Circadiano

Isso tudo começa como um pensar sobre a lucidez e a sanidade.

Eu leio que a palavra lucidez implica em luz. E vejo que lucidez e sanidade estão associadas, então infiro que aquilo que está na luz necessariamente é são. Mas à luz do dia proliferam as mazelas e a insanidade está por toda a parte, com a lucidez sendo menos que um sonho.

Eu chamo dia aquele meu tempo útil. E uso a palavra diário como objeto, para descrever como me sinto a cada período. Ou como adjetivo, para designar aquilo que é feito constantemente. Mas percebo que nem sempre aquilo que é diário é útil, como meus vícios, como aquelas coisas todas das quais eu quero me livrar em mim e não tenho a menor idéia de como fazê-lo. Também para isso, naquilo que é diário, me falta lucidez.

A clareza, a capacidade de atuar sobre a realidade, a vida útil do homem, legada ao dia. E somente à noite ele parece sonhar. Sendo o sonho o lugar onde o homem perde a capacidade de agir e se vê às voltas com um mundo paradoxal onde o impossível acontece e ele nada pode fazer. E então eu me pergunto: age mesmo o homem, durante o dia? Ou está também imerso num outro mundo paradoxal, com uma ação eficaz sobre a própria vida acontecendo somente na aparência das coisas? Com um conjunto de significados que ele não pode manejar adequadamente? Com escolhas determinadas por forças que ele desconhece?

Por outro lado, essa ordem que emerge subitamente nos momentos de maior obscuridade. À noite, enquanto durmo e sonho algo que me revela um ponto que eu não conseguia enxergar durante o dia. Ou ainda, naqueles momentos da vida em que nada mais parece fazer sentido, em que tudo se obscurece e a razão não encontra seu fio, surge a absoluta clareza de um padrão que se repete e do qual é preciso sair.

As associações aprendidas entre dia e noite precisavam ser refeitas. Algo não estava de acordo. Algo não funcionava à contento. E começou a me parecer que essas atribuições de valor sobre o que era dia, são, lúcido, correto, dentro da lei, civilizado, apolíneo e seus opostos noite, insano, lunático, desviado, marginal, selvagem e dionisíaco eram desenhados para manter o homem sob controle.

O maior efeito da civilização é envolver grandes conjuntos humanos em prol de uma idéia. Da idéia de um único homem ou de um conjunto pequeno de homens. E são esses poucos aqueles que se beneficiam desta técnica.

Um homem tem uma idéia sobre como os outros homens deveriam se portar. Ele traveste essa idéia de luz, agregando a ela termos e sentidos que a conduzam a outras associações com a luz. Ele faz a crítica de tudo o que não se parece com essa idéia e com isso vai circunscrevendo o perímetro daquilo que será a sua normal. Ele usa a dialética, dentro e fora. Dentro, sendo o claro, o ordenado, o futuro. E fora sendo o caos, a obscuridade e o retrocesso.

Então esse homem agora é o líder de algo. Ele é a luz da razão. Sendo razão, aquilo que proporciona, que equilibra, que harmoniza. Traduzindo aí, harmonia como sendo apenas o dia e a lucidez. Harmonia como sendo controle.

Eu comecei a olhar as civilizações conhecidas e ver nelas essa oposição. Deuses do dia e da noite. E seus atributos. Os instrumentos de previsão dos ciclos, das marés, das colheitas, os oráculos. A própria idéia de um ciclo. Ver a resultante dessa mítica naquilo que restou dessas civilizações, em termos de obras, de registros. Comecei a ligar os pontos em comum, apesar de tanta diversidade cultural. E percebi que deveria haver algo no homem que tivesse muita adesão a este tipo de idéia.

O que é que não mudou na paisagem do homem neste período inteiro de que temos registro? Não a cultura, as relações, a idéia de educação, os valores… Possivelmente a sua biologia. Sua estrutura física.

Algo na nossa biologia faz com que Einstein proporcione luz e desagregação em sua equação E=mc². Energia, sendo desagregação é gerada quando a matéria é acelerada além do quadrado da velocidade da luz. Presos a esse quadrado, ameaçados com a completa desagregação de nossos corpos materiais. E ainda, a luz e seus benefícios. Einstein preso à luz e seu oposto como os egípcios estavam presos a Osíris e Seth.

