Notas sobre o Palhaço

Hoje é quatro de fevereiro de 2015.

Sem nenhuma das minhas velhas razões para fazer isso, eu me inscrevi num curso de palhaço, com a Quito. Não estou fazendo teatro, não tenho nenhum projeto em mente, não estou à procura de editais e nem me cooperativei novamente.

Eu só estava cansado da seriedade e me lembrei de o quanto era divertido ver as pessoas rindo por uma coisa que eu tinha inventado. Queria entender esse lugar do humor na vulnerabilidade, pensei que isso poderia me ajudar como terapeuta, que é como eu estou agora.

Então estou indo para o meu terceiro dia no workshop. E até ontem à noite, eu estava muito a vontade. Mas daí, eu fiquei inquieto… Comecei a pensar que devo estar fazendo alguma coisa errada. Devo estar escondido atrás de alguma técnica invisível, dessas que a gente desenvolve depois de longos anos praticando uma coisa.

Eu entro em cena e não tenho nada muito claro. Tenho uma vaga idéia de um caminho por onde eu poderia seguir. Se ele dá certo, ótimo. Se ele não dá certo, tudo bem. A cabeça funciona numa velocidade incrível e sempre dá para aproveitar alguma coisa que está acontecendo e resolver a cena de um jeito engraçado. Timming, sempre, já internalizado, já resolvido. Vinte anos fazendo comédia. Praticamente. Improvisando, resolvendo.

A Quito propõe o jogo e eu fico ali um tempo, vendo como meus colegas jogam. Vendo essa hora em que a estratégia não funciona e ninguém acha a menor graça no que você faz. Vendo como a gente cai na tristeza nessa hora e como isso te leva a energia de cena. E então, quando eu tento fazer isso, não acontece nada. De algum jeito, muito rapidamente, eu resolvo a coisa e a platéia gosta.

Estou fodido, entende?

Eu sei exatamente que lugar é aquele ali que aparece nas cenas dos meus colegas. Eu sei. E eu passo por ele batido. Dou um jeito. Ao menos ali, na cena, eu resolvo a coisa. Mas então eu fiquei pensando que eu não resolvo isso sempre na minha vida. No tempo em que eu estava atuando.

Não.

Eu chegava para fazer um teste numa produtora qualquer e me davam um papel com meu nome e idade. Depois, alguém me vestia de acordo e o assistente me dava um papel com um texto pequeno para decorar.

Desde o momento em que eu chego na produtora e vejo mil colegas na fila, todos eles endividados como eu, todos eles tentando ser divertidos, falando sobre os projetos e etc, desde o primeiro segundo até o momento em que finalmente chega a minha vez e eu começo a cena, sem ter certeza de que é isso o que eles querem, se eu estou bem, se vou ganhar aquela grana, se o outro cara foi melhor do que eu, se aquela cara do assistente é cansaço, tédio, desolação pela minha cena ou se é algo da vida dele que não vai bem, se aquele cara da câmera atendendo o celular durante o trabalho se ele já sabe que eu não sirvo pra isso… E então eu me lembro que esqueci a DRT em casa e eles não vão me pagar o cachê teste, que é uma miséria sempre… Ali eu não consigo me divertir! Ali entra algo que acaba com o Palhaço, se é que é ele quem se expressa quando eu entro em cena.

Somente uma vez na minha carreira eu não senti isso. Foi quando eu fiz o teste para o “Cabeça”, num seriado on-line para a Locaweb. Foi algo externo a mim, algo que eu não manejei ainda. O briefing era muito bom e o personagem não tinha tantas falas no roteiro. Eu podia fazer o que quisesse. Então eu me diverti. Fiz o que bem entendi, mesmo que desse errado. Eu aproveitava qualquer estímulo e incluia no aloprado. Pronto.

E aí peguei o papel. Voltei de um outro trabalho e parece que toda a equipe falava do meu teste, que tinha sido ótimo. As pessoas já sabiam quem eu era. E nas filmagens, eu sempre me divertia muito.

Isso até que o Cabeça deu certo.

Então, o cliente arranjou mais texto para o Cabeça. Criamos o “funk do cabeça”e aí, depois disso, esse outro “algo”apareceu e tudo aquilo ficou muito amargo para mim.

Hoje está parecendo pra mim que o Palhaço é o diabo desse Ator que pretende o sucesso, a fama, a glória, os rios de dinheiro. Parece que ele é a verdade desse “Gênio-incompreendido”, desse ator sem importância, fracassado, cheio de dívidas e mentiroso.

De volta ao palco e então eu sinto o perigo da situação. A platéia pode gostar ou não do que eu faço. À princípio, eu esqueço completamente deles. Só me lembro que estão ali, quando dão as primeiras risadas. Então percebo que funcionou  e continuo jogando.  Ali, na terra da Micagem, eu domino.

