Crochê

Antes de eu saber o que era mandala, eu aprendi o que era crochê.

Minha mãe e tias tinham aprendido a arte com a minha avó e durante a minha infância, acompanhei muitas horas dessas tramas sendo tecidas, enquanto elas conversavam sobre a própria vida ou a vida de outros.

A linha vem numa espiral enrolada num novelo. E então a gente vai desenrolando essa espiral e tecendo os nós com uma agulha em forma de gancho. O padrão vai emergindo aos poucos, à medida que as carreiras se entrelaçam e volteiam sobre si mesmas, fazendo novo traçado, numa nova dimensão. Então temos a linha, o nó (ou ponto), a carreira (ou corrente), as casas (cheias e vazias), os motivos de diferentes geometrias. Espirais sobre espirais. Tramas sobre tramas. Dimensões superpostas.

E então isso virava colcha, vestido, fronha, camiseta, almofada, toalha de mesa, barrado. A utilidade, configurando outra dimensão.

Essas coisas que doem no corpo da gente, essas tensões, a gente também chama de nós. Então um dia, massageando as dores de alguém, eu me lembrei do crochê. Me lembrei que quando algo imprevisto acontecia e minha mãe errava um ponto, ela tinha que desmanchar toda a carreira para começar tudo de novo.

Uma das coisas mais bonitas do crochê é essa percepção de que não se pode continuar de qualquer maneira, sem resolver os erros em cada etapa. Isso sempre vai comprometer todo o resultado. Você precisa aprender a fazer o ponto certo. Mas também precisa aprender a lidar com seus erros e a corrigi-los. Puxar a linha da trama, desfazer o nó incorreto, voltar a tecer a trama.

Essas histórias que a gente entrelaça uma nas outras a gente também chama de trama. Um dia, escrevendo uma peça de teatro, eu também me lembrei do crochê. Lembrei da minha mãe empilhando os motivos numa sacola para depois juntá-los e dar a forma de uma toalha. Sendo também a peça de teatro uma trama feita de motivos distintos.

Elas teciam sem olhar para a linha, em alguns momentos. Me surpreendia ver essa tia que tecia o crochê enquanto assistia televisão. Quando o ponto era muito complexo, ela olhava para o que estava fazendo. Quando aquilo se configurava como automatismo, ela conseguia assistir televisão. Entre uma coisa e outra, emitia uma opinião sobre o que estava acontecendo na novela e eu sempre me perguntava como era possível que ela nunca perdesse o fio da meada. É claro que perdia. Às vezes errava um ponto ou confundia algo na trama da novela. Mas no geral, seguia com o crochê, desenrolando o novelo, enquanto se enrolava na novela.

Esses automatismos que a gente vai desenvolvendo, são estratégias que a gente vai desenvolvendo para não perder o fio da meada. Dependendo de onde está a nossa atenção no momento em que os configuramos, nos desenrolamos com eles ou ficamos cada vez mais enrolados. Liberação ou aprisionamento, dependendo apenas de onde colocamos a nossa atenção.

Eu já era adolescente quando isso me ocorreu pela primeira vez. Eu no computador, fazendo um programa em BASIC, e minha mãe na sala, tecendo seu crochê.

Na programação, aprendi a criar funções. Você tem alguns problemas que se repetem, não importa qual seja o programa que você está desenvolvendo. Então você cria uma estrutura para resolver esses problemas e essa estrutura se chama algoritmo. Com um algoritmo, você pode escrever uma função em qualquer linguagem. Essas funções vão sendo agrupadas numa biblioteca. É como uma caixa de ferramentas de programação. Nem sempre você vai usar todas, mas elas estão ali, salvas em algum lugar e você só precisa acioná-las com alguns parâmetros estabelecidos e elas vão retornar valores que você vai usar adiante.

Isso se parecia com os motivos que minha mãe guardava sempre nas suas diversas sacolas. Coisas que ela achou que ficariam boas em suas construções, mas que não serviam. Ou coisas que ela tinha feito apenas para treinar um novo ponto. De repente, ela se lembrava daquele bloco já pronto e percebia que aquilo poderia virar uma aplicação numa toalha de banheiro.

Foi só muito depois que eu fui aprender algo sobre hinduísmo, que é uma outra caixa de ferramentas. Existe essa palavra, cheia de sentidos, que foi lida no ocidente apenas como pecado ou maldição. Uma das minhas tias sempre foi chamada por essa palavra até que um dia começou a duvidar que esse nome fosse bom para ela. Carma, minha tia.

Karma, método, procedimento, abordagem. A idéia de que o resultado de algo é o efeito das ações empregadas para gerá-lo. Você tem um problema e desenvolve um método para abordá-lo. Esse método se revela ineficaz em determinadas condições. Você refina o método, e tenta uma vez mais e outra ainda. Essa repetição infinita, o loop existencial é Samsara.

Quando o método se encontra perfeitamente refinado, vira uma ferramenta útil. E é possível se liberar dele.

