O soldado corporativo é o inimigo da democracia

Surtou com a headline.

Isso porque ele fez todo o processo educacional para chegar a esse ponto, de trabalhar nesse grande empresa.

Aprendeu uma série de processos e de maneiras de coordenar ações; recebe uma série de bônus, quando desempenha sua missão de forma exemplar; goza de uma série de benefícios. Um terço do seu dia é dedicado a agir dessa maneira solicitada pela corporação. Entre um sexto e um décimo do seu dia ele gasta no trajeto. Com sorte, dorme outro terço de dia e goza o que sobra. Gozar o que sobra é comprar algo.

Na empresa ele é apenas uma pequena engrenagem de um grande sistema. É preciso realizar as etapas todas do processo no momento adequado, visando sempre o objetivo maior da empresa, que hoje é o de gerar lucro para seus acionistas.

Gerar lucro é moleza: criar valor e diminuir custos.

Você cria valor basicamente usando marketing, que é um jeito de temperar a carniça. Você baixa custos basicamente criando maneiras engenhosas de pagar menos por qualquer etapa do processo (acelerando-o, terceirizando mão de obra para reduzir o valor, usando matéria prima mais barata). Em resumo, o produto é essa coisa mal feita, que vai quebrar logo, que não atende o cliente, mas que você diz que atende. E bem.

As empresas vão ficando apenas com essas pessoas que desempenham funções que estão distantes desse lugar onde o custo precisa baixar.Gerentes, vendedores, técnicos operacionais, engenheiros….

O homem que faz o produto, aquele que realmente lida com a produção, ele trabalha o mais longe possível e de maneira mais barata. De preferência, num outro país, num continente longínquo.

Fora da empresa, naquelas horas que sobram pra ele: ele vê o país através dos meios de comunicação; ele paga suas contas, cada vez mais caras por serviços cada vez piores; ele não tem tempo para participar de política, política é aquela canalhice que aparece no jornal da noite; ele não tem tempo nem gosto de participar de uma reunião, porque as pessoas “falam falam e ninguém decide nada” e ele não vê que ficou acostumado a ter chefe, a receber ordem e que ele mesmo fala fala e não decide, porque tem medo de decidir; e porque está cansado também, porque passa horas e horas no trânsito ouvindo rádio de seguradora; quando ele caga, ele lê aquelas revistas que são empresas como a dele, dizendo as mesmas coisas que ele ouve dentro da empresa; ele não vê que a empresa cercou ele, que quando ele dorme, sonha que foi promovido, que está de férias. Na empresa sempre, mesmo no sonho.

Na TV os ladrões são esses homens que roubam os bancos, que levam as pessoas embora ou que recebem propina. Os ladrões pobres morrem em loop. Mas os ladrões ricos se candidatam a novos cargos. Os ladrões ricos dão lucro a alguém. Como ele. Ele não se sente ladrão, mas vocifera contra o trombadinha e não consegue ver o político sem uma certa dose de admiração. O político é, afinal de contas, um homem bem sucedido. É rico. Tem coisas.

Fatalmente chega o dia do desemprego. O nome: desemprego. Querendo dizer que você não serve para nada. Que você não funciona mais e por isso não merece ser funcionário. Uma coisa velha, sendo descartada com uma indenização e o fundo de garantia (cada vez mais ameaçado, porque uma empresa está de olho na lucratividade da previdência e um grupo de funcionários dessa empresa estuda maneiras de tomá-la de uma vez das mãos do governo). Ele entra com o pedido de seguro desemprego e volta para o mercado de trabalho.

Ele espera uma “recolocação”, porque agora faz parte do estoque de mão de obra desempregada. Ele vale menos agora. Porque a reserva está acabando e ninguém quer pagar o que ele ganhava. Ele precisa desesperadamente entrar no mercado, porque fora do mercado, fora da empresa, ele vê o país que ele construiu não com sua omissão, como ele costuma pensar vez ou outra. Ele vê o país que ele construiu ajudando a empresa a roubar o cidadão.

Mas ele volta aos políticos, aos juízes corruptos e ao fato de esse país ser o Brasil.

“O problema é a gente.”

A gente que ele sangra, quando trabalha e sangra.

A gente que ele é, mas esquece.

Que ele é, mas parece que era na Indonésia, China, Índia, África, Haiti, Bolívia, Taiwan, Bom Retiro… O mesmo, ele.

 

Um novo Nuremberg

Não há inocência ao se trabalhar numa organização que comete crimes contra a humanidade. O trabalho parece purificar qualquer crime e ganhar dinheiro parece eliminar o cheiro da morte. Mas a verdade é que você acorda e põe seu sangue, sua mente e seu corpo na máquina que mata milhões. Depois lamenta a ineficácia do Estado e do Governo, mas você mesmo já abriu mão da sociedade quando se tornou um soldado corporativo.

Você não tem mais horas para se dedicar à sociedade, para ser um cidadão. Você quer apenas votar, num dia de sol, escolher o mal menor e assistir a TV, cansado de ter dado o sangue para a Empresa, em troca da possibilidade de comprar mais cacarecos e de pagar mais contas. O Governo é esse amontoado de funcionários corruptos, numa Empresa ineficiente. Aliás, todo agrupamento humano que não é a Empresa é ineficiente, amador, corrupto.

Aquele Governo do lado de fora da Empresa não se relaciona com você. Ele parece impedi-lo de se desenvolver. Ele tarifa você e você pensa que é injusto, porque aquele Governo não trabalha para você, como a Empresa diz que faz. O Governo não te oferece benefícios. Não te bajula e ainda te tarifa para pagar os pobres, os velhos, os inválidos, os desempregados, os políticos, os juízes e os policiais.

Então o Estado se desmantela numa bandalheira. Os políticos, comprados também pelas Empresas, também eles soldados corporativos, eles fazem o que podem para implementar o novo regime. Atacam por todas as frentes, atropelam os direitos civis. O que são direitos civis, quando não há Estado? Quando não existe ninguém mediando, a não ser o lucro? Os improdutivos, os fracos, os não lucrativos, esses todos… Quem governa para eles? Ninguém.

Enxugam os custos dos nossos direitos e transformam direito em produto, com faixas de preços e níveis de atendimento. E só descobrimos a lástima de serviço prestado quando precisamos dele.

Mas você também envelhece, se deprime, perde o rumo da vida, fica em dívida. Finalmente deixa de ter utilidade para a Empresa e se vê pendurado no Estado. O terror é enorme, porque agora você é o pobre que  o Estado sustenta. Você se recusa a pedir o benefício e se contenta com as indenizações até ser recolocado. Mas seu preço baixa mais e mais. Agora tem um moleque mais novo que você e ainda mais implacável. Ele se vende por um preço ainda menor e é mais eficiente do que você. Você aceita trabalhar por menos, ou não. Mas não dura mais.

Te sobra ser um Empreendedor. Ninguém vai te contratar pelo preço que você vale. Então você abre uma pequena empresa para prestar serviço para as Empresas. Você não percebe, mas agora você é ainda menos que o funcionário, porque paga ainda mais para o governo, com mais responsabilidades. Fatalmente, em nome do lucro e do crescimento, você vai treinar mais moleques, pagando ainda menos, e com isso você vai preparando mais soldados para essa máquina. Gente que trabalha o mês inteiro para comprar o melhor celular que for possível, mesmo que fique em dívida eterna.

Esses serão os homens que matarão o mundo.

Ainda mais rápidos e ferozes do que você.

 

 

 

Um exercício de planejamento

Eu hoje vou te propor um exercício de planejamento um pouquinho diferente.

Você pode fazer esse exercício com papel e caneta mesmo, mas se tiver mais familiaridade com softwares de planilhas numéricas, também serve.

Desenhe uma tabela com duas grandes seções. Na primeira você vai colocar suas RECEITAS, isso é, aquilo que as suas fontes pagadoras: seus clientes, empregadores, rendimentos. Na segunda seção, vão ficar as suas DESPESAS, isso é, tudo aquilo com o que você gasta a sua RECEITA.

Mas a gente vai ampliar um pouquinho essas duas noções. Em primeiro lugar, você vai pensar que RECEITA é algo que você obtém em troca da sua energia vital dispendida no tempo. Em segundo lugar, DESPESA vai ser tudo aquilo que você empreende para obter mais energia vital.

Equilibrar o orçamento doméstico é equilibrar o seu dispêndio de energia vital na construção da sua realidade. É muito importante lembrar dessa última parte: “na construção da sua realidade”. É extremamente importante. É aqui que entram os seus sonhos, seus projetos, suas alegrias.

Então não basta que a equação RECEITA – DESPESA se iguale a zero. É preciso gerar um excedente e é nessa sobra que está o futuro.

Para quem eu desejo ceder minha energia vital e meu tempo? Qual a maneira mais eficaz de obter energia vital e tempo para construir realidades?Agora vem a política na coisa toda. É uma pesquisa que vai te tomar um certo tempo, mas você só vai precisar fazer essa vez.

Ao lado de cada produto que você consome, na seção DESPESAS, você vai anotar o fabricante do produto. E ao lado do fabricante, o nome do dono da empresa, ou dos associados conhecidos. Essas pessoas são aquelas que você sustenta quando compra o que elas fornecem, com o tempo e energia vital delas, para suprir a sua energia vital.

