Circadiano

Isso tudo começa como um pensar sobre a lucidez e a sanidade.

Eu leio que a palavra lucidez implica em luz. E vejo que lucidez e sanidade estão associadas, então infiro que aquilo que está na luz necessariamente é são. Mas à luz do dia proliferam as mazelas e a insanidade está por toda a parte, com a lucidez sendo menos que um sonho.

Eu chamo dia aquele meu tempo útil. E uso a palavra diário como objeto, para descrever como me sinto a cada período. Ou como adjetivo, para designar aquilo que é feito constantemente. Mas percebo que nem sempre aquilo que é diário é útil, como meus vícios, como aquelas coisas todas das quais eu quero me livrar em mim e não tenho a menor idéia de como fazê-lo. Também para isso, naquilo que é diário, me falta lucidez.

A clareza, a capacidade de atuar sobre a realidade, a vida útil do homem, legada ao dia. E somente à noite ele parece sonhar. Sendo o sonho o lugar onde o homem perde a capacidade de agir e se vê às voltas com um mundo paradoxal onde o impossível acontece e ele nada pode fazer. E então eu me pergunto: age mesmo o homem, durante o dia? Ou está também imerso num outro mundo paradoxal, com uma ação eficaz sobre a própria vida acontecendo somente na aparência das coisas? Com um conjunto de significados que ele não pode manejar adequadamente? Com escolhas determinadas por forças que ele desconhece?

Por outro lado, essa ordem que emerge subitamente nos momentos de maior obscuridade. À noite, enquanto durmo e sonho algo que me revela um ponto que eu não conseguia enxergar durante o dia. Ou ainda, naqueles momentos da vida em que nada mais parece fazer sentido, em que tudo se obscurece e a razão não encontra seu fio, surge a absoluta clareza de um padrão que se repete e do qual é preciso sair.

As associações aprendidas entre dia e noite precisavam ser refeitas. Algo não estava de acordo. Algo não funcionava à contento. E começou a me parecer que essas atribuições de valor sobre o que era dia, são, lúcido, correto, dentro da lei, civilizado, apolíneo e seus opostos noite, insano, lunático, desviado, marginal, selvagem e dionisíaco eram desenhados para manter o homem sob controle.

O maior efeito da civilização é envolver grandes conjuntos humanos em prol de uma idéia. Da idéia de um único homem ou de um conjunto pequeno de homens. E são esses poucos aqueles que se beneficiam desta técnica.

Um homem tem uma idéia sobre como os outros homens deveriam se portar. Ele traveste essa idéia de luz, agregando a ela termos e sentidos que a conduzam a outras associações com a luz. Ele faz a crítica de tudo o que não se parece com essa idéia e com isso vai circunscrevendo o perímetro daquilo que será a sua normal. Ele usa a dialética, dentro e fora. Dentro, sendo o claro, o ordenado, o futuro. E fora sendo o caos, a obscuridade e o retrocesso.

Então esse homem agora é o líder de algo. Ele é a luz da razão. Sendo razão, aquilo que proporciona, que equilibra, que harmoniza. Traduzindo aí, harmonia como sendo apenas o dia e a lucidez. Harmonia como sendo controle.

Eu comecei a olhar as civilizações conhecidas e ver nelas essa oposição. Deuses do dia e da noite. E seus atributos. Os instrumentos de previsão dos ciclos, das marés, das colheitas, os oráculos. A própria idéia de um ciclo. Ver a resultante dessa mítica naquilo que restou dessas civilizações, em termos de obras, de registros. Comecei a ligar os pontos em comum, apesar de tanta diversidade cultural. E percebi que deveria haver algo no homem que tivesse muita adesão a este tipo de idéia.

O que é que não mudou na paisagem do homem neste período inteiro de que temos registro? Não a cultura, as relações, a idéia de educação, os valores… Possivelmente a sua biologia. Sua estrutura física.

Algo na nossa biologia faz com que Einstein proporcione luz e desagregação em sua equação E=mc². Energia, sendo desagregação é gerada quando a matéria é acelerada além do quadrado da velocidade da luz. Presos a esse quadrado, ameaçados com a completa desagregação de nossos corpos materiais. E ainda, a luz e seus benefícios. Einstein preso à luz e seu oposto como os egípcios estavam presos a Osíris e Seth.

Fui buscar no sistema nervoso a estrutura que estivesse relacionada com a nossa percepção e ajuste ao dia e à noite e foi então que encontrei o hipotálamo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *