A tradução do ir-se

No passado, eu teria apenas ido para uma outra geografia e estaria distante de você e de seus assuntos. Mas agora, com tantos aparatos, você me demanda mesmo à distância. Um número de celular e já estou novamente nas suas coordenadas, recebendo seus pensamentos e suas preocupações e sua idéia de que eles me pertencem de algum modo. Demandando as minhas ações para os seus problemas. Trocando isso por algum afeto existente entre nós. Usando o afeto como a moeda, agora de forma clara.

Então um recado e suas garras se estendendo ao meu redor, pretendendo me mover novamente para a sua órbita. Não.

Não farei. Não me moverei. Não resolverei seus problemas.

Não tenho nada com eles e só me importo com o fato de que você ainda não compreendeu a noção de distância.

Me deixe em paz.

Chiaroscuro • A predominancia da visão

Sendo um blog, eu posso me dar ao luxo de publicar um artigo incompleto, uma reflexão ainda em processo. Não é uma tese, ou dissertação e ainda me faltam mais dados para expor claramente essas associações. Então elas ficam no lugar onde o artista predomina sobre o cientista, e logo ali adiante, num outro artigo ou numa conversa qualquer, a idéia brota inteira.

Celeritas, (velocidade ou a relação entre tempo e espaço) é a origem do nome da constante c=299 792 458 m/s, que corresponde à velocidade da luz no vácuo.  Um objeto a altas velocidades, próximo à velocidade da luz, não pode ser acelerado até, ou mais que, a velocidade da luz, não importando quanta energia é transferida ao sistema. Matéria estando sempre abaixo dessa velocidade, não importa quanta energia se transfira ao sistema. Quanto recurso se use para isso.

A quantia máxima de energia que se pode obter de um objeto é dada pela massa do objeto multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. E então, estamos limitados a isso, essa é uma espécie de cerca para os objetos materiais se manterem como objetos materiais, ali adiante, perdem coesão, perdem consistência e geram enormes quantidades de energia nestes processos. Uma energia que desintegra o objeto material como tal, que não lhe permite a continuidade. Então, em direção à luz, objeto material se converte em algo similar à luz, mas tal movimento não lhe acrescenta nada. Ao contrário, lhe desintegra completamente. Ele muda de qualidade.

E mais as equações complexas e mais as elocubrações sustentadas nessas equações. E mais o trabalho de mil homens e a prova cabal disso, de que a matéria convertida em energia se transforma em morte, quando bombardeamos Hiroshima. Então, essa violência nos colocou uma barreira. E dali em diante, a matéria e seus processos passou a ser cada vez mais degradada. E com isso o corpo. E todos os outros sentidos que o conectam com o mundo.

Me parece que a equação é a bomba. A grande bomba, antes mesmo de ser detonada. E a detonação como trauma da equação, nos limitando a esse axioma de que, rumo à luz, estamos fadados à morte. E=mc² sendo o Cristo crucificado, a morte do Deus elevado à luz. Então, nos contemos. Paramos aí. Não seguimos adiante. Não avançamos ante à realidade paradoxal que a morte e o além da luz nos propõe. E nossa vida material perde atributos e valores.

Não te parece o mesmo? O mesmo recurso traduzido em novo idioma, em nova época, em nova cultura, mas o mesmo limite? A mesma luz, usada como cerca, o mesmo círculo de giz?

Fadados a permanecer sempre aquém desse ponto onde o particular se converte em movimento para fora, em movimento em direção a algo, sendo esse algo o outro eterno, a realidade para além da cerca do indivíduo.

Que passa com essas metáforas de realidade? De onde surgem essas idéias? E porque, para mim, a imagem de Einstein não difere em nada das construções taoístas de Yin e Yang, da árvore sefirotal Cabalística, do Zodíaco de diversos povos, do Arqueômetro?

Sete cores do arco-íris, doze cores somando as primárias, secundárias e terciárias. Sete e doze, aparecendo milhares de vezes em distintos povos para dividir distintos atributos. Luz e trevas, claro e escuro. A luz, aquilo que possibilita o horizonte e as trevas, que nos colocam em contato com os outros sentidos do corpo. Com aquilo que ouvimos, tateamos, sentimos de dentro de nós mesmos. Com a nossa introspecção. Com aquilo que sentimos para além do que deveríamos estar vendo.

E as ilusões visuais. O rei, vestido de ouro. O rei sol. O máximo em luz. Aquele a quem nós empoderamos porque é um deus. A fronteira para além da qual está a morte certa e a desintegração. E então, o cidadão-corpo, o cidadão-partícula, o cidadão-matéria, ele se conforma com a sua condição. Ele sonha. Ele é lançado nesse mundo de sonhos, onde a luz é algo a ser evitado para que a mente permaneça mais tempo sonhando. Ele abre o olho e então, as ilusões lhe são lançadas. A cerca está lá. A luz, gerada por outros para que ele permaneça ali, sendo particular em seu medo da morte.

E no corpo, o cidadão sente a fome, a escassez, a violência, a presença indesejada de um outro que se converte numa matéria tão suja quanto ele. Seus impulsos em direção ao outro são contidos por decretos, por religiões, por ameaças de todo o tipo. E ele segue só, sentindo que essas coisas são suas. Lhe falta a luz, para perceber o outro à distância. O outro com sua peculiaridade, distinto, mas ainda, o mesmo humano que ele. No escuro, ele só sente a si mesmo. E quanto mais registros de sofrimento tiver do próprio corpo, mais terror ele terá da luz, porque a luz desde sempre significou a morte.

Para onde vamos, quando a luz deixa de fazer sentido?

Para onde vamos quando não estamos atrelados àquilo que vemos e sim aquilo que sentimos? O que diabos é isso que chamamos de energia, que é maior que nós, que está em nós, que processamos de diferentes maneiras inclusive, vendo a realidade de maneira ilusória. Atrás dessa cortina chamada percepção visual.

Atados ao ritmo circadiano, agimos na luz e sonhamos nas sombras. Isso tem alguma relação com o hipotálamo, que regula nossa homeostase (capacidade de adaptação térmica),  conecta-se ao sistema endócrino (todas as secreções hormonais que regulam a química interna do corpo), e o sistema nervoso autônomo (sistema neurovegetativo ou sistema nervoso visceral – o lugar de excelência do centro Vegetativo, de Gurdjieff e Silo). O controle do sistema da vida está intimamente relacionado com a percepção do dia e da noite. O hipotálamo era chamado pelos egípcios de “Olho de Hórus” (o deus dos céus – ou da percepção do dia e da noite, pois um olho do deus era a lua e o outro o sol).

Não é possível atuar sobre esse aspecto do sistema nervoso voluntariamente, quer dizer, um indivíduo controlar o próprio sistema  nervoso autônomo (mas existem relatos de grandes iogues que chegaram a isso). No entanto, você conseguiria uma atuação sobre o sistema nervoso de outros seres humanos se fosse capaz de alterar a percepção deles do ambiente circundante. Como?

Manipulando a imagem. Gerando dia e noite a partir de imagens. Atribuindo significado a determinadas imagens poderosas. Representações de forças titânicas do homem como se fossem figuras externas, na forma de deuses e mitos.

Então você engendraria em milhares o temor à morte pelo temor à lucidez. E os manteria presos a um sonho.

Essa técnica tem sido usada milhares de vezes em distintos momentos da história e funciona repetidas vezes. Do mito de Prometeus  à Lúcifer, de Mitra a Cristo até chegar em Einstein e sua equação. A mesma tradução da luz como limite. E depois da luz, a noite paradoxal e sem imagens.

Por isso algumas iniciações podem ser assustadoras para o status quo. A idéia de “iluminação” (novamente a luz), de acordar de um sonho, de união com o divino, de realizar o propósito, de liberação e finalmente, sair da cerca e do circadiano.

Lucidez vai implicar em ação. Ação verdadeira. Ação conectada com o propósito, com a Verdadeira Vontade.

Dharma.

E rebelião.

Pré-requisitos

Você  deveria saber construir um abrigo e como armazenar e purificar a água. Deveria saber como obter energia elétrica. Deveria saber o que fazer com seu lixo e com o esgoto. Deveria saber como produzir seu próprio alimento, deveria reconhecer quais as plantas à sua volta que são comestíveis, quais são tóxicas e quais são medicinais. Deveria saber produzir fogo. Você deveria saber cozinhar e deveria também saber como é que se faz uma panela. Deveria entender como fazer a natureza produzir usando o ritmo da própria natureza. Deveria saber como gerar fartura rápido e sem custos para o ambiente. Deveria se lembrar como é confiar num outro ser humano e como é tratar o outro como você quer ser tratado. Deveria aprender a cuidar de um idoso e de uma criança. Deveria saber cuidar de qualquer outro ser humano e deveria saber pedir ajuda sem se sentir chantageado e sem impor ao outro nenhuma chantagem. Deveria saber enterrar seus mortos, e aceitar a partida de entes queridos. Deveria aprender a se defender, sem eliminar o outro, sem destruir o outro. Deveria aprender o que é amar, sem manter o outro cativo. Deveria aprender que o seu real valor não é o seu preço e nem o que você tem. Você deveria aprender a fazer as coisas que mais gosta porque são as coisas que você faria bem e que iriam durar muito tempo. Você deveria aprender a viver sem manter o outro cativo.

Ainda há tempo de aprender.

Ainda há tempo.

Estupra, mas não mata

Recentemente teve essa história da pesquisa do IPEA sobre o estupro, dando conta de que 58% dos entrevistados acham que o estupro acontece por causa de um comportamento da mulher. A pesquisa em questão é parte do Sistema de Indicadores de Percepção Social, que revela uma determinada mentalidade dessa amostragem populacional.

Ok. Que amostragem é essa?

3810 brasileiros, homens e mulheres com idade a partir dos 16 anos. Não consegui encontrar os indicadores de classe social (baseados apenas em aspectos econômicos, como o número de salários mínimos que o sujeito ganha mensalmente), mas dá para ter uma certa idéia de que os entrevistados são pessoas como eu e você. Pelo menos isso é o que garante a eficácia de uma determinada pesquisa.

