Uma nova geografia

A web se tornou um incrível impulso para o meu autodidatismo. Acredito que isso tenha sido bastante comum nessa época, mas somente hoje é que eu me dei conta da extensão desta invenção. Desde 1995 eu venho lidando com a ferramenta, passando primeiro pelo acesso mediado através dos BBSs e depois ao acesso direto.

Eu entrei na Universidade em 1996 e lá, o acesso era rápido e gratuito. A USP também dispunha de uma biblioteca multimeios, repleta de CDs musicais, DVDs, Filmes em VHS e até mesmo alguns CD-ROMs.

Na época, pude suprir deficiências na minha formação escolar. Li todos os clássicos da literatura universal que pude, ouvi muita música, refiz meu caminho nas histórias em quadrinhos, melhorei meu inglês, li sobre psicologia, filosofia, sociologia, neurociências, arquitetura, artes plásticas.

Eu aprendi muito usando as bibliotecas da USP, mas a utilização da Internet foi se tornando cada vez mais importante para mim. De casa eu acessava o sistema Dedalus e podia descobrir se havia um livro determinado em toda a rede de bibliotecas da Universidade. Eu podia levar um CD para casa e ripá-lo totalmente em MP3.

Mais tarde eu conseguia PDFs inteiros e podia imprimi-los (no começo eu ainda fazia muito isso) para consultar a qualquer momento. E ainda os filmes, as séries, as legendas, Youtube, Vimeo e tantas outras idéias.

O que sempre foi notável para mim era essa sensação de horizontalidade. Você podia começar a conhecer algo em qualquer ponto e encontrar pessoas no mundo todo, em diferentes momentos de estudo do mesmo conhecimento e pedir ajuda. A cultura do compartilhamento começou a se formar.

E como eu imaginava no início, a Internet começou a se tornar um espaço que também permitiria novas interações sociais e isso iria transformar nossa noção de governo, democracia e participação social.

Então o cerco se fechou. As grandes corporações começaram a comprar start-ups interessantes. As políticas de privacidade passaram a valorizar mais a capacidade de vendas dos dados do que a privacidade real. As interações com outras pessoas passaram a ser mais restritas, a não ser que você pague algo (e ainda assim, o resultado sempre me parece uma fraude completa). Empresas e órgãos de segurança começaram a formar essa aliança funesta, desvendada por Snowden e Assange.

E agora eu vejo essa geografia como uma espécie de vale de lágrimas. A internet virou o terreno da lamúria, da mentira, do inútil. A potência inicial ainda está lá, mas se tornou mais difícil de ser vista por todos. Estou preso a essa rede social limitada, porque todos os meus amigos estão lá…

Não.

Hoje eu vi isso. As corporações e o governo percebem o perigo de se estabelecer relações horizontais com seres humanos de qualquer lugar do planeta. Percebem que isso pode mexer nos bolsos desses 1% que dividem os 50% dos nossos recursos. Percebem que podemos compartilhar informações que nos permitam saber quem são esses, como estamos dando dinheiro a eles e de que maneira podemos cortar essa remessa de recursos.

Somente a web poderia trazer essa informação para todos.

Parece que é sobre a privacidade, parece que é sobre direitos autorais, ou sobre terrorismo. Mas na verdade é sobre uma possível democracia real que se vislumbra no horizonte.

A web pode ser uma espécie de Eldorado.

Um novo continente, com leis próprias.

 

Take it back

Mãe, eu fiquei dependente de você. Me senti um incapaz e então eu fui deixando que você fizesse todas as coisas por mim, por puro conforto. Então eu me tornei essa coisa excessivamente pesada, preguiçosa e insegura. Hoje eu percebo que você é quem fez com que eu me sentisse um incapaz para que eu me sentisse dependente de você. Mãe, teu nome é corporação.

Pai, eu fiquei dependente de você. Por preguiça e eu deixei de buscar meu próprio sustento e então eu me tornei esse covarde, escondido embaixo das saias de minha mãe. Me senti um incapaz de lidar com o mundo e com os meus irmãos e necessitava de sua constante mediação nas nossas relações. Hoje eu percebo que foi a sua omissão quem me deixou neste estado. Pai, teu nome é governo.

Irmãos, eu fiquei dependente de vocês. Não suportava a vossa presença e fiz da minha vida o esforço de ficar só. Queria tudo para mim, queria que vocês fossem meus escravos, que me atendessem as vontades. Queria anulá-los para que eu brilhasse mais. Eu me sentia um incapaz, um covarde. Hoje eu percebo que vocês também se sentiam da mesma maneira e por isso todos nós estávamos presos nessa condição. Irmão, teu nome é religião.

