Um exercício de planejamento

Eu hoje vou te propor um exercício de planejamento um pouquinho diferente.

Você pode fazer esse exercício com papel e caneta mesmo, mas se tiver mais familiaridade com softwares de planilhas numéricas, também serve.

Desenhe uma tabela com duas grandes seções. Na primeira você vai colocar suas RECEITAS, isso é, aquilo que as suas fontes pagadoras: seus clientes, empregadores, rendimentos. Na segunda seção, vão ficar as suas DESPESAS, isso é, tudo aquilo com o que você gasta a sua RECEITA.

Mas a gente vai ampliar um pouquinho essas duas noções. Em primeiro lugar, você vai pensar que RECEITA é algo que você obtém em troca da sua energia vital dispendida no tempo. Em segundo lugar, DESPESA vai ser tudo aquilo que você empreende para obter mais energia vital.

Equilibrar o orçamento doméstico é equilibrar o seu dispêndio de energia vital na construção da sua realidade. É muito importante lembrar dessa última parte: “na construção da sua realidade”. É extremamente importante. É aqui que entram os seus sonhos, seus projetos, suas alegrias.

Então não basta que a equação RECEITA – DESPESA se iguale a zero. É preciso gerar um excedente e é nessa sobra que está o futuro.

Para quem eu desejo ceder minha energia vital e meu tempo? Qual a maneira mais eficaz de obter energia vital e tempo para construir realidades?Agora vem a política na coisa toda. É uma pesquisa que vai te tomar um certo tempo, mas você só vai precisar fazer essa vez.

Ao lado de cada produto que você consome, na seção DESPESAS, você vai anotar o fabricante do produto. E ao lado do fabricante, o nome do dono da empresa, ou dos associados conhecidos. Essas pessoas são aquelas que você sustenta quando compra o que elas fornecem, com o tempo e energia vital delas, para suprir a sua energia vital.

Faça a mesma coisa na seção RECEITAS. Anote o nome da suas fontes pagadoras. As empresas, os proprietários e os principais nomes que você se lembrar. Você cede sua energia vital e tempo para que essas pessoas supram a energia vital delas.

Perceba agora como RECEITA e DESPESA se misturam nessa conta. A minha RECEITA é a DESPESA de alguém e vice-versa. A todo tempo você está trocando um quantum de energia vital com outros seres humanos.

E é preciso que a relação seja vantajosa para ambos, se todos quiserem o direito a realizar seus sonhos e projetos futuros. É preciso que se sejam relações que gerem excedentes, certo? Para ambos os elementos. E que ambos os elementos tenham autonomia para gerir esse excedente.

Agora olhe essa lista com sinceridade e veja o enorme desequilíbrio de alguns nomes que aparecem. Perceba agora que certos nomes da sua lista recebem energia vital de grandes conjuntos humanos. Estou falando de monstrengos corporativos com mil braços, que tentam ganhar dinheiro com qualquer movimento que você faz tentando correr atrás de energia vital.

Cada bloco desses sustenta um número de pessoas, age de uma determinada maneira no planeta e remove um quantum de energia que não é reposto. Para onde vai?

Você entende onde quero chegar?

Existe um conjunto (cada vez mais seleto) de pessoas no mundo que você sustenta com a sua energia vital. Na maior parte do tempo, você não percebe onde está colocando essa energia.

Mas esses senhores nos cercaram de tal maneira que, simplesmente por estar aqui vivo estou colocando energia na vida deles a cada movimento meu. E não tenho retorno na mesma medida.

Eu invisto muito nesses senhores. Muito.

Saiba quem são eles na sua vida.

Pare de colocar dinheiro neles.

Veja se é possível e como.

Corte suas relações com esses parasitas.

É isso o que eles são.

 

 

A utilidade da arte

“Pro amigo querido Paulo Panzeri e sua tese de doutoramento

Eu me formei numa época em que a busca na Arte era de uma linguagem, uma poética. Eu entendi que isso significava uma espécie de método estilístico, um “jeitão” de resolver esteticamente um problema.

Mas antes, eu era um técnico, habilitado a trabalhar na indústria na área de projetos. Então a gente era treinado para pensar em termos de problemas e soluções. A gente inventava soluções para automatizar tarefas repetitivas. Máquinas, circuitos, softwares.

Antes ainda eu era desenhista de histórias em quadrinhos, charges e caricaturas. E antes, um inventor dos meus brinquedos. E também, desde sempre, um “puta dum zueiro do caralho”, como podem atestar diversos amigos de infância, parentes e animais. E um leitor ávido, um filósofo e durante algum tempo, um freguês assíduo dos botecos.

