A função sempre atual do bardo

É uma conversa dura essa. Não tem jeito de não o ser.

Um importante aprendizado dessa minha aposentadoria foi o de ver o quanto o teatro está longe do sujeito paisano. É claro que se o sujeito quer ver teatro, as opções são as mais diversas. Mas o teatro não está aí por toda a parte para quem quiser ou não quiser ver. É realmente coisa de um nicho bem específico.

Eu não vi teatro por aqui, andando na feira, ou indo comprar pão no supermercado. Tampouco me dirigindo ao metrô Butantã, ou pedalando na ciclofaixa do comunismo. Ele não estava lá. Nestes três anos, desde que eu me declarei aposentado, divorciado, apartado, brigado, cansado do teatro, eu fui incapaz de encontrá-lo onde quer que eu fosse.

É claro que eu fui bem eficiente ao me afastar do teatro. Tão eficiente afastado dele como quando eu estava com ele unha e carne. Mas não encontrei a coisa em lugar algum. E isso me chamou muito a atenção. E tem sido um norte agora, que eu estou retomando a minha luta com a fera.

Qual a função disso agora? Para quê serve?

É lógico que eu estou morrendo de vontade de estar no palco jogando, pelo que isso significa na minha vida. Mas e o público? Qual a utilidade desse fazer para o público e para essa época?

Não posso deixar de fazer essa pergunta… Porque eu estive engajado com o Teatro durante vinte anos da minha vida. Nos últimos três eu o larguei e então não o vi em parte alguma. E digo que não fez diferença alguma na minha vida essa ausência… Então agora eu sinto a falta do jogo, da cena, do brincar, desse prazer de estar ali. Mas… e ver teatro? O que há ali para se ver que faça alguma diferença na minha vida ou na vida de qualquer um?

Hoje eu fiquei ponderando sobre esses meus afastamentos. Sim, porque o teatro foi só mais um desses. Muito antes eu me cansei de televisão aberta e deixei de assisti-la. No começo eu escutava isso de que eu deveria ver meus colegas. Mas eu me incomodava com a coisa toda sendo feita de maneira cada vez mais sofrível. E com o fato de essa maneira de fazer as coisas acabar se configurando no parâmetro de uma coisa bem feita. Não. Não era.

Logo eu abandonei a mídia impressa. Jornais, revistas. Comecei a ver esses conglomerados de mídia se formando, o jornalismo real se tornando cada vez mais raro. Então passei a ser um visitador de blogs, um assinante de rss e depois um contribuinte regular para reportagens financiadas por crowdfunding. Eu gosto de jornalismo investigativo e fui vendo isso se acabando por conta de interesses cada vez mais obscuros dos mesmos grupos econômicos de sempre. E então a coisa começou a ressurgir com os vazamentos todos e o financiamento coletivo de reportagens.

Atendendo as pessoas na massagem, eu comecei a perceber o que realmente significa “mundo” para cada um de nós. Mundo não é essa geografia espacial, com territórios, economias e notícias. Não. Mundo mesmo são umas 50 pessoas com as quais você se vincula emocionalmente. Esse é o viés pelo qual vemos a coisa chamada “mundo”. A política real é feita nesse pequeno grupo. Ali segregamos, partimos, dividimos, isolamos, aprisionamos. Ali está a chave para a liberdade também.

Então se você consegue ser engajado nessas relações e se de fato, vai ampliando a sua superfície de contato para contemplar um número cada vez maior de interações emocionais profundas, você passa realmente a se importar com esse “mundo” e mais, você tem a sensação de o estar construindo junto com outros. Por outro lado, a conduta de alheamento dessas relações vai gerar também a passividade e a sensação de que nada acontece, como acontece comigo agora em relação ao “mundo do teatro”.

Há uma noção de mundo que é dada pela opinião pública. E a forma de controlar essa besta é através da impressão de significados na forma de narrativas. A narrativa só gera comoção quando consegue se dirigir ao “pessoal” criando vínculos emocionais artificiais, identificações.

 

 

Cinco perguntas sobre paternidade

Você poderia listar 3 coisas que você gostaria de ter sabido com antecedência para se programar/preparar/integrar em relação a

1. Antes de conceber
2. A concepção em si
3. A gravidez
4. Pós parto, puerpério, amamentação
5. Os primeiros 3 anos de vida
Eu sempre quis gerar filhos. Três filhos. Nunca imaginei que seriam três meninos, mas quando eles chegaram, isso também não me incomodou.
Eu soube que a Clau tinha engravidado todas as quatro vezes. De algum jeito. A sensação corporal é um pouco diferente, e ainda hoje, eu não consigo explicar direito. Existe uma conexão diferente. Uma intensidade e profundidade diferentes.
Acho melhor falar de “Gravidezes”. Porque foram quatro e foram muito diferentes entre si.
Pedro: Nós nos casamos e fomos morar juntos, numa casa alugada lá na Vila Romana. Continuávamos nossa vida de ativistas do Movimento Humanista e de artistas de teatro. Mantínhamos uma rotina de namorados, ainda. Mesmo com a barriga enorme, ainda achávamos que a vida seguia igual. Eu já tinha algum receio de que a Clau estivesse forçando algumas situações, mas ela queria tocar a vida como se nada estivesse acontecendo. Pedro nos ensina o que é sonho e o que é real.
Gabriel: Nós havíamos comprado a nossa casa no Butantã. Gabriel veio num momento lindo, de prosperidade. Eu tinha feito uma websérie de duas temporadas, depois de ter feito um trabalho no Caribe. Logo em seguida, peguei um longa e acabei tendo algumas diárias extras. Virei professor de uma escola Waldorf muito perto da casa nova. E a Clau também tinha assumido mais coisas na ESPM. Eu queria mudar para a casa como estava mas a Claudia quis transformar logo a casa num sobrado. A gravidez do Gabriel foi a obra da reforma da casa.  A obra havia se convertido num campo de batalha! Com 36 semanas, Claudia me pede para acompanhá-la numa consulta ao obstetra. Eu fico irritado, indignado. Tenho tanta coisa para acompanhar da obra. E ela, porque não pega o carro e vai sozinha? Quando o médico disse a ela que ela já estava de 36 semanas, só aí eu me dei conta de que a gravidez estava tão avançada. Daí eu chorei. Chorei por ter sido injusto com ela, por ter sido insensível. Tive medo de não amar essa criança, de não notá-la, de não percebê-la… E ainda tenho. Gabriel nos ensina a tolerância e a autoridade.
Miguel(?): Eu teria outro menino? Mais um? Nunca soubemos. Depois de uma jornada intensa de auto-conhecimento nos trabalhos do Movimento Humanista, eu tive a intuição de estudar massagem Ayurvédica. As coisas se encaminharam de maneira que eu larguei o teatro, larguei as aulas e me dediquei exclusivamente a esse assunto.  E no meio disso, a gravidez. Não é hora. Eu não posso lidar com isso. E depois, eu terminei aceitando. Acreditando que a vida sempre dá um jeito. Apostando na vida sempre. Ela estava inquieta um dia. E me pediu uma massagem. Sentia algo estagnado… A noite veio e ela sangrava. Então fomos para o hospital. Eles não sabem dizer a palavra morte. Falam em termos mecânicos: coração que não bate, malformação… Morte. Um ano depois, na primavera, eu atendi uma cliente que havia abortado. E foi através dela que eu me lembrei do que tinha acontecido com a Clau. Liguei para casa e ela me disse que tinha sido algumas semanas antes. Que ela se lembrou, mas não quis contar nada. Ela assumiu isso sozinha. Dos partos, eu participei. Mas essa experiência, eu tive que resolver mais tarde. Muito depois. Com bodytalk, constelação familiar e missa. Miguel nos ensina a Morte.
Francisco: Chico, o pequeno. Eu não queria mais filhos. Na minha opinião, já havia tido os três que imaginava. Mesmo que o terceiro não estivesse presente. Pedro e Gabriel já formavam uma dupla, já brincavam entre eles. A casa estava completa! Quando descobrimos a gravidez, a Claudia ficou apreensiva, porque eu já tinha dito isso de não querer mais filhos. Mas eu não liguei. Fiquei feliz! Já tinha percebido essa coisa de a vida toda se alterar completamente quando surge a criança e estava sentindo que algo grande ia se passar comigo. “Eu vou ser pai de mim mesmo”. E estava com medo disso. Fiz um trabalhão gigante para reorganizar o masculino, assumir o poder, o dinheiro, a prosperidade, o meu tamanho. Eu tinha essa sensação de que o Chico vinha trazer isso tudo na minha vida. Chico me ensina a ser grande.
Nós temos a grande felicidade de contar com os meus pais por perto. Então, sempre temos esse apoio nas grandes transições. Minha sogra se chama Auxiliadora. E minha mãe, Socorro. Duas Marias. Dois amparos.
Essa fase do pós parto é a fase em que a gente aprende a dividir. Dividir o bebê com a mãe, dividir a mãe com o bebê. Dividir a família com a família. E também aprende a criar limites. No primeiro filho eu senti que delimitava a fronteira entre os nossos pais e os pais que somos. Quando o Gabri nasceu, eu ensinei o Pedro a não ser só. Quando nasceu o Chico, ensinei o Gabri a dividir, o Pedro a cuidar e Chico a conviver.
A molecada aqui de casa mama até cansar! Então isso fica incorporado na rotina. O que eu sempre tenho que trabalhar com eles é o limite da mãe… Porque pra ela é mais difícil…
E por fim, os três primeiros anos… Nesse caso, eu prefiro falar de forma geral. Eu acho esses três primeiros anos a escola da vida no planeta. Nós saímos ali, de seres unicelulares num meio líquido e vamos evolundo, mês a mês, como fetos. Depois, chegamos à terra. Primeiro imóveis, depois rastejando, engatinhando, ficando em pé, andando. Então aprendemos a criar linguagem, a negociar, a pedir. Criamos laços e por fim, a diferença.
Foi sendo melhor ter mais crianças em casa. Melhor para eles. E para a gente. Se eu fosse fazer tudo de novo, teria o primeiro filho numa casa em que já houvesse outras crianças. Isso seria a única coisa que eu faria diferente. A gente fica tenso demais quando tem uma criança só para cuidar. O melhor é que sejam muitas. Quanto mais melhor! Nem todas precisam ser geradas por você.

