Uma nova democracia

Eu hoje perdi meu sono mais uma vez, porque confiei algo essencial para mim a um terceiro que me traiu. Fui tomando decisões ao longo do curso de minha vida que acabaram me impedindo de agir sobre a água que bebo e agora, ela corre o risco de acabar. Pensei que bastava eu cumprir uma grade escolar e depois decidir sobre uma maneira determinada de participar da coletividade, que seria o trabalho, cumprindo uma função especializada em troca de alguns benefícios e de dinheiro para que eu pudesse ter opções de serviço e de conforto, de acordo com meus méritos.

E agora, me vejo sem água. Algo tão simples, tão ridículo. E eu não sei como gerar essa água de que necessito. Eu tenho reservas aqui, porque antevi esse problema a quatro anos atrás. Então, fiz como meu avô, que construiu uma cisterna em casa para se prevenir contra as épocas de seca lá na Paraíba. E quando construí minha casa, coloquei duas caixas de mil litros para armazenar a água que viria desse traidor. Então, entre cisterna, caixa de reúso e água que o traidor me fornece eu tenho uma reserva de 6500l.

Nós agüentaríamos uma seca breve, mas não o cenário sombrio que se aproxima.

E por ter feito essas opções todas que me impediram de agir sobre a água antes, eu acordei e fiquei tentando resolver os 40 anos de negligência de minha parte. O que eu poderia ter feito? O que precisa ser feito agora? Porque chegamos a isso?

Eu tinha uns 10 anos e fui visitar meu avô Manoel Guilherme. Do lado de fora da casa, uma construção em forma de caixa, toda em alvenaria. Do telhado, descia um cano que entrava naquela construção e um outro que saia dela.

“O que é isso, pai?”

“Uma cisterna.”

“Pra quê serve?”

“Seu avô mandou construir isso para guardar a água da chuva.”

Meu avô então acrescentou: “Quando eu era menino, costumava faltar água sempre. Então, quando eu cresci, pensei que podia guardar a água da chuva para as épocas de seca. Aqui em Sapé, quando falta água na cidade, só quem tem água sou eu e o hospital.” E ria.

Eu, que via meu pai reclamando o tempo todo sobre a conta d’água achei aquela idéia genial. E pensei que se um dia eu construísse a minha casa, eu também teria uma cisterna.

O que aconteceu ali? Uma experiência compartilhada que me gerou repertório de ações. Quando eu tive a oportunidade, agi e construi minha cisterna. Mesmo assim, tive que contratar pedreiros, que também me traíram, cada um à sua maneira. E foi durante essa enorme obra, esse trabalho colossal, que eu comecei a pensar sobre esse assunto: pra essas coisas que nos são essenciais, não podemos delegar tudo a alguém. Temos que ter mecanismos de supervisionar, de agir, de aprender a partir da experiência, de intercambiar.

Em tudo o que eu estive fazendo dessa maneira na obra da minha casa, eu aprendi. Aquilo que eu optei por não fazer, porque achei pesado demais, sujo demais, braçal demais, isso foi o que me gerou complicação. Eu detinha o poder econômico mas não detinha o poder de ação. É preciso ter os dois. Os dois e também o poder de fazer o acordo e de julgar se esse acordo estava ou não sendo cumprido. E não reinvidico esse poder apenas para mim, senão para todos os envolvidos, cada um com suas famílias e contas a pagar.

E agora, de volta a essa questão da água e da democracia como já pode ser. Existem essas ferramentas de participação na gestão pública, em temas pontuais, como o Bicidade, o Colab e o DemocracyOS. Mas ainda me parecem um pouco com a experiência que tive de colocar as contas numa planilha de custos para poder não extrapolar meu orçamento e não ser lesado pela equipe que trabalhava pra mim. Funcionava para ter as informações às claras, na ação de reinvidicar, mas ainda não serviam como ferramentas que facilitassem minha participação no processo.

Na minha vida prática, existem essas situações em que a reinvidicação encontra uma barreira intransponível. Você tenta negociar com o prestador e o sujeito trava. Se você não tem opções, fica sequestrado e acaba decidindo com base no que o prestador oferece. É preciso ter meios ágeis de cortar o financiamento e de encontrar opções. Se algo não anda, você corta o recurso e investe sua energia em encontrar alternativas. Não pode ser obrigado a escolher entre o menos pior. Isso a gente faz por falta de informação sobre as opções disponíveis.

