Humanum est

Eu fui crescendo e as coisas prontas do mundo foram aumentando.

Eu digo as coisas prontas, porque quando eu era menino, eu ia criando coisas com pedaços de coisas e fazendo isso, eu aprontava um mundo que se acabava em brincadeira.

No começo de quando eu fiquei grande, eu ainda era esse menino aprontador.
Eu pensei que trabalhar era isso e brincava no serviço, criando coisas que o cliente não aprovava. Num é certo.

Daí peguei o jeito daquilo que funciona pra todo mundo e quando eu vi, já estava fazendo coisas que estavam prontas antes mesmo de eu começar a fazê-las.

Daí a invenção foi se apagando e o mundo ficou cheio dessas coisas prontas.
E por mais que eu trabalhasse, não tinha nada pra fazer.
Já tava tudo feito.

Um dia eu acordei com dor no peito de ir pro trabalho.
Queria ficar na cama, achei aquilo tudo errado.
Tinha boleto, conta no vermelho, prestação e prazo.
Se eu levantasse aquele dia, era só pra ganhar dinheiro que eu acordaria.
Não quis acordar.
Não teve acordo.
Fiquei doente e era remédio que me deram.
Remédio pra eu ficar bom.
Pra amansar o peito.
Pra continuar acertando, fazendo o pronto.
Batendo ponto.

Daí não teve jeito de eu acertar o rumo.
E eu tive que sair.
Fiquei sem serviço.
Sem nada pra fazer.
Sem função nenhuma.
Sem emprego.

No começo eu nem achei falta.
Mas a vida tava toda tão penhorada nas contas, que uma hora eu me desmantelei.
A luz sumiu, cortaram a água, a saúde ficou sem plano e eu tive que devolver a casa.
Sobrou só as ferramentas.

Daí eu voltei pra trás, atrás do menino.
Fui caçar o rumo do acerto.
Fui brincar, zanzando pra lá e pra cá.

Eu queria experimentar coisas novas, mas não sabia botar dinheiro nelas.

Larguei mão dele, então.
Daí eu vi que num era o dinheiro.

Era que eu tinha medo que não gostassem.
Tinha medo de fazer de novo e de novo e de novo… até chegar numa coisa que o cliente gosta, mas eu acho bosta.

Tava com medo de fazer coisa errada.

Daí que eu pensei que a gente não pode levar a vida tentando agradar. A gente tem que se agradar dessa coisa que fica dentro de nós e que nunca tá pronta.

E a gente vai botando ela pra fora, nas coisas que a gente faz.

E que a gente não pode ter medo de errar.

A gente anda sem rumo, mas anda no nosso passo.

E vai tentando e tentando.

E quando cai, levanta.

E uma hora, fica bão.

Crochê

Antes de eu saber o que era mandala, eu aprendi o que era crochê.

Minha mãe e tias tinham aprendido a arte com a minha avó e durante a minha infância, acompanhei muitas horas dessas tramas sendo tecidas, enquanto elas conversavam sobre a própria vida ou a vida de outros.

A linha vem numa espiral enrolada num novelo. E então a gente vai desenrolando essa espiral e tecendo os nós com uma agulha em forma de gancho. O padrão vai emergindo aos poucos, à medida que as carreiras se entrelaçam e volteiam sobre si mesmas, fazendo novo traçado, numa nova dimensão. Então temos a linha, o nó (ou ponto), a carreira (ou corrente), as casas (cheias e vazias), os motivos de diferentes geometrias. Espirais sobre espirais. Tramas sobre tramas. Dimensões superpostas.

E então isso virava colcha, vestido, fronha, camiseta, almofada, toalha de mesa, barrado. A utilidade, configurando outra dimensão.

Essas coisas que doem no corpo da gente, essas tensões, a gente também chama de nós. Então um dia, massageando as dores de alguém, eu me lembrei do crochê. Me lembrei que quando algo imprevisto acontecia e minha mãe errava um ponto, ela tinha que desmanchar toda a carreira para começar tudo de novo.

Uma das coisas mais bonitas do crochê é essa percepção de que não se pode continuar de qualquer maneira, sem resolver os erros em cada etapa. Isso sempre vai comprometer todo o resultado. Você precisa aprender a fazer o ponto certo. Mas também precisa aprender a lidar com seus erros e a corrigi-los. Puxar a linha da trama, desfazer o nó incorreto, voltar a tecer a trama.

Essas histórias que a gente entrelaça uma nas outras a gente também chama de trama. Um dia, escrevendo uma peça de teatro, eu também me lembrei do crochê. Lembrei da minha mãe empilhando os motivos numa sacola para depois juntá-los e dar a forma de uma toalha. Sendo também a peça de teatro uma trama feita de motivos distintos.

