Notas sobre o Palhaço

Hoje é quatro de fevereiro de 2015.

Sem nenhuma das minhas velhas razões para fazer isso, eu me inscrevi num curso de palhaço, com a Quito. Não estou fazendo teatro, não tenho nenhum projeto em mente, não estou à procura de editais e nem me cooperativei novamente.

Eu só estava cansado da seriedade e me lembrei de o quanto era divertido ver as pessoas rindo por uma coisa que eu tinha inventado. Queria entender esse lugar do humor na vulnerabilidade, pensei que isso poderia me ajudar como terapeuta, que é como eu estou agora.

Então estou indo para o meu terceiro dia no workshop. E até ontem à noite, eu estava muito a vontade. Mas daí, eu fiquei inquieto… Comecei a pensar que devo estar fazendo alguma coisa errada. Devo estar escondido atrás de alguma técnica invisível, dessas que a gente desenvolve depois de longos anos praticando uma coisa.

Eu entro em cena e não tenho nada muito claro. Tenho uma vaga idéia de um caminho por onde eu poderia seguir. Se ele dá certo, ótimo. Se ele não dá certo, tudo bem. A cabeça funciona numa velocidade incrível e sempre dá para aproveitar alguma coisa que está acontecendo e resolver a cena de um jeito engraçado. Timming, sempre, já internalizado, já resolvido. Vinte anos fazendo comédia. Praticamente. Improvisando, resolvendo.

A Quito propõe o jogo e eu fico ali um tempo, vendo como meus colegas jogam. Vendo essa hora em que a estratégia não funciona e ninguém acha a menor graça no que você faz. Vendo como a gente cai na tristeza nessa hora e como isso te leva a energia de cena. E então, quando eu tento fazer isso, não acontece nada. De algum jeito, muito rapidamente, eu resolvo a coisa e a platéia gosta.

Estou fodido, entende?

Eu sei exatamente que lugar é aquele ali que aparece nas cenas dos meus colegas. Eu sei. E eu passo por ele batido. Dou um jeito. Ao menos ali, na cena, eu resolvo a coisa. Mas então eu fiquei pensando que eu não resolvo isso sempre na minha vida. No tempo em que eu estava atuando.

Não.

Eu chegava para fazer um teste numa produtora qualquer e me davam um papel com meu nome e idade. Depois, alguém me vestia de acordo e o assistente me dava um papel com um texto pequeno para decorar.

Desde o momento em que eu chego na produtora e vejo mil colegas na fila, todos eles endividados como eu, todos eles tentando ser divertidos, falando sobre os projetos e etc, desde o primeiro segundo até o momento em que finalmente chega a minha vez e eu começo a cena, sem ter certeza de que é isso o que eles querem, se eu estou bem, se vou ganhar aquela grana, se o outro cara foi melhor do que eu, se aquela cara do assistente é cansaço, tédio, desolação pela minha cena ou se é algo da vida dele que não vai bem, se aquele cara da câmera atendendo o celular durante o trabalho se ele já sabe que eu não sirvo pra isso… E então eu me lembro que esqueci a DRT em casa e eles não vão me pagar o cachê teste, que é uma miséria sempre… Ali eu não consigo me divertir! Ali entra algo que acaba com o Palhaço, se é que é ele quem se expressa quando eu entro em cena.

Somente uma vez na minha carreira eu não senti isso. Foi quando eu fiz o teste para o “Cabeça”, num seriado on-line para a Locaweb. Foi algo externo a mim, algo que eu não manejei ainda. O briefing era muito bom e o personagem não tinha tantas falas no roteiro. Eu podia fazer o que quisesse. Então eu me diverti. Fiz o que bem entendi, mesmo que desse errado. Eu aproveitava qualquer estímulo e incluia no aloprado. Pronto.

E aí peguei o papel. Voltei de um outro trabalho e parece que toda a equipe falava do meu teste, que tinha sido ótimo. As pessoas já sabiam quem eu era. E nas filmagens, eu sempre me divertia muito.

Isso até que o Cabeça deu certo.

Então, o cliente arranjou mais texto para o Cabeça. Criamos o “funk do cabeça”e aí, depois disso, esse outro “algo”apareceu e tudo aquilo ficou muito amargo para mim.

Hoje está parecendo pra mim que o Palhaço é o diabo desse Ator que pretende o sucesso, a fama, a glória, os rios de dinheiro. Parece que ele é a verdade desse “Gênio-incompreendido”, desse ator sem importância, fracassado, cheio de dívidas e mentiroso.

De volta ao palco e então eu sinto o perigo da situação. A platéia pode gostar ou não do que eu faço. À princípio, eu esqueço completamente deles. Só me lembro que estão ali, quando dão as primeiras risadas. Então percebo que funcionou  e continuo jogando.  Ali, na terra da Micagem, eu domino.