Fui buscar no sistema nervoso a estrutura que estivesse relacionada com a nossa percepção e ajuste ao dia e à noite e foi então que encontrei o hipotálamo.

Armadilhas

“Então, o direito mais fundamental do homem não será ser informado, não do que passa em torno de si, mas acima de tudo do que se passa em si mesmo? E como ele é tão somente um ponto único de convergência dos outros, vivos e mortos, isso lhe permitirá então melhor compreendê-los, assim como ele se compreenderá melhor. Ele poderá, talvez, assim melhor utilizar seus processos imaginativos para a criação de um novo mundo humano onde os direitos do homem não serão mais os do indivíduo, de um grupo social qualquer que seja a sua importância, mas tão somente os direitos da espécie humana.”

(LABORIT, Henri – A pomba assassinada)

O cliente vem em busca de auxílio, por causa das suas dores. Aquilo na verdade é uma benção, um sinal divino, mas ele ainda não sabe disso. Vem porque precisa se livrar daquele incômodo, precisa voltar à normalidade.

A massagem encaminha algo. Move coisas. Impulsiona processos. Para o cliente, no seu primeiro dia, significa alívio de algo que o incomodava já a algum tempo. Aquilo que foi movido vai implicar novas ações, mas ele ainda não percebe. Além disso, anseia por voltar a uma harmonia perdida em algum ponto.

Em alguns casos, me toca avisar que aquela dor surgiu por hábitos, cultivados em muitos anos e que resultaram nessa estratégia em lidar com a vida. E a dor é resultado dessa estratégia. Que precisa ser revista. Que não está equivocada, porque tem dado certo até então. Mas que já não contempla toda a complexidade do que a sua vida se tornou.

A questão é que essas estratégias vão se formando por puro automatismo, para proteger nosso sistema nervoso daquilo que interpretamos como agressão à nossa natureza. E pelas infinitas vias associativas, passamos a lidar com alguns estímulos do meio emocional da mesma maneira como lidaríamos com nossos predadores naturais de outrora. Nosso ser molda corpo e mente para manter-se íntegro, através do nosso sistema nervoso.

Com o passar do tempo, fui me ocupando de quais orientações poderiam ser úteis ao cliente não somente durante a sessão de massagem, mas especialmente, no processo de sua vida. Como seria possível fisgar aquele momento em que uma associação equivocada re-estrutura o corpo de maneira que ele doa. Que atributos é preciso ir desenvolvendo na vida para lidar com a consciência dos próprios desvios.

Um desses atributos seria ler a palavra “errar” como andar sem rumo. Aquele que anda sem rumo, o errante, passa por muitos desvios até encontrar um bom caminho, uma boa estratégia. Aquele que está perdido é alguém que, sabendo onde quer chegar, não sabe onde está e nem qual o melhor caminho para chegar ao seu destino. Em ambas as circunstâncias fica claro que é preciso desenvolver um método, uma trilha, um caminho.

Logo vem a pergunta, parecida com isso: como fazer para criar esse caminho, essa trilha? Não é algo que seguindo o manual de alguém vá realmente resultar em algo útil para você. É preciso trilhar o próprio caminho, no ritmo próprio. Mas é possível sim, dar alguns conselhos genéricos como esse: fique atento aos desvios! Aos seus desvios.

Existem pontos no caminhar que sempre nos provocam grande aflição e nessas horas, tendemos a agir de maneira que a aflição cesse o mais rápido possível. Nessas horas é preciso fazer a pergunta certa: porque é que isso sempre me aflige?

Provavelmente você dará a mesma resposta compulsiva de sempre, mas se fizer essa pergunta no momento oportuno e conseguir se observar enquanto age, irá colhendo dados que lhe permitirão trabalhar sobre essa vulnerabilidade num momento de ensaio.

Esse detalhe é fundamental: muitas vezes tentamos trabalhar nossos desvios nos expondo à situações em que eles atuem para que nós possamos corrigi-los. O ponto é que esses processos atuam automaticamente, compulsivamente e com isso, temos pouca capacidade de agir de forma distinta da habitual. A maneira que eu descobri ser útil no meu próprio processo veio do teatro, da idéia de laboratório.

O laboratório é um espaço de experimentação. Apesar no nome, é um espaço do brincar. Você vai lidar com suas limitações brincando com elas, relaxado, num momento em que elas não estejam atuando com tanta pressão. Sem a pressão emocional de acertar a ação, é possível improvisar infinitas vezes até que algo novo brote. E isso vem através do circuito do prazer, tão potente para o nosso sistema nervoso quanto o é o circuito da dor. E com isso, um novo rumo vai se gravando no psiquismo.

Com a prática (ensaios), essa estratégia vai se configurando como a preferencial e o psiquismo vai adquirindo maior plasticidade, maior mobilidade, maior repertório emocional.

O enfoque nesse trabalho não é a narrativa da tensão. “Eu estou me sentindo assim porque quando eu era criança minha mãe me fez isso e isso”. Não. Isso só pode gerar esse tipo de dramaturgia baseada em chavões que todos estamos seguindo e que só nos conduz ao discurso civilizatório corrente, que hoje é baseado em tensões e alívios, trabalhe e consuma, sal e cachaça.

Nosso enfoque é na postura, na ação presente, nas associações que se instauram de forma automatizada e que acabam determinando a maneira como atuamos no mundo. Se você não quer agir assim, pegue sua energia vital e a direcione para onde bem entender.

Partilhar

Nesse trabalho, o maior privilégio é ir construindo essa relação de parceria com pessoas que no início me eram completamente estranhas. Eu ainda sou ator, fazendo esse trabalho. Minha mente é a do ator, olhando para o conflito, tentando entender como o drama se forma.

Partilho com essas pessoas nossas histórias, nossas dores, nossos movimentos e crises. E tenho satisfação em tentar compreender como é que tudo isso se define e se expressa no corpo.

Pouco a pouco fui me instrumentalizando para encontrar essa abordagem que usa os jogos teatrais como instrumentos de investigação dessas tensões permanentes que nos definem em forma de dores e histórias e que temos a ousadia de chamar de “eu”.

É como se o trabalho do ator fosse o reverso do trabalho de terapeuta e no meio desses dois caminhos se encontra o personagem que escolhemos defender, com toda dificuldade de mantê-lo consistente num meio tão variável e complexo quanto a vida nesse mundo. Então eu fui entendendo que a gênese do personagem a que eu chamo de “eu” é algo efetuado através de um procedimento muito similar ao que usamos quando construímos o personagem no espetáculo a quem chamamos “o outro”.

Gestos, movimentos, escolhas de padrões, motivações ocultas, sub-textos. E assim, somos aquilo que criamos para nos relacionar com essa platéia de outros.

Mas atrás desse homem, que se transforma no personagem para agradar a outros, existe essa coisa que age. Esse, que age no mistério que somos é o ator. E ele quer mudar. Ele precisa mudar. Precisa de novos desafios, precisa desenvolver novos caminhos. O ator precisa sempre ser outro.

Ele é o que segue errando, o errante, que define seu rumo a partir das pegadas.

Esse meu amigo me perguntou um dia se havia um caminho que levaria o homem ao ator. Eu digo que há. Mas o ator, é esse que age na sombra do homem e que espreita o momento em que o homem desejará se livrar desse personagem fixo que o define para se tornar um outro, e com isso, se aprofundar no mistério chamado vida.

Então eu e a Claudia pensamos em criar esse espaço coletivo. Onde podemos ir investigando essa história que contamos a partir do corpo e da memória. E ir afrouxando esses laços, para que a ação ressurja no homem e ele se torne novamente, aquele que age, aquele que escreve a própria história. O ator.

O espaço onde o encontro com o outro é jogo, descoberta, investigação e apoio mútuo.

Para nós, espaço de fartura, de acolhida. Espaço onde muitos encontram muitos.

Memória, Sensação e Imaginação

Passado, presente e futuro.

Sentimos a dor, presentemente, um incômodo. Então buscamos na memória outra dor igual a essa. E nos imaginamos sentindo a mesma dor no futuro. Sofremos. E então o sofrimento passa a ser uma sensação presente. Um incômodo. Não mais a dor real, mas a imaginação da dor persistindo no tempo.

Essa sensação cobre todo o campo de percepção disso que experimenta a dor. A sensação sendo sempre presente, sempre no agora. Se somando a outras sensações que dão ao ser a noção de estar aqui. A noção do próprio contorno, do próprio limite, do agora, que escapa em direção ao passado, se tornando o amanhã. Então aquilo a que se registra como “eu” passa a ser delimitado pela dor.

