Decrépita democracia

Eu hoje me dei conta de que faço parte de alguma minoria.

Eu não estou envolvido em militância partidária faz algum tempo. Não acredito nisso. Tenho procurado outras maneiras de viver a democracia e isso implicou em mudar meu estilo de vida, abrindo espaço na minha agenda para me envolver em participação social em alguns itens que realmente são essenciais para mim e minha família.

Então eu hoje faço parte do Conselho de Pais da escola dos meus filhos, trabalho atendendo as pessoas que precisam de amparo emocional para decidirem seus rumos de vida em situações de crise, acompanho alguns produtores orgânicos e ainda fico pensando o que mais eu poderia fazer com meus vizinhos e amigos para resolver as necessidades que temos em comum.

Mas existe o macro. Existem essas empresas que nos prestam serviços horríveis a preços exorbitantes com a anuência do governo e de seus órgãos reguladores. Existem essas corporações cuidando de bens essenciais, como a água e os nossos alimentos, fazendo o que bem entendem com eles, também com a anuência do governo.

E eu sei que a muito tempo, aquilo que chamamos de “governo” na verdade é uma fachada para negócios escusos entre proprietários, e nós estamos de fora. Nós trabalhamos para essa gente e pagamos impostos para eles. Nós consumimos as coisas que eles nos vendem. Pagamos produzindo, pagamos comprando, pagamos vendendo, pagamos jogando no lixo. E com o que pagamos? Com nossa energia vital, principalmente. É ela, e não o dinheiro, o que está em cheque aqui.

Então nos pintam esse cenário de escolhermos entre vermelhos e azuis. E nessa eleição, ainda tivemos a opção do magenta, além dos habituais tons de azul e vermelho, chegando ao preto absoluto em ambos os lados. Mas não há nada real ali. Os candidatos todos têm alguns minutos por dia para nos convencer a escolhê-los. E como fazem isso? Criando drama.

Os marqueteiros constroem esses personagens durante meses e os vão adequando ao sabor das pesquisas. É uma enorme novela, o que vemos como campanha eleitoral. Vemos os debates e pensamos que significam algo. Mas não significam nada. Às vésperas das eleições eu tinha amigos me pedindo opinião sobre os deputados estaduais e federais. Gente que sabe que esses sujeitos vão lidar com as nossas leis e com os nossos direitos. Eles não sabiam onde encontrar a informação de que necessitavam. Não sabiam onde encontrar programas de governo e projetos de lei. Não tinham energia vital disponível para estudarem esse assunto e realmente decidirem em quem iriam votar.

Então temos esse resultado realmente assombroso nestas eleições:

39,9% dos eleitores optaram por não lidar com esse assunto. Ou votaram nulo (10,17%) ou em branco (10,18%) ou se abstiveram (19,55%). Isso referente às apurações para deputado estadual, aqui em São Paulo.

E então, se olharmos para os mais votados, temos Telhada, Xerife do Consumidor, Feliciano e toda uma gente que representa soluções simplistas, radicais e pouco prováveis, atacando algum “culpado social”, exatamente como foi feito na Alemanha de Hitler. São candidatos-produto, criados para satisfazer alguma demanda emocional da população.

É um indicador de pânico social. De impotência. Parece burrice, mas é impotência e falta de vivência do que é decidir em grupo…

Vamos ter muito trabalho pela frente… Existe algo sem nome que precisa ser articulado, no lugar dessa farsa que virou nossa democracia…

Eu me recuso a olhar para o resultado dessa eleição e achar que isso tem algo a ver com o país. Não é. Não foi o outro quem votou errado. Quase 40% das pessoas não achou que essa eleição iria mudar alguma coisa. Boa parte dos sujeitos eleitos foi criado dramaticamente para atender uma demanda emocional da população. É um indicador de esse modelo não funciona. É preciso ir além das urnas e começar a construir outra coisa. Não basta reclamar do vizinho. Não basta dizer que não temos opções. É preciso investir energia no que queremos construir. Se não são mais os políticos ou partidos, que seja outra democracia.

Mas é preciso agir.

 

 

Quadrilha

Eu sinto que é impossível ter qualquer opinião útil sobre o que está acontecendo. Me parece que estamos todos com os ânimos exaltados demais e nos deixamos influenciar por qualquer coisa que tenha o leve aroma de informação. Mas os fluxos de informação estão todos congestionados por um estado de “suspensão pelo terror”, que nada do que vejo e ouço me parece real. Não me refiro à informação que viria da mídia tradicional, porque faz algum tempo que não procuro esse tipo de canal para me informar. Tampouco o canal que utilizo habitualmente, que são alguns blogs e as timelines de alguns amigos queridos, porque os amigos são sempre a melhor fonte de informação, mesmo quando você não concorda com nada do que eles estão falando.

Não.

As ruas mesmo. Meu trajeto para o trabalho ou as visitas ao supermercado. A conversa entre as pessoas num ônibus e suas opiniões sobre o que “está acontecendo”. O que “está acontecendo” é o mesmo de sempre. O cara continua “fazendo” as mesmas coisas, tentando seguir seu programa diário e então, surgem essas histórias sobre a escassez futura. E o sujeito começa a imaginar o que ele terá que fazer para seguir seu programa, mesmo com essas novas condições, que ainda não se manifestaram. Ele vai preparando essa reação. Vai cozinhando essa resposta ao mundo dentro dele, com uma imaginação que vai crescendo a cada nova informação fragmentada que ele recebe.

