O soldado corporativo é o inimigo da democracia

Surtou com a headline.

Isso porque ele fez todo o processo educacional para chegar a esse ponto, de trabalhar nesse grande empresa.

Aprendeu uma série de processos e de maneiras de coordenar ações; recebe uma série de bônus, quando desempenha sua missão de forma exemplar; goza de uma série de benefícios. Um terço do seu dia é dedicado a agir dessa maneira solicitada pela corporação. Entre um sexto e um décimo do seu dia ele gasta no trajeto. Com sorte, dorme outro terço de dia e goza o que sobra. Gozar o que sobra é comprar algo.

Na empresa ele é apenas uma pequena engrenagem de um grande sistema. É preciso realizar as etapas todas do processo no momento adequado, visando sempre o objetivo maior da empresa, que hoje é o de gerar lucro para seus acionistas.

Gerar lucro é moleza: criar valor e diminuir custos.

Você cria valor basicamente usando marketing, que é um jeito de temperar a carniça. Você baixa custos basicamente criando maneiras engenhosas de pagar menos por qualquer etapa do processo (acelerando-o, terceirizando mão de obra para reduzir o valor, usando matéria prima mais barata). Em resumo, o produto é essa coisa mal feita, que vai quebrar logo, que não atende o cliente, mas que você diz que atende. E bem.

As empresas vão ficando apenas com essas pessoas que desempenham funções que estão distantes desse lugar onde o custo precisa baixar.Gerentes, vendedores, técnicos operacionais, engenheiros….

O homem que faz o produto, aquele que realmente lida com a produção, ele trabalha o mais longe possível e de maneira mais barata. De preferência, num outro país, num continente longínquo.

Fora da empresa, naquelas horas que sobram pra ele: ele vê o país através dos meios de comunicação; ele paga suas contas, cada vez mais caras por serviços cada vez piores; ele não tem tempo para participar de política, política é aquela canalhice que aparece no jornal da noite; ele não tem tempo nem gosto de participar de uma reunião, porque as pessoas “falam falam e ninguém decide nada” e ele não vê que ficou acostumado a ter chefe, a receber ordem e que ele mesmo fala fala e não decide, porque tem medo de decidir; e porque está cansado também, porque passa horas e horas no trânsito ouvindo rádio de seguradora; quando ele caga, ele lê aquelas revistas que são empresas como a dele, dizendo as mesmas coisas que ele ouve dentro da empresa; ele não vê que a empresa cercou ele, que quando ele dorme, sonha que foi promovido, que está de férias. Na empresa sempre, mesmo no sonho.

Na TV os ladrões são esses homens que roubam os bancos, que levam as pessoas embora ou que recebem propina. Os ladrões pobres morrem em loop. Mas os ladrões ricos se candidatam a novos cargos. Os ladrões ricos dão lucro a alguém. Como ele. Ele não se sente ladrão, mas vocifera contra o trombadinha e não consegue ver o político sem uma certa dose de admiração. O político é, afinal de contas, um homem bem sucedido. É rico. Tem coisas.

Fatalmente chega o dia do desemprego. O nome: desemprego. Querendo dizer que você não serve para nada. Que você não funciona mais e por isso não merece ser funcionário. Uma coisa velha, sendo descartada com uma indenização e o fundo de garantia (cada vez mais ameaçado, porque uma empresa está de olho na lucratividade da previdência e um grupo de funcionários dessa empresa estuda maneiras de tomá-la de uma vez das mãos do governo). Ele entra com o pedido de seguro desemprego e volta para o mercado de trabalho.

Ele espera uma “recolocação”, porque agora faz parte do estoque de mão de obra desempregada. Ele vale menos agora. Porque a reserva está acabando e ninguém quer pagar o que ele ganhava. Ele precisa desesperadamente entrar no mercado, porque fora do mercado, fora da empresa, ele vê o país que ele construiu não com sua omissão, como ele costuma pensar vez ou outra. Ele vê o país que ele construiu ajudando a empresa a roubar o cidadão.

Mas ele volta aos políticos, aos juízes corruptos e ao fato de esse país ser o Brasil.

“O problema é a gente.”

A gente que ele sangra, quando trabalha e sangra.

A gente que ele é, mas esquece.

Que ele é, mas parece que era na Indonésia, China, Índia, África, Haiti, Bolívia, Taiwan, Bom Retiro… O mesmo, ele.

 

Um exercício de planejamento

Eu hoje vou te propor um exercício de planejamento um pouquinho diferente.

Você pode fazer esse exercício com papel e caneta mesmo, mas se tiver mais familiaridade com softwares de planilhas numéricas, também serve.

Desenhe uma tabela com duas grandes seções. Na primeira você vai colocar suas RECEITAS, isso é, aquilo que as suas fontes pagadoras: seus clientes, empregadores, rendimentos. Na segunda seção, vão ficar as suas DESPESAS, isso é, tudo aquilo com o que você gasta a sua RECEITA.