Faça a mesma coisa na seção RECEITAS. Anote o nome da suas fontes pagadoras. As empresas, os proprietários e os principais nomes que você se lembrar. Você cede sua energia vital e tempo para que essas pessoas supram a energia vital delas.

Perceba agora como RECEITA e DESPESA se misturam nessa conta. A minha RECEITA é a DESPESA de alguém e vice-versa. A todo tempo você está trocando um quantum de energia vital com outros seres humanos.

E é preciso que a relação seja vantajosa para ambos, se todos quiserem o direito a realizar seus sonhos e projetos futuros. É preciso que se sejam relações que gerem excedentes, certo? Para ambos os elementos. E que ambos os elementos tenham autonomia para gerir esse excedente.

Agora olhe essa lista com sinceridade e veja o enorme desequilíbrio de alguns nomes que aparecem. Perceba agora que certos nomes da sua lista recebem energia vital de grandes conjuntos humanos. Estou falando de monstrengos corporativos com mil braços, que tentam ganhar dinheiro com qualquer movimento que você faz tentando correr atrás de energia vital.

Cada bloco desses sustenta um número de pessoas, age de uma determinada maneira no planeta e remove um quantum de energia que não é reposto. Para onde vai?

Você entende onde quero chegar?

Existe um conjunto (cada vez mais seleto) de pessoas no mundo que você sustenta com a sua energia vital. Na maior parte do tempo, você não percebe onde está colocando essa energia.

Mas esses senhores nos cercaram de tal maneira que, simplesmente por estar aqui vivo estou colocando energia na vida deles a cada movimento meu. E não tenho retorno na mesma medida.

Eu invisto muito nesses senhores. Muito.

Saiba quem são eles na sua vida.

Pare de colocar dinheiro neles.

Veja se é possível e como.

Corte suas relações com esses parasitas.

É isso o que eles são.

 

 

Dinheiro e Tabefe

Oi. Eu quero te ver pessoalmente.

Não dá para falar o que é preciso falar por aqui. Não é seguro pra nenhum de nós.

Eu sei que você está achando que está sozinho, que os outros estão loucos ou burros, que ninguém vai fazer nada, que não vai adiantar chorar, espernear, protestar, nada…

Eu sei que você está vendo esses senhores sinistros, recebendo seus cargos com a clara intenção de nos manter em silêncio, de retroceder os nossos direitos e de leiloar nossos bens. O Sinistrério é um balcão de negócios escusos. Os donos do golpe não vão aparecer nunca. Nunca.

Sei que parece que não há justiça, com um supremo agindo dessa maneira. Sei que parece que não existem os três poderes e sua independência. Sei que a mídia constrói a narrativa em termos de esperança, paz e vamos mudar de assunto…

Não brigue na sua timeline. Não.

Não se obrigue a corrigir seu parente. Não.

Não escreva em caixa alta.

Não faça piada.

Não ventile memes.

Saia da tela.

Largue o mouse, o celular, o tablet e o i-treco qualquer.

Vamos nos ver?

Nós precisamos construir outra coisa. Mas é preciso que a gente se encontre e converse. Nós precisamos reunir gente como a gente.

Temos que refazer um acordo. Temos que refazer uma nação.

Direitos

Hoje eu contei pra um amigo que muitos figuras do SEBRAE eram ligados ao PSDB. E que esse lance do M.E.I. (micro empreendedor individual) era um jeito de a gente ir aceitando a perda dos direitos trabalhistas. Comentei com ele que a “pejotização” do trabalho era uma das linhas de estratégia para essa agenda. E falei que a M.E.I., como alternativa “simples” era na verdade uma outra linha de estratégia dessa mesma agenda.

Eu fui caçando esses links porque tem um diretor do SEBRAE que saiu candidato pelo PSDB nas últimas eleições. Esse mesmo cara foi assessor do Geraldinho, na época em que eu estava na faculdade. Eu pensei isso sozinho, tá. Porque eu conheço o sujeito em questão, que era namorado de uma amiga minha (que eu adoro) e eu me lembrei dessa divergência. Só hoje é que eu achei essa notícia aqui: http://jornalggn.com.br/noticia/aparelhamento-politico-no-sebrae-sp-gera-demissoes

Daí que o SEBRAE tem palestra com o Skaf, da FIESP, que é membro do seu conselho deliberativo. E é também quem paga o pato.

O lance do M.E.I. é que parece um enorme benefício para quem está na informalidade (isso é, quem trabalha sem carteira assinada, sem contrato, sem benefício, etc…). A gente agora tem que ser empreendedor e é super bem assessorado pelo SEBRAE nesse processo. O negócio é que essa assessoria é uma baita vaselina para o sujeito que já está com os seus direitos trabalhistas reduzidos pela “pejotização” do trabalho aguentar a tora dessa agenda nefasta do neoliberalismo.

Então ninguém tá vendo que é a mesma coisa. Os políticos lá no congresso ou na assembléia (a legislativa e a de Deus) são só cortina de fumaça. Os operadores reais são as associações de empresários do nosso país, de empresários estrangeiros e os banqueiros. Então essa operação toda, que você fica achando que é coisa de Brasil corrupto é na verdade uma coisa toda orquestrada pelo pessoal que comanda onde é que o dinheiro vai estar. As corporações e seus funcionários.

São sempre os mesmos, entende?

Daí meu amigo “ficou de cara”, como ele mesmo disse…

Eu tô pensando que é engraçado esse negócio todo. Porque os empresários, mesmo os pequenos, reclamam que os encargos para o governo são enormes. E que a “máquina governamental” é ineficiente e corrupta. Que muito dinheiro desaparece…

Então a gente fala de reforma tributária. E ela não anda.

A gente fala de reforma política. E ela não anda.

E os políticos que deveriam ter essas coisas na pauta são financiados pelo setor que deseja ardentemente que o Estado seja ineficiente.

E eu me dou conta de que se o Estado for ineficiente, alguém vai ganhar com esses serviços que ele deveria prestar.

A democracia corre perigo aqui em casa. A gente sem emprego, tentando empreender nossas idéias, o país nesse estado. Sabe quem é que ganha com a minha mulher chorando? O banco.

Ele vai dar um empréstimo para a gente esperar a crise passar.

A crise que ele mesmo gerou.

E o governo, que deveria estar nos defendendo? Cadê ele?

Nunca houve. Não esse. Nem nenhum, já faz algum tempo.

O governo é essa coisa corroída por interesses corporativos.

Esse zumbi.

Então eu estou pensando que o governo não pode ser essa coisa gerida por políticos. Tem que ser algo gerido pelos miseráveis. Por mim. Pela Claudia, que chora. Pelos meus filhos e amigos. O parceiros da minha timeline real. Aqueles com quem eu tomo café, cerveja e discordo. Mas que lavam a louça antes de ir pra casa.

Eu não me importei com o fato desse rapaz que namorava a minha amiga na época pensar diferente de mim. Nós fomos criados em situações muito diferentes. E eu acho mesmo que ele é bastante eficiente naquilo que decidiu fazer. E ele encontra apoio de outras pessoas que também acreditam nisso.

Isso eu admiro neles. Eles encontram apoio uns nos outros, enquanto a gente desmorona, fracassa e se endivida. Porque a gente se envergonha disso e abaixa a cabeça. E fica sozinho no escuro. Esperando a crise passar.

Eu não quero mais isso.

Quero tomar café com você, na crise mesmo. Quero te ajudar, com aquilo que eu puder. Eu estou aqui. Estou com você.

Quero atravessar isso e superar.

Eu não confio nesses senhores.

Não confio nem um pouco.

 

A utilidade da arte

“Pro amigo querido Paulo Panzeri e sua tese de doutoramento

Eu me formei numa época em que a busca na Arte era de uma linguagem, uma poética. Eu entendi que isso significava uma espécie de método estilístico, um “jeitão” de resolver esteticamente um problema.

Mas antes, eu era um técnico, habilitado a trabalhar na indústria na área de projetos. Então a gente era treinado para pensar em termos de problemas e soluções. A gente inventava soluções para automatizar tarefas repetitivas. Máquinas, circuitos, softwares.

Antes ainda eu era desenhista de histórias em quadrinhos, charges e caricaturas. E antes, um inventor dos meus brinquedos. E também, desde sempre, um “puta dum zueiro do caralho”, como podem atestar diversos amigos de infância, parentes e animais. E um leitor ávido, um filósofo e durante algum tempo, um freguês assíduo dos botecos.

Então a arte ficou para mim num lugar entre a “zueira”, a invenção, a programação, a filosofia de botequim, a religião, a gambiarra, as más influências, os amigos verdadeiros e a falta de dinheiro.

De maneira que eu sempre fiquei me perguntando se aquilo tudo era útil para mais alguém…

Se eu não estava, na idade adulta, dando um jeito de continuar brincando enquanto alguém pagava as contas. Esse alerta da esposa, dos boletos, da casa, dos filhos que foram se somando, das mensalidades escolares… Então as aulas de teatro, uma mistura do que eu aprendi na catequese, com exercícios tirados de algum livro de teatro, com as coisas ditas nas aulas de teatro que eu freqüentava como aluno. Indicação da irmã, primeiro. Depois dos amigos.

E eu sempre inquieto com a escola. Sempre indisposto com ela, desde sempre, desde cedo. Desde o primeiro dia de aula.