 

 

Dignidade

Querido amigo,

Eu hoje testemunhei o maior ato de bravura da minha vida, naquele teu olhar.

Eu só posso imaginar a tamanha dor ali contida, naquele luto, naquela despedida, naquela singela rosa depositada com tanto amor.

Eu estava lá e vi. Você, com seus oito anos, um homem nobre como teu pai. Como a tua mãe que hoje nos deixa.

Gratidão querido, desse teu amigo para toda vida.

“Deus te abençoe, filho”. Eu só pude dizer isso.

“Deus te abençoe”.

A utilidade da arte

“Pro amigo querido Paulo Panzeri e sua tese de doutoramento

Eu me formei numa época em que a busca na Arte era de uma linguagem, uma poética. Eu entendi que isso significava uma espécie de método estilístico, um “jeitão” de resolver esteticamente um problema.

Mas antes, eu era um técnico, habilitado a trabalhar na indústria na área de projetos. Então a gente era treinado para pensar em termos de problemas e soluções. A gente inventava soluções para automatizar tarefas repetitivas. Máquinas, circuitos, softwares.

Antes ainda eu era desenhista de histórias em quadrinhos, charges e caricaturas. E antes, um inventor dos meus brinquedos. E também, desde sempre, um “puta dum zueiro do caralho”, como podem atestar diversos amigos de infância, parentes e animais. E um leitor ávido, um filósofo e durante algum tempo, um freguês assíduo dos botecos.

Então a arte ficou para mim num lugar entre a “zueira”, a invenção, a programação, a filosofia de botequim, a religião, a gambiarra, as más influências, os amigos verdadeiros e a falta de dinheiro.

De maneira que eu sempre fiquei me perguntando se aquilo tudo era útil para mais alguém…

Se eu não estava, na idade adulta, dando um jeito de continuar brincando enquanto alguém pagava as contas. Esse alerta da esposa, dos boletos, da casa, dos filhos que foram se somando, das mensalidades escolares… Então as aulas de teatro, uma mistura do que eu aprendi na catequese, com exercícios tirados de algum livro de teatro, com as coisas ditas nas aulas de teatro que eu freqüentava como aluno. Indicação da irmã, primeiro. Depois dos amigos.

E eu sempre inquieto com a escola. Sempre indisposto com ela, desde sempre, desde cedo. Desde o primeiro dia de aula.

Mas fui notando que o ator mais novo que eu, o ator de escola, ele não entendia certas coisas que a gente estudava na faculdade. Ele não tinha as referências que meu professor de teatro dizia serem essenciais. A diretora queria a peça para enfeitar a festa. Os pais queriam que os filhos falassem muito. A professora da sala queria que a coisa saísse bonita.

Foi ali que eu comecei a entender que de algum jeito, aquilo tudo cumpria uma função naquela comunidade. Não era a minha obra, mas a obra daquele grupo humano o que realmente importava. Claro que meu jeito de entender isso foi assim: eu fui sendo demitido inúmeras vezes. Ou então, pedia para sair porque não suportava essa idéia.

Como artista, queria essa coisa para mim, essa obra prima. O gênio, meu deus, o gênio!

Mas qual a utilidade disso?

Essa é a pergunta fundamental. Qual a utilidade desse meu pensar, sentir e atuar para criar essas novas realidades, integrado a essa comunidade que me cerca, mas não cerceia?

A comunidade, no papel de público da “minha obra” deve ser algum tipo de doença mental, dessa lista imensa que hoje temos.

Acho que se fez, nessa época, um arranjo macabro entre a idéia do self-made-man, que sustenta o capitalismo, com a idéia do gênio da renascença. É essa idéia alardeada por toda parte o que gerou essa pretensão toda da minha parte. E me fez querer ser uma mistura de Tony Stark com Leonardo Da Vinci…

E acho que isso é algo que afeta uma geração inteira de artistas.

Ao mesmo tempo, os problemas da vida civil se somam e as corporações nos cercam por toda a parte, comprando o apoio de governantes, na forma de contratos e leis que os favoreçam.

E nós, ocupados que estamos com os boletos que não param de chegar, lamentamos a falta de leis que subsidiem nossa arte. Que merda é essa?

Não.

Algo não vai bem.

Mesmo você, na crista da onda, sabe disso…

Mesmo você, com a casa cheia, viajando mundo a fora, escalado para a próxima produção, com vinte anos de pesquisa na companhia tal, mesmo você… você sabe disso. A casa está caindo irmão!

E o único jeito de fazermos algo me parece ser, justamente, pensar na utilidade do que fazemos para a nossa comunidade. Algo além do “vai me ver que eu estou em cartaz”.

Não é a besteira de formar mais artistas para o mercado.

Talvez seja a besteira de formar mais pessoas fora do mercado. Pensando outra maneira de se relacionar com a comunidade, que não seja o trabalho, ou o mercado, ou os produtos, ou a minha obra.

Um jeito de ajudar as pessoas a terem de volta o próprio sistema nervoso e serem criadores de sua própria realidade.

De algum jeito, isso me parece magia.

Coisa de pajé.

De xamã.

De palhaço sagrado.

Dionísio, novamente, se impondo.

Ilusão

“Confusão dos sentidos que provoca distorção da percepção.”

Gosto da simplicidade e da elegância desta definição. E a procuro, quando me indago sobre as razões do sofrimento humano e da ignorância. Prefiro essa explicação simples do que o complexo conceito de “Maya” trazido dos círculos esotéricos e afins.

O sentidos estão constantemente aportando dados à consciência, que opera sobre eles à medida que estes ultrapassam um certo limiar perceptivo. O estímulo salta à consciência, um sentido fortemente estimulado, e a consciência direciona atenção a ele, deixando todo o resto do campo perceptivo ligeiramente desfocado.

Na área desfocada da percepção é que toda mágica acontece. Ali é o lugar onde o prestidigitador esconde a mecânica do truque, de tal maneira que, quando a nossa atenção volta a ficar disponível, o paradoxal já aconteceu.

Toda eficácia da mágica, do truque, da armadilha e do quebra-cabeças depende dessa simples compreensão. No desenho desse objeto há um percurso que induz a atenção a uma determinada direção, quando a solução, a saída e a resposta se encontram em outra. Oculta, à primeira vista.

Ignorância é justamente acreditar que há a possibilidade do paradoxal ser a realidade. Isso é o estar iludido.

O sofrimento parece ser justamente um quebra-cabeças filosófico, uma armadilha para a consciência. Associamos sofrimento à dor, mas são coisas distintas. A dor é um percepção imediata, a saturação de algum sentido, indicando que algo não vai bem presentemente e que é preciso adaptar-se.

Mas o sofrimento não está ligado a esse tipo de percepção presente. Está relacionado à memória de algo doloroso. Ou à expectativa de uma dor ainda não presente. Ou pela sensação difusa de que algo não vai bem e que não se sabe bem o que é. Me parece algo puramente mental, uma espécie de problema difícil no qual a consciência sempre está lançada, como em uma armadilha.