Você pode ser qualquer um, que eu desconheço. Então vou te dizer quem sou eu. Sou um sujeito que trabalha por conta própria. Não estou empregado em nenhuma empresa, em nenhuma corporação. Aqui em casa, a renda fixa vem do emprego da minha companheira, a Clau, que vende seu tempo para uma Escola.

Nós fazemos parte da classe média, essa coisa cada vez mais misteriosa. Temos uma receita mensal que sempre me parece enorme, se comparada a outras famílias, e gira em torno dos R$ 6mil. Com essa grana, temos que pagar a escola dos meninos, supermercado, feira, petróleo, contas de consumo, prestação da casa, gente que trabalha para a gente, etc…

No dia 12 do mês, já estamos no vermelho. Ou perto dele.

Tem uns quatro anos que nós fizemos uma operação limpeza nas nossas finanças, porque eu perdi o emprego numa escola e a Claudia teve o número de horas aulas reduzido, enquanto estávamos com uma casa em construção, grávidos do segundo filho e cheio de empréstimos para honrar. Nós enxugamos nosso orçamento ao máximo, diminuímos excessos e mudamos hábitos de consumo. Nesses quatro últimos anos, nós conseguimos fechar o mês de dezembro bem. Fomos diminuindo o vermelho na conta e finalmente conseguimos colocar um pouquinho de azul.

Como vamos lidando com a vermelhidão? O banco gentilmente nos oferece um limite de cheque especial. Um crédito. O banco que acredita na gente. Então, o que a gente costumava fazer? Quando a gente ficava muito ansioso, com as contas assombrosamente no vermelho, com aquele negativo todo nos assombrando, a gente precisava muito ver TV a cabo ou tomar cerveja. Ou então, precisava muito comprar aquela oportunidade de ouro.

Eu precisava daquele celular em 20x. Ou do computador. Ou daquele livro, mais um deles, que ia ser empilhado com todos os outros que ainda falta eu ler. Eu precisava ser mimado, precisava que me colocassem no colo e me dessem carinho. E quem é que me dava? O banco. O banco e as casas Bahia. E as livrarias. E aquele site da china que me vende bugingangas que chegam aqui em casa e eu não sei como. O Paypal me salvou.

Eles todos me diziam: pega cara, é seu! Pode pegar. Depois você vê como resolve. Passa a mão. Leva pra casa.

Eles todos iam me colocando na cabeça que eu posso ter o que quiser, não importam as consequências. Depois você divide em 50x, vai pagando um pouquinho por mês. Não precisa pagar, fica aí. Pega mais. É teu. O que é meu é teu.

Então, num país machista, com boa parte da programação constituída por bundas à mostra e mulheres num papel ridículo, então nesse país, a mulher virou um bem de consumo. E é fácil entender porque o estupro é uma modalidade de crédito. O sujeito quer, ele não pode ter, ele tira o pau pra fora e passa na bunda que está na frente dele. E o outro sujeito do lado, ele olha, ele tem nojo, ele quer dar uma porrada no cara, mas por algum motivo não consegue. Ele acha que não é problema dele. Aquela mercadoria não lhe pertence.

Pode pegar cara! Mas não destrói. Não quebra. A bunda no metrô é uma mercadoria no show room. É essa a associação nefasta que está sendo feita.

Tá com desejo sexual?  Estupra, mas não mata. Não quebra o brinquedo do outro.

E seguimos todos sendo estuprados.

Pelo crédito oferecido, pelo salário que é pouco, não importa o quanto você trabalhe, por essas necessidades todas, criadas, fabricadas. Por essa carência sem fim que eu tenho que suprir já, agora, imediatamente. Eu não posso esperar. Não consigo esperar. Não. Eu quero agora!

E isso faz essa máquina toda continuar girando.

 

O Cume

Bancos, Mídia, Comida Industrializada e Petróleo.

Essa postagem no RealFarmacy.com me fez refletir enormemente. São apenas 85 pessoas que detém 46% dos recursos mundiais. Como isso é possível? Essa gente se alimenta dos nossos hábitos.

Os fóruns de economia e alguns grupos políticos se concentram na idéia de que é preciso distribuir renda, entendendo por renda um certo montante de dinheiro que permita a uma família continuar comprando os produtos que vão manter os mesmos 85 no topo da cadeia alimentar. Mas eu de repente comecei a pensar em uma outra abordagem, baseado numa outro escrito meu chamado “Rebelião”: e se nós simplesmente parássemos de depender dessas pessoas?

É possível? Como isso seria feito?

Eu fui criado desde a origem completamente dependente dessa infra-estrutura. Saí da amamentação e cai direto no supermercado. Fui adestrado numa escola e depois caí no mercado de trabalho ao mesmo tempo em que me eram exigidos certos deveres de cidadão da nação. Assumi uma família e me vi endividado com bancos pertencentes a todo tipo de quadrilhas.

