A função sempre atual do bardo

É uma conversa dura essa. Não tem jeito de não o ser.

Um importante aprendizado dessa minha aposentadoria foi o de ver o quanto o teatro está longe do sujeito paisano. É claro que se o sujeito quer ver teatro, as opções são as mais diversas. Mas o teatro não está aí por toda a parte para quem quiser ou não quiser ver. É realmente coisa de um nicho bem específico.

Eu não vi teatro por aqui, andando na feira, ou indo comprar pão no supermercado. Tampouco me dirigindo ao metrô Butantã, ou pedalando na ciclofaixa do comunismo. Ele não estava lá. Nestes três anos, desde que eu me declarei aposentado, divorciado, apartado, brigado, cansado do teatro, eu fui incapaz de encontrá-lo onde quer que eu fosse.

É claro que eu fui bem eficiente ao me afastar do teatro. Tão eficiente afastado dele como quando eu estava com ele unha e carne. Mas não encontrei a coisa em lugar algum. E isso me chamou muito a atenção. E tem sido um norte agora, que eu estou retomando a minha luta com a fera.

Qual a função disso agora? Para quê serve?

É lógico que eu estou morrendo de vontade de estar no palco jogando, pelo que isso significa na minha vida. Mas e o público? Qual a utilidade desse fazer para o público e para essa época?

Não posso deixar de fazer essa pergunta… Porque eu estive engajado com o Teatro durante vinte anos da minha vida. Nos últimos três eu o larguei e então não o vi em parte alguma. E digo que não fez diferença alguma na minha vida essa ausência… Então agora eu sinto a falta do jogo, da cena, do brincar, desse prazer de estar ali. Mas… e ver teatro? O que há ali para se ver que faça alguma diferença na minha vida ou na vida de qualquer um?

Hoje eu fiquei ponderando sobre esses meus afastamentos. Sim, porque o teatro foi só mais um desses. Muito antes eu me cansei de televisão aberta e deixei de assisti-la. No começo eu escutava isso de que eu deveria ver meus colegas. Mas eu me incomodava com a coisa toda sendo feita de maneira cada vez mais sofrível. E com o fato de essa maneira de fazer as coisas acabar se configurando no parâmetro de uma coisa bem feita. Não. Não era.

Logo eu abandonei a mídia impressa. Jornais, revistas. Comecei a ver esses conglomerados de mídia se formando, o jornalismo real se tornando cada vez mais raro. Então passei a ser um visitador de blogs, um assinante de rss e depois um contribuinte regular para reportagens financiadas por crowdfunding. Eu gosto de jornalismo investigativo e fui vendo isso se acabando por conta de interesses cada vez mais obscuros dos mesmos grupos econômicos de sempre. E então a coisa começou a ressurgir com os vazamentos todos e o financiamento coletivo de reportagens.

Atendendo as pessoas na massagem, eu comecei a perceber o que realmente significa “mundo” para cada um de nós. Mundo não é essa geografia espacial, com territórios, economias e notícias. Não. Mundo mesmo são umas 50 pessoas com as quais você se vincula emocionalmente. Esse é o viés pelo qual vemos a coisa chamada “mundo”. A política real é feita nesse pequeno grupo. Ali segregamos, partimos, dividimos, isolamos, aprisionamos. Ali está a chave para a liberdade também.

Então se você consegue ser engajado nessas relações e se de fato, vai ampliando a sua superfície de contato para contemplar um número cada vez maior de interações emocionais profundas, você passa realmente a se importar com esse “mundo” e mais, você tem a sensação de o estar construindo junto com outros. Por outro lado, a conduta de alheamento dessas relações vai gerar também a passividade e a sensação de que nada acontece, como acontece comigo agora em relação ao “mundo do teatro”.

Há uma noção de mundo que é dada pela opinião pública. E a forma de controlar essa besta é através da impressão de significados na forma de narrativas. A narrativa só gera comoção quando consegue se dirigir ao “pessoal” criando vínculos emocionais artificiais, identificações.

 

 

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