Psico-história

Em Fundação, Asimov postula a existência de uma ciência que mesclaria história, sociologia e estatística para prever com exatidão as ações coletivas de populações muito grandes. A segunda guerra mundial trouxe Goebbels e a guerra fria trouxe a máquina de propaganda comunista e a indústria de publicidade dos Estados Unidos. O mapeamento de tendências começou a ser empregado exaustivamente desde então, chegando hoje às redes sociais e ao controle, pretendido pelo Estado.

Hari Seldon, o criador da psico-história postulava que o comportamento de grandes conjuntos humanos era altamente previsível, embora o comportamento de um único indivíduo fosse absolutamente imprevisível. Mas como o comportamento de um único indivíduo afetaria os rumos da história psíquica de uma civilização? Como a ciência de Seldon determinou a destruição do império galático? Como o “caos” particular se transforma na entropia do sistema inteiro?

“Qual é a idéia, uma idéia simples, acessível ao mais simples dos homens, que fez a humanidade aceitar as doutrinas que a levam a autodestruição?” (RAND, Ayn – A Revolta do Atlas)

Sem entrar em coisas estranhas como a Ressonância Mórfica, de Sheldrake ou a hipótese do centésimo macaco de Ken Keyes Jr., como é que uma idéia, um ato, um movimento simples iniciado por um homem pode afetar a estrutura social inteira, como vemos sucessivas vezes na história? Quais as condições para que esse ato seja assimilado por outros homens e reproduzido? Algo que entre no cotidiano dos homens como um hábito, pouco a pouco,  e que mude de uma vez por todas a trajetória de autodestruição?

Um fractal de movimento, como uma coreografia de Pina Bausch, a música de John Cage ou Philip Glass uma mandala tibetana. Um tema, repetido até o automatismo, gerando um novo fractal, uma nova complexidade.

Não me interessa a observação externa, topográfica da rede. Interessa o pequeno loop que a transforma por completo. Aquele minúsculo ato, em si mesmo libertador porque é imprevisível, a revelação do propósito de um homem que acaba por afetar toda a rede.

É possível gerar um fractal que gatilhe atos de liberdade? Que gere a entropia completa? A imprevisibilidade de grandes conjuntos humanos e a impossibilidade da existência de qualquer império, na terra ou nas galáxias?

 

Haja SAC!

São Paulo, cidade mimada.

Quando eu saio daqui, não suporto a demora no atendimento. Não suporto ficar de braços levantados esperando o garçom que finge não me ver. Eu quero ser bem atendido, logo, com opções.

Então a manifestação de Sampa tem essa coisinha mimada. Um temperinho a mais. Tem tanta coisa que não está boa, tanto garçom farsante. Cansei de reclamar por telefone com a menina do atendimento e agora vou pra rua com uma bandeira na mão. Eu reclamo e se não me atendem, quero que saiam, quero outro serviço, quero a volta da ditadura.

É esse discursinho reaça que está aparecendo agora, e isso é constrangedor.

“Cansei da Dilma, agora quero outro”.

“O Lula é analfabeto, fora Alckmin, fora Haddad, fora Kassab”.

Fora sempre, fora.

E então, se vota no próximo candidato. Democraticamente. E no dia seguinte ao resultado, já começam a reclamar.

Não é que o paulista seja direitoso. Ele é a Rainha de Copas. Ele gosta de cortar cabeças.

Um pouco mais do que parece

Isso tudo é um pouco mais do que parece.

Essas manifestações acontecendo ao redor do mundo, elas parecem desconectadas. Parecem que são sobre coisas diferentes. A mídia dá um jeito de fazer com que elas pareçam fatos isolados. Ainda nos atrapalhamos com a manipulação, ainda tentamos covardemente colocar no outro uma bandeira que é nossa, usando o grupo como máscara. Ainda fazemos essa bobagem.

A coisa é organizada por aqui, pela rede. Eu escrevo uma coisa sobre como eu me sinto sobre isso e meus amigos começam a compartilhar esse negócio, porque de algum jeito, essa fala também estava dentro deles. Então essa fala vai escapando e vai chegando a mais e mais pessoas. Então alguém me devolve um comentário, uma nova idéia. Eu reflito, e escrevo algo. Ou compartilho algo outro ainda.