Então essa coisa toda me parece uma mãe. Como se aquela teta original tivesse se transformado nessa chantagem horrenda da qual eu tomo parte todos os dias através desses hábitos dos quais eu não consigo me livrar.

E me parece que é isso. É justamente esse o ponto: lidar com o fato de que eu estou viciado nessa estrutura e só posso me liberar dela da mesma maneira que um alcoólatra faz com o seu vício. De uma vez só e ao mesmo tempo, um dia de cada vez. Sabendo que todo o tempo vão tentar me vender os benefícios de permanecer nessa estrutura. E que eu posso cair nessa conversa e levar minha família e meus queridos amigos todos ladeira abaixo.

Onde estão esses nós que fazem com que eu alimente essas 85 pessoas, que estão loucas? Eu acredito que dinheiro é o único recurso que tenho, perdi a noção do meu valor, porque ele passou a ser associado a um preço. Então meu valor é o valor que o mercado me atribui e é preciso que esse valor seja sempre baixo, porque o mercado está me comprando e é preciso que eu esteja em liquidação (ou liquidado, de preferência).

Eu perdi a capacidade de plantar, de cozinhar, de cultivar. Olho para uma planta na rua e não sei se ela é remédio. Vou ao mercado e compro uma carne na bandeja de isopor que quando eu abro fede a carniça. Mas eu a tempero bem e como assim mesmo, porque está cara. Porque carne de mercado é assim mesmo. Porque eu não tenho tempo de ficar na fila do açougue e o dono do mercado sabe disso e me vende a carne quase podre, porque quer ganhar dinheiro porque esse também é o preço dele e ele não pode ficar liquidado ou falido.

Eu fico doente e preciso continuar valendo algo. Eu sou a carne podre na bandeja e peço a um médico que me embale com algum plástico para que o patrão não sinta que estou podre por dentro. O médico também não pode ficar liquidado, porque o convênio paga mal para oferecer a ele um nomezinho e telefone no guia de associados. Ele então me receita uma remédio para o mau cheiro, porque o rapaz da farmacêutica vai dar a ele e a esposa uma viagem para um congresso de medicina. Esse congresso é o tempero do médico e da mulher dele. E o rapaz também oferece a viagem porque sem essa oferta, ele está liquidado.

E me movo de um lado a outro, de uma bandeja a outra, de um plástico a outro, de uma balança a outra. E para cada movimento desses, o petróleo é o que deveria me levar. Mas não leva. Porque eu continuo queimando petróleo enquanto o que não anda é a rua. Eu digo que a estrada não anda, que a rua não anda, mas elas nunca andaram. Elas sempre estiveram ali. Eu é que deveria estar andando, porque comprometo mais de 20% do meu orçamento com petróleo, que me promete esse movimento, mas que não cumpre.

Não cumpre, como qualquer outro desses serviços. Como qualquer coisa dessas. Como esse modelo inteiro, de cabo a rabo, começando pelos meus hábitos.

E é por eles que eu posso começar.

Não conheço essas 85 pessoas. Não saberia diferenciá-los de você ou de mim, porque para mim, somos todos iguais. O problema é tanto poder nas mãos de gente tão louca.

E quando você encontra um louco, é melhor deixá-lo falando sozinho.

Vamos deixar essa gente falando sozinhos?

Você consegue?

Mude os seus hábitos e se libere dessa merda toda!

 

Querido Abílio

Nós somos pais de crianças que estudam numa escola Waldorf em Embu e estamos tentando que a prefeitura faça valer o imposto que os cidadãos pagam para a melhoria das condições das vias de circulação pública da cidade. Infelizmente, a rua onde a escola se situa é habitada por apenas dez famílias e o secretário de obras da cidade de Embu nos disse que isso torna inviável a sua pavimentação. Por outro lado, ele nos fez a gentileza de apresentar um orçamento estimado de R$ 100 mil para asfaltar 200m de rua. Sugeriu que poderíamos nos cotizar e dividir esse valor em até três vezes sem juros.

De nossa parte pensamos em propor à prefeitura a isenção eterna de IPTU, ou até que os R$ 100 mil sejam totalmente amortizados, nesse caso, sem juros. E a prefeitura mesmo faria o asfaltamento completo da pequena rua, bem como o sistema de escoamento de águas pluviais.

Felizmente para nós, somos seus vizinhos.

No dia de ontem eu descobri esse fator até então desconhecido. Alguns pais  trouxeram a informação de que foi você o comprador daquele haras que havia na estrada do Capuava. Sabe qual é? Aquele que tinha uma mata de eucaliptos que foi toda cortada essa semana, ali perto do templo Budista e da sede dos Arautos do Evangelho. Lembrou? Pois é. Eles comentaram que você tem a intenção de construir ali um frigorífico, para dar escoamento a toda carne que entra na nossa querida metrópole. Houve também a sugestão de que você iria construir uma estrada com quatro pistas até a Régis Bittencourt passando justamente pela região onde fica nossa pequena rua de dez moradores e a escola de nossos filhos.

Eu achei excelente!