Então a Mandala surge. E com ela, o sentido de unidade.

 

Autonomia é Rebelião

Na escola eu aprendi que os modos de viver de outros povos eram atrasados e que a história era uma sucessão de progressos que levava fatalmente à Revolução Industrial, depois à Revolução Verde e finalmente à Hiroshima e depois ao Vietnã de Stallone. Na minha adolescência, a ficção e a história se misturaram definitivamente e durante algum tempo, eu cheguei a crer na guerra e na matança como ferramentas de limpeza daquilo que era indesejado. A guerra sendo o Pinho Sol da história.

Então o desconforto de achar algo errado nessa lógica. Esse desconforto e mais a imensa quantidade de hormônios circulando por todos os lados e uma enorme confusão mental.

E eu fui seguindo o roteiro pronto. Seguindo o roteiro pronto daquele que se rebela e resolve fazer as coisas “do seu jeito”. Então, enquanto meus amigos iam por ali, eu ia por lá. Enquanto se meteram a ganhar dinheiro, eu me opus a isso. E achei que essa oposição era fazer o que se gosta e que fazer o que se gosta era não ganhar dinheiro. Neguei o dinheiro. Neguei o meu próprio valor ao negar o dinheiro e o caminho de meus amigos. Na verdade, eu traçava o caminho dos meus amigos ao negá-lo. Era preciso que eu estivesse ali, negando esse caminho, para que aquele caminho se definisse como verdadeiro.

Fui dando o meu jeito de permanecer abastado, mesmo à margem. Mas permanecia dependente daquele caminho, como se aquele caminho também margeasse o meu. Como se, na ausência dessa oposição entre os caminhos, não houvesse nenhum contorno definido entre uma opção e outra. Como se nessa ausência, eu me desse conta de que não tínhamos ali nenhuma opção. Ficar entre alternativas já estabelecidas não significa fazer as coisas do seu jeito.

Qual a escolha real?

Fazer as coisas do meu jeito. O que significa isso? O quanto estou disposto a isso? Isso realmente significa autonomia? Eu precisaria me apartar de todos os outros para fazer as coisas do meu jeito?

Então vamos a isso.

Enquanto eu permanecer à margem, o caminho que impera vai continuar definido. Então não ficarei à margem. Enquanto eu negar esse caminho, ele se afirmará. Então não o negarei. Enquanto me oponho a ele, mas dependente dele eu fico. Não me oporei a ele. Mas também não posso colocar nele nenhum recurso meu. Nada. Nem meu afeto, nem minha mente, nem meus atos.

É preciso cortar a dependência desse outro caminho para que o meu se defina. Então é preciso definir o meu caminho para além da oposição. É preciso ganhar minha própria ação e arcar com a responsabilidade total sobre isso. Coração, mente e braços totalmente engajados nisso que chamo de autonomia. Que é um caminho meu apenas e não tem nada com o outro. Não tenho nada com ele e ao mesmo tempo, busco relação com ele sem me envolver nas suas coisas. Busco o benefício da relação, ofereço o meu melhor e deixo o outro em paz com sua escolha e seu caminho.

E sigo adiante, quando bem entender.

 

 

Despedida

Queridos,

Eu sempre soube que essa hora chegaria, o tempo em que a casa ficaria justa demais para os meus sonhos e seria preciso remover o teto para voar ainda além. Eu estive aqui, com vocês durante todo esse tempo e partilhei um sonho. Lutei por ele dia a dia, construí dentro de mim essa coisa que agora viva, pede para explorar outros espaços.

Eu não posso permanecer na companhia de vocês sem me sentir tolhendo essa coisa. Eu podia dar a mão a vocês e dizer, “não eu venho um pouco mais, eu fico aqui até que vocês se habituem à minha ausência crescente”. Mas não. É preciso ir e já. É preciso que eu vá, que me distancie desse espaço que compartilhamos durante todo esse tempo. Preciso encontrar o que sou fora daí. Preciso ver o que sobra, quando não estou apoiado nessa estrutura que vocês me oferecem.

De minha parte, dei tudo o que pude e sei que vocês também o fizeram. Se não demos mais do que isso, é porque sentíamos que não podíamos, que seria demais para nós mesmos. E tudo bem para mim.

Foi uma honra partilhar da presença de vocês.

Mas agora, eu parto.

E não nos veremos por um longo tempo.

Estarei ocupado semeando esse sonho.

Nunca deixarei de amar nenhum de vocês.

Vou embora sem mágoas, sem nenhum ressentimento.

Nesse peito, só gratidão.

