nem o Kiriku. Com coragem e esperteza. Esses super-heróis que nem o Hulk, o Homem Aranha…

O Capitão América, tem o Ben 10… – Diz o Pedro.

O Bátima. – Diz o Gabriel.

Eles estão muito de cabeça quente, filho. Estão quebrando tudo. E eu acho que quando a gente fica nervoso e bate no outro é porque a gente se perdeu. A gente fica sem saber o que fazer e acaba batendo no outro porque perdeu a cabeça.

Lembrando que eu faço muito isso. Lembrando que eu sou covarde com eles. Lembrando que eu me sinto um bosta quando perco a cabeça com eles porque não sei o que fazer e parte do pacote de ser um pai é não saber o que fazer e fazer bosta.

Eu gosto do Hulk. – Diz o Gabriel.

Eu também filho. Eu também. Mas o Hulk é o mais nervoso. É tão nervoso que as calças dele até se rasgam.

É. E ele fica só de cueca. – Diz o Gabriel.

De cueca não, seu malucão! – Diz o Pedro.

É, de cueca. – Diz o Gabriel.

Não é cueca, Gabri. É a calça dele que fica bem pequena e rasga porque ele cresce de tanta raiva. Cresce, fica nervoso e sai quebrando tudo.

Lembrando que eu sou o Hulk. Que eu já fui mais Hulk do que hoje. Que eu sou viciado em ser Hulk. Que eu preciso lutar com esse Hulk o tempo todo.

É. Ele joga o carro no prédio. Ele pega assim ó, e joga lá longe. – Diz o Gabriel.

E as lojas que tem no prédio? E as pessoas que estão no prédio? E o dono da loja? O Hulk fica nervoso e não pensa em nada disso. Ele joga o carro e quebra tudo. Mas tem também aquelas pessoas todas.

É. – Diz o Gabriel.

E tem o Capitão América, o Batman, o Homem Aranha, o Ben 10… – Diz o Pedro.

E eu, sem saber direito como é que isso ia entrar neles, sem saber se estava fazendo bosta ou não, eu então disse a eles:

Filhos, as pessoas que inventaram esses super-heróis, o Hulk, o Capitão América, o Batman, todos esses… eles estavam tentando convencer a gente de que bater no outro é uma coisa legal. Que tem gente que merece apanhar e que isso é certo. Eles fazem isso para tentar fazer com que a gente apóie uma coisa chamada Guerra, que é a coisa mais vergonhosa que o ser humano pode fazer. A Guerra é um monte de gente que bate uma na outra, que quer ver o outro chorando, que quer ver o outro machucado e acha isso certo. A Guerra é uma perda de tempo, uma vergonha. Por isso é que o papai gosta do Kiriku. Porque o Kiriku consegue gostar de todo mundo…

Até da feiticeira Caravá, né pai? – Diz o Gabriel.

É filho. Até da feiticeira.

 

A Máscara

Filho, é muito importante que você tenha sempre isso em mente, quando estiver diante de uma situação em que a sua liberdade estiver ameaçada. Não existem instituições. É isso mesmo. Elas não existem. Aquele homem que está ali na sua frente e que diz representar uma instituição qualquer, ele está mentindo. Ele talvez não saiba disso inteiramente, conscientemente. Mas em algum lugar dele, isso está emitindo sinais.

Ele está usando uma máscara, que é a instituição que ele diz representar. E qualquer homem que use uma máscara é alguém amedrontado. Do que ele tem medo? De você. Do outro. Do diferente. De alguém livre.

David Thoreau olhava para o homem que vinha insistentemente lhe cobrar impostos do governo e sabia com o quê estava lidando. Com um homem, seu vizinho, vestido de governo, que se incomodava com a coragem dele de ser um homem livre. Então esse vizinho chegava na sua porta, a título de cumprir “o seu trabalho” e lhe impunha o pagamento de um tributo ao “governo”. Quem era o governo? Era o vizinho. O dinheiro chegaria ao seu destino, dilapidado, com toda certeza por mil outros vizinhos, cada um deles cobrando o seu tributo ao anterior.

Isso é como quando vocês dois estão brincando aqui na sala e por acaso disputam um brinquedo. Aqui em casa, a priori, os brinquedos são de vocês. De ninguém em particular, nem seu, nem do Pedro. Eu e sua mãe fazemos questão disso, mesmo quando as pessoas dão um brinquedo para você e outro para o Pedro. A gente acha que um recurso dividido é um recurso que se multiplica e então não fazemos essa distinção para vocês.

Mas quando vocês disputam um brinquedo e não conseguem resolver esse assunto entre vocês, e vou observando a progressão de argumentos que levam inevitavelmente à solicitação de um de vocês para que eu, ou sua mãe, ou qualquer outro adulto seja o mediador da relação. Porque vocês fazem isso? Porque querem usar algo que submeta o outro à sua vontade de brincar com o brinquedo que está agora nas mãos dele. Esse algo é o adulto. O maior, o mais forte.

“Porque não resolvem entre vocês?” Eu pergunto. E um responde: “Foi o Pedro” e o outro “Foi o Gabri”.

Vocês estão tentando me manipular. Eu estou nos meus assuntos e então me aparece essa solicitação. E vocês como crianças são muito intensos e nos exigem resposta imediata. Repetem mil vezes a mesma coisa. O mesmo tipo de técnica que os torturadores usam para dobrar os prisioneiros. E então, se não estamos atentos ao nosso psiquismo, a gente se dobra por uma solução simples. E o processo acontece assim: se o Gabriel sempre mente, com certeza o Pedro tem razão. Se o Pedro sempre chora por qualquer coisa, com certeza o Gabriel não fez nada. Reduções estúpidas de cada um de vocês.

E eu tomo uma decisão limitada, com base em argumentos fúteis, numa situação na qual eu não tenho nenhum interesse a não ser que vocês me deixem em paz. E eu nunca estive envolvido nisso. Nunca. Não quero brincar com o carrinho. Quero escrever, conversar com sua mãe, brincar com o Francisco, ou quero estar com vocês sem estar nesse papel estúpido de juiz de quem deve ficar com o pedaço de argila maior.

E então eu digo: “Gabri, quem estava com o carrinho?” e você responde “O Pedro”. E você então fica murcho e devolve o brinquedo ao seu irmão. E o Pedro fica sendo esse bunda mole, que precisa pedir sempre a minha intermediação.

Ou então eu digo: “Pedro, tá chorando porquê?” e o Pedro responde “O Gabri”. E eu digo: “Vá lá e tome dele o carrinho!”. E autorizo o outro a usar a força contra você. E você fica sendo um covarde, que vai ter que mentir sempre para conseguir o que quer.

Eu às vezes digo, sem paciência: “Me deixem em paz! Lutem entre vocês e eu crio quem sobreviver.” Mas também é inútil tudo isso.

E quando eu nem ligo para vocês, ou percebo que vocês estão com sono, ou querem minha atenção, quando eu não ligo para o carrinho ou qualquer outra coisa, aí vocês resolvem o assunto.

Então, filho, a instituição é essa coisa. Uma máscara que a gente usa para conseguir que o outro faça aquilo que a gente acha que ele deve fazer para nos agradar. E aquilo que nos aprisiona na instituição é essa manobra que fazemos para tentar agradá-la. Pagar imposto, bater continência, ajoelhar e fazer um sinal da cruz. Bobagem tudo isso. Deixe o outro em paz!

Tenha coragem de dizer o que realmente quer e de ver o limite do próprio desejo expresso na presença do outro e do querer dele. Aprenda a dividir com o outro, a negociar com o outro. Aprenda a ver que com o outro a brincadeira é melhor, mais legal, mais gostosa. Pare de ter medo do outro, de manipular o outro, de torcer as palavras de um terceiro para que o segundo lhe obedeça e você seja o primeiro. Pare com isso.

Olhe para o homem na sua frente e veja o homem. Veja como é frágil, como tem medo de estar vivo, como está só com suas coisas. Veja como ele se sente único, como ele também quer ser o primeiro porque acha que não é amado o suficiente, porque agora ele tem um irmãozinho menor e mais fofo do que ele. Veja como ele perdeu o amor próprio em algum momento.

