Um exercício de planejamento

Eu hoje vou te propor um exercício de planejamento um pouquinho diferente.

Você pode fazer esse exercício com papel e caneta mesmo, mas se tiver mais familiaridade com softwares de planilhas numéricas, também serve.

Desenhe uma tabela com duas grandes seções. Na primeira você vai colocar suas RECEITAS, isso é, aquilo que as suas fontes pagadoras: seus clientes, empregadores, rendimentos. Na segunda seção, vão ficar as suas DESPESAS, isso é, tudo aquilo com o que você gasta a sua RECEITA.

Mas a gente vai ampliar um pouquinho essas duas noções. Em primeiro lugar, você vai pensar que RECEITA é algo que você obtém em troca da sua energia vital dispendida no tempo. Em segundo lugar, DESPESA vai ser tudo aquilo que você empreende para obter mais energia vital.

Equilibrar o orçamento doméstico é equilibrar o seu dispêndio de energia vital na construção da sua realidade. É muito importante lembrar dessa última parte: “na construção da sua realidade”. É extremamente importante. É aqui que entram os seus sonhos, seus projetos, suas alegrias.

Então não basta que a equação RECEITA – DESPESA se iguale a zero. É preciso gerar um excedente e é nessa sobra que está o futuro.

Para quem eu desejo ceder minha energia vital e meu tempo? Qual a maneira mais eficaz de obter energia vital e tempo para construir realidades?Agora vem a política na coisa toda. É uma pesquisa que vai te tomar um certo tempo, mas você só vai precisar fazer essa vez.

Ao lado de cada produto que você consome, na seção DESPESAS, você vai anotar o fabricante do produto. E ao lado do fabricante, o nome do dono da empresa, ou dos associados conhecidos. Essas pessoas são aquelas que você sustenta quando compra o que elas fornecem, com o tempo e energia vital delas, para suprir a sua energia vital.

Faça a mesma coisa na seção RECEITAS. Anote o nome da suas fontes pagadoras. As empresas, os proprietários e os principais nomes que você se lembrar. Você cede sua energia vital e tempo para que essas pessoas supram a energia vital delas.

Perceba agora como RECEITA e DESPESA se misturam nessa conta. A minha RECEITA é a DESPESA de alguém e vice-versa. A todo tempo você está trocando um quantum de energia vital com outros seres humanos.

E é preciso que a relação seja vantajosa para ambos, se todos quiserem o direito a realizar seus sonhos e projetos futuros. É preciso que se sejam relações que gerem excedentes, certo? Para ambos os elementos. E que ambos os elementos tenham autonomia para gerir esse excedente.

Agora olhe essa lista com sinceridade e veja o enorme desequilíbrio de alguns nomes que aparecem. Perceba agora que certos nomes da sua lista recebem energia vital de grandes conjuntos humanos. Estou falando de monstrengos corporativos com mil braços, que tentam ganhar dinheiro com qualquer movimento que você faz tentando correr atrás de energia vital.

Cada bloco desses sustenta um número de pessoas, age de uma determinada maneira no planeta e remove um quantum de energia que não é reposto. Para onde vai?

Você entende onde quero chegar?

Existe um conjunto (cada vez mais seleto) de pessoas no mundo que você sustenta com a sua energia vital. Na maior parte do tempo, você não percebe onde está colocando essa energia.

Mas esses senhores nos cercaram de tal maneira que, simplesmente por estar aqui vivo estou colocando energia na vida deles a cada movimento meu. E não tenho retorno na mesma medida.

Eu invisto muito nesses senhores. Muito.

Saiba quem são eles na sua vida.

Pare de colocar dinheiro neles.

Veja se é possível e como.

Corte suas relações com esses parasitas.

É isso o que eles são.

 

 

Cinco perguntas sobre paternidade

Você poderia listar 3 coisas que você gostaria de ter sabido com antecedência para se programar/preparar/integrar em relação a