Mas nessa vida a sério, essa sensação de fracasso, de humilhação, de miséria, de incompreensão, de abandono, ela me desanima e me faz desistir de ser visto.

Sabendo que sou eu, num estado ou no outro, aquele que atribui valor em ambas as situações.

Eu gostaria de tomar contato com esse lugar de desconforto e ver o que acontece, quando eu entro nele. Será que isso vai acontecer em algum momento, nesse workshop?

Será que eu descobri, de algum modo, com essa associação de idéias um modo de trazer o Palhaço adiante quando a humilhação for inevitável?

Me parece que tudo o que fiz de arriscado foi conduzido por esse espírito do Palhaço. Tudo. Essa maneira de dar respostas à vida com o mote: “Não sei fazer isso, nunca fiz isso, preciso desse recurso e na hora eu dou um jeito, faço qualquer coisa, resolvo, mesmo que dê errado”. E resolvo.

Então entra o “ARTISTA”, o “GÊNIO” e ele me fode!

Ele não entra em cena, como o Palhaço.

Não. Ele fica nos bastidores, contando os espectadores, lutando contra as opiniões e as críticas, reclamando das péssimas condições de trabalho, chorando pelo cachê teste e a falta das políticas culturais.

Eu ainda não sei se esse estado em que entro quando estou em cena e as pessoas riem é o estado do Palhaço. Eu me sinto vulnerável ali, mas não me importo.

E parece que com isso sou invulnerável.

Só gostaria de ser assim durante mais tempo na minha vida.

Despedida

Queridos,

Eu sempre soube que essa hora chegaria, o tempo em que a casa ficaria justa demais para os meus sonhos e seria preciso remover o teto para voar ainda além. Eu estive aqui, com vocês durante todo esse tempo e partilhei um sonho. Lutei por ele dia a dia, construí dentro de mim essa coisa que agora viva, pede para explorar outros espaços.

Eu não posso permanecer na companhia de vocês sem me sentir tolhendo essa coisa. Eu podia dar a mão a vocês e dizer, “não eu venho um pouco mais, eu fico aqui até que vocês se habituem à minha ausência crescente”. Mas não. É preciso ir e já. É preciso que eu vá, que me distancie desse espaço que compartilhamos durante todo esse tempo. Preciso encontrar o que sou fora daí. Preciso ver o que sobra, quando não estou apoiado nessa estrutura que vocês me oferecem.

De minha parte, dei tudo o que pude e sei que vocês também o fizeram. Se não demos mais do que isso, é porque sentíamos que não podíamos, que seria demais para nós mesmos. E tudo bem para mim.

Foi uma honra partilhar da presença de vocês.

Mas agora, eu parto.

E não nos veremos por um longo tempo.

Estarei ocupado semeando esse sonho.

Nunca deixarei de amar nenhum de vocês.

Vou embora sem mágoas, sem nenhum ressentimento.

Nesse peito, só gratidão.

Namastê

(Para meus queridos amigos e amigas do Viavidya, lugar onde atendi nos últimos três anos)

Uma conversa

Escute, eu não tenho nada a dizer sobre essas pessoas. Eu não acompanho isso, não as conheço realmente. Aquilo que estão mostrando na sua televisão foi feito para que você e eu tenhamos uma conversa sobre aquelas pessoas, uma conversa que eu não tenho a menor intenção de estabelecer contigo.

Desculpe.

Sabe, é muito estranho para mim que todas essas pessoas à nossa volta estejam se ocupando daquelas pessoas na televisão. Daquele atleta ou do outro comediante. Ou do político e aquele criminoso, ou ainda da vilã malvada da novela. De todas essas fábulas, de todas essas histórias da carochinha. Essas opiniões solicitadas.

Então você e eu nos encontramos e você me aborda com a questão da atitude daquela pessoa na novela ou do criminoso que foi mostrado no telejornal. Eu deveria dizer alguma coisa como, nossa, que barbaridade, ou sei lá eu o quê. Mas eu não tenho nada a dizer sobre eles, assim como não tenho nada a dizer sobre papai noel ou outro amiguinho imaginário.

E te pergunto como anda a vida e você diz que está trabalhando muito e que não tem tempo de nada. Ou que o emprego é uma merda e que você só não muda porque não conseguiu coisa melhor. Ou que o filho está com um problema x. Vai arrematar com algo do tipo, fazer o quê, é a vida… Ou graças a deus, isso ou aquilo. Pelo menos não é como fulano ou sicrano…

E você, em algum momento, vai usar sem perceber um roteiro de novela para explicar a sua importância, a minha ou a do seu filho. Em algum momento, você vai usar um jargão que nem sabe de onde veio, você vai atuar como um protagonista de novela das oito. Em algum momento você vai falar assim, vamos falar de coisa melhor. Chega de baixo astral.  E aí, vai sair da novela pro futebol, do futebol para uma piada, da piada para alguma reclamação sobre o parceiro.