Eu estou aqui pensando em amanhã. Em mil maneiras de facilitar a vida de quem vai estar lá. Num jeito de deixar internet todo o tempo durante o ato. Eu pesquiso na internet sobre todo tipo de tecnologia de internet portátil. Eu assisto vídeos sobre como me portar, sobre como lidar com a polícia. Eu sei, também pela rede, que existem advogados preparados para defender qualquer pessoa dos abusos dos policiais.

Eu entro num site e baixo um aplicativo para o meu celular que o transforma num distribuidor de internet. Eu compartilho essa idéia com meus amigos e com gente que eu nem conheço, mas que faz parte do grupo de discussão que está sendo usado para distribuir idéias sobre o ato de amanhã. Eu fico feliz com o programa, vejo como é simples o seu funcionamento e vejo que os criadores estão conectados com dois projetos muito legais, de transformar a internet em um direito humano e outro, de levar internet a todos os pontos do planeta. Eu descubro que os caras aceitam doações para continuar trabalhando e então eu pego e faço uma doação mensal de 5 dolares. Não é nada que vai me arrebentar financeiramente, mas eu sei que isso vai ajudar.

Isso é autogestão.

Ainda estamos engatinhando nisso, mas já não precisamos do governo.

Precisamos desses espaços para nos encontrarmos e fazermos coisas. Precisamos de uma democracia que seja sempre manifestação. Não a democracia que espera, que vota e confia. Mas a democracia que partilha, que põe a mão na massa como pode. A democracia de quem quer fazer o que é certo para todos.

Eu poderia financiar uma creche no Kickstarter. Uma escola melhor. Eu aplicaria diretamente os meus esforços naquilo que me convém aplicar. Apresento a minha idéia detalhadamente, espalho isso na rede e vejo a relevância. As pessoas que estão interessadas naquilo aportam com algum recurso (dinheiro, conhecimento, arte). E todos nós ganhamos.

Eu vejo algo mal resolvido e escrevo um comunicado. Uma rede encontra o sujeito que pode resolver o assunto e nos conecta. Eu e o sujeito encontramos outras pessoas interessadas em resolver o assunto e nos juntamos todos.

Meu trabalho diário seria o de resolver as coisas que são realmente necessárias. Eu não teria que trabalhar com algo estúpido para ganhar dinheiro e deixar uma empresa ou o governo me prestarem um serviço de merda pelo qual eu não tenho outra alternativa  a não ser pagar e reclamar.

Eu me junto com você amanhã, sem me preocupar com os vinte centavos que o governo quer nos dar de esmola.

Eu me junto com você amanhã, porque o nosso amanhã construiremos juntos.

Te amo.

Punhado de areia

Eu ainda não consigo pegar isso de forma clara na minha mente. Estou quase lá, posso senti-lo. As associações estão quase todas apontadas mas falta algo que dê coerência ao todo.

O que eu já sei é o seguinte: você sente que não está fazendo nada de útil. Quanto mais dinheiro você tiver, mais clara essa sensação deve estar. Se você não tem dinheiro o suficiente, com certeza deve imaginar que essa sensação se deve à falta dele. Mas à medida em que você vai sendo premiado, promovido, presenteado, o absurdo se delineia com mais clareza. Não é o dinheiro.

Você não está conseguindo aproveitar o seu dinheiro em nada genuíno. Suas compras são provisórias, suas contas são periódicas, suas experiências são pasteurizadas. Você viaja para um país exótico para encontrar um arremedo da metrópole de onde você veio. Você precisa ficar só, precisa de solidão e em toda parte, os outros estão lá. Você caminha por toda parte com essa sensação de estar sendo lesado. Você então reclama. Usa os canais de comunicação infinitos para desabafar, para reclamar. Enquanto isso, permanece sentado diante do computador com a sensação de não estar fazendo nada.

Nada. Você não está fazendo nada. Você sabe disso. Mesmo quando acorda cedo e vai trabalhar. Você sabe que seu trabalho não produz nada de útil para outros seres humanos. Você sente essa falta de autonomia. Gostaria de fazer algo de útil, mas dinheiro está tão intimamente ligado à futilidade geral, que você não sabe como fazer nada que não seja fútil. Então o amanhã chega. E mais nada é gerado.

Estamos descendo rumo ao abismo, gerando nada a cada passo.

Em algum momento você se rebela e não é pelo dinheiro que você passa a fazer o que você faz agora. Você se cansa de esperar. No começo você acha absurda a própria iniciativa parece fútil. Você senta à tarde para fazer brinquedos para os seus filhos. Você se junta com os amigos e cozinha para eles. Você se juntam e tocam uma horta orgânica. Passam a andar de bicicleta nos finais de semana. Você desce do ônibus e decide andar cinco quilômetros à pé.