1. Antes de conceber
2. A concepção em si
3. A gravidez
4. Pós parto, puerpério, amamentação
5. Os primeiros 3 anos de vida
Eu sempre quis gerar filhos. Três filhos. Nunca imaginei que seriam três meninos, mas quando eles chegaram, isso também não me incomodou.
Eu soube que a Clau tinha engravidado todas as quatro vezes. De algum jeito. A sensação corporal é um pouco diferente, e ainda hoje, eu não consigo explicar direito. Existe uma conexão diferente. Uma intensidade e profundidade diferentes.
Acho melhor falar de “Gravidezes”. Porque foram quatro e foram muito diferentes entre si.
Pedro: Nós nos casamos e fomos morar juntos, numa casa alugada lá na Vila Romana. Continuávamos nossa vida de ativistas do Movimento Humanista e de artistas de teatro. Mantínhamos uma rotina de namorados, ainda. Mesmo com a barriga enorme, ainda achávamos que a vida seguia igual. Eu já tinha algum receio de que a Clau estivesse forçando algumas situações, mas ela queria tocar a vida como se nada estivesse acontecendo. Pedro nos ensina o que é sonho e o que é real.
Gabriel: Nós havíamos comprado a nossa casa no Butantã. Gabriel veio num momento lindo, de prosperidade. Eu tinha feito uma websérie de duas temporadas, depois de ter feito um trabalho no Caribe. Logo em seguida, peguei um longa e acabei tendo algumas diárias extras. Virei professor de uma escola Waldorf muito perto da casa nova. E a Clau também tinha assumido mais coisas na ESPM. Eu queria mudar para a casa como estava mas a Claudia quis transformar logo a casa num sobrado. A gravidez do Gabriel foi a obra da reforma da casa.  A obra havia se convertido num campo de batalha! Com 36 semanas, Claudia me pede para acompanhá-la numa consulta ao obstetra. Eu fico irritado, indignado. Tenho tanta coisa para acompanhar da obra. E ela, porque não pega o carro e vai sozinha? Quando o médico disse a ela que ela já estava de 36 semanas, só aí eu me dei conta de que a gravidez estava tão avançada. Daí eu chorei. Chorei por ter sido injusto com ela, por ter sido insensível. Tive medo de não amar essa criança, de não notá-la, de não percebê-la… E ainda tenho. Gabriel nos ensina a tolerância e a autoridade.
Miguel(?): Eu teria outro menino? Mais um? Nunca soubemos. Depois de uma jornada intensa de auto-conhecimento nos trabalhos do Movimento Humanista, eu tive a intuição de estudar massagem Ayurvédica. As coisas se encaminharam de maneira que eu larguei o teatro, larguei as aulas e me dediquei exclusivamente a esse assunto.  E no meio disso, a gravidez. Não é hora. Eu não posso lidar com isso. E depois, eu terminei aceitando. Acreditando que a vida sempre dá um jeito. Apostando na vida sempre. Ela estava inquieta um dia. E me pediu uma massagem. Sentia algo estagnado… A noite veio e ela sangrava. Então fomos para o hospital. Eles não sabem dizer a palavra morte. Falam em termos mecânicos: coração que não bate, malformação… Morte. Um ano depois, na primavera, eu atendi uma cliente que havia abortado. E foi através dela que eu me lembrei do que tinha acontecido com a Clau. Liguei para casa e ela me disse que tinha sido algumas semanas antes. Que ela se lembrou, mas não quis contar nada. Ela assumiu isso sozinha. Dos partos, eu participei. Mas essa experiência, eu tive que resolver mais tarde. Muito depois. Com bodytalk, constelação familiar e missa. Miguel nos ensina a Morte.
Francisco: Chico, o pequeno. Eu não queria mais filhos. Na minha opinião, já havia tido os três que imaginava. Mesmo que o terceiro não estivesse presente. Pedro e Gabriel já formavam uma dupla, já brincavam entre eles. A casa estava completa! Quando descobrimos a gravidez, a Claudia ficou apreensiva, porque eu já tinha dito isso de não querer mais filhos. Mas eu não liguei. Fiquei feliz! Já tinha percebido essa coisa de a vida toda se alterar completamente quando surge a criança e estava sentindo que algo grande ia se passar comigo. “Eu vou ser pai de mim mesmo”. E estava com medo disso. Fiz um trabalhão gigante para reorganizar o masculino, assumir o poder, o dinheiro, a prosperidade, o meu tamanho. Eu tinha essa sensação de que o Chico vinha trazer isso tudo na minha vida. Chico me ensina a ser grande.
Nós temos a grande felicidade de contar com os meus pais por perto. Então, sempre temos esse apoio nas grandes transições. Minha sogra se chama Auxiliadora. E minha mãe, Socorro. Duas Marias. Dois amparos.
Essa fase do pós parto é a fase em que a gente aprende a dividir. Dividir o bebê com a mãe, dividir a mãe com o bebê. Dividir a família com a família. E também aprende a criar limites. No primeiro filho eu senti que delimitava a fronteira entre os nossos pais e os pais que somos. Quando o Gabri nasceu, eu ensinei o Pedro a não ser só. Quando nasceu o Chico, ensinei o Gabri a dividir, o Pedro a cuidar e Chico a conviver.
A molecada aqui de casa mama até cansar! Então isso fica incorporado na rotina. O que eu sempre tenho que trabalhar com eles é o limite da mãe… Porque pra ela é mais difícil…
E por fim, os três primeiros anos… Nesse caso, eu prefiro falar de forma geral. Eu acho esses três primeiros anos a escola da vida no planeta. Nós saímos ali, de seres unicelulares num meio líquido e vamos evolundo, mês a mês, como fetos. Depois, chegamos à terra. Primeiro imóveis, depois rastejando, engatinhando, ficando em pé, andando. Então aprendemos a criar linguagem, a negociar, a pedir. Criamos laços e por fim, a diferença.
Foi sendo melhor ter mais crianças em casa. Melhor para eles. E para a gente. Se eu fosse fazer tudo de novo, teria o primeiro filho numa casa em que já houvesse outras crianças. Isso seria a única coisa que eu faria diferente. A gente fica tenso demais quando tem uma criança só para cuidar. O melhor é que sejam muitas. Quanto mais melhor! Nem todas precisam ser geradas por você.

 

 

Dignidade

Querido amigo,

Eu hoje testemunhei o maior ato de bravura da minha vida, naquele teu olhar.

Eu só posso imaginar a tamanha dor ali contida, naquele luto, naquela despedida, naquela singela rosa depositada com tanto amor.