Sempre contando basicamente as mesmas histórias, imprimindo o mesmo significado a elas, a mesma importância. Seguindo um programa, que muda de ritmo quando o tédio se instaura e a audiência do outro diminui.

Mas a vida, ela mesmo, ela não está aí.

Não tem vida nenhuma nessas histórias. Nenhuma ação transformadora, nada.

Você acorda amanhã e se encontra aprisionado nessa narrativa, com poucas variações de fluxo, repetindo uma ação cujo produto final é um tédio pior que a morte. E o tempo segue seu curso, até que o ridículo te alcança e você já não sabe mais o que fazer com ele.

O que você deixou aqui para as gerações futuras? Um monte de coisas começadas e não concluídas? Lixo, lixo e mais lixo? Milhares de historinhas sem sentido, enchendo as cabeças dos próximos a herdar a terra? Atrelado à importância que o outro dá ao seu “trabalho”, entre muitas aspas esse trabalho, porque deveria ser uma ação que gerasse algo, efetivo em direção à vida e não o adiamento da destruição que nós chamamos de fazer algo no mundo.

Privando-os de serem pessoas reais, pessoas com histórias reais, com ações feitas por elas, com gente que arca com a própria responsabilidade de ser vivo, único e estar aqui nesse momento junto com todos esses outros fazendo do mundo algo que respire humanidade?

Então, eu não tenho nada a dizer sobre essa farsa. Não.

Não me ocupo dela. Não digo a você que a televisão tem que melhorar, ou que acabaram-se os bons roteiros ou que o ser humano é algo terrível e que devemos ter sempre cuidado com ele.

Eu sou algo terrível porque me recuso a seguir esse roteirinho mamão com açúcar. Eu ajo segundo minhas próprias opiniões, segundo aquilo que eu acredito que deve ser feito.

Eu sou o terror de estado. O desempregado. O não funcional.

Eu me recuso a isso. Me rebelo e não me importo.

Eu estou aqui, agora e faço o mundo a minha maneira. Eu esbanjo isso. Eu ofereço isso a você e não temo o fato de que amanhã eu possa não ter mais disso. Eu tenho. Tive e sempre terei. Sempre darei um jeito de estar vivo. Agindo conforme meu coração, contando minha própria história através de todos esses atos.

Eu olho o hoje, o ontem e vejo essa linha reta implacável que foi se definindo como sendo a marca que deixo nessa Terra. Essa é minha única oferta e a razão de toda fartura. Pegue isso se te serve e se não te serve, me deixe em paz. Siga seu rumo. Encontre sua linha, sua direção. Conte a sua própria história. Se ocupe das suas coisas e resolva-as. Pare de fugir nas histórias dos outros.

Então, só então, quando você estiver realmente vivo nessa terra, agindo dessa maneira, só então nós teremos uma conversa que realmente nos importará.

E nessa hora, não diremos nada. Porque não será necessário.

 

Gargalhada

Não vou conseguir. Não vou.

Os outros não estão vendo como isso é ridículo.

Eu olho para eles e então acho ridículo o fato de eles não saberem que essa situação é ridícula.

Acho essa minha percepção ridícula também.

Então os olhos começam a lacrimejar e eu sinto esse gosto amargo.

Eu preciso falar.

Não.

Não preciso.

Eu só não consigo não falar. É um maldito vício.

A piada, a maldita piada se formou em algum lugar e é perfeita. Eu preciso fazer.

Meu deus! Meu deus!

Eu estou falando isso? Eu disse mesmo isso?

Olhe a cara deles quando eu digo isso.

De onde veio isso? Eu não consigo parar isso, alguém me ajude a parar.

Eles riem.

Eles ainda riem.

Isso tudo é ridículo, meus amigos. Isso tudo!

E eles riem me incentivam a falar mais. Eu não quero mais. Não quero.

Então brota o ódio. Eu odeio todos vocês e essa situação ridícula.

E falo isso, mas todos riem de mim.

E permanecem imersos no ridículo dessa gargalhada que nos levará a morte.

Ação

Considerando a Vida primeiramente como um problema subjetivo. A Vida, sendo um significado para o homem. Então as ações desse homem passam a ser as suas soluções imediatas ao desafio chamado Vida. Algo passa a esse homem e ele então responde a esse estímulo.