Mas nessa vida a sério, essa sensação de fracasso, de humilhação, de miséria, de incompreensão, de abandono, ela me desanima e me faz desistir de ser visto.

Sabendo que sou eu, num estado ou no outro, aquele que atribui valor em ambas as situações.

Eu gostaria de tomar contato com esse lugar de desconforto e ver o que acontece, quando eu entro nele. Será que isso vai acontecer em algum momento, nesse workshop?

Será que eu descobri, de algum modo, com essa associação de idéias um modo de trazer o Palhaço adiante quando a humilhação for inevitável?

Me parece que tudo o que fiz de arriscado foi conduzido por esse espírito do Palhaço. Tudo. Essa maneira de dar respostas à vida com o mote: “Não sei fazer isso, nunca fiz isso, preciso desse recurso e na hora eu dou um jeito, faço qualquer coisa, resolvo, mesmo que dê errado”. E resolvo.

Então entra o “ARTISTA”, o “GÊNIO” e ele me fode!

Ele não entra em cena, como o Palhaço.

Não. Ele fica nos bastidores, contando os espectadores, lutando contra as opiniões e as críticas, reclamando das péssimas condições de trabalho, chorando pelo cachê teste e a falta das políticas culturais.

Eu ainda não sei se esse estado em que entro quando estou em cena e as pessoas riem é o estado do Palhaço. Eu me sinto vulnerável ali, mas não me importo.

E parece que com isso sou invulnerável.

Só gostaria de ser assim durante mais tempo na minha vida.

Desistência

Eu escrevi “um grande fracasso” um tempo atrás, dando conta da minha aposentadoria. Agora comecei a receber umas mensagens estranhas falando para eu não desanimar, que é assim mesmo, etc… Alguns amigos estão na esperança de que a minha “desistência” seja temporária, seja uma suspensão de atividades.

Isso tem sido recorrente. Quando eu encontro meus amigos do teatro e digo que não estou mais atuando, me sinto um pouco como se estivesse com a mão amarela. Sabe? “Quem peidou está com a mão amarela”  e você, bobo, olhava para a mão para ver se estava amarela, embora você mesmo não tivesse soltado aquele peido.

Tem esse outro amigo que está no momento oposto ao meu, isso é, ele está batalhando para que a sua carreira engrene, para que seus projetos sejam aprovados. Ele é um puta trabalhador. Mas pra ele é impossível entender que eu esteja aposentado e volta e meia ele pede minha participação em qualquer nova idéia que ele tem. “Não dá, velho. Isso seria um desvio na minha trajetória.”, eu respondo.

Então eu resolvi explicar um pouco melhor, porque no outro texto parecia que eu estava reclamando da vida, e não é verdade. Deixa o outro texto lá. Deixa ele lá inteirinho, sem edição. Esse aqui é outro negócio.

Eu senti desse jeito, que se eu seguisse naquele rumo, fazendo testes, me sujeitando aquela merda toda, ali sim eu estaria desistindo de mim mesmo, entende? Eu nunca estive de acordo com isso tudo. Sou um cara que gosta muito de trabalhar. Muito mesmo. Até um certo ponto da vida, bastava eu trabalhar e fazer direito o meu trabalho que novas oportunidades apareceriam por tabela.

Vinte anos. Sendo o melhor ator que eu consegui ser. E não. Precisava algo a mais. Fiz aquilo tudo como um sacerdócio. Como uma celebração ao humano, como uma experiência maravilhosa de autoconhecimento, de busca de sentido. Mas a conta estava no vermelho e eu não queria ficar consertando computador ou fazendo qualquer uma das outras mil coisas que eu sei fazer para ganhar dinheiro. Aliás, eu não queria fazer nada que fosse só para ganhar dinheiro (razão principal para eu ter deixado a eletrônica de lado para me tornar um ator de teatro).

Então, vinte anos, um casamento, dois filhos (mais um a caminho), uma casa financiada, uma família, coisas que me dão um prazer enorme, estava eu sendo ator, tentando ganhar dinheiro e não perder a dignidade. Merda, na certa!

O amigo fazendo um trabalho para a Monsanto e o outro ajudando os políticos a mentirem melhor, um terceiro fazendo a sua terceira campanha política para um político de outro partido, cada vez pior. Um outro que vende o Mc Câncer feliz. E eu conheço esses caras e sei que pra eles “é só um trabalho”. Mas pra mim não é. Pra mim é como se eu estivesse dando um tiro no meu filho.

Se eu tivesse engrenado em qualquer um desses caminhos, para mim, pareceria que eu tinha desistido de mim mesmo.

E isso, eu não saberia como suportar.

Então não desisti.

E isso não me compromete com o teatro, com o mercado ou qualquer uma dessas coisas.