Foi apontada a idéia de que poderíamos ver contigo se a nossa rua não poderia fazer parte do seu plano de ampliação das condições viárias da cidade de Embu, uma vez que a rua tem apenas uns 400 metros de extensão (a sim, os valores fornecidos por nosso secretário de obras só serviam para cobrir metade da extensão da rua, numa parte crítica onde os buracos são tão profundos que uma pessoa que desce a rua dirigindo um Land Rover pode subir pilotando o equivalente a uma Brasilia).

Veja, usando a mesma lógica do IPTU, nós todos somos compradores das suas carnes de um jeito ou de outro. A partir de agora, todos nós estaremos levando a sua salsicha também. Então de alguma maneira, estamos colaborando com esse seu projeto de construir o frigorífico ali tão pertinho da escola e de sua parte, seria uma política de boa vizinhança na região. O que você acha?

Nós claro, nos comprometemos a suportar o aumento do tráfego na região e o estupro da mata de eucalipto, bem como o discreto cheiro de carniça, que agora irá nos acompanhar para todo o sempre.

Podemos contar com a sua colaboração?

Explicando o super-herói

Pai, olha só, veja! Um super-herói!

O sujeito em questão era o Wolverine, cara de mau, garras de fora, estampado no baú de um caminhão.

E eu, pai de três filhos homens, que li histórias em quadrinhos até os 25 anos…

Ele tá nervoso. Ele tá assustado. Ele tá muito bravo.

Pedrão, com sua simplicidade em expressar as emoções.

Eu gosto de Wolverine. Ele é forte.

Ai caralho, filho! Ai merda! Gabriel se entusiasma com Wolverine.

Eu gosto mais do Kiriku. Ele é muito esperto.

Ele é corajoso, né pai? – Gabriel parece estar comprando a idéia.

Eu acho filho. Acho mais legal assim. Você lembra da feiticeira Caravá?

Ela tava muito nervosa porque ela tinha um espinho nas costas. – Diz o Pedro.

Ela tava nervosa e ela quebrava tudo e bagunçava tudo. – Reforça o Gabriel.

Ufa. Parece que estamos andando.

Engraçado esses super-heróis. Eu acho eles parecidos com a feiticeira Caravá. Porque eles estão sempre nervosos, sempre quebrando tudo, jogando o carro no outro…

O Homem Aranha ficou muito nervoso. Ele está assustado. – Diz o Pedro.

Pra mim, super-herói mesmo tinha que resolver as coisas que nem o Kiriku. Com coragem e esperteza. Esses super-heróis que nem o Hulk, o Homem Aranha…

O Capitão América, tem o Ben 10… – Diz o Pedro.

O Bátima. – Diz o Gabriel.

Eles estão muito de cabeça quente, filho. Estão quebrando tudo. E eu acho que quando a gente fica nervoso e bate no outro é porque a gente se perdeu. A gente fica sem saber o que fazer e acaba batendo no outro porque perdeu a cabeça.

Lembrando que eu faço muito isso. Lembrando que eu sou covarde com eles. Lembrando que eu me sinto um bosta quando perco a cabeça com eles porque não sei o que fazer e parte do pacote de ser um pai é não saber o que fazer e fazer bosta.

Eu gosto do Hulk. – Diz o Gabriel.

Eu também filho. Eu também. Mas o Hulk é o mais nervoso. É tão nervoso que as calças dele até se rasgam.

É. E ele fica só de cueca. – Diz o Gabriel.

De cueca não, seu malucão! – Diz o Pedro.

É, de cueca. – Diz o Gabriel.

Não é cueca, Gabri. É a calça dele que fica bem pequena e rasga porque ele cresce de tanta raiva. Cresce, fica nervoso e sai quebrando tudo.

Lembrando que eu sou o Hulk. Que eu já fui mais Hulk do que hoje. Que eu sou viciado em ser Hulk. Que eu preciso lutar com esse Hulk o tempo todo.

É. Ele joga o carro no prédio. Ele pega assim ó, e joga lá longe. – Diz o Gabriel.

E as lojas que tem no prédio? E as pessoas que estão no prédio? E o dono da loja? O Hulk fica nervoso e não pensa em nada disso. Ele joga o carro e quebra tudo. Mas tem também aquelas pessoas todas.

É. – Diz o Gabriel.

E tem o Capitão América, o Batman, o Homem Aranha, o Ben 10… – Diz o Pedro.

E eu, sem saber direito como é que isso ia entrar neles, sem saber se estava fazendo bosta ou não, eu então disse a eles:

Filhos, as pessoas que inventaram esses super-heróis, o Hulk, o Capitão América, o Batman, todos esses… eles estavam tentando convencer a gente de que bater no outro é uma coisa legal. Que tem gente que merece apanhar e que isso é certo. Eles fazem isso para tentar fazer com que a gente apóie uma coisa chamada Guerra, que é a coisa mais vergonhosa que o ser humano pode fazer. A Guerra é um monte de gente que bate uma na outra, que quer ver o outro chorando, que quer ver o outro machucado e acha isso certo. A Guerra é uma perda de tempo, uma vergonha. Por isso é que o papai gosta do Kiriku. Porque o Kiriku consegue gostar de todo mundo…

Até da feiticeira Caravá, né pai? – Diz o Gabriel.