De volta à mente. A um certo modo de a mente operar buscando no mundo a completude. Buscando realizar algo no mundo que decifre algo que está num outro modo da mente operar, que é o da interioridade. Buscando obter algo do mundo que traga a sensação de plenitude e nunca encontrando este objeto que permaneça pleno. Porque a mente externa reduz tudo ao tédio, ao mesmo, ao passado, à repetição, à memória.

As ações desse homem passam a ser seu método para resolver a Vida como um problema externo a ele. O homem olha para a Vida e espera obter algo dela e nesse momento, este homem se torna a Morte. Ele busca a vida como um recurso externo a ele, algo que preencha o vazio que é a antítese da plenitude. O homem operando na mente externa é esse vazio. Um vazio buscando algo que o complete. E ele não pode obter nenhuma satisfação usando esse método, porque a mente externa, quando obtiver a plenitude, vai desmembrá-la em pedaços e lançá-la aos quatro ventos, agrupando-a em pequenos conjuntos de insatisfações, até que a plenitude fique reduzida ao tédio. O homem, neste estado, matará a plenitude. Então esse homem perderá o agora e o amanhã. E repetirá o passado até o fim de seus dias, sempre refazendo a mesma ação em busca de um significado para a Vida que o preencha.

O método desse homem passa a ser seu condicionamento. A repetição eterna de uma mesma ação subjetiva, buscando sempre no mundo externo algo que conclua a ação. Um método através do qual ele extraia da vida a plenitude e a degrade em vazio. Esse homem é o diabo e a Vida ao redor dele é o seu próprio inferno.

Há um certo ponto em que alguns homens sentem uma espécie de fadiga do próprio tédio. Esse homem passa a se debater no inferno. Um dia ele acorda e percebe que está vivendo no ontem, que aquele homem diante dele é um homem novo, mas ele olha para ele como se fosse alguém de outra época. Ele se percebe doente e então adoece. Ele encontra a Vida e mais uma vez se empanturra dela, sem obter satisfação. A Vida é insossa. Escassa. Sem graça.

Ele percebe que já tem tudo e deveria ser feliz por isso, mas não consegue. Percebe que não é a presença do dinheiro ou a falta dele. Percebe que não é nada fora dele é algo com ele. Finalmente ele percebe esse vazio e com isso, percebe que tem uma interioridade. E usando a mesma mente externa, esse homem olha para dentro e não vê nada. Ou degrada o que vê, reduz a si mesmo ao vazio. Ele se deprime. Ele se entristece. Ele delega sua possibilidade de agir a outra pessoa. Ele busca mais uma vez uma saída externa. E isso é tudo o que ele pode fazer nesse momento.

E mais uma vez, fora dele, a mesma mente vai degradar o remédio, o método de outro, o livro sagrado, o procedimento, o guru, a Vida em si. Esse homem tem a chance de sair disso, mas novamente ele se torna a morte. Ele ainda acha que Vida é essa busca permanente pelo externo na tentativa vã de escapar da morte, mas a morte é ele mesmo. Ele um dia se cansa disso, ele percebe que o estado em que se encontra é pior do que a morte. Ele então decide morrer. De um jeito ou de outro, esse homem está disposto a romper com os demais. Ele quer sair do inferno. A qualquer custo. E ele não confia em mais ninguém.

Ele é falso para si mesmo e reconhece no outro a mesma farsa. Ele reconhece o inferno.

Ele agora é uma semente de algo.

Quando esse homem encontra o terreno propício, o ambiente adequado, ele se percebe Vida, porque algo dentro dele brota. Ele não sabe o que é. Não está buscando resultado algum nisso. Sabe que não pode buscar. De algum modo, ele sabe que isso é o que ele é de fato, esse algo sem par. Esse átomo.

E ele volta à mesma ação de antes, fatalmente voltará.

Mas não é mais a morte.

Ele é essa semente. E então extrai a Vida de si naquela situação. E a revitaliza. Ele ressuscita os mortos, dá vida ao passado e o atualiza. Ele se reconcilia e o método é refeito.

A ação desse homem é extrair de si aquilo que expressa a Vida em qualquer situação.

Esse é o seu propósito.

 

A memória como toxina

Engraçado que nós aprendemos a valorizar a memória através da educação. Aprendemos a decorar as respostas corretas e somos premiados proporcionalmente. Acertar é repetir o memorizado. Errar é não se lembrar do certo. Então a memória fica super estimada como ferramenta para o nosso discernimento.

Isso vai derivando para muitas coisas que acabam perpetuando o status quo. Daí deriva a falsa premissa de quanto mais experiência (memória) maior a capacidade de dar respostas. Então o antigo é sempre mais certo do que o novo. E vamos ficando com medo das mudanças.

Mas eu não observo que isso é sempre assim.