Mas fui notando que o ator mais novo que eu, o ator de escola, ele não entendia certas coisas que a gente estudava na faculdade. Ele não tinha as referências que meu professor de teatro dizia serem essenciais. A diretora queria a peça para enfeitar a festa. Os pais queriam que os filhos falassem muito. A professora da sala queria que a coisa saísse bonita.

Foi ali que eu comecei a entender que de algum jeito, aquilo tudo cumpria uma função naquela comunidade. Não era a minha obra, mas a obra daquele grupo humano o que realmente importava. Claro que meu jeito de entender isso foi assim: eu fui sendo demitido inúmeras vezes. Ou então, pedia para sair porque não suportava essa idéia.

Como artista, queria essa coisa para mim, essa obra prima. O gênio, meu deus, o gênio!

Mas qual a utilidade disso?

Essa é a pergunta fundamental. Qual a utilidade desse meu pensar, sentir e atuar para criar essas novas realidades, integrado a essa comunidade que me cerca, mas não cerceia?

A comunidade, no papel de público da “minha obra” deve ser algum tipo de doença mental, dessa lista imensa que hoje temos.

Acho que se fez, nessa época, um arranjo macabro entre a idéia do self-made-man, que sustenta o capitalismo, com a idéia do gênio da renascença. É essa idéia alardeada por toda parte o que gerou essa pretensão toda da minha parte. E me fez querer ser uma mistura de Tony Stark com Leonardo Da Vinci…

E acho que isso é algo que afeta uma geração inteira de artistas.

Ao mesmo tempo, os problemas da vida civil se somam e as corporações nos cercam por toda a parte, comprando o apoio de governantes, na forma de contratos e leis que os favoreçam.

E nós, ocupados que estamos com os boletos que não param de chegar, lamentamos a falta de leis que subsidiem nossa arte. Que merda é essa?

Não.

Algo não vai bem.

Mesmo você, na crista da onda, sabe disso…

Mesmo você, com a casa cheia, viajando mundo a fora, escalado para a próxima produção, com vinte anos de pesquisa na companhia tal, mesmo você… você sabe disso. A casa está caindo irmão!

E o único jeito de fazermos algo me parece ser, justamente, pensar na utilidade do que fazemos para a nossa comunidade. Algo além do “vai me ver que eu estou em cartaz”.

Não é a besteira de formar mais artistas para o mercado.

Talvez seja a besteira de formar mais pessoas fora do mercado. Pensando outra maneira de se relacionar com a comunidade, que não seja o trabalho, ou o mercado, ou os produtos, ou a minha obra.

Um jeito de ajudar as pessoas a terem de volta o próprio sistema nervoso e serem criadores de sua própria realidade.

De algum jeito, isso me parece magia.

Coisa de pajé.

De xamã.

De palhaço sagrado.

Dionísio, novamente, se impondo.

Economia que gera saúde

Queria partilhar esse aprendizado com o dinheiro. Eu sempre tive um certo rechaço com a idéia de concentração de recursos e desigualdade. Normalmente se cria uma justificativa para a concentração de renda tentando igualar diversidade com desigualdade, dizendo que é natural que algumas pessoas tenham mais capacidade de ganhar dinheiro do que outras e que isso faz com que a renda fique concentrada nas mãos de poucos.

Não entendo que é bem assim, mas entendo essa confusão. No nosso aprendizado sobre a partilha,escolhemos um único mediador para a troca de todos os nossos recursos que é a dívida e não a fartura. A dívida do outro, para comigo e não o meu excesso daquele recurso, que se não for empregado na troca, vai virar lixo.

Então chamamos a dívida de dinheiro e supostamente criamos um isolante emocional para a degradação. Então as coisas passam a “valer” dinheiro e esse valor é supostamente algo objetivo e isento. Tudo pode ser trocado por dinheiro e cada coisa tem seu preço. O preço é dado pela lei de oferta e procura. Quanto menos se tem da coisa, mais valiosa ela se torna. Quanto mais banal, menos valor tem.

O macabro na coisa é isso: você diminui o dinheiro em circulação. Então o dinheiro se torna raro. Com isso, você precisa aumentar o preço das coisas, para que o dinheiro chegue na suas mãos o quanto antes. Para aumentar o preço das coisas, você precisa usar simultaneamente duas estratégias: primeiro precisa comprar barato, isso é usar menos dinheiro para adquirir as coisas; segundo, precisa vender mais caro, parecendo que o preço é justo.

Na primeira estratégia, você precisa degradar o produto de quem te fornece. Dizer que a qualidade não é boa, etc… Para isso, você vai precisar criar para ele um concorrente. Alguém que vende melhor e mais barato do que ele. Qualquer outra qualidade que esse suposto concorrente tenha a mais do que o sujeito em questão serve para baixar o preço da mercadoria. Mesmo que o concorrente não exista na realidade. E para que seus fornecedores não saibam disso, você precisa criar alguma maneira de dividi-los, alguma intriga, alguma coisa secundária. Isso já é o suficiente para que os preços se mantenham baixos.

Na segunda estratégia, basta que você atribua alguma vantagem fictícia ao produto vendido. Quer dizer, você faz exatamente o contrário do que foi feito na primeira estratégia. É preciso que você diga que o seu produto é algo valioso. Único. Você cria valores adicionais ao seu produto. Você pode vender um produto pior, comprado bem mais barato, pelo valor do produto em excelência. O que vale é como você chama o produto e como você agrega valor a ele. O “concorrente” nesse caso é o produto antigo. Que é sempre pior do que o novo, que é mais caro.

Se isso não for possível, crie variações sobre o mesmo tema. Venda tomates menores pelo preço antigo e tomates do tamanho antigo por um preço mais alto. Ou ainda, atribua o aumento do preço a instâncias não presentes, como o governo ou o sindicato. Não importa.

Essas estratégias no lidar com a matéria vão ficando cada vez mais enroladas, no momento em que tentamos estabelecer o valor de um “homem”. Seja através daquilo que ele faz, daquilo que ele significa emocionalmente para mim, não importa… Todo homem tem seu preço. Essa frase sozinha anula completamente toda a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Transforma o homem numa coisa a ser comprada pelo menor preço. Num escravo.

Então eu sou algo que passa a ter que valer mais que o outro. Para isso tenho que diminuir o outro. Ele é mais jovem, menos experiente, preto, mulher, homossexual, nordestino… qualquer coisa, menos eu, porque eu valho mais. E sempre com a sensação de que algo vai mal nessa conta. Porque sempre aparece aquele que é “mais”  que eu. Mais branco, mais bonito, mais inteligente, mais esperto…

E somos lançados ao lugar do fornecedor, ali daquele parágrafo sobre a primeira estratégia. O outro fornece algo melhor que eu e eu preciso me vender mais barato. Preciso aceitar qualquer condição, qualquer troca.

E com isso, o dinheiro passa a valer ainda mais e o homem cada vez menos. Com a mesma quantidade de dinheiro é possível comprar cada vez mais homens e tudo o que eles produzem.

E a concentração acontece dessa maneira, bem simples. E sabemos disso. Sabemos disso e não conseguimos sair dessa ciranda. Porquê?

Não é porque o ser humano é assim, ou qualquer besteira simples dita assim sem pensar. Não. É simples.

O que é que só você veio fazer aqui?

Você: único, diferente de qualquer outro ser humano que exista agora e de qualquer outro que já tenha existido.

Essa é a questão a ser respondida. A única que vale a pena e estamos afastados dela por tempo demais. E ela libera o recurso único que cada um de nós tem a oferecer.

Os hindus tem essa sabedoria das quatro grandes metas, que eu acho muito bonita, embora não tenha servido para resolver a questão da igualdade social na própria Índia: Cumprir o dever (realizar o propósito), Gerar fartura, Sentir prazer de estar vivo e por fim Liberação (fazer as coisas com um fim em si mesmas).

Se ocupar desse assunto e atender a que outros se ocupem desse assunto. Isso seria economia. Partilhar esse recurso e ao fazê-lo, colocar o outro em situação de fazer o mesmo.

Cada um de nós, ocupado em atender a esses quatro objetivos, de forma integral em nossa vida e estaríamos falando de economia, no sentido pleno. Economia de fartura, de recursos renováveis, de vida.

Uma economia que gere saúde.

Jogo

Eu aprendi a tentar definir uma experiência usando as palavras, e aqui estou eu, tentando transformar experiência em raciocínio, raciocínio em palavra, palavra em comunicação, de um jeito que a experiência chegue até você.

Então você faz o caminho inverso e pega as palavras para chegar ao meu raciocínio, para então ver se consegue se colocar no meu lugar e então entender como aquela experiência me afetou.

Me parece um caminho longo e tortuoso. Parece que perdemos mais tempo tentando desenlaçar as intepretações para chegar a uma coisa que não se transmite dessa maneira.

E a escola, sendo isso. Sendo pior que isso, porque muitas vezes se tenta transmitir não a experiência, mas o conceito da experiência. O resumo escrito de algo, na forma de informação, de dados a serem alocados na memória para serem repetidos depois, de forma escrita, falada. Isso nunca vai ser experiência e nunca será conhecimento.

Talvez controle social. Só talvez. Parece-me que essa idéia de conhecimento, essa idéia de memorizar dados e transmitir informações tem a pretensão de gerar padrões de conduta, modelos de comportamento, uma programação de usos específicos para a sua energia vital. Mas isso tampouco funciona.

Lá está o governo e as empresas, vasculhando seus dados para ver se conseguem prever quais são as suas necessidades, qual é a melhor maneira de mantê-lo acuado, sob controle, quieto e sem ação. Olhando suas fotos, seus textos, sua comunicação digital, suas falas ao telefone, os filmes que você assiste, os produtos que você consome… então, nessa falsa premissa de que a experiência do que você é pode ser transmitida na forma de dados, imaginam que você pode ficar sob controle, seguindo o programa estabelecido. Mas não.

Não é que você se rebele, ou proteste. Você simplesmente é mais que o amontoado de dados transmitidos e essa é a maior encriptação que você possui. Você é o enigma.

Por isso o jogo. O jogo como maneira de partilhar experiências, não conceitos. O jogo, a festa, o rito puro.

Escolho o conceito e jogo com ele. Brinco. Crio a brincadeira para extrair do conceito a diversidade de experiências que ele contempla. Não se busca a interpretação única, a história linear do uso daquele conceito. Se busca a diversidade nas interpretações a multi-dimensionalidade do conceito. Não se joga para procurar respostas, mas para refinar perguntas.

O olho esse “algo”, isso que me toca e que transformo em conceito, como uma espécie de síntese. Enquanto o conceito guarda a interrogação do primeiro contato com esse “algo” , ele possui potência. Quando conceito se transforma em ponto final, ele morre. E fatalmente, se converterá em exclamação, como um movimento inútil para se tornar vivo.

Jogo é uma pergunta, com regras pontuais, para exclamar o humano e sua potência revelando a eterna reticência que o acompanha.

O Coyote

Enquanto eu escrevo esse post, na minha mente se desenha um cenário cada vez mais sombrio. São Paulo está sem água, crise anunciada há anos. Os movimentos desenhados por parte da população são: cobrar o poder público, denunciar e especialmente, reclamar do vizinho.

Uma vez eu tive essa sensação estranha, quando o ex-prefeito e hoje ministro das Cidades, Gilberto Kassab, impediu o trânsito dos caminhões na cidade em determinados horários. Os entregadores de combustível protestaram e a cidade ficou alguns dias sem entrega. As pessoas faziam filas nos postos de gasolina.

Também me lembro da mesma sensação quando enchentes terríveis impediam o trânsito pela cidade e as pessoas ficavam desoladas porque não conseguiriam chegar ao trabalho.

Essa idéia de seguir com tudo normalmente, como se nada estivesse acontecendo, isso me assusta um pouco. A professora, na minha timeline, reclamando porque vai ter de ir trabalhar sem tomar banho.

Então compramos galões e estocamos a água da chuva e achamos que podemos seguir mais alguns dias. Fiscalizamos o vizinho lavando a calçada. Exigimos que o governo e a empresa sejam transparentes e revelem quem está sendo favorecido com a escassez de água… E os reservatórios seguem baixando, apesar das chuvas constantes.

Seguiremos passando talco no suvaco, cagando no seco, bebendo água contaminada, tudo para continuar trabalhando, produzindo e consumindo.

Isso pra mim parece o Coyote, do Papa Léguas, caindo no vazio, pensando que ainda tem pista para correr.

Não existe essa coisa chamada “O governo”.

Pense nas eleições do ano passado e veja quantos votos nulos e em branco existiram. Isso sem contar as inúmeras pessoas que votaram num ou noutro candidato para que seu opositor não ganhasse. Um voto chantageado, não uma opção.

Então esses sujeitos que aí estão, quem é que eles estão representando?

AMBEV, FRIBOI, o agronegócio em si. Empreiteiras, Previdência Privada, Bancos, Seguradoras, Conglomerado de mídia, Igrejas. Seus financiadores de campanha.

Enquanto isso, de nossa parte, aprendemos que democracia é produzir e consumir. E cidadania é pagar mais caro pela melhor opção ou reclamar. Que merda é essa? Isso é escravidão, amigo. Enquanto você segue prestando serviço de má vontade nessa empresa, fazendo esse trabalho só para garantir que você possa pagar suas contas e comprar produtos feitos por outras empresas, com a mesma qualidade péssima de serviço, enquanto isso, você não percebe mas é um escravo.

Experimente boicotar o supermercado, por exemplo. Veja quão complicado é. Ou parar de consumir aquele produto que você sabe que vai te gerar uma doença grave. Abandone esse emprego onde você é maltratado diariamente. Esse trabalho em que, de algum modo, você faz veneno para o seu filho e o do seu vizinho tomarem, agora ou no futuro.

