Equilibrando

Eu estou fazendo um trajeto de 25km de casa ao trabalho diariamente, a mais de um mês, usando uma bicicleta elétrica. Foi a melhor aposta em meio de transporte. Nem sempre eu deixo o motor elétrico acionado, então a autonomia da bateria tem sido de mais ou menos 75km. Uma ida e volta e mais uma ida. Então na segunda volta, a bateria dá sinais de estar se descarregando e quando eu chego em casa, ela já terminou completamente. A carga total leva umas seis horas, então deixo a bike carregando durante a noite depois que eu volto do trabalho.

As pessoas mais próximas trazem algumas objeções em relação a essa opção. O fato de você estar exposto diretamente ao escapamento dos carros enquanto pedala. A agressividade dos motoristas de ônibus. Ladrões. O uso de sinalização adequada na bike. A extravagância dos trajes de ciclista. Eu não estou negando que essas coisas todas realmente possam acontecer, mas a experiência que eu venho tendo é um pouco diferente.

Eu sei que não estou num carro, e andando na bike eu percebo que o carro realmente é uma espécie de tirano. Não conseguimos pensar em locomoção sem trazer na mente um modelo de carro modificado. Mesmo quando falamos na opção de carro elétrico, carro movido a água, carro se movendo com energia solar, etc… estamos sempre falando do carro. Mesmo quando é um ônibus ou um caminhão ou um carro menor, em que caibam duas pessoas apenas… Carro sempre.

Às seis da tarde, os carros todos à minha volta andam em menor velocidade do que a minha bicicleta. Então não oferecem perigo algum, enquanto eu mantiver a consciência de que estou numa bike e não num carro menor. Andar de bike é uma maneira sofisticada de ser pedestre e não um mini carro. Você não pode pensar que está num carro privilegiado, que passa por todas as frestas do trânsito (acho que é assim que um motociclista se move). Não. Você é um pedestre. Para passar pelas frestas, precisa pedir licença. Precisa avisar que vai fazer isso. Precisa ficar atento aos motoristas, porque os caras estão presos ali no meio daquela zona e com certeza vão usar o celular para passar o tempo, para avisar que vão atrasar.

Na bike, você quase sempre está em movimento, mas não dá para ficar distraído igual quando a gente fica preso num carro, num congestionamento. Sem essa de ligar radinho, falar no celular enquanto pedala. Pelo menos eu não faço desse jeito. Fone de ouvido? Não, sem chance. Um motor que eu deixar de ouvir do meu lado e já era!

Também não dá para apavorar na velocidade quando você precisa por alguma razão andar na calçada. Sim. Eu ando na calçada. Nem sempre, mas eu ando. Tem hora que a rua fica estreita para o buzão e o cara não vai deixar você passar pela direita. Você vai parar no meio fio, vai dar merda. Então eu subo na calçada, desligo o motor elétrico (ou reduzo a velocidade) e vou pedalando na moral. Eu não tenho pressa nenhuma quando estou na bike. Eu sei que vou levar um pouco menos de uma hora para chegar no trampo, então nunca estou atrasado. Se tenho que subir na calçada nesse trecho, no próximo, que vai estar mais livre, eu aciono o motor elétrico e pedalo até chegar nos 25km/h. Então vou compensando as paradas com as pedaladas. Sem crise!

Fazendo as coisas desse jeito que eu comento, eu percebo que existe até gentileza no trânsito!

Os caras me deixam passar, ali na alça da ponte Cidade Jardim, dos dois lados, eu preciso fazer a travessia numa faixa de pedestres sem semáforo. Se eu olho para o motorista, o sujeito para e eu atravesso, sempre agradecendo, sempre sendo gentil. Sempre. Então eu entro naquele parque lindo (Parque do Povo), e passeio por ali. Aí eu saio e passo na frente do Shopping JK, pego a Funchal, atravesso até a Berrini, subo pela Hípica e vou até o trabalho por dentro do bairro, o mais longe possível dos carros.

Esses dias eu encontrei umas pessoas que me pararam na rua para perguntar se a bike valia a pena. Vale sim!

A bike não é barata, comparando com uma bicicleta comum. Mas a conta que eu fiz foi assim: metrô e ônibus ida e volta saem R$ 9,30 por dia. Cinco dias na semana, R$ 48. Num mês típico de quatro semanas, R$ 192. Em um ano e meio de cartão você paga o valor de uma bike enquanto usa. E essa é a única despesa. Em seis meses precisa fazer uma revisão, em uma semana precisa calibrar os pneus, em dois dias precisa carregar a bateria numa tomada elétrica, gastando muito pouco com isso (48W/h).

Não usa gasolina, não precisa fazer licenciamento, pagar IPVA, Controlar, Pedágio, estacionamento. Não anda espremido em outra pessoa e com a roupa certa, você consegue andar até na chuva. Isso eu experimentei e curti muito.

A Baleia

Smith e Smithers lutam pela Baleia.

Smith almeja alimentar sua gente. Os Smiths passam fome na maior parte do tempo e Smith convenceu um pequeno grupo dos seus a encarar a longa viagem de barco e os incontáveis esforços para perseguir a Baleia afim de alvejá-la com o arpão e depois dividi-la igualmente entre os Smiths.

Smithers parece ainda mais ousado. Deseja capturar a Baleia e transformá-la numa espécie de arma contra os seus inimigos. Smithers deseja adestrar a Baleia, como se ela fosse um cão de caça. Seu pequeno séquito é feito de homens e mulheres que se submeteram a ele por medo do futuro sem a Baleia. Medo de serem destruídos por seus inimigos.

Smith e Smithers se encontram no oceano e usam de diversas estratégias para confundir um ao outro. Enquanto Smithers alimenta a Baleia para ganhar seu afeto, Smith precisa do animal passando fome para que se submeta a comer uma de suas incontáveis iscas com anestésicos. No início Smith removia os pedaços de carne que Smithers atirava ao oceano e distribuia entre os seus. Mas com isso percebeu que os Smiths iam ficando cada vez menos dispostos a caçar a Baleia e também eles passavam a ser domesticados por Smithers. Ele deu um basta na situação quando teve a idéia genial de usar o analgésico na carne que era distribuída por Smithers.

Smithers, por sua vez, percebe logo que os Smiths estão se alimentando da carne que ele atira ao oceano para conquistar o afeto da Baleia. Ele tem a idéia genial de colocar um pouco de analgésico na carne para deixar os Smiths letárgicos e indispostos com a caçada da Baleia. Ele aumenta o lançamento de carne no oceano, enquanto provoca ruídos cada vez maiores para que a Baleia se afaste do alimento.

Smith precisa do silêncio de Smithers e então divide a tripulação entre dois navios. O primeiro, maior, fica sempre próximo aos navios de Smithers, para mostrar ao adversário que eles ainda têm interesse na caça do animal. Isso mantém Smithers ocupado com seus barulhos. O segundo navio, mais afastado, rastreia a Baleia no lugar onde o som não chega, nem a carne.

E assim seguem os navios, rodeando uma Baleia que aprende a evitá-los. Que por força da dosagem duplicada de analgésicos na carne, sente o cheiro da armadilha e deixa o alimento apodrecer no oceano.

A Baleia observa a pequena multidão de homens em seus navios. Smith ou Smithers para ela são apenas carne.

E a Baleia tem fome.

Um sonho

Eu não sei como cheguei aqui. Um enorme galpão, mal cuidado, repleto desses gaveteiros estranhos. São cômodas gigantes. Será que isso é o cenário de alguma coisa?

Ninguém chegou ainda, então eu posso escolher um ponto e ficar aqui.

Deixo a mochila no chão e vou em direção aquela enorme janela. Estou escutando vozes e pode ser que as outras pessoas já estejam chegando.

Quem são elas?

O calor é infernal!

Eles entram no galpão, em procissão. São atores e atrizes, uma multidão deles. Uma atriz imensamente gorda chega aos gritos. Me parece que ela representa um grande crítico de teatro numa peça biográfica. Ela critica incessantemente tudo, parece estar tomada por esta função. Todos os espetáculos, todos os atores ausentes. Tudo é péssimo.

Ela se aloja em uma das gavetas e então eu entendo que essas gavetas são dormitórios. Ela enche a gaveta de água e começa a se banhar, se esfrega nas costas e critica tudo, com seu óculos aro de tartaruga e o cabelo channel. Eu vejo que ela tem um pequeno séquito, mas algumas pessoas fora dessa órbita imediata têm sérias restrições quanto ao comportamento da gorda. Eles fofocam, fazem caras e bocas. Tecem críticas sussurradas.

Então ela chega, a ex-atriz mirim. Ela tinha sido uma estrela na infância, mas agora está sempre aparecendo em segundo plano. Um inferno, evidentemente. Ela odeia a atriz gorda e começa então a tecer críticas terríveis. Elas se destroem verbalmente, agora. E as outras pessoas se somam, tomando partido de uma ou de outra.

Eu estou aqui nesta escadaria, olhando isso tudo acontecer e não quero tomar partido de ninguém. Mas a pressão é enorme. Eu escondo o rosto, meu peito dói. Eu não quero fazer essa concessão. Não suporto isso! Então eu começo a criticar a todos! Critico a inteligentzia. Mando tudo à merda.

Então esse amigo me faz ver que com esse meu ato eu estaria arrebanhando seguidores. As pessoas covardemente se esconderiam atrás de mim e me empurrariam para o enfrentamento. Eu seria uma figura a mais, como a gorda e a ex-atriz-mirim.

“Eu quero que vocês se fodam! Não me sigam! Não me sigam!”

Então ele me diz que as pessoas não faziam aquilo por maldade. “Veja como dói em você ser fiel ao que você sente. Isso é um decisão difícil e a maioria das pessoas não suporta essa dor. Então eles cedem e essa covardia é a origem de todo esse estado de coisas”.

Então eu respondo: “Mas eu preciso fazer isso. Preciso ser fiel a mim mesmo porque isso é a única coisa que eu posso oferecer. Não quero ficar na frente deles, não quero dizer a eles o que fazer. Só preciso ser fiel a mim mesmo”.

E tudo se dissolve em sangue e fezes.

Um redomoinho se forma dentro do meu peito e a dor se transforma num ponto luminoso que atrai todo o terror para dentro de mim e o transforma.

 

 

Haja SAC!

São Paulo, cidade mimada.

Quando eu saio daqui, não suporto a demora no atendimento. Não suporto ficar de braços levantados esperando o garçom que finge não me ver. Eu quero ser bem atendido, logo, com opções.

Então a manifestação de Sampa tem essa coisinha mimada. Um temperinho a mais. Tem tanta coisa que não está boa, tanto garçom farsante. Cansei de reclamar por telefone com a menina do atendimento e agora vou pra rua com uma bandeira na mão. Eu reclamo e se não me atendem, quero que saiam, quero outro serviço, quero a volta da ditadura.

É esse discursinho reaça que está aparecendo agora, e isso é constrangedor.

“Cansei da Dilma, agora quero outro”.

“O Lula é analfabeto, fora Alckmin, fora Haddad, fora Kassab”.

Fora sempre, fora.

E então, se vota no próximo candidato. Democraticamente. E no dia seguinte ao resultado, já começam a reclamar.

Não é que o paulista seja direitoso. Ele é a Rainha de Copas. Ele gosta de cortar cabeças.

Equação Guilhermeana

Em sete anos você terá transformado um carro popular zero quilômetro em fumaça tóxica só para fazer o seu carro atual andar.

A conta é essa:

Meu carro atual, Palio EX 1.3 Flex, ano 2005, quatro portas. Capacidade do tanque, uns 40 litros. Preço médio do litro de gasolina hoje, R$ 2,65. Consumo do carro rodando na cidade, 9 km/l.