Então a arte ficou para mim num lugar entre a “zueira”, a invenção, a programação, a filosofia de botequim, a religião, a gambiarra, as más influências, os amigos verdadeiros e a falta de dinheiro.

De maneira que eu sempre fiquei me perguntando se aquilo tudo era útil para mais alguém…

Se eu não estava, na idade adulta, dando um jeito de continuar brincando enquanto alguém pagava as contas. Esse alerta da esposa, dos boletos, da casa, dos filhos que foram se somando, das mensalidades escolares… Então as aulas de teatro, uma mistura do que eu aprendi na catequese, com exercícios tirados de algum livro de teatro, com as coisas ditas nas aulas de teatro que eu freqüentava como aluno. Indicação da irmã, primeiro. Depois dos amigos.

E eu sempre inquieto com a escola. Sempre indisposto com ela, desde sempre, desde cedo. Desde o primeiro dia de aula.

Mas fui notando que o ator mais novo que eu, o ator de escola, ele não entendia certas coisas que a gente estudava na faculdade. Ele não tinha as referências que meu professor de teatro dizia serem essenciais. A diretora queria a peça para enfeitar a festa. Os pais queriam que os filhos falassem muito. A professora da sala queria que a coisa saísse bonita.

Foi ali que eu comecei a entender que de algum jeito, aquilo tudo cumpria uma função naquela comunidade. Não era a minha obra, mas a obra daquele grupo humano o que realmente importava. Claro que meu jeito de entender isso foi assim: eu fui sendo demitido inúmeras vezes. Ou então, pedia para sair porque não suportava essa idéia.

Como artista, queria essa coisa para mim, essa obra prima. O gênio, meu deus, o gênio!

Mas qual a utilidade disso?

Essa é a pergunta fundamental. Qual a utilidade desse meu pensar, sentir e atuar para criar essas novas realidades, integrado a essa comunidade que me cerca, mas não cerceia?

A comunidade, no papel de público da “minha obra” deve ser algum tipo de doença mental, dessa lista imensa que hoje temos.

Acho que se fez, nessa época, um arranjo macabro entre a idéia do self-made-man, que sustenta o capitalismo, com a idéia do gênio da renascença. É essa idéia alardeada por toda parte o que gerou essa pretensão toda da minha parte. E me fez querer ser uma mistura de Tony Stark com Leonardo Da Vinci…

E acho que isso é algo que afeta uma geração inteira de artistas.

Ao mesmo tempo, os problemas da vida civil se somam e as corporações nos cercam por toda a parte, comprando o apoio de governantes, na forma de contratos e leis que os favoreçam.

E nós, ocupados que estamos com os boletos que não param de chegar, lamentamos a falta de leis que subsidiem nossa arte. Que merda é essa?

Não.

Algo não vai bem.

Mesmo você, na crista da onda, sabe disso…

Mesmo você, com a casa cheia, viajando mundo a fora, escalado para a próxima produção, com vinte anos de pesquisa na companhia tal, mesmo você… você sabe disso. A casa está caindo irmão!

E o único jeito de fazermos algo me parece ser, justamente, pensar na utilidade do que fazemos para a nossa comunidade. Algo além do “vai me ver que eu estou em cartaz”.

Não é a besteira de formar mais artistas para o mercado.

Talvez seja a besteira de formar mais pessoas fora do mercado. Pensando outra maneira de se relacionar com a comunidade, que não seja o trabalho, ou o mercado, ou os produtos, ou a minha obra.

Um jeito de ajudar as pessoas a terem de volta o próprio sistema nervoso e serem criadores de sua própria realidade.

De algum jeito, isso me parece magia.

Coisa de pajé.

De xamã.

De palhaço sagrado.

Dionísio, novamente, se impondo.

Uma nova democracia

Eu hoje perdi meu sono mais uma vez, porque confiei algo essencial para mim a um terceiro que me traiu. Fui tomando decisões ao longo do curso de minha vida que acabaram me impedindo de agir sobre a água que bebo e agora, ela corre o risco de acabar. Pensei que bastava eu cumprir uma grade escolar e depois decidir sobre uma maneira determinada de participar da coletividade, que seria o trabalho, cumprindo uma função especializada em troca de alguns benefícios e de dinheiro para que eu pudesse ter opções de serviço e de conforto, de acordo com meus méritos.