Por isso essas plataformas de financiamento como Kickstarter, Vaquinha, Indiegogo, Catarse entre outras são tão geniais. E já poderiam ser usadas para financiar diretamente obras do interesse da comunidade. Isso poderia ser um substitutivo ao imposto de renda, além de servir como um incentivo ao pequeno empreendedor local. Ao invés de favorecer grandes construtoras e obras gigantescas, boa parte do dinheiro da comunidade serviria para atender pequenos empreiteiros que seriam diretamente inspecionados pela comunidade.

Coisas como a água, eletricidade, comida… tudo isso está armado dessa maneira, com grandes fornecedores centralizando a produção e a distribuição desses recursos, por que esses sujeitos ganham muito dinheiro com isso. Mas não é eficiente de maneira alguma. O mundo opensource é a maior prova disso. A agilidade nas implementações, no desenvolvimento e na correção de problemas é impressionante. A única regra é que não pode haver segredos. Todo o código é compartilhado e qualquer pessoa que queira participar é bem vinda.

Abra o código do tratamento de água domiciliar, da geração de energia elétrica a partir do sol, das hortas caseiras e das hortas comunitárias e então, cortamos um monte de recursos financeiros que estão indo para as mãos dos 5% que centralizam a produção e distribuição de recursos. Compartilhe e receba mil vezes mais.

Saúde, educação, energia, água… muita coisa já poderia ser resolvida na esfera de participação popular. Temos hoje mecanismos mais eficientes do que as aborrecidas reuniões de comitês para deliberar sobre isso ou aquilo. E quando isso acontecer, veremos quem são aqueles que ganham com as grandes obras e a quem elas realmente favorecem.

Óbvio que isso vai mexer com o sistema de trabalho, que é todo estruturado em representatividade. Porque elejo especialistas que me oferecem determinado serviço, sem que eu possa me engajar no aprendizado desse serviço, porque o macete é segredo, aprendido por um sistema de ensino que centraliza essas informações. Mas se a experiência for a participação, qualquer cidadão pode aprender a fazer qualquer coisa, se engajando nos projetos de acordo com seus interesses e sendo recompensado proporcionalmente aos seus méritos e à importância de sua ação para a comunidade.

Vai desacomodar muita coisa. Inclusive esse nosso hábito de consumir a realidade, como se ela fosse algo pronto e não tivésemos que fazer mais nada à respeito.

Decrépita democracia

Eu hoje me dei conta de que faço parte de alguma minoria.

Eu não estou envolvido em militância partidária faz algum tempo. Não acredito nisso. Tenho procurado outras maneiras de viver a democracia e isso implicou em mudar meu estilo de vida, abrindo espaço na minha agenda para me envolver em participação social em alguns itens que realmente são essenciais para mim e minha família.

Então eu hoje faço parte do Conselho de Pais da escola dos meus filhos, trabalho atendendo as pessoas que precisam de amparo emocional para decidirem seus rumos de vida em situações de crise, acompanho alguns produtores orgânicos e ainda fico pensando o que mais eu poderia fazer com meus vizinhos e amigos para resolver as necessidades que temos em comum.

Mas existe o macro. Existem essas empresas que nos prestam serviços horríveis a preços exorbitantes com a anuência do governo e de seus órgãos reguladores. Existem essas corporações cuidando de bens essenciais, como a água e os nossos alimentos, fazendo o que bem entendem com eles, também com a anuência do governo.

E eu sei que a muito tempo, aquilo que chamamos de “governo” na verdade é uma fachada para negócios escusos entre proprietários, e nós estamos de fora. Nós trabalhamos para essa gente e pagamos impostos para eles. Nós consumimos as coisas que eles nos vendem. Pagamos produzindo, pagamos comprando, pagamos vendendo, pagamos jogando no lixo. E com o que pagamos? Com nossa energia vital, principalmente. É ela, e não o dinheiro, o que está em cheque aqui.

Então nos pintam esse cenário de escolhermos entre vermelhos e azuis. E nessa eleição, ainda tivemos a opção do magenta, além dos habituais tons de azul e vermelho, chegando ao preto absoluto em ambos os lados. Mas não há nada real ali. Os candidatos todos têm alguns minutos por dia para nos convencer a escolhê-los. E como fazem isso? Criando drama.

Os marqueteiros constroem esses personagens durante meses e os vão adequando ao sabor das pesquisas. É uma enorme novela, o que vemos como campanha eleitoral. Vemos os debates e pensamos que significam algo. Mas não significam nada. Às vésperas das eleições eu tinha amigos me pedindo opinião sobre os deputados estaduais e federais. Gente que sabe que esses sujeitos vão lidar com as nossas leis e com os nossos direitos. Eles não sabiam onde encontrar a informação de que necessitavam. Não sabiam onde encontrar programas de governo e projetos de lei. Não tinham energia vital disponível para estudarem esse assunto e realmente decidirem em quem iriam votar.

Então temos esse resultado realmente assombroso nestas eleições:

39,9% dos eleitores optaram por não lidar com esse assunto. Ou votaram nulo (10,17%) ou em branco (10,18%) ou se abstiveram (19,55%). Isso referente às apurações para deputado estadual, aqui em São Paulo.

E então, se olharmos para os mais votados, temos Telhada, Xerife do Consumidor, Feliciano e toda uma gente que representa soluções simplistas, radicais e pouco prováveis, atacando algum “culpado social”, exatamente como foi feito na Alemanha de Hitler. São candidatos-produto, criados para satisfazer alguma demanda emocional da população.

É um indicador de pânico social. De impotência. Parece burrice, mas é impotência e falta de vivência do que é decidir em grupo…

Vamos ter muito trabalho pela frente… Existe algo sem nome que precisa ser articulado, no lugar dessa farsa que virou nossa democracia…

Eu me recuso a olhar para o resultado dessa eleição e achar que isso tem algo a ver com o país. Não é. Não foi o outro quem votou errado. Quase 40% das pessoas não achou que essa eleição iria mudar alguma coisa. Boa parte dos sujeitos eleitos foi criado dramaticamente para atender uma demanda emocional da população. É um indicador de esse modelo não funciona. É preciso ir além das urnas e começar a construir outra coisa. Não basta reclamar do vizinho. Não basta dizer que não temos opções. É preciso investir energia no que queremos construir. Se não são mais os políticos ou partidos, que seja outra democracia.

Mas é preciso agir.

 

 

Autonomia é Rebelião

Na escola eu aprendi que os modos de viver de outros povos eram atrasados e que a história era uma sucessão de progressos que levava fatalmente à Revolução Industrial, depois à Revolução Verde e finalmente à Hiroshima e depois ao Vietnã de Stallone. Na minha adolescência, a ficção e a história se misturaram definitivamente e durante algum tempo, eu cheguei a crer na guerra e na matança como ferramentas de limpeza daquilo que era indesejado. A guerra sendo o Pinho Sol da história.

Então o desconforto de achar algo errado nessa lógica. Esse desconforto e mais a imensa quantidade de hormônios circulando por todos os lados e uma enorme confusão mental.

E eu fui seguindo o roteiro pronto. Seguindo o roteiro pronto daquele que se rebela e resolve fazer as coisas “do seu jeito”. Então, enquanto meus amigos iam por ali, eu ia por lá. Enquanto se meteram a ganhar dinheiro, eu me opus a isso. E achei que essa oposição era fazer o que se gosta e que fazer o que se gosta era não ganhar dinheiro. Neguei o dinheiro. Neguei o meu próprio valor ao negar o dinheiro e o caminho de meus amigos. Na verdade, eu traçava o caminho dos meus amigos ao negá-lo. Era preciso que eu estivesse ali, negando esse caminho, para que aquele caminho se definisse como verdadeiro.

Fui dando o meu jeito de permanecer abastado, mesmo à margem. Mas permanecia dependente daquele caminho, como se aquele caminho também margeasse o meu. Como se, na ausência dessa oposição entre os caminhos, não houvesse nenhum contorno definido entre uma opção e outra. Como se nessa ausência, eu me desse conta de que não tínhamos ali nenhuma opção. Ficar entre alternativas já estabelecidas não significa fazer as coisas do seu jeito.