Porque sucede que alguns idosos nos pareçam obtusos demais e a outros nos parecem sábios? Porque algumas crianças nos parecem superficiais e outras são tão profundas? Acho que isso tem algo a ver com a capacidade de refinar a memória, de torná-la efetivamente útil.

Como todo medicamento, é preciso ter cuidado com a dosagem de memória que vamos usar para avaliar uma situação nova. Se a memória está gerando paralisia, medo, insegurança, obstrução da visão, talvez a dosagem esteja excessiva. É muito difícil se livrar de uma memória tão potente assim. Você não pode negá-la, escondê-la. Os sentimentos que esse tipo de memória provocam são intensos, genuínos. A pressão que exercem é enorme.

Então não se pode usar o recurso da negação para lidar com esse excesso. A memória está ali, íntegra, excessiva, perigosa. Como lidar com ela? Negando-a, seremos violentos com ela. E ela vai revidar isso depois, se tornando mais intensa, porque será a memória do primeiro fato e mais a memória da violência contra a lembrança desse primeiro fato. Então memória gerada em cima de memória. Veneno de feito de veneno.

Estamos no presente, diante de uma situação inteiramente nova e a memória se sobrepõe, distorcendo a nossa maneira de ver as coisas. Como resolver esse impasse? Olhar para a memória como algo que surge agora, entre eu e o fato inédito que se apresenta. Porque estou olhando para essa situação como se fosse aquela? Essa situação presente e inesperada e aquela que já me ocorreu e que me gerou dor, sofrimento ou contradição… Porque aquela situação não foi resolvida de forma satisfatória no momento em que se apresentou, eu estou aqui hoje, carregando-a como um peso. Naquele momento eu não dispunha de ferramentas apropriadas para lidar com aquilo, mas talvez hoje, olhando para essa memória que se interpõe entre o que eu sou agora e esse fato inteiramente novo, talvez agora eu possa fazer algo.

Olho para essa situação atual e somente vejo a memória de um fato que me foi desagradável. Olho e sei que não estou vendo a situação atual ainda, estou vendo o que me passou antes. Como posso agir agora, de maneira que aquilo que me passou antes não me suceda novamente? E agora não é o que foi antes, e então me encontro preso à memória, agindo cegamente em relação ao agora. O que é essa situação nova que não a minha memória? O que realmente é essa coisa e o que é a memória? Posso fazer alguma distinção entre essas duas coisas?

Esse questionamento vai retirando da memória toda a certeza. A memória vai ficando só, na sua inteireza. O fato se atualiza, como algo que foi resolvido daquela maneira por aquelas pessoas naquele momento com base nos dados de que elas dispunham à respeito da situação. O próprio questionamento sobre a “veracidade” da minha perspectiva frente aos fatos contaminada pela memória já presente na situação ocorrida vai eliminando da memória todo teor de verdade que ela possa ter.

Então fico com um fato, que ocorreu de uma maneira tal e que foi interpretado por mim naquela ocasião, sob o efeito das minhas memórias na época. E então me senti vítima daquelas circunstâncias e jurei para mim mesmo que tal situação não deveria acontecer novamente. E então vejo que a mesma situação aconteceu ainda mil outras vezes. Não de fato, mas por efeito dessa memória presente, vivi diversas outras situações sempre significando aquele mesmo fato mal resolvido. E em cada uma dessas vezes busquei uma saída dessa repetição e nenhuma dessas saídas foi satisfatória.

Nenhuma ação externa irá resolver a toxicidade da memória. Nenhuma.

Somente essa operação sobre o significado da memória, sobre a sua subjetividade, sobre as ações externas que tendem a validar a memória e sua supremacia sobre a nossa capacidade de decidir.

Olhar para a memória e extrair dela toda a certeza, até que a dúvida do agora fique cristalina e então, se pode decidir em liberdade, tomando para si toda responsabilidade pelas consequências dessa ação.

 

Vida: faça você mesmo (DIY)

Eu sempre gostei disso, de fazer eu mesmo, de descobrir como se faz uma coisa e tentar fazê-la do meu jeito. E ainda assim, eu tenho preguiça. Falta de habilidade. Medo que dê errado. Medo de perder tempo. Medo do ridículo. Medo de errar.

Com o passar dos anos, eu fui adquirindo habilidades que vieram dessa prática de recombinar as coisas à minha volta.

Nem sempre eu sei o que estou fazendo ou como fazer alguma coisa. Mas é muito difícil para mim essa etapa de as pessoas ficarem discutindo algo para ver qual a melhor maneira de resolver um problema qualquer. Eu fico pensando sozinho, a maior parte do tempo. Olhando os recursos à minha volta e pensando se eu não poderia resolver o problema presente com aquilo que já está na minha frente. Sem precisar adicionar nenhum recurso a mais. Mesmo quando eu não consigo resolver a situação dessa maneira, não faço a opção de me juntar aos outros e ficar discutindo. Eu prefiro um mutirão a um debate.

Então eu prefiro fazer, mesmo que eu não saiba como fazer. Prefiro me mover logo e ir explorando todos os recursos que estão à minha volta. Fazendo tentativas e erros. Recombinando formas, possibilidades. Às vezes eu consulto um manual qualquer, para descobrir se alguém já pensou em usar aquele recurso de outra maneira. Ou se o manual prevê algo assim. Muitas vezes não. O manual foi escrito para aquele recurso ser usado somente daquela forma, da maneira mais rápida possível. Então, quando você se vê diante de um recurso que não funciona mais da maneira que está escrita no manual, a nossa idéia é a de que ele não funciona mais. É lixo e precisa ser substituído por outro recurso. E eu ainda duvido disso e continuo investigando. Aquele recurso é feito de recursos menores. É algo que se compõe de outras coisas e talvez algumas dessas coisas ainda sejam úteis à sua maneira.

Então vou acumulando esses recursos inúteis à minha volta. Coisas que eu ainda não sei o que fazer com elas, mas que percebo que poderiam ser úteis de alguma maneira. Chega então esse momento em que eu tenho que dispensar coisas porque não terei disposição, energia ou tempo para usar esses recursos e os espaços de que disponho para guardar o que pode ser útil são limitados. Preciso liberar espaço, distribuir esses recursos de alguma maneira, jogar fora e esperar que aquele excesso sirva para alguém ali adiante. Então descubro que o espaço vazio é um recurso valiosíssimo.

Esses dias eu estava pensando sobre democracia e cheguei à conclusão que é algo desse tipo: faça você mesmo. Porque quando eu desisto de fazer eu mesmo e resolvo contratar um profissional para resolver algo, o sujeito olha para a minha roupa e tenta enxergar o que eu tenho na carteira. O trabalho dele vai valer o quanto ele acha que eu posso pagar. Ele me cobra esse imposto e vê quanto eu consigo pagar disso. Se colar, colou e ele vai faturar muito às minhas custas. Então democracia de representação é isso: um cara que vai mentir para você para conseguir o seu recurso enquanto ele não cumpre o que promete. Faz mal feito, sem atenção e vai embora, largando o problema na sua frente e você ainda vai ter que dispor de mais recursos para resolver.

Então porque eu faço isso? Porque tenho medo de fazer errado, de não dar certo. De pagar o preço pelas minhas ações. Porque não consigo lidar com o outro de forma direta, elejo um grupo qualquer e me faço representante daquelas pessoas. Ou elejo um representante entre eles. E é esse infeliz aquele que vai lidar com os meus desafetos. Se eu não quero que aquele sujeito faça isso, reclamo com o síndico, o guardinha da rua, o gerente da loja, o patrão, o segurança, o vereador, o prefeito, o governador, o presidente. Preguiça de tomar a ação nas minhas mãos. Preguiça de ir lá conversar com o sujeito e ver ele me dizer que o direito dele é mais direito que o meu. Preguiça de ir lá e achar nessa relação quais são os nossos direitos. O que pode ser melhor para nós dois. Preguiça de dizer bom dia pro vizinho e de responder quando ele diz. Preguiça de saber o nome da pessoa.

É em nome dessa preguiça que eu contrato um filho da puta que vai me decepcionar ali na frente, com a ilusão de que estou ganhando tempo, dinheiro e recurso. Não. Não estou. É uma tremenda perda de tempo isso.

Quando eu tenho a disposição, alegria e energia para isso, me junto com esses que estão à minha volta e compartilhamos algo que vai ser legal para todos. Cada um faz o melhor que pode, o melhor que consegue. E o resultado desse arranjo é do tamanho da nossa disposição. Se hoje não foi tão bom, a gente melhora na próxima.

Democracia é esse piquenique com os amigos.

É o dia em que as famílias se juntam aqui em casa e decidimos que vai ser legal colocar nossos filhos para brincar enquanto a gente cozinha alguma coisa e conversa sobre a vida. Estamos em momentos parecidos e de repente o manual do outro tem alguma informação que o meu não tem. O jeito que o outro está tentando viver talvez tenha alguma pista sobre a minha dificuldade em viver. Que recurso maravilhoso esse!

Ou aquele momento, num grupo, numa reunião em que o sujeito diz a coisa de uma maneira que me incomoda e eu tenho a coragem de dizer isso a ele, diretamente. Naquele momento exato e não depois. Não para o outro que está do meu lado, fazendo intriga ou fofoca. Não em nome do grupo ou do partido ou da empresa. Em meu nome. Digo a ele que aquilo me desagrada porque parece que ele está tentando me ferir com aquilo. Ele me diz que não era a sua intenção. Que aquele é o seu jeito de expor as coisas. E então vamos chegando numa maneira em que eu entendo o seu jeito e ele entende que se passar de certo ponto vai me ferir. Vai invadir o meu espaço. E porque eu sou sincero, o outro passa a me considerar. Ele não vai me ferir intencionalmente. E se o fizer, vou perguntar a ele porque ele o fez e ouvir as suas motivações. Eu exponho meus limites e ele expõe os seus.

Não posso ter medo desse sujeito. Não posso criar um governo que me proteja dele. Não serei covarde. Vou cuidar da minha relação com ele da minha maneira. Fazendo eu mesmo, porque isso pra mim é a democracia.

Pra isso eu tenho que ter calma porque os recursos à nossa volta, incluindo a linguagem que usamos, a cultura, etc… já foram tão usados para essa covardia, para essa preguiça, para essa maneira de eleger um representante que me limpe a bunda ou lave a louça que eu não desejo lavar, que é muito comum que eu nem saiba como expressar o meu limite ou aquilo que estou disposto a cumprir numa relação com outras pessoas. Eu mesmo nem sei como agir nessa situação.

Então volto ao meu velho procedimento, que por hora tem dado certo. Ao invés de passar horas discutindo sobre como as pessoas deveriam agir para que aquele encontro fosse bom para todos, eu vou tentando me encontrar com as pessoas. Já ajo em termos de encontro. Não faço planos, não legislo, não me protejo. Me abro. Digo como me sinto, permito que o outro se expresse, mesmo quando ele quer fazer planos e eu não, e sigo adiante.

Democracia não é uma lei para ser executada amanhã. Não é um projeto. É uma prática diária, ou nada.

O Homem Livre

O recurso mais valioso de que se pode dispor é um homem livre.

Ele está ao seu lado voluntariamente, segundo seus próprios motivos, segundo seus interesses.

Não está condicionado a nada, está ali porque quer e porque sente que se beneficia desta relação.

Ele pode passar sem você, nada que você pode oferecer vai lhe causar dependência.

Ele é o tempo todo aprendizado, autonomia.

Quando age é com todo o seu ser. Se move no mundo realizando seu propósito e ao seu redor é só fartura.

O homem livre sempre gera ações que favorecem a liberdade.

O homem livre é primeiro uma decisão de trabalhar pela própria liberdade.

Se você quer ser um homem livre, semeie ações de liberdade.

Ninguém pode ser livre se depende do aval de outros para sê-lo.

Deixe o outro em paz e fique em paz.

Propósito

Não como uma função ou um trabalho na linha de montagem da vida.

Um talento, talvez. Um dom, não como uma distinção que o coloque acima dos demais.

Um dever, não como algo imposto de fora, mas como algo que precisa se expressar de qualquer modo.

Então, essa ação interna é algo que se dirige a outros, mas não segundo os termos do outro. É algo que se feito, gera ao redor a fartura.

Fartura não como excesso de reservas, mas como fluxo. Como um rio, que sempre flui e está sempre disponível para ser gozado. Então é preciso ter a disposição e a ciência de gozar o rio, que não significa retê-lo na memória, atê-lo ao passado. Gozar no agora, no presente. Aceitar a possibilidade da mudança, o fluxo. Não matar o futuro, reduzindo-o a uma repetição do passado.

Acima de tudo, manter-se livre do outro. Do externo, da recompensa externa. Do resultado. Da estagnação.

Então como isso tudo é feito?

Como é a prática disso?

De mil maneiras se chega a isso, como algo interno. Mas nenhum método externo vai trazer qualquer resultado. Não é um efeito, um estado, um produto, um objeto a ser adquirido. Não é outra identidade.

É um jogo estranho esse…

Porque me sento aqui e escrevo sobre isso, na esperança de que você, ao ler, esteja instigado? Porque isso para mim, vem no lugar da fartura. É um oferta. Não espero nada de você. Não posso esperar.

Então você vem até mim e espera respostas e estamos os dois condenados.

Você me segue, porque espera que eu me responsabilize pelo que você deveria fazer. Você espera que eu diga o que você precisa fazer. Me autoriza a isso. Em mim, você vê algo que seria capaz de tomar a sua ação nas mãos e realizá-la. Você se isenta da responsabilidade e colhe os frutos daquilo que foi feito. Isso é o que você espera, quando decide me seguir.

E eu, me seduzo com isso, porque você, ao me seguir, parece estar validando a minha busca. Sem você, eu estaria reduzido aos meus fracassos insistentes. À dúvida de cada experiência. À luta, para não transformar tudo em morte, em memória, em medo. Ao movimento permanente em busca de equilíbrio. Você me estabiliza, me diz que eu já cheguei no lugar, que não preciso mais continuar a busca. Isso é o que eu espero, quando aceito que você me siga.

Então me ocupo de você. E de outros mil. Quanto mais seguidores, mais validado estou no meu caminho. Passo a depender dessas opiniões. Onde eu estou? Diariamente estou em vocês. Eu agora me chamo Legião, porque sou muitos. Eu tenho a cara daquilo que agrada a todos, daquilo que mantém todos vocês na linha, na minha linha. Naquilo que eu entendo por método.

Mas eu mesmo já me perdi do método. Eu agora sou vocês. E o que somos?

Eu amaria vocês se vocês fizessem exatamente como eu digo? Eu olho para você seguindo o meu método e você é infeliz com ele. Você é dependente dele, não consegue trilhar seu rumo sem ele. Eu olho para você e vejo meu método inutilizado em você. Eu inutilizo meu método, então. Não. Isso não dá certo para vocês. Não dá certo para mim.

Então estamos perdidos.

Mas eu não consigo deixar você de lado, porquê agora não tenho mais nenhum método para seguir. Ao menos você acredita em mim. Isso vai passar. Tudo passa. Daqui a pouco eu vou saber direito o que precisa ser feito.

Mas não sei. Não tenho tempo de saber. Você me ocupa. Vocês todos me ocupam. Preciso de todos vocês para me certificar de que meu método vai dar certo. Eu estou perdido. Estamos todos perdidos, mas eu estou na frente. Guiando todos vocês rumo a esse abismo que se tornou a minha ausência de método. Aonde vamos chegar com isso? Eu não sei. Não sei mais.

Mas preciso continuar. Eu sou a mentira e por isso, não posso deixar que ninguém perceba minha real natureza. E quanto mais me afirmo nisso, mais dúvida eu sou.

Não! Não venha atrás de mim! Eu agora já te odeio! Você e eu nos culpamos pela infelicidade que disputamos. Eu quero ser mais infeliz que você, porque isso te tornaria mais culpado. E você tem a mesma pretensão a meu respeito. Eu agora fico exigente, intransigente. Eu crio demandas impossíveis. Eu preciso ver quem vai sobrar ao meu lado. Eu preciso ficar só.

Mesmo o último dos meus asseclas me será sempre um traidor. Ele traiu a si mesmo, como poderá não me trair?

Não. Não vou por esse caminho.

Não me siga. Não me obedeça. Não adote o meu método.

Permaneça livre, em você mesmo. Fazendo a experiência segundo a sua particular maneira.

É preciso que eu lide com você desta maneira.

Esse é o único modo de nos mantermos livres.

Eu estarei aqui.

Eu aceito você desta maneira.

Mas não serei seu escravo.

As grandes metas

  • Realizar o propósito.
  • Gerar a fartura.
  • Sentir prazer de estar vivo.
  • Libertação.

Dois dos maiores impedimentos a isso são a nossa brevidade e ignorância.

Essas são as nossas principais doenças. Temos a tendência a viver pouco. A usufruir pouco dessa benção. E ignoramos essa condição.

Realizar o propósito. Na tradução do “Charaka Samrita” está implícita a idéia de um dever. Mas não é algo com a nação, com a pátria ou com as outras pessoas. É algo consigo mesmo. Expressar o melhor que se pode ser, a razão de se estar aqui. Essa é a grande ética, o princípio de tudo. Isso é o que, ofertado a outros, gera a fartura. Perceber esse movimento, perceber esse dom que se extravasa e alimenta o outro. Perceber que a vida é essa abundância é esse dar de si. Gozar a vida nessa dimensão. E fazer isso sem esperar nada do outro. E acima de tudo, sem se envolver com as expectativas do outro sobre nós. Isso é estar livre.

A doença é a manifestação de um obstáculo interno que se interpõe à nossa capacidade de concretizar as quatro grandes metas. Essa contradição absorve nosso tempo e energia vital. E surge porque não percebemos as implicações de nossas ações.

Em todas as grandes tradições surgiram essas prescrições, esses conselhos sobre quais as ações que conduzem à liberdade interna. Em nossa ignorância, nos sentimos aprisionados por essas prescrições e nos tornamos rebeldes a elas. Compreendendo-as como leis externas, nós lutamos contra uma suposta tirania. E então, nos tornamos ainda mais automáticos e estúpidos.

Alguns povos incluíram essas prescrições sob a forma de lei de estado. Outros, inseriram-nas como um código moral ou religioso. Outros ainda incluíram essas prescrições como conselhos sobre saúde e bem viver. E ainda assim, persistimos nessa desobediência, buscando nossa própria maneira de resolver o problema chamado Vida.