Quadrilha

Eu sinto que é impossível ter qualquer opinião útil sobre o que está acontecendo. Me parece que estamos todos com os ânimos exaltados demais e nos deixamos influenciar por qualquer coisa que tenha o leve aroma de informação. Mas os fluxos de informação estão todos congestionados por um estado de “suspensão pelo terror”, que nada do que vejo e ouço me parece real. Não me refiro à informação que viria da mídia tradicional, porque faz algum tempo que não procuro esse tipo de canal para me informar. Tampouco o canal que utilizo habitualmente, que são alguns blogs e as timelines de alguns amigos queridos, porque os amigos são sempre a melhor fonte de informação, mesmo quando você não concorda com nada do que eles estão falando.

Não.

As ruas mesmo. Meu trajeto para o trabalho ou as visitas ao supermercado. A conversa entre as pessoas num ônibus e suas opiniões sobre o que “está acontecendo”. O que “está acontecendo” é o mesmo de sempre. O cara continua “fazendo” as mesmas coisas, tentando seguir seu programa diário e então, surgem essas histórias sobre a escassez futura. E o sujeito começa a imaginar o que ele terá que fazer para seguir seu programa, mesmo com essas novas condições, que ainda não se manifestaram. Ele vai preparando essa reação. Vai cozinhando essa resposta ao mundo dentro dele, com uma imaginação que vai crescendo a cada nova informação fragmentada que ele recebe.

As pessoas imaginam que sabem o que é a mentira. E isso não é o problema. A mentira é sempre a opinião com a qual eu não concordo. Isso é fato. O problema é que as pessoas sabem que não têm a menor idéia do que é a verdade, porque não recebem a informação completa e não conseguiriam lidar com ela, de qualquer modo. Então, entre a cruz e a espada, optam pela imaginação e pela manipulação. Estão sozinhas em sua opinião e buscam amparo no outro, tentando convencê-lo de uma história que contam para si mesmas, sobre um futuro terrível onde serão obrigadas a abandonar o programa que cumprem a contragosto em direção a algo absolutamente incerto e ameaçador.

Então as histórias sempre carregam esses mesmos elementos: aqueles que instauram o caos e a necessidade de que as forças da ordem se instaurem. Mas quem são as forças da ordem nesse momento? Aqueles que clamam justiça, se entendendo como vítimas de algo a que se sujeitam? Ou aqueles cujo programa consiste em eliminar as opiniões com as quais eu não concordo? Cada fragmento isolado em si mesmo, com as mesmas demandas e a mesma sensação de que a mentira é o outro.

E em mim sempre a sensação de que nos bastidores existem forças que operam quando os homens se vêem acuados por sua imaginação. Forças que lucram com esses movimentos precipitados.

E mesmo esses homens das coxias, mesmo eles, agora não detém um pensamento único. Estão em guerra entre eles, lutando para ver quem se alimentará do nosso terror. Então se expõem mutuamente, elaboram histórias sobre escassez para expor o adversário ao ridículo, enquanto exaltam seus acertos também fictícios. Recolhem informações que sejam suficientes para gerar na população o estado de terror desejado. Ficamos sem referência alguma, acreditando que o estado de terror se deve à uma polaridade não resolvida entre ordem e caos e já não sabemos quem pertence a que lado.

Enquanto isso, os homens das coxias investem pesado em ambos os lados da equação.

O que percebo é que isso nos coloca numa situação extremamente reacionária. Esse estado de terror faz com que entremos em modo de sobrevivência e nesse ponto, sacrificamos nossa parca racionalidade e capacidade de uma ação que vá além de cumprir um programa inútil e isolado. Nesse lugar, estamos prontos para as soluções milagrosas, as revoluções e os golpes.

Para mim, a pergunta continua sendo sempre a mesma: quem está ganhando com o homem que cumpre um programa, mesmo que o mundo caia ao seu redor? Quem é que diz “olha a cobra!”, para depois dizer “é mentira!”, levando a quadrilha de um lado a outro do arraiá?

O sintoma

Eu venho trabalhando essa idéia de que um líder é o sintoma da fragilidade de um grupo. O que não quer dizer que eu tenha abdicado da importância temporária de uma liderança.

Em dada circunstância, nos trabalhos em conjunto, quer por estreiteza das diversas perspectivas, quer seja por uma escassez objetiva de determinado recurso, o grupo se vê empacado na tomada de decisões, com diversas opiniões sobre um determinado assunto e dificuldade em levar a termo qualquer ação.

Nesses momentos de processo, por ansiedade ou determinação, surgem alguns indivíduos que se destacam através de uma iniciativa que abre passagem para o crescimento de todo o grupo. Esse é o líder, alguém que localiza um recurso onde os demais só percebem escassez.

A grande questão é que esse movimento acaba gerando prestígio para o indivíduo, através do reconhecimento por parte dos demais. Em muitas circunstâncias a iniciativa individual acontece porque o sujeito resolve agir, apesar das deliberações do conjunto, mas em casos ainda mais numerosos, o sujeito já se move dependendo do mérito que obterá dos demais. Já se move em busca de uma autoridade sobre os outros, o que significa que os outros lhe cederão a autonomia de suas ações por algum tempo(Assim deveria ser!)

Esse movimento em busca do reconhecimento já é o sinal de que algo vai mal na equipe. Por algum motivo, este sujeito se lança em busca de algo que o destaque dos demais e provavelmente, já se acentua o processo em que ele se sente desvalorizado por qualquer motivo. O que para mim é um indicador de que os processos de comunicação do grupo não estão funcionando à contento.

Por isso a manutenção do poder de um indivíduo sempre se dá às custas de uma comunicação direta e clara entre os indivíduos do grupo. O sujeito terá que se transformar na figura central em termos de comunicação, centralizando todas as respostas sobre aquele determinado assunto. Com o tempo, sua memória individual sobre os passos requeridos para se resolver aquela escassez temporária passará a se sobrepor sobre a capacidade dos outros indivíduos do grupo de desenvolverem outras iniciativas igualmente eficientes, segundo as suas particulares maneiras, o que abriria espaço para o grupo desenvolver-se ainda mais. Nesse caso, a cegueira de um passa a ser a cegueira de todos.

Ainda mais grave se torna esse processo quando este indivíduo passa a centralizar respostas para todo tipo de problemas. Neste caso, os demais membros do grupo abrem mão de sua autonomia em favor de “crenças” individuais sobre diversos assuntos. Então as ações se vêem tolhidas pela estreiteza de perspectiva de um indivíduo. E o mesmo sujeito se vê desprendendo enormes quantidades de energia para manter restrito o circuito de comunicação, usando todo tipo de estratégia para desqualificar as opiniões e impressões dos demais membros. Passa a buscar uma monocultura de mentes: a sua. O que é  sinal de doença e escassez.

Com o andamento desse processo, abre-se um hiato entre aquilo que os indivíduos declaram que irão realizar em benefício dos demais e aquilo que realmente fazem. Isso transparece pelo alargamento dos prazos na realização das tarefas. Possivelmente é um sinal de que aquele grupo não atende completamente a demanda daquele indivíduo e que ele precisa dividir seu tempo e suas prioridades com outras associações grupais. Isso passa a ser um indicador de problema no grupo em questão quando os indivíduos justificam sua inação neste grupo por estarem engajados em atribuições de outros grupos, realizando uma comparação que não possui nenhuma lógica coerente para o grupo, somente para o indivíduo em questão.

Fatalmente isso vai levar à dissidências, porque é o único recurso que o grupo dispõe, nesse tipo de processo, para novamente abrir espaço para lideranças emergentes e a diversidade.

Quando há suficiente autocrítica no grupo, a emergência das dissidências consiste num impulso para que os posicionamentos sejam revistos e em alguns casos ou ocorre uma alternância de líderes ou o próprio líder abre mão do papel que lhe consolidou no poder.

Liderança, acompanhada de comunicação direta, aberta e disposição para partilhar com os demais o conhecimento obtido por uma ação só pode implicar em autonomia. Para isso, o grupo precisa ter como acordo a autonomia completa dos indivíduos. Sob nenhum pretexto pode haver um ser humano acima dos demais. Mas a agenda do grupo não pode conter nada além do ser humano.

Manipulação é violência.

Poder é discriminação.

Um líder pode deixar de ser alguém que manda e se tornar alguém que orienta um processo consensual sem deixar de contemplar as iniciativas individuais, as lideranças emergentes, os novos focos de ação.

Diversidade é força.

 

Autonomia é Rebelião

Na escola eu aprendi que os modos de viver de outros povos eram atrasados e que a história era uma sucessão de progressos que levava fatalmente à Revolução Industrial, depois à Revolução Verde e finalmente à Hiroshima e depois ao Vietnã de Stallone. Na minha adolescência, a ficção e a história se misturaram definitivamente e durante algum tempo, eu cheguei a crer na guerra e na matança como ferramentas de limpeza daquilo que era indesejado. A guerra sendo o Pinho Sol da história.

Então o desconforto de achar algo errado nessa lógica. Esse desconforto e mais a imensa quantidade de hormônios circulando por todos os lados e uma enorme confusão mental.

E eu fui seguindo o roteiro pronto. Seguindo o roteiro pronto daquele que se rebela e resolve fazer as coisas “do seu jeito”. Então, enquanto meus amigos iam por ali, eu ia por lá. Enquanto se meteram a ganhar dinheiro, eu me opus a isso. E achei que essa oposição era fazer o que se gosta e que fazer o que se gosta era não ganhar dinheiro. Neguei o dinheiro. Neguei o meu próprio valor ao negar o dinheiro e o caminho de meus amigos. Na verdade, eu traçava o caminho dos meus amigos ao negá-lo. Era preciso que eu estivesse ali, negando esse caminho, para que aquele caminho se definisse como verdadeiro.