Eu estava lá e vi. Você, com seus oito anos, um homem nobre como teu pai. Como a tua mãe que hoje nos deixa.

Gratidão querido, desse teu amigo para toda vida.

“Deus te abençoe, filho”. Eu só pude dizer isso.

“Deus te abençoe”.

A utilidade da arte

“Pro amigo querido Paulo Panzeri e sua tese de doutoramento

Eu me formei numa época em que a busca na Arte era de uma linguagem, uma poética. Eu entendi que isso significava uma espécie de método estilístico, um “jeitão” de resolver esteticamente um problema.

Mas antes, eu era um técnico, habilitado a trabalhar na indústria na área de projetos. Então a gente era treinado para pensar em termos de problemas e soluções. A gente inventava soluções para automatizar tarefas repetitivas. Máquinas, circuitos, softwares.

Antes ainda eu era desenhista de histórias em quadrinhos, charges e caricaturas. E antes, um inventor dos meus brinquedos. E também, desde sempre, um “puta dum zueiro do caralho”, como podem atestar diversos amigos de infância, parentes e animais. E um leitor ávido, um filósofo e durante algum tempo, um freguês assíduo dos botecos.

Então a arte ficou para mim num lugar entre a “zueira”, a invenção, a programação, a filosofia de botequim, a religião, a gambiarra, as más influências, os amigos verdadeiros e a falta de dinheiro.

De maneira que eu sempre fiquei me perguntando se aquilo tudo era útil para mais alguém…

Se eu não estava, na idade adulta, dando um jeito de continuar brincando enquanto alguém pagava as contas. Esse alerta da esposa, dos boletos, da casa, dos filhos que foram se somando, das mensalidades escolares… Então as aulas de teatro, uma mistura do que eu aprendi na catequese, com exercícios tirados de algum livro de teatro, com as coisas ditas nas aulas de teatro que eu freqüentava como aluno. Indicação da irmã, primeiro. Depois dos amigos.

E eu sempre inquieto com a escola. Sempre indisposto com ela, desde sempre, desde cedo. Desde o primeiro dia de aula.

Mas fui notando que o ator mais novo que eu, o ator de escola, ele não entendia certas coisas que a gente estudava na faculdade. Ele não tinha as referências que meu professor de teatro dizia serem essenciais. A diretora queria a peça para enfeitar a festa. Os pais queriam que os filhos falassem muito. A professora da sala queria que a coisa saísse bonita.

Foi ali que eu comecei a entender que de algum jeito, aquilo tudo cumpria uma função naquela comunidade. Não era a minha obra, mas a obra daquele grupo humano o que realmente importava. Claro que meu jeito de entender isso foi assim: eu fui sendo demitido inúmeras vezes. Ou então, pedia para sair porque não suportava essa idéia.

Como artista, queria essa coisa para mim, essa obra prima. O gênio, meu deus, o gênio!

Mas qual a utilidade disso?

Essa é a pergunta fundamental. Qual a utilidade desse meu pensar, sentir e atuar para criar essas novas realidades, integrado a essa comunidade que me cerca, mas não cerceia?

A comunidade, no papel de público da “minha obra” deve ser algum tipo de doença mental, dessa lista imensa que hoje temos.

Acho que se fez, nessa época, um arranjo macabro entre a idéia do self-made-man, que sustenta o capitalismo, com a idéia do gênio da renascença. É essa idéia alardeada por toda parte o que gerou essa pretensão toda da minha parte. E me fez querer ser uma mistura de Tony Stark com Leonardo Da Vinci…

E acho que isso é algo que afeta uma geração inteira de artistas.

Ao mesmo tempo, os problemas da vida civil se somam e as corporações nos cercam por toda a parte, comprando o apoio de governantes, na forma de contratos e leis que os favoreçam.

E nós, ocupados que estamos com os boletos que não param de chegar, lamentamos a falta de leis que subsidiem nossa arte. Que merda é essa?

Não.

Algo não vai bem.

Mesmo você, na crista da onda, sabe disso…

Mesmo você, com a casa cheia, viajando mundo a fora, escalado para a próxima produção, com vinte anos de pesquisa na companhia tal, mesmo você… você sabe disso. A casa está caindo irmão!

E o único jeito de fazermos algo me parece ser, justamente, pensar na utilidade do que fazemos para a nossa comunidade. Algo além do “vai me ver que eu estou em cartaz”.

Não é a besteira de formar mais artistas para o mercado.

Talvez seja a besteira de formar mais pessoas fora do mercado. Pensando outra maneira de se relacionar com a comunidade, que não seja o trabalho, ou o mercado, ou os produtos, ou a minha obra.

Um jeito de ajudar as pessoas a terem de volta o próprio sistema nervoso e serem criadores de sua própria realidade.

De algum jeito, isso me parece magia.

Coisa de pajé.

De xamã.

De palhaço sagrado.

Dionísio, novamente, se impondo.

Economia que gera saúde

Queria partilhar esse aprendizado com o dinheiro. Eu sempre tive um certo rechaço com a idéia de concentração de recursos e desigualdade. Normalmente se cria uma justificativa para a concentração de renda tentando igualar diversidade com desigualdade, dizendo que é natural que algumas pessoas tenham mais capacidade de ganhar dinheiro do que outras e que isso faz com que a renda fique concentrada nas mãos de poucos.

