Decrépita democracia

Eu hoje me dei conta de que faço parte de alguma minoria.

Eu não estou envolvido em militância partidária faz algum tempo. Não acredito nisso. Tenho procurado outras maneiras de viver a democracia e isso implicou em mudar meu estilo de vida, abrindo espaço na minha agenda para me envolver em participação social em alguns itens que realmente são essenciais para mim e minha família.

Então eu hoje faço parte do Conselho de Pais da escola dos meus filhos, trabalho atendendo as pessoas que precisam de amparo emocional para decidirem seus rumos de vida em situações de crise, acompanho alguns produtores orgânicos e ainda fico pensando o que mais eu poderia fazer com meus vizinhos e amigos para resolver as necessidades que temos em comum.

Mas existe o macro. Existem essas empresas que nos prestam serviços horríveis a preços exorbitantes com a anuência do governo e de seus órgãos reguladores. Existem essas corporações cuidando de bens essenciais, como a água e os nossos alimentos, fazendo o que bem entendem com eles, também com a anuência do governo.

E eu sei que a muito tempo, aquilo que chamamos de “governo” na verdade é uma fachada para negócios escusos entre proprietários, e nós estamos de fora. Nós trabalhamos para essa gente e pagamos impostos para eles. Nós consumimos as coisas que eles nos vendem. Pagamos produzindo, pagamos comprando, pagamos vendendo, pagamos jogando no lixo. E com o que pagamos? Com nossa energia vital, principalmente. É ela, e não o dinheiro, o que está em cheque aqui.

Então nos pintam esse cenário de escolhermos entre vermelhos e azuis. E nessa eleição, ainda tivemos a opção do magenta, além dos habituais tons de azul e vermelho, chegando ao preto absoluto em ambos os lados. Mas não há nada real ali. Os candidatos todos têm alguns minutos por dia para nos convencer a escolhê-los. E como fazem isso? Criando drama.

Os marqueteiros constroem esses personagens durante meses e os vão adequando ao sabor das pesquisas. É uma enorme novela, o que vemos como campanha eleitoral. Vemos os debates e pensamos que significam algo. Mas não significam nada. Às vésperas das eleições eu tinha amigos me pedindo opinião sobre os deputados estaduais e federais. Gente que sabe que esses sujeitos vão lidar com as nossas leis e com os nossos direitos. Eles não sabiam onde encontrar a informação de que necessitavam. Não sabiam onde encontrar programas de governo e projetos de lei. Não tinham energia vital disponível para estudarem esse assunto e realmente decidirem em quem iriam votar.

Então temos esse resultado realmente assombroso nestas eleições:

39,9% dos eleitores optaram por não lidar com esse assunto. Ou votaram nulo (10,17%) ou em branco (10,18%) ou se abstiveram (19,55%). Isso referente às apurações para deputado estadual, aqui em São Paulo.

E então, se olharmos para os mais votados, temos Telhada, Xerife do Consumidor, Feliciano e toda uma gente que representa soluções simplistas, radicais e pouco prováveis, atacando algum “culpado social”, exatamente como foi feito na Alemanha de Hitler. São candidatos-produto, criados para satisfazer alguma demanda emocional da população.

É um indicador de pânico social. De impotência. Parece burrice, mas é impotência e falta de vivência do que é decidir em grupo…

Vamos ter muito trabalho pela frente… Existe algo sem nome que precisa ser articulado, no lugar dessa farsa que virou nossa democracia…

Eu me recuso a olhar para o resultado dessa eleição e achar que isso tem algo a ver com o país. Não é. Não foi o outro quem votou errado. Quase 40% das pessoas não achou que essa eleição iria mudar alguma coisa. Boa parte dos sujeitos eleitos foi criado dramaticamente para atender uma demanda emocional da população. É um indicador de esse modelo não funciona. É preciso ir além das urnas e começar a construir outra coisa. Não basta reclamar do vizinho. Não basta dizer que não temos opções. É preciso investir energia no que queremos construir. Se não são mais os políticos ou partidos, que seja outra democracia.

