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Nesse trabalho, o maior privilégio é ir construindo essa relação de parceria com pessoas que no início me eram completamente estranhas. Eu ainda sou ator, fazendo esse trabalho. Minha mente é a do ator, olhando para o conflito, tentando entender como o drama se forma.

Partilho com essas pessoas nossas histórias, nossas dores, nossos movimentos e crises. E tenho satisfação em tentar compreender como é que tudo isso se define e se expressa no corpo.

Pouco a pouco fui me instrumentalizando para encontrar essa abordagem que usa os jogos teatrais como instrumentos de investigação dessas tensões permanentes que nos definem em forma de dores e histórias e que temos a ousadia de chamar de “eu”.

É como se o trabalho do ator fosse o reverso do trabalho de terapeuta e no meio desses dois caminhos se encontra o personagem que escolhemos defender, com toda dificuldade de mantê-lo consistente num meio tão variável e complexo quanto a vida nesse mundo. Então eu fui entendendo que a gênese do personagem a que eu chamo de “eu” é algo efetuado através de um procedimento muito similar ao que usamos quando construímos o personagem no espetáculo a quem chamamos “o outro”.

Gestos, movimentos, escolhas de padrões, motivações ocultas, sub-textos. E assim, somos aquilo que criamos para nos relacionar com essa platéia de outros.

Mas atrás desse homem, que se transforma no personagem para agradar a outros, existe essa coisa que age. Esse, que age no mistério que somos é o ator. E ele quer mudar. Ele precisa mudar. Precisa de novos desafios, precisa desenvolver novos caminhos. O ator precisa sempre ser outro.

Ele é o que segue errando, o errante, que define seu rumo a partir das pegadas.

Esse meu amigo me perguntou um dia se havia um caminho que levaria o homem ao ator. Eu digo que há. Mas o ator, é esse que age na sombra do homem e que espreita o momento em que o homem desejará se livrar desse personagem fixo que o define para se tornar um outro, e com isso, se aprofundar no mistério chamado vida.

Então eu e a Claudia pensamos em criar esse espaço coletivo. Onde podemos ir investigando essa história que contamos a partir do corpo e da memória. E ir afrouxando esses laços, para que a ação ressurja no homem e ele se torne novamente, aquele que age, aquele que escreve a própria história. O ator.

O espaço onde o encontro com o outro é jogo, descoberta, investigação e apoio mútuo.

Para nós, espaço de fartura, de acolhida. Espaço onde muitos encontram muitos.

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