Mas a gente vai ampliar um pouquinho essas duas noções. Em primeiro lugar, você vai pensar que RECEITA é algo que você obtém em troca da sua energia vital dispendida no tempo. Em segundo lugar, DESPESA vai ser tudo aquilo que você empreende para obter mais energia vital.

Equilibrar o orçamento doméstico é equilibrar o seu dispêndio de energia vital na construção da sua realidade. É muito importante lembrar dessa última parte: “na construção da sua realidade”. É extremamente importante. É aqui que entram os seus sonhos, seus projetos, suas alegrias.

Então não basta que a equação RECEITA – DESPESA se iguale a zero. É preciso gerar um excedente e é nessa sobra que está o futuro.

Para quem eu desejo ceder minha energia vital e meu tempo? Qual a maneira mais eficaz de obter energia vital e tempo para construir realidades?Agora vem a política na coisa toda. É uma pesquisa que vai te tomar um certo tempo, mas você só vai precisar fazer essa vez.

Ao lado de cada produto que você consome, na seção DESPESAS, você vai anotar o fabricante do produto. E ao lado do fabricante, o nome do dono da empresa, ou dos associados conhecidos. Essas pessoas são aquelas que você sustenta quando compra o que elas fornecem, com o tempo e energia vital delas, para suprir a sua energia vital.

Faça a mesma coisa na seção RECEITAS. Anote o nome da suas fontes pagadoras. As empresas, os proprietários e os principais nomes que você se lembrar. Você cede sua energia vital e tempo para que essas pessoas supram a energia vital delas.

Perceba agora como RECEITA e DESPESA se misturam nessa conta. A minha RECEITA é a DESPESA de alguém e vice-versa. A todo tempo você está trocando um quantum de energia vital com outros seres humanos.

E é preciso que a relação seja vantajosa para ambos, se todos quiserem o direito a realizar seus sonhos e projetos futuros. É preciso que se sejam relações que gerem excedentes, certo? Para ambos os elementos. E que ambos os elementos tenham autonomia para gerir esse excedente.

Agora olhe essa lista com sinceridade e veja o enorme desequilíbrio de alguns nomes que aparecem. Perceba agora que certos nomes da sua lista recebem energia vital de grandes conjuntos humanos. Estou falando de monstrengos corporativos com mil braços, que tentam ganhar dinheiro com qualquer movimento que você faz tentando correr atrás de energia vital.

Cada bloco desses sustenta um número de pessoas, age de uma determinada maneira no planeta e remove um quantum de energia que não é reposto. Para onde vai?

Você entende onde quero chegar?

Existe um conjunto (cada vez mais seleto) de pessoas no mundo que você sustenta com a sua energia vital. Na maior parte do tempo, você não percebe onde está colocando essa energia.

Mas esses senhores nos cercaram de tal maneira que, simplesmente por estar aqui vivo estou colocando energia na vida deles a cada movimento meu. E não tenho retorno na mesma medida.

Eu invisto muito nesses senhores. Muito.

Saiba quem são eles na sua vida.

Pare de colocar dinheiro neles.

Veja se é possível e como.

Corte suas relações com esses parasitas.

É isso o que eles são.

 

 

Economia que gera saúde

Queria partilhar esse aprendizado com o dinheiro. Eu sempre tive um certo rechaço com a idéia de concentração de recursos e desigualdade. Normalmente se cria uma justificativa para a concentração de renda tentando igualar diversidade com desigualdade, dizendo que é natural que algumas pessoas tenham mais capacidade de ganhar dinheiro do que outras e que isso faz com que a renda fique concentrada nas mãos de poucos.

Não entendo que é bem assim, mas entendo essa confusão. No nosso aprendizado sobre a partilha,escolhemos um único mediador para a troca de todos os nossos recursos que é a dívida e não a fartura. A dívida do outro, para comigo e não o meu excesso daquele recurso, que se não for empregado na troca, vai virar lixo.

Então chamamos a dívida de dinheiro e supostamente criamos um isolante emocional para a degradação. Então as coisas passam a “valer” dinheiro e esse valor é supostamente algo objetivo e isento. Tudo pode ser trocado por dinheiro e cada coisa tem seu preço. O preço é dado pela lei de oferta e procura. Quanto menos se tem da coisa, mais valiosa ela se torna. Quanto mais banal, menos valor tem.

O macabro na coisa é isso: você diminui o dinheiro em circulação. Então o dinheiro se torna raro. Com isso, você precisa aumentar o preço das coisas, para que o dinheiro chegue na suas mãos o quanto antes. Para aumentar o preço das coisas, você precisa usar simultaneamente duas estratégias: primeiro precisa comprar barato, isso é usar menos dinheiro para adquirir as coisas; segundo, precisa vender mais caro, parecendo que o preço é justo.

Na primeira estratégia, você precisa degradar o produto de quem te fornece. Dizer que a qualidade não é boa, etc… Para isso, você vai precisar criar para ele um concorrente. Alguém que vende melhor e mais barato do que ele. Qualquer outra qualidade que esse suposto concorrente tenha a mais do que o sujeito em questão serve para baixar o preço da mercadoria. Mesmo que o concorrente não exista na realidade. E para que seus fornecedores não saibam disso, você precisa criar alguma maneira de dividi-los, alguma intriga, alguma coisa secundária. Isso já é o suficiente para que os preços se mantenham baixos.

Na segunda estratégia, basta que você atribua alguma vantagem fictícia ao produto vendido. Quer dizer, você faz exatamente o contrário do que foi feito na primeira estratégia. É preciso que você diga que o seu produto é algo valioso. Único. Você cria valores adicionais ao seu produto. Você pode vender um produto pior, comprado bem mais barato, pelo valor do produto em excelência. O que vale é como você chama o produto e como você agrega valor a ele. O “concorrente” nesse caso é o produto antigo. Que é sempre pior do que o novo, que é mais caro.

Se isso não for possível, crie variações sobre o mesmo tema. Venda tomates menores pelo preço antigo e tomates do tamanho antigo por um preço mais alto. Ou ainda, atribua o aumento do preço a instâncias não presentes, como o governo ou o sindicato. Não importa.

Essas estratégias no lidar com a matéria vão ficando cada vez mais enroladas, no momento em que tentamos estabelecer o valor de um “homem”. Seja através daquilo que ele faz, daquilo que ele significa emocionalmente para mim, não importa… Todo homem tem seu preço. Essa frase sozinha anula completamente toda a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Transforma o homem numa coisa a ser comprada pelo menor preço. Num escravo.

Então eu sou algo que passa a ter que valer mais que o outro. Para isso tenho que diminuir o outro. Ele é mais jovem, menos experiente, preto, mulher, homossexual, nordestino… qualquer coisa, menos eu, porque eu valho mais. E sempre com a sensação de que algo vai mal nessa conta. Porque sempre aparece aquele que é “mais”  que eu. Mais branco, mais bonito, mais inteligente, mais esperto…

E somos lançados ao lugar do fornecedor, ali daquele parágrafo sobre a primeira estratégia. O outro fornece algo melhor que eu e eu preciso me vender mais barato. Preciso aceitar qualquer condição, qualquer troca.

E com isso, o dinheiro passa a valer ainda mais e o homem cada vez menos. Com a mesma quantidade de dinheiro é possível comprar cada vez mais homens e tudo o que eles produzem.

E a concentração acontece dessa maneira, bem simples. E sabemos disso. Sabemos disso e não conseguimos sair dessa ciranda. Porquê?

Não é porque o ser humano é assim, ou qualquer besteira simples dita assim sem pensar. Não. É simples.

O que é que só você veio fazer aqui?

Você: único, diferente de qualquer outro ser humano que exista agora e de qualquer outro que já tenha existido.

Essa é a questão a ser respondida. A única que vale a pena e estamos afastados dela por tempo demais. E ela libera o recurso único que cada um de nós tem a oferecer.

Os hindus tem essa sabedoria das quatro grandes metas, que eu acho muito bonita, embora não tenha servido para resolver a questão da igualdade social na própria Índia: Cumprir o dever (realizar o propósito), Gerar fartura, Sentir prazer de estar vivo e por fim Liberação (fazer as coisas com um fim em si mesmas).

Se ocupar desse assunto e atender a que outros se ocupem desse assunto. Isso seria economia. Partilhar esse recurso e ao fazê-lo, colocar o outro em situação de fazer o mesmo.

Cada um de nós, ocupado em atender a esses quatro objetivos, de forma integral em nossa vida e estaríamos falando de economia, no sentido pleno. Economia de fartura, de recursos renováveis, de vida.

Uma economia que gere saúde.

A prisão

Lançado numa casa sem saída, ele temia o homem de mil faces.

Caminhava desde sempre, buscando a luz do dia. Mas não a encontrava em parte alguma. Sempre a sensação de estar passando pelo mesmo lugar. Sempre a mesma esquina. Sempre a mesma escuridão incerta.

E então, o homem surgia, armado sempre.

Lutavam, espantados um com o outro. Por fim, o homem morria com aquela face para ressurgir no dia seguinte, num outro ponto, numa outra escuridão, com face renovada e a mesma disposição assassina.

O Minotauro não tinha paz em sua prisão e o homem de mil faces era o seu demônio e seu castigo eterno.

Jogo

Eu aprendi a tentar definir uma experiência usando as palavras, e aqui estou eu, tentando transformar experiência em raciocínio, raciocínio em palavra, palavra em comunicação, de um jeito que a experiência chegue até você.

Então você faz o caminho inverso e pega as palavras para chegar ao meu raciocínio, para então ver se consegue se colocar no meu lugar e então entender como aquela experiência me afetou.