Mas a consciência não pode estar lançada a isso de forma voluntária, ou não teria tanto rechaço ao sofrimento. É preciso que a consciência seja conduzida ao sofrimento seguindo a trilha de algo que atraia fortemente a sua atenção. A isca. O não-sofrimento, associado a algo externo e permanente.

Então a mente se volta a esse algo, na forma de religião, filosofia, poesia, arte, remédio, e busca alívio para algo gerado por ela mesma.

 

 

 

Sentidos

Aquilo que você sente, a direção e o significado de tudo são sentidos.
A consciência é uma menina, olhando o oceano dos sentidos.
Ela percebe as ondas, vindas de toda parte, de todas as direções.
Algumas ondas sobressaem pela grandeza e a menina se move para vê-las.

O mover-se da menina é a atenção.

O mar se agita e agora todas as ondas são grandes.
A princípio a menina se espanta.
Imagina tempestades.
Rememora tremores.

Em pouco tempo, todas as ondas são grandes, todas as ondas são iguais e para ela, o oceano desaparece à espreita da tempestade.

Menina e oceano agora são silêncio e tremores, à espera de uma tempestade já presente na imaginação.

A tempestade agora, sendo uma nova onda.
Como se orientará a menina, imersa agora na grande onda?

•••

Uma gota de água na face e novamente, a menina, o oceano e a tempestade presentes na gota que toca a pele.
E a tempestade real?

Uma gota somente.

Armadilhas

“Então, o direito mais fundamental do homem não será ser informado, não do que passa em torno de si, mas acima de tudo do que se passa em si mesmo? E como ele é tão somente um ponto único de convergência dos outros, vivos e mortos, isso lhe permitirá então melhor compreendê-los, assim como ele se compreenderá melhor. Ele poderá, talvez, assim melhor utilizar seus processos imaginativos para a criação de um novo mundo humano onde os direitos do homem não serão mais os do indivíduo, de um grupo social qualquer que seja a sua importância, mas tão somente os direitos da espécie humana.”

(LABORIT, Henri – A pomba assassinada)

O cliente vem em busca de auxílio, por causa das suas dores. Aquilo na verdade é uma benção, um sinal divino, mas ele ainda não sabe disso. Vem porque precisa se livrar daquele incômodo, precisa voltar à normalidade.

A massagem encaminha algo. Move coisas. Impulsiona processos. Para o cliente, no seu primeiro dia, significa alívio de algo que o incomodava já a algum tempo. Aquilo que foi movido vai implicar novas ações, mas ele ainda não percebe. Além disso, anseia por voltar a uma harmonia perdida em algum ponto.

Em alguns casos, me toca avisar que aquela dor surgiu por hábitos, cultivados em muitos anos e que resultaram nessa estratégia em lidar com a vida. E a dor é resultado dessa estratégia. Que precisa ser revista. Que não está equivocada, porque tem dado certo até então. Mas que já não contempla toda a complexidade do que a sua vida se tornou.

A questão é que essas estratégias vão se formando por puro automatismo, para proteger nosso sistema nervoso daquilo que interpretamos como agressão à nossa natureza. E pelas infinitas vias associativas, passamos a lidar com alguns estímulos do meio emocional da mesma maneira como lidaríamos com nossos predadores naturais de outrora. Nosso ser molda corpo e mente para manter-se íntegro, através do nosso sistema nervoso.

Com o passar do tempo, fui me ocupando de quais orientações poderiam ser úteis ao cliente não somente durante a sessão de massagem, mas especialmente, no processo de sua vida. Como seria possível fisgar aquele momento em que uma associação equivocada re-estrutura o corpo de maneira que ele doa. Que atributos é preciso ir desenvolvendo na vida para lidar com a consciência dos próprios desvios.

Um desses atributos seria ler a palavra “errar” como andar sem rumo. Aquele que anda sem rumo, o errante, passa por muitos desvios até encontrar um bom caminho, uma boa estratégia. Aquele que está perdido é alguém que, sabendo onde quer chegar, não sabe onde está e nem qual o melhor caminho para chegar ao seu destino. Em ambas as circunstâncias fica claro que é preciso desenvolver um método, uma trilha, um caminho.