Elas teciam sem olhar para a linha, em alguns momentos. Me surpreendia ver essa tia que tecia o crochê enquanto assistia televisão. Quando o ponto era muito complexo, ela olhava para o que estava fazendo. Quando aquilo se configurava como automatismo, ela conseguia assistir televisão. Entre uma coisa e outra, emitia uma opinião sobre o que estava acontecendo na novela e eu sempre me perguntava como era possível que ela nunca perdesse o fio da meada. É claro que perdia. Às vezes errava um ponto ou confundia algo na trama da novela. Mas no geral, seguia com o crochê, desenrolando o novelo, enquanto se enrolava na novela.

Esses automatismos que a gente vai desenvolvendo, são estratégias que a gente vai desenvolvendo para não perder o fio da meada. Dependendo de onde está a nossa atenção no momento em que os configuramos, nos desenrolamos com eles ou ficamos cada vez mais enrolados. Liberação ou aprisionamento, dependendo apenas de onde colocamos a nossa atenção.

Eu já era adolescente quando isso me ocorreu pela primeira vez. Eu no computador, fazendo um programa em BASIC, e minha mãe na sala, tecendo seu crochê.

Na programação, aprendi a criar funções. Você tem alguns problemas que se repetem, não importa qual seja o programa que você está desenvolvendo. Então você cria uma estrutura para resolver esses problemas e essa estrutura se chama algoritmo. Com um algoritmo, você pode escrever uma função em qualquer linguagem. Essas funções vão sendo agrupadas numa biblioteca. É como uma caixa de ferramentas de programação. Nem sempre você vai usar todas, mas elas estão ali, salvas em algum lugar e você só precisa acioná-las com alguns parâmetros estabelecidos e elas vão retornar valores que você vai usar adiante.

Isso se parecia com os motivos que minha mãe guardava sempre nas suas diversas sacolas. Coisas que ela achou que ficariam boas em suas construções, mas que não serviam. Ou coisas que ela tinha feito apenas para treinar um novo ponto. De repente, ela se lembrava daquele bloco já pronto e percebia que aquilo poderia virar uma aplicação numa toalha de banheiro.

Foi só muito depois que eu fui aprender algo sobre hinduísmo, que é uma outra caixa de ferramentas. Existe essa palavra, cheia de sentidos, que foi lida no ocidente apenas como pecado ou maldição. Uma das minhas tias sempre foi chamada por essa palavra até que um dia começou a duvidar que esse nome fosse bom para ela. Carma, minha tia.

Karma, método, procedimento, abordagem. A idéia de que o resultado de algo é o efeito das ações empregadas para gerá-lo. Você tem um problema e desenvolve um método para abordá-lo. Esse método se revela ineficaz em determinadas condições. Você refina o método, e tenta uma vez mais e outra ainda. Essa repetição infinita, o loop existencial é Samsara.

Quando o método se encontra perfeitamente refinado, vira uma ferramenta útil. E é possível se liberar dele.

Então a Mandala surge. E com ela, o sentido de unidade.

 

A velha

Então eu vejo essa menininha entrando nesse jardim abandonado.

O mato cresce solto, sem nenhum cuidado, por toda a parte.

Não entendi bem de onde a menina veio. Parece que chegou aqui por acaso. Talvez esteja perdida.

Ao mesmo tempo que eu, a menina vê a velha sentada no banco.

A velha tricota infindavelmente uma manta que se arrasta pelo chão.

Não consigo explicar essa sensação de perigo que sinto ao ver a menina se aproximando da velha para pedir, talvez, informações sobre como sair daqui.

“Bom dia, eu estou procurando a saída desse lugar.”

“Talvez seja uma boa idéia você voltar por onde veio.” – responde a velha, usando a lógica com a qual tricota.

“Não sei por onde vim. Quando me dei conta, já estava aqui.”

“Hmmm.”- resmunga a velha, como se estivesse diante de um problema de difícil resolução.

“Desculpe. Eu não me apresentei antes. Meu nome é Carolina. Eu cheguei até aqui, não sei como e agora gostaria de sair. Estou preocupada com os meus pais.”

“Carolina?”- a velha então ri.

“Sim, Carolina. Por que a senhora riu?”

“Porque você disse que seu nome é Carolina.”

“Sim. A senhora conhece alguém com esse nome?”

“Seu nome não é Carolina.”

“É sim!”- responde a menina sem entender direito onde a velha pretende chegar com a conversa.

“Entendi. Eles disseram a você que seu nome é Carolina.”