Me parece um caminho longo e tortuoso. Parece que perdemos mais tempo tentando desenlaçar as intepretações para chegar a uma coisa que não se transmite dessa maneira.

E a escola, sendo isso. Sendo pior que isso, porque muitas vezes se tenta transmitir não a experiência, mas o conceito da experiência. O resumo escrito de algo, na forma de informação, de dados a serem alocados na memória para serem repetidos depois, de forma escrita, falada. Isso nunca vai ser experiência e nunca será conhecimento.

Talvez controle social. Só talvez. Parece-me que essa idéia de conhecimento, essa idéia de memorizar dados e transmitir informações tem a pretensão de gerar padrões de conduta, modelos de comportamento, uma programação de usos específicos para a sua energia vital. Mas isso tampouco funciona.

Lá está o governo e as empresas, vasculhando seus dados para ver se conseguem prever quais são as suas necessidades, qual é a melhor maneira de mantê-lo acuado, sob controle, quieto e sem ação. Olhando suas fotos, seus textos, sua comunicação digital, suas falas ao telefone, os filmes que você assiste, os produtos que você consome… então, nessa falsa premissa de que a experiência do que você é pode ser transmitida na forma de dados, imaginam que você pode ficar sob controle, seguindo o programa estabelecido. Mas não.

Não é que você se rebele, ou proteste. Você simplesmente é mais que o amontoado de dados transmitidos e essa é a maior encriptação que você possui. Você é o enigma.

Por isso o jogo. O jogo como maneira de partilhar experiências, não conceitos. O jogo, a festa, o rito puro.

Escolho o conceito e jogo com ele. Brinco. Crio a brincadeira para extrair do conceito a diversidade de experiências que ele contempla. Não se busca a interpretação única, a história linear do uso daquele conceito. Se busca a diversidade nas interpretações a multi-dimensionalidade do conceito. Não se joga para procurar respostas, mas para refinar perguntas.

O olho esse “algo”, isso que me toca e que transformo em conceito, como uma espécie de síntese. Enquanto o conceito guarda a interrogação do primeiro contato com esse “algo” , ele possui potência. Quando conceito se transforma em ponto final, ele morre. E fatalmente, se converterá em exclamação, como um movimento inútil para se tornar vivo.

Jogo é uma pergunta, com regras pontuais, para exclamar o humano e sua potência revelando a eterna reticência que o acompanha.

O Coyote

Enquanto eu escrevo esse post, na minha mente se desenha um cenário cada vez mais sombrio. São Paulo está sem água, crise anunciada há anos. Os movimentos desenhados por parte da população são: cobrar o poder público, denunciar e especialmente, reclamar do vizinho.

Uma vez eu tive essa sensação estranha, quando o ex-prefeito e hoje ministro das Cidades, Gilberto Kassab, impediu o trânsito dos caminhões na cidade em determinados horários. Os entregadores de combustível protestaram e a cidade ficou alguns dias sem entrega. As pessoas faziam filas nos postos de gasolina.

Também me lembro da mesma sensação quando enchentes terríveis impediam o trânsito pela cidade e as pessoas ficavam desoladas porque não conseguiriam chegar ao trabalho.

Essa idéia de seguir com tudo normalmente, como se nada estivesse acontecendo, isso me assusta um pouco. A professora, na minha timeline, reclamando porque vai ter de ir trabalhar sem tomar banho.

Então compramos galões e estocamos a água da chuva e achamos que podemos seguir mais alguns dias. Fiscalizamos o vizinho lavando a calçada. Exigimos que o governo e a empresa sejam transparentes e revelem quem está sendo favorecido com a escassez de água… E os reservatórios seguem baixando, apesar das chuvas constantes.

Seguiremos passando talco no suvaco, cagando no seco, bebendo água contaminada, tudo para continuar trabalhando, produzindo e consumindo.

Isso pra mim parece o Coyote, do Papa Léguas, caindo no vazio, pensando que ainda tem pista para correr.

Não existe essa coisa chamada “O governo”.

Pense nas eleições do ano passado e veja quantos votos nulos e em branco existiram. Isso sem contar as inúmeras pessoas que votaram num ou noutro candidato para que seu opositor não ganhasse. Um voto chantageado, não uma opção.

Então esses sujeitos que aí estão, quem é que eles estão representando?

AMBEV, FRIBOI, o agronegócio em si. Empreiteiras, Previdência Privada, Bancos, Seguradoras, Conglomerado de mídia, Igrejas. Seus financiadores de campanha.

Enquanto isso, de nossa parte, aprendemos que democracia é produzir e consumir. E cidadania é pagar mais caro pela melhor opção ou reclamar. Que merda é essa? Isso é escravidão, amigo. Enquanto você segue prestando serviço de má vontade nessa empresa, fazendo esse trabalho só para garantir que você possa pagar suas contas e comprar produtos feitos por outras empresas, com a mesma qualidade péssima de serviço, enquanto isso, você não percebe mas é um escravo.

Experimente boicotar o supermercado, por exemplo. Veja quão complicado é. Ou parar de consumir aquele produto que você sabe que vai te gerar uma doença grave. Abandone esse emprego onde você é maltratado diariamente. Esse trabalho em que, de algum modo, você faz veneno para o seu filho e o do seu vizinho tomarem, agora ou no futuro.

Pegue sua energia vital e direcione para algo que gere mais vida. Veja se você consegue pensar em algo. Veja se é fácil. Se vida, para você, não sempre significou essa máquina de moer carne que se chama mercado. Em suas infinitas variações, certificações, diplomas e créditos facilitados. E depois, as dívidas sem fim. E essa dificuldade de abandonar aquilo que não te serve, mesmo quando a catástrofe se anuncia.

Existe água aqui, na quadra de baixo. Um rio, mal gerido pela SABESP, como tantos outros. Existem terrenos vazios no meu bairro. Existem vizinhos, que se não estivessem ocupados com essa lavagem cerebral que tem por mote “trabalho, consumo e vejo TV”, estariam comigo, agora mesmo, construindo reservatórios…

Não é preciso ser especialista em nada, para resolver esse tipo de coisa. Um grupo de pessoas dedicado a isso, empenhado na sobrevivência de sua comunidade e tudo se resolveria localmente.

Essa empresa que administra nossa água se converteu num Leviatã. Não sabemos quem lucra com nossa penúria e muito menos quem ainda continua recebendo água diariamente enquanto bairros inteiros permanecem sem água. É a prova mais que evidente que, para nós cidadãos, essa empresa consiste num obstáculo ao nosso direito democrático de gerir a nossa própria água.

Isso, só para começar.

Água, alimento, moradia, saúde e a educação dos seus filhos. Para perpetuar essa idiotice ou para tomar de volta o que é meu e seu?

A velha

Então eu vejo essa menininha entrando nesse jardim abandonado.

O mato cresce solto, sem nenhum cuidado, por toda a parte.

Não entendi bem de onde a menina veio. Parece que chegou aqui por acaso. Talvez esteja perdida.

Ao mesmo tempo que eu, a menina vê a velha sentada no banco.

A velha tricota infindavelmente uma manta que se arrasta pelo chão.

Não consigo explicar essa sensação de perigo que sinto ao ver a menina se aproximando da velha para pedir, talvez, informações sobre como sair daqui.

“Bom dia, eu estou procurando a saída desse lugar.”

“Talvez seja uma boa idéia você voltar por onde veio.” – responde a velha, usando a lógica com a qual tricota.

“Não sei por onde vim. Quando me dei conta, já estava aqui.”

“Hmmm.”- resmunga a velha, como se estivesse diante de um problema de difícil resolução.

“Desculpe. Eu não me apresentei antes. Meu nome é Carolina. Eu cheguei até aqui, não sei como e agora gostaria de sair. Estou preocupada com os meus pais.”

“Carolina?”- a velha então ri.

“Sim, Carolina. Por que a senhora riu?”

“Porque você disse que seu nome é Carolina.”

“Sim. A senhora conhece alguém com esse nome?”

“Seu nome não é Carolina.”

“É sim!”- responde a menina sem entender direito onde a velha pretende chegar com a conversa.

“Entendi. Eles disseram a você que seu nome é Carolina.”

“Todo mundo me chama de Carolina.”

“Mas o seu nome verdadeiro é Nádia.”

“Como?”

“Nádia.”

“Não. Nunca.”

“Esse casal, que você chama de pais, eles não são seus pais de verdade. Eu conheci sua família, muito tempo atrás…”- foi aqui que eu me dei conta do que a velha estava fazendo. Eu queria gritar, avisar a menina para sair dali, mas estava paralisado.

“Seus pais morreram num acidente de carro quando você ainda era um bebê. Você foi a única sobrevivente e então esse casal lhe adotou e chamou você de Carolina.”

“Não, não é verdade!”

“Nádia. Filha de Ivan e Micaela. Os dois mortos, num acidente de carro.”

Eu sabia que era mentira.

Que a velha estava inventando essa biografia por pura maldade.

Mas a menina, a menina não sabia.

Ela estava acreditando na velha.

A velha e todas as histórias já contadas, todos os roteiros já previstos, toda tragédia do mundo, esmagando a história que a menina conhecia sobre si mesma, também essa uma história contada por outros.

Eu sabia que a esperança estava em a menina ser capaz de tecer a própria história, mas não podia me mover. Não podia fazer nada a respeito.

Eu era testemunha dessa morte e não podia sair dessa condição.

Foi então que eu percebi o pesadelo.

E acordei.

Uma nova democracia

Eu hoje perdi meu sono mais uma vez, porque confiei algo essencial para mim a um terceiro que me traiu. Fui tomando decisões ao longo do curso de minha vida que acabaram me impedindo de agir sobre a água que bebo e agora, ela corre o risco de acabar. Pensei que bastava eu cumprir uma grade escolar e depois decidir sobre uma maneira determinada de participar da coletividade, que seria o trabalho, cumprindo uma função especializada em troca de alguns benefícios e de dinheiro para que eu pudesse ter opções de serviço e de conforto, de acordo com meus méritos.

E agora, me vejo sem água. Algo tão simples, tão ridículo. E eu não sei como gerar essa água de que necessito. Eu tenho reservas aqui, porque antevi esse problema a quatro anos atrás. Então, fiz como meu avô, que construiu uma cisterna em casa para se prevenir contra as épocas de seca lá na Paraíba. E quando construí minha casa, coloquei duas caixas de mil litros para armazenar a água que viria desse traidor. Então, entre cisterna, caixa de reúso e água que o traidor me fornece eu tenho uma reserva de 6500l.

Nós agüentaríamos uma seca breve, mas não o cenário sombrio que se aproxima.

E por ter feito essas opções todas que me impediram de agir sobre a água antes, eu acordei e fiquei tentando resolver os 40 anos de negligência de minha parte. O que eu poderia ter feito? O que precisa ser feito agora? Porque chegamos a isso?

Eu tinha uns 10 anos e fui visitar meu avô Manoel Guilherme. Do lado de fora da casa, uma construção em forma de caixa, toda em alvenaria. Do telhado, descia um cano que entrava naquela construção e um outro que saia dela.

“O que é isso, pai?”

“Uma cisterna.”

“Pra quê serve?”

“Seu avô mandou construir isso para guardar a água da chuva.”

Meu avô então acrescentou: “Quando eu era menino, costumava faltar água sempre. Então, quando eu cresci, pensei que podia guardar a água da chuva para as épocas de seca. Aqui em Sapé, quando falta água na cidade, só quem tem água sou eu e o hospital.” E ria.

Eu, que via meu pai reclamando o tempo todo sobre a conta d’água achei aquela idéia genial. E pensei que se um dia eu construísse a minha casa, eu também teria uma cisterna.

O que aconteceu ali? Uma experiência compartilhada que me gerou repertório de ações. Quando eu tive a oportunidade, agi e construi minha cisterna. Mesmo assim, tive que contratar pedreiros, que também me traíram, cada um à sua maneira. E foi durante essa enorme obra, esse trabalho colossal, que eu comecei a pensar sobre esse assunto: pra essas coisas que nos são essenciais, não podemos delegar tudo a alguém. Temos que ter mecanismos de supervisionar, de agir, de aprender a partir da experiência, de intercambiar.

Em tudo o que eu estive fazendo dessa maneira na obra da minha casa, eu aprendi. Aquilo que eu optei por não fazer, porque achei pesado demais, sujo demais, braçal demais, isso foi o que me gerou complicação. Eu detinha o poder econômico mas não detinha o poder de ação. É preciso ter os dois. Os dois e também o poder de fazer o acordo e de julgar se esse acordo estava ou não sendo cumprido. E não reinvidico esse poder apenas para mim, senão para todos os envolvidos, cada um com suas famílias e contas a pagar.

E agora, de volta a essa questão da água e da democracia como já pode ser. Existem essas ferramentas de participação na gestão pública, em temas pontuais, como o Bicidade, o Colab e o DemocracyOS. Mas ainda me parecem um pouco com a experiência que tive de colocar as contas numa planilha de custos para poder não extrapolar meu orçamento e não ser lesado pela equipe que trabalhava pra mim. Funcionava para ter as informações às claras, na ação de reinvidicar, mas ainda não serviam como ferramentas que facilitassem minha participação no processo.

Na minha vida prática, existem essas situações em que a reinvidicação encontra uma barreira intransponível. Você tenta negociar com o prestador e o sujeito trava. Se você não tem opções, fica sequestrado e acaba decidindo com base no que o prestador oferece. É preciso ter meios ágeis de cortar o financiamento e de encontrar opções. Se algo não anda, você corta o recurso e investe sua energia em encontrar alternativas. Não pode ser obrigado a escolher entre o menos pior. Isso a gente faz por falta de informação sobre as opções disponíveis.

Por isso essas plataformas de financiamento como Kickstarter, Vaquinha, Indiegogo, Catarse entre outras são tão geniais. E já poderiam ser usadas para financiar diretamente obras do interesse da comunidade. Isso poderia ser um substitutivo ao imposto de renda, além de servir como um incentivo ao pequeno empreendedor local. Ao invés de favorecer grandes construtoras e obras gigantescas, boa parte do dinheiro da comunidade serviria para atender pequenos empreiteiros que seriam diretamente inspecionados pela comunidade.

Coisas como a água, eletricidade, comida… tudo isso está armado dessa maneira, com grandes fornecedores centralizando a produção e a distribuição desses recursos, por que esses sujeitos ganham muito dinheiro com isso. Mas não é eficiente de maneira alguma. O mundo opensource é a maior prova disso. A agilidade nas implementações, no desenvolvimento e na correção de problemas é impressionante. A única regra é que não pode haver segredos. Todo o código é compartilhado e qualquer pessoa que queira participar é bem vinda.

Abra o código do tratamento de água domiciliar, da geração de energia elétrica a partir do sol, das hortas caseiras e das hortas comunitárias e então, cortamos um monte de recursos financeiros que estão indo para as mãos dos 5% que centralizam a produção e distribuição de recursos. Compartilhe e receba mil vezes mais.

Saúde, educação, energia, água… muita coisa já poderia ser resolvida na esfera de participação popular. Temos hoje mecanismos mais eficientes do que as aborrecidas reuniões de comitês para deliberar sobre isso ou aquilo. E quando isso acontecer, veremos quem são aqueles que ganham com as grandes obras e a quem elas realmente favorecem.

Óbvio que isso vai mexer com o sistema de trabalho, que é todo estruturado em representatividade. Porque elejo especialistas que me oferecem determinado serviço, sem que eu possa me engajar no aprendizado desse serviço, porque o macete é segredo, aprendido por um sistema de ensino que centraliza essas informações. Mas se a experiência for a participação, qualquer cidadão pode aprender a fazer qualquer coisa, se engajando nos projetos de acordo com seus interesses e sendo recompensado proporcionalmente aos seus méritos e à importância de sua ação para a comunidade.

Vai desacomodar muita coisa. Inclusive esse nosso hábito de consumir a realidade, como se ela fosse algo pronto e não tivésemos que fazer mais nada à respeito.

Decrépita democracia

Eu hoje me dei conta de que faço parte de alguma minoria.

Eu não estou envolvido em militância partidária faz algum tempo. Não acredito nisso. Tenho procurado outras maneiras de viver a democracia e isso implicou em mudar meu estilo de vida, abrindo espaço na minha agenda para me envolver em participação social em alguns itens que realmente são essenciais para mim e minha família.

Então eu hoje faço parte do Conselho de Pais da escola dos meus filhos, trabalho atendendo as pessoas que precisam de amparo emocional para decidirem seus rumos de vida em situações de crise, acompanho alguns produtores orgânicos e ainda fico pensando o que mais eu poderia fazer com meus vizinhos e amigos para resolver as necessidades que temos em comum.

Mas existe o macro. Existem essas empresas que nos prestam serviços horríveis a preços exorbitantes com a anuência do governo e de seus órgãos reguladores. Existem essas corporações cuidando de bens essenciais, como a água e os nossos alimentos, fazendo o que bem entendem com eles, também com a anuência do governo.

E eu sei que a muito tempo, aquilo que chamamos de “governo” na verdade é uma fachada para negócios escusos entre proprietários, e nós estamos de fora. Nós trabalhamos para essa gente e pagamos impostos para eles. Nós consumimos as coisas que eles nos vendem. Pagamos produzindo, pagamos comprando, pagamos vendendo, pagamos jogando no lixo. E com o que pagamos? Com nossa energia vital, principalmente. É ela, e não o dinheiro, o que está em cheque aqui.

Então nos pintam esse cenário de escolhermos entre vermelhos e azuis. E nessa eleição, ainda tivemos a opção do magenta, além dos habituais tons de azul e vermelho, chegando ao preto absoluto em ambos os lados. Mas não há nada real ali. Os candidatos todos têm alguns minutos por dia para nos convencer a escolhê-los. E como fazem isso? Criando drama.

Os marqueteiros constroem esses personagens durante meses e os vão adequando ao sabor das pesquisas. É uma enorme novela, o que vemos como campanha eleitoral. Vemos os debates e pensamos que significam algo. Mas não significam nada. Às vésperas das eleições eu tinha amigos me pedindo opinião sobre os deputados estaduais e federais. Gente que sabe que esses sujeitos vão lidar com as nossas leis e com os nossos direitos. Eles não sabiam onde encontrar a informação de que necessitavam. Não sabiam onde encontrar programas de governo e projetos de lei. Não tinham energia vital disponível para estudarem esse assunto e realmente decidirem em quem iriam votar.

Então temos esse resultado realmente assombroso nestas eleições:

39,9% dos eleitores optaram por não lidar com esse assunto. Ou votaram nulo (10,17%) ou em branco (10,18%) ou se abstiveram (19,55%). Isso referente às apurações para deputado estadual, aqui em São Paulo.

E então, se olharmos para os mais votados, temos Telhada, Xerife do Consumidor, Feliciano e toda uma gente que representa soluções simplistas, radicais e pouco prováveis, atacando algum “culpado social”, exatamente como foi feito na Alemanha de Hitler. São candidatos-produto, criados para satisfazer alguma demanda emocional da população.