Não entendo que é bem assim, mas entendo essa confusão. No nosso aprendizado sobre a partilha,escolhemos um único mediador para a troca de todos os nossos recursos que é a dívida e não a fartura. A dívida do outro, para comigo e não o meu excesso daquele recurso, que se não for empregado na troca, vai virar lixo.

Então chamamos a dívida de dinheiro e supostamente criamos um isolante emocional para a degradação. Então as coisas passam a “valer” dinheiro e esse valor é supostamente algo objetivo e isento. Tudo pode ser trocado por dinheiro e cada coisa tem seu preço. O preço é dado pela lei de oferta e procura. Quanto menos se tem da coisa, mais valiosa ela se torna. Quanto mais banal, menos valor tem.

O macabro na coisa é isso: você diminui o dinheiro em circulação. Então o dinheiro se torna raro. Com isso, você precisa aumentar o preço das coisas, para que o dinheiro chegue na suas mãos o quanto antes. Para aumentar o preço das coisas, você precisa usar simultaneamente duas estratégias: primeiro precisa comprar barato, isso é usar menos dinheiro para adquirir as coisas; segundo, precisa vender mais caro, parecendo que o preço é justo.

Na primeira estratégia, você precisa degradar o produto de quem te fornece. Dizer que a qualidade não é boa, etc… Para isso, você vai precisar criar para ele um concorrente. Alguém que vende melhor e mais barato do que ele. Qualquer outra qualidade que esse suposto concorrente tenha a mais do que o sujeito em questão serve para baixar o preço da mercadoria. Mesmo que o concorrente não exista na realidade. E para que seus fornecedores não saibam disso, você precisa criar alguma maneira de dividi-los, alguma intriga, alguma coisa secundária. Isso já é o suficiente para que os preços se mantenham baixos.

Na segunda estratégia, basta que você atribua alguma vantagem fictícia ao produto vendido. Quer dizer, você faz exatamente o contrário do que foi feito na primeira estratégia. É preciso que você diga que o seu produto é algo valioso. Único. Você cria valores adicionais ao seu produto. Você pode vender um produto pior, comprado bem mais barato, pelo valor do produto em excelência. O que vale é como você chama o produto e como você agrega valor a ele. O “concorrente” nesse caso é o produto antigo. Que é sempre pior do que o novo, que é mais caro.

Se isso não for possível, crie variações sobre o mesmo tema. Venda tomates menores pelo preço antigo e tomates do tamanho antigo por um preço mais alto. Ou ainda, atribua o aumento do preço a instâncias não presentes, como o governo ou o sindicato. Não importa.

Essas estratégias no lidar com a matéria vão ficando cada vez mais enroladas, no momento em que tentamos estabelecer o valor de um “homem”. Seja através daquilo que ele faz, daquilo que ele significa emocionalmente para mim, não importa… Todo homem tem seu preço. Essa frase sozinha anula completamente toda a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Transforma o homem numa coisa a ser comprada pelo menor preço. Num escravo.

Então eu sou algo que passa a ter que valer mais que o outro. Para isso tenho que diminuir o outro. Ele é mais jovem, menos experiente, preto, mulher, homossexual, nordestino… qualquer coisa, menos eu, porque eu valho mais. E sempre com a sensação de que algo vai mal nessa conta. Porque sempre aparece aquele que é “mais”  que eu. Mais branco, mais bonito, mais inteligente, mais esperto…

E somos lançados ao lugar do fornecedor, ali daquele parágrafo sobre a primeira estratégia. O outro fornece algo melhor que eu e eu preciso me vender mais barato. Preciso aceitar qualquer condição, qualquer troca.

E com isso, o dinheiro passa a valer ainda mais e o homem cada vez menos. Com a mesma quantidade de dinheiro é possível comprar cada vez mais homens e tudo o que eles produzem.

E a concentração acontece dessa maneira, bem simples. E sabemos disso. Sabemos disso e não conseguimos sair dessa ciranda. Porquê?

Não é porque o ser humano é assim, ou qualquer besteira simples dita assim sem pensar. Não. É simples.

O que é que só você veio fazer aqui?

Você: único, diferente de qualquer outro ser humano que exista agora e de qualquer outro que já tenha existido.

Essa é a questão a ser respondida. A única que vale a pena e estamos afastados dela por tempo demais. E ela libera o recurso único que cada um de nós tem a oferecer.

Os hindus tem essa sabedoria das quatro grandes metas, que eu acho muito bonita, embora não tenha servido para resolver a questão da igualdade social na própria Índia: Cumprir o dever (realizar o propósito), Gerar fartura, Sentir prazer de estar vivo e por fim Liberação (fazer as coisas com um fim em si mesmas).

Se ocupar desse assunto e atender a que outros se ocupem desse assunto. Isso seria economia. Partilhar esse recurso e ao fazê-lo, colocar o outro em situação de fazer o mesmo.

Cada um de nós, ocupado em atender a esses quatro objetivos, de forma integral em nossa vida e estaríamos falando de economia, no sentido pleno. Economia de fartura, de recursos renováveis, de vida.