“Todo mundo me chama de Carolina.”

“Mas o seu nome verdadeiro é Nádia.”

“Como?”

“Nádia.”

“Não. Nunca.”

“Esse casal, que você chama de pais, eles não são seus pais de verdade. Eu conheci sua família, muito tempo atrás…”- foi aqui que eu me dei conta do que a velha estava fazendo. Eu queria gritar, avisar a menina para sair dali, mas estava paralisado.

“Seus pais morreram num acidente de carro quando você ainda era um bebê. Você foi a única sobrevivente e então esse casal lhe adotou e chamou você de Carolina.”

“Não, não é verdade!”

“Nádia. Filha de Ivan e Micaela. Os dois mortos, num acidente de carro.”

Eu sabia que era mentira.

Que a velha estava inventando essa biografia por pura maldade.

Mas a menina, a menina não sabia.

Ela estava acreditando na velha.

A velha e todas as histórias já contadas, todos os roteiros já previstos, toda tragédia do mundo, esmagando a história que a menina conhecia sobre si mesma, também essa uma história contada por outros.

Eu sabia que a esperança estava em a menina ser capaz de tecer a própria história, mas não podia me mover. Não podia fazer nada a respeito.

Eu era testemunha dessa morte e não podia sair dessa condição.

Foi então que eu percebi o pesadelo.

E acordei.

Autonomia é Rebelião

Na escola eu aprendi que os modos de viver de outros povos eram atrasados e que a história era uma sucessão de progressos que levava fatalmente à Revolução Industrial, depois à Revolução Verde e finalmente à Hiroshima e depois ao Vietnã de Stallone. Na minha adolescência, a ficção e a história se misturaram definitivamente e durante algum tempo, eu cheguei a crer na guerra e na matança como ferramentas de limpeza daquilo que era indesejado. A guerra sendo o Pinho Sol da história.

Então o desconforto de achar algo errado nessa lógica. Esse desconforto e mais a imensa quantidade de hormônios circulando por todos os lados e uma enorme confusão mental.

E eu fui seguindo o roteiro pronto. Seguindo o roteiro pronto daquele que se rebela e resolve fazer as coisas “do seu jeito”. Então, enquanto meus amigos iam por ali, eu ia por lá. Enquanto se meteram a ganhar dinheiro, eu me opus a isso. E achei que essa oposição era fazer o que se gosta e que fazer o que se gosta era não ganhar dinheiro. Neguei o dinheiro. Neguei o meu próprio valor ao negar o dinheiro e o caminho de meus amigos. Na verdade, eu traçava o caminho dos meus amigos ao negá-lo. Era preciso que eu estivesse ali, negando esse caminho, para que aquele caminho se definisse como verdadeiro.

Fui dando o meu jeito de permanecer abastado, mesmo à margem. Mas permanecia dependente daquele caminho, como se aquele caminho também margeasse o meu. Como se, na ausência dessa oposição entre os caminhos, não houvesse nenhum contorno definido entre uma opção e outra. Como se nessa ausência, eu me desse conta de que não tínhamos ali nenhuma opção. Ficar entre alternativas já estabelecidas não significa fazer as coisas do seu jeito.

Qual a escolha real?

Fazer as coisas do meu jeito. O que significa isso? O quanto estou disposto a isso? Isso realmente significa autonomia? Eu precisaria me apartar de todos os outros para fazer as coisas do meu jeito?

Então vamos a isso.

Enquanto eu permanecer à margem, o caminho que impera vai continuar definido. Então não ficarei à margem. Enquanto eu negar esse caminho, ele se afirmará. Então não o negarei. Enquanto me oponho a ele, mas dependente dele eu fico. Não me oporei a ele. Mas também não posso colocar nele nenhum recurso meu. Nada. Nem meu afeto, nem minha mente, nem meus atos.

É preciso cortar a dependência desse outro caminho para que o meu se defina. Então é preciso definir o meu caminho para além da oposição. É preciso ganhar minha própria ação e arcar com a responsabilidade total sobre isso. Coração, mente e braços totalmente engajados nisso que chamo de autonomia. Que é um caminho meu apenas e não tem nada com o outro. Não tenho nada com ele e ao mesmo tempo, busco relação com ele sem me envolver nas suas coisas. Busco o benefício da relação, ofereço o meu melhor e deixo o outro em paz com sua escolha e seu caminho.

E sigo adiante, quando bem entender.

 

 

A tradução do ir-se

No passado, eu teria apenas ido para uma outra geografia e estaria distante de você e de seus assuntos. Mas agora, com tantos aparatos, você me demanda mesmo à distância. Um número de celular e já estou novamente nas suas coordenadas, recebendo seus pensamentos e suas preocupações e sua idéia de que eles me pertencem de algum modo. Demandando as minhas ações para os seus problemas. Trocando isso por algum afeto existente entre nós. Usando o afeto como a moeda, agora de forma clara.

Então um recado e suas garras se estendendo ao meu redor, pretendendo me mover novamente para a sua órbita. Não.

Não farei. Não me moverei. Não resolverei seus problemas.

Não tenho nada com eles e só me importo com o fato de que você ainda não compreendeu a noção de distância.

Me deixe em paz.

Chiaroscuro • A predominancia da visão

Sendo um blog, eu posso me dar ao luxo de publicar um artigo incompleto, uma reflexão ainda em processo. Não é uma tese, ou dissertação e ainda me faltam mais dados para expor claramente essas associações. Então elas ficam no lugar onde o artista predomina sobre o cientista, e logo ali adiante, num outro artigo ou numa conversa qualquer, a idéia brota inteira.

Celeritas, (velocidade ou a relação entre tempo e espaço) é a origem do nome da constante c=299 792 458 m/s, que corresponde à velocidade da luz no vácuo.  Um objeto a altas velocidades, próximo à velocidade da luz, não pode ser acelerado até, ou mais que, a velocidade da luz, não importando quanta energia é transferida ao sistema. Matéria estando sempre abaixo dessa velocidade, não importa quanta energia se transfira ao sistema. Quanto recurso se use para isso.

A quantia máxima de energia que se pode obter de um objeto é dada pela massa do objeto multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. E então, estamos limitados a isso, essa é uma espécie de cerca para os objetos materiais se manterem como objetos materiais, ali adiante, perdem coesão, perdem consistência e geram enormes quantidades de energia nestes processos. Uma energia que desintegra o objeto material como tal, que não lhe permite a continuidade. Então, em direção à luz, objeto material se converte em algo similar à luz, mas tal movimento não lhe acrescenta nada. Ao contrário, lhe desintegra completamente. Ele muda de qualidade.

E mais as equações complexas e mais as elocubrações sustentadas nessas equações. E mais o trabalho de mil homens e a prova cabal disso, de que a matéria convertida em energia se transforma em morte, quando bombardeamos Hiroshima. Então, essa violência nos colocou uma barreira. E dali em diante, a matéria e seus processos passou a ser cada vez mais degradada. E com isso o corpo. E todos os outros sentidos que o conectam com o mundo.

Me parece que a equação é a bomba. A grande bomba, antes mesmo de ser detonada. E a detonação como trauma da equação, nos limitando a esse axioma de que, rumo à luz, estamos fadados à morte. E=mc² sendo o Cristo crucificado, a morte do Deus elevado à luz. Então, nos contemos. Paramos aí. Não seguimos adiante. Não avançamos ante à realidade paradoxal que a morte e o além da luz nos propõe. E nossa vida material perde atributos e valores.

Não te parece o mesmo? O mesmo recurso traduzido em novo idioma, em nova época, em nova cultura, mas o mesmo limite? A mesma luz, usada como cerca, o mesmo círculo de giz?

Fadados a permanecer sempre aquém desse ponto onde o particular se converte em movimento para fora, em movimento em direção a algo, sendo esse algo o outro eterno, a realidade para além da cerca do indivíduo.

Que passa com essas metáforas de realidade? De onde surgem essas idéias? E porque, para mim, a imagem de Einstein não difere em nada das construções taoístas de Yin e Yang, da árvore sefirotal Cabalística, do Zodíaco de diversos povos, do Arqueômetro?

Sete cores do arco-íris, doze cores somando as primárias, secundárias e terciárias. Sete e doze, aparecendo milhares de vezes em distintos povos para dividir distintos atributos. Luz e trevas, claro e escuro. A luz, aquilo que possibilita o horizonte e as trevas, que nos colocam em contato com os outros sentidos do corpo. Com aquilo que ouvimos, tateamos, sentimos de dentro de nós mesmos. Com a nossa introspecção. Com aquilo que sentimos para além do que deveríamos estar vendo.

E as ilusões visuais. O rei, vestido de ouro. O rei sol. O máximo em luz. Aquele a quem nós empoderamos porque é um deus. A fronteira para além da qual está a morte certa e a desintegração. E então, o cidadão-corpo, o cidadão-partícula, o cidadão-matéria, ele se conforma com a sua condição. Ele sonha. Ele é lançado nesse mundo de sonhos, onde a luz é algo a ser evitado para que a mente permaneça mais tempo sonhando. Ele abre o olho e então, as ilusões lhe são lançadas. A cerca está lá. A luz, gerada por outros para que ele permaneça ali, sendo particular em seu medo da morte.

