Jogo

Eu aprendi a tentar definir uma experiência usando as palavras, e aqui estou eu, tentando transformar experiência em raciocínio, raciocínio em palavra, palavra em comunicação, de um jeito que a experiência chegue até você.

Então você faz o caminho inverso e pega as palavras para chegar ao meu raciocínio, para então ver se consegue se colocar no meu lugar e então entender como aquela experiência me afetou.

Me parece um caminho longo e tortuoso. Parece que perdemos mais tempo tentando desenlaçar as intepretações para chegar a uma coisa que não se transmite dessa maneira.

E a escola, sendo isso. Sendo pior que isso, porque muitas vezes se tenta transmitir não a experiência, mas o conceito da experiência. O resumo escrito de algo, na forma de informação, de dados a serem alocados na memória para serem repetidos depois, de forma escrita, falada. Isso nunca vai ser experiência e nunca será conhecimento.

Talvez controle social. Só talvez. Parece-me que essa idéia de conhecimento, essa idéia de memorizar dados e transmitir informações tem a pretensão de gerar padrões de conduta, modelos de comportamento, uma programação de usos específicos para a sua energia vital. Mas isso tampouco funciona.

Lá está o governo e as empresas, vasculhando seus dados para ver se conseguem prever quais são as suas necessidades, qual é a melhor maneira de mantê-lo acuado, sob controle, quieto e sem ação. Olhando suas fotos, seus textos, sua comunicação digital, suas falas ao telefone, os filmes que você assiste, os produtos que você consome… então, nessa falsa premissa de que a experiência do que você é pode ser transmitida na forma de dados, imaginam que você pode ficar sob controle, seguindo o programa estabelecido. Mas não.

Não é que você se rebele, ou proteste. Você simplesmente é mais que o amontoado de dados transmitidos e essa é a maior encriptação que você possui. Você é o enigma.

Por isso o jogo. O jogo como maneira de partilhar experiências, não conceitos. O jogo, a festa, o rito puro.

Escolho o conceito e jogo com ele. Brinco. Crio a brincadeira para extrair do conceito a diversidade de experiências que ele contempla. Não se busca a interpretação única, a história linear do uso daquele conceito. Se busca a diversidade nas interpretações a multi-dimensionalidade do conceito. Não se joga para procurar respostas, mas para refinar perguntas.

O olho esse “algo”, isso que me toca e que transformo em conceito, como uma espécie de síntese. Enquanto o conceito guarda a interrogação do primeiro contato com esse “algo” , ele possui potência. Quando conceito se transforma em ponto final, ele morre. E fatalmente, se converterá em exclamação, como um movimento inútil para se tornar vivo.

Jogo é uma pergunta, com regras pontuais, para exclamar o humano e sua potência revelando a eterna reticência que o acompanha.

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