Hoje eu decreto a minha liberdade.

Ainda pesado demais, preguiçoso, inseguro, covarde, egoísta, selvagem e incapaz eu me liberto da necessidade da presença dessa família na minha vida. Vou construir minha própria família. Serei minha mãe, meu pai e meus irmãos. E os serei à minha própria maneira. Serei a teta, o dinheiro e a companhia de mim mesmo.

Serei minha esposa e meus filhos.

Serei meu próprio chefe, meu próprio governo, meu próprio deus.

Desarmamento

O governo me surge com um referendo sobre o desarmamento. E generosamente nos dá a oportunidade de escolher entre duas opções: se queremos que o Estado nos mate, ou se nos mataremos uns aos outros. A isso se resume a nossa capacidade de interagir com ele.

Não sou favorável às armas. Tenho a forte convicção de que a arma é o instrumento que o covarde usa para fazer valer a sua vontade sobre a dos demais. Daí decorre, evidentemente, que o Estado é a arma mais eficaz já inventada, porque permite que a aristocracia faça valer a sua ganância por cima da miséria da maioria. Sem que precise apertar o gatilho. O crime perfeito.

Voto a favor do desarmamento, pretendendo ir além das armas de fogo, que são o tema em questão. Voto pelo final de todas as armas. Pelo encerramento dessa cultura de violência, de egoísmo, de impotência, de medo. Voto pelo final desse culto ao sofrimento, desse elogio da vítima. Pelo final desse sistema em que o supremo herói é um garotinho mimado que faz com que o mundo inteiro limpe o bidê em que ele defecou erroneamente, pensando se tratar da privada.

Dirão que sou um sonhador e acharão belas as minhas palavras, guardando-as para um futuro utópico, mas não possível. Dirão ainda que é preciso me salvaguardar com relação ao meu vizinho, porque ele pode roubar o que possuo (que é tão pouco). Que devo me municiar preventivamente, para evitar que levem o pouco que possuo.

Mas efetivamente, quem é que leva todos os dias, o pouco que possuo? Quem é que me rouba rotineiramente, sob os mais diversos pretextos? Quem me obriga a ingressar todos os dias numa ciranda infinita de envelopes que se somam, e que subtraem de minhas economias o dinheiro que ganhei com o meu trabalho? Quem é que me rouba a poesia e que me obriga à venda do invendável? Quem é que me subtrai a vontade e compactua para que eu persista em temer o meu semelhante? Quem é que me compra inteiro, paga a metade e me vende pelo dobro?

O resultado dessa equação é sempre o mesmo: o Estado. E o dedo no gatilho daqueles que o possuem, os Aristocratas, nas suas infinitas representações.

E enquanto nos debatemos, escolhendo entre o sim e o não, a Aristocracia vai fazendo os seus conchavos. Sim, porque não nos esqueçamos que há um inquérito envolvendo ministros, deputados e empresas de todo tipo. Lobbies, espionagem, lavagem de dinheiro, assassinatos. A Aristocracia chafurdando no seu Estado de merda. E roubando o nosso dinheiro, enquanto acusam o nosso concidadão de ser um marginal, porque roubou um banco, ou uma casa.

Quantas casas o Estado e os Aristocratas nos roubam por hora? Quantos bilhões nos roubam os bancos? Quantos destes renomados assaltantes do povo foram parar nas garras da justiça? Dois? Três (me esqueço do Juiz Lalau… Aliás, o que é dele?)

E então surgem eles com essas manobras de sempre. Ora nos dão a chance de votar em qualquer coisa. Ou nos dão de presente uma fundação qualquer, para resolver os problemas que o Estado não resolve, tomando o lugar das nossas livres associações. Ora publicam mentiras em suas revistas e jornais. Ou criam fantasias em suas emissoras de TV que nos levam a votar naquilo que eles desejam que votemos. E a nossa participação na sociedade se resume em trabalhar e pagar contas. Trabalhar para que o Estado e as Empresas a ele ligadas nos roubem todos os dias. Nos vendam mentiras.

Não estou pondo em cheque a validade do referendo, como mecanismo de participação popular. Mas porque não criam canais para que nós decidamos o que deve ser referendado? Porque não nos permitem opinar sobre outras questões importantíssimas, como a distribuição de renda, a dívida externa, ou uma lei de responsabilidade política que nos permitisse demitir os políticos que nos atraiçoam depois das eleições?

Porque não nos permitem terminar com essa última arma que é o Estado?