Logo vem a pergunta, parecida com isso: como fazer para criar esse caminho, essa trilha? Não é algo que seguindo o manual de alguém vá realmente resultar em algo útil para você. É preciso trilhar o próprio caminho, no ritmo próprio. Mas é possível sim, dar alguns conselhos genéricos como esse: fique atento aos desvios! Aos seus desvios.

Existem pontos no caminhar que sempre nos provocam grande aflição e nessas horas, tendemos a agir de maneira que a aflição cesse o mais rápido possível. Nessas horas é preciso fazer a pergunta certa: porque é que isso sempre me aflige?

Provavelmente você dará a mesma resposta compulsiva de sempre, mas se fizer essa pergunta no momento oportuno e conseguir se observar enquanto age, irá colhendo dados que lhe permitirão trabalhar sobre essa vulnerabilidade num momento de ensaio.

Esse detalhe é fundamental: muitas vezes tentamos trabalhar nossos desvios nos expondo à situações em que eles atuem para que nós possamos corrigi-los. O ponto é que esses processos atuam automaticamente, compulsivamente e com isso, temos pouca capacidade de agir de forma distinta da habitual. A maneira que eu descobri ser útil no meu próprio processo veio do teatro, da idéia de laboratório.

O laboratório é um espaço de experimentação. Apesar no nome, é um espaço do brincar. Você vai lidar com suas limitações brincando com elas, relaxado, num momento em que elas não estejam atuando com tanta pressão. Sem a pressão emocional de acertar a ação, é possível improvisar infinitas vezes até que algo novo brote. E isso vem através do circuito do prazer, tão potente para o nosso sistema nervoso quanto o é o circuito da dor. E com isso, um novo rumo vai se gravando no psiquismo.

Com a prática (ensaios), essa estratégia vai se configurando como a preferencial e o psiquismo vai adquirindo maior plasticidade, maior mobilidade, maior repertório emocional.

O enfoque nesse trabalho não é a narrativa da tensão. “Eu estou me sentindo assim porque quando eu era criança minha mãe me fez isso e isso”. Não. Isso só pode gerar esse tipo de dramaturgia baseada em chavões que todos estamos seguindo e que só nos conduz ao discurso civilizatório corrente, que hoje é baseado em tensões e alívios, trabalhe e consuma, sal e cachaça.

Nosso enfoque é na postura, na ação presente, nas associações que se instauram de forma automatizada e que acabam determinando a maneira como atuamos no mundo. Se você não quer agir assim, pegue sua energia vital e a direcione para onde bem entender.

Economia que gera saúde

Queria partilhar esse aprendizado com o dinheiro. Eu sempre tive um certo rechaço com a idéia de concentração de recursos e desigualdade. Normalmente se cria uma justificativa para a concentração de renda tentando igualar diversidade com desigualdade, dizendo que é natural que algumas pessoas tenham mais capacidade de ganhar dinheiro do que outras e que isso faz com que a renda fique concentrada nas mãos de poucos.

Não entendo que é bem assim, mas entendo essa confusão. No nosso aprendizado sobre a partilha,escolhemos um único mediador para a troca de todos os nossos recursos que é a dívida e não a fartura. A dívida do outro, para comigo e não o meu excesso daquele recurso, que se não for empregado na troca, vai virar lixo.

Então chamamos a dívida de dinheiro e supostamente criamos um isolante emocional para a degradação. Então as coisas passam a “valer” dinheiro e esse valor é supostamente algo objetivo e isento. Tudo pode ser trocado por dinheiro e cada coisa tem seu preço. O preço é dado pela lei de oferta e procura. Quanto menos se tem da coisa, mais valiosa ela se torna. Quanto mais banal, menos valor tem.

O macabro na coisa é isso: você diminui o dinheiro em circulação. Então o dinheiro se torna raro. Com isso, você precisa aumentar o preço das coisas, para que o dinheiro chegue na suas mãos o quanto antes. Para aumentar o preço das coisas, você precisa usar simultaneamente duas estratégias: primeiro precisa comprar barato, isso é usar menos dinheiro para adquirir as coisas; segundo, precisa vender mais caro, parecendo que o preço é justo.