E agora, me vejo sem água. Algo tão simples, tão ridículo. E eu não sei como gerar essa água de que necessito. Eu tenho reservas aqui, porque antevi esse problema a quatro anos atrás. Então, fiz como meu avô, que construiu uma cisterna em casa para se prevenir contra as épocas de seca lá na Paraíba. E quando construí minha casa, coloquei duas caixas de mil litros para armazenar a água que viria desse traidor. Então, entre cisterna, caixa de reúso e água que o traidor me fornece eu tenho uma reserva de 6500l.

Nós agüentaríamos uma seca breve, mas não o cenário sombrio que se aproxima.

E por ter feito essas opções todas que me impediram de agir sobre a água antes, eu acordei e fiquei tentando resolver os 40 anos de negligência de minha parte. O que eu poderia ter feito? O que precisa ser feito agora? Porque chegamos a isso?

Eu tinha uns 10 anos e fui visitar meu avô Manoel Guilherme. Do lado de fora da casa, uma construção em forma de caixa, toda em alvenaria. Do telhado, descia um cano que entrava naquela construção e um outro que saia dela.

“O que é isso, pai?”

“Uma cisterna.”

“Pra quê serve?”

“Seu avô mandou construir isso para guardar a água da chuva.”

Meu avô então acrescentou: “Quando eu era menino, costumava faltar água sempre. Então, quando eu cresci, pensei que podia guardar a água da chuva para as épocas de seca. Aqui em Sapé, quando falta água na cidade, só quem tem água sou eu e o hospital.” E ria.

Eu, que via meu pai reclamando o tempo todo sobre a conta d’água achei aquela idéia genial. E pensei que se um dia eu construísse a minha casa, eu também teria uma cisterna.

O que aconteceu ali? Uma experiência compartilhada que me gerou repertório de ações. Quando eu tive a oportunidade, agi e construi minha cisterna. Mesmo assim, tive que contratar pedreiros, que também me traíram, cada um à sua maneira. E foi durante essa enorme obra, esse trabalho colossal, que eu comecei a pensar sobre esse assunto: pra essas coisas que nos são essenciais, não podemos delegar tudo a alguém. Temos que ter mecanismos de supervisionar, de agir, de aprender a partir da experiência, de intercambiar.

Em tudo o que eu estive fazendo dessa maneira na obra da minha casa, eu aprendi. Aquilo que eu optei por não fazer, porque achei pesado demais, sujo demais, braçal demais, isso foi o que me gerou complicação. Eu detinha o poder econômico mas não detinha o poder de ação. É preciso ter os dois. Os dois e também o poder de fazer o acordo e de julgar se esse acordo estava ou não sendo cumprido. E não reinvidico esse poder apenas para mim, senão para todos os envolvidos, cada um com suas famílias e contas a pagar.

E agora, de volta a essa questão da água e da democracia como já pode ser. Existem essas ferramentas de participação na gestão pública, em temas pontuais, como o Bicidade, o Colab e o DemocracyOS. Mas ainda me parecem um pouco com a experiência que tive de colocar as contas numa planilha de custos para poder não extrapolar meu orçamento e não ser lesado pela equipe que trabalhava pra mim. Funcionava para ter as informações às claras, na ação de reinvidicar, mas ainda não serviam como ferramentas que facilitassem minha participação no processo.

Na minha vida prática, existem essas situações em que a reinvidicação encontra uma barreira intransponível. Você tenta negociar com o prestador e o sujeito trava. Se você não tem opções, fica sequestrado e acaba decidindo com base no que o prestador oferece. É preciso ter meios ágeis de cortar o financiamento e de encontrar opções. Se algo não anda, você corta o recurso e investe sua energia em encontrar alternativas. Não pode ser obrigado a escolher entre o menos pior. Isso a gente faz por falta de informação sobre as opções disponíveis.

Por isso essas plataformas de financiamento como Kickstarter, Vaquinha, Indiegogo, Catarse entre outras são tão geniais. E já poderiam ser usadas para financiar diretamente obras do interesse da comunidade. Isso poderia ser um substitutivo ao imposto de renda, além de servir como um incentivo ao pequeno empreendedor local. Ao invés de favorecer grandes construtoras e obras gigantescas, boa parte do dinheiro da comunidade serviria para atender pequenos empreiteiros que seriam diretamente inspecionados pela comunidade.

Coisas como a água, eletricidade, comida… tudo isso está armado dessa maneira, com grandes fornecedores centralizando a produção e a distribuição desses recursos, por que esses sujeitos ganham muito dinheiro com isso. Mas não é eficiente de maneira alguma. O mundo opensource é a maior prova disso. A agilidade nas implementações, no desenvolvimento e na correção de problemas é impressionante. A única regra é que não pode haver segredos. Todo o código é compartilhado e qualquer pessoa que queira participar é bem vinda.

Abra o código do tratamento de água domiciliar, da geração de energia elétrica a partir do sol, das hortas caseiras e das hortas comunitárias e então, cortamos um monte de recursos financeiros que estão indo para as mãos dos 5% que centralizam a produção e distribuição de recursos. Compartilhe e receba mil vezes mais.

Saúde, educação, energia, água… muita coisa já poderia ser resolvida na esfera de participação popular. Temos hoje mecanismos mais eficientes do que as aborrecidas reuniões de comitês para deliberar sobre isso ou aquilo. E quando isso acontecer, veremos quem são aqueles que ganham com as grandes obras e a quem elas realmente favorecem.

Óbvio que isso vai mexer com o sistema de trabalho, que é todo estruturado em representatividade. Porque elejo especialistas que me oferecem determinado serviço, sem que eu possa me engajar no aprendizado desse serviço, porque o macete é segredo, aprendido por um sistema de ensino que centraliza essas informações. Mas se a experiência for a participação, qualquer cidadão pode aprender a fazer qualquer coisa, se engajando nos projetos de acordo com seus interesses e sendo recompensado proporcionalmente aos seus méritos e à importância de sua ação para a comunidade.

Vai desacomodar muita coisa. Inclusive esse nosso hábito de consumir a realidade, como se ela fosse algo pronto e não tivésemos que fazer mais nada à respeito.

Decrépita democracia

Eu hoje me dei conta de que faço parte de alguma minoria.

Eu não estou envolvido em militância partidária faz algum tempo. Não acredito nisso. Tenho procurado outras maneiras de viver a democracia e isso implicou em mudar meu estilo de vida, abrindo espaço na minha agenda para me envolver em participação social em alguns itens que realmente são essenciais para mim e minha família.

Então eu hoje faço parte do Conselho de Pais da escola dos meus filhos, trabalho atendendo as pessoas que precisam de amparo emocional para decidirem seus rumos de vida em situações de crise, acompanho alguns produtores orgânicos e ainda fico pensando o que mais eu poderia fazer com meus vizinhos e amigos para resolver as necessidades que temos em comum.

Mas existe o macro. Existem essas empresas que nos prestam serviços horríveis a preços exorbitantes com a anuência do governo e de seus órgãos reguladores. Existem essas corporações cuidando de bens essenciais, como a água e os nossos alimentos, fazendo o que bem entendem com eles, também com a anuência do governo.

E eu sei que a muito tempo, aquilo que chamamos de “governo” na verdade é uma fachada para negócios escusos entre proprietários, e nós estamos de fora. Nós trabalhamos para essa gente e pagamos impostos para eles. Nós consumimos as coisas que eles nos vendem. Pagamos produzindo, pagamos comprando, pagamos vendendo, pagamos jogando no lixo. E com o que pagamos? Com nossa energia vital, principalmente. É ela, e não o dinheiro, o que está em cheque aqui.

Então nos pintam esse cenário de escolhermos entre vermelhos e azuis. E nessa eleição, ainda tivemos a opção do magenta, além dos habituais tons de azul e vermelho, chegando ao preto absoluto em ambos os lados. Mas não há nada real ali. Os candidatos todos têm alguns minutos por dia para nos convencer a escolhê-los. E como fazem isso? Criando drama.

Os marqueteiros constroem esses personagens durante meses e os vão adequando ao sabor das pesquisas. É uma enorme novela, o que vemos como campanha eleitoral. Vemos os debates e pensamos que significam algo. Mas não significam nada. Às vésperas das eleições eu tinha amigos me pedindo opinião sobre os deputados estaduais e federais. Gente que sabe que esses sujeitos vão lidar com as nossas leis e com os nossos direitos. Eles não sabiam onde encontrar a informação de que necessitavam. Não sabiam onde encontrar programas de governo e projetos de lei. Não tinham energia vital disponível para estudarem esse assunto e realmente decidirem em quem iriam votar.

Então temos esse resultado realmente assombroso nestas eleições:

39,9% dos eleitores optaram por não lidar com esse assunto. Ou votaram nulo (10,17%) ou em branco (10,18%) ou se abstiveram (19,55%). Isso referente às apurações para deputado estadual, aqui em São Paulo.

E então, se olharmos para os mais votados, temos Telhada, Xerife do Consumidor, Feliciano e toda uma gente que representa soluções simplistas, radicais e pouco prováveis, atacando algum “culpado social”, exatamente como foi feito na Alemanha de Hitler. São candidatos-produto, criados para satisfazer alguma demanda emocional da população.

É um indicador de pânico social. De impotência. Parece burrice, mas é impotência e falta de vivência do que é decidir em grupo…

Vamos ter muito trabalho pela frente… Existe algo sem nome que precisa ser articulado, no lugar dessa farsa que virou nossa democracia…

Eu me recuso a olhar para o resultado dessa eleição e achar que isso tem algo a ver com o país. Não é. Não foi o outro quem votou errado. Quase 40% das pessoas não achou que essa eleição iria mudar alguma coisa. Boa parte dos sujeitos eleitos foi criado dramaticamente para atender uma demanda emocional da população. É um indicador de esse modelo não funciona. É preciso ir além das urnas e começar a construir outra coisa. Não basta reclamar do vizinho. Não basta dizer que não temos opções. É preciso investir energia no que queremos construir. Se não são mais os políticos ou partidos, que seja outra democracia.

Mas é preciso agir.

 

 

Quadrilha

Eu sinto que é impossível ter qualquer opinião útil sobre o que está acontecendo. Me parece que estamos todos com os ânimos exaltados demais e nos deixamos influenciar por qualquer coisa que tenha o leve aroma de informação. Mas os fluxos de informação estão todos congestionados por um estado de “suspensão pelo terror”, que nada do que vejo e ouço me parece real. Não me refiro à informação que viria da mídia tradicional, porque faz algum tempo que não procuro esse tipo de canal para me informar. Tampouco o canal que utilizo habitualmente, que são alguns blogs e as timelines de alguns amigos queridos, porque os amigos são sempre a melhor fonte de informação, mesmo quando você não concorda com nada do que eles estão falando.

Não.

As ruas mesmo. Meu trajeto para o trabalho ou as visitas ao supermercado. A conversa entre as pessoas num ônibus e suas opiniões sobre o que “está acontecendo”. O que “está acontecendo” é o mesmo de sempre. O cara continua “fazendo” as mesmas coisas, tentando seguir seu programa diário e então, surgem essas histórias sobre a escassez futura. E o sujeito começa a imaginar o que ele terá que fazer para seguir seu programa, mesmo com essas novas condições, que ainda não se manifestaram. Ele vai preparando essa reação. Vai cozinhando essa resposta ao mundo dentro dele, com uma imaginação que vai crescendo a cada nova informação fragmentada que ele recebe.

As pessoas imaginam que sabem o que é a mentira. E isso não é o problema. A mentira é sempre a opinião com a qual eu não concordo. Isso é fato. O problema é que as pessoas sabem que não têm a menor idéia do que é a verdade, porque não recebem a informação completa e não conseguiriam lidar com ela, de qualquer modo. Então, entre a cruz e a espada, optam pela imaginação e pela manipulação. Estão sozinhas em sua opinião e buscam amparo no outro, tentando convencê-lo de uma história que contam para si mesmas, sobre um futuro terrível onde serão obrigadas a abandonar o programa que cumprem a contragosto em direção a algo absolutamente incerto e ameaçador.

Então as histórias sempre carregam esses mesmos elementos: aqueles que instauram o caos e a necessidade de que as forças da ordem se instaurem. Mas quem são as forças da ordem nesse momento? Aqueles que clamam justiça, se entendendo como vítimas de algo a que se sujeitam? Ou aqueles cujo programa consiste em eliminar as opiniões com as quais eu não concordo? Cada fragmento isolado em si mesmo, com as mesmas demandas e a mesma sensação de que a mentira é o outro.

E em mim sempre a sensação de que nos bastidores existem forças que operam quando os homens se vêem acuados por sua imaginação. Forças que lucram com esses movimentos precipitados.

E mesmo esses homens das coxias, mesmo eles, agora não detém um pensamento único. Estão em guerra entre eles, lutando para ver quem se alimentará do nosso terror. Então se expõem mutuamente, elaboram histórias sobre escassez para expor o adversário ao ridículo, enquanto exaltam seus acertos também fictícios. Recolhem informações que sejam suficientes para gerar na população o estado de terror desejado. Ficamos sem referência alguma, acreditando que o estado de terror se deve à uma polaridade não resolvida entre ordem e caos e já não sabemos quem pertence a que lado.

Enquanto isso, os homens das coxias investem pesado em ambos os lados da equação.