É filho. Até da feiticeira.

 

A Preocupação do Pai de Família

Alguns dizem que a palavra Odradek deriva do eslavo e com base nisso procuram demonstrar a formação dela. Outros por sua vez entendem que deriva do alemão, tendo sido apenas influenciada pelo eslavo. Mas a incerteza das duas interpretações permite concluir, sem dúvida com justiça, que nenhuma delas procede, sobretudo porque não se pode descobrir através de nenhuma um sentido para a palavra.

Naturalmente ninguém se ocuparia de estudos como esses se de fato não existisse um ser que se chama Odradek. À primeira vista ele tem o aspecto de um carretel de linha achatado e em forma de estrela, e com efeito parece também revestido de fios; de qualquer modo devem ser só pedaços de linha rebentados, velhos, atados uns aos outros, além de emaranhados e de tipo e cor dos mais diversos. Não é contudo apenas um carretel, pois do cento da estrela sai uma vare tinha e nela se encaixa depois uma outra, em ângulo reto. Com a ajuda desta última vareta de um lado e de um dos raios da estrela do outro, o conjunto é capaz de permanecer em pé como se estivesse sobre duas pernas.

Alguém poderia ficar tentado a acreditar que essa construção teria tido anteriormente alguma forma útil e que agora ela está apenas quebrada. Mas não parece ser este o caso; pelo menos não se encontra nenhum indício nesse sentido; em parte alguma podem ser vistas emendas ou rupturas assinalando algo dessa natureza; o todo na verdade se apresenta sem sentido, mas completo à sua maneira. Aliás não é possível dizer nada mais preciso a esse respeito, já que Odradek é extraordinariamente móvel e não se deixa capturar.

Ele se detém alternadamente no sótão, na escadaria, nos corredores, no vestíbulo. Às vezes fica meses sem ser visto; com certeza mudou-se então para outras casas; depois porém volta infalivelmente à nossa casa. Às vezes quando se sai pela porta e ele está inclinado sobre o corrimão logo embaixo, tem-se vontade de interpelá-lo. É natural que não se façam perguntas difíceis, mas sim que ele seja tratado – já que o seu minúsculo tamanho induz a isso – como uma criança. “Como você se chama?”, pergunta-se a ele. “Odradek”, ele responde. “E onde você mora?” “Domicílio incerto” diz e ri; mas é um riso como só se pode emitir sem pulmões. Soa talvez como o farfalhar de folhas caídas. Em geral com isso a conversa termina. Aliás mesmo essas respostas nem sempre podem ser obtidas; muitas vezes ele se conserva mudo por muito tempo como a madeira que parece ser.

Inutilmente eu me pergunto o que vai acontecer com ele. Será que pode morrer? Tudo o que morre teve antes uma espécie de meta, um tipo de atividade e nela se desgastou; não é assim com Odradek. Será então que a seu tempo ele ainda irá rolar escada abaixo diante dos pés dos meus filhos e dos filhos dos meus filhos, arrastando atrás de si os fios do carretel? Evidentemente ele não prejudica ninguém, mas a idéia de que ainda por cima ele deva me sobreviver me é quase dolorosa.

(Tradução de Modesto Carone in: Franz Kafka. Um Médico Rural. SP: Cia das Letras, 2003, p. 43-45)

A doença

A mente condicionada persegue o contraste para negá-lo.

A sucessão de estímulos vai sendo negligenciada por esta mente. É então agrupada em conjuntos de semelhanças, sintetizada e rotulada.

Então surge o contrastante, o diferente e esta mente se apega a ele enquanto busca um conjunto já existente para enquadrá-lo. Quando o estímulo não pode ser enquadrado, a alternativa mais fácil para ela é negá-lo através de um processo de degradação. A mente condicionada tenta reduzir o objeto às suas categorias mais simples. Tenta reduzi-lo a um amontoado de conjuntos que se agregaram construindo aquilo que se apresenta.

Ainda assim, esse estímulo se impõe pela sua inteireza. Ela então nega a existência do estímulo enquadrando-o na categoria “ilusão”, e o mantém lá. Se o estímulo se impõe, acentuando o contraste, a mente condicionada busca outra maneira de lidar com ele. Ela então cria um conjunto específico para este tipo de estímulo e então passa a buscar algo que se assemelhe a ele. Ela então se intriga ao não conseguir encontrar nada igual. Então torna aquele estímulo algo a ser destacado. E assim o reduz ao especial. O estímulo fica “fetichezado” e a mente se mantêm condicionada, perseguindo um fetiche.