Namastê

(Para meus queridos amigos e amigas do Viavidya, lugar onde atendi nos últimos três anos)

Pré-requisitos

Você  deveria saber construir um abrigo e como armazenar e purificar a água. Deveria saber como obter energia elétrica. Deveria saber o que fazer com seu lixo e com o esgoto. Deveria saber como produzir seu próprio alimento, deveria reconhecer quais as plantas à sua volta que são comestíveis, quais são tóxicas e quais são medicinais. Deveria saber produzir fogo. Você deveria saber cozinhar e deveria também saber como é que se faz uma panela. Deveria entender como fazer a natureza produzir usando o ritmo da própria natureza. Deveria saber como gerar fartura rápido e sem custos para o ambiente. Deveria se lembrar como é confiar num outro ser humano e como é tratar o outro como você quer ser tratado. Deveria aprender a cuidar de um idoso e de uma criança. Deveria saber cuidar de qualquer outro ser humano e deveria saber pedir ajuda sem se sentir chantageado e sem impor ao outro nenhuma chantagem. Deveria saber enterrar seus mortos, e aceitar a partida de entes queridos. Deveria aprender a se defender, sem eliminar o outro, sem destruir o outro. Deveria aprender o que é amar, sem manter o outro cativo. Deveria aprender que o seu real valor não é o seu preço e nem o que você tem. Você deveria aprender a fazer as coisas que mais gosta porque são as coisas que você faria bem e que iriam durar muito tempo. Você deveria aprender a viver sem manter o outro cativo.

Ainda há tempo de aprender.

Ainda há tempo.

Ato e Corpo

Em algum ponto da trajetória acontece esse desvio. Deveríamos ser amados tal qual somos, mas algo nos atravessa e desde então passamos a obedecer uma chantagem para nos sentirmos amados. E então, nos perdemos.

Esse ato de traição consigo mesmo vai configurando uma seqüência de outros atos, todos eles intensificando essa contradição interna, entre aquilo que se era na origem e a deformação sofrida, que passa a ser nosso acordo de vida. Um método para resolver a vida, mas um método que parte de uma deformação.

Aquilo que se diz e não se sente. As ações imaginadas, os sonhos sempre adiados. Cada coisa dessas é começada no corpo, num alento, num coração que pulsa mais rápido, numa boca que se prepara para dizer como se sente, mas que se entrega ao silêncio. Corpo e ato estão sempre unidos. Mas se o ato não acontece ele fica lá, no corpo, guardado. Como proposta. Como reserva. E então, nas infinitas associações da mente, nos esquecemos dele.

Como resultado, perdemos a capacidade de nos maravilhar. Perdemos a capacidade de ver algo novo. Olhamos para a sucessão dos fatos e passamos a significar sempre a mesma ação não resolvida, a ação que não encontrou seu termo. Não temos mais a consciência desses atos, mas eles seguem atuando, buscando resposta no mundo.

Mudamos de emprego, de cidade, de casamento assumimos novos riscos e depois de algum tempo, lá estamos nós lidando com pessoas que são incrivelmente parecidas com outras pessoas com as quais nos encontramos antes. Repetimos, com essas novas pessoas, cenas que já vivemos com pessoas diferentes. O inferno é sempre culpar o outro por isso. O inferno é não ter a percepção de que é você mesmo quem gera nessas pessoas as mesmas ações de que necessita para continuar seguindo o mesmo programa.

E o programa é esse desvio. A chantagem do começo.

Há uma forma de sair desse programa, de ter a capacidade de recusar essa chantagem e o seqüestro de si mesmo.

Não é um caminho em que se adicionam mais elementos, um outro caminho de excessos.

É antes, um caminho de purificação, de ajudar o outro a tirar do corpo esses atos.

E realizá-los.

Ação

Considerando a Vida primeiramente como um problema subjetivo. A Vida, sendo um significado para o homem. Então as ações desse homem passam a ser as suas soluções imediatas ao desafio chamado Vida. Algo passa a esse homem e ele então responde a esse estímulo.

De volta à mente. A um certo modo de a mente operar buscando no mundo a completude. Buscando realizar algo no mundo que decifre algo que está num outro modo da mente operar, que é o da interioridade. Buscando obter algo do mundo que traga a sensação de plenitude e nunca encontrando este objeto que permaneça pleno. Porque a mente externa reduz tudo ao tédio, ao mesmo, ao passado, à repetição, à memória.

As ações desse homem passam a ser seu método para resolver a Vida como um problema externo a ele. O homem olha para a Vida e espera obter algo dela e nesse momento, este homem se torna a Morte. Ele busca a vida como um recurso externo a ele, algo que preencha o vazio que é a antítese da plenitude. O homem operando na mente externa é esse vazio. Um vazio buscando algo que o complete. E ele não pode obter nenhuma satisfação usando esse método, porque a mente externa, quando obtiver a plenitude, vai desmembrá-la em pedaços e lançá-la aos quatro ventos, agrupando-a em pequenos conjuntos de insatisfações, até que a plenitude fique reduzida ao tédio. O homem, neste estado, matará a plenitude. Então esse homem perderá o agora e o amanhã. E repetirá o passado até o fim de seus dias, sempre refazendo a mesma ação em busca de um significado para a Vida que o preencha.

O método desse homem passa a ser seu condicionamento. A repetição eterna de uma mesma ação subjetiva, buscando sempre no mundo externo algo que conclua a ação. Um método através do qual ele extraia da vida a plenitude e a degrade em vazio. Esse homem é o diabo e a Vida ao redor dele é o seu próprio inferno.

Há um certo ponto em que alguns homens sentem uma espécie de fadiga do próprio tédio. Esse homem passa a se debater no inferno. Um dia ele acorda e percebe que está vivendo no ontem, que aquele homem diante dele é um homem novo, mas ele olha para ele como se fosse alguém de outra época. Ele se percebe doente e então adoece. Ele encontra a Vida e mais uma vez se empanturra dela, sem obter satisfação. A Vida é insossa. Escassa. Sem graça.

Ele percebe que já tem tudo e deveria ser feliz por isso, mas não consegue. Percebe que não é a presença do dinheiro ou a falta dele. Percebe que não é nada fora dele é algo com ele. Finalmente ele percebe esse vazio e com isso, percebe que tem uma interioridade. E usando a mesma mente externa, esse homem olha para dentro e não vê nada. Ou degrada o que vê, reduz a si mesmo ao vazio. Ele se deprime. Ele se entristece. Ele delega sua possibilidade de agir a outra pessoa. Ele busca mais uma vez uma saída externa. E isso é tudo o que ele pode fazer nesse momento.

E mais uma vez, fora dele, a mesma mente vai degradar o remédio, o método de outro, o livro sagrado, o procedimento, o guru, a Vida em si. Esse homem tem a chance de sair disso, mas novamente ele se torna a morte. Ele ainda acha que Vida é essa busca permanente pelo externo na tentativa vã de escapar da morte, mas a morte é ele mesmo. Ele um dia se cansa disso, ele percebe que o estado em que se encontra é pior do que a morte. Ele então decide morrer. De um jeito ou de outro, esse homem está disposto a romper com os demais. Ele quer sair do inferno. A qualquer custo. E ele não confia em mais ninguém.

Ele é falso para si mesmo e reconhece no outro a mesma farsa. Ele reconhece o inferno.

Ele agora é uma semente de algo.

Quando esse homem encontra o terreno propício, o ambiente adequado, ele se percebe Vida, porque algo dentro dele brota. Ele não sabe o que é. Não está buscando resultado algum nisso. Sabe que não pode buscar. De algum modo, ele sabe que isso é o que ele é de fato, esse algo sem par. Esse átomo.

E ele volta à mesma ação de antes, fatalmente voltará.

Mas não é mais a morte.

Ele é essa semente. E então extrai a Vida de si naquela situação. E a revitaliza. Ele ressuscita os mortos, dá vida ao passado e o atualiza. Ele se reconcilia e o método é refeito.

A ação desse homem é extrair de si aquilo que expressa a Vida em qualquer situação.

Esse é o seu propósito.

 

A memória como toxina

Engraçado que nós aprendemos a valorizar a memória através da educação. Aprendemos a decorar as respostas corretas e somos premiados proporcionalmente. Acertar é repetir o memorizado. Errar é não se lembrar do certo. Então a memória fica super estimada como ferramenta para o nosso discernimento.

Isso vai derivando para muitas coisas que acabam perpetuando o status quo. Daí deriva a falsa premissa de quanto mais experiência (memória) maior a capacidade de dar respostas. Então o antigo é sempre mais certo do que o novo. E vamos ficando com medo das mudanças.

Mas eu não observo que isso é sempre assim.

Porque sucede que alguns idosos nos pareçam obtusos demais e a outros nos parecem sábios? Porque algumas crianças nos parecem superficiais e outras são tão profundas? Acho que isso tem algo a ver com a capacidade de refinar a memória, de torná-la efetivamente útil.

Como todo medicamento, é preciso ter cuidado com a dosagem de memória que vamos usar para avaliar uma situação nova. Se a memória está gerando paralisia, medo, insegurança, obstrução da visão, talvez a dosagem esteja excessiva. É muito difícil se livrar de uma memória tão potente assim. Você não pode negá-la, escondê-la. Os sentimentos que esse tipo de memória provocam são intensos, genuínos. A pressão que exercem é enorme.

Então não se pode usar o recurso da negação para lidar com esse excesso. A memória está ali, íntegra, excessiva, perigosa. Como lidar com ela? Negando-a, seremos violentos com ela. E ela vai revidar isso depois, se tornando mais intensa, porque será a memória do primeiro fato e mais a memória da violência contra a lembrança desse primeiro fato. Então memória gerada em cima de memória. Veneno de feito de veneno.