As pessoas imaginam que sabem o que é a mentira. E isso não é o problema. A mentira é sempre a opinião com a qual eu não concordo. Isso é fato. O problema é que as pessoas sabem que não têm a menor idéia do que é a verdade, porque não recebem a informação completa e não conseguiriam lidar com ela, de qualquer modo. Então, entre a cruz e a espada, optam pela imaginação e pela manipulação. Estão sozinhas em sua opinião e buscam amparo no outro, tentando convencê-lo de uma história que contam para si mesmas, sobre um futuro terrível onde serão obrigadas a abandonar o programa que cumprem a contragosto em direção a algo absolutamente incerto e ameaçador.

Então as histórias sempre carregam esses mesmos elementos: aqueles que instauram o caos e a necessidade de que as forças da ordem se instaurem. Mas quem são as forças da ordem nesse momento? Aqueles que clamam justiça, se entendendo como vítimas de algo a que se sujeitam? Ou aqueles cujo programa consiste em eliminar as opiniões com as quais eu não concordo? Cada fragmento isolado em si mesmo, com as mesmas demandas e a mesma sensação de que a mentira é o outro.

E em mim sempre a sensação de que nos bastidores existem forças que operam quando os homens se vêem acuados por sua imaginação. Forças que lucram com esses movimentos precipitados.

E mesmo esses homens das coxias, mesmo eles, agora não detém um pensamento único. Estão em guerra entre eles, lutando para ver quem se alimentará do nosso terror. Então se expõem mutuamente, elaboram histórias sobre escassez para expor o adversário ao ridículo, enquanto exaltam seus acertos também fictícios. Recolhem informações que sejam suficientes para gerar na população o estado de terror desejado. Ficamos sem referência alguma, acreditando que o estado de terror se deve à uma polaridade não resolvida entre ordem e caos e já não sabemos quem pertence a que lado.

Enquanto isso, os homens das coxias investem pesado em ambos os lados da equação.

O que percebo é que isso nos coloca numa situação extremamente reacionária. Esse estado de terror faz com que entremos em modo de sobrevivência e nesse ponto, sacrificamos nossa parca racionalidade e capacidade de uma ação que vá além de cumprir um programa inútil e isolado. Nesse lugar, estamos prontos para as soluções milagrosas, as revoluções e os golpes.

Para mim, a pergunta continua sendo sempre a mesma: quem está ganhando com o homem que cumpre um programa, mesmo que o mundo caia ao seu redor? Quem é que diz “olha a cobra!”, para depois dizer “é mentira!”, levando a quadrilha de um lado a outro do arraiá?

O sintoma

Eu venho trabalhando essa idéia de que um líder é o sintoma da fragilidade de um grupo. O que não quer dizer que eu tenha abdicado da importância temporária de uma liderança.

Em dada circunstância, nos trabalhos em conjunto, quer por estreiteza das diversas perspectivas, quer seja por uma escassez objetiva de determinado recurso, o grupo se vê empacado na tomada de decisões, com diversas opiniões sobre um determinado assunto e dificuldade em levar a termo qualquer ação.

Nesses momentos de processo, por ansiedade ou determinação, surgem alguns indivíduos que se destacam através de uma iniciativa que abre passagem para o crescimento de todo o grupo. Esse é o líder, alguém que localiza um recurso onde os demais só percebem escassez.

A grande questão é que esse movimento acaba gerando prestígio para o indivíduo, através do reconhecimento por parte dos demais. Em muitas circunstâncias a iniciativa individual acontece porque o sujeito resolve agir, apesar das deliberações do conjunto, mas em casos ainda mais numerosos, o sujeito já se move dependendo do mérito que obterá dos demais. Já se move em busca de uma autoridade sobre os outros, o que significa que os outros lhe cederão a autonomia de suas ações por algum tempo(Assim deveria ser!)

Esse movimento em busca do reconhecimento já é o sinal de que algo vai mal na equipe. Por algum motivo, este sujeito se lança em busca de algo que o destaque dos demais e provavelmente, já se acentua o processo em que ele se sente desvalorizado por qualquer motivo. O que para mim é um indicador de que os processos de comunicação do grupo não estão funcionando à contento.

Por isso a manutenção do poder de um indivíduo sempre se dá às custas de uma comunicação direta e clara entre os indivíduos do grupo. O sujeito terá que se transformar na figura central em termos de comunicação, centralizando todas as respostas sobre aquele determinado assunto. Com o tempo, sua memória individual sobre os passos requeridos para se resolver aquela escassez temporária passará a se sobrepor sobre a capacidade dos outros indivíduos do grupo de desenvolverem outras iniciativas igualmente eficientes, segundo as suas particulares maneiras, o que abriria espaço para o grupo desenvolver-se ainda mais. Nesse caso, a cegueira de um passa a ser a cegueira de todos.