Quando adoecemos, o sintoma é esse objeto que salta à nossa vista. Algo desobedece o nosso esforço em manter a mente na percepção da normalidade, da continuidade. Então buscamos a medicação. A redução do estímulo, do sintoma. Somente quando o sintoma se impõe é que temos a possibilidade de investigar com maior profundidade as causas que o estão gerando. A mente condicionada se põe a investigar as causas, de objeto em objeto, de contraste em contraste. A mente se lança ao labirinto. E então sobrevêm a fadiga e a mente se contenta com as respostas obtidas. Ela agrupa essas respostas num conjunto denominado “realidade”. O sintoma desaparece e a mente segue, perseguindo a continuidade.

O que condiciona a mente? A perseguição da continuidade, da permanência. A mente quer se manter destacada, apesar de tantos estímulos que vêm e vão. Ela quer permanecer, embora os pensamentos e os estímulos não permaneçam. Há esse algo na mente que a mantém destacada dos estímulos e para que a mente não perca esse destaque, ela precisa lidar com os estímulos reduzindo-os a objetos mais simples para que ela os possa manipular. Então esse algo na mente não é a mente em si, porque esse algo parece usar certas características da mente em benefício de sua permanência. A mente em si flui, digerindo os estímulos, reduzindo-os a objetos manipuláveis. Mas esse algo transforma essa função da mente em uma ferramenta para que ele se mantenha destacado.

E o que é ele, em si? O que é esse algo que usa a mente dessa maneira? É um aspecto da mente ou algo alheio a ela?

Quando persigo esse “algo”, não o tangencio. Não o toco. Ele se retrai em mim. Se o busco, ele se dissipa. Parece não existir. Porque quando o busco com minha mente, também me destaco dele. Me parece que sou isso e quando uso a mente para buscá-lo fora dessa identidade, não o encontro. Então reconheço que esse “algo” é uma identidade.

A forma dessa identidade usar a mente para se manter é a identificação. Esse “algo” adere à mente se identificando com ela. Então ele e a mente parecem ser a mesma coisa, de tal maneira que a pouco eu pensava que a mente é que queria se manter destacada. Não. A mente está operando como uma ferramenta desse “algo”, dessa identidade. Esse “algo” usa a mente para se manter destacado e a maneira de fazer isso é através da identificação com a mente. Estranhamente esse algo, que busca o destaque, se oculta por trás da mente. Esse algo quer permanecer  e ao mesmo tempo, não quer ser visto. Que coisa é essa?

Claro! Esse algo precisa se manter fora desta função que ele escolheu para a mente: a de reduzir tudo a objetos mais simples para que possam ser manipulados. Então quando aplico a mente para lidar com esse “algo” ele se simplifica também. E o que se torna?

Se torna essa pergunta, essa incógnita sem nenhuma resposta.

Um vazio completo.

Um vazio e ainda, uma potência.

 

Projeto Manhattan, a lógica da especialização

Há um modelo de roteiro para filmes de hollywood que sempre garante alguma bilheteria. É aquele em que o sujeito comum se envolve em algum tipo de conspiração criminosa gigantesca porque sua família está sendo mantida como refém. Quase todos os atores-blockbuster já estiveram envolvidos em uma produção deste tipo e elas pipocam nas telas praticamente em todos os anos. Então o sujeito se mete em todo o tipo de encrencas e vai se tornando cada vez mais um inimigo público número um e no final, ele pega uma arma na mão e mata a bandidagem toda enquanto salva sua família. Ele precisa se tornar esse assassino, e tem justificativas para isso, uma vez que ele foi provocado por esses inimigos terríveis.

A gente recebe esse estímulo constantemente, porque essas produções são sempre repetidas em todos os canais de TV. É um tipo de roteiro chave, sempre reutilizado, sempre na média e sempre funciona do mesmo jeito. Não é genial, mas tem adesão imediata. É como o clássico “mataram meu parceiro e seqüestraram a minha garota”. E isso tudo é gerado para o seu entretenimento, quero dizer, vai ser visto naquela hora em que você só quer relaxar e ver o que está passando na TV. E você abre a sua latinha e se senta diante da tela bem relaxadinho, enquanto o assunto passa a fazer parte da sua programação mental.

No dia seguinte, você se envolve no seu trabalho. Justamente fazendo uma pequena parte de algo cujo todo você desconhece. Vamos dizer, você trabalha numa fábrica de chocolates fazendo pesquisas sobre a quantidade exata de aromatizante artificial de baunilha a ser colocada no chocolate para que as vendas aumentem. Ou traduzindo manuais em alemão para ajudar a linha de montagem da empresa aqui no Brasil. Não importa. Essa mesma empresa está envolvida em crimes ambientais, conseguindo licitações ilegais para a exploração de água mineral, por exemplo, usando um sistema de propinas e lobbies com setores do governo em diversas instâncias. Você até sabe que isso acontece, porque leu em alguma postagem da internet. Mas o seu trabalho não tem nada a ver com isso, você diz.

E segue em seu trabalho, se perguntando como é que alguém consegue fazer isso em sã consciência. Quero dizer, como é que o sujeito se corrompe assim só por causa de dinheiro. Mas não é só por causa de dinheiro. É porque a família dele está seqüestrada. E a sua também. É isso o que faz com que você diga que, apesar da empresa está fazendo aquela merda toda, seu trabalho não tem nada a ver com isso, embora você também colabore com a eficácia do grupo em destruir o meio ambiente. Se você parar com isso, como vai sobreviver? E a sua família?