Seu carro já não tem o mesmo significado para você. Nem seu emprego ou seu chefe. Os serviços que as contas representam vão sendo reduzidos ao essencial. O restaurante com a conta quilométrica vira um passeio no mercado central e uma tarde de cozinha com os amigos por menos da metade do preço. A televisão não tem qualquer utilidade na sua casa. Você assiste alguns filmes com as crianças e no geral, preferem ficar batendo papo ou usando o computador para encontrar informação que seja relevante para você e os seus.

Nenhum prêmio do capitalismo vale o benefício de ser autônomo.

O que está quase… quase aqui nas minhas mãos é a economia que brota dessa fartura.

Que será isso?

Mono

Acabei de encontrar uns amigos e em algum momento da nossa roda de conversas eu me lembrei do Russomano, naquela entrevista do SPTV com o César Tralli. O episódio ficou conhecido pelo meme “Vamos falar de São Paulo”, resposta que o candidato dava para se esquivar da incômoda pergunta sobre a Igreja que o financiava.


É um jeito interessante de se manipular um grupo.

Primeiro, você desqualifica tudo o que está sendo conversado pelo grupo. Coloca tudo num mesmo pacote de inconsequências. E depois, você insere o seu bordão, como se fosse o único assunto digno de ser conversado. Provavelmente o assunto anterior de incomoda de alguma maneira. Te tira do sério. Isso é assunto seu, de mais ninguém. Mas é insuportável lidar com isso. Você começa a achar que as pessoas deveriam estar falando de outra coisa. Do seu problema. Daquilo que te interessa.

Então você prepara a sua voadora com os dois pés e entra de sola.

Legal.

No pior dos casos, você consegue trazer o assunto à tona e as pessoas até se comprometem com a sua causa. Você é genial! Delega tarefas, decide pelos outros o que cada um vai fazer, estabelece prazos, faz suas promessas. O tempo passa e ninguém faz nada. Nem você.

Uma pessoa sai, a outra inventa uma desculpa. Você decide que a coisa vai sair de qualquer maneira e toca tudo sozinho, numa espécie de martírio. Quer mostrar que não precisa da ajuda de ninguém. Que você dá conta da coisa. Vai ficar um pouco mal feito, mas você fez tudo sozinho. Você fica rude com as pessoas, ainda mais. As pessoas não estão fazendo aquilo que você esperava que elas estivessem fazendo. Estão regulando.

Então a coisa não dá certo. Você culpa o cosmos, os outros, a puta que o pariu.

Mas hoje não foi assim que aconteceu com você.

Você falou, usou sua técnica, foi rude com as pessoas e ninguém deu a mínima. Ou melhor, ninguém te autorizou a isso.

As pessoas continuaram com a sua conversa, que estava sendo muito mais útil para elas. Você ficou remoendo, achando que ninguém quer nada com nada, mas as pessoas só não queriam nada com a sua ditadura.

Essa anarquia é o inferno do ditador que você é.

Animal humano

Fomos ao zoológico na segunda-feira. Passeio com as crianças e com a Clau, que não conhecia.

Eu me lembrando da minha primeira ida ao zoológico, quando eu era criança, num passeio de escola. Minha expectativa elevada, de ver os animais pertinho. Mas o lobo destruiu tudo isso. O lobo e sua merda fedida. Seu cativeiro apertado. Sua tristeza. Mil crianças na minha frente, tentando enxergar os animais. Reclamando, porque o urso teimava em se esconder atrás dos arbustos. “Eu queria ver o urso”. Eu não queria ver mais nada. E o passeio ia durar até as 17hs, então, bora esperar.

A gente se encanta com as crianças, se espelha no olhar deles. Então eu silenciei minha melancolia habitual em honra a tanta inocência. E me dediquei a observar o animal covarde que se chama homem.

Olhando o tigre atrás do vidro. Um tigre reduzido a uma quitinete.

E o mimo do homem, exigindo a presença do animal. A natureza humilhada. Uma ofensa, sem fim.

O homem e suas lojas de conveniência, seus stands da coca-cola em toda parte. O homem e seus carrinhos elétricos para passear no zôo. Pagando um pouco a mais para ver os animais soltos, de dentro de um carro blindado. O homem e sua banha, sua manha. O homem que apanha a merda do cão numa sacola de supermercado.