Ainda mais grave se torna esse processo quando este indivíduo passa a centralizar respostas para todo tipo de problemas. Neste caso, os demais membros do grupo abrem mão de sua autonomia em favor de “crenças” individuais sobre diversos assuntos. Então as ações se vêem tolhidas pela estreiteza de perspectiva de um indivíduo. E o mesmo sujeito se vê desprendendo enormes quantidades de energia para manter restrito o circuito de comunicação, usando todo tipo de estratégia para desqualificar as opiniões e impressões dos demais membros. Passa a buscar uma monocultura de mentes: a sua. O que é  sinal de doença e escassez.

Com o andamento desse processo, abre-se um hiato entre aquilo que os indivíduos declaram que irão realizar em benefício dos demais e aquilo que realmente fazem. Isso transparece pelo alargamento dos prazos na realização das tarefas. Possivelmente é um sinal de que aquele grupo não atende completamente a demanda daquele indivíduo e que ele precisa dividir seu tempo e suas prioridades com outras associações grupais. Isso passa a ser um indicador de problema no grupo em questão quando os indivíduos justificam sua inação neste grupo por estarem engajados em atribuições de outros grupos, realizando uma comparação que não possui nenhuma lógica coerente para o grupo, somente para o indivíduo em questão.

Fatalmente isso vai levar à dissidências, porque é o único recurso que o grupo dispõe, nesse tipo de processo, para novamente abrir espaço para lideranças emergentes e a diversidade.

Quando há suficiente autocrítica no grupo, a emergência das dissidências consiste num impulso para que os posicionamentos sejam revistos e em alguns casos ou ocorre uma alternância de líderes ou o próprio líder abre mão do papel que lhe consolidou no poder.

Liderança, acompanhada de comunicação direta, aberta e disposição para partilhar com os demais o conhecimento obtido por uma ação só pode implicar em autonomia. Para isso, o grupo precisa ter como acordo a autonomia completa dos indivíduos. Sob nenhum pretexto pode haver um ser humano acima dos demais. Mas a agenda do grupo não pode conter nada além do ser humano.

Manipulação é violência.

Poder é discriminação.

Um líder pode deixar de ser alguém que manda e se tornar alguém que orienta um processo consensual sem deixar de contemplar as iniciativas individuais, as lideranças emergentes, os novos focos de ação.

Diversidade é força.

 

Pré-requisitos

Você  deveria saber construir um abrigo e como armazenar e purificar a água. Deveria saber como obter energia elétrica. Deveria saber o que fazer com seu lixo e com o esgoto. Deveria saber como produzir seu próprio alimento, deveria reconhecer quais as plantas à sua volta que são comestíveis, quais são tóxicas e quais são medicinais. Deveria saber produzir fogo. Você deveria saber cozinhar e deveria também saber como é que se faz uma panela. Deveria entender como fazer a natureza produzir usando o ritmo da própria natureza. Deveria saber como gerar fartura rápido e sem custos para o ambiente. Deveria se lembrar como é confiar num outro ser humano e como é tratar o outro como você quer ser tratado. Deveria aprender a cuidar de um idoso e de uma criança. Deveria saber cuidar de qualquer outro ser humano e deveria saber pedir ajuda sem se sentir chantageado e sem impor ao outro nenhuma chantagem. Deveria saber enterrar seus mortos, e aceitar a partida de entes queridos. Deveria aprender a se defender, sem eliminar o outro, sem destruir o outro. Deveria aprender o que é amar, sem manter o outro cativo. Deveria aprender que o seu real valor não é o seu preço e nem o que você tem. Você deveria aprender a fazer as coisas que mais gosta porque são as coisas que você faria bem e que iriam durar muito tempo. Você deveria aprender a viver sem manter o outro cativo.

Ainda há tempo de aprender.

Ainda há tempo.

O Cume

Bancos, Mídia, Comida Industrializada e Petróleo.

Essa postagem no RealFarmacy.com me fez refletir enormemente. São apenas 85 pessoas que detém 46% dos recursos mundiais. Como isso é possível? Essa gente se alimenta dos nossos hábitos.

Os fóruns de economia e alguns grupos políticos se concentram na idéia de que é preciso distribuir renda, entendendo por renda um certo montante de dinheiro que permita a uma família continuar comprando os produtos que vão manter os mesmos 85 no topo da cadeia alimentar. Mas eu de repente comecei a pensar em uma outra abordagem, baseado numa outro escrito meu chamado “Rebelião”: e se nós simplesmente parássemos de depender dessas pessoas?

É possível? Como isso seria feito?

Eu fui criado desde a origem completamente dependente dessa infra-estrutura. Saí da amamentação e cai direto no supermercado. Fui adestrado numa escola e depois caí no mercado de trabalho ao mesmo tempo em que me eram exigidos certos deveres de cidadão da nação. Assumi uma família e me vi endividado com bancos pertencentes a todo tipo de quadrilhas.

Então essa coisa toda me parece uma mãe. Como se aquela teta original tivesse se transformado nessa chantagem horrenda da qual eu tomo parte todos os dias através desses hábitos dos quais eu não consigo me livrar.