E você vai sendo promovido. Quanto mais insensível for se tornando aos danos colaterais, mais chances você tem de ter um salário maior e maiores responsabilidades dentro da empresa. Você está se tornando um assassino, mas não está percebendo isso porque o seu padrão de vida melhorou muito. Agora você pode colocar seu filho nas aulas de inglês e levar o menino para tomar ritalina em algum médico muito bom. Você bebe mais caro, come mais caro. Comprou um carro mais caro. As coisas só estão desagradáveis porque você, apesar de ser tão eficiente, ainda é forçado a conviver com os outros, os medianos, nas avenidas congestionadas da cidade.

E é claro, as coisas fora da empresa não estão boas porque o governo é ineficiente, corrupto. De direita ou esquerda. Do partido azul ou do partido vermelho. Porque o presidente é analfabeto ou sociólogo. Qualquer coisa simplista e estúpida. E amanhã, você vai bater cartão na máquina de moer gente.

Veja, para assegurar as suas necessidades básicas, por exemplo, sua casa. Um cidadão médio pode levar até 30 anos em financiamento para pagar a sua casa. Considerando que o sujeito se aposenta por tempo de serviço no mesmo tempo. Imagine: um homem começa a sua carreira e resolve tomar um financiamento. O banco não vai lhe fornecer crédito suficiente para que ele compre a casa que vai necessitar nos próximos trinta anos. Ele vai ter que trabalhar ainda uns dez anos para poder atingir a renda que vai possibilitar a ele conseguir do banco um empréstimo. Como os juros são altíssimos, o sujeito vai se esforçar muito para acabar de pagar a casa em pouco tempo. Mas a vida vai passando e as contas aumentam. Os filhos, a escola dos filhos, a alimentação de mais pessoas, a saúde de todos… Ele vai ficando cada vez mais assombrado com o dia de amanhã.

E se ele sair do emprego agora? É melhor fazer um seguro de vida porque senão, se acontecer algo com ele, a família vai passar necessidades. Esse homem é um escravo. Ele é o homem do filme americano e a sua família está seqüestrada pela ameaça de uma vida terrível. Esse sujeito está pronto para matar o outro.

Nós estamos aprendendo isso a muito tempo. Entendemos que vida é essa coisa, dessa maneira, mas estamos sentindo essa coisa estranha dentro de nós. Olhamos o mundo desabando, as coisas se degenerando mais e mais, o homem se perdendo e nos perguntamos o que podemos fazer. Nos metemos em alguma caridade nas horas livres cada vez menores, tentamos ajudar aqueles que nos parecem vítimas da sociedade, tentamos aplacar uma culpa que não sabemos de onde vem. Achamos que é a culpa por termos dinheiro enquanto os outros não têm. Achamos que é a culpa por termos esse tipo de emprego enquanto o outro fica catando latinhas na rua. Damos roupas velhas aos que passam frio, comida a quem nos pede dinheiro. E a culpa não some nunca.

Descobrimos que há homens e mulheres que vivem dessa culpa manifesta e que nos exploram por ela. Então passamos a ter ódio da culpa e de quem explora o outro por esse ponto fraco. E pouco a pouco, nem culpa sentimos. Nem ódio. Nada. Somente a indiferença e uma certa tristeza não se sabe bem pelo quê. Vamos ao médico e ele nos diz que estamos deprimidos e tomamos drogas para não sentirmos mais nada. Nem culpa, nem tristeza, nem alegria. Nada. Um cinza em nosso sentir.

E isso nos faz eficientes na matança.

E se abandonamos o barco, somos substituídos por outro. Mais novo, mais insensível, mais estúpido, com um salário menor. Mais necessitado ainda do que nós. Mais capaz de matar.

Veja é ainda onde está o valor. Se um homem não está ocupado de matar outro, como vai ganhar seu sustento? Existem esses homens que não estão ocupados com a matança. Homens e mulheres que fazem da sua vida um testemunho de que o ser humano é algo maior do que esse que mata o outro para sobreviver. Homens e mulheres ocupados do melhor do ser humano, da capacidade humana de superar qualquer condicionamento, de criar, de transformar as condições do meio, de se superar. E a pergunta que o homem envolvido na sobrevivência faz é: como podem ganhar a vida se não estão envolvidos com a matança? Que valor pode ter um trabalho que não seja o assassinato?

É o medo do assassino. Um medo aprendido. Um medo que o impede de desistir da matança de agora e de amanhã. O medo de não sobreviver. De não conseguir. O medo de que sua família seja feita em pedaços por um mundo cruel que só existe porque ele colabora com sua inteligência e sua força de trabalho para que exista e se perpetue.

O assassino precisa superar o medo, porque enquanto não descobrir como sobreviver sem aniquilar o próximo, terá sua sobrevivência ameaçada.

“Tu és o assassino que procuras” – (Sófocles, Édipo Rei)