Na primeira estratégia, você precisa degradar o produto de quem te fornece. Dizer que a qualidade não é boa, etc… Para isso, você vai precisar criar para ele um concorrente. Alguém que vende melhor e mais barato do que ele. Qualquer outra qualidade que esse suposto concorrente tenha a mais do que o sujeito em questão serve para baixar o preço da mercadoria. Mesmo que o concorrente não exista na realidade. E para que seus fornecedores não saibam disso, você precisa criar alguma maneira de dividi-los, alguma intriga, alguma coisa secundária. Isso já é o suficiente para que os preços se mantenham baixos.

Na segunda estratégia, basta que você atribua alguma vantagem fictícia ao produto vendido. Quer dizer, você faz exatamente o contrário do que foi feito na primeira estratégia. É preciso que você diga que o seu produto é algo valioso. Único. Você cria valores adicionais ao seu produto. Você pode vender um produto pior, comprado bem mais barato, pelo valor do produto em excelência. O que vale é como você chama o produto e como você agrega valor a ele. O “concorrente” nesse caso é o produto antigo. Que é sempre pior do que o novo, que é mais caro.

Se isso não for possível, crie variações sobre o mesmo tema. Venda tomates menores pelo preço antigo e tomates do tamanho antigo por um preço mais alto. Ou ainda, atribua o aumento do preço a instâncias não presentes, como o governo ou o sindicato. Não importa.

Essas estratégias no lidar com a matéria vão ficando cada vez mais enroladas, no momento em que tentamos estabelecer o valor de um “homem”. Seja através daquilo que ele faz, daquilo que ele significa emocionalmente para mim, não importa… Todo homem tem seu preço. Essa frase sozinha anula completamente toda a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Transforma o homem numa coisa a ser comprada pelo menor preço. Num escravo.

Então eu sou algo que passa a ter que valer mais que o outro. Para isso tenho que diminuir o outro. Ele é mais jovem, menos experiente, preto, mulher, homossexual, nordestino… qualquer coisa, menos eu, porque eu valho mais. E sempre com a sensação de que algo vai mal nessa conta. Porque sempre aparece aquele que é “mais”  que eu. Mais branco, mais bonito, mais inteligente, mais esperto…

E somos lançados ao lugar do fornecedor, ali daquele parágrafo sobre a primeira estratégia. O outro fornece algo melhor que eu e eu preciso me vender mais barato. Preciso aceitar qualquer condição, qualquer troca.

E com isso, o dinheiro passa a valer ainda mais e o homem cada vez menos. Com a mesma quantidade de dinheiro é possível comprar cada vez mais homens e tudo o que eles produzem.

E a concentração acontece dessa maneira, bem simples. E sabemos disso. Sabemos disso e não conseguimos sair dessa ciranda. Porquê?

Não é porque o ser humano é assim, ou qualquer besteira simples dita assim sem pensar. Não. É simples.

O que é que só você veio fazer aqui?

Você: único, diferente de qualquer outro ser humano que exista agora e de qualquer outro que já tenha existido.

Essa é a questão a ser respondida. A única que vale a pena e estamos afastados dela por tempo demais. E ela libera o recurso único que cada um de nós tem a oferecer.

Os hindus tem essa sabedoria das quatro grandes metas, que eu acho muito bonita, embora não tenha servido para resolver a questão da igualdade social na própria Índia: Cumprir o dever (realizar o propósito), Gerar fartura, Sentir prazer de estar vivo e por fim Liberação (fazer as coisas com um fim em si mesmas).

Se ocupar desse assunto e atender a que outros se ocupem desse assunto. Isso seria economia. Partilhar esse recurso e ao fazê-lo, colocar o outro em situação de fazer o mesmo.

Cada um de nós, ocupado em atender a esses quatro objetivos, de forma integral em nossa vida e estaríamos falando de economia, no sentido pleno. Economia de fartura, de recursos renováveis, de vida.

Uma economia que gere saúde.

Crochê

Antes de eu saber o que era mandala, eu aprendi o que era crochê.

Minha mãe e tias tinham aprendido a arte com a minha avó e durante a minha infância, acompanhei muitas horas dessas tramas sendo tecidas, enquanto elas conversavam sobre a própria vida ou a vida de outros.

A linha vem numa espiral enrolada num novelo. E então a gente vai desenrolando essa espiral e tecendo os nós com uma agulha em forma de gancho. O padrão vai emergindo aos poucos, à medida que as carreiras se entrelaçam e volteiam sobre si mesmas, fazendo novo traçado, numa nova dimensão. Então temos a linha, o nó (ou ponto), a carreira (ou corrente), as casas (cheias e vazias), os motivos de diferentes geometrias. Espirais sobre espirais. Tramas sobre tramas. Dimensões superpostas.