Mas é preciso agir.

 

 

Quadrilha

Eu sinto que é impossível ter qualquer opinião útil sobre o que está acontecendo. Me parece que estamos todos com os ânimos exaltados demais e nos deixamos influenciar por qualquer coisa que tenha o leve aroma de informação. Mas os fluxos de informação estão todos congestionados por um estado de “suspensão pelo terror”, que nada do que vejo e ouço me parece real. Não me refiro à informação que viria da mídia tradicional, porque faz algum tempo que não procuro esse tipo de canal para me informar. Tampouco o canal que utilizo habitualmente, que são alguns blogs e as timelines de alguns amigos queridos, porque os amigos são sempre a melhor fonte de informação, mesmo quando você não concorda com nada do que eles estão falando.

Não.

As ruas mesmo. Meu trajeto para o trabalho ou as visitas ao supermercado. A conversa entre as pessoas num ônibus e suas opiniões sobre o que “está acontecendo”. O que “está acontecendo” é o mesmo de sempre. O cara continua “fazendo” as mesmas coisas, tentando seguir seu programa diário e então, surgem essas histórias sobre a escassez futura. E o sujeito começa a imaginar o que ele terá que fazer para seguir seu programa, mesmo com essas novas condições, que ainda não se manifestaram. Ele vai preparando essa reação. Vai cozinhando essa resposta ao mundo dentro dele, com uma imaginação que vai crescendo a cada nova informação fragmentada que ele recebe.

As pessoas imaginam que sabem o que é a mentira. E isso não é o problema. A mentira é sempre a opinião com a qual eu não concordo. Isso é fato. O problema é que as pessoas sabem que não têm a menor idéia do que é a verdade, porque não recebem a informação completa e não conseguiriam lidar com ela, de qualquer modo. Então, entre a cruz e a espada, optam pela imaginação e pela manipulação. Estão sozinhas em sua opinião e buscam amparo no outro, tentando convencê-lo de uma história que contam para si mesmas, sobre um futuro terrível onde serão obrigadas a abandonar o programa que cumprem a contragosto em direção a algo absolutamente incerto e ameaçador.

Então as histórias sempre carregam esses mesmos elementos: aqueles que instauram o caos e a necessidade de que as forças da ordem se instaurem. Mas quem são as forças da ordem nesse momento? Aqueles que clamam justiça, se entendendo como vítimas de algo a que se sujeitam? Ou aqueles cujo programa consiste em eliminar as opiniões com as quais eu não concordo? Cada fragmento isolado em si mesmo, com as mesmas demandas e a mesma sensação de que a mentira é o outro.

E em mim sempre a sensação de que nos bastidores existem forças que operam quando os homens se vêem acuados por sua imaginação. Forças que lucram com esses movimentos precipitados.

E mesmo esses homens das coxias, mesmo eles, agora não detém um pensamento único. Estão em guerra entre eles, lutando para ver quem se alimentará do nosso terror. Então se expõem mutuamente, elaboram histórias sobre escassez para expor o adversário ao ridículo, enquanto exaltam seus acertos também fictícios. Recolhem informações que sejam suficientes para gerar na população o estado de terror desejado. Ficamos sem referência alguma, acreditando que o estado de terror se deve à uma polaridade não resolvida entre ordem e caos e já não sabemos quem pertence a que lado.

Enquanto isso, os homens das coxias investem pesado em ambos os lados da equação.

O que percebo é que isso nos coloca numa situação extremamente reacionária. Esse estado de terror faz com que entremos em modo de sobrevivência e nesse ponto, sacrificamos nossa parca racionalidade e capacidade de uma ação que vá além de cumprir um programa inútil e isolado. Nesse lugar, estamos prontos para as soluções milagrosas, as revoluções e os golpes.