E então, olhando esse homem, não se sinta melhor que ele. Veja como você é igual a ele, em tudo. Por fora, é diferente. As histórias de cada um parecem ser diferentes. Mas no fim, filho, somos tão iguais. Sete bilhões de seres iguais em natureza. Iguais nesses sentimentos, nessas dúvidas sobre o que é estar aqui dividindo tantos brinquedos com tantos outros, todos iguais. E sem nenhum papai ou mamãe para dizer de quem é o carrinho. Estamos sós aqui. E todo mundo tem esse lugar que dói.

E então filho, na frente desse homem que se acovarda, veja esse lugar que dói nele. Veja como dói. E aperte esse ponto, sem piedade.

Aperte nesse homem o lugar que lhe dói. Seja firme com ele. Mas seja delicado, lembre-se do quanto ele é frágil. Lembre-se do quanto ele é você. Aperte o homem na esperança de que ele veja quem é, por trás da máscara. Aperte o homem e veja que ele e você são um e que tudo é de todos.

E agradeça ao homem quando ele apertar esse lugar em você, porque quando ser aperta um homem no lugar em que lhe dói, a gente também aperta esse lugar na gente. E isso traz tudo o que precisamos saber sobre nós mesmos e sobre o outro.

Se algum dia, filho, existisse uma instituição real, teria que vir desse encontro.

Dessa generosidade entre duas pessoas que se mostram inteiramente, como eu e sua mãe buscamos viver todos os dias.

O resto, filho, é máscara. É covardia.

 

O Homem Livre

O recurso mais valioso de que se pode dispor é um homem livre.

Ele está ao seu lado voluntariamente, segundo seus próprios motivos, segundo seus interesses.

Não está condicionado a nada, está ali porque quer e porque sente que se beneficia desta relação.

Ele pode passar sem você, nada que você pode oferecer vai lhe causar dependência.

Ele é o tempo todo aprendizado, autonomia.

Quando age é com todo o seu ser. Se move no mundo realizando seu propósito e ao seu redor é só fartura.

O homem livre sempre gera ações que favorecem a liberdade.

O homem livre é primeiro uma decisão de trabalhar pela própria liberdade.

Se você quer ser um homem livre, semeie ações de liberdade.

Ninguém pode ser livre se depende do aval de outros para sê-lo.

Deixe o outro em paz e fique em paz.

Psico-história

Em Fundação, Asimov postula a existência de uma ciência que mesclaria história, sociologia e estatística para prever com exatidão as ações coletivas de populações muito grandes. A segunda guerra mundial trouxe Goebbels e a guerra fria trouxe a máquina de propaganda comunista e a indústria de publicidade dos Estados Unidos. O mapeamento de tendências começou a ser empregado exaustivamente desde então, chegando hoje às redes sociais e ao controle, pretendido pelo Estado.

Hari Seldon, o criador da psico-história postulava que o comportamento de grandes conjuntos humanos era altamente previsível, embora o comportamento de um único indivíduo fosse absolutamente imprevisível. Mas como o comportamento de um único indivíduo afetaria os rumos da história psíquica de uma civilização? Como a ciência de Seldon determinou a destruição do império galático? Como o “caos” particular se transforma na entropia do sistema inteiro?

“Qual é a idéia, uma idéia simples, acessível ao mais simples dos homens, que fez a humanidade aceitar as doutrinas que a levam a autodestruição?” (RAND, Ayn – A Revolta do Atlas)

Sem entrar em coisas estranhas como a Ressonância Mórfica, de Sheldrake ou a hipótese do centésimo macaco de Ken Keyes Jr., como é que uma idéia, um ato, um movimento simples iniciado por um homem pode afetar a estrutura social inteira, como vemos sucessivas vezes na história? Quais as condições para que esse ato seja assimilado por outros homens e reproduzido? Algo que entre no cotidiano dos homens como um hábito, pouco a pouco,  e que mude de uma vez por todas a trajetória de autodestruição?

Um fractal de movimento, como uma coreografia de Pina Bausch, a música de John Cage ou Philip Glass uma mandala tibetana. Um tema, repetido até o automatismo, gerando um novo fractal, uma nova complexidade.

