Uma experiência difícil

Eu não consigo lidar com isso.

Existem esses lugares em que eu me encontro com outras pessoas para fazermos algo juntos. Precisamos nos colocar de acordo em algumas coisas, um mínimo acordo coletivo e então podemos nos lançar nesta experiência. Às vezes nos reunimos em torno de uma pessoa, às vezes nos reunimos em torno de um assunto, não importa.

Então surge essa doença. Não consigo olhar para isso sem sentir isso como uma doença. Um de nós decide usar o grupo como uma ferramenta para conseguir o que deseja para si. E ao fazer isso, sacrifica as intenções dos demais. Ele vai falar como representante, vai falar “nós” em algum momento. Vai dizer “devíamos”. E é só dele que se trata.

Porque me juntei a você, eu me pergunto.

Então ele segue com suas idéias. Ele se inclui. Inclui seus desejos particulares, solicita que nós todos entremos nisso. Ele nos delega funções. Então eu sou seu rim, o outro um pulmão, aquele uma mão, o próximo um pé… Ele é o cérebro, sempre. Na verdade, é o cu, cagando regras.

E me pergunto, como é que isso aparece? Que brecha nós demos para que isso surja?

Porque, imediatamente, essa conduta é acatada. E é reconhecida como liderança. “Finalmente alguém nos disse o que fazer”.

Ou nos rebelamos, levando a coisa a sério, se recusando a cumprir aquilo só porque veio “de cima para baixo”. De todo jeito, isso passa a ter alguma importância.

Não sei.

Parece que ficamos com vergonha de sermos nós mesmos na frente uns dos outros. Então, quando nos juntamos, nos constrangemos. Não quero desagrada-los e nem sempre estou disposto a conviver com vocês. A ouvir vocês. Não sei o que estou fazendo aqui, na maior parte das vezes. Cheguei aqui, vocês já estavam, eu achei que era só imitar o que vocês faziam e tudo ia dar certo e agora me vejo nessa situação. Sofrendo. Mentindo. Com essa sensação terrível de ter me distanciado de mim mesmo.

E agora você ainda me vem com suas coisas. Querendo que eu te siga nisso.

Não, amigo. Não posso.

Eu poderia pensar que é melhor fazer isso, porque todo mundo está achando legal fazer, mas não vou.

Todo mundo é ninguém. Todo mundo é um vazio, uma mentira, um nada.

É possível estar com outras pessoas, convivendo, trocando idéias, tentando ser você mesmo e aguardar que essa inteligência de grupo surja espontaneamente? E só quando isso surgir, passamos a fazer algo que realmente seja significativo para todos? Ou será que essa ansiedade sempre vai nos dominar? Essa sensação de “não estamos fazendo nada de útil”. Estamos aqui, nos encontramos e fazemos sempre o mesmo, que é nada. Nada significativo. Então precisamos desesperadamente desse deus, desse demiurgo, desse político, desse messias, desse líder, desse pai…

Isso se refere ao grupo? Ou se refere ao que estou fazendo da minha vida? Eu tendo a pensar que o segundo caso é mais verdadeiro, porque eu realmente não sei muito o que fazer na maioria das vezes. E isso é uma coisa que me irrita, então quando me deparo com essa incapacidade, arrumo logo um culpado ou trato de arranjar alguma coisa que me dê a sensação de estar fazendo algo.

Que há para fazer?

Nada. Não há nada para fazer. Não é demais? A única coisa real a ser feita é ser você mesmo, e não conseguimos. Temos vergonha. Achamos que o outro não vai nos amar, que vai nos ridicularizar. Como se a diferença necessariamente significasse negação da particularidade.

Não há nada para ser feito, a não ser me encontrar verdadeiramente com vocês e me permitir ser eu mesmo.

E saber que, se eu precisar de ajuda eu posso pedir e contar com vocês.

Mas eu preciso pedir ajuda. Preciso ter essa dignidade.

Não posso dizer que isso é a vontade do grupo, a missão, ou o próximo trabalho.

Porque isso é uma doença. A minha doença e eu a estou alastrando como uma epidemia.

E já não quero mais isso.

De verdade.