O maior uso do carro tem sido levar os meninos para qualquer lugar. Os dois lugares em que eles mais vão são a escola e a casa dos avós. De casa a escola, são exatos 19,5 km. Entre levar os meninos na escola e buscá-los, são 78 km diários. 390 por semana. As aulas começam no meio de fevereiro, param em julho, e terminam no meio de dezembro. Nove meses. Mais ou menos 36 semanas. Quatorze mil e quarenta quilômetros por ano. Mil quinhentos e sessenta litros de gasolina, só nisso. O gasto total é de R$ 4134,00 somente com gasolina. A casa seis mil quilômetros, uma troca de óleo. Por ano, são duas. Trezentos reais a mais com isso. Totalizam quase R$ 4500,00.

O cálculo de emissão anual de carbono deste site diz que eu deveria plantar vinte e seis árvores por ano, se eu usasse o carro somente para fazer o que eu mencionei acima.

Entrei no site da Fiat para ver quanto custaria um carro atual com a mesma especificação do meu carro, só para ter uma idéia do preço do automóvel hoje em dia. R$ 34.430. Em sete anos e alguns meses, eu teria comprado um novo carro só com gasolina queimada. Duzentas árvores.

Pedro, meu filho mais velho vai fazer seis anos em junho. Eu plantei uma aroeira pra ele para celebrar o dia em que ele foi batizado. Gabriel, o caçula, tem três. Eu plantei uma cerejeira do mato no quintal.

Faltam 198.

Essa equação foi desenvolvida pelo meu pai. É o tipo de raciocínio que ele desenrola com a maior facilidade. Por isso a chamei “Equação Guilhermeana”.

É a minha herança.

Punhado de areia

Eu ainda não consigo pegar isso de forma clara na minha mente. Estou quase lá, posso senti-lo. As associações estão quase todas apontadas mas falta algo que dê coerência ao todo.

O que eu já sei é o seguinte: você sente que não está fazendo nada de útil. Quanto mais dinheiro você tiver, mais clara essa sensação deve estar. Se você não tem dinheiro o suficiente, com certeza deve imaginar que essa sensação se deve à falta dele. Mas à medida em que você vai sendo premiado, promovido, presenteado, o absurdo se delineia com mais clareza. Não é o dinheiro.

Você não está conseguindo aproveitar o seu dinheiro em nada genuíno. Suas compras são provisórias, suas contas são periódicas, suas experiências são pasteurizadas. Você viaja para um país exótico para encontrar um arremedo da metrópole de onde você veio. Você precisa ficar só, precisa de solidão e em toda parte, os outros estão lá. Você caminha por toda parte com essa sensação de estar sendo lesado. Você então reclama. Usa os canais de comunicação infinitos para desabafar, para reclamar. Enquanto isso, permanece sentado diante do computador com a sensação de não estar fazendo nada.

Nada. Você não está fazendo nada. Você sabe disso. Mesmo quando acorda cedo e vai trabalhar. Você sabe que seu trabalho não produz nada de útil para outros seres humanos. Você sente essa falta de autonomia. Gostaria de fazer algo de útil, mas dinheiro está tão intimamente ligado à futilidade geral, que você não sabe como fazer nada que não seja fútil. Então o amanhã chega. E mais nada é gerado.

Estamos descendo rumo ao abismo, gerando nada a cada passo.

Em algum momento você se rebela e não é pelo dinheiro que você passa a fazer o que você faz agora. Você se cansa de esperar. No começo você acha absurda a própria iniciativa parece fútil. Você senta à tarde para fazer brinquedos para os seus filhos. Você se junta com os amigos e cozinha para eles. Você se juntam e tocam uma horta orgânica. Passam a andar de bicicleta nos finais de semana. Você desce do ônibus e decide andar cinco quilômetros à pé.

Seu carro já não tem o mesmo significado para você. Nem seu emprego ou seu chefe. Os serviços que as contas representam vão sendo reduzidos ao essencial. O restaurante com a conta quilométrica vira um passeio no mercado central e uma tarde de cozinha com os amigos por menos da metade do preço. A televisão não tem qualquer utilidade na sua casa. Você assiste alguns filmes com as crianças e no geral, preferem ficar batendo papo ou usando o computador para encontrar informação que seja relevante para você e os seus.