O que percebo é que isso nos coloca numa situação extremamente reacionária. Esse estado de terror faz com que entremos em modo de sobrevivência e nesse ponto, sacrificamos nossa parca racionalidade e capacidade de uma ação que vá além de cumprir um programa inútil e isolado. Nesse lugar, estamos prontos para as soluções milagrosas, as revoluções e os golpes.

Para mim, a pergunta continua sendo sempre a mesma: quem está ganhando com o homem que cumpre um programa, mesmo que o mundo caia ao seu redor? Quem é que diz “olha a cobra!”, para depois dizer “é mentira!”, levando a quadrilha de um lado a outro do arraiá?

Autonomia é Rebelião

Na escola eu aprendi que os modos de viver de outros povos eram atrasados e que a história era uma sucessão de progressos que levava fatalmente à Revolução Industrial, depois à Revolução Verde e finalmente à Hiroshima e depois ao Vietnã de Stallone. Na minha adolescência, a ficção e a história se misturaram definitivamente e durante algum tempo, eu cheguei a crer na guerra e na matança como ferramentas de limpeza daquilo que era indesejado. A guerra sendo o Pinho Sol da história.

Então o desconforto de achar algo errado nessa lógica. Esse desconforto e mais a imensa quantidade de hormônios circulando por todos os lados e uma enorme confusão mental.

E eu fui seguindo o roteiro pronto. Seguindo o roteiro pronto daquele que se rebela e resolve fazer as coisas “do seu jeito”. Então, enquanto meus amigos iam por ali, eu ia por lá. Enquanto se meteram a ganhar dinheiro, eu me opus a isso. E achei que essa oposição era fazer o que se gosta e que fazer o que se gosta era não ganhar dinheiro. Neguei o dinheiro. Neguei o meu próprio valor ao negar o dinheiro e o caminho de meus amigos. Na verdade, eu traçava o caminho dos meus amigos ao negá-lo. Era preciso que eu estivesse ali, negando esse caminho, para que aquele caminho se definisse como verdadeiro.

Fui dando o meu jeito de permanecer abastado, mesmo à margem. Mas permanecia dependente daquele caminho, como se aquele caminho também margeasse o meu. Como se, na ausência dessa oposição entre os caminhos, não houvesse nenhum contorno definido entre uma opção e outra. Como se nessa ausência, eu me desse conta de que não tínhamos ali nenhuma opção. Ficar entre alternativas já estabelecidas não significa fazer as coisas do seu jeito.

Qual a escolha real?

Fazer as coisas do meu jeito. O que significa isso? O quanto estou disposto a isso? Isso realmente significa autonomia? Eu precisaria me apartar de todos os outros para fazer as coisas do meu jeito?

Então vamos a isso.

Enquanto eu permanecer à margem, o caminho que impera vai continuar definido. Então não ficarei à margem. Enquanto eu negar esse caminho, ele se afirmará. Então não o negarei. Enquanto me oponho a ele, mas dependente dele eu fico. Não me oporei a ele. Mas também não posso colocar nele nenhum recurso meu. Nada. Nem meu afeto, nem minha mente, nem meus atos.

É preciso cortar a dependência desse outro caminho para que o meu se defina. Então é preciso definir o meu caminho para além da oposição. É preciso ganhar minha própria ação e arcar com a responsabilidade total sobre isso. Coração, mente e braços totalmente engajados nisso que chamo de autonomia. Que é um caminho meu apenas e não tem nada com o outro. Não tenho nada com ele e ao mesmo tempo, busco relação com ele sem me envolver nas suas coisas. Busco o benefício da relação, ofereço o meu melhor e deixo o outro em paz com sua escolha e seu caminho.

E sigo adiante, quando bem entender.

 

 

A tradução do ir-se

No passado, eu teria apenas ido para uma outra geografia e estaria distante de você e de seus assuntos. Mas agora, com tantos aparatos, você me demanda mesmo à distância. Um número de celular e já estou novamente nas suas coordenadas, recebendo seus pensamentos e suas preocupações e sua idéia de que eles me pertencem de algum modo. Demandando as minhas ações para os seus problemas. Trocando isso por algum afeto existente entre nós. Usando o afeto como a moeda, agora de forma clara.

Então um recado e suas garras se estendendo ao meu redor, pretendendo me mover novamente para a sua órbita. Não.

Não farei. Não me moverei. Não resolverei seus problemas.

Não tenho nada com eles e só me importo com o fato de que você ainda não compreendeu a noção de distância.

Me deixe em paz.