Estamos no presente, diante de uma situação inteiramente nova e a memória se sobrepõe, distorcendo a nossa maneira de ver as coisas. Como resolver esse impasse? Olhar para a memória como algo que surge agora, entre eu e o fato inédito que se apresenta. Porque estou olhando para essa situação como se fosse aquela? Essa situação presente e inesperada e aquela que já me ocorreu e que me gerou dor, sofrimento ou contradição… Porque aquela situação não foi resolvida de forma satisfatória no momento em que se apresentou, eu estou aqui hoje, carregando-a como um peso. Naquele momento eu não dispunha de ferramentas apropriadas para lidar com aquilo, mas talvez hoje, olhando para essa memória que se interpõe entre o que eu sou agora e esse fato inteiramente novo, talvez agora eu possa fazer algo.

Olho para essa situação atual e somente vejo a memória de um fato que me foi desagradável. Olho e sei que não estou vendo a situação atual ainda, estou vendo o que me passou antes. Como posso agir agora, de maneira que aquilo que me passou antes não me suceda novamente? E agora não é o que foi antes, e então me encontro preso à memória, agindo cegamente em relação ao agora. O que é essa situação nova que não a minha memória? O que realmente é essa coisa e o que é a memória? Posso fazer alguma distinção entre essas duas coisas?

Esse questionamento vai retirando da memória toda a certeza. A memória vai ficando só, na sua inteireza. O fato se atualiza, como algo que foi resolvido daquela maneira por aquelas pessoas naquele momento com base nos dados de que elas dispunham à respeito da situação. O próprio questionamento sobre a “veracidade” da minha perspectiva frente aos fatos contaminada pela memória já presente na situação ocorrida vai eliminando da memória todo teor de verdade que ela possa ter.

Então fico com um fato, que ocorreu de uma maneira tal e que foi interpretado por mim naquela ocasião, sob o efeito das minhas memórias na época. E então me senti vítima daquelas circunstâncias e jurei para mim mesmo que tal situação não deveria acontecer novamente. E então vejo que a mesma situação aconteceu ainda mil outras vezes. Não de fato, mas por efeito dessa memória presente, vivi diversas outras situações sempre significando aquele mesmo fato mal resolvido. E em cada uma dessas vezes busquei uma saída dessa repetição e nenhuma dessas saídas foi satisfatória.

Nenhuma ação externa irá resolver a toxicidade da memória. Nenhuma.

Somente essa operação sobre o significado da memória, sobre a sua subjetividade, sobre as ações externas que tendem a validar a memória e sua supremacia sobre a nossa capacidade de decidir.

Olhar para a memória e extrair dela toda a certeza, até que a dúvida do agora fique cristalina e então, se pode decidir em liberdade, tomando para si toda responsabilidade pelas consequências dessa ação.

 

Comprometimento

Que diabos fazer com essa isso que não gere em você essa sensação de estar atado às minhas expectativas? Que diabos fazer com comprometimento que não signifique condicionamento, chantagem, aprisionamento?

Eu te pergunto se você está comprometido e você me olha com essa cara de dúvida. Com essa pergunta eu já te condiciono? Já te imponho uma resposta a ela que me agrade de algum modo?

Com o quê você está comprometido? Com seus interesses. Você realmente sabe quais são eles? Você sustenta esse interesse hoje, amanhã e depois? E depois ainda? Você tem claro o que quer para si mesmo, internamente? Você não fará essa promessa para si sabendo que amanhã vai traí-la?

Então eu te pergunto se você está comprometido e você me olha tentando adivinhar com o quê eu estou comprometido quando te faço essa pergunta.

É desconfortável para você assim como é para mim?

Então você responde algo que me afaste de você por tempo suficiente para que você realmente entenda do que se trata. Você precisa de mais tempo para saber se pode ou não se comprometer comigo. Você ganha tempo, diz que sim, que está comprometido. Mas amanhã, não sabe o que fazer. Não sabe como tomar a iniciativa e vai improvisando. Você olha para mim e fica com a sensação de que me deve algo. Você se justifica. Tenta explicar. Cria outros adiamentos. Comprometimento vira adiamento. E as coisas que poderíamos fazer juntos, não se revelam, porque não há intimidade suficiente.

Você está comprometido com você mesmo? Está? E como é? O que você quer da vida e porquê quer isso? Você já não tem isso que quer da vida? Você realmente precisa desse recurso? Precisa que a vida te ofereça isso pois do contrário você não será feliz?

Que poderia ser comprometimento que não uma prisão?

Eu poderia sair perguntando a todas essas pessoas se elas estão comprometidas e criar mil maneiras de elas expressarem formalmente seu comprometimento, executando tarefas e ritos previamente determinados. Mas quanto tempo isso poderia durar? Eu já fiz isso e a única coisa que vi foi que estava sendo um tirano. E autorizando a que outros me tiranizassem. As pessoas me deixaram falando sozinho. Carregando o peso da minha idéia sozinho. E eu agradeço a elas por isso. Sem essa ação eu não teria visto a minha loucura.