Nenhum prêmio do capitalismo vale o benefício de ser autônomo.

O que está quase… quase aqui nas minhas mãos é a economia que brota dessa fartura.

Que será isso?

Olimpianos

Eu estava no computador. A família olhando o relógio, fazendo comentários sobre como a rede Globo perdeu os direitos de transmissão dos Jogos. Estavam ansiosos. Um irmão viajando para Londres, para casa da outra irmã, com ingressos comprados para diversos jogos.

Eu na biblioteca, no computador, fuçando alguma coisa para fazer, para não ficar na sala assistindo a abertura. Não consigo olhar para esses eventos mundiais sem ver a manipulação em escala cósmica. Sabendo que as imagens seriam cuidadosamente escolhidas para salvar uma Europa fudida, para mostrar uma Inglaterra suprema, um capitalismo que ainda tem seu valor, apesar de tudo. Lamentavelmente, não consigo acreditar em merda nenhuma. Não consigo olhar o cosmético da coisa.

Então começa o movimento de cooptação. Os ecos narrativos “Nossa que lindo! Olha que coisa incrível!”. Falando como se estivessem pilotando o carro da pamonha.

“O Junior tinha que ver isso.”

Eu, sendo o Junior e estando a pouco mais que cinco metros de distância, num outro cômodo. Ouvindo as instruções dissimuladas. Eu deveria gostar do que eles estavam vendo.

“Dja, vem ver isso!”

Um segundo comercial, dessa vez vindo da companheira.

Eu, nos meus espinhos, desejoso de uma solidão: “Gente, vocês estão loucos? Já falei que não quero ver isso!”

Como se estivesse novamente no dia do meu aniversário, amassando o bolo de chocolate com a faca de cortar.

Me cansei da resistência. Ao mesmo tempo, fiquei curioso para ver a máquina cênica que provocava tamanha comoção. Cheguei a tempo de ver os discos olímpicos voadores.

“Danny Boyle, que merda é essa meu amigo?”

Então a Inglaterra triunfa!

Kenneth Branagh, J.K. Rowling, Voldemort, Mary Poppins, James Bond, a Rainha, Mr. Bean, David Beckham. Todos os fantásticos heróis ingleses! Crianças hospitalizadas ouvindo histórias de terror, sendo salvas por suas babás que caem do céu em guardas-chuva. Depois crescem, se drogam com smartphones e ecstasy, dançam, dançam e nada mais se transforma. O amor. Sempre o amor. E a rainha, muito amada. Muito amável. Sempre com a mesma cara de AVC.

“Que diabo é isso?”

Eles se enfadam da programação em menos tempo do que eu esperava. Parece que se indispõem com o fato de James Bond e a Rainha saltarem de paraquedas.

“É muita mentira.”

 

Então saem para suas atividades programadas. Fazer a janta, lavar a louça, trocar a fralda do menor.

Então os atletas começam a entrar.

Percebo que os atletas dos países ricos entram com smartphones, registrando os momentos na máquina. A expressão facial é essa cara estúpida que fazemos quando estamos tentando tirar uma foto com o celular. Um misto de estupefação com o evento que surge na pequena tela e estupidez com as diversas opções do menu para tirar fotos. Merchandising tecnológico. Aquilo é Apple ou Samsung.

Os atletas dos países pobres entram sorridentes. Delegações de cinco atletas. Seis atletas. Representando nações inteiras. Provavelmente iniciativas individuais de pequenos grupos de investidores locais. Carregando a bandeira da pátria. Africanos, caribenhos, pequenos países da Ásia fragmentada… Os pobres da terra, pagando para participar.

Atletas de todas as nações olhando para os grandes telões, para ver como sua imagem aparece para o mundo. Guardando as imagens nos aparelhos.

As moças brasileiras entram com suas pernas torneadas de fora. Verde amarelo e as pernas do Brasil. Brasil sempre de pernas abertas. Dessa vez, com Smartphones pagos pelo crediário do pré-sal.

