O Coyote

Enquanto eu escrevo esse post, na minha mente se desenha um cenário cada vez mais sombrio. São Paulo está sem água, crise anunciada há anos. Os movimentos desenhados por parte da população são: cobrar o poder público, denunciar e especialmente, reclamar do vizinho.

Uma vez eu tive essa sensação estranha, quando o ex-prefeito e hoje ministro das Cidades, Gilberto Kassab, impediu o trânsito dos caminhões na cidade em determinados horários. Os entregadores de combustível protestaram e a cidade ficou alguns dias sem entrega. As pessoas faziam filas nos postos de gasolina.

Também me lembro da mesma sensação quando enchentes terríveis impediam o trânsito pela cidade e as pessoas ficavam desoladas porque não conseguiriam chegar ao trabalho.

Essa idéia de seguir com tudo normalmente, como se nada estivesse acontecendo, isso me assusta um pouco. A professora, na minha timeline, reclamando porque vai ter de ir trabalhar sem tomar banho.

Então compramos galões e estocamos a água da chuva e achamos que podemos seguir mais alguns dias. Fiscalizamos o vizinho lavando a calçada. Exigimos que o governo e a empresa sejam transparentes e revelem quem está sendo favorecido com a escassez de água… E os reservatórios seguem baixando, apesar das chuvas constantes.

Seguiremos passando talco no suvaco, cagando no seco, bebendo água contaminada, tudo para continuar trabalhando, produzindo e consumindo.

Isso pra mim parece o Coyote, do Papa Léguas, caindo no vazio, pensando que ainda tem pista para correr.

Não existe essa coisa chamada “O governo”.

Pense nas eleições do ano passado e veja quantos votos nulos e em branco existiram. Isso sem contar as inúmeras pessoas que votaram num ou noutro candidato para que seu opositor não ganhasse. Um voto chantageado, não uma opção.

Então esses sujeitos que aí estão, quem é que eles estão representando?

AMBEV, FRIBOI, o agronegócio em si. Empreiteiras, Previdência Privada, Bancos, Seguradoras, Conglomerado de mídia, Igrejas. Seus financiadores de campanha.

Enquanto isso, de nossa parte, aprendemos que democracia é produzir e consumir. E cidadania é pagar mais caro pela melhor opção ou reclamar. Que merda é essa? Isso é escravidão, amigo. Enquanto você segue prestando serviço de má vontade nessa empresa, fazendo esse trabalho só para garantir que você possa pagar suas contas e comprar produtos feitos por outras empresas, com a mesma qualidade péssima de serviço, enquanto isso, você não percebe mas é um escravo.

Experimente boicotar o supermercado, por exemplo. Veja quão complicado é. Ou parar de consumir aquele produto que você sabe que vai te gerar uma doença grave. Abandone esse emprego onde você é maltratado diariamente. Esse trabalho em que, de algum modo, você faz veneno para o seu filho e o do seu vizinho tomarem, agora ou no futuro.

Pegue sua energia vital e direcione para algo que gere mais vida. Veja se você consegue pensar em algo. Veja se é fácil. Se vida, para você, não sempre significou essa máquina de moer carne que se chama mercado. Em suas infinitas variações, certificações, diplomas e créditos facilitados. E depois, as dívidas sem fim. E essa dificuldade de abandonar aquilo que não te serve, mesmo quando a catástrofe se anuncia.

Existe água aqui, na quadra de baixo. Um rio, mal gerido pela SABESP, como tantos outros. Existem terrenos vazios no meu bairro. Existem vizinhos, que se não estivessem ocupados com essa lavagem cerebral que tem por mote “trabalho, consumo e vejo TV”, estariam comigo, agora mesmo, construindo reservatórios…

Não é preciso ser especialista em nada, para resolver esse tipo de coisa. Um grupo de pessoas dedicado a isso, empenhado na sobrevivência de sua comunidade e tudo se resolveria localmente.

Essa empresa que administra nossa água se converteu num Leviatã. Não sabemos quem lucra com nossa penúria e muito menos quem ainda continua recebendo água diariamente enquanto bairros inteiros permanecem sem água. É a prova mais que evidente que, para nós cidadãos, essa empresa consiste num obstáculo ao nosso direito democrático de gerir a nossa própria água.

Isso, só para começar.

Água, alimento, moradia, saúde e a educação dos seus filhos. Para perpetuar essa idiotice ou para tomar de volta o que é meu e seu?

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