Para mim, a pergunta continua sendo sempre a mesma: quem está ganhando com o homem que cumpre um programa, mesmo que o mundo caia ao seu redor? Quem é que diz “olha a cobra!”, para depois dizer “é mentira!”, levando a quadrilha de um lado a outro do arraiá?

O melhor de nós

O que ontem era o sol, agora é a lua.

Mas ao sol, atou-se o rei

o ouro

a riqueza

a razão

os valores

a lucidez

e então, quando a lua veio

o rei tornou-se um louco

o ouro desapareceu

a riqueza de apagou

a razão se perdeu

a torpeza virou moeda

a loucura virou hábito

Como foi que aconteceu?

Atado ao sol e percebendo a chegada da lua, o rei gastou enormes somas pretendendo manter para sempre o sol em seu lugar. Chamou para si os maiores sábios da terra e deu a ele recursos ilimitados para que resolvessem a seguinte questão: o que pode ser mais importante que o sol?

Mil homens se queimaram, por buscar as respostas além do sol, até que os sábios restantes entraram em acordo que além do sol só havia a morte.

Os homens que se lembravam da existência da lua tentaram argumentar, primeiro com os sábios e depois com o próprio rei. Mas foram enviados para além do sol, de maneira que pudessem provar seu argumento. Nenhum deles retornou.

Os poucos que permaneceram resolveram seus dilemas com segredos, códigos, mentiras e silêncio. Eles sabiam que além do sol havia a lua, que de fato, aquilo que já se avistava no céu já era a lua, mas que o rei e os sábios haviam mudado o nome da coisa para manter o significado do sol.

E isso sucedeu de tal maneira que, ao cabo de algumas gerações, os homens não sabiam mais o que era sol e o que não era e se tornaram dependentes dos sábios para que esses lhes interpretassem os sinais. Nesse tempo, não havia mais os homens que se lembravam de que aquele céu negro era de fato a noite. E os homens dessa época eram acometidos por estranhas imagens e monstros com os quais raramente podiam lutar.

Se tornou comum as histórias de gente que, enfrentando esses espíritos eram subitamente lançados e outro lugar, onde encontravam seus familiares, também eles acossados por monstros em distintos pontos do reino. Homens e mulheres dessa época já não distinguiam entre sonho e realidade e passaram a se armar contra os monstros imaginários, concluindo seus atos com assassinatos reais.

Rei, sábios, homens comuns, todos submetidos a uma cartografia impossível, a um território sem limites e a monstros que os atormentavam a todo instante, por mais escondidos que estivessem, sem que se pudesse diferenciar o dia da noite; o sonho, do real; a crença, do recurso.

Os homens empobreciam dia a dia, pois trabalhavam no sonho esperando a colheita na realidade. Sábios gastavam recursos reais com sonhos que nunca se esgotavam. E o rei perseguia miragens de homens obedientes e monumentos feitos em sonho, enquanto que na realidade, se via envolto em traições e intrigas, com seu valor decaindo mais e mais.

Os homens-segredo, aqueles que se lembravam da realidade do sol e da realidade da lua imaginaram que, a única maneira de fazer com que seus semelhantes acordassem de tal pesadelo era criar, na realidade, atos de sonho. Ordenar o sonhar, de tal maneira que a loucura dessa época fosse abalada pelo sublime.

Então criaram esses grandes espetáculos coletivos, monumentos fabulosos, direcionando recursos de reis e homens sábios para criar miragens que dessem direção ao sonhar. Mas a cada geração, tornavam os homens ainda mais dependentes.

Ainda se esforçando para resgatar o sentido, os homens-segredo tentaram o caminho inverso: criar no sonhar, atos de realidade. Nesse caminho entraram homens comuns, sábios e até mesmo o rei, buscando um espírito perdido em miríades de sonhos e imagens desconexas. Almas se silenciaram, sabedorias se abalaram, e reis se perderam, mas a realidade e o sonho continuavam mescladas com a loucura.

Nesse tempo, o tempo do agora, é o tempo em que os homens-segredo tentam trazer mais uma vez, sol e lua de volta. Eles agem na realidade e re-significam seus atos no sonhar. Ações de sol e ações de lua, para finalmente, colocar as coisas no devido lugar.

Autonomia é Rebelião

Na escola eu aprendi que os modos de viver de outros povos eram atrasados e que a história era uma sucessão de progressos que levava fatalmente à Revolução Industrial, depois à Revolução Verde e finalmente à Hiroshima e depois ao Vietnã de Stallone. Na minha adolescência, a ficção e a história se misturaram definitivamente e durante algum tempo, eu cheguei a crer na guerra e na matança como ferramentas de limpeza daquilo que era indesejado. A guerra sendo o Pinho Sol da história.

Então o desconforto de achar algo errado nessa lógica. Esse desconforto e mais a imensa quantidade de hormônios circulando por todos os lados e uma enorme confusão mental.

E eu fui seguindo o roteiro pronto. Seguindo o roteiro pronto daquele que se rebela e resolve fazer as coisas “do seu jeito”. Então, enquanto meus amigos iam por ali, eu ia por lá. Enquanto se meteram a ganhar dinheiro, eu me opus a isso. E achei que essa oposição era fazer o que se gosta e que fazer o que se gosta era não ganhar dinheiro. Neguei o dinheiro. Neguei o meu próprio valor ao negar o dinheiro e o caminho de meus amigos. Na verdade, eu traçava o caminho dos meus amigos ao negá-lo. Era preciso que eu estivesse ali, negando esse caminho, para que aquele caminho se definisse como verdadeiro.

Fui dando o meu jeito de permanecer abastado, mesmo à margem. Mas permanecia dependente daquele caminho, como se aquele caminho também margeasse o meu. Como se, na ausência dessa oposição entre os caminhos, não houvesse nenhum contorno definido entre uma opção e outra. Como se nessa ausência, eu me desse conta de que não tínhamos ali nenhuma opção. Ficar entre alternativas já estabelecidas não significa fazer as coisas do seu jeito.

Qual a escolha real?

Fazer as coisas do meu jeito. O que significa isso? O quanto estou disposto a isso? Isso realmente significa autonomia? Eu precisaria me apartar de todos os outros para fazer as coisas do meu jeito?

Então vamos a isso.

Enquanto eu permanecer à margem, o caminho que impera vai continuar definido. Então não ficarei à margem. Enquanto eu negar esse caminho, ele se afirmará. Então não o negarei. Enquanto me oponho a ele, mas dependente dele eu fico. Não me oporei a ele. Mas também não posso colocar nele nenhum recurso meu. Nada. Nem meu afeto, nem minha mente, nem meus atos.

É preciso cortar a dependência desse outro caminho para que o meu se defina. Então é preciso definir o meu caminho para além da oposição. É preciso ganhar minha própria ação e arcar com a responsabilidade total sobre isso. Coração, mente e braços totalmente engajados nisso que chamo de autonomia. Que é um caminho meu apenas e não tem nada com o outro. Não tenho nada com ele e ao mesmo tempo, busco relação com ele sem me envolver nas suas coisas. Busco o benefício da relação, ofereço o meu melhor e deixo o outro em paz com sua escolha e seu caminho.

E sigo adiante, quando bem entender.

