Cuidado

Essa integridade do homem depende de um ambiente muito específico e delicado para acontecer.

Qualquer sinal de luta pela sobrevivência e o sujeito deixa de observar o outro. Ele abandona a prerrogativa do cuidado (no sentido de atender, auxiliar, amparar) e passa a ter cuidado (no sentido de temer, suspeitar, desconfiar). Nessa hora, é cada um por si.

Nós criamos todos esses artifícios de convívio, então criamos leis e regras. E aí, não funciona. Não dá certo. Nós insistimos e gastamos uma quantidade enorme de recursos criando mil maneiras de patrulhar o outro e corrigir seu curso. Mas acabamos por criar pequenas máquinas que nos tiranizam. E logo nos vemos novamente em sobrevivência, lutando com essas máquinas. Desobedecendo as pequenas leis que nós mesmos criamos para nos esconder da nossa responsabilidade com o outro.

A  máquina na forma de uma lei, ou de alguém exercendo um papel determinado porque foi autorizado por todos os outros a ser aquele que patrulha. Então esse, ele mesmo, ele comete um ato baseado no seu medo do outro. E então, ele escapa da máquina e novamente é necessário outra lei e outra coisa e outra punição.

E vamos fazendo as nossas manobras para garantir o máximo de eficácia com o mínimo esforço. E isso na relação com o outro, em modo de sobrevivência, se configura na criação disso que eu chamo de máquinas, que são esses automatismos criados em comum acordo, em pequenos grupos de nós, e que determinam como agiremos de maneira a não mudarmos o significado de cuidado.

Então me parece que o fundamental seria atender a esse ambiente em que o homem se sentisse acolhido. Primeiro isso e depois qualquer acordo, qualquer automatismo, qualquer máquina, mas sempre tendo isso como o primário.

Porque se o homem é lançado em sobrevivência, ele usa seus infinitos recursos para vencer qualquer condição extrema e ele triunfa. Isso é o melhor do homem e não deveria ser tolhido de maneira alguma.

Porque entramos em modo de sobrevivência quando nos relacionamos uns com os outros? Essa pergunta me parece ser fundamental, porque me parece que é algo que fazemos quando estamos em relação com o outro e interpretamos a sua conduta de maneira que ela nos parece ameaçadora. Então saímos do cuidado e entramos na zona de perigo.

Eu quero ser aceito. Quero ser considerado. Quero ser tratado de uma determinada maneira.

Quando o outro viola essa maneira, me sinto agredido e então, é cada um por si.

Como agir, com base nessa prerrogativa? Eu quero ser aceito. Quero ser tratado de determinada maneira. Então imponho isso ao outro? Com alguma chantagem? Pode ser então que o outro se submeta a isso, durante algum tempo. Mas sempre como algo para ele. Alguma vantagem oculta para ele como algo que lhe economiza energia, em sua relação para comigo.

Mas sempre que ajo assim com o outro, impondo algo a ele e submetendo-o à minha intenção de ser tratado de determinada maneira, passo a temer que alguém faça o mesmo comigo para que eu o trate da maneira como ele gostaria de ser tratado. Então eu me submeteria a isso, extraindo alguma vantagem para mim, algo que me poupe energia em minha relação com esse.

Estaríamos todos envoltos em uma nuvem de mentiras, escondidos atrás delas para que o outro nos deixe em paz com as nossas coisas. E a nossa vida, aquilo que realmente tem sentido para nós como sendo uma espécie de crime.

Então como começa isso?

Tratar o outro como eu gostaria de ser tratado. Como eu gostaria de ser tratado e porquê? Como eu poderia ser bem tratado sem que isso significasse a anulação do outro?

Porque eu entendo que essa determinada coisa a ser obtida (um bom tratamento) por que eu entendo que essa coisa é que me fará ser uma pessoa melhor?

Então primeiro eu recebo algo do outro para que eu possa lhe dar esse algo? E a ação fica tolhida, sem iniciativa. Fatalmente tendendo ao tipo de cuidado que significa perigo. Significa que o outro pode não me dar esse algo. Ele pode me trair. Novamente o blefe e uma vida abreviada.

E se eu olhasse para o outro.

Se eu o tratasse como eu gostaria de ser tratado.

Se eu desse sempre o primeiro passo, nesse sentido. Na direção de deixar claro para o outro como eu gostaria de ser tratado pela minha ação em direção a ele. Pelo cuidado, expresso nessa ação.

E o outro, como ele interpretaria esse meu cuidado? Como uma ofensa? Sim é possível. Possível que para mim seja um cuidado e o outro considere isso ofensivo e se retraia. Tendendo a mentira. Tendendo a um automatismo que lhe economize energia em relação a mim.

Então na retração do outro eu teria perdido a minha capacidade de compreender como poderia tê-lo tratado melhor. Novamente imerso nisso.

É preciso criar uma comunicação adequada, de uma maneira que nem eu nem o outro nos sujeitemos um ao outro. E ainda assim, cuidado. Zelando por um bom tratamento.

Talvez a palavra seja hospitalidade.

Como quando eu recebo uma pessoa na minha casa, alguém que eu gostaria de me relacionar por um tempo. Então eu ofereço o que tenho e a acolho.

Eu acolho essa pessoa no meu coração por algum momento.

Acolho e escuto.

Eu a trato com o que tenho de melhor e não espero nada dela. A não ser que ela tenha a capacidade de tratar alguém da mesma maneira. Com o que ela tem de melhor.

Isso é fartura e integridade.

E uma vida, fora das nuvens.

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