Numa ponta, a sensação e na outra, aquilo que percebe e registra o estímulo. Esse que registra o estímulo tenderá a evitar o incômodo e fará isso elaborando imagens à futuro onde o incômodo deixe de existir, comparando os dados que recebe presentemente na forma de sensações, com os dados já registrados na forma de memória.

Detecta-se o estímulo (Sensação), armazena-se o estímulo (Memória), novas situações se apresentam e este que registra e armazena os estímulos se maneja de maneira a evitar aquela qualidade de estímulos que estejam relacionados com a dor. Mas tende a buscar o prazer. Tende a buscá-lo e a querer mantê-lo. O prazer, representando a segurança e a dor, representando a morte adiada.

O compasso das horas é marcado por instantes de dor. E a eternidade é prazer, sem fim. Para aquele que percebe e registra o estímulo, prazer e dor se convertem numa questão de tempos.

Se se registra a dor, o incômodo, na memória, também se registra o prazer. Também se projeta a futuro a manutenção daquilo a que se atribui o prazer. Então prazer e dor, como valores distintos. Como inversões de significado. A estrutura inteira se move no mundo estabelecendo planos a futuro, onde o prazer se mantenha e a dor nunca aconteça.

Esse conjunto de estratégias mais ou menos acertadas em busca do prazer e evitando a dor vão configurando uma espécie de comportamento, mais ou menos previsível, com o passar do tempo. A memória vai marcando as tendências de agir, através do acúmulo de erros e acertos. O erro, sendo o que dói. E o acerto, sendo o triunfo.

Na unidade inteira do homem, essas estratégias se convertem em movimentos, posturas, atitudes, gestos, expressão. O homem se vê viciado nessa busca de prazer e através desta busca se anestesia ou foge, quando a dor aparece.

E no entanto, o prazer se esgota. Aquilo que gera o prazer, ao permanecer, é convertido em inércia e tédio, pela própria natureza da mente, que busca o contraste para negá-lo. A mente, acuada pela inércia, passa a temer o futuro e uma dor que nunca termine, por oposição.

Novamente se lança ao futuro, com a sensação de ter vivido um prazer falso, um prazer que se converte em tédio e em seguida em dor.

Com o tempo se percebe o fracasso deste movimento e então, toda ação que parta desse lugar covarde fica invalidada.

É preciso atravessar a dor, processar a dor, criar força a partir dela, ter fé em si mesmo para que ela termine e com isso, recuperar o prazer de estar vivo.

Esse é um estudo pessoal sobre a segunda parte de “Apontamentos de Psicologia“, de Silo. Recomendo a leitura do texto integral, que é fantástico!

 

O Homem Livre

O recurso mais valioso de que se pode dispor é um homem livre.

Ele está ao seu lado voluntariamente, segundo seus próprios motivos, segundo seus interesses.

Não está condicionado a nada, está ali porque quer e porque sente que se beneficia desta relação.

Ele pode passar sem você, nada que você pode oferecer vai lhe causar dependência.

Ele é o tempo todo aprendizado, autonomia.

Quando age é com todo o seu ser. Se move no mundo realizando seu propósito e ao seu redor é só fartura.

O homem livre sempre gera ações que favorecem a liberdade.

O homem livre é primeiro uma decisão de trabalhar pela própria liberdade.

Se você quer ser um homem livre, semeie ações de liberdade.

Ninguém pode ser livre se depende do aval de outros para sê-lo.

Deixe o outro em paz e fique em paz.

Vazio

Então você chega a esse ponto.

Você percebe que tudo o que você fez até aqui estava condicionado. De algum jeito você se traiu achando que com isso obteria o amor das pessoas que te rodeiam. Em algum lugar, você se decepcionou com alguém que deveria te amar, não importa o que você fizesse. Você foi odiado ali.

Você foi aprendendo a maneira certa de ser alguém a ser amado. E a cada lição, você ficava mais longe daquilo que era no inicio. E então, resolve voltar até ali para ver quem sobra. E se depara com isso. O vazio.

Sem as condições para o amor, sem nenhuma das coisas que te definem, sem ninguém para culpar por seus problemas, você se encontra ali. Só. Então você sofre com isso. Com essa solidão insuportável. E sente que isso é o morrer, de alguma maneira.

Então se lança numa nova aventura, sabendo que o vazio vai adiante.