E o lobo?

E o lobo e seu mau cheiro.

Não pude vê-lo.

Não suportaria.

Em meu delírio, os animais estavam soltos e nos caçavam.

Furtos

Eu me mudei para cá por causa do silêncio e da possibilidade de chegar logo ao local de trabalho. Gostava de sair na rua e aproveitar o silêncio. Me orgulhava de um horizonte possível e de poder encontrar as pessoas na rua e conversar.

Se foram apenas três anos e as empreiteiras me roubaram o silêncio, o horizonte e a vizinhança.

Outro dia o sindicato da construção civil veio fazer um protesto e uma convocatória aos funcionários da obra da esquina. Às seis da manhã! Começaram o discurso pedindo desculpas da vizinhança (de minha parte aceitas) e dando os informes gerais de a quantas anda a exploração do trabalhador da construção civil. E se seguiram três discursos emocionados e as ovações habituais. Assim mesmo, bem cedinho…

Voltei do trabalho numa tarde e percebi que os carros que haviam estacionado em frente à obra estavam todos da mesma cor: cinza cimento. A obra tinha impregnado todos os carros com o cimento, sem que houvesse um aviso sequer dessa possibilidade. Me lembrei da minha vizinhança em Quitaúna, quando a gente chutava a bola de capotão suja de esgoto nos carros e paredes dos vizinhos e ouvíamos dos nossos pais que o certo era que a gente lavasse e deixasse as coisas como estavam antes da nossa brincadeira.

Bem, a Cyrella não mandou lavar os carros dos vizinhos. Tampouco a Abyara ou a Tecnisa.

Me perguntam “Qual a minha idéia de paraíso”, me oferecendo apartamentos caríssimos de três ou quatro dormitórios, aqui na esquina da minha casa. Bom, minha idéia de paraíso era o que eu tinha antes deles chegarem aqui.

Agora, se eu quiser o silêncio vou ter que esperar que eles destruam os outros quarteirões do bairro e terminem de construir suas torres. Se eu quiser meu horizonte, vou ter que comprar o apartamento que eles vendem, e minha vizinhança está sendo substituída gradativamente pelos habitantes anônimos e assustados dos condomínios de alto padrão, em seus automóveis blindados e com vidro fumê.

Qualidade de vida é para quem pode comprar.

Corporativo

Quebro a cabeça para tentar escapar dessa armadilha implacável, que nos marca a ferro e fogo. Sem muita resolução concedi à máquina meios para que me encontrasse, mas continuo à parte dela, para estranheza de parentes e amigos.

A esses eu digo: se eu supostamente colocasse minha mente e minhas capacidades à serviço deste aparelho, acaso alguém poderia me deter? Se eu pretendesse investir minhas energias, para alimenta-lo, com que vigor ele funcionaria?

Mas eu não pretendo. Me manterei à parte dele, estudando-o. Procurando formas de vencê-lo.

Uns já teriam me acusado de soberba. Outros diriam que é mais uma das minhas piadas. E aguardariam até que chegue o momento em que eu precisasse levar a vida a sério. Mas será preciso?

Não farei concessões. Não me tornarei um espelho, para que essa máquina se reflita, confundindo-se comigo mesmo. Não fingirei ser ela, nem assinarei acordos que logrem transformar o falso em verdadeiro.

Não venderei seus utensílios, nem suas idéias, nem o seu consentimento fabricado.

Não arriarei as minhas calças, esperando o sucesso ou ouro.

Lutarei até o final das minhas forças, e vencerei a máquina.

Mas não nos seus termos.

Contraporei a sua capacidade de me enfraquecer à compreensão clara das minhas capacidades. Oporei o seu desejo de que eu seja uma função, para me tornar todas as funções que eu desejar. Serei um inútil para a máquina, porque sou um homem, não uma peça no seu funcionamento.

Libertarei meu tempo da sua tirania.

Mas não estarei sozinho, como pretende o aparelho. Não serei seu bufão.

Me unirei a outros e nos alastraremos, elucidando a outros mil o seu funcionamento.

Hidra de Lerna

Se lhe corto uma cabeça, pagando o que lhe devo, quando abro a minha caixa de correio, encontro outras mil. E se novamente as corto, outras surgem.

E não surgem em silêncio, senão que em uma balbúrdia infernal, me propondo benefícios para que outras cabeças possam ocupar mais espaço.

E se aceito esse arranjo, perco a cabeça.