 

 

Pré-requisitos

Você  deveria saber construir um abrigo e como armazenar e purificar a água. Deveria saber como obter energia elétrica. Deveria saber o que fazer com seu lixo e com o esgoto. Deveria saber como produzir seu próprio alimento, deveria reconhecer quais as plantas à sua volta que são comestíveis, quais são tóxicas e quais são medicinais. Deveria saber produzir fogo. Você deveria saber cozinhar e deveria também saber como é que se faz uma panela. Deveria entender como fazer a natureza produzir usando o ritmo da própria natureza. Deveria saber como gerar fartura rápido e sem custos para o ambiente. Deveria se lembrar como é confiar num outro ser humano e como é tratar o outro como você quer ser tratado. Deveria aprender a cuidar de um idoso e de uma criança. Deveria saber cuidar de qualquer outro ser humano e deveria saber pedir ajuda sem se sentir chantageado e sem impor ao outro nenhuma chantagem. Deveria saber enterrar seus mortos, e aceitar a partida de entes queridos. Deveria aprender a se defender, sem eliminar o outro, sem destruir o outro. Deveria aprender o que é amar, sem manter o outro cativo. Deveria aprender que o seu real valor não é o seu preço e nem o que você tem. Você deveria aprender a fazer as coisas que mais gosta porque são as coisas que você faria bem e que iriam durar muito tempo. Você deveria aprender a viver sem manter o outro cativo.

Ainda há tempo de aprender.

Ainda há tempo.

Estupra, mas não mata

Recentemente teve essa história da pesquisa do IPEA sobre o estupro, dando conta de que 58% dos entrevistados acham que o estupro acontece por causa de um comportamento da mulher. A pesquisa em questão é parte do Sistema de Indicadores de Percepção Social, que revela uma determinada mentalidade dessa amostragem populacional.

Ok. Que amostragem é essa?

3810 brasileiros, homens e mulheres com idade a partir dos 16 anos. Não consegui encontrar os indicadores de classe social (baseados apenas em aspectos econômicos, como o número de salários mínimos que o sujeito ganha mensalmente), mas dá para ter uma certa idéia de que os entrevistados são pessoas como eu e você. Pelo menos isso é o que garante a eficácia de uma determinada pesquisa.

Você pode ser qualquer um, que eu desconheço. Então vou te dizer quem sou eu. Sou um sujeito que trabalha por conta própria. Não estou empregado em nenhuma empresa, em nenhuma corporação. Aqui em casa, a renda fixa vem do emprego da minha companheira, a Clau, que vende seu tempo para uma Escola.

Nós fazemos parte da classe média, essa coisa cada vez mais misteriosa. Temos uma receita mensal que sempre me parece enorme, se comparada a outras famílias, e gira em torno dos R$ 6mil. Com essa grana, temos que pagar a escola dos meninos, supermercado, feira, petróleo, contas de consumo, prestação da casa, gente que trabalha para a gente, etc…

No dia 12 do mês, já estamos no vermelho. Ou perto dele.

Tem uns quatro anos que nós fizemos uma operação limpeza nas nossas finanças, porque eu perdi o emprego numa escola e a Claudia teve o número de horas aulas reduzido, enquanto estávamos com uma casa em construção, grávidos do segundo filho e cheio de empréstimos para honrar. Nós enxugamos nosso orçamento ao máximo, diminuímos excessos e mudamos hábitos de consumo. Nesses quatro últimos anos, nós conseguimos fechar o mês de dezembro bem. Fomos diminuindo o vermelho na conta e finalmente conseguimos colocar um pouquinho de azul.

Como vamos lidando com a vermelhidão? O banco gentilmente nos oferece um limite de cheque especial. Um crédito. O banco que acredita na gente. Então, o que a gente costumava fazer? Quando a gente ficava muito ansioso, com as contas assombrosamente no vermelho, com aquele negativo todo nos assombrando, a gente precisava muito ver TV a cabo ou tomar cerveja. Ou então, precisava muito comprar aquela oportunidade de ouro.

Eu precisava daquele celular em 20x. Ou do computador. Ou daquele livro, mais um deles, que ia ser empilhado com todos os outros que ainda falta eu ler. Eu precisava ser mimado, precisava que me colocassem no colo e me dessem carinho. E quem é que me dava? O banco. O banco e as casas Bahia. E as livrarias. E aquele site da china que me vende bugingangas que chegam aqui em casa e eu não sei como. O Paypal me salvou.