Você não sabe, mas teme o vazio por aquilo que te disseram que é o vazio.

Para lidar com o vazio, é preciso esvaziá-lo ainda.

O vazio do vazio é o vazio, sem aquilo que lhe disseram dele.

Isso é você.

A doença

A mente condicionada persegue o contraste para negá-lo.

A sucessão de estímulos vai sendo negligenciada por esta mente. É então agrupada em conjuntos de semelhanças, sintetizada e rotulada.

Então surge o contrastante, o diferente e a mente se apega a ele enquanto busca um conjunto já existente para enquadrá-lo. Quando o estímulo não pode ser enquadrado, a alternativa mais fácil para ela é negá-lo através de um processo de degradação. A mente condicionada tenta reduzir o objeto às suas categorias mais simples. Tenta reduzi-lo a um amontoado de conjuntos que se agregaram construindo aquilo que se apresenta.

Ainda assim, esse estímulo se impõe pela sua inteireza. Ela então nega a existência do estímulo enquadrando-o na categoria “ilusão”, e o mantém lá. Se o estímulo se impõe, acentuando o contraste, a mente condicionada busca outra maneira de lidar com ele. Ela então cria um conjunto específico para este tipo de estímulo e então passa a buscar algo que se assemelhe a ele. Ela então se intriga ao não conseguir encontrar nada igual. Então torna aquele estímulo algo a ser destacado. E assim o reduz ao especial. O estímulo fica “fetichezado” e a mente se mantêm condicionada, perseguindo um fetiche.

Quando adoecemos, o sintoma é esse objeto que salta à nossa vista. Algo desobedece o nosso esforço em manter a mente na percepção da normalidade, da continuidade. Então buscamos a medicação. A redução do estímulo, do sintoma. Somente quando o sintoma se impõe é que temos a possibilidade de investigar com maior profundidade as causas que o estão gerando. A mente condicionada se põe a investigar as causas, de objeto em objeto, de contraste em contraste. A mente se lança ao labirinto. E então sobrevêm a fadiga e a mente se contenta com as respostas obtidas. Ela agrupa essas respostas num conjunto denominado “realidade”. O sintoma desaparece e a mente segue, perseguindo a continuidade.

O que condiciona a mente? A perseguição da continuidade, da permanência. A mente quer se manter destacada, apesar de tantos estímulos que vêm e vão. Ela quer permanecer, embora os pensamentos e os estímulos não permaneçam. Há esse algo na mente que a mantém destacada dos estímulos e para que a mente não perca esse destaque, ela precisa lidar com os estímulos reduzindo-os a objetos mais simples para que ela os possa manipular. Então esse algo na mente não é a mente em si, porque esse algo parece usar certas características da mente em benefício de sua permanência. A mente em si flui, digerindo os estímulos, reduzindo-os a objetos manipuláveis. Mas esse algo transforma essa função da mente em uma ferramenta para que ele se mantenha destacado.

E o que é ele, em si? O que é esse algo que usa a mente dessa maneira? É um aspecto da mente ou algo alheio a ela?

Quando persigo esse “algo”, não o tangencio. Não o toco. Ele se retrai em mim. Se o busco, ele se dissipa. Parece não existir. Porque quando o busco com minha mente, também me destaco dele. Me parece que sou isso e quando uso a mente para buscá-lo fora dessa identidade, não o encontro. Então reconheço que esse “algo” é uma identidade.

A forma dessa identidade usar a mente para se manter é a identificação. Esse “algo” adere à mente se identificando com ela. Então ele e a mente parecem ser a mesma coisa, de tal maneira que a pouco eu pensava que a mente é que queria se manter destacada. Não. A mente está operando como uma ferramenta desse “algo”, dessa identidade. Esse “algo” usa a mente para se manter destacado e a maneira de fazer isso é através da identificação com a mente. Estranhamente esse algo, que busca o destaque, se oculta por trás da mente. Esse algo quer permanecer  e ao mesmo tempo, não quer ser visto. Que coisa é essa?

Claro! Esse algo precisa se manter fora desta função que ele escolheu para a mente: a de reduzir tudo a objetos mais simples para que possam ser manipulados. Então quando aplico a mente para lidar com esse “algo” ele se simplifica também. E o que se torna?

Se torna essa pergunta, essa incógnita sem nenhuma resposta.