Pegue sua energia vital e direcione para algo que gere mais vida. Veja se você consegue pensar em algo. Veja se é fácil. Se vida, para você, não sempre significou essa máquina de moer carne que se chama mercado. Em suas infinitas variações, certificações, diplomas e créditos facilitados. E depois, as dívidas sem fim. E essa dificuldade de abandonar aquilo que não te serve, mesmo quando a catástrofe se anuncia.

Existe água aqui, na quadra de baixo. Um rio, mal gerido pela SABESP, como tantos outros. Existem terrenos vazios no meu bairro. Existem vizinhos, que se não estivessem ocupados com essa lavagem cerebral que tem por mote “trabalho, consumo e vejo TV”, estariam comigo, agora mesmo, construindo reservatórios…

Não é preciso ser especialista em nada, para resolver esse tipo de coisa. Um grupo de pessoas dedicado a isso, empenhado na sobrevivência de sua comunidade e tudo se resolveria localmente.

Essa empresa que administra nossa água se converteu num Leviatã. Não sabemos quem lucra com nossa penúria e muito menos quem ainda continua recebendo água diariamente enquanto bairros inteiros permanecem sem água. É a prova mais que evidente que, para nós cidadãos, essa empresa consiste num obstáculo ao nosso direito democrático de gerir a nossa própria água.

Isso, só para começar.

Água, alimento, moradia, saúde e a educação dos seus filhos. Para perpetuar essa idiotice ou para tomar de volta o que é meu e seu?

Uma nova geografia

A web se tornou um incrível impulso para o meu autodidatismo. Acredito que isso tenha sido bastante comum nessa época, mas somente hoje é que eu me dei conta da extensão desta invenção. Desde 1995 eu venho lidando com a ferramenta, passando primeiro pelo acesso mediado através dos BBSs e depois ao acesso direto.

Eu entrei na Universidade em 1996 e lá, o acesso era rápido e gratuito. A USP também dispunha de uma biblioteca multimeios, repleta de CDs musicais, DVDs, Filmes em VHS e até mesmo alguns CD-ROMs.

Na época, pude suprir deficiências na minha formação escolar. Li todos os clássicos da literatura universal que pude, ouvi muita música, refiz meu caminho nas histórias em quadrinhos, melhorei meu inglês, li sobre psicologia, filosofia, sociologia, neurociências, arquitetura, artes plásticas.

Eu aprendi muito usando as bibliotecas da USP, mas a utilização da Internet foi se tornando cada vez mais importante para mim. De casa eu acessava o sistema Dedalus e podia descobrir se havia um livro determinado em toda a rede de bibliotecas da Universidade. Eu podia levar um CD para casa e ripá-lo totalmente em MP3.

Mais tarde eu conseguia PDFs inteiros e podia imprimi-los (no começo eu ainda fazia muito isso) para consultar a qualquer momento. E ainda os filmes, as séries, as legendas, Youtube, Vimeo e tantas outras idéias.

O que sempre foi notável para mim era essa sensação de horizontalidade. Você podia começar a conhecer algo em qualquer ponto e encontrar pessoas no mundo todo, em diferentes momentos de estudo do mesmo conhecimento e pedir ajuda. A cultura do compartilhamento começou a se formar.

E como eu imaginava no início, a Internet começou a se tornar um espaço que também permitiria novas interações sociais e isso iria transformar nossa noção de governo, democracia e participação social.

Então o cerco se fechou. As grandes corporações começaram a comprar start-ups interessantes. As políticas de privacidade passaram a valorizar mais a capacidade de vendas dos dados do que a privacidade real. As interações com outras pessoas passaram a ser mais restritas, a não ser que você pague algo (e ainda assim, o resultado sempre me parece uma fraude completa). Empresas e órgãos de segurança começaram a formar essa aliança funesta, desvendada por Snowden e Assange.

E agora eu vejo essa geografia como uma espécie de vale de lágrimas. A internet virou o terreno da lamúria, da mentira, do inútil. A potência inicial ainda está lá, mas se tornou mais difícil de ser vista por todos. Estou preso a essa rede social limitada, porque todos os meus amigos estão lá…

Não.

Hoje eu vi isso. As corporações e o governo percebem o perigo de se estabelecer relações horizontais com seres humanos de qualquer lugar do planeta. Percebem que isso pode mexer nos bolsos desses 1% que dividem os 50% dos nossos recursos. Percebem que podemos compartilhar informações que nos permitam saber quem são esses, como estamos dando dinheiro a eles e de que maneira podemos cortar essa remessa de recursos.

Somente a web poderia trazer essa informação para todos.

Parece que é sobre a privacidade, parece que é sobre direitos autorais, ou sobre terrorismo. Mas na verdade é sobre uma possível democracia real que se vislumbra no horizonte.

A web pode ser uma espécie de Eldorado.

Um novo continente, com leis próprias.