E no corpo, o cidadão sente a fome, a escassez, a violência, a presença indesejada de um outro que se converte numa matéria tão suja quanto ele. Seus impulsos em direção ao outro são contidos por decretos, por religiões, por ameaças de todo o tipo. E ele segue só, sentindo que essas coisas são suas. Lhe falta a luz, para perceber o outro à distância. O outro com sua peculiaridade, distinto, mas ainda, o mesmo humano que ele. No escuro, ele só sente a si mesmo. E quanto mais registros de sofrimento tiver do próprio corpo, mais terror ele terá da luz, porque a luz desde sempre significou a morte.

Para onde vamos, quando a luz deixa de fazer sentido?

Para onde vamos quando não estamos atrelados àquilo que vemos e sim aquilo que sentimos? O que diabos é isso que chamamos de energia, que é maior que nós, que está em nós, que processamos de diferentes maneiras inclusive, vendo a realidade de maneira ilusória. Atrás dessa cortina chamada percepção visual.

Atados ao ritmo circadiano, agimos na luz e sonhamos nas sombras. Isso tem alguma relação com o hipotálamo, que regula nossa homeostase (capacidade de adaptação térmica),  conecta-se ao sistema endócrino (todas as secreções hormonais que regulam a química interna do corpo), e o sistema nervoso autônomo (sistema neurovegetativo ou sistema nervoso visceral – o lugar de excelência do centro Vegetativo, de Gurdjieff e Silo). O controle do sistema da vida está intimamente relacionado com a percepção do dia e da noite. O hipotálamo era chamado pelos egípcios de “Olho de Hórus” (o deus dos céus – ou da percepção do dia e da noite, pois um olho do deus era a lua e o outro o sol).

Não é possível atuar sobre esse aspecto do sistema nervoso voluntariamente, quer dizer, um indivíduo controlar o próprio sistema  nervoso autônomo (mas existem relatos de grandes iogues que chegaram a isso). No entanto, você conseguiria uma atuação sobre o sistema nervoso de outros seres humanos se fosse capaz de alterar a percepção deles do ambiente circundante. Como?

Manipulando a imagem. Gerando dia e noite a partir de imagens. Atribuindo significado a determinadas imagens poderosas. Representações de forças titânicas do homem como se fossem figuras externas, na forma de deuses e mitos.

Então você engendraria em milhares o temor à morte pelo temor à lucidez. E os manteria presos a um sonho.

Essa técnica tem sido usada milhares de vezes em distintos momentos da história e funciona repetidas vezes. Do mito de Prometeus  à Lúcifer, de Mitra a Cristo até chegar em Einstein e sua equação. A mesma tradução da luz como limite. E depois da luz, a noite paradoxal e sem imagens.

Por isso algumas iniciações podem ser assustadoras para o status quo. A idéia de “iluminação” (novamente a luz), de acordar de um sonho, de união com o divino, de realizar o propósito, de liberação e finalmente, sair da cerca e do circadiano.

Lucidez vai implicar em ação. Ação verdadeira. Ação conectada com o propósito, com a Verdadeira Vontade.

Dharma.

E rebelião.

Despedida

Queridos,

Eu sempre soube que essa hora chegaria, o tempo em que a casa ficaria justa demais para os meus sonhos e seria preciso remover o teto para voar ainda além. Eu estive aqui, com vocês durante todo esse tempo e partilhei um sonho. Lutei por ele dia a dia, construí dentro de mim essa coisa que agora viva, pede para explorar outros espaços.

Eu não posso permanecer na companhia de vocês sem me sentir tolhendo essa coisa. Eu podia dar a mão a vocês e dizer, “não eu venho um pouco mais, eu fico aqui até que vocês se habituem à minha ausência crescente”. Mas não. É preciso ir e já. É preciso que eu vá, que me distancie desse espaço que compartilhamos durante todo esse tempo. Preciso encontrar o que sou fora daí. Preciso ver o que sobra, quando não estou apoiado nessa estrutura que vocês me oferecem.

De minha parte, dei tudo o que pude e sei que vocês também o fizeram. Se não demos mais do que isso, é porque sentíamos que não podíamos, que seria demais para nós mesmos. E tudo bem para mim.

Foi uma honra partilhar da presença de vocês.

Mas agora, eu parto.

E não nos veremos por um longo tempo.

Estarei ocupado semeando esse sonho.

Nunca deixarei de amar nenhum de vocês.