E me parece que é isso. É justamente esse o ponto: lidar com o fato de que eu estou viciado nessa estrutura e só posso me liberar dela da mesma maneira que um alcoólatra faz com o seu vício. De uma vez só e ao mesmo tempo, um dia de cada vez. Sabendo que todo o tempo vão tentar me vender os benefícios de permanecer nessa estrutura. E que eu posso cair nessa conversa e levar minha família e meus queridos amigos todos ladeira abaixo.

Onde estão esses nós que fazem com que eu alimente essas 85 pessoas, que estão loucas? Eu acredito que dinheiro é o único recurso que tenho, perdi a noção do meu valor, porque ele passou a ser associado a um preço. Então meu valor é o valor que o mercado me atribui e é preciso que esse valor seja sempre baixo, porque o mercado está me comprando e é preciso que eu esteja em liquidação (ou liquidado, de preferência).

Eu perdi a capacidade de plantar, de cozinhar, de cultivar. Olho para uma planta na rua e não sei se ela é remédio. Vou ao mercado e compro uma carne na bandeja de isopor que quando eu abro fede a carniça. Mas eu a tempero bem e como assim mesmo, porque está cara. Porque carne de mercado é assim mesmo. Porque eu não tenho tempo de ficar na fila do açougue e o dono do mercado sabe disso e me vende a carne quase podre, porque quer ganhar dinheiro porque esse também é o preço dele e ele não pode ficar liquidado ou falido.

Eu fico doente e preciso continuar valendo algo. Eu sou a carne podre na bandeja e peço a um médico que me embale com algum plástico para que o patrão não sinta que estou podre por dentro. O médico também não pode ficar liquidado, porque o convênio paga mal para oferecer a ele um nomezinho e telefone no guia de associados. Ele então me receita uma remédio para o mau cheiro, porque o rapaz da farmacêutica vai dar a ele e a esposa uma viagem para um congresso de medicina. Esse congresso é o tempero do médico e da mulher dele. E o rapaz também oferece a viagem porque sem essa oferta, ele está liquidado.

E me movo de um lado a outro, de uma bandeja a outra, de um plástico a outro, de uma balança a outra. E para cada movimento desses, o petróleo é o que deveria me levar. Mas não leva. Porque eu continuo queimando petróleo enquanto o que não anda é a rua. Eu digo que a estrada não anda, que a rua não anda, mas elas nunca andaram. Elas sempre estiveram ali. Eu é que deveria estar andando, porque comprometo mais de 20% do meu orçamento com petróleo, que me promete esse movimento, mas que não cumpre.

Não cumpre, como qualquer outro desses serviços. Como qualquer coisa dessas. Como esse modelo inteiro, de cabo a rabo, começando pelos meus hábitos.

E é por eles que eu posso começar.

Não conheço essas 85 pessoas. Não saberia diferenciá-los de você ou de mim, porque para mim, somos todos iguais. O problema é tanto poder nas mãos de gente tão louca.

E quando você encontra um louco, é melhor deixá-lo falando sozinho.

Vamos deixar essa gente falando sozinhos?

Você consegue?

Mude os seus hábitos e se libere dessa merda toda!

 

Crise da justiça

Eu fui assaltado uma vez, ali na região da Santa Efigênia. Estava com R$ 800 no bolso direito e um celular Sony, com MP3, que era uma novidade na época. A dupla de assaltantes ficou com o celular e me deixou com o dinheiro e uma bermuda toda rasgada (porque eu resisti, colocando as duas mãos nos bolsos da bermuda enquanto eles tentavam rasgar os meus bolsos para pegar o celular).

Quando acontecia uma ocorrência dessas, quando eu era criança, juntávamos a nossa turma da rua e íamos até a casa do “assaltante” para descer-lhe a porrada e tomar de volta aquilo que ele tinha roubado de nós. Eu era criança e mais selvagem, e a mãe do nosso amigo “assaltante” era autoridade o suficiente para que nós não chegássemos às vias de fato, mas tivéssemos nossos pertences restituídos e a justiça efetivada.

Então eu fui até a delegacia, achando que ia encontrar meus amigos lá. A recepção tinha um cara de mau humor, armado, atendendo mal a uma pessoa que estava na minha frente tentando prestar queixas. Ele olhou pra mim e disse: “que foi?”. Eu tentei contar a história do assalto, mas ele me cortou no meio e disse: “senta aí e espera” e em seguida se virou para um outro policial que apareceu e começou a desfiar o rosário. “São aqueles nóias ali da Rio Branco. Que merda essa delegacia, só tem ocorrência, esses nóias do caralho, os caras podiam ter me mandado para…”

Eu saí, revoltado. Fiquei indignado com o fato de alguém ter sido contratado para fazer um trabalho e reclamar do trabalho, fazer mal o seu trabalho, reclamar quando alguém lhe pede que faça o seu trabalho. E mais indignado ainda de ser eu o patrão e não poder demitir um merda desses. Fiquei indignado de ser praticamente coagido a respeitar um funcionário público que não teve o menor respeito pelos cidadãos ali presentes.

Dois desses meus amigos de infância já foram policiais. Um deles, tenente. O outro soldado. O tenente tinha um tratamento muito diferenciado do soldado, e para ambos, a questão de fazer o trabalho nas ruas era uma espécie de sujeira grossa. Quase um castigo.

Um outro amigo meu é policial federal, trabalha com busca e apreensão. Basicamente ele entra numa favela com um funcionário da Caixa para cobrar empréstimos do Construcard que não foram honrados. E se o cara não paga, ele apreende algum bem em penhora, carro, geladeira, qualquer merda dessas. Lindo de se fazer, não?

Eu fui entendendo o mau humor do delegado aos poucos. Com o passar dos anos, fui colecionando depoimentos que eu nem sei se são sempre reais. Mas fui criando esse perfil do policial para mim mesmo. Um cidadão, lutando pelo seu ganha pão, presta um concurso público em busca de estabilidade financeira, recebe um treinamento e é lançado nas ruas com seu uniforme, uma arma péssima com balas limitadas, um colete que ele mesmo tem que comprar para ser de boa qualidade e depois ganha um salário de merda, então ele tem que fazer justiça, que é prender um outro fudido que nem ele que desistiu da estabilidade e resolveu que vai ganhar dinheiro ou morrer tentando.

Eu sei que os policiais prestam serviço de segurança privada nos seus dias de folga para complementar o salário. Sei também que é prática comum que eles prestem esse serviço com suas fardas, porque isso impõe respeito, que é afastar o ladrão. Então eles cumprem essas escalas de trabalho monstruosas e para completar o seu salário, precisam trabalhar nos dias de folga prestando “consultoria” para alguns comerciantes, bancos, postos de gasolina, etc.

Outro amigo mora num condomínio fechado e teve um vizinho alucinado por causa da cocaína gritando a noite inteira. Ele tem duas filhas pequenas e chamou os policiais. A esposa queria se mudar da casa. O guarda disse: “não esquenta não mano, isso é só cocaína, já vai passar. A casa é sua, não sai não mano.” Meu amigo achou insensibilidade, mas pensou que isso deveria ser coisa normal para o policial. Para que o vizinho fosse despejado do seu contrato de aluguel bastava que o policial tivesse preenchido o boletim de ocorrência com a acusação de consumo de drogas, mas ele achou melhor preencher “chamado por motivo fútil” e o caso ficou encerrado.

Um veterinário comentou comigo que trabalhava numa clínica em que um policial prestava serviço. Houve um assalto num comércio ao lado e esse veterinário viu para onde os assaltantes correram. Todos os moradores sabiam que o policial estava na clínica e foram até lá exigindo providências. Ele fez uma voz de super herói enquanto perguntava ao veterinário: “para onde foram os assaltantes”, ao que o veterinário respondeu “por ali” e o policial então disse “então eu vou para o outro lado” e foi.

Quando voltou, o veterinário indignado, perguntou a ele porque ele tinha ido para o lado contrário. A princípio ele ficou em dúvida se o policial tinha entendido mal, mas o soldado então explicou que ele tinha que prestar conta das balas que usava, que se amassasse o carro numa diligência precisava pagar do próprio bolso, que o colete que ele usava foi ele mesmo quem comprou, porque o colete fornecido é uma porcaria, etc…

E se somam os depoimentos…

Então quando eu vejo os policiais nas ruas, reprimindo violentamente os protestos, eu sinceramente não entendo…

Porque é que eles não estão do nosso lado?

Porque ainda falamos nós e eles?

Eu vejo semelhança no fato de os professores da rede pública serem maltratados pelos alunos e vice versa. Eu entendo que os professores são a tropa de choque do governo, ganhando mal, com a auto-estima péssima, em situação de castigo quando vão para as escolas públicas da periferia e encontram a molecada revoltada com as péssimas condições de vida e a educação de quinta categoria.

Cada um deles, professores, alunos e pais, querendo a tal estabilidade financeira, que consiste em comer merda e bater naquele cidadão que está ao seu lado e resolve roubar a merda do vizinho.

Porque é que não paramos com isso?

 

Querido Abílio

Nós somos pais de crianças que estudam numa escola Waldorf em Embu e estamos tentando que a prefeitura faça valer o imposto que os cidadãos pagam para a melhoria das condições das vias de circulação pública da cidade. Infelizmente, a rua onde a escola se situa é habitada por apenas dez famílias e o secretário de obras da cidade de Embu nos disse que isso torna inviável a sua pavimentação. Por outro lado, ele nos fez a gentileza de apresentar um orçamento estimado de R$ 100 mil para asfaltar 200m de rua. Sugeriu que poderíamos nos cotizar e dividir esse valor em até três vezes sem juros.

De nossa parte pensamos em propor à prefeitura a isenção eterna de IPTU, ou até que os R$ 100 mil sejam totalmente amortizados, nesse caso, sem juros. E a prefeitura mesmo faria o asfaltamento completo da pequena rua, bem como o sistema de escoamento de águas pluviais.

Felizmente para nós, somos seus vizinhos.

No dia de ontem eu descobri esse fator até então desconhecido. Alguns pais  trouxeram a informação de que foi você o comprador daquele haras que havia na estrada do Capuava. Sabe qual é? Aquele que tinha uma mata de eucaliptos que foi toda cortada essa semana, ali perto do templo Budista e da sede dos Arautos do Evangelho. Lembrou? Pois é. Eles comentaram que você tem a intenção de construir ali um frigorífico, para dar escoamento a toda carne que entra na nossa querida metrópole. Houve também a sugestão de que você iria construir uma estrada com quatro pistas até a Régis Bittencourt passando justamente pela região onde fica nossa pequena rua de dez moradores e a escola de nossos filhos.

Eu achei excelente!

Foi apontada a idéia de que poderíamos ver contigo se a nossa rua não poderia fazer parte do seu plano de ampliação das condições viárias da cidade de Embu, uma vez que a rua tem apenas uns 400 metros de extensão (a sim, os valores fornecidos por nosso secretário de obras só serviam para cobrir metade da extensão da rua, numa parte crítica onde os buracos são tão profundos que uma pessoa que desce a rua dirigindo um Land Rover pode subir pilotando o equivalente a uma Brasilia).

Veja, usando a mesma lógica do IPTU, nós todos somos compradores das suas carnes de um jeito ou de outro. A partir de agora, todos nós estaremos levando a sua salsicha também. Então de alguma maneira, estamos colaborando com esse seu projeto de construir o frigorífico ali tão pertinho da escola e de sua parte, seria uma política de boa vizinhança na região. O que você acha?

Nós claro, nos comprometemos a suportar o aumento do tráfego na região e o estupro da mata de eucalipto, bem como o discreto cheiro de carniça, que agora irá nos acompanhar para todo o sempre.

Podemos contar com a sua colaboração?

Guerra

Filhos, a gente estava ali na sala da Vó Dadora ainda a pouco e sua mãe viu que na TV estava passando “A origem dos guardiões”. Então a gente colocou no canal de TV a cabo ficamos assistindo isso juntos. Acho que a mãe tinha levado vocês ao cinema para assistir a esse filme da primeira vez e ela pensou que seria um jeito interessante de trazer a fantasia para vocês.

Então fui vendo o argumento todo da história e hoje eu me dei conta de que é uma fábula sobre o alistamento militar. Não vou contar a história de novo pra vocês, porque vocês a conhecem. Vou explicar meu argumento, para que a gente pense nisso juntos quando a hora chegar. Não é agora, claro. Pedro está com seis, Gabriel fará quatro daqui a pouco e Francisco vai fazer quatro meses. Ninguém vai entender nada…

O povo que escreve essas histórias é um povo que vive com medo. Existem alguns grupos econômicos nesse país que entenderam que o melhor jeito de ganhar dinheiro é através do medo do futuro. Então eles constroem essas fábulas em que um grupo de pessoas especiais protegem as crianças de um vilão terrível que vive do medo delas. A gente hoje viu um desenho animado, mas o papai já assistiu essa mesma fábula diversas vezes, na publicidade dos remédios, dos bancos, dos produtos de seguros e especialmente nos noticiários quando um homem jogou um avião em dois prédios numa grande cidade dessa gente. Muita gente morreu nessa história e eles inventaram um nome para o ato desse homem: terrorismo.

Então eu vi o desenho hoje e me lembrei do homem. Lembrei que eu já tinha feito essa associação quando esse episódio aconteceu.

Lembrei de outras vezes em que essas pessoas fabricaram a mesma história, variando um pouco os personagens: os índios, os mexicanos, os nazistas, os vietcongues, os cubanos, os comunistas, os russos, os palestinos, os afeganistães, os chineses… todos nós, os outros, os que vivem fora das fronteiras daquele medo todo, todos nós não somos as crianças para eles. Nós somos os bichos papões.

É assim: eles nos vendem a história de um jeito que nós nos sentimos como as crianças do filme. Desprotegidos, desamparados, necessitados da ajuda desses heróis incríveis. Dentro do país deles, eles vendem a mesma história, mas desta vez, as crianças são a sua gente e nós somos os bichos papões. O governo deles e algumas famílias mais abastadas passam a ser os heróis incríveis, com seus planos mirabolantes e a melhor solução de todas é sempre a mesma: a batalha do bem contra o mal. E no fim, a guerra mesmo, o mal em si. A maior vergonha que nós pudemos produzir.

O rapaz no filme não se sente aceito pelo grupo de super seres. Ele não é visto por ninguém, vive à margem de tudo, preocupando-se apenas com a delinquência. Um outro personagem que representa a recompensa para aqueles que se comportam bem vê nele a possibilidade de pertencer a esse grupo, mas ele mesmo não se vê assim. O mestre diz a ele para procurar seu cerne, sua essência e nisso eu não vi problema algum. Esse rapaz quer se lembrar do que ele era antes de ser esse delinquente, mas não sabe mais. Ele perdeu a perspectiva do que era se importar com os outros.

O Bicho Papão se aproxima do rapaz justamente por sentir que eles se assemelham nessa coisa de serem reconhecidos pelos outros. Eles se sentem excluídos do grupo principal. O vilão só quer o medo das pessoas, mas o rapaz não quer nada com ninguém ele só quer se divertir.

A prova final para que ele seja aceito no grupo, é uma batalha. Uma luta para proteger a última centelha de esperança, que é um menino como vocês.

O grupo vai se recuperando e trazendo para a batalha todos os seus exércitos, numa cena carregada daquilo que eles chamam de heroísmo. É uma brincadeira onde as sombras se dissolvem e o deus do Sono renasce das cinzas.