Um vazio completo.

Um vazio e ainda, uma potência.

Delicadeza

Nascemos numa época grosseira.

Grosseira, no sentido em que não conseguimos compreender nada que não seja espetacular.

Nada que não seja materializável.

Toda experiência humana obedece esta padronização inevitável.

Você sente que expressa uma emoção de forma autêntica?

Seu amor já tem um roteiro escrito. Aquilo que se chama amor segue algumas seqüências pré-determinadas, algumas probabilidades de se realizar. Qualquer maneira de realizar amor que esteja fora destas probabilidades é chamado “não-amor”, ou outro sinônimo degradante.

Então você sente essa emoção intensa. Você aprende que isso é o que o outro faz com você. Você aprende a manter o outro perto para que isso não acabe. Você faz concessões, porque aprende que é assim que se mantém o outro. Você se trai e fica infeliz. Você acha que o outro teve algo com isso, então resolve que ele também deve ser infeliz. E então trai o outro. E a infelicidade se institucionaliza. A casca expressa um monumento emocional reconhecível como amor. Mas dentro da casca, só a infelicidade.

Nossa busca por iluminação ficou automatizada. Buscamos a felicidade como se fosse um produto comercializável. Seguimos estes milhares de roteiros pré-escritos, pelos profetas, pelos místicos, pelos filósofos. Nada daquilo funciona para nós. Seguimos um ou dois passos destes, acreditando que isso iria resolver e continuamos infelizes. Então nos culpamos por não conseguir. Dizemos que isso é para deuses, para homens superiores. E continuamos até a sepultura, infelizes até o último suspiro.

Medito esperando efeitos luminosos, comunicações telepáticas com seres superiores. Um encurtamento da distância entre o “eu” infeliz e cheio de reclamações, com as deidades perfeitas e capazes de grandes feitos. Mas não consigo me liberar dos meus pensamentos, das minhas preocupações. Me esforço para obter silêncio interno, mas os vizinhos na minha cabeça não sabem disso. Então eu abro os olhos e desisto.

Eu deveria ser grato. Deveria ser feliz. Mas não consigo. Deve haver algo errado comigo. Algum defeito. Alguma deficiência. Então me medico, me corto, me costuro, me conserto, me apaziguo para não sentir infelicidade. Mas também não sinto mais nada.

Este é o grau de nossa grosseria.

Se não existissem esses instantes em que parece que não nos falta nada, esses momentos breves em que nos sentimos plenos, em que nos inspiramos de alguma maneira, poderíamos acreditar que a felicidade é algo que se afastou do homem. Mas estes momentos existem. Não é algo que o mundo faz conosco. De repente essa maneira de olhar para as coisas se instaura e então nos sentimos plenos.

É um tipo de emoção que não tem nada a ver com o outro. É completa em si mesma. Não faz concessão alguma. É suave, sem efeitos especiais. Apenas acontece e se dissipa.

Para onde vai essa emoção? De onde veio? O que eu fiz para a merecer?

Buscando novamente a emoção no mundo, em alguma parte misteriosa, fora de mim mesmo. Buscando um critério, um julgamento, uma opinião, que me dê esse prêmio. Novamente um outro. E as concessões, a traição. A grosseria. Como se a grosseria tivesse aderida à nossa maneira de ver o mundo.

Mas e se essa felicidade estivesse diante de nós, todo o tempo? Se a grosseria fosse o único impedimento à nossa experiência de plenitude. O método então mudaria. Ao invés de buscar a felicidade fora da nossa experiência, cuidaríamos de remover toda grosseria que nos impede de experimentá-la.

Então não correríamos atrás dos efeitos luminosos, das explosões, das trilhas sonoras. E nos ateríamos ao simples, ao delicado. Essa beleza indescritível do mundo, além de toda grosseria.

Comprometimento

Que diabos fazer com essa isso que não gere em você essa sensação de estar atado às minhas expectativas? Que diabos fazer com comprometimento que não signifique condicionamento, chantagem, aprisionamento?

Eu te pergunto se você está comprometido e você me olha com essa cara de dúvida. Com essa pergunta eu já te condiciono? Já te imponho uma resposta a ela que me agrade de algum modo?

Com o quê você está comprometido? Com seus interesses. Você realmente sabe quais são eles? Você sustenta esse interesse hoje, amanhã e depois? E depois ainda? Você tem claro o que quer para si mesmo, internamente? Você não fará essa promessa para si sabendo que amanhã vai traí-la?