Uma economia que gere saúde.

Crochê

Antes de eu saber o que era mandala, eu aprendi o que era crochê.

Minha mãe e tias tinham aprendido a arte com a minha avó e durante a minha infância, acompanhei muitas horas dessas tramas sendo tecidas, enquanto elas conversavam sobre a própria vida ou a vida de outros.

A linha vem numa espiral enrolada num novelo. E então a gente vai desenrolando essa espiral e tecendo os nós com uma agulha em forma de gancho. O padrão vai emergindo aos poucos, à medida que as carreiras se entrelaçam e volteiam sobre si mesmas, fazendo novo traçado, numa nova dimensão. Então temos a linha, o nó (ou ponto), a carreira (ou corrente), as casas (cheias e vazias), os motivos de diferentes geometrias. Espirais sobre espirais. Tramas sobre tramas. Dimensões superpostas.

E então isso virava colcha, vestido, fronha, camiseta, almofada, toalha de mesa, barrado. A utilidade, configurando outra dimensão.

Essas coisas que doem no corpo da gente, essas tensões, a gente também chama de nós. Então um dia, massageando as dores de alguém, eu me lembrei do crochê. Me lembrei que quando algo imprevisto acontecia e minha mãe errava um ponto, ela tinha que desmanchar toda a carreira para começar tudo de novo.

Uma das coisas mais bonitas do crochê é essa percepção de que não se pode continuar de qualquer maneira, sem resolver os erros em cada etapa. Isso sempre vai comprometer todo o resultado. Você precisa aprender a fazer o ponto certo. Mas também precisa aprender a lidar com seus erros e a corrigi-los. Puxar a linha da trama, desfazer o nó incorreto, voltar a tecer a trama.

Essas histórias que a gente entrelaça uma nas outras a gente também chama de trama. Um dia, escrevendo uma peça de teatro, eu também me lembrei do crochê. Lembrei da minha mãe empilhando os motivos numa sacola para depois juntá-los e dar a forma de uma toalha. Sendo também a peça de teatro uma trama feita de motivos distintos.

Elas teciam sem olhar para a linha, em alguns momentos. Me surpreendia ver essa tia que tecia o crochê enquanto assistia televisão. Quando o ponto era muito complexo, ela olhava para o que estava fazendo. Quando aquilo se configurava como automatismo, ela conseguia assistir televisão. Entre uma coisa e outra, emitia uma opinião sobre o que estava acontecendo na novela e eu sempre me perguntava como era possível que ela nunca perdesse o fio da meada. É claro que perdia. Às vezes errava um ponto ou confundia algo na trama da novela. Mas no geral, seguia com o crochê, desenrolando o novelo, enquanto se enrolava na novela.

Esses automatismos que a gente vai desenvolvendo, são estratégias que a gente vai desenvolvendo para não perder o fio da meada. Dependendo de onde está a nossa atenção no momento em que os configuramos, nos desenrolamos com eles ou ficamos cada vez mais enrolados. Liberação ou aprisionamento, dependendo apenas de onde colocamos a nossa atenção.

Eu já era adolescente quando isso me ocorreu pela primeira vez. Eu no computador, fazendo um programa em BASIC, e minha mãe na sala, tecendo seu crochê.

Na programação, aprendi a criar funções. Você tem alguns problemas que se repetem, não importa qual seja o programa que você está desenvolvendo. Então você cria uma estrutura para resolver esses problemas e essa estrutura se chama algoritmo. Com um algoritmo, você pode escrever uma função em qualquer linguagem. Essas funções vão sendo agrupadas numa biblioteca. É como uma caixa de ferramentas de programação. Nem sempre você vai usar todas, mas elas estão ali, salvas em algum lugar e você só precisa acioná-las com alguns parâmetros estabelecidos e elas vão retornar valores que você vai usar adiante.

Isso se parecia com os motivos que minha mãe guardava sempre nas suas diversas sacolas. Coisas que ela achou que ficariam boas em suas construções, mas que não serviam. Ou coisas que ela tinha feito apenas para treinar um novo ponto. De repente, ela se lembrava daquele bloco já pronto e percebia que aquilo poderia virar uma aplicação numa toalha de banheiro.

Foi só muito depois que eu fui aprender algo sobre hinduísmo, que é uma outra caixa de ferramentas. Existe essa palavra, cheia de sentidos, que foi lida no ocidente apenas como pecado ou maldição. Uma das minhas tias sempre foi chamada por essa palavra até que um dia começou a duvidar que esse nome fosse bom para ela. Carma, minha tia.

Karma, método, procedimento, abordagem. A idéia de que o resultado de algo é o efeito das ações empregadas para gerá-lo. Você tem um problema e desenvolve um método para abordá-lo. Esse método se revela ineficaz em determinadas condições. Você refina o método, e tenta uma vez mais e outra ainda. Essa repetição infinita, o loop existencial é Samsara.

Quando o método se encontra perfeitamente refinado, vira uma ferramenta útil. E é possível se liberar dele.

Então a Mandala surge. E com ela, o sentido de unidade.

 

Jogo

Eu aprendi a tentar definir uma experiência usando as palavras, e aqui estou eu, tentando transformar experiência em raciocínio, raciocínio em palavra, palavra em comunicação, de um jeito que a experiência chegue até você.

Então você faz o caminho inverso e pega as palavras para chegar ao meu raciocínio, para então ver se consegue se colocar no meu lugar e então entender como aquela experiência me afetou.

Me parece um caminho longo e tortuoso. Parece que perdemos mais tempo tentando desenlaçar as intepretações para chegar a uma coisa que não se transmite dessa maneira.

E a escola, sendo isso. Sendo pior que isso, porque muitas vezes se tenta transmitir não a experiência, mas o conceito da experiência. O resumo escrito de algo, na forma de informação, de dados a serem alocados na memória para serem repetidos depois, de forma escrita, falada. Isso nunca vai ser experiência e nunca será conhecimento.

Talvez controle social. Só talvez. Parece-me que essa idéia de conhecimento, essa idéia de memorizar dados e transmitir informações tem a pretensão de gerar padrões de conduta, modelos de comportamento, uma programação de usos específicos para a sua energia vital. Mas isso tampouco funciona.

Lá está o governo e as empresas, vasculhando seus dados para ver se conseguem prever quais são as suas necessidades, qual é a melhor maneira de mantê-lo acuado, sob controle, quieto e sem ação. Olhando suas fotos, seus textos, sua comunicação digital, suas falas ao telefone, os filmes que você assiste, os produtos que você consome… então, nessa falsa premissa de que a experiência do que você é pode ser transmitida na forma de dados, imaginam que você pode ficar sob controle, seguindo o programa estabelecido. Mas não.

Não é que você se rebele, ou proteste. Você simplesmente é mais que o amontoado de dados transmitidos e essa é a maior encriptação que você possui. Você é o enigma.

Por isso o jogo. O jogo como maneira de partilhar experiências, não conceitos. O jogo, a festa, o rito puro.

Escolho o conceito e jogo com ele. Brinco. Crio a brincadeira para extrair do conceito a diversidade de experiências que ele contempla. Não se busca a interpretação única, a história linear do uso daquele conceito. Se busca a diversidade nas interpretações a multi-dimensionalidade do conceito. Não se joga para procurar respostas, mas para refinar perguntas.

O olho esse “algo”, isso que me toca e que transformo em conceito, como uma espécie de síntese. Enquanto o conceito guarda a interrogação do primeiro contato com esse “algo” , ele possui potência. Quando conceito se transforma em ponto final, ele morre. E fatalmente, se converterá em exclamação, como um movimento inútil para se tornar vivo.

Jogo é uma pergunta, com regras pontuais, para exclamar o humano e sua potência revelando a eterna reticência que o acompanha.

Notas sobre o Palhaço

Hoje é quatro de fevereiro de 2015.

Sem nenhuma das minhas velhas razões para fazer isso, eu me inscrevi num curso de palhaço, com a Quito. Não estou fazendo teatro, não tenho nenhum projeto em mente, não estou à procura de editais e nem me cooperativei novamente.

Eu só estava cansado da seriedade e me lembrei de o quanto era divertido ver as pessoas rindo por uma coisa que eu tinha inventado. Queria entender esse lugar do humor na vulnerabilidade, pensei que isso poderia me ajudar como terapeuta, que é como eu estou agora.

Então estou indo para o meu terceiro dia no workshop. E até ontem à noite, eu estava muito a vontade. Mas daí, eu fiquei inquieto… Comecei a pensar que devo estar fazendo alguma coisa errada. Devo estar escondido atrás de alguma técnica invisível, dessas que a gente desenvolve depois de longos anos praticando uma coisa.

Eu entro em cena e não tenho nada muito claro. Tenho uma vaga idéia de um caminho por onde eu poderia seguir. Se ele dá certo, ótimo. Se ele não dá certo, tudo bem. A cabeça funciona numa velocidade incrível e sempre dá para aproveitar alguma coisa que está acontecendo e resolver a cena de um jeito engraçado. Timming, sempre, já internalizado, já resolvido. Vinte anos fazendo comédia. Praticamente. Improvisando, resolvendo.

A Quito propõe o jogo e eu fico ali um tempo, vendo como meus colegas jogam. Vendo essa hora em que a estratégia não funciona e ninguém acha a menor graça no que você faz. Vendo como a gente cai na tristeza nessa hora e como isso te leva a energia de cena. E então, quando eu tento fazer isso, não acontece nada. De algum jeito, muito rapidamente, eu resolvo a coisa e a platéia gosta.

Estou fodido, entende?

Eu sei exatamente que lugar é aquele ali que aparece nas cenas dos meus colegas. Eu sei. E eu passo por ele batido. Dou um jeito. Ao menos ali, na cena, eu resolvo a coisa. Mas então eu fiquei pensando que eu não resolvo isso sempre na minha vida. No tempo em que eu estava atuando.

Não.

Eu chegava para fazer um teste numa produtora qualquer e me davam um papel com meu nome e idade. Depois, alguém me vestia de acordo e o assistente me dava um papel com um texto pequeno para decorar.

Desde o momento em que eu chego na produtora e vejo mil colegas na fila, todos eles endividados como eu, todos eles tentando ser divertidos, falando sobre os projetos e etc, desde o primeiro segundo até o momento em que finalmente chega a minha vez e eu começo a cena, sem ter certeza de que é isso o que eles querem, se eu estou bem, se vou ganhar aquela grana, se o outro cara foi melhor do que eu, se aquela cara do assistente é cansaço, tédio, desolação pela minha cena ou se é algo da vida dele que não vai bem, se aquele cara da câmera atendendo o celular durante o trabalho se ele já sabe que eu não sirvo pra isso… E então eu me lembro que esqueci a DRT em casa e eles não vão me pagar o cachê teste, que é uma miséria sempre… Ali eu não consigo me divertir! Ali entra algo que acaba com o Palhaço, se é que é ele quem se expressa quando eu entro em cena.

Somente uma vez na minha carreira eu não senti isso. Foi quando eu fiz o teste para o “Cabeça”, num seriado on-line para a Locaweb. Foi algo externo a mim, algo que eu não manejei ainda. O briefing era muito bom e o personagem não tinha tantas falas no roteiro. Eu podia fazer o que quisesse. Então eu me diverti. Fiz o que bem entendi, mesmo que desse errado. Eu aproveitava qualquer estímulo e incluia no aloprado. Pronto.

E aí peguei o papel. Voltei de um outro trabalho e parece que toda a equipe falava do meu teste, que tinha sido ótimo. As pessoas já sabiam quem eu era. E nas filmagens, eu sempre me divertia muito.

Isso até que o Cabeça deu certo.

Então, o cliente arranjou mais texto para o Cabeça. Criamos o “funk do cabeça”e aí, depois disso, esse outro “algo”apareceu e tudo aquilo ficou muito amargo para mim.

Hoje está parecendo pra mim que o Palhaço é o diabo desse Ator que pretende o sucesso, a fama, a glória, os rios de dinheiro. Parece que ele é a verdade desse “Gênio-incompreendido”, desse ator sem importância, fracassado, cheio de dívidas e mentiroso.

De volta ao palco e então eu sinto o perigo da situação. A platéia pode gostar ou não do que eu faço. À princípio, eu esqueço completamente deles. Só me lembro que estão ali, quando dão as primeiras risadas. Então percebo que funcionou  e continuo jogando.  Ali, na terra da Micagem, eu domino.

Mas nessa vida a sério, essa sensação de fracasso, de humilhação, de miséria, de incompreensão, de abandono, ela me desanima e me faz desistir de ser visto.

Sabendo que sou eu, num estado ou no outro, aquele que atribui valor em ambas as situações.

Eu gostaria de tomar contato com esse lugar de desconforto e ver o que acontece, quando eu entro nele. Será que isso vai acontecer em algum momento, nesse workshop?

Será que eu descobri, de algum modo, com essa associação de idéias um modo de trazer o Palhaço adiante quando a humilhação for inevitável?

Me parece que tudo o que fiz de arriscado foi conduzido por esse espírito do Palhaço. Tudo. Essa maneira de dar respostas à vida com o mote: “Não sei fazer isso, nunca fiz isso, preciso desse recurso e na hora eu dou um jeito, faço qualquer coisa, resolvo, mesmo que dê errado”. E resolvo.

Então entra o “ARTISTA”, o “GÊNIO” e ele me fode!

Ele não entra em cena, como o Palhaço.

Não. Ele fica nos bastidores, contando os espectadores, lutando contra as opiniões e as críticas, reclamando das péssimas condições de trabalho, chorando pelo cachê teste e a falta das políticas culturais.

Eu ainda não sei se esse estado em que entro quando estou em cena e as pessoas riem é o estado do Palhaço. Eu me sinto vulnerável ali, mas não me importo.

E parece que com isso sou invulnerável.

Só gostaria de ser assim durante mais tempo na minha vida.

A velha

Então eu vejo essa menininha entrando nesse jardim abandonado.

O mato cresce solto, sem nenhum cuidado, por toda a parte.

Não entendi bem de onde a menina veio. Parece que chegou aqui por acaso. Talvez esteja perdida.

Ao mesmo tempo que eu, a menina vê a velha sentada no banco.

A velha tricota infindavelmente uma manta que se arrasta pelo chão.

Não consigo explicar essa sensação de perigo que sinto ao ver a menina se aproximando da velha para pedir, talvez, informações sobre como sair daqui.

“Bom dia, eu estou procurando a saída desse lugar.”

“Talvez seja uma boa idéia você voltar por onde veio.” – responde a velha, usando a lógica com a qual tricota.

“Não sei por onde vim. Quando me dei conta, já estava aqui.”

“Hmmm.”- resmunga a velha, como se estivesse diante de um problema de difícil resolução.

“Desculpe. Eu não me apresentei antes. Meu nome é Carolina. Eu cheguei até aqui, não sei como e agora gostaria de sair. Estou preocupada com os meus pais.”

“Carolina?”- a velha então ri.

“Sim, Carolina. Por que a senhora riu?”

“Porque você disse que seu nome é Carolina.”

“Sim. A senhora conhece alguém com esse nome?”

“Seu nome não é Carolina.”

“É sim!”- responde a menina sem entender direito onde a velha pretende chegar com a conversa.

“Entendi. Eles disseram a você que seu nome é Carolina.”

“Todo mundo me chama de Carolina.”