Não me interessa a observação externa, topográfica da rede. Interessa o pequeno loop que a transforma por completo. Aquele minúsculo ato, em si mesmo libertador porque é imprevisível, a revelação do propósito de um homem que acaba por afetar toda a rede.

É possível gerar um fractal que gatilhe atos de liberdade? Que gere a entropia completa? A imprevisibilidade de grandes conjuntos humanos e a impossibilidade da existência de qualquer império, na terra ou nas galáxias?

 

Ainda o Algoritmo

Dez anos atrás eu estava seguindo o Algoritmo nessa direção: um personagem era algo que surgia de reações predeterminadas com outros personagens. O personagem tinha um objetivo a ser alcançado na trama e para conseguí-lo usava de uma estratégia simples: ele mostrava aos outros aquilo que ele inferia que os outros gostariam de ver nele, ou aquilo que se fosse visto pelos outros, facilitaria ao personagem a consecução do seu objetivo. Então se podia gerar uma peça a partir de um conjunto simples de regras que deveria ser seguido à risca pelos atores.

Eu fiz algumas experiências com isso, com relativo sucesso, até que um dia me dei conta de que isso era Commédia de L’arte. Fiquei desagradado com o fato de não ter criado nada de novo, mas continuei perturbado com essa idéia, porque em algum lugar ela me parecia a razão de estarmos aprisionados num programa que só gera estupidez e sofrimento.

“Essa é a razão de sofrermos”, eu pensei na época e continuo insistindo nesta perspectiva. Ao invés de nos atermos a expressar aquilo que realmente somos, entramos nesse jogo de nos definirmos por aquilo que acreditamos que os outros querem ver de nós. Porque fazemos isso? Onde esse jogo começa?

Essa pergunta me conduziu por muitos estudos e eu acabei me afastando do teatro em si, para explicar essa intuição misteriosa. Entrei de cabeça na psicologia, especialmente em Reich (“O assassinato de Cristo”, “A revolução sexual”, “A função do orgasmo”, “Escuta Zé Ninguém”, “Análise do Caráter”, principalmente “A psicologia das massas do fascismo”), nos estudos de Erwin Goffman (“A representação do eu na vida cotidiana” e “Manicômios, prisões e conventos“), na Teoria dos Jogos, associada à política e ciência social (o incrível “Jogos Ocultos” de George Tsebelis), na associação entre a ciência cognitiva e os computadores feita por Steven Pinker em “Como a mente funciona”, no portal aberto por Howard Gardner em seu “A nova ciência da mente” e Noam Chomsky em “Reflexões sobre a linguagem”.

Minha pesquisa não parou por aí, mas esses sujeitos foram os principais expoentes da ciência acadêmica. Mas eu me inquietei ainda mais com isso, avançando para um terreno da mente ainda não muito explicado. Continuei minhas pesquisas tentando entender a existência corpo/mente do homem nas tradições místicas de vários povos. Sempre me inquietando com a disposição de algumas tradições em colocar certas coisas como exteriores ao homem, como se forças desconhecidas realizassem no homem algo que o torna um joguete. Sempre rejeitando a simplificação do maravilhoso conhecida pelo nome de deus.

Como entrar nessa senda do esoterismo, da magia, do misticismo e da religião e extrair disso algo que não seja o medo, a covardia e o dogmatismo? Como encontrar a ciência disso? A arte real nisso? O que há de sólido nesse emaranhado de códigos sobre códigos, de interpretações sobre interpretações? Porque esse tipo de descrição da realidade surge em diversos povos e os orienta de alguma maneira? Porque sentimos que essas definições são de alguma maneira explicativas da realidade, embora sejam paradoxalmente absurdas e fantásticas? Que é que pode ser isso que se chama de espírito? Ou essência? Que coisas são essas que são chamadas de iluminação, samadhi, nirvana? Isso é acessível ao homem? Que faria eu com isso? Que diferença isso faria na minha vida e na vida daqueles que me rodeiam? Isso é útil? Em que medida?

Sempre tendo o homem como a medida. Sempre tendo essa fé no humano, acima de tudo, nessa capacidade do homem de tornar tudo manejável, de trazer tudo para suas mãos e moldar a realidade segundo sua intenção. Sempre apostando nisso, na beleza do homem, apesar de todo erro, de toda grosseria. Então encontrei um pensador argentino que me trouxe a primeira integração de tudo isso: Silo, em seu “Contribuições ao Pensamento“. Ele postulou, numa psicologia da imagem, uma característica de nossa mente chamada “Espaço de representação”. Essa tela mental está intimamente conectada com os nossos sentidos externos (visão, audição, tato, paladar, olfato) e com os nossos sentidos internos. O que ele chama de “imagem” não é algo puramente visual, mas qualquer representação que aconteça nessa tela mental. Consciência é intencionalidade.

Silo trazia a consciência como algo manejável, com estruturação própria. Com um trabalho chamado “Autoliberação“( de Luis Ammann) tínhamos a oportunidade de investigar os mecanismos da consciência e nos propor um plano de manejo desses mecanismos, revertendo situações que nos geram sofrimento. O todo do trabalho de Silo, vai muito além de seus escritos e de sua visão extremamente lúcida do homem. Ele deixou como legado, um grupo de pessoas que ainda hoje segue estudando, segue investigando o homem, segue lidando com a superação do sofrimento humano. Silo criou o Movimento Humanista, uma organização internacional cujas bases são o ser humano como valor central, a não violência e a não discriminação.

Foi no interior do Movimento Humanista que eu encontrei a ponte que ligava os estudos sobre a consciência desde o ponto de vista do ocultismo com a psicologia da imagem. Todo o tempo evitávamos abordagens sobre espíritos, entidades, alienígenas e qualquer coisa que tivesse a característica de ser externa ao homem. Olhávamos para esses fenômenos como traduções do espaço de representação. Algumas tradições colocam essas imagens como exteriores ao homem e negociam a interpretação delas a partir de um dogmatismo. Na abordagem de Silo, as imagens estão sempre relacionadas à aquele que as vê. Não se anula a carga informacional que estas imagens contém, usando para isso o termo pejorativo “fantasia” ou ainda “imaginação”. Segundo ele a “fantasia” é composta de imagens que possuem cargas emocionais fortíssimas e que podem ser integradas ao psiquismo através de técnicas transferenciais. Como Jung, mas ainda além dele, porque o enfoque de Silo é a superação do sofrimento humano não apenas no nível individual, mas nas relações humanas e na sociedade definida por elas.

O periodo de imersão no Movimento Humanista durou sete anos. De 2004 a 2011, estive envolvido com o aspecto social do Movimento, participando ativamente da estrutura organizacional no inicio (até 2009) e depois, envolvido ainda com os estudos realizados em forma de retiros. Depois que realizamos a Marcha Mundial Pela Paz e a Não Violência, Silo retomou um trabalho que era realizado nos primórdios do Movimento Humanista (nos anos 60), que envolvia o estudo de quatro disciplinas: Energética, Formal, Mental e Material. Cada uma delas consistia num trabalho realizado em doze etapas, divididas em três momentos distintos de quatro etapas cada um. Estavam relacionadas com estudos realizados no tantra yoga (energética), na geometria sagrada (formal), na meditação transcendental (mental) e na alquimia (material).

Tivemos um trabalho prévio, de cerca de um ano, chamado Nivelação. Nesse trabalho estudávamos ativamente todo o material contido em “Autoliberação” e “Psicologia”. Os trabalhos práticos eram feitos em duplas e periodicamente nos encontrávamos todos para intercambiar sobre as práticas e os estudos. No final dessa etapa, escolhíamos com qual disciplina iríamos trabalhar e então nos reuníamos em grupo. Os trabalhos passavam a ser individuais.

O enfoque do trabalho com a Alquimia era perceber o que acontecia com o operador (aquele que realiza os trabalhos) enquanto ele desestabiliza os elementos externos. Esse trabalho foi feito em escala mundial e especialmente os trabalhos com alquimia acabavam sendo afetados pela legislação dos diversos países quanto ao uso de compostos químicos perigosos, como o mercúrio, o ácido sulfúrico e outros. Então recebemos a orientação de que deveríamos fazer os trabalhos sem realizar as experiências de laboratório. Como isso poderia ser feito?

No próprio material de orientação haviam algumas indicações que acabaram por orientar os meus trabalhos práticos. O que poderia ser o objeto externo a ser manipulado, se não seriam os elementos químicos? Os trabalhos poderiam ser realizados somente sob o aspecto alegórico? Como? Lembrei-me dos estudos de Jung sobre a alquimia e comecei minha pesquisa.

Eu estava num processo de pesquisa em improvisação teatral, sob a orientação de Antônio Januzelli. Estudávamos alguns personagens de Shakespeare, especialmente Ricardo III e Timon de Atenas. Em um momento do trabalho resolvi colocar na cena as minhas investigações em alquimia e então descobri o objeto externo que seria manipulado em meu laboratório: meu próprio corpo.

A partir de então, decidi que realizaria um passo da disciplina por semana, levando três meses para concluí-la. Isso me daria uma folga de mais alguns meses para refazer etapas, realizar sínteses, etc… Minha rotina semanal consistia no seguinte: no inicio da semana eu estudava o passo da disciplina, buscando já as correspondências alegóricas entre os elementos trabalhados e operações a serem realizadas. Buscava referência em livros, na internet, em vídeos diversos e nas gravuras da tradição alquímica. Ia estabelecendo relações entre os elementos e operações alquímicas e os meus conteúdos psíquicos. As emoções recorrentes, os ressentimentos, as tendências, os vícios emotivos. Os monstros internos.

Comecei a perceber as ressonâncias entre os estudos e o meu estado de saúde, como se eu estivesse realmente me intoxicando e me limpando a cada etapa. Como isso acontecia? Como os estados emocionais extremamente difíceis geravam estados de saúde também complicados? Como essa relação era possível? Como explicar o efeito psicosomático do trabalho?

Durante o trabalho com a Alquimia eu só tive olhos para as etapas a serem cumpridas. Apenas aceitei o que acontecia naquele momento, mas a questão seguiu depois que os trabalhos foram concluídos.

Onde eu poderia encontrar essa co-relação entre os estados mentais, as posições corporais, os climas emotivos, a atitude perante a vida, a postura de vida, o posicionamento frente a vida?

Um homem tem determinada perspectiva sobre si mesmo e desde ela se coloca em relação aos demais. Essa perspectiva sobre si gera uma espécie de personagem que este homem representa no mundo. Isso se parecia demais com o algoritmo! O personagem é representado no corpo do ator. Na maneira como ele se expressa, na fala, nas maneiras, na postura… O que somos é para o outro uma representação, um significado. E isso vai definir a maneira como nos relacionamos.

Como fazemos isso? Os processos que eu vivi na alquimia, moldando meu corpo a cada etapa, moldando o significado da minha presença em relação aos outros, redefinindo um projeto de vida, clareando meu propósito de estar aqui. Me localizando em relação a minha própria experiência. Como fazemos isso? Como isso acontece? Isso já foi estudado? Onde eu posso encontrar essa informação?

O Propósito. A razão de estar vivo, de fazer parte da experiência, aquilo que realmente vim expressar para além do algoritmo das expectativas tinha algo a ver com “toque e transcendência”. Isso é o que consigo traduzir da experiência. É possível um amor sem objeto externo que o condicione? Um amor que não vê o externo como algo para si? É difícil trazer algo claro desse lugar de onde o Propósito brota. O registro da experiência é claro, mas não consigo definir melhor do que isso.

Em algum momento do meu processo no Movimento Humanista eu conheci um sujeito chamado Nestor Luz, que foi a pessoa que me apresentou o Ayurveda e os tipos constitutivos (Vata, Pitta, Kapha). Isso era muito similar ao que o Movimento Humanista apresentava como tipos humanos (Motriz, Intelectual, Emotivo, Vegetativo). Só muito mais tarde é que eu vim conhecer Gurdjieff, que acabou sendo a ponte entre esses dois mundos.

Depois o Paulo Panzeri trouxe uma abordagem toda sua, num trabalho com os desbloqueios corporais que em alguma medida usava o conhecimento que ele tem de yoga. A teoria do Ayurveda não me era estranha, porque eu já tinha encontrado algumas coisas do Deepak Chopra nos livros do Fritjoff Capra. Mas não tinha nenhum conhecimento além desse.

No entanto, assim que conclui meus trabalhos com a Alquimia, eu tive certeza absoluta de que precisava aprender a massagem que o Nestor fazia (e que eu nunca recebi). Não tinha nenhuma informação de como aprender isso, nem de onde ele estudou isso. Não tenho o contato do Nestor a muitos anos e não tinha nenhum dinheiro para ir à Índia ou para pagar os cursos aqui mesmo no Brasil.

As coisas se deram de uma maneira tão interessante que eu acabei conseguindo fazer parte de um grupo de estudos sobre Ayurveda com o Pedro Nebesnyj, no Viavidya. Ali também comecei a receber a massagem ayurvédica do Pedro. Desde o início meu desejo era aprender a massagem, mas eu não tinha nenhuma familiaridade com a abordagem ayurvédica e a cultura do yoga ainda me era um tanto distante. Então o grupo de estudos foi o meu portal para esse conhecimento e algum tempo depois, recebendo uma massagem do Pedro, eu pedi a ele que me ensinasse a técnica.

O Pedro formou um grupo e durante quase um ano nós fomos aprendendo a técnica de massagem e estudando a parte teórica do ayurveda. Nesse periodo eu comecei a fazer parte de um grupo de estudos sobre Magia com o Hugo Leal, sem nenhum interesse a não ser a curiosidade. Não achava que isso teria nada a ver com a massagem, com o Algoritmo, com o Movimento Humanista, nada. Na realidade, eu achava que aquilo tudo era uma fraude, o Hugo incorpora algumas entidades e eu queria descobrir em que medida aquilo era atuação e porque tanta gente acredita nisso.

Ao contrário da massagem, em que eu entrei de corpo e alma, o curso de magia era sempre uma luta. Eu continuava indo, dia após dia, na esperança de entender aquela farsa toda e não cair mais em nenhuma farsa. Queria entender o esquema, como é que isso acontece sempre e sempre. No entanto, as entidades traziam informações extremamente lúcidas sobre o processo humano, sobre a nossa consciência, as nossas falhas de percepção.

Comecei a perceber que a entidade “baixava” no momento em que o grupo começava a dissipar energia no confronto, na dialética, mas também nos momentos em que o Hugo não sabia como lidar com a situação. Então comecei a pensar que era uma estratégia de manipulação, de controle. Mas porquê dá certo? Como dá certo? Nosso nível de atenção muda quando a entidade se apresenta. Não é como uma cena.

Eu fiquei praticamente um ano tentando entender como é que o truque acontecia, como a cena se dava. Conversas com o Hugo sobre como aconteceu a incorporação, como são os registros físicos, se ele se lembra de alguma coisa, como ele entende que é isso, se ele acha que é um espírito que baixa nele… Eu comecei a ver que ele realmente crê nisso, então não era uma fraude. Algo acontece com ele, algo muda nele e ele aprendeu a dizer que isso que muda é algo que se incorpora nele. Algo que vem de uma outra instância, algo além da perspectiva que ele tem sobre si mesmo. E esse “algo” tem informações que são relevantes para o processo dele e de todos nós.

O que é esse “algo”? Ele aprendeu que é uma entidade, um fluxo. Mas ele sabe que isso é só o que ele aprendeu. Então fica aí. Explica o que é, com uma enorme coerência interna, mas sabe que isso é só uma explicação e que não vai dar conta de traduzir o fenômeno. Você pode usar qualquer mítica que desejar. Vai perceber que essas míticas têm muitas coisas em comum, no sentido de descrever esse tipo de experiência, mas vai perceber que todas elas chegam nesse limite de explicação possível e não conseguem avançar a partir daí.

Ele se coloca à disposição desse “algo”. Sente a presença disso. Em alguns momentos ele dá passagem a isso e em outros ele contém. Não é porque a voz muda ou aparece um sotaque que nós sabemos que as “entidades” que ele dá passagem são diferentes. É algo que acontece com a nossa atenção. As pessoas costumam falar sobre “energia” como se nós estivéssemos sendo afetados por um campo externo que nos imanta. Acho que essa descrição faz sentido, mas eu prefiro dizer que é algo que acontece com a nossa atenção, um foco diferente, uma perspectiva diferente. Um acesso à informação que acontece num nível que eu não estou habituado.