Vou embora sem mágoas, sem nenhum ressentimento.

Nesse peito, só gratidão.

Namastê

(Para meus queridos amigos e amigas do Viavidya, lugar onde atendi nos últimos três anos)

Physique é preconceito. E não é só…

Em que medida o corpo de um homem representa, significa, expressa o que ele é?

O que define, na aparência de um homem, a adequação a determinada função, a determinado papel que é esperado por outros? Como isso se dá?

O Physique du Rôle sendo o inferno do ator. O lugar intransponível para muitos. Aquele reconhecimento que não se deseja: “chame o fulano, ele tem aquela cara de…”. E fulano segue, representando o mesmo personagem até o final da vida. Encontrado na rua, ele é chamado por esse nome. “Ei, você não é aquele que fazia o …”

Peguemos a nobreza, por exemplo. O que a define na aparência de um homem? Em seus gestos, em seu movimento e na sua maneira de se relacionar com os outros? O que ele gera à sua volta que faz com que nós o interpretemos como rei dos demais? Como ele chega a isso?

Então todos nós, em algum momento da vida, fazemos a opção por um dos papéis disponíveis: eu escolho ser médico. Meus pais pensam que eu seria um bom arquiteto. Meus professores acreditam que eu seria um excelente advogado. Essas pessoas me vêem, de fora, e atribuem a mim um significado. Acreditam que, por determinada coisa externa que eles interpretam em mim, eu poderia cumprir determinada função para eles.

Eu insisto na medicina. E então cumpro todas as ações que as outras pessoas esperam de um médico. Um ritual, um conjunto dessas ações. Que vou cumprindo com maior ou menor dificuldade, fazendo os ajustes necessários, até que chega um momento em que os outros me vêem como sendo o médico. Mas eu ainda não me sinto preparado. O outro, me vê como médico. Eu já significo isso para ele e no entanto, para mim mesmo, ainda falta algo. Esse desajuste entre aquilo que sentimos que somos e aquilo que o outro nos atribui.

Então há o Physique? Eu teria o Physique de um arquiteto para uns e de advogado para outros. E hoje chego a ser um médico. As pessoas me olham e ainda me vêem como o arquiteto? Qual a razão disso? Eu agora sou médico, médico para mim mesmo? Ou diante daqueles que me viam como arquiteto eu fico inseguro das minhas escolhas?

Há sim, no corpo, um sistema de tensões mais ou menos constante intimamente relacionado a algumas estratégias emocionais que usamos nas relações com as outras pessoas. Isso nos veste, mesmo nus. O outro nos vê e vê primeiro esse figurino de carne, com a história das nossas estratégias que deram certo. Ele olha pra mim como um menino frágil, porque isso sempre funcionou na minha relação com outros. Ele olha para mim e vê a minha rigidez de estratégia, a minha doença, a minha prisão. O que eu sou é algo além desse personagem constante e está perdido para mim mesmo.

O homem pode ser o que ele bem entender, mas primeiro precisa chegar a uma nudez ainda mais profunda. Uma nudez que é uma morte.

Então primeiro é preciso desvestir-se desse personagem que criamos para os outros. E se expor numa nudez profunda, uma nudez que revela aquilo que realmente somos, aquilo que viemos expressar aqui. É preciso essa coragem de expressar essa nudez e depois vestir na carne o significado que queremos dar à nossa vida. Muito além do outro e suas chantagens. O outro e aquilo que ele espera que eu seja para ele.

Então o homem pode ser aquilo que ele bem entender.

E ele é livre.

Cuidado

Essa integridade do homem depende de um ambiente muito específico e delicado para acontecer.

Qualquer sinal de luta pela sobrevivência e o sujeito deixa de observar o outro. Ele abandona a prerrogativa do cuidado (no sentido de atender, auxiliar, amparar) e passa a ter cuidado (no sentido de temer, suspeitar, desconfiar). Nessa hora, é cada um por si.

Nós criamos todos esses artifícios de convívio, então criamos leis e regras. E aí, não funciona. Não dá certo. Nós insistimos e gastamos uma quantidade enorme de recursos criando mil maneiras de patrulhar o outro e corrigir seu curso. Mas acabamos por criar pequenas máquinas que nos tiranizam. E logo nos vemos novamente em sobrevivência, lutando com essas máquinas. Desobedecendo as pequenas leis que nós mesmos criamos para nos esconder da nossa responsabilidade com o outro.

A  máquina na forma de uma lei, ou de alguém exercendo um papel determinado porque foi autorizado por todos os outros a ser aquele que patrulha. Então esse, ele mesmo, ele comete um ato baseado no seu medo do outro. E então, ele escapa da máquina e novamente é necessário outra lei e outra coisa e outra punição.