Qual a escolha real?

Fazer as coisas do meu jeito. O que significa isso? O quanto estou disposto a isso? Isso realmente significa autonomia? Eu precisaria me apartar de todos os outros para fazer as coisas do meu jeito?

Então vamos a isso.

Enquanto eu permanecer à margem, o caminho que impera vai continuar definido. Então não ficarei à margem. Enquanto eu negar esse caminho, ele se afirmará. Então não o negarei. Enquanto me oponho a ele, mas dependente dele eu fico. Não me oporei a ele. Mas também não posso colocar nele nenhum recurso meu. Nada. Nem meu afeto, nem minha mente, nem meus atos.

É preciso cortar a dependência desse outro caminho para que o meu se defina. Então é preciso definir o meu caminho para além da oposição. É preciso ganhar minha própria ação e arcar com a responsabilidade total sobre isso. Coração, mente e braços totalmente engajados nisso que chamo de autonomia. Que é um caminho meu apenas e não tem nada com o outro. Não tenho nada com ele e ao mesmo tempo, busco relação com ele sem me envolver nas suas coisas. Busco o benefício da relação, ofereço o meu melhor e deixo o outro em paz com sua escolha e seu caminho.

E sigo adiante, quando bem entender.

 

 

Physique é preconceito. E não é só…

Em que medida o corpo de um homem representa, significa, expressa o que ele é?

O que define, na aparência de um homem, a adequação a determinada função, a determinado papel que é esperado por outros? Como isso se dá?

O Physique du Rôle sendo o inferno do ator. O lugar intransponível para muitos. Aquele reconhecimento que não se deseja: “chame o fulano, ele tem aquela cara de…”. E fulano segue, representando o mesmo personagem até o final da vida. Encontrado na rua, ele é chamado por esse nome. “Ei, você não é aquele que fazia o …”

Peguemos a nobreza, por exemplo. O que a define na aparência de um homem? Em seus gestos, em seu movimento e na sua maneira de se relacionar com os outros? O que ele gera à sua volta que faz com que nós o interpretemos como rei dos demais? Como ele chega a isso?

Então todos nós, em algum momento da vida, fazemos a opção por um dos papéis disponíveis: eu escolho ser médico. Meus pais pensam que eu seria um bom arquiteto. Meus professores acreditam que eu seria um excelente advogado. Essas pessoas me vêem, de fora, e atribuem a mim um significado. Acreditam que, por determinada coisa externa que eles interpretam em mim, eu poderia cumprir determinada função para eles.

Eu insisto na medicina. E então cumpro todas as ações que as outras pessoas esperam de um médico. Um ritual, um conjunto dessas ações. Que vou cumprindo com maior ou menor dificuldade, fazendo os ajustes necessários, até que chega um momento em que os outros me vêem como sendo o médico. Mas eu ainda não me sinto preparado. O outro, me vê como médico. Eu já significo isso para ele e no entanto, para mim mesmo, ainda falta algo. Esse desajuste entre aquilo que sentimos que somos e aquilo que o outro nos atribui.

Então há o Physique? Eu teria o Physique de um arquiteto para uns e de advogado para outros. E hoje chego a ser um médico. As pessoas me olham e ainda me vêem como o arquiteto? Qual a razão disso? Eu agora sou médico, médico para mim mesmo? Ou diante daqueles que me viam como arquiteto eu fico inseguro das minhas escolhas?

Há sim, no corpo, um sistema de tensões mais ou menos constante intimamente relacionado a algumas estratégias emocionais que usamos nas relações com as outras pessoas. Isso nos veste, mesmo nus. O outro nos vê e vê primeiro esse figurino de carne, com a história das nossas estratégias que deram certo. Ele olha pra mim como um menino frágil, porque isso sempre funcionou na minha relação com outros. Ele olha para mim e vê a minha rigidez de estratégia, a minha doença, a minha prisão. O que eu sou é algo além desse personagem constante e está perdido para mim mesmo.