Fui dando o meu jeito de permanecer abastado, mesmo à margem. Mas permanecia dependente daquele caminho, como se aquele caminho também margeasse o meu. Como se, na ausência dessa oposição entre os caminhos, não houvesse nenhum contorno definido entre uma opção e outra. Como se nessa ausência, eu me desse conta de que não tínhamos ali nenhuma opção. Ficar entre alternativas já estabelecidas não significa fazer as coisas do seu jeito.

Qual a escolha real?

Fazer as coisas do meu jeito. O que significa isso? O quanto estou disposto a isso? Isso realmente significa autonomia? Eu precisaria me apartar de todos os outros para fazer as coisas do meu jeito?

Então vamos a isso.

Enquanto eu permanecer à margem, o caminho que impera vai continuar definido. Então não ficarei à margem. Enquanto eu negar esse caminho, ele se afirmará. Então não o negarei. Enquanto me oponho a ele, mas dependente dele eu fico. Não me oporei a ele. Mas também não posso colocar nele nenhum recurso meu. Nada. Nem meu afeto, nem minha mente, nem meus atos.

É preciso cortar a dependência desse outro caminho para que o meu se defina. Então é preciso definir o meu caminho para além da oposição. É preciso ganhar minha própria ação e arcar com a responsabilidade total sobre isso. Coração, mente e braços totalmente engajados nisso que chamo de autonomia. Que é um caminho meu apenas e não tem nada com o outro. Não tenho nada com ele e ao mesmo tempo, busco relação com ele sem me envolver nas suas coisas. Busco o benefício da relação, ofereço o meu melhor e deixo o outro em paz com sua escolha e seu caminho.

E sigo adiante, quando bem entender.

 

 

A tradução do ir-se

No passado, eu teria apenas ido para uma outra geografia e estaria distante de você e de seus assuntos. Mas agora, com tantos aparatos, você me demanda mesmo à distância. Um número de celular e já estou novamente nas suas coordenadas, recebendo seus pensamentos e suas preocupações e sua idéia de que eles me pertencem de algum modo. Demandando as minhas ações para os seus problemas. Trocando isso por algum afeto existente entre nós. Usando o afeto como a moeda, agora de forma clara.

Então um recado e suas garras se estendendo ao meu redor, pretendendo me mover novamente para a sua órbita. Não.

Não farei. Não me moverei. Não resolverei seus problemas.

Não tenho nada com eles e só me importo com o fato de que você ainda não compreendeu a noção de distância.

Me deixe em paz.

Chiaroscuro • A predominancia da visão

Sendo um blog, eu posso me dar ao luxo de publicar um artigo incompleto, uma reflexão ainda em processo. Não é uma tese, ou dissertação e ainda me faltam mais dados para expor claramente essas associações. Então elas ficam no lugar onde o artista predomina sobre o cientista, e logo ali adiante, num outro artigo ou numa conversa qualquer, a idéia brota inteira.

Celeritas, (velocidade ou a relação entre tempo e espaço) é a origem do nome da constante c=299 792 458 m/s, que corresponde à velocidade da luz no vácuo.  Um objeto a altas velocidades, próximo à velocidade da luz, não pode ser acelerado até, ou mais que, a velocidade da luz, não importando quanta energia é transferida ao sistema. Matéria estando sempre abaixo dessa velocidade, não importa quanta energia se transfira ao sistema. Quanto recurso se use para isso.

A quantia máxima de energia que se pode obter de um objeto é dada pela massa do objeto multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. E então, estamos limitados a isso, essa é uma espécie de cerca para os objetos materiais se manterem como objetos materiais, ali adiante, perdem coesão, perdem consistência e geram enormes quantidades de energia nestes processos. Uma energia que desintegra o objeto material como tal, que não lhe permite a continuidade. Então, em direção à luz, objeto material se converte em algo similar à luz, mas tal movimento não lhe acrescenta nada. Ao contrário, lhe desintegra completamente. Ele muda de qualidade.

E mais as equações complexas e mais as elocubrações sustentadas nessas equações. E mais o trabalho de mil homens e a prova cabal disso, de que a matéria convertida em energia se transforma em morte, quando bombardeamos Hiroshima. Então, essa violência nos colocou uma barreira. E dali em diante, a matéria e seus processos passou a ser cada vez mais degradada. E com isso o corpo. E todos os outros sentidos que o conectam com o mundo.

Me parece que a equação é a bomba. A grande bomba, antes mesmo de ser detonada. E a detonação como trauma da equação, nos limitando a esse axioma de que, rumo à luz, estamos fadados à morte. E=mc² sendo o Cristo crucificado, a morte do Deus elevado à luz. Então, nos contemos. Paramos aí. Não seguimos adiante. Não avançamos ante à realidade paradoxal que a morte e o além da luz nos propõe. E nossa vida material perde atributos e valores.

Não te parece o mesmo? O mesmo recurso traduzido em novo idioma, em nova época, em nova cultura, mas o mesmo limite? A mesma luz, usada como cerca, o mesmo círculo de giz?

Fadados a permanecer sempre aquém desse ponto onde o particular se converte em movimento para fora, em movimento em direção a algo, sendo esse algo o outro eterno, a realidade para além da cerca do indivíduo.

Que passa com essas metáforas de realidade? De onde surgem essas idéias? E porque, para mim, a imagem de Einstein não difere em nada das construções taoístas de Yin e Yang, da árvore sefirotal Cabalística, do Zodíaco de diversos povos, do Arqueômetro?

Sete cores do arco-íris, doze cores somando as primárias, secundárias e terciárias. Sete e doze, aparecendo milhares de vezes em distintos povos para dividir distintos atributos. Luz e trevas, claro e escuro. A luz, aquilo que possibilita o horizonte e as trevas, que nos colocam em contato com os outros sentidos do corpo. Com aquilo que ouvimos, tateamos, sentimos de dentro de nós mesmos. Com a nossa introspecção. Com aquilo que sentimos para além do que deveríamos estar vendo.

E as ilusões visuais. O rei, vestido de ouro. O rei sol. O máximo em luz. Aquele a quem nós empoderamos porque é um deus. A fronteira para além da qual está a morte certa e a desintegração. E então, o cidadão-corpo, o cidadão-partícula, o cidadão-matéria, ele se conforma com a sua condição. Ele sonha. Ele é lançado nesse mundo de sonhos, onde a luz é algo a ser evitado para que a mente permaneça mais tempo sonhando. Ele abre o olho e então, as ilusões lhe são lançadas. A cerca está lá. A luz, gerada por outros para que ele permaneça ali, sendo particular em seu medo da morte.

E no corpo, o cidadão sente a fome, a escassez, a violência, a presença indesejada de um outro que se converte numa matéria tão suja quanto ele. Seus impulsos em direção ao outro são contidos por decretos, por religiões, por ameaças de todo o tipo. E ele segue só, sentindo que essas coisas são suas. Lhe falta a luz, para perceber o outro à distância. O outro com sua peculiaridade, distinto, mas ainda, o mesmo humano que ele. No escuro, ele só sente a si mesmo. E quanto mais registros de sofrimento tiver do próprio corpo, mais terror ele terá da luz, porque a luz desde sempre significou a morte.

Para onde vamos, quando a luz deixa de fazer sentido?

Para onde vamos quando não estamos atrelados àquilo que vemos e sim aquilo que sentimos? O que diabos é isso que chamamos de energia, que é maior que nós, que está em nós, que processamos de diferentes maneiras inclusive, vendo a realidade de maneira ilusória. Atrás dessa cortina chamada percepção visual.

Atados ao ritmo circadiano, agimos na luz e sonhamos nas sombras. Isso tem alguma relação com o hipotálamo, que regula nossa homeostase (capacidade de adaptação térmica),  conecta-se ao sistema endócrino (todas as secreções hormonais que regulam a química interna do corpo), e o sistema nervoso autônomo (sistema neurovegetativo ou sistema nervoso visceral – o lugar de excelência do centro Vegetativo, de Gurdjieff e Silo). O controle do sistema da vida está intimamente relacionado com a percepção do dia e da noite. O hipotálamo era chamado pelos egípcios de “Olho de Hórus” (o deus dos céus – ou da percepção do dia e da noite, pois um olho do deus era a lua e o outro o sol).

Não é possível atuar sobre esse aspecto do sistema nervoso voluntariamente, quer dizer, um indivíduo controlar o próprio sistema  nervoso autônomo (mas existem relatos de grandes iogues que chegaram a isso). No entanto, você conseguiria uma atuação sobre o sistema nervoso de outros seres humanos se fosse capaz de alterar a percepção deles do ambiente circundante. Como?

Manipulando a imagem. Gerando dia e noite a partir de imagens. Atribuindo significado a determinadas imagens poderosas. Representações de forças titânicas do homem como se fossem figuras externas, na forma de deuses e mitos.

Então você engendraria em milhares o temor à morte pelo temor à lucidez. E os manteria presos a um sonho.

Essa técnica tem sido usada milhares de vezes em distintos momentos da história e funciona repetidas vezes. Do mito de Prometeus  à Lúcifer, de Mitra a Cristo até chegar em Einstein e sua equação. A mesma tradução da luz como limite. E depois da luz, a noite paradoxal e sem imagens.

Por isso algumas iniciações podem ser assustadoras para o status quo. A idéia de “iluminação” (novamente a luz), de acordar de um sonho, de união com o divino, de realizar o propósito, de liberação e finalmente, sair da cerca e do circadiano.

Lucidez vai implicar em ação. Ação verdadeira. Ação conectada com o propósito, com a Verdadeira Vontade.

Dharma.

E rebelião.

Despedida

Queridos,

Eu sempre soube que essa hora chegaria, o tempo em que a casa ficaria justa demais para os meus sonhos e seria preciso remover o teto para voar ainda além. Eu estive aqui, com vocês durante todo esse tempo e partilhei um sonho. Lutei por ele dia a dia, construí dentro de mim essa coisa que agora viva, pede para explorar outros espaços.

Eu não posso permanecer na companhia de vocês sem me sentir tolhendo essa coisa. Eu podia dar a mão a vocês e dizer, “não eu venho um pouco mais, eu fico aqui até que vocês se habituem à minha ausência crescente”. Mas não. É preciso ir e já. É preciso que eu vá, que me distancie desse espaço que compartilhamos durante todo esse tempo. Preciso encontrar o que sou fora daí. Preciso ver o que sobra, quando não estou apoiado nessa estrutura que vocês me oferecem.

De minha parte, dei tudo o que pude e sei que vocês também o fizeram. Se não demos mais do que isso, é porque sentíamos que não podíamos, que seria demais para nós mesmos. E tudo bem para mim.

Foi uma honra partilhar da presença de vocês.

Mas agora, eu parto.

E não nos veremos por um longo tempo.

Estarei ocupado semeando esse sonho.

Nunca deixarei de amar nenhum de vocês.

Vou embora sem mágoas, sem nenhum ressentimento.

Nesse peito, só gratidão.

Namastê

(Para meus queridos amigos e amigas do Viavidya, lugar onde atendi nos últimos três anos)

Crise da justiça

Eu fui assaltado uma vez, ali na região da Santa Efigênia. Estava com R$ 800 no bolso direito e um celular Sony, com MP3, que era uma novidade na época. A dupla de assaltantes ficou com o celular e me deixou com o dinheiro e uma bermuda toda rasgada (porque eu resisti, colocando as duas mãos nos bolsos da bermuda enquanto eles tentavam rasgar os meus bolsos para pegar o celular).

Quando acontecia uma ocorrência dessas, quando eu era criança, juntávamos a nossa turma da rua e íamos até a casa do “assaltante” para descer-lhe a porrada e tomar de volta aquilo que ele tinha roubado de nós. Eu era criança e mais selvagem, e a mãe do nosso amigo “assaltante” era autoridade o suficiente para que nós não chegássemos às vias de fato, mas tivéssemos nossos pertences restituídos e a justiça efetivada.

Então eu fui até a delegacia, achando que ia encontrar meus amigos lá. A recepção tinha um cara de mau humor, armado, atendendo mal a uma pessoa que estava na minha frente tentando prestar queixas. Ele olhou pra mim e disse: “que foi?”. Eu tentei contar a história do assalto, mas ele me cortou no meio e disse: “senta aí e espera” e em seguida se virou para um outro policial que apareceu e começou a desfiar o rosário. “São aqueles nóias ali da Rio Branco. Que merda essa delegacia, só tem ocorrência, esses nóias do caralho, os caras podiam ter me mandado para…”

Eu saí, revoltado. Fiquei indignado com o fato de alguém ter sido contratado para fazer um trabalho e reclamar do trabalho, fazer mal o seu trabalho, reclamar quando alguém lhe pede que faça o seu trabalho. E mais indignado ainda de ser eu o patrão e não poder demitir um merda desses. Fiquei indignado de ser praticamente coagido a respeitar um funcionário público que não teve o menor respeito pelos cidadãos ali presentes.

Dois desses meus amigos de infância já foram policiais. Um deles, tenente. O outro soldado. O tenente tinha um tratamento muito diferenciado do soldado, e para ambos, a questão de fazer o trabalho nas ruas era uma espécie de sujeira grossa. Quase um castigo.

Um outro amigo meu é policial federal, trabalha com busca e apreensão. Basicamente ele entra numa favela com um funcionário da Caixa para cobrar empréstimos do Construcard que não foram honrados. E se o cara não paga, ele apreende algum bem em penhora, carro, geladeira, qualquer merda dessas. Lindo de se fazer, não?

Eu fui entendendo o mau humor do delegado aos poucos. Com o passar dos anos, fui colecionando depoimentos que eu nem sei se são sempre reais. Mas fui criando esse perfil do policial para mim mesmo. Um cidadão, lutando pelo seu ganha pão, presta um concurso público em busca de estabilidade financeira, recebe um treinamento e é lançado nas ruas com seu uniforme, uma arma péssima com balas limitadas, um colete que ele mesmo tem que comprar para ser de boa qualidade e depois ganha um salário de merda, então ele tem que fazer justiça, que é prender um outro fudido que nem ele que desistiu da estabilidade e resolveu que vai ganhar dinheiro ou morrer tentando.

Eu sei que os policiais prestam serviço de segurança privada nos seus dias de folga para complementar o salário. Sei também que é prática comum que eles prestem esse serviço com suas fardas, porque isso impõe respeito, que é afastar o ladrão. Então eles cumprem essas escalas de trabalho monstruosas e para completar o seu salário, precisam trabalhar nos dias de folga prestando “consultoria” para alguns comerciantes, bancos, postos de gasolina, etc.

Outro amigo mora num condomínio fechado e teve um vizinho alucinado por causa da cocaína gritando a noite inteira. Ele tem duas filhas pequenas e chamou os policiais. A esposa queria se mudar da casa. O guarda disse: “não esquenta não mano, isso é só cocaína, já vai passar. A casa é sua, não sai não mano.” Meu amigo achou insensibilidade, mas pensou que isso deveria ser coisa normal para o policial. Para que o vizinho fosse despejado do seu contrato de aluguel bastava que o policial tivesse preenchido o boletim de ocorrência com a acusação de consumo de drogas, mas ele achou melhor preencher “chamado por motivo fútil” e o caso ficou encerrado.

Um veterinário comentou comigo que trabalhava numa clínica em que um policial prestava serviço. Houve um assalto num comércio ao lado e esse veterinário viu para onde os assaltantes correram. Todos os moradores sabiam que o policial estava na clínica e foram até lá exigindo providências. Ele fez uma voz de super herói enquanto perguntava ao veterinário: “para onde foram os assaltantes”, ao que o veterinário respondeu “por ali” e o policial então disse “então eu vou para o outro lado” e foi.

Quando voltou, o veterinário indignado, perguntou a ele porque ele tinha ido para o lado contrário. A princípio ele ficou em dúvida se o policial tinha entendido mal, mas o soldado então explicou que ele tinha que prestar conta das balas que usava, que se amassasse o carro numa diligência precisava pagar do próprio bolso, que o colete que ele usava foi ele mesmo quem comprou, porque o colete fornecido é uma porcaria, etc…

E se somam os depoimentos…

Então quando eu vejo os policiais nas ruas, reprimindo violentamente os protestos, eu sinceramente não entendo…

Porque é que eles não estão do nosso lado?

Porque ainda falamos nós e eles?

Eu vejo semelhança no fato de os professores da rede pública serem maltratados pelos alunos e vice versa. Eu entendo que os professores são a tropa de choque do governo, ganhando mal, com a auto-estima péssima, em situação de castigo quando vão para as escolas públicas da periferia e encontram a molecada revoltada com as péssimas condições de vida e a educação de quinta categoria.

Cada um deles, professores, alunos e pais, querendo a tal estabilidade financeira, que consiste em comer merda e bater naquele cidadão que está ao seu lado e resolve roubar a merda do vizinho.

Porque é que não paramos com isso?

 

Cuidado

Essa integridade do homem depende de um ambiente muito específico e delicado para acontecer.

Qualquer sinal de luta pela sobrevivência e o sujeito deixa de observar o outro. Ele abandona a prerrogativa do cuidado (no sentido de atender, auxiliar, amparar) e passa a ter cuidado (no sentido de temer, suspeitar, desconfiar). Nessa hora, é cada um por si.

Nós criamos todos esses artifícios de convívio, então criamos leis e regras. E aí, não funciona. Não dá certo. Nós insistimos e gastamos uma quantidade enorme de recursos criando mil maneiras de patrulhar o outro e corrigir seu curso. Mas acabamos por criar pequenas máquinas que nos tiranizam. E logo nos vemos novamente em sobrevivência, lutando com essas máquinas. Desobedecendo as pequenas leis que nós mesmos criamos para nos esconder da nossa responsabilidade com o outro.

A  máquina na forma de uma lei, ou de alguém exercendo um papel determinado porque foi autorizado por todos os outros a ser aquele que patrulha. Então esse, ele mesmo, ele comete um ato baseado no seu medo do outro. E então, ele escapa da máquina e novamente é necessário outra lei e outra coisa e outra punição.

E vamos fazendo as nossas manobras para garantir o máximo de eficácia com o mínimo esforço. E isso na relação com o outro, em modo de sobrevivência, se configura na criação disso que eu chamo de máquinas, que são esses automatismos criados em comum acordo, em pequenos grupos de nós, e que determinam como agiremos de maneira a não mudarmos o significado de cuidado.

Então me parece que o fundamental seria atender a esse ambiente em que o homem se sentisse acolhido. Primeiro isso e depois qualquer acordo, qualquer automatismo, qualquer máquina, mas sempre tendo isso como o primário.

Porque se o homem é lançado em sobrevivência, ele usa seus infinitos recursos para vencer qualquer condição extrema e ele triunfa. Isso é o melhor do homem e não deveria ser tolhido por nenhum automatismo.

Porque entramos em modo de sobrevivência quando nos relacionamos uns com os outros? Essa pergunta me parece ser fundamental, porque me parece que é algo que fazemos quando estamos em relação com o outro e interpretamos a sua conduta de maneira que ela nos parece ameaçadora. Então saímos do cuidado e entramos na zona de perigo.

Eu quero ser aceito. Quero ser considerado. Quero ser tratado de uma determinada maneira.

Quando o outro viola essa maneira, me sinto agredido e então, é cada um por si.

Como agir, com base nessa prerrogativa? Eu quero ser aceito. Quero ser tratado de determinada maneira. Então imponho isso ao outro? Com alguma chantagem? Pode ser então que o outro se submeta a isso, durante algum tempo. Mas sempre como algo para ele. Alguma vantagem oculta para ele como algo que lhe economiza energia, em sua relação para comigo.

Mas sempre que ajo assim com o outro, impondo algo a ele e submetendo-o à minha intenção de ser tratado de determinada maneira, passo a temer que alguém faça o mesmo comigo para que eu o trate da maneira como ele gostaria de ser tratado. Então eu me submeteria a isso, extraindo alguma vantagem para mim, algo que me poupe energia em minha relação com esse.

Estaríamos todos envoltos em uma nuvem de mentiras, escondidos atrás delas para que o outro nos deixe em paz com as nossas coisas. E a nossa vida, aquilo que realmente tem sentido para nós como sendo uma espécie de crime.

Então como começa isso?

Tratar o outro como eu gostaria de ser tratado. Como eu gostaria de ser tratado e porquê? Como eu poderia ser bem tratado sem que isso significasse a anulação do outro?

Porque eu entendo que essa determinada coisa a ser obtida (um bom tratamento) por que eu entendo que essa coisa é que me fará ser uma pessoa melhor?

Então primeiro eu recebo algo do outro para que eu possa lhe dar esse algo? E a ação fica tolhida, sem iniciativa. Fatalmente tendendo ao tipo de cuidado que significa perigo. Significa que o outro pode não me dar esse algo. Ele pode me trair. Novamente o blefe e uma vida abreviada.

E se eu olhasse para o outro.

Se eu o tratasse como eu gostaria de ser tratado.

Se eu desse sempre o primeiro passo, nesse sentido. Na direção de deixar claro para o outro como eu gostaria de ser tratado pela minha ação em direção a ele. Pelo cuidado, expresso nessa ação.

E o outro, como ele interpretaria esse meu cuidado? Como uma ofensa? Sim é possível. Possível que para mim seja um cuidado e o outro considere isso ofensivo e se retraia. Tendendo a mentira. Tendendo a um automatismo que lhe economize energia em relação a mim.

Então na retração do outro eu teria perdido a minha capacidade de compreender como poderia tê-lo tratado melhor. Novamente imerso nisso.

É preciso criar uma comunicação adequada, de uma maneira que nem eu nem o outro nos sujeitemos um ao outro. E ainda assim, cuidado. Zelando por um bom tratamento.

Talvez a palavra seja hospitalidade.

Como quando eu recebo uma pessoa na minha casa, alguém que eu gostaria de me relacionar por um tempo. Então eu ofereço o que tenho e a acolho.

Eu acolho essa pessoa no meu coração por algum momento.

Acolho e escuto.

Eu a trato com o que tenho de melhor e não espero nada dela. A não ser que ela tenha a capacidade de tratar alguém da mesma maneira. Com o que ela tem de melhor.

Isso é fartura e integridade.

E uma vida, fora das nuvens.

Guerra

Filhos, a gente estava ali na sala da Vó Dadora ainda a pouco e sua mãe viu que na TV estava passando “A origem dos guardiões”. Então a gente colocou no canal de TV a cabo ficamos assistindo isso juntos. Acho que a mãe tinha levado vocês ao cinema para assistir a esse filme da primeira vez e ela pensou que seria um jeito interessante de trazer a fantasia para vocês.

Então fui vendo o argumento todo da história e hoje eu me dei conta de que é uma fábula sobre o alistamento militar. Não vou contar a história de novo pra vocês, porque vocês a conhecem. Vou explicar meu argumento, para que a gente pense nisso juntos quando a hora chegar. Não é agora, claro. Pedro está com seis, Gabriel fará quatro daqui a pouco e Francisco vai fazer quatro meses. Ninguém vai entender nada…

O povo que escreve essas histórias é um povo que vive com medo. Existem alguns grupos econômicos nesse país que entenderam que o melhor jeito de ganhar dinheiro é através do medo do futuro. Então eles constroem essas fábulas em que um grupo de pessoas especiais protegem as crianças de um vilão terrível que vive do medo delas. A gente hoje viu um desenho animado, mas o papai já assistiu essa mesma fábula diversas vezes, na publicidade dos remédios, dos bancos, dos produtos de seguros e especialmente nos noticiários quando um homem jogou um avião em dois prédios numa grande cidade dessa gente. Muita gente morreu nessa história e eles inventaram um nome para o ato desse homem: terrorismo.

Então eu vi o desenho hoje e me lembrei do homem. Lembrei que eu já tinha feito essa associação quando esse episódio aconteceu.

Lembrei de outras vezes em que essas pessoas fabricaram a mesma história, variando um pouco os personagens: os índios, os mexicanos, os nazistas, os vietcongues, os cubanos, os comunistas, os russos, os palestinos, os afeganistães, os chineses… todos nós, os outros, os que vivem fora das fronteiras daquele medo todo, todos nós não somos as crianças para eles. Nós somos os bichos papões.

É assim: eles nos vendem a história de um jeito que nós nos sentimos como as crianças do filme. Desprotegidos, desamparados, necessitados da ajuda desses heróis incríveis. Dentro do país deles, eles vendem a mesma história, mas desta vez, as crianças são a sua gente e nós somos os bichos papões. O governo deles e algumas famílias mais abastadas passam a ser os heróis incríveis, com seus planos mirabolantes e a melhor solução de todas é sempre a mesma: a batalha do bem contra o mal. E no fim, a guerra mesmo, o mal em si. A maior vergonha que nós pudemos produzir.

O rapaz no filme não se sente aceito pelo grupo de super seres. Ele não é visto por ninguém, vive à margem de tudo, preocupando-se apenas com a delinquência. Um outro personagem que representa a recompensa para aqueles que se comportam bem vê nele a possibilidade de pertencer a esse grupo, mas ele mesmo não se vê assim. O mestre diz a ele para procurar seu cerne, sua essência e nisso eu não vi problema algum. Esse rapaz quer se lembrar do que ele era antes de ser esse delinquente, mas não sabe mais. Ele perdeu a perspectiva do que era se importar com os outros.

O Bicho Papão se aproxima do rapaz justamente por sentir que eles se assemelham nessa coisa de serem reconhecidos pelos outros. Eles se sentem excluídos do grupo principal. O vilão só quer o medo das pessoas, mas o rapaz não quer nada com ninguém ele só quer se divertir.

A prova final para que ele seja aceito no grupo, é uma batalha. Uma luta para proteger a última centelha de esperança, que é um menino como vocês.

O grupo vai se recuperando e trazendo para a batalha todos os seus exércitos, numa cena carregada daquilo que eles chamam de heroísmo. É uma brincadeira onde as sombras se dissolvem e o deus do Sono renasce das cinzas.

No final, os Guardiões triunfam, o Bicho Papão é arrastado para as profundezas, levado pelos seus próprios terrores.

Eu já vi guerras demais, filhos… Os Guardiões enviam as crianças para a matança enquanto eles tramam o quanto irão ganhar com a reconstrução do país vencido.

O Bicho Papão? Quase sempre foi treinado pelos Guardiões, como nós ao assistir esses filmes e compactuar com esses valores.

Não acredito em papai Noel, filhos.

Não acredito em nenhuma justificativa para a guerra.

 

Comprometimento

Que diabos fazer com essa isso que não gere em você essa sensação de estar atado às minhas expectativas? Que diabos fazer com comprometimento que não signifique condicionamento, chantagem, aprisionamento?

Eu te pergunto se você está comprometido e você me olha com essa cara de dúvida. Com essa pergunta eu já te condiciono? Já te imponho uma resposta a ela que me agrade de algum modo?

Com o quê você está comprometido? Com seus interesses. Você realmente sabe quais são eles? Você sustenta esse interesse hoje, amanhã e depois? E depois ainda? Você tem claro o que quer para si mesmo, internamente? Você não fará essa promessa para si sabendo que amanhã vai traí-la?

Então eu te pergunto se você está comprometido e você me olha tentando adivinhar com o quê eu estou comprometido quando te faço essa pergunta.

É desconfortável para você assim como é para mim?

Então você responde algo que me afaste de você por tempo suficiente para que você realmente entenda do que se trata. Você precisa de mais tempo para saber se pode ou não se comprometer comigo. Você ganha tempo, diz que sim, que está comprometido. Mas amanhã, não sabe o que fazer. Não sabe como tomar a iniciativa e vai improvisando. Você olha para mim e fica com a sensação de que me deve algo. Você se justifica. Tenta explicar. Cria outros adiamentos. Comprometimento vira adiamento. E as coisas que poderíamos fazer juntos, não se revelam, porque não há intimidade suficiente.

Você está comprometido com você mesmo? Está? E como é? O que você quer da vida e porquê quer isso? Você já não tem isso que quer da vida? Você realmente precisa desse recurso? Precisa que a vida te ofereça isso pois do contrário você não será feliz?

Que poderia ser comprometimento que não uma prisão?

Eu poderia sair perguntando a todas essas pessoas se elas estão comprometidas e criar mil maneiras de elas expressarem formalmente seu comprometimento, executando tarefas e ritos previamente determinados. Mas quanto tempo isso poderia durar? Eu já fiz isso e a única coisa que vi foi que estava sendo um tirano. E autorizando a que outros me tiranizassem. As pessoas me deixaram falando sozinho. Carregando o peso da minha idéia sozinho. E eu agradeço a elas por isso. Sem essa ação eu não teria visto a minha loucura.

Eu me comprometo comigo mesmo e me libero de você para que você faça o que bem entender. Meu movimento não está atrelado ao seu. Eu estou aqui. Eu te apóio. Mas não vou condicionar seu movimento ao meu e vice-versa. Estou aqui porque quero realizar esse comprometimento comigo mesmo, sem falhar comigo mesmo. Porque entendo que esse comprometimento comigo é o que gera fartura. Não por um senso de obrigação externo, mas pelo prazer de estar fazendo a única coisa que realmente faz sentido para mim. E para isso eu preciso me manter livre de você e dos seus assuntos.

Faça o que bem entender. Esse é o único comprometimento que espero de você.