E então isso virava colcha, vestido, fronha, camiseta, almofada, toalha de mesa, barrado. A utilidade, configurando outra dimensão.

Essas coisas que doem no corpo da gente, essas tensões, a gente também chama de nós. Então um dia, massageando as dores de alguém, eu me lembrei do crochê. Me lembrei que quando algo imprevisto acontecia e minha mãe errava um ponto, ela tinha que desmanchar toda a carreira para começar tudo de novo.

Uma das coisas mais bonitas do crochê é essa percepção de que não se pode continuar de qualquer maneira, sem resolver os erros em cada etapa. Isso sempre vai comprometer todo o resultado. Você precisa aprender a fazer o ponto certo. Mas também precisa aprender a lidar com seus erros e a corrigi-los. Puxar a linha da trama, desfazer o nó incorreto, voltar a tecer a trama.

Essas histórias que a gente entrelaça uma nas outras a gente também chama de trama. Um dia, escrevendo uma peça de teatro, eu também me lembrei do crochê. Lembrei da minha mãe empilhando os motivos numa sacola para depois juntá-los e dar a forma de uma toalha. Sendo também a peça de teatro uma trama feita de motivos distintos.

Elas teciam sem olhar para a linha, em alguns momentos. Me surpreendia ver essa tia que tecia o crochê enquanto assistia televisão. Quando o ponto era muito complexo, ela olhava para o que estava fazendo. Quando aquilo se configurava como automatismo, ela conseguia assistir televisão. Entre uma coisa e outra, emitia uma opinião sobre o que estava acontecendo na novela e eu sempre me perguntava como era possível que ela nunca perdesse o fio da meada. É claro que perdia. Às vezes errava um ponto ou confundia algo na trama da novela. Mas no geral, seguia com o crochê, desenrolando o novelo, enquanto se enrolava na novela.

Esses automatismos que a gente vai desenvolvendo, são estratégias que a gente vai desenvolvendo para não perder o fio da meada. Dependendo de onde está a nossa atenção no momento em que os configuramos, nos desenrolamos com eles ou ficamos cada vez mais enrolados. Liberação ou aprisionamento, dependendo apenas de onde colocamos a nossa atenção.

Eu já era adolescente quando isso me ocorreu pela primeira vez. Eu no computador, fazendo um programa em BASIC, e minha mãe na sala, tecendo seu crochê.

Na programação, aprendi a criar funções. Você tem alguns problemas que se repetem, não importa qual seja o programa que você está desenvolvendo. Então você cria uma estrutura para resolver esses problemas e essa estrutura se chama algoritmo. Com um algoritmo, você pode escrever uma função em qualquer linguagem. Essas funções vão sendo agrupadas numa biblioteca. É como uma caixa de ferramentas de programação. Nem sempre você vai usar todas, mas elas estão ali, salvas em algum lugar e você só precisa acioná-las com alguns parâmetros estabelecidos e elas vão retornar valores que você vai usar adiante.

Isso se parecia com os motivos que minha mãe guardava sempre nas suas diversas sacolas. Coisas que ela achou que ficariam boas em suas construções, mas que não serviam. Ou coisas que ela tinha feito apenas para treinar um novo ponto. De repente, ela se lembrava daquele bloco já pronto e percebia que aquilo poderia virar uma aplicação numa toalha de banheiro.

Foi só muito depois que eu fui aprender algo sobre hinduísmo, que é uma outra caixa de ferramentas. Existe essa palavra, cheia de sentidos, que foi lida no ocidente apenas como pecado ou maldição. Uma das minhas tias sempre foi chamada por essa palavra até que um dia começou a duvidar que esse nome fosse bom para ela. Carma, minha tia.

Karma, método, procedimento, abordagem. A idéia de que o resultado de algo é o efeito das ações empregadas para gerá-lo. Você tem um problema e desenvolve um método para abordá-lo. Esse método se revela ineficaz em determinadas condições. Você refina o método, e tenta uma vez mais e outra ainda. Essa repetição infinita, o loop existencial é Samsara.

Quando o método se encontra perfeitamente refinado, vira uma ferramenta útil. E é possível se liberar dele.

Então a Mandala surge. E com ela, o sentido de unidade.