E vamos fazendo as nossas manobras para garantir o máximo de eficácia com o mínimo esforço. E isso na relação com o outro, em modo de sobrevivência, se configura na criação disso que eu chamo de máquinas, que são esses automatismos criados em comum acordo, em pequenos grupos de nós, e que determinam como agiremos de maneira a não mudarmos o significado de cuidado.

Então me parece que o fundamental seria atender a esse ambiente em que o homem se sentisse acolhido. Primeiro isso e depois qualquer acordo, qualquer automatismo, qualquer máquina, mas sempre tendo isso como o primário.

Porque se o homem é lançado em sobrevivência, ele usa seus infinitos recursos para vencer qualquer condição extrema e ele triunfa. Isso é o melhor do homem e não deveria ser tolhido por nenhum automatismo.

Porque entramos em modo de sobrevivência quando nos relacionamos uns com os outros? Essa pergunta me parece ser fundamental, porque me parece que é algo que fazemos quando estamos em relação com o outro e interpretamos a sua conduta de maneira que ela nos parece ameaçadora. Então saímos do cuidado e entramos na zona de perigo.

Eu quero ser aceito. Quero ser considerado. Quero ser tratado de uma determinada maneira.

Quando o outro viola essa maneira, me sinto agredido e então, é cada um por si.

Como agir, com base nessa prerrogativa? Eu quero ser aceito. Quero ser tratado de determinada maneira. Então imponho isso ao outro? Com alguma chantagem? Pode ser então que o outro se submeta a isso, durante algum tempo. Mas sempre como algo para ele. Alguma vantagem oculta para ele como algo que lhe economiza energia, em sua relação para comigo.

Mas sempre que ajo assim com o outro, impondo algo a ele e submetendo-o à minha intenção de ser tratado de determinada maneira, passo a temer que alguém faça o mesmo comigo para que eu o trate da maneira como ele gostaria de ser tratado. Então eu me submeteria a isso, extraindo alguma vantagem para mim, algo que me poupe energia em minha relação com esse.

Estaríamos todos envoltos em uma nuvem de mentiras, escondidos atrás delas para que o outro nos deixe em paz com as nossas coisas. E a nossa vida, aquilo que realmente tem sentido para nós como sendo uma espécie de crime.

Então como começa isso?

Tratar o outro como eu gostaria de ser tratado. Como eu gostaria de ser tratado e porquê? Como eu poderia ser bem tratado sem que isso significasse a anulação do outro?

Porque eu entendo que essa determinada coisa a ser obtida (um bom tratamento) por que eu entendo que essa coisa é que me fará ser uma pessoa melhor?

Então primeiro eu recebo algo do outro para que eu possa lhe dar esse algo? E a ação fica tolhida, sem iniciativa. Fatalmente tendendo ao tipo de cuidado que significa perigo. Significa que o outro pode não me dar esse algo. Ele pode me trair. Novamente o blefe e uma vida abreviada.

E se eu olhasse para o outro.

Se eu o tratasse como eu gostaria de ser tratado.

Se eu desse sempre o primeiro passo, nesse sentido. Na direção de deixar claro para o outro como eu gostaria de ser tratado pela minha ação em direção a ele. Pelo cuidado, expresso nessa ação.

E o outro, como ele interpretaria esse meu cuidado? Como uma ofensa? Sim é possível. Possível que para mim seja um cuidado e o outro considere isso ofensivo e se retraia. Tendendo a mentira. Tendendo a um automatismo que lhe economize energia em relação a mim.

Então na retração do outro eu teria perdido a minha capacidade de compreender como poderia tê-lo tratado melhor. Novamente imerso nisso.

É preciso criar uma comunicação adequada, de uma maneira que nem eu nem o outro nos sujeitemos um ao outro. E ainda assim, cuidado. Zelando por um bom tratamento.

Talvez a palavra seja hospitalidade.

Como quando eu recebo uma pessoa na minha casa, alguém que eu gostaria de me relacionar por um tempo. Então eu ofereço o que tenho e a acolho.

Eu acolho essa pessoa no meu coração por algum momento.

Acolho e escuto.

Eu a trato com o que tenho de melhor e não espero nada dela. A não ser que ela tenha a capacidade de tratar alguém da mesma maneira. Com o que ela tem de melhor.

Isso é fartura e integridade.

E uma vida, fora das nuvens.

Uma conversa

Escute, eu não tenho nada a dizer sobre essas pessoas. Eu não acompanho isso, não as conheço realmente. Aquilo que estão mostrando na sua televisão foi feito para que você e eu tenhamos uma conversa sobre aquelas pessoas, uma conversa que eu não tenho a menor intenção de estabelecer contigo.