Eles todos me diziam: pega cara, é seu! Pode pegar. Depois você vê como resolve. Passa a mão. Leva pra casa.

Eles todos iam me colocando na cabeça que eu posso ter o que quiser, não importam as consequências. Depois você divide em 50x, vai pagando um pouquinho por mês. Não precisa pagar, fica aí. Pega mais. É teu. O que é meu é teu.

Então, num país machista, com boa parte da programação constituída por bundas à mostra e mulheres num papel ridículo, então nesse país, a mulher virou um bem de consumo. E é fácil entender porque o estupro é uma modalidade de crédito. O sujeito quer, ele não pode ter, ele tira o pau pra fora e passa na bunda que está na frente dele. E o outro sujeito do lado, ele olha, ele tem nojo, ele quer dar uma porrada no cara, mas por algum motivo não consegue. Ele acha que não é problema dele. Aquela mercadoria não lhe pertence.

Pode pegar cara! Mas não destrói. Não quebra. A bunda no metrô é uma mercadoria no show room. É essa a associação nefasta que está sendo feita.

Tá com desejo sexual?  Estupra, mas não mata. Não quebra o brinquedo do outro.

E seguimos todos sendo estuprados.

Pelo crédito oferecido, pelo salário que é pouco, não importa o quanto você trabalhe, por essas necessidades todas, criadas, fabricadas. Por essa carência sem fim que eu tenho que suprir já, agora, imediatamente. Eu não posso esperar. Não consigo esperar. Não. Eu quero agora!

E isso faz essa máquina toda continuar girando.

 

O Cume

Bancos, Mídia, Comida Industrializada e Petróleo.

Essa postagem no RealFarmacy.com me fez refletir enormemente. São apenas 85 pessoas que detém 46% dos recursos mundiais. Como isso é possível? Essa gente se alimenta dos nossos hábitos.

Os fóruns de economia e alguns grupos políticos se concentram na idéia de que é preciso distribuir renda, entendendo por renda um certo montante de dinheiro que permita a uma família continuar comprando os produtos que vão manter os mesmos 85 no topo da cadeia alimentar. Mas eu de repente comecei a pensar em uma outra abordagem, baseado numa outro escrito meu chamado “Rebelião”: e se nós simplesmente parássemos de depender dessas pessoas?

É possível? Como isso seria feito?

Eu fui criado desde a origem completamente dependente dessa infra-estrutura. Saí da amamentação e cai direto no supermercado. Fui adestrado numa escola e depois caí no mercado de trabalho ao mesmo tempo em que me eram exigidos certos deveres de cidadão da nação. Assumi uma família e me vi endividado com bancos pertencentes a todo tipo de quadrilhas.

Então essa coisa toda me parece uma mãe. Como se aquela teta original tivesse se transformado nessa chantagem horrenda da qual eu tomo parte todos os dias através desses hábitos dos quais eu não consigo me livrar.

E me parece que é isso. É justamente esse o ponto: lidar com o fato de que eu estou viciado nessa estrutura e só posso me liberar dela da mesma maneira que um alcoólatra faz com o seu vício. De uma vez só e ao mesmo tempo, um dia de cada vez. Sabendo que todo o tempo vão tentar me vender os benefícios de permanecer nessa estrutura. E que eu posso cair nessa conversa e levar minha família e meus queridos amigos todos ladeira abaixo.

Onde estão esses nós que fazem com que eu alimente essas 85 pessoas, que estão loucas? Eu acredito que dinheiro é o único recurso que tenho, perdi a noção do meu valor, porque ele passou a ser associado a um preço. Então meu valor é o valor que o mercado me atribui e é preciso que esse valor seja sempre baixo, porque o mercado está me comprando e é preciso que eu esteja em liquidação (ou liquidado, de preferência).

Eu perdi a capacidade de plantar, de cozinhar, de cultivar. Olho para uma planta na rua e não sei se ela é remédio. Vou ao mercado e compro uma carne na bandeja de isopor que quando eu abro fede a carniça. Mas eu a tempero bem e como assim mesmo, porque está cara. Porque carne de mercado é assim mesmo. Porque eu não tenho tempo de ficar na fila do açougue e o dono do mercado sabe disso e me vende a carne quase podre, porque quer ganhar dinheiro porque esse também é o preço dele e ele não pode ficar liquidado ou falido.

Eu fico doente e preciso continuar valendo algo. Eu sou a carne podre na bandeja e peço a um médico que me embale com algum plástico para que o patrão não sinta que estou podre por dentro. O médico também não pode ficar liquidado, porque o convênio paga mal para oferecer a ele um nomezinho e telefone no guia de associados. Ele então me receita uma remédio para o mau cheiro, porque o rapaz da farmacêutica vai dar a ele e a esposa uma viagem para um congresso de medicina. Esse congresso é o tempero do médico e da mulher dele. E o rapaz também oferece a viagem porque sem essa oferta, ele está liquidado.

E me movo de um lado a outro, de uma bandeja a outra, de um plástico a outro, de uma balança a outra. E para cada movimento desses, o petróleo é o que deveria me levar. Mas não leva. Porque eu continuo queimando petróleo enquanto o que não anda é a rua. Eu digo que a estrada não anda, que a rua não anda, mas elas nunca andaram. Elas sempre estiveram ali. Eu é que deveria estar andando, porque comprometo mais de 20% do meu orçamento com petróleo, que me promete esse movimento, mas que não cumpre.

Não cumpre, como qualquer outro desses serviços. Como qualquer coisa dessas. Como esse modelo inteiro, de cabo a rabo, começando pelos meus hábitos.

E é por eles que eu posso começar.

Não conheço essas 85 pessoas. Não saberia diferenciá-los de você ou de mim, porque para mim, somos todos iguais. O problema é tanto poder nas mãos de gente tão louca.

E quando você encontra um louco, é melhor deixá-lo falando sozinho.

Vamos deixar essa gente falando sozinhos?

Você consegue?

Mude os seus hábitos e se libere dessa merda toda!

 

Querido Abílio

Nós somos pais de crianças que estudam numa escola Waldorf em Embu e estamos tentando que a prefeitura faça valer o imposto que os cidadãos pagam para a melhoria das condições das vias de circulação pública da cidade. Infelizmente, a rua onde a escola se situa é habitada por apenas dez famílias e o secretário de obras da cidade de Embu nos disse que isso torna inviável a sua pavimentação. Por outro lado, ele nos fez a gentileza de apresentar um orçamento estimado de R$ 100 mil para asfaltar 200m de rua. Sugeriu que poderíamos nos cotizar e dividir esse valor em até três vezes sem juros.

De nossa parte pensamos em propor à prefeitura a isenção eterna de IPTU, ou até que os R$ 100 mil sejam totalmente amortizados, nesse caso, sem juros. E a prefeitura mesmo faria o asfaltamento completo da pequena rua, bem como o sistema de escoamento de águas pluviais.

Felizmente para nós, somos seus vizinhos.

No dia de ontem eu descobri esse fator até então desconhecido. Alguns pais  trouxeram a informação de que foi você o comprador daquele haras que havia na estrada do Capuava. Sabe qual é? Aquele que tinha uma mata de eucaliptos que foi toda cortada essa semana, ali perto do templo Budista e da sede dos Arautos do Evangelho. Lembrou? Pois é. Eles comentaram que você tem a intenção de construir ali um frigorífico, para dar escoamento a toda carne que entra na nossa querida metrópole. Houve também a sugestão de que você iria construir uma estrada com quatro pistas até a Régis Bittencourt passando justamente pela região onde fica nossa pequena rua de dez moradores e a escola de nossos filhos.

Eu achei excelente!