No final, os Guardiões triunfam, o Bicho Papão é arrastado para as profundezas, levado pelos seus próprios terrores.

Eu já vi guerras demais, filhos… Os Guardiões enviam as crianças para a matança enquanto eles tramam o quanto irão ganhar com a reconstrução do país vencido.

O Bicho Papão? Quase sempre foi treinado pelos Guardiões, como nós ao assistir esses filmes e compactuar com esses valores.

Não acredito em papai Noel, filhos.

Não acredito em nenhuma justificativa para a guerra.

 

Comprometimento

Que diabos fazer com essa isso que não gere em você essa sensação de estar atado às minhas expectativas? Que diabos fazer com comprometimento que não signifique condicionamento, chantagem, aprisionamento?

Eu te pergunto se você está comprometido e você me olha com essa cara de dúvida. Com essa pergunta eu já te condiciono? Já te imponho uma resposta a ela que me agrade de algum modo?

Com o quê você está comprometido? Com seus interesses. Você realmente sabe quais são eles? Você sustenta esse interesse hoje, amanhã e depois? E depois ainda? Você tem claro o que quer para si mesmo, internamente? Você não fará essa promessa para si sabendo que amanhã vai traí-la?

Então eu te pergunto se você está comprometido e você me olha tentando adivinhar com o quê eu estou comprometido quando te faço essa pergunta.

É desconfortável para você assim como é para mim?

Então você responde algo que me afaste de você por tempo suficiente para que você realmente entenda do que se trata. Você precisa de mais tempo para saber se pode ou não se comprometer comigo. Você ganha tempo, diz que sim, que está comprometido. Mas amanhã, não sabe o que fazer. Não sabe como tomar a iniciativa e vai improvisando. Você olha para mim e fica com a sensação de que me deve algo. Você se justifica. Tenta explicar. Cria outros adiamentos. Comprometimento vira adiamento. E as coisas que poderíamos fazer juntos, não se revelam, porque não há intimidade suficiente.

Você está comprometido com você mesmo? Está? E como é? O que você quer da vida e porquê quer isso? Você já não tem isso que quer da vida? Você realmente precisa desse recurso? Precisa que a vida te ofereça isso pois do contrário você não será feliz?

Que poderia ser comprometimento que não uma prisão?

Eu poderia sair perguntando a todas essas pessoas se elas estão comprometidas e criar mil maneiras de elas expressarem formalmente seu comprometimento, executando tarefas e ritos previamente determinados. Mas quanto tempo isso poderia durar? Eu já fiz isso e a única coisa que vi foi que estava sendo um tirano. E autorizando a que outros me tiranizassem. As pessoas me deixaram falando sozinho. Carregando o peso da minha idéia sozinho. E eu agradeço a elas por isso. Sem essa ação eu não teria visto a minha loucura.

Eu me comprometo comigo mesmo e me libero de você para que você faça o que bem entender. Meu movimento não está atrelado ao seu. Eu estou aqui. Eu te apóio. Mas não vou condicionar seu movimento ao meu e vice-versa. Estou aqui porque quero realizar esse comprometimento comigo mesmo, sem falhar comigo mesmo. Porque entendo que esse comprometimento comigo é o que gera fartura. Não por um senso de obrigação externo, mas pelo prazer de estar fazendo a única coisa que realmente faz sentido para mim. E para isso eu preciso me manter livre de você e dos seus assuntos.

Faça o que bem entender. Esse é o único comprometimento que espero de você.

 

A Máscara

Filho, é muito importante que você tenha sempre isso em mente, quando estiver diante de uma situação em que a sua liberdade estiver ameaçada. Não existem instituições. É isso mesmo. Elas não existem. Aquele homem que está ali na sua frente e que diz representar uma instituição qualquer, ele está mentindo. Ele talvez não saiba disso inteiramente, conscientemente. Mas em algum lugar dele, isso está emitindo sinais.

Ele está usando uma máscara, que é a instituição que ele diz representar. E qualquer homem que use uma máscara é alguém amedrontado. Do que ele tem medo? De você. Do outro. Do diferente. De alguém livre.

David Thoreau olhava para o homem que vinha insistentemente lhe cobrar impostos do governo e sabia com o quê estava lidando. Com um homem, seu vizinho, vestido de governo, que se incomodava com a coragem dele de ser um homem livre. Então esse vizinho chegava na sua porta, a título de cumprir “o seu trabalho” e lhe impunha o pagamento de um tributo ao “governo”. Quem era o governo? Era o vizinho. O dinheiro chegaria ao seu destino, dilapidado, com toda certeza por mil outros vizinhos, cada um deles cobrando o seu tributo ao anterior.

Isso é como quando vocês dois estão brincando aqui na sala e por acaso disputam um brinquedo. Aqui em casa, a priori, os brinquedos são de vocês. De ninguém em particular, nem seu, nem do Pedro. Eu e sua mãe fazemos questão disso, mesmo quando as pessoas dão um brinquedo para você e outro para o Pedro. A gente acha que um recurso dividido é um recurso que se multiplica e então não fazemos essa distinção para vocês.