Pré-requisitos

Você  deveria saber construir um abrigo e como armazenar e purificar a água. Deveria saber como obter energia elétrica. Deveria saber o que fazer com seu lixo e com o esgoto. Deveria saber como produzir seu próprio alimento, deveria reconhecer quais as plantas à sua volta que são comestíveis, quais são tóxicas e quais são medicinais. Deveria saber produzir fogo. Você deveria saber cozinhar e deveria também saber como é que se faz uma panela. Deveria entender como fazer a natureza produzir usando o ritmo da própria natureza. Deveria saber como gerar fartura rápido e sem custos para o ambiente. Deveria se lembrar como é confiar num outro ser humano e como é tratar o outro como você quer ser tratado. Deveria aprender a cuidar de um idoso e de uma criança. Deveria saber cuidar de qualquer outro ser humano e deveria saber pedir ajuda sem se sentir chantageado e sem impor ao outro nenhuma chantagem. Deveria saber enterrar seus mortos, e aceitar a partida de entes queridos. Deveria aprender a se defender, sem eliminar o outro, sem destruir o outro. Deveria aprender o que é amar, sem manter o outro cativo. Deveria aprender que o seu real valor não é o seu preço e nem o que você tem. Você deveria aprender a fazer as coisas que mais gosta porque são as coisas que você faria bem e que iriam durar muito tempo. Você deveria aprender a viver sem manter o outro cativo.

Ainda há tempo de aprender.

Ainda há tempo.

Crise da justiça

Eu fui assaltado uma vez, ali na região da Santa Efigênia. Estava com R$ 800 no bolso direito e um celular Sony, com MP3, que era uma novidade na época. A dupla de assaltantes ficou com o celular e me deixou com o dinheiro e uma bermuda toda rasgada (porque eu resisti, colocando as duas mãos nos bolsos da bermuda enquanto eles tentavam rasgar os meus bolsos para pegar o celular).

Quando acontecia uma ocorrência dessas, quando eu era criança, juntávamos a nossa turma da rua e íamos até a casa do “assaltante” para descer-lhe a porrada e tomar de volta aquilo que ele tinha roubado de nós. Eu era criança e mais selvagem, e a mãe do nosso amigo “assaltante” era autoridade o suficiente para que nós não chegássemos às vias de fato, mas tivéssemos nossos pertences restituídos e a justiça efetivada.

Então eu fui até a delegacia, achando que ia encontrar meus amigos lá. A recepção tinha um cara de mau humor, armado, atendendo mal a uma pessoa que estava na minha frente tentando prestar queixas. Ele olhou pra mim e disse: “que foi?”. Eu tentei contar a história do assalto, mas ele me cortou no meio e disse: “senta aí e espera” e em seguida se virou para um outro policial que apareceu e começou a desfiar o rosário. “São aqueles nóias ali da Rio Branco. Que merda essa delegacia, só tem ocorrência, esses nóias do caralho, os caras podiam ter me mandado para…”

Eu saí, revoltado. Fiquei indignado com o fato de alguém ter sido contratado para fazer um trabalho e reclamar do trabalho, fazer mal o seu trabalho, reclamar quando alguém lhe pede que faça o seu trabalho. E mais indignado ainda de ser eu o patrão e não poder demitir um merda desses. Fiquei indignado de ser praticamente coagido a respeitar um funcionário público que não teve o menor respeito pelos cidadãos ali presentes.

Dois desses meus amigos de infância já foram policiais. Um deles, tenente. O outro soldado. O tenente tinha um tratamento muito diferenciado do soldado, e para ambos, a questão de fazer o trabalho nas ruas era uma espécie de sujeira grossa. Quase um castigo.

Um outro amigo meu é policial federal, trabalha com busca e apreensão. Basicamente ele entra numa favela com um funcionário da Caixa para cobrar empréstimos do Construcard que não foram honrados. E se o cara não paga, ele apreende algum bem em penhora, carro, geladeira, qualquer merda dessas. Lindo de se fazer, não?

Eu fui entendendo o mau humor do delegado aos poucos. Com o passar dos anos, fui colecionando depoimentos que eu nem sei se são sempre reais. Mas fui criando esse perfil do policial para mim mesmo. Um cidadão, lutando pelo seu ganha pão, presta um concurso público em busca de estabilidade financeira, recebe um treinamento e é lançado nas ruas com seu uniforme, uma arma péssima com balas limitadas, um colete que ele mesmo tem que comprar para ser de boa qualidade e depois ganha um salário de merda, então ele tem que fazer justiça, que é prender um outro fudido que nem ele que desistiu da estabilidade e resolveu que vai ganhar dinheiro ou morrer tentando.

Eu sei que os policiais prestam serviço de segurança privada nos seus dias de folga para complementar o salário. Sei também que é prática comum que eles prestem esse serviço com suas fardas, porque isso impõe respeito, que é afastar o ladrão. Então eles cumprem essas escalas de trabalho monstruosas e para completar o seu salário, precisam trabalhar nos dias de folga prestando “consultoria” para alguns comerciantes, bancos, postos de gasolina, etc.

Outro amigo mora num condomínio fechado e teve um vizinho alucinado por causa da cocaína gritando a noite inteira. Ele tem duas filhas pequenas e chamou os policiais. A esposa queria se mudar da casa. O guarda disse: “não esquenta não mano, isso é só cocaína, já vai passar. A casa é sua, não sai não mano.” Meu amigo achou insensibilidade, mas pensou que isso deveria ser coisa normal para o policial. Para que o vizinho fosse despejado do seu contrato de aluguel bastava que o policial tivesse preenchido o boletim de ocorrência com a acusação de consumo de drogas, mas ele achou melhor preencher “chamado por motivo fútil” e o caso ficou encerrado.

Um veterinário comentou comigo que trabalhava numa clínica em que um policial prestava serviço. Houve um assalto num comércio ao lado e esse veterinário viu para onde os assaltantes correram. Todos os moradores sabiam que o policial estava na clínica e foram até lá exigindo providências. Ele fez uma voz de super herói enquanto perguntava ao veterinário: “para onde foram os assaltantes”, ao que o veterinário respondeu “por ali” e o policial então disse “então eu vou para o outro lado” e foi.

Quando voltou, o veterinário indignado, perguntou a ele porque ele tinha ido para o lado contrário. A princípio ele ficou em dúvida se o policial tinha entendido mal, mas o soldado então explicou que ele tinha que prestar conta das balas que usava, que se amassasse o carro numa diligência precisava pagar do próprio bolso, que o colete que ele usava foi ele mesmo quem comprou, porque o colete fornecido é uma porcaria, etc…

E se somam os depoimentos…

Então quando eu vejo os policiais nas ruas, reprimindo violentamente os protestos, eu sinceramente não entendo…

Porque é que eles não estão do nosso lado?

Porque ainda falamos nós e eles?

Eu vejo semelhança no fato de os professores da rede pública serem maltratados pelos alunos e vice versa. Eu entendo que os professores são a tropa de choque do governo, ganhando mal, com a auto-estima péssima, em situação de castigo quando vão para as escolas públicas da periferia e encontram a molecada revoltada com as péssimas condições de vida e a educação de quinta categoria.

Cada um deles, professores, alunos e pais, querendo a tal estabilidade financeira, que consiste em comer merda e bater naquele cidadão que está ao seu lado e resolve roubar a merda do vizinho.

Porque é que não paramos com isso?

 

Take it back

Mãe, eu fiquei dependente de você. Me senti um incapaz e então eu fui deixando que você fizesse todas as coisas por mim, por puro conforto. Então eu me tornei essa coisa excessivamente pesada, preguiçosa e insegura. Hoje eu percebo que você é quem fez com que eu me sentisse um incapaz para que eu me sentisse dependente de você. Mãe, teu nome é corporação.

Pai, eu fiquei dependente de você. Por preguiça e eu deixei de buscar meu próprio sustento e então eu me tornei esse covarde, escondido embaixo das saias de minha mãe. Me senti um incapaz de lidar com o mundo e com os meus irmãos e necessitava de sua constante mediação nas nossas relações. Hoje eu percebo que foi a sua omissão quem me deixou neste estado. Pai, teu nome é governo.

Irmãos, eu fiquei dependente de vocês. Não suportava a vossa presença e fiz da minha vida o esforço de ficar só. Queria tudo para mim, queria que vocês fossem meus escravos, que me atendessem as vontades. Queria anulá-los para que eu brilhasse mais. Eu me sentia um incapaz, um covarde. Hoje eu percebo que vocês também se sentiam da mesma maneira e por isso todos nós estávamos presos nessa condição. Irmão, teu nome é religião.

Hoje eu decreto a minha liberdade.

Ainda pesado demais, preguiçoso, inseguro, covarde, egoísta, selvagem e incapaz eu me liberto da necessidade da presença dessa família na minha vida. Vou construir minha própria família. Serei minha mãe, meu pai e meus irmãos. E os serei à minha própria maneira. Serei a teta, o dinheiro e a companhia de mim mesmo.

Serei minha esposa e meus filhos.

Serei meu próprio chefe, meu próprio governo, meu próprio deus.