Deve ter um jeito de fazer isso tudo como um sacerdócio, como uma celebração do humano, como um processo de auto-conhecimento. Deve ter uma maneira de fazer isso tudo e ainda conseguir os recursos necessários para viver. Deve ter um jeito de viver sem ceder ao mercado, sem se dar um tiro no pé. Deve ter um jeito.

É nisso que estou, amigos.

Um grande fracasso

Essa amiga tinha o costume de me chamar para todos os testes em que não ia precisar de um bom ator. Figurações, pontas, breves aparições, breves cachês. Eu fui desistindo dela, criando as redações mais mirabolantes para evitar as enrascadas que ela teimava em achar que eram pra mim.

Eu também tinha levado meu material numa agência de atores. Na única vez em que eles me chamaram para fazer um teste, eu fui até a República do Líbano, numa produtora. Bom, na fila existiam aqueles tipos enormes e marombados e aquelas meninas que acabaram de sair do Photoshop. O cara me deu um papel com o texto para decorar. O nome do personagem era Montanha. Alguma coisa estava errada. No meio daquela maromba toda eu poderia ser no máximo Maomé. Fui conversar com o sujeito da reecpção, que me mediu de cabo à rabo e perguntou: “Cara, quem te enviou aqui? Você não tem nada a ver com o personagem.”

As pessoas que fazem esse trabalho não querem nem saber como é que você se sente nesta situação. O cara olha pra você e diz assim: “Olha, amiga, você não é mais aquela xoxotinha que pega o trampo por que deu para alguém e também não é nenhuma modelo. Então vai ser difícil te arrumar trabalho” (isso foi uma amiga querida quem ouviu, uma das atrizes mais fantásticas que eu conheço).

Então dois queridos amigos me arrumaram uma chance memorável. Eu acho que eu sou cagado com isso de ser ator. E se não fosse pelo empenho desses caras, esse trabalho não teria rolado de maneira nenhuma. Eu me dou muito mal nos testes. Muito mal mesmo. Então se o preparador não estiver num bom dia, se não me deixar à vontade, se o briefing não for bom, fudeu. Não vou passar. Não funciona pra mim.

Bom, esses meus amigos me indicaram para esse trabalho, para um personagem que eu não tinha condições de fazer (segundo o briefing). Mas era um troço tão divertido e a diretora me deixou tão à vontade naquele dia, que a coisa rolou e eu tinha certeza que tinha pegado. O personagem foi um sucesso a série deu super certo. Eu ganhei esse trunfo no currículo.

De volta aquela minha amiga do começo…

Enviei para ela o link do material no Youtube. Ela deu muita risada com a coisa e me disse que talvez tivesse um trabalho em cinema para eu fazer. Lógico. Ainda era uma ponta. Ainda era um papel pequeno. Mas eu teria uma fala e uma cena. Eu fui até a Vila Madalena, conversei com o diretor, gente finíssima. Bom. Peguei o papelzinho.

Fiz prova de figurinos, peguei roteiro, tudo bonitinho. Quando faltava uma semana para a filmagem, minha amiga me diz que a cena caiu. Que eu perdi a fala que tinha, que eles acharam que a fala ficaria melhor na boca de um outro personagem. Eu devia ter desistido ai. Ela me perguntou se eu não queria fazer um papel sem fala, uma participação. Talvez esperando que eu negasse. Mas eu disse sim. Estupidez de ator de teatro que acha que vai rolar algum improviso na última hora e a chance vai aparecer. Estúpido.

Então a diária chegou. Uma das atrizes justamente tinha feito o seriado comigo. O tal seriado que deu certo. Bom, minha colega era protagonista no filme. Sim, velho. Eu senti inveja dela sim. Gostaria de ter a mesma chance, mas estava ali numa diária improvável, num papel sem fala. Caminhões pipa, carros antigos, locação de incêndio, um monte de figurantes. Qualquer um perceberia que eu estava fazendo uma figuração na melhor das hipóteses, mas eu continuei lá. Firme na proposta.

Eu só entendi a merda quando o diretor me pediu desculpas. Disse que não ia se esquecer de mim, que era uma vergonha colocar um ator do meu calibre para ficar nessa situação e etc… Depois me orientou de algum jeito a entrar numa cena e aparecer lá no fundo. Mais tarde um plano fechado do lado de um outro ator. Duas cenas que eu tinha certeza que nunca iam entrar no filme.

Eu nem vi o filme. Não.

Ali eu fracassei como ator. Ali eu vi que nunca ia sustentar minha família com esse trabalho. Ali eu vi que não tinha nenhuma autonomia, vi que não suportaria ouvir aquela fala de novo. Vi que não podia mais fazer testes para papéis de 30 segundos, na publicidade, na TV ou no cinema.

Eu tive três experiências memoráveis com o cinema, mas foi esse fracasso o que determinou minha trajetória de uma vez por todas.