Então eu te pergunto se você está comprometido e você me olha tentando adivinhar com o quê eu estou comprometido quando te faço essa pergunta.

É desconfortável para você assim como é para mim?

Então você responde algo que me afaste de você por tempo suficiente para que você realmente entenda do que se trata. Você precisa de mais tempo para saber se pode ou não se comprometer comigo. Você ganha tempo, diz que sim, que está comprometido. Mas amanhã, não sabe o que fazer. Não sabe como tomar a iniciativa e vai improvisando. Você olha para mim e fica com a sensação de que me deve algo. Você se justifica. Tenta explicar. Cria outros adiamentos. Comprometimento vira adiamento. E as coisas que poderíamos fazer juntos, não se revelam, porque não há intimidade suficiente.

Você está comprometido com você mesmo? Está? E como é? O que você quer da vida e porquê quer isso? Você já não tem isso que quer da vida? Você realmente precisa desse recurso? Precisa que a vida te ofereça isso pois do contrário você não será feliz?

Que poderia ser comprometimento que não uma prisão?

Eu poderia sair perguntando a todas essas pessoas se elas estão comprometidas e criar mil maneiras de elas expressarem formalmente seu comprometimento, executando tarefas e ritos previamente determinados. Mas quanto tempo isso poderia durar? Eu já fiz isso e a única coisa que vi foi que estava sendo um tirano. E autorizando a que outros me tiranizassem. As pessoas me deixaram falando sozinho. Carregando o peso da minha idéia sozinho. E eu agradeço a elas por isso. Sem essa ação eu não teria visto a minha loucura.

Eu me comprometo comigo mesmo e me libero de você para que você faça o que bem entender. Meu movimento não está atrelado ao seu. Eu estou aqui. Eu te apóio. Mas não vou condicionar seu movimento ao meu e vice-versa. Estou aqui porque quero realizar esse comprometimento comigo mesmo, sem falhar comigo mesmo. Porque entendo que esse comprometimento comigo é o que gera fartura. Não por um senso de obrigação externo, mas pelo prazer de estar fazendo a única coisa que realmente faz sentido para mim. E para isso eu preciso me manter livre de você e dos seus assuntos.

Faça o que bem entender. Esse é o único comprometimento que espero de você.

As grandes metas

  • Realizar o propósito.
  • Gerar a fartura.
  • Sentir prazer de estar vivo.
  • Libertação.

Dois dos maiores impedimentos a isso são a nossa brevidade e ignorância.

Essas são as nossas principais doenças. Temos a tendência a viver pouco. A usufruir pouco dessa benção. E ignoramos essa condição.

Realizar o propósito. Na tradução do “Caraka Samrita” está implícita a idéia de um dever. Mas não é algo com a nação, com a pátria ou com as outras pessoas. É algo consigo mesmo. Expressar o melhor que se pode ser, a razão de se estar aqui. Essa é a grande ética, o princípio de tudo. Isso é o que, ofertado a outros, gera a fartura. Perceber esse movimento, perceber esse dom que se extravasa e alimenta o outro. Perceber que a vida é essa abundância é esse dar de si. Gozar a vida nessa dimensão. E fazer isso sem esperar nada do outro. E acima de tudo, sem se envolver com as expectativas do outro sobre nós. Isso é estar livre.

A doença é a manifestação de um obstáculo interno que se interpõe à nossa capacidade de concretizar as quatro grandes metas. Essa contradição absorve nosso tempo e energia vital. E surge porque não percebemos as implicações de nossas ações.

Em todas as grandes tradições surgiram essas prescrições, esses conselhos sobre quais as ações que conduzem à liberdade interna. Em nossa ignorância, nos sentimos aprisionados por essas prescrições e nos tornamos rebeldes a elas. Compreendendo-as como leis externas, nós lutamos contra uma suposta tirania. E então, nos tornamos ainda mais automáticos e estúpidos.

Alguns povos incluíram essas prescrições sob a forma de lei de estado. Outros, inseriram-nas como um código moral ou religioso. Outros ainda incluíram essas prescrições como conselhos sobre saúde e bem viver. E ainda assim, persistimos nessa desobediência, buscando nossa própria maneira de resolver o problema chamado Vida.