O sintoma

Eu venho trabalhando essa idéia de que um líder é o sintoma da fragilidade de um grupo. O que não quer dizer que eu tenha abdicado da importância temporária de uma liderança.

Em dada circunstância, nos trabalhos em conjunto, quer por estreiteza das diversas perspectivas, quer seja por uma escassez objetiva de determinado recurso, o grupo se vê empacado na tomada de decisões, com diversas opiniões sobre um determinado assunto e dificuldade em levar a termo qualquer ação.

Nesses momentos de processo, por ansiedade ou determinação, surgem alguns indivíduos que se destacam através de uma iniciativa que abre passagem para o crescimento de todo o grupo. Esse é o líder, alguém que localiza um recurso onde os demais só percebem escassez.

A grande questão é que esse movimento acaba gerando prestígio para o indivíduo, através do reconhecimento por parte dos demais. Em muitas circunstâncias a iniciativa individual acontece porque o sujeito resolve agir, apesar das deliberações do conjunto, mas em casos ainda mais numerosos, o sujeito já se move dependendo do mérito que obterá dos demais. Já se move em busca de uma autoridade sobre os outros, o que significa que os outros lhe cederão a autonomia de suas ações por algum tempo(Assim deveria ser!)

Esse movimento em busca do reconhecimento já é o sinal de que algo vai mal na equipe. Por algum motivo, este sujeito se lança em busca de algo que o destaque dos demais e provavelmente, já se acentua o processo em que ele se sente desvalorizado por qualquer motivo. O que para mim é um indicador de que os processos de comunicação do grupo não estão funcionando à contento.

Por isso a manutenção do poder de um indivíduo sempre se dá às custas de uma comunicação direta e clara entre os indivíduos do grupo. O sujeito terá que se transformar na figura central em termos de comunicação, centralizando todas as respostas sobre aquele determinado assunto. Com o tempo, sua memória individual sobre os passos requeridos para se resolver aquela escassez temporária passará a se sobrepor sobre a capacidade dos outros indivíduos do grupo de desenvolverem outras iniciativas igualmente eficientes, segundo as suas particulares maneiras, o que abriria espaço para o grupo desenvolver-se ainda mais. Nesse caso, a cegueira de um passa a ser a cegueira de todos.

Ainda mais grave se torna esse processo quando este indivíduo passa a centralizar respostas para todo tipo de problemas. Neste caso, os demais membros do grupo abrem mão de sua autonomia em favor de “crenças” individuais sobre diversos assuntos. Então as ações se vêem tolhidas pela estreiteza de perspectiva de um indivíduo. E o mesmo sujeito se vê desprendendo enormes quantidades de energia para manter restrito o circuito de comunicação, usando todo tipo de estratégia para desqualificar as opiniões e impressões dos demais membros. Passa a buscar uma monocultura de mentes: a sua. O que é  sinal de doença e escassez.

Com o andamento desse processo, abre-se um hiato entre aquilo que os indivíduos declaram que irão realizar em benefício dos demais e aquilo que realmente fazem. Isso transparece pelo alargamento dos prazos na realização das tarefas. Possivelmente é um sinal de que aquele grupo não atende completamente a demanda daquele indivíduo e que ele precisa dividir seu tempo e suas prioridades com outras associações grupais. Isso passa a ser um indicador de problema no grupo em questão quando os indivíduos justificam sua inação neste grupo por estarem engajados em atribuições de outros grupos, realizando uma comparação que não possui nenhuma lógica coerente para o grupo, somente para o indivíduo em questão.

Fatalmente isso vai levar à dissidências, porque é o único recurso que o grupo dispõe, nesse tipo de processo, para novamente abrir espaço para lideranças emergentes e a diversidade.

Quando há suficiente autocrítica no grupo, a emergência das dissidências consiste num impulso para que os posicionamentos sejam revistos e em alguns casos ou ocorre uma alternância de líderes ou o próprio líder abre mão do papel que lhe consolidou no poder.

Liderança, acompanhada de comunicação direta, aberta e disposição para partilhar com os demais o conhecimento obtido por uma ação só pode implicar em autonomia. Para isso, o grupo precisa ter como acordo a autonomia completa dos indivíduos. Sob nenhum pretexto pode haver um ser humano acima dos demais. Mas a agenda do grupo não pode conter nada além do ser humano.

Manipulação é violência.

Poder é discriminação.

Um líder pode deixar de ser alguém que manda e se tornar alguém que orienta um processo consensual sem deixar de contemplar as iniciativas individuais, as lideranças emergentes, os novos focos de ação.

Diversidade é força.

 

A peste

Desculpe.

Eu aprendi muito cedo que deveria ser uma espécie de herói diante dos meus semelhantes. Que deveria realizar algum feito heróico, algo sumamente importante. Aprendi que deveria me esforçar para estar sempre em destaque, para servir de exemplo. Mas eu estou desistindo desse caminho.

Veja, eu fui cruel com você muitas vezes. Quando você tentou ser especial à sua maneira, eu o ridicularizei. O chamei de pretensioso, de louco. Critiquei cada pormenor do seu desejo, como se fosse o desejo em si o problema e na verdade não era. Eu estava tentando me manter especial. Não é possível ser especial se todos começam a ser especiais, então eu tive que humilhar você na frente de todo mundo.

Houve aquela vez em que nós dois nos ajoelhamos diante daquele outro homem igual a nós, ele também querendo ser especial à sua maneira. Ele nos dizia o que fazer e apontava todos os nossos erros. Ele até escreveu um manual de conduta que todos nos esforçamos para seguir, só para perceber que não conseguíamos aplicar nada daquilo na nossa vida. Então nos achávamos preguiçosos, limitados e aquele outro homem como nós, ele era deus para nós. Então ele fez aquilo que era impossível: ele falhou conosco. Nos ofendeu de uma maneira irreversível. Ele traiu a nossa confiança. Eu e você tramamos um golpe, uma dissidência, arrastando mais dois ou três conosco por algum tempo até que todos nós descobrimos que não sabíamos o que fazer, exceto criticar o antigo homem-deus que cultuávamos.

Então nos perdemos. E não acreditávamos mais em nada ou ninguém.

Eu ainda tentei encontrar essas pessoas mais vezes, só para me ver sozinho, uma vez e outra. Só, diante dessa pergunta insondável. Só diante da minha pequenez, da realidade incontestável de que eu não sei que diferença posso fazer aqui. Se é que há alguma diferença para se fazer. Muito tempo se passou e eu ainda continuo sem essa resposta. Procurando-a em toda parte.

Não a encontrei em nenhum lugar. Cheguei a conclusão de que nenhum outro homem pode me dizer nada real a esse respeito. Nem você, nem nenhum outro homem.

Estou só, nesse deserto. E o deserto sou eu.