“Agora acabou, né pai?”

Meu filho, com sua percepção do apocalipse.

“Acabou, filho. Vamos jantar.”

 

Um caminho para morrer

Tão protegido do tempo, o homem de hoje tem dificuldades para o morrer.

As coisas que ele ainda não tem o lançam para o futuro, sempre sendo o mesmo que o ontem. O domingo antecedendo a dura segunda. O assunto do momento, automatizado pela mídia. A conversinha sem sentido, sem sentimento. A fofoca requentada. A vida seguindo automaticamente, salário após salário, conta após conta, dívida após dívida. A vida em débito automático.

Deus é o papai Noel pelado e sentado nas nuvens, que dá presentes o ano inteiro, desde que você fique devendo um pouco mais. Graças a deus! Não é de graça.

Com diversas opções para falsamente escolher e ser previsível nos sabores tutti-frutti, hortelã, morango, abacaxi, anis, cereja radical e uma miriade de sabores e cores fabricadas. No horizonte, um outro concorrente, igual a você, só que com o cabelo azul e um celular diferente. Respire fundo, coloque o peito para a frente e se faça mais forte. Repita a frase do momento, a opinião inteligente do momento, o jargão do momento. Se faça aceito. Mostre que é melhor que ele que mostra que é melhor que você. Mais do mesmo. Mesmo do mais.

Acorda, abre o olho e lembra que não tem dinheiro para pagar as contas do mês. A garganta se fecha, pensa em pedir emprestado e se lembra que já pediu, porque no mês passado ou no outro ainda já havia tido esse pensamento quando o dinheiro também acabou. Na melhor das hipóteses, vai trabalhar pagando imposto automaticamente quando o dinheiro cai na conta. Pagando as contas automaticamente. O dinheiro sempre cai na conta. Na dele ou na de outros. Ultimamente, mais na de outros do que na dele. Caindo na dívida, mês a mês, enquanto o dinheiro deixa de cair. Pintando também a dívida de vermelho, como tudo que é mal: menstruação, comunismo e fanta-uva.

Ele gosta do que faz? Ele gosta do que faz? O que ele faz? Compra e paga? Paga? Ultimamente, compra a crédito. Um dia eu pago. Um dia antes de morrer. Um dia. Amanhã não devo mais. O que ele faz? Ele quem é?

Ele é quem deve.

E a culpa não é do governo nem do patrão. A culpa é dele mesmo que gasta mais do que pode comprar. Por isso deve. Porque não sabe economizar, apesar dos eletrodomésticos dele serem todos de linha branca e do celular, que já não funciona, ter sido comprado em doze vezes sem juros. Apesar de ele escolher o sabão em pó mais barato que já deixa as roupas mais brancas para ele não ter de comprar mais um produto só para deixar as roupas brancas. Ele que tenta fazer compra do mês no atacadista para comprar a preço de fábrica.

Ele quem é?

Ele é o que reza pouco. Que tem pouca fé. Que não está acreditando muito em deus porque está demorando um pouco para ele ganhar na loteria ou para algum parente dele virar político ou pastor de igreja para ele arranjar um emprego melhor em que ele não precise trabalhar tento para ganhar tão pouco. Que ele possa não trabalhar para ganhar muito, como os políticos e os milionários, que para ele não trabalham pesado.

Ele quem é?

Ele é quem vai passar o pau naquela bunda daqui a pouco porque ficou excitado desde que ela entrou no ônibus. É ele quem está comendo pouco a sua mulher, porque anda muito preocupado com as contas todas que ainda faltam pagar. É ele aquele cujo peito dói e quando ele percebe, a bunda já está sendo encoxada por outra pica e ele, de pau duro, vai ter que passar por trás de outro homem porque o ponto dele já chegou e ele precisa descer. Nem a bunda do ônibus ele consegue encoxar.

Esse é o homem que vem ao teatro.

Na porta do labirinto o homem vê uma cabeça de touro.

Ele quem é?

O minotauro.