Água

Os hindus dividiam o ano em dois períodos, de três estações cada, baseados na abundância ou escassez de água.

No período de hidratação, o sol se encontra enfraquecido por diversos fatores, como as nuvens, o vento, as chuvas e tempestades, mas a lua, em relação com a água, não sofre a mesma influência. A terra é aliviada do calor pelas chuvas e neste período, nós temos a nossa constituição fortalecida. No período de desidratação, a influência do sol é mais forte e os ventos são mais secos, velozes e acentuados e isso vai progressivamente acentuando a secura do período. Como resultado disso, nossa constituição enfraquece.

De Janeiro a Março temos a estação das chuvas. Seguida pelo outono, entre Março e Maio. Depois, o inicio do inverno, entre Maio e Julho. Esse é o ciclo de hidratação, que vai aumentando nos meses de Janeiro a Março, chegam em seu apogeu nos meses de Março e Maio e depois declinam, entre Maio e Julho. A capacