Humanum est

Eu fui crescendo e as coisas prontas do mundo foram aumentando.

Eu digo as coisas prontas, porque quando eu era menino, eu ia criando coisas com pedaços de coisas e fazendo isso, eu aprontava um mundo que se acabava em brincadeira.

No começo de quando eu fiquei grande, eu ainda era esse menino aprontador.
Eu pensei que trabalhar era isso e brincava no serviço, criando coisas que o cliente não aprovava. Num é certo.

Daí peguei o jeito daquilo que funciona pra todo mundo e quando eu vi, já estava fazendo coisas que estavam prontas antes mesmo de eu começar a fazê-las.

Daí a invenção foi se apagando e o mundo ficou cheio dessas coisas prontas.
E por mais que eu trabalhasse, não tinha nada pra fazer.
Já tava tudo feito.

Um dia eu acordei com dor no peito de ir pro trabalho.
Queria ficar na cama, achei aquilo tudo errado.
Tinha boleto, conta no vermelho, prestação e prazo.
Se eu levantasse aquele dia, era só pra ganhar dinheiro que eu acordaria.
Não quis acordar.
Não teve acordo.
Fiquei doente e era remédio que me deram.
Remédio pra eu ficar bom.
Pra amansar o peito.
Pra continuar acertando, fazendo o pronto.
Batendo ponto.

Daí não teve jeito de eu acertar o rumo.
E eu tive que sair.
Fiquei sem serviço.
Sem nada pra fazer.
Sem função nenhuma.
Sem emprego.

No começo eu nem achei falta.
Mas a vida tava toda tão penhorada nas contas, que uma hora eu me desmantelei.
A luz sumiu, cortaram a água, a saúde ficou sem plano e eu tive que devolver a casa.
Sobrou só as ferramentas.

Daí eu voltei pra trás, atrás do menino.
Fui caçar o rumo do acerto.
Fui brincar, zanzando pra lá e pra cá.

Eu queria experimentar coisas novas, mas não sabia botar dinheiro nelas.

Larguei mão dele, então.
Daí eu vi que num era o dinheiro.

Era que eu tinha medo que não gostassem.
Tinha medo de fazer de novo e de novo e de novo… até chegar numa coisa que o cliente gosta, mas eu acho bosta.

Tava com medo de fazer coisa errada.

Daí que eu pensei que a gente não pode levar a vida tentando agradar. A gente tem que se agradar dessa coisa que fica dentro de nós e que nunca tá pronta.

E a gente vai botando ela pra fora, nas coisas que a gente faz.

E que a gente não pode ter medo de errar.

A gente anda sem rumo, mas anda no nosso passo.

E vai tentando e tentando.

E quando cai, levanta.

E uma hora, fica bão.

Notas sobre o Palhaço

Hoje é quatro de fevereiro de 2015.

Sem nenhuma das minhas velhas razões para fazer isso, eu me inscrevi num curso de palhaço, com a Quito. Não estou fazendo teatro, não tenho nenhum projeto em mente, não estou à procura de editais e nem me cooperativei novamente.

Eu só estava cansado da seriedade e me lembrei de o quanto era divertido ver as pessoas rindo por uma coisa que eu tinha inventado. Queria entender esse lugar do humor na vulnerabilidade, pensei que isso poderia me ajudar como terapeuta, que é como eu estou agora.

Então estou indo para o meu terceiro dia no workshop. E até ontem à noite, eu estava muito a vontade. Mas daí, eu fiquei inquieto… Comecei a pensar que devo estar fazendo alguma coisa errada. Devo estar escondido atrás de alguma técnica invisível, dessas que a gente desenvolve depois de longos anos praticando uma coisa.

Eu entro em cena e não tenho nada muito claro. Tenho uma vaga idéia de um caminho por onde eu poderia seguir. Se ele dá certo, ótimo. Se ele não dá certo, tudo bem. A cabeça funciona numa velocidade incrível e sempre dá para aproveitar alguma coisa que está acontecendo e resolver a cena de um jeito engraçado. Timming, sempre, já internalizado, já resolvido. Vinte anos fazendo comédia. Praticamente. Improvisando, resolvendo.

A Quito propõe o jogo e eu fico ali um tempo, vendo como meus colegas jogam. Vendo essa hora em que a estratégia não funciona e ninguém acha a menor graça no que você faz. Vendo como a gente cai na tristeza nessa hora e como isso te leva a energia de cena. E então, quando eu tento fazer isso, não acontece nada. De algum jeito, muito rapidamente, eu resolvo a coisa e a platéia gosta.