Mas quando vocês disputam um brinquedo e não conseguem resolver esse assunto entre vocês, e vou observando a progressão de argumentos que levam inevitavelmente à solicitação de um de vocês para que eu, ou sua mãe, ou qualquer outro adulto seja o mediador da relação. Porque vocês fazem isso? Porque querem usar algo que submeta o outro à sua vontade de brincar com o brinquedo que está agora nas mãos dele. Esse algo é o adulto. O maior, o mais forte.

“Porque não resolvem entre vocês?” Eu pergunto. E um responde: “Foi o Pedro” e o outro “Foi o Gabri”.

Vocês estão tentando me manipular. Eu estou nos meus assuntos e então me aparece essa solicitação. E vocês como crianças são muito intensos e nos exigem resposta imediata. Repetem mil vezes a mesma coisa. O mesmo tipo de técnica que os torturadores usam para dobrar os prisioneiros. E então, se não estamos atentos ao nosso psiquismo, a gente se dobra por uma solução simples. E o processo acontece assim: se o Gabriel sempre mente, com certeza o Pedro tem razão. Se o Pedro sempre chora por qualquer coisa, com certeza o Gabriel não fez nada. Reduções estúpidas de cada um de vocês.

E eu tomo uma decisão limitada, com base em argumentos fúteis, numa situação na qual eu não tenho nenhum interesse a não ser que vocês me deixem em paz. E eu nunca estive envolvido nisso. Nunca. Não quero brincar com o carrinho. Quero escrever, conversar com sua mãe, brincar com o Francisco, ou quero estar com vocês sem estar nesse papel estúpido de juiz de quem deve ficar com o pedaço de argila maior.

E então eu digo: “Gabri, quem estava com o carrinho?” e você responde “O Pedro”. E você então fica murcho e devolve o brinquedo ao seu irmão. E o Pedro fica sendo esse bunda mole, que precisa pedir sempre a minha intermediação.

Ou então eu digo: “Pedro, tá chorando porquê?” e o Pedro responde “O Gabri”. E eu digo: “Vá lá e tome dele o carrinho!”. E autorizo o outro a usar a força contra você. E você fica sendo um covarde, que vai ter que mentir sempre para conseguir o que quer.

Eu às vezes digo, sem paciência: “Me deixem em paz! Lutem entre vocês e eu crio quem sobreviver.” Mas também é inútil tudo isso.

E quando eu nem ligo para vocês, ou percebo que vocês estão com sono, ou querem minha atenção, quando eu não ligo para o carrinho ou qualquer outra coisa, aí vocês resolvem o assunto.

Então, filho, a instituição é essa coisa. Uma máscara que a gente usa para conseguir que o outro faça aquilo que a gente acha que ele deve fazer para nos agradar. E aquilo que nos aprisiona na instituição é essa manobra que fazemos para tentar agradá-la. Pagar imposto, bater continência, ajoelhar e fazer um sinal da cruz. Bobagem tudo isso. Deixe o outro em paz!

Tenha coragem de dizer o que realmente quer e de ver o limite do próprio desejo expresso na presença do outro e do querer dele. Aprenda a dividir com o outro, a negociar com o outro. Aprenda a ver que com o outro a brincadeira é melhor, mais legal, mais gostosa. Pare de ter medo do outro, de manipular o outro, de torcer as palavras de um terceiro para que o segundo lhe obedeça e você seja o primeiro. Pare com isso.

Olhe para o homem na sua frente e veja o homem. Veja como é frágil, como tem medo de estar vivo, como está só com suas coisas. Veja como ele se sente único, como ele também quer ser o primeiro porque acha que não é amado o suficiente, porque agora ele tem um irmãozinho menor e mais fofo do que ele. Veja como ele perdeu o amor próprio em algum momento.

E então, olhando esse homem, não se sinta melhor que ele. Veja como você é igual a ele, em tudo. Por fora, é diferente. As histórias de cada um parecem ser diferentes. Mas no fim, filho, somos tão iguais. Sete bilhões de seres iguais em natureza. Iguais nesses sentimentos, nessas dúvidas sobre o que é estar aqui dividindo tantos brinquedos com tantos outros, todos iguais. E sem nenhum papai ou mamãe para dizer de quem é o carrinho. Estamos sós aqui. E todo mundo tem esse lugar que dói.

E então filho, na frente desse homem que se acovarda, veja esse lugar que dói nele. Veja como dói. E aperte esse ponto, sem piedade.

Aperte nesse homem o lugar que lhe dói. Seja firme com ele. Mas seja delicado, lembre-se do quanto ele é frágil. Lembre-se do quanto ele é você. Aperte o homem na esperança de que ele veja quem é, por trás da máscara. Aperte o homem e veja que ele e você são um e que tudo é de todos.

E agradeça ao homem quando ele apertar esse lugar em você, porque quando ser aperta um homem no lugar em que lhe dói, a gente também aperta esse lugar na gente. E isso traz tudo o que precisamos saber sobre nós mesmos e sobre o outro.

Se algum dia, filho, existisse uma instituição real, teria que vir desse encontro.

Dessa generosidade entre duas pessoas que se mostram inteiramente, como eu e sua mãe buscamos viver todos os dias.

O resto, filho, é máscara. É covardia.