Autópsia

Ouvia, agora mais claramente do que nunca, o interminável solilóquio provindo de algum ponto no meio do seu crânio e que ele interpretava como sendo a sua consciência.

Sua última esperança era a de que, aproximado o momento final, a voz cessaria e ele retornaria a uma espécie de silêncio primordial. Mas esta esperança morreu sem encontrar alívio.

Seu último juiz foi ele mesmo, proferindo sentenças até que cessasse a voz; não por uma interrupção dela, ou porque viesse uma condenação definitiva e sim porque ele não lhe prestava mais a atenção.

O silêncio, no entanto, não chegou antes do nada.

Desencontros

Esbarraram-se, sem dúvida.

Era impossível que não o fizessem, já que caminhavam distraídos e em rumos opostos.

Bastava que um deles ficasse cego à própria distração (distraindo-se ainda mais), para que suspeitasse das intenções inexistentes do outro e se envolveriam num conflito cada vez mais violento, até que o mundo se cobriria com o sangue dos dois.

No entanto, a um aceno de mão, compreenderam imediatamente que o outro não o havia atingido propositadamente e tomaram cada qual o seu rumo.

Manga

A palavra é uma abstração que foi convencionada a se tornar concreta. Aí reside a dificuldade da palavra em materializar experiências. Sendo uma abstração, guarda significados prováveis, jamais objetivos ou únicos. A palavra é um campo de possibilidades significativas, e não um ponto objetivo de sentido. Neste sentido, a palavra é inexata, imprecisa, pois está impregnada de sentidos. MANGA

Abordando as ferramentas

Penso em duas abordagens da máquina.
A primeira seria a da ferramenta como uma extensão do próprio homem. Digo “homem” e não “corpo”, porque não compreendo o humano dividido em duas coisas distintas: o corpo e uma segunda coisa.

E a segunda abordagem, da ferramenta como um receptáculo mais adequado para a mente, uma vez que o corpo-sedentário-domesticado está obsoleto.

Na primeira abordagem, penso no trabalho. Na capacidade de amplificar as possibilidades do corpo através das ferramentas. Ferramentas que facilitem o trabalho remodelando o que somos. Máquinas de desenvolver o que somos, não de atrofiar. Máquinas que nos façam subir montanhas, atravessar rios. Máquinas que sejam descartáveis, porque após seu uso não necessitaríamos mais delas.

Na segunda, penso no conforto. Nos enfartes, nas obesidades, nos homens-hamster correndo nas suas esteiras sem irem a lugar nenhum. Nos carros cheios de uma pessoa só. Na fumaça peidorrenta que eles soltam. Nos homem-microondas, que se orgulham de não saberem preparar suas comidas. Nos caçadores de supermercado, que capturam suas presas na prateleira. Nos celulares que interferem nos marca-passos e dão câncer no cérebro. Na TV, deixando doidas as nossas rolas e bucetas.