Desculpe.

Sabe, é muito estranho para mim que todas essas pessoas à nossa volta estejam se ocupando daquelas pessoas na televisão. Daquele atleta ou do outro comediante. Ou do político e aquele criminoso, ou ainda da vilã malvada da novela. De todas essas fábulas, de todas essas histórias da carochinha. Essas opiniões solicitadas.

Então você e eu nos encontramos e você me aborda com a questão da atitude daquela pessoa na novela ou do criminoso que foi mostrado no telejornal. Eu deveria dizer alguma coisa como, nossa, que barbaridade, ou sei lá eu o quê. Mas eu não tenho nada a dizer sobre eles, assim como não tenho nada a dizer sobre papai noel ou outro amiguinho imaginário.

E te pergunto como anda a vida e você diz que está trabalhando muito e que não tem tempo de nada. Ou que o emprego é uma merda e que você só não muda porque não conseguiu coisa melhor. Ou que o filho está com um problema x. Vai arrematar com algo do tipo, fazer o quê, é a vida… Ou graças a deus, isso ou aquilo. Pelo menos não é como fulano ou sicrano…

E você, em algum momento, vai usar sem perceber um roteiro de novela para explicar a sua importância, a minha ou a do seu filho. Em algum momento, você vai usar um jargão que nem sabe de onde veio, você vai atuar como um protagonista de novela das oito. Em algum momento você vai falar assim, vamos falar de coisa melhor. Chega de baixo astral.  E aí, vai sair da novela pro futebol, do futebol para uma piada, da piada para alguma reclamação sobre o parceiro.

Sempre contando basicamente as mesmas histórias, imprimindo o mesmo significado a elas, a mesma importância. Seguindo um programa, que muda de ritmo quando o tédio se instaura e a audiência do outro diminui.

Mas a vida, ela mesmo, ela não está aí.

Não tem vida nenhuma nessas histórias. Nenhuma ação transformadora, nada.

Você acorda amanhã e se encontra aprisionado nessa narrativa, com poucas variações de fluxo, repetindo uma ação cujo produto final é um tédio pior que a morte. E o tempo segue seu curso, até que o ridículo te alcança e você já não sabe mais o que fazer com ele.

O que você deixou aqui para as gerações futuras? Um monte de coisas começadas e não concluídas? Lixo, lixo e mais lixo? Milhares de historinhas sem sentido, enchendo as cabeças dos próximos a herdar a terra? Atrelado à importância que o outro dá ao seu “trabalho”, entre muitas aspas esse trabalho, porque deveria ser uma ação que gerasse algo, efetivo em direção à vida e não o adiamento da destruição que nós chamamos de fazer algo no mundo.

Privando-os de serem pessoas reais, pessoas com histórias reais, com ações feitas por elas, com gente que arca com a própria responsabilidade de ser vivo, único e estar aqui nesse momento junto com todos esses outros fazendo do mundo algo que respire humanidade?

Então, eu não tenho nada a dizer sobre essa farsa. Não.

Não me ocupo dela. Não digo a você que a televisão tem que melhorar, ou que acabaram-se os bons roteiros ou que o ser humano é algo terrível e que devemos ter sempre cuidado com ele.

Eu sou algo terrível porque me recuso a seguir esse roteirinho mamão com açúcar. Eu ajo segundo minhas próprias opiniões, segundo aquilo que eu acredito que deve ser feito.

Eu sou o terror de estado. O desempregado. O não funcional.

Eu me recuso a isso. Me rebelo e não me importo.

Eu estou aqui, agora e faço o mundo a minha maneira. Eu esbanjo isso. Eu ofereço isso a você e não temo o fato de que amanhã eu possa não ter mais disso. Eu tenho. Tive e sempre terei. Sempre darei um jeito de estar vivo. Agindo conforme meu coração, contando minha própria história através de todos esses atos.

Eu olho o hoje, o ontem e vejo essa linha reta implacável que foi se definindo como sendo a marca que deixo nessa Terra. Essa é minha única oferta e a razão de toda fartura. Pegue isso se te serve e se não te serve, me deixe em paz. Siga seu rumo. Encontre sua linha, sua direção. Conte a sua própria história. Se ocupe das suas coisas e resolva-as. Pare de fugir nas histórias dos outros.

Então, só então, quando você estiver realmente vivo nessa terra, agindo dessa maneira, só então nós teremos uma conversa que realmente nos importará.

E nessa hora, não diremos nada. Porque não será necessário.