A todo tempo eu retomava o meu trabalho com a improvisação teatral e os estados mentais e informações que chegavam neste estado. Essa consciência não-habitual. Ali eu estava incorporando, na maneira como o Hugo entende incorporação? E as experiências que fizemos com a “ressonância”, com contar uma história de nossa vida absolutamente abertos ao que ela significou para nós. Algo mudava na atenção da platéia. Não era o mesmo que contar uma história de outra maneira… É isso o que acontece no grupo? Esse é o terreno que eu atravessei na alquimia?

A informação verbal que é passada, os exemplos, etc… estão no nível de uma aula qualquer de qualquer assunto, mas existe esse campo, essa outra coisa, que é comunicada nesse lugar dessa atenção diferente. Não é verbal. Não tem imagem alguma que o traduza. No entanto, é aí que a coisa acontece. É nesse “terreno” que as orientações sobre o nosso processo são dadas. Então, alguns dias mais tarde, algo brota de nós como uma inspiração, um insight. Algo estruturado de uma maneira que para nós faz um sentido absurdo. Não é que aquela idéia foi enfiada na sua cabeça, mas aquela experiência gatilha algo que ressoa em você e é traduzido por você segundo a sua maneira. Que “campo” é esse? Como essa comunicação é possível?

Foi o Hugo que me trouxe o conhecimento de Castañeda (“A erva do diabo”, etc), Gurdjieff/Ouspensky (“Fragmentos de um ensinamento desconhecido”, “O quarto caminho”, “Tertium Organum”,”Um novo modelo do universo”, “Relatos de Belzebu a seu neto”, “Encontro com homens notáveis”), Pietro Ubaldi (“A grande síntese”), Jacques Monod (“Acaso e necessidade”).

Na exposição de diversos sistemas mágicos, acabamos por aprender que existem pontos em comum. Para todos eles, o ser humano não é algo concluído. É um broto de uma possibilidade. Temos a opção de fazer a fagulha de nossa intenção se tornar uma chama, ou de manter o fogo que recebemos quando nascemos, até a hora em que formos embora.

Se quisermos expressar aquilo que realmente podemos ser, existem técnicas e passos muito claros. Em outros momentos, outros homens estruturaram esses passos obedecendo certas leis de processo, de evolução, que na realidade são bastante simples de serem compreendidas. O grande impedimento é que precisamos realizar um esforço para isso. Para conservar o fogo, basta criar um berço adequado e protegê-lo das intempéries. Para produzir o fogo, é necessário esforço. Atrito. Energia aplicada. Intenção firme. Método. Um algoritmo.

Não o algoritmo das expectativas. Não.

Esse é eficaz para manter o fogo longe das intempéries, é um berço eficiente, mas não leva o fogo a altas temperaturas.

Para levar o homem a realizar seu propósito é preciso um algoritmo próprio para isso.

Nossa estrutura bio-psíquica tem alguns pontos precisos de crise e decisão de processo. Qualquer ação nesses pontos, tende a se configurar num condicionamento, num automatismo, que vai definir o funcionamento das estruturas que surgem nesses momentos de processo específicos.

Esses momentos parecem ocorrer a cada sete anos, por uma razão que eu ainda não conheço. A cada sete anos, passamos por uma grande crise processual e isso abre a porta para um próximo ciclo cujas condições de origem serão determinadas pelo ciclo anterior.

Eu intuo que isso tem algo a ver com aquilo que os orientais chamam de Chackras, porque o termo significa “Roda”, que na terminologia do algoritmo significa “loop”, “iteração”, “repetição”, “escala”. A cada etapa da vida, estamos ligados ao desenvolvimento de um desses “loops”. A maneira como interpretamos uma variável externa vai condicionar esse “loop” numa direção ou em outra. Isso vai condicionar o desenvolvimento e andamento do loop seguinte.

A cada etapa, uma experiência marcante, uma experiência de pico poderia fazer o ajuste desses loops de maneira que aquele ser possa expressar sua totalidade. Isso pensando em termos de educação, de acompanhamento passo a passo de um ser humano.

Em termos de saúde seria lidar com um ser humano em estágio avançado de desvio e ajudar a que ele encontre o seu rumo.