“Mas o seu nome verdadeiro é Nádia.”

“Como?”

“Nádia.”

“Não. Nunca.”

“Esse casal, que você chama de pais, eles não são seus pais de verdade. Eu conheci sua família, muito tempo atrás…”- foi aqui que eu me dei conta do que a velha estava fazendo. Eu queria gritar, avisar a menina para sair dali, mas estava paralisado.

“Seus pais morreram num acidente de carro quando você ainda era um bebê. Você foi a única sobrevivente e então esse casal lhe adotou e chamou você de Carolina.”

“Não, não é verdade!”

“Nádia. Filha de Ivan e Micaela. Os dois mortos, num acidente de carro.”

Eu sabia que era mentira.

Que a velha estava inventando essa biografia por pura maldade.

Mas a menina, a menina não sabia.

Ela estava acreditando na velha.

A velha e todas as histórias já contadas, todos os roteiros já previstos, toda tragédia do mundo, esmagando a história que a menina conhecia sobre si mesma, também essa uma história contada por outros.

Eu sabia que a esperança estava em a menina ser capaz de tecer a própria história, mas não podia me mover. Não podia fazer nada a respeito.

Eu era testemunha dessa morte e não podia sair dessa condição.

Foi então que eu percebi o pesadelo.

E acordei.

O melhor de nós

O que ontem era o sol, agora é a lua.

Mas ao sol, atou-se o rei

o ouro

a riqueza

a razão

os valores

a lucidez

e então, quando a lua veio

o rei tornou-se um louco

o ouro desapareceu

a riqueza de apagou

a razão se perdeu

a torpeza virou moeda

a loucura virou hábito

Como foi que aconteceu?

Atado ao sol e percebendo a chegada da lua, o rei gastou enormes somas pretendendo manter para sempre o sol em seu lugar. Chamou para si os maiores sábios da terra e deu a ele recursos ilimitados para que resolvessem a seguinte questão: o que pode ser mais importante que o sol?

Mil homens se queimaram, por buscar as respostas além do sol, até que os sábios restantes entraram em acordo que além do sol só havia a morte.

Os homens que se lembravam da existência da lua tentaram argumentar, primeiro com os sábios e depois com o próprio rei. Mas foram enviados para além do sol, de maneira que pudessem provar seu argumento. Nenhum deles retornou.

Os poucos que permaneceram resolveram seus dilemas com segredos, códigos, mentiras e silêncio. Eles sabiam que além do sol havia a lua, que de fato, aquilo que já se avistava no céu já era a lua, mas que o rei e os sábios haviam mudado o nome da coisa para manter o significado do sol.

E isso sucedeu de tal maneira que, ao cabo de algumas gerações, os homens não sabiam mais o que era sol e o que não era e se tornaram dependentes dos sábios para que esses lhes interpretassem os sinais. Nesse tempo, não havia mais os homens que se lembravam de que aquele céu negro era de fato a noite. E os homens dessa época eram acometidos por estranhas imagens e monstros com os quais raramente podiam lutar.

Se tornou comum as histórias de gente que, enfrentando esses espíritos eram subitamente lançados e outro lugar, onde encontravam seus familiares, também eles acossados por monstros em distintos pontos do reino. Homens e mulheres dessa época já não distinguiam entre sonho e realidade e passaram a se armar contra os monstros imaginários, concluindo seus atos com assassinatos reais.

Rei, sábios, homens comuns, todos submetidos a uma cartografia impossível, a um território sem limites e a monstros que os atormentavam a todo instante, por mais escondidos que estivessem, sem que se pudesse diferenciar o dia da noite; o sonho, do real; a crença, do recurso.

Os homens empobreciam dia a dia, pois trabalhavam no sonho esperando a colheita na realidade. Sábios gastavam recursos reais com sonhos que nunca se esgotavam. E o rei perseguia miragens de homens obedientes e monumentos feitos em sonho, enquanto que na realidade, se via envolto em traições e intrigas, com seu valor decaindo mais e mais.

Os homens-segredo, aqueles que se lembravam da realidade do sol e da realidade da lua imaginaram que, a única maneira de fazer com que seus semelhantes acordassem de tal pesadelo era criar, na realidade, atos de sonho. Ordenar o sonhar, de tal maneira que a loucura dessa época fosse abalada pelo sublime.

Então criaram esses grandes espetáculos coletivos, monumentos fabulosos, direcionando recursos de reis e homens sábios para criar miragens que dessem direção ao sonhar. Mas a cada geração, tornavam os homens ainda mais dependentes.

Ainda se esforçando para resgatar o sentido, os homens-segredo tentaram o caminho inverso: criar no sonhar, atos de realidade. Nesse caminho entraram homens comuns, sábios e até mesmo o rei, buscando um espírito perdido em miríades de sonhos e imagens desconexas. Almas se silenciaram, sabedorias se abalaram, e reis se perderam, mas a realidade e o sonho continuavam mescladas com a loucura.

Nesse tempo, o tempo do agora, é o tempo em que os homens-segredo tentam trazer mais uma vez, sol e lua de volta. Eles agem na realidade e re-significam seus atos no sonhar. Ações de sol e ações de lua, para finalmente, colocar as coisas no devido lugar.