O homem pode ser o que ele bem entender, mas primeiro precisa chegar a uma nudez ainda mais profunda. Uma nudez que é uma morte.

Então primeiro é preciso desvestir-se desse personagem que criamos para os outros. E se expor numa nudez profunda, uma nudez que revela aquilo que realmente somos, aquilo que viemos expressar aqui. É preciso essa coragem de expressar essa nudez e depois vestir na carne o significado que queremos dar à nossa vida. Muito além do outro e suas chantagens. O outro e aquilo que ele espera que eu seja para ele.

Então o homem pode ser aquilo que ele bem entender.

E ele é livre.

Ato e Corpo

Em algum ponto da trajetória acontece esse desvio. Deveríamos ser amados tal qual somos, mas algo nos atravessa e desde então passamos a obedecer uma chantagem para nos sentirmos amados. E então, nos perdemos.

Esse ato de traição consigo mesmo vai configurando uma seqüência de outros atos, todos eles intensificando essa contradição interna, entre aquilo que se era na origem e a deformação sofrida, que passa a ser nosso acordo de vida. Um método para resolver a vida, mas um método que parte de uma deformação.

Aquilo que se diz e não se sente. As ações imaginadas, os sonhos sempre adiados. Cada coisa dessas é começada no corpo, num alento, num coração que pulsa mais rápido, numa boca que se prepara para dizer como se sente, mas que se entrega ao silêncio. Corpo e ato estão sempre unidos. Mas se o ato não acontece ele fica lá, no corpo, guardado. Como proposta. Como reserva. E então, nas infinitas associações da mente, nos esquecemos dele.

Como resultado, perdemos a capacidade de nos maravilhar. Perdemos a capacidade de ver algo novo. Olhamos para a sucessão dos fatos e passamos a significar sempre a mesma ação não resolvida, a ação que não encontrou seu termo. Não temos mais a consciência desses atos, mas eles seguem atuando, buscando resposta no mundo.

Mudamos de emprego, de cidade, de casamento assumimos novos riscos e depois de algum tempo, lá estamos nós lidando com pessoas que são incrivelmente parecidas com outras pessoas com as quais nos encontramos antes. Repetimos, com essas novas pessoas, cenas que já vivemos com pessoas diferentes. O inferno é sempre culpar o outro por isso. O inferno é não ter a percepção de que é você mesmo quem gera nessas pessoas as mesmas ações de que necessita para continuar seguindo o mesmo programa.

E o programa é esse desvio. A chantagem do começo.

Há uma forma de sair desse programa, de ter a capacidade de recusar essa chantagem e o seqüestro de si mesmo.

Não é um caminho em que se adicionam mais elementos, um outro caminho de excessos.

É antes, um caminho de purificação, de ajudar o outro a tirar do corpo esses atos.

E realizá-los.

Cuidado

Essa integridade do homem depende de um ambiente muito específico e delicado para acontecer.

Qualquer sinal de luta pela sobrevivência e o sujeito deixa de observar o outro. Ele abandona a prerrogativa do cuidado (no sentido de atender, auxiliar, amparar) e passa a ter cuidado (no sentido de temer, suspeitar, desconfiar). Nessa hora, é cada um por si.

Nós criamos todos esses artifícios de convívio, então criamos leis e regras. E aí, não funciona. Não dá certo. Nós insistimos e gastamos uma quantidade enorme de recursos criando mil maneiras de patrulhar o outro e corrigir seu curso. Mas acabamos por criar pequenas máquinas que nos tiranizam. E logo nos vemos novamente em sobrevivência, lutando com essas máquinas. Desobedecendo as pequenas leis que nós mesmos criamos para nos esconder da nossa responsabilidade com o outro.

A  máquina na forma de uma lei, ou de alguém exercendo um papel determinado porque foi autorizado por todos os outros a ser aquele que patrulha. Então esse, ele mesmo, ele comete um ato baseado no seu medo do outro. E então, ele escapa da máquina e novamente é necessário outra lei e outra coisa e outra punição.

E vamos fazendo as nossas manobras para garantir o máximo de eficácia com o mínimo esforço. E isso na relação com o outro, em modo de sobrevivência, se configura na criação disso que eu chamo de máquinas, que são esses automatismos criados em comum acordo, em pequenos grupos de nós, e que determinam como agiremos de maneira a não mudarmos o significado de cuidado.