Estou fodido, entende?

Eu sei exatamente que lugar é aquele ali que aparece nas cenas dos meus colegas. Eu sei. E eu passo por ele batido. Dou um jeito. Ao menos ali, na cena, eu resolvo a coisa. Mas então eu fiquei pensando que eu não resolvo isso sempre na minha vida. No tempo em que eu estava atuando.

Não.

Eu chegava para fazer um teste numa produtora qualquer e me davam um papel com meu nome e idade. Depois, alguém me vestia de acordo e o assistente me dava um papel com um texto pequeno para decorar.

Desde o momento em que eu chego na produtora e vejo mil colegas na fila, todos eles endividados como eu, todos eles tentando ser divertidos, falando sobre os projetos e etc, desde o primeiro segundo até o momento em que finalmente chega a minha vez e eu começo a cena, sem ter certeza de que é isso o que eles querem, se eu estou bem, se vou ganhar aquela grana, se o outro cara foi melhor do que eu, se aquela cara do assistente é cansaço, tédio, desolação pela minha cena ou se é algo da vida dele que não vai bem, se aquele cara da câmera atendendo o celular durante o trabalho se ele já sabe que eu não sirvo pra isso… E então eu me lembro que esqueci a DRT em casa e eles não vão me pagar o cachê teste, que é uma miséria sempre… Ali eu não consigo me divertir! Ali entra algo que acaba com o Palhaço, se é que é ele quem se expressa quando eu entro em cena.

Somente uma vez na minha carreira eu não senti isso. Foi quando eu fiz o teste para o “Cabeça”, num seriado on-line para a Locaweb. Foi algo externo a mim, algo que eu não manejei ainda. O briefing era muito bom e o personagem não tinha tantas falas no roteiro. Eu podia fazer o que quisesse. Então eu me diverti. Fiz o que bem entendi, mesmo que desse errado. Eu aproveitava qualquer estímulo e incluia no aloprado. Pronto.

E aí peguei o papel. Voltei de um outro trabalho e parece que toda a equipe falava do meu teste, que tinha sido ótimo. As pessoas já sabiam quem eu era. E nas filmagens, eu sempre me divertia muito.

Isso até que o Cabeça deu certo.

Então, o cliente arranjou mais texto para o Cabeça. Criamos o “funk do cabeça”e aí, depois disso, esse outro “algo”apareceu e tudo aquilo ficou muito amargo para mim.

Hoje está parecendo pra mim que o Palhaço é o diabo desse Ator que pretende o sucesso, a fama, a glória, os rios de dinheiro. Parece que ele é a verdade desse “Gênio-incompreendido”, desse ator sem importância, fracassado, cheio de dívidas e mentiroso.

De volta ao palco e então eu sinto o perigo da situação. A platéia pode gostar ou não do que eu faço. À princípio, eu esqueço completamente deles. Só me lembro que estão ali, quando dão as primeiras risadas. Então percebo que funcionou  e continuo jogando.  Ali, na terra da Micagem, eu domino.

Mas nessa vida a sério, essa sensação de fracasso, de humilhação, de miséria, de incompreensão, de abandono, ela me desanima e me faz desistir de ser visto.

Sabendo que sou eu, num estado ou no outro, aquele que atribui valor em ambas as situações.

Eu gostaria de tomar contato com esse lugar de desconforto e ver o que acontece, quando eu entro nele. Será que isso vai acontecer em algum momento, nesse workshop?

Será que eu descobri, de algum modo, com essa associação de idéias um modo de trazer o Palhaço adiante quando a humilhação for inevitável?

Me parece que tudo o que fiz de arriscado foi conduzido por esse espírito do Palhaço. Tudo. Essa maneira de dar respostas à vida com o mote: “Não sei fazer isso, nunca fiz isso, preciso desse recurso e na hora eu dou um jeito, faço qualquer coisa, resolvo, mesmo que dê errado”. E resolvo.

Então entra o “ARTISTA”, o “GÊNIO” e ele me fode!

Ele não entra em cena, como o Palhaço.

Não. Ele fica nos bastidores, contando os espectadores, lutando contra as opiniões e as críticas, reclamando das péssimas condições de trabalho, chorando pelo cachê teste e a falta das políticas culturais.

Eu ainda não sei se esse estado em que entro quando estou em cena e as pessoas riem é o estado do Palhaço. Eu me sinto vulnerável ali, mas não me importo.

E parece que com isso sou invulnerável.

Só gostaria de ser assim durante mais tempo na minha vida.