Foi apontada a idéia de que poderíamos ver contigo se a nossa rua não poderia fazer parte do seu plano de ampliação das condições viárias da cidade de Embu, uma vez que a rua tem apenas uns 400 metros de extensão (a sim, os valores fornecidos por nosso secretário de obras só serviam para cobrir metade da extensão da rua, numa parte crítica onde os buracos são tão profundos que uma pessoa que desce a rua dirigindo um Land Rover pode subir pilotando o equivalente a uma Brasilia).

Veja, usando a mesma lógica do IPTU, nós todos somos compradores das suas carnes de um jeito ou de outro. A partir de agora, todos nós estaremos levando a sua salsicha também. Então de alguma maneira, estamos colaborando com esse seu projeto de construir o frigorífico ali tão pertinho da escola e de sua parte, seria uma política de boa vizinhança na região. O que você acha?

Nós claro, nos comprometemos a suportar o aumento do tráfego na região e o estupro da mata de eucalipto, bem como o discreto cheiro de carniça, que agora irá nos acompanhar para todo o sempre.

Podemos contar com a sua colaboração?

Dia 16 – Quarentena

Eu aceitei esse único plano, ir embora definitivamente do deserto da minha ira.

Para isso eu iria até o fim dela e mataria deus. Deus que a havia gerado, lançando-me nessa piada patética, com outros ao meu lado. Deus e seu senso de humor ridículo. Deus e suas religiões em guerra para ver quem sabe a verdade sobre a paz. Deus, isso que meu deu a razão para eu odiá-lo.

Eu eliminei a paz. Eliminei qualquer religião.

Queria encontrar deus e desmembrá-lo, entendê-lo, humilhá-lo, destruí-lo até que não restasse dele senão uma vaga idéia.

Eu fui até ele, escolhendo uma única trilha: a ira. A ira que alimentou os passos desde então. A ira que me era como um perfume de uma mulher lasciva.

Eu matei a crença em todos os homens. Matei cada um deles para mim. Eu destruí a significância de suas lamúrias, de sua chantagem à meu respeito. Matei seu desejo de que eu permanecesse. Eu fui embora, mesmo estando aqui.

E deus, onde estava? Onde estava enquanto eu cometia esse crime com meu semelhante? O crime de não me importar com mais nada, a não ser a minha ira e seu único foco? Porque deus não me deu a si, para que eu aplacasse a minha ira? Porque não se apiedou do meu semelhante e se sacrificou para que eu encerrasse minha trilha de mortandade?

Eu e meu deserto. O deserto se alastrando pela terra e eu, eliminando a cada passo o significado do humano para mim. Secando-o. Dissecando-o. Desmembrando suas lástimas, sua ignorância, seu vazio.

E deus?

Houve um deus?

E isso que caminha pela terra e pensa sobre si e o deserto… Que coisa é essa?

Até onde irá em seu ato?

 …antes disso • um outro dia…

Gargalhada

Não vou conseguir. Não vou.

Os outros não estão vendo como isso é ridículo.

Eu olho para eles e então acho ridículo o fato de eles não saberem que essa situação é ridícula.

Acho essa minha percepção ridícula também.

Então os olhos começam a lacrimejar e eu sinto esse gosto amargo.

Eu preciso falar.

Não.

Não preciso.

Eu só não consigo não falar. É um maldito vício.

A piada, a maldita piada se formou em algum lugar e é perfeita. Eu preciso fazer.

Meu deus! Meu deus!

Eu estou falando isso? Eu disse mesmo isso?

Olhe a cara deles quando eu digo isso.

De onde veio isso? Eu não consigo parar isso, alguém me ajude a parar.

Eles riem.

Eles ainda riem.

Isso tudo é ridículo, meus amigos. Isso tudo!

E eles riem me incentivam a falar mais. Eu não quero mais. Não quero.

Então brota o ódio. Eu odeio todos vocês e essa situação ridícula.

E falo isso, mas todos riem de mim.

E permanecem imersos no ridículo dessa gargalhada que nos levará a morte.