Então me parece que o fundamental seria atender a esse ambiente em que o homem se sentisse acolhido. Primeiro isso e depois qualquer acordo, qualquer automatismo, qualquer máquina, mas sempre tendo isso como o primário.

Porque se o homem é lançado em sobrevivência, ele usa seus infinitos recursos para vencer qualquer condição extrema e ele triunfa. Isso é o melhor do homem e não deveria ser tolhido por nenhum automatismo.

Porque entramos em modo de sobrevivência quando nos relacionamos uns com os outros? Essa pergunta me parece ser fundamental, porque me parece que é algo que fazemos quando estamos em relação com o outro e interpretamos a sua conduta de maneira que ela nos parece ameaçadora. Então saímos do cuidado e entramos na zona de perigo.

Eu quero ser aceito. Quero ser considerado. Quero ser tratado de uma determinada maneira.

Quando o outro viola essa maneira, me sinto agredido e então, é cada um por si.

Como agir, com base nessa prerrogativa? Eu quero ser aceito. Quero ser tratado de determinada maneira. Então imponho isso ao outro? Com alguma chantagem? Pode ser então que o outro se submeta a isso, durante algum tempo. Mas sempre como algo para ele. Alguma vantagem oculta para ele como algo que lhe economiza energia, em sua relação para comigo.

Mas sempre que ajo assim com o outro, impondo algo a ele e submetendo-o à minha intenção de ser tratado de determinada maneira, passo a temer que alguém faça o mesmo comigo para que eu o trate da maneira como ele gostaria de ser tratado. Então eu me submeteria a isso, extraindo alguma vantagem para mim, algo que me poupe energia em minha relação com esse.

Estaríamos todos envoltos em uma nuvem de mentiras, escondidos atrás delas para que o outro nos deixe em paz com as nossas coisas. E a nossa vida, aquilo que realmente tem sentido para nós como sendo uma espécie de crime.

Então como começa isso?

Tratar o outro como eu gostaria de ser tratado. Como eu gostaria de ser tratado e porquê? Como eu poderia ser bem tratado sem que isso significasse a anulação do outro?

Porque eu entendo que essa determinada coisa a ser obtida (um bom tratamento) por que eu entendo que essa coisa é que me fará ser uma pessoa melhor?

Então primeiro eu recebo algo do outro para que eu possa lhe dar esse algo? E a ação fica tolhida, sem iniciativa. Fatalmente tendendo ao tipo de cuidado que significa perigo. Significa que o outro pode não me dar esse algo. Ele pode me trair. Novamente o blefe e uma vida abreviada.

E se eu olhasse para o outro.

Se eu o tratasse como eu gostaria de ser tratado.

Se eu desse sempre o primeiro passo, nesse sentido. Na direção de deixar claro para o outro como eu gostaria de ser tratado pela minha ação em direção a ele. Pelo cuidado, expresso nessa ação.

E o outro, como ele interpretaria esse meu cuidado? Como uma ofensa? Sim é possível. Possível que para mim seja um cuidado e o outro considere isso ofensivo e se retraia. Tendendo a mentira. Tendendo a um automatismo que lhe economize energia em relação a mim.

Então na retração do outro eu teria perdido a minha capacidade de compreender como poderia tê-lo tratado melhor. Novamente imerso nisso.

É preciso criar uma comunicação adequada, de uma maneira que nem eu nem o outro nos sujeitemos um ao outro. E ainda assim, cuidado. Zelando por um bom tratamento.

Talvez a palavra seja hospitalidade.

Como quando eu recebo uma pessoa na minha casa, alguém que eu gostaria de me relacionar por um tempo. Então eu ofereço o que tenho e a acolho.

Eu acolho essa pessoa no meu coração por algum momento.

Acolho e escuto.

Eu a trato com o que tenho de melhor e não espero nada dela. A não ser que ela tenha a capacidade de tratar alguém da mesma maneira. Com o que ela tem de melhor.

Isso é fartura e integridade.

E uma vida, fora das nuvens.