É um indicador de pânico social. De impotência. Parece burrice, mas é impotência e falta de vivência do que é decidir em grupo…

Vamos ter muito trabalho pela frente… Existe algo sem nome que precisa ser articulado, no lugar dessa farsa que virou nossa democracia…

Eu me recuso a olhar para o resultado dessa eleição e achar que isso tem algo a ver com o país. Não é. Não foi o outro quem votou errado. Quase 40% das pessoas não achou que essa eleição iria mudar alguma coisa. Boa parte dos sujeitos eleitos foi criado dramaticamente para atender uma demanda emocional da população. É um indicador de esse modelo não funciona. É preciso ir além das urnas e começar a construir outra coisa. Não basta reclamar do vizinho. Não basta dizer que não temos opções. É preciso investir energia no que queremos construir. Se não são mais os políticos ou partidos, que seja outra democracia.

Mas é preciso agir.

 

 

Quadrilha

Eu sinto que é impossível ter qualquer opinião útil sobre o que está acontecendo. Me parece que estamos todos com os ânimos exaltados demais e nos deixamos influenciar por qualquer coisa que tenha o leve aroma de informação. Mas os fluxos de informação estão todos congestionados por um estado de “suspensão pelo terror”, que nada do que vejo e ouço me parece real. Não me refiro à informação que viria da mídia tradicional, porque faz algum tempo que não procuro esse tipo de canal para me informar. Tampouco o canal que utilizo habitualmente, que são alguns blogs e as timelines de alguns amigos queridos, porque os amigos são sempre a melhor fonte de informação, mesmo quando você não concorda com nada do que eles estão falando.

Não.

As ruas mesmo. Meu trajeto para o trabalho ou as visitas ao supermercado. A conversa entre as pessoas num ônibus e suas opiniões sobre o que “está acontecendo”. O que “está acontecendo” é o mesmo de sempre. O cara continua “fazendo” as mesmas coisas, tentando seguir seu programa diário e então, surgem essas histórias sobre a escassez futura. E o sujeito começa a imaginar o que ele terá que fazer para seguir seu programa, mesmo com essas novas condições, que ainda não se manifestaram. Ele vai preparando essa reação. Vai cozinhando essa resposta ao mundo dentro dele, com uma imaginação que vai crescendo a cada nova informação fragmentada que ele recebe.

As pessoas imaginam que sabem o que é a mentira. E isso não é o problema. A mentira é sempre a opinião com a qual eu não concordo. Isso é fato. O problema é que as pessoas sabem que não têm a menor idéia do que é a verdade, porque não recebem a informação completa e não conseguiriam lidar com ela, de qualquer modo. Então, entre a cruz e a espada, optam pela imaginação e pela manipulação. Estão sozinhas em sua opinião e buscam amparo no outro, tentando convencê-lo de uma história que contam para si mesmas, sobre um futuro terrível onde serão obrigadas a abandonar o programa que cumprem a contragosto em direção a algo absolutamente incerto e ameaçador.

Então as histórias sempre carregam esses mesmos elementos: aqueles que instauram o caos e a necessidade de que as forças da ordem se instaurem. Mas quem são as forças da ordem nesse momento? Aqueles que clamam justiça, se entendendo como vítimas de algo a que se sujeitam? Ou aqueles cujo programa consiste em eliminar as opiniões com as quais eu não concordo? Cada fragmento isolado em si mesmo, com as mesmas demandas e a mesma sensação de que a mentira é o outro.

E em mim sempre a sensação de que nos bastidores existem forças que operam quando os homens se vêem acuados por sua imaginação. Forças que lucram com esses movimentos precipitados.

E mesmo esses homens das coxias, mesmo eles, agora não detém um pensamento único. Estão em guerra entre eles, lutando para ver quem se alimentará do nosso terror. Então se expõem mutuamente, elaboram histórias sobre escassez para expor o adversário ao ridículo, enquanto exaltam seus acertos também fictícios. Recolhem informações que sejam suficientes para gerar na população o estado de terror desejado. Ficamos sem referência alguma, acreditando que o estado de terror se deve à uma polaridade não resolvida entre ordem e caos e já não sabemos quem pertence a que lado.

Enquanto isso, os homens das coxias investem pesado em ambos os lados da equação.

O que percebo é que isso nos coloca numa situação extremamente reacionária. Esse estado de terror faz com que entremos em modo de sobrevivência e nesse ponto, sacrificamos nossa parca racionalidade e capacidade de uma ação que vá além de cumprir um programa inútil e isolado. Nesse lugar, estamos prontos para as soluções milagrosas, as revoluções e os golpes.

Para mim, a pergunta continua sendo sempre a mesma: quem está ganhando com o homem que cumpre um programa, mesmo que o mundo caia ao seu redor? Quem é que diz “olha a cobra!”, para depois dizer “é mentira!”, levando a quadrilha de um lado a outro do arraiá?