Eu me comprometo comigo mesmo e me libero de você para que você faça o que bem entender. Meu movimento não está atrelado ao seu. Eu estou aqui. Eu te apóio. Mas não vou condicionar seu movimento ao meu e vice-versa. Estou aqui porque quero realizar esse comprometimento comigo mesmo, sem falhar comigo mesmo. Porque entendo que esse comprometimento comigo é o que gera fartura. Não por um senso de obrigação externo, mas pelo prazer de estar fazendo a única coisa que realmente faz sentido para mim. E para isso eu preciso me manter livre de você e dos seus assuntos.

Faça o que bem entender. Esse é o único comprometimento que espero de você.

 

A Máscara

Filho, é muito importante que você tenha sempre isso em mente, quando estiver diante de uma situação em que a sua liberdade estiver ameaçada. Não existem instituições. É isso mesmo. Elas não existem. Aquele homem que está ali na sua frente e que diz representar uma instituição qualquer, ele está mentindo. Ele talvez não saiba disso inteiramente, conscientemente. Mas em algum lugar dele, isso está emitindo sinais.

Ele está usando uma máscara, que é a instituição que ele diz representar. E qualquer homem que use uma máscara é alguém amedrontado. Do que ele tem medo? De você. Do outro. Do diferente. De alguém livre.

David Thoreau olhava para o homem que vinha insistentemente lhe cobrar impostos do governo e sabia com o quê estava lidando. Com um homem, seu vizinho, vestido de governo, que se incomodava com a coragem dele de ser um homem livre. Então esse vizinho chegava na sua porta, a título de cumprir “o seu trabalho” e lhe impunha o pagamento de um tributo ao “governo”. Quem era o governo? Era o vizinho. O dinheiro chegaria ao seu destino, dilapidado, com toda certeza por mil outros vizinhos, cada um deles cobrando o seu tributo ao anterior.

Isso é como quando vocês dois estão brincando aqui na sala e por acaso disputam um brinquedo. Aqui em casa, a priori, os brinquedos são de vocês. De ninguém em particular, nem seu, nem do Pedro. Eu e sua mãe fazemos questão disso, mesmo quando as pessoas dão um brinquedo para você e outro para o Pedro. A gente acha que um recurso dividido é um recurso que se multiplica e então não fazemos essa distinção para vocês.

Mas quando vocês disputam um brinquedo e não conseguem resolver esse assunto entre vocês, e vou observando a progressão de argumentos que levam inevitavelmente à solicitação de um de vocês para que eu, ou sua mãe, ou qualquer outro adulto seja o mediador da relação. Porque vocês fazem isso? Porque querem usar algo que submeta o outro à sua vontade de brincar com o brinquedo que está agora nas mãos dele. Esse algo é o adulto. O maior, o mais forte.

“Porque não resolvem entre vocês?” Eu pergunto. E um responde: “Foi o Pedro” e o outro “Foi o Gabri”.

Vocês estão tentando me manipular. Eu estou nos meus assuntos e então me aparece essa solicitação. E vocês como crianças são muito intensos e nos exigem resposta imediata. Repetem mil vezes a mesma coisa. O mesmo tipo de técnica que os torturadores usam para dobrar os prisioneiros. E então, se não estamos atentos ao nosso psiquismo, a gente se dobra por uma solução simples. E o processo acontece assim: se o Gabriel sempre mente, com certeza o Pedro tem razão. Se o Pedro sempre chora por qualquer coisa, com certeza o Gabriel não fez nada. Reduções estúpidas de cada um de vocês.

E eu tomo uma decisão limitada, com base em argumentos fúteis, numa situação na qual eu não tenho nenhum interesse a não ser que vocês me deixem em paz. E eu nunca estive envolvido nisso. Nunca. Não quero brincar com o carrinho. Quero escrever, conversar com sua mãe, brincar com o Francisco, ou quero estar com vocês sem estar nesse papel estúpido de juiz de quem deve ficar com o pedaço de argila maior.

E então eu digo: “Gabri, quem estava com o carrinho?” e você responde “O Pedro”. E você então fica murcho e devolve o brinquedo ao seu irmão. E o Pedro fica sendo esse bunda mole, que precisa pedir sempre a minha intermediação.

Ou então eu digo: “Pedro, tá chorando porquê?” e o Pedro responde “O Gabri”. E eu digo: “Vá lá e tome dele o carrinho!”. E autorizo o outro a usar a força contra você. E você fica sendo um covarde, que vai ter que mentir sempre para conseguir o que quer.

Eu às vezes digo, sem paciência: “Me deixem em paz! Lutem entre vocês e eu crio quem sobreviver.” Mas também é inútil tudo isso.

E quando eu nem ligo para vocês, ou percebo que vocês estão com sono, ou querem minha atenção, quando eu não ligo para o carrinho ou qualquer outra coisa, aí vocês resolvem o assunto.

Então, filho, a instituição é essa coisa. Uma máscara que a gente usa para conseguir que o outro faça aquilo que a gente acha que ele deve fazer para nos agradar. E aquilo que nos aprisiona na instituição é essa manobra que fazemos para tentar agradá-la. Pagar imposto, bater continência, ajoelhar e fazer um sinal da cruz. Bobagem tudo isso. Deixe o outro em paz!

Tenha coragem de dizer o que realmente quer e de ver o limite do próprio desejo expresso na presença do outro e do querer dele. Aprenda a dividir com o outro, a negociar com o outro. Aprenda a ver que com o outro a brincadeira é melhor, mais legal, mais gostosa. Pare de ter medo do outro, de manipular o outro, de torcer as palavras de um terceiro para que o segundo lhe obedeça e você seja o primeiro. Pare com isso.

Olhe para o homem na sua frente e veja o homem. Veja como é frágil, como tem medo de estar vivo, como está só com suas coisas. Veja como ele se sente único, como ele também quer ser o primeiro porque acha que não é amado o suficiente, porque agora ele tem um irmãozinho menor e mais fofo do que ele. Veja como ele perdeu o amor próprio em algum momento.

E então, olhando esse homem, não se sinta melhor que ele. Veja como você é igual a ele, em tudo. Por fora, é diferente. As histórias de cada um parecem ser diferentes. Mas no fim, filho, somos tão iguais. Sete bilhões de seres iguais em natureza. Iguais nesses sentimentos, nessas dúvidas sobre o que é estar aqui dividindo tantos brinquedos com tantos outros, todos iguais. E sem nenhum papai ou mamãe para dizer de quem é o carrinho. Estamos sós aqui. E todo mundo tem esse lugar que dói.

E então filho, na frente desse homem que se acovarda, veja esse lugar que dói nele. Veja como dói. E aperte esse ponto, sem piedade.

Aperte nesse homem o lugar que lhe dói. Seja firme com ele. Mas seja delicado, lembre-se do quanto ele é frágil. Lembre-se do quanto ele é você. Aperte o homem na esperança de que ele veja quem é, por trás da máscara. Aperte o homem e veja que ele e você são um e que tudo é de todos.

E agradeça ao homem quando ele apertar esse lugar em você, porque quando ser aperta um homem no lugar em que lhe dói, a gente também aperta esse lugar na gente. E isso traz tudo o que precisamos saber sobre nós mesmos e sobre o outro.

Se algum dia, filho, existisse uma instituição real, teria que vir desse encontro.

Dessa generosidade entre duas pessoas que se mostram inteiramente, como eu e sua mãe buscamos viver todos os dias.

O resto, filho, é máscara. É covardia.

 

Vida: faça você mesmo (DIY)

Eu sempre gostei disso, de fazer eu mesmo, de descobrir como se faz uma coisa e tentar fazê-la do meu jeito. E ainda assim, eu tenho preguiça. Falta de habilidade. Medo que dê errado. Medo de perder tempo. Medo do ridículo. Medo de errar.

Com o passar dos anos, eu fui adquirindo habilidades que vieram dessa prática de recombinar as coisas à minha volta.

Nem sempre eu sei o que estou fazendo ou como fazer alguma coisa. Mas é muito difícil para mim essa etapa de as pessoas ficarem discutindo algo para ver qual a melhor maneira de resolver um problema qualquer. Eu fico pensando sozinho, a maior parte do tempo. Olhando os recursos à minha volta e pensando se eu não poderia resolver o problema presente com aquilo que já está na minha frente. Sem precisar adicionar nenhum recurso a mais. Mesmo quando eu não consigo resolver a situação dessa maneira, não faço a opção de me juntar aos outros e ficar discutindo. Eu prefiro um mutirão a um debate.

Então eu prefiro fazer, mesmo que eu não saiba como fazer. Prefiro me mover logo e ir explorando todos os recursos que estão à minha volta. Fazendo tentativas e erros. Recombinando formas, possibilidades. Às vezes eu consulto um manual qualquer, para descobrir se alguém já pensou em usar aquele recurso de outra maneira. Ou se o manual prevê algo assim. Muitas vezes não. O manual foi escrito para aquele recurso ser usado somente daquela forma, da maneira mais rápida possível. Então, quando você se vê diante de um recurso que não funciona mais da maneira que está escrita no manual, a nossa idéia é a de que ele não funciona mais. É lixo e precisa ser substituído por outro recurso. E eu ainda duvido disso e continuo investigando. Aquele recurso é feito de recursos menores. É algo que se compõe de outras coisas e talvez algumas dessas coisas ainda sejam úteis à sua maneira.

Então vou acumulando esses recursos inúteis à minha volta. Coisas que eu ainda não sei o que fazer com elas, mas que percebo que poderiam ser úteis de alguma maneira. Chega então esse momento em que eu tenho que dispensar coisas porque não terei disposição, energia ou tempo para usar esses recursos e os espaços de que disponho para guardar o que pode ser útil são limitados. Preciso liberar espaço, distribuir esses recursos de alguma maneira, jogar fora e esperar que aquele excesso sirva para alguém ali adiante. Então descubro que o espaço vazio é um recurso valiosíssimo.

Esses dias eu estava pensando sobre democracia e cheguei à conclusão que é algo desse tipo: faça você mesmo. Porque quando eu desisto de fazer eu mesmo e resolvo contratar um profissional para resolver algo, o sujeito olha para a minha roupa e tenta enxergar o que eu tenho na carteira. O trabalho dele vai valer o quanto ele acha que eu posso pagar. Ele me cobra esse imposto e vê quanto eu consigo pagar disso. Se colar, colou e ele vai faturar muito às minhas custas. Então democracia de representação é isso: um cara que vai mentir para você para conseguir o seu recurso enquanto ele não cumpre o que promete. Faz mal feito, sem atenção e vai embora, largando o problema na sua frente e você ainda vai ter que dispor de mais recursos para resolver.

Então porque eu faço isso? Porque tenho medo de fazer errado, de não dar certo. De pagar o preço pelas minhas ações. Porque não consigo lidar com o outro de forma direta, elejo um grupo qualquer e me faço representante daquelas pessoas. Ou elejo um representante entre eles. E é esse infeliz aquele que vai lidar com os meus desafetos. Se eu não quero que aquele sujeito faça isso, reclamo com o síndico, o guardinha da rua, o gerente da loja, o patrão, o segurança, o vereador, o prefeito, o governador, o presidente. Preguiça de tomar a ação nas minhas mãos. Preguiça de ir lá conversar com o sujeito e ver ele me dizer que o direito dele é mais direito que o meu. Preguiça de ir lá e achar nessa relação quais são os nossos direitos. O que pode ser melhor para nós dois. Preguiça de dizer bom dia pro vizinho e de responder quando ele diz. Preguiça de saber o nome da pessoa.

É em nome dessa preguiça que eu contrato um filho da puta que vai me decepcionar ali na frente, com a ilusão de que estou ganhando tempo, dinheiro e recurso. Não. Não estou. É uma tremenda perda de tempo isso.

Quando eu tenho a disposição, alegria e energia para isso, me junto com esses que estão à minha volta e compartilhamos algo que vai ser legal para todos. Cada um faz o melhor que pode, o melhor que consegue. E o resultado desse arranjo é do tamanho da nossa disposição. Se hoje não foi tão bom, a gente melhora na próxima.

Democracia é esse piquenique com os amigos.

É o dia em que as famílias se juntam aqui em casa e decidimos que vai ser legal colocar nossos filhos para brincar enquanto a gente cozinha alguma coisa e conversa sobre a vida. Estamos em momentos parecidos e de repente o manual do outro tem alguma informação que o meu não tem. O jeito que o outro está tentando viver talvez tenha alguma pista sobre a minha dificuldade em viver. Que recurso maravilhoso esse!

Ou aquele momento, num grupo, numa reunião em que o sujeito diz a coisa de uma maneira que me incomoda e eu tenho a coragem de dizer isso a ele, diretamente. Naquele momento exato e não depois. Não para o outro que está do meu lado, fazendo intriga ou fofoca. Não em nome do grupo ou do partido ou da empresa. Em meu nome. Digo a ele que aquilo me desagrada porque parece que ele está tentando me ferir com aquilo. Ele me diz que não era a sua intenção. Que aquele é o seu jeito de expor as coisas. E então vamos chegando numa maneira em que eu entendo o seu jeito e ele entende que se passar de certo ponto vai me ferir. Vai invadir o meu espaço. E porque eu sou sincero, o outro passa a me considerar. Ele não vai me ferir intencionalmente. E se o fizer, vou perguntar a ele porque ele o fez e ouvir as suas motivações. Eu exponho meus limites e ele expõe os seus.

Não posso ter medo desse sujeito. Não posso criar um governo que me proteja dele. Não serei covarde. Vou cuidar da minha relação com ele da minha maneira. Fazendo eu mesmo, porque isso pra mim é a democracia.

Pra isso eu tenho que ter calma porque os recursos à nossa volta, incluindo a linguagem que usamos, a cultura, etc… já foram tão usados para essa covardia, para essa preguiça, para essa maneira de eleger um representante que me limpe a bunda ou lave a louça que eu não desejo lavar, que é muito comum que eu nem saiba como expressar o meu limite ou aquilo que estou disposto a cumprir numa relação com outras pessoas. Eu mesmo nem sei como agir nessa situação.

Então volto ao meu velho procedimento, que por hora tem dado certo. Ao invés de passar horas discutindo sobre como as pessoas deveriam agir para que aquele encontro fosse bom para todos, eu vou tentando me encontrar com as pessoas. Já ajo em termos de encontro. Não faço planos, não legislo, não me protejo. Me abro. Digo como me sinto, permito que o outro se expresse, mesmo quando ele quer fazer planos e eu não, e sigo adiante.

Democracia não é uma lei para ser executada amanhã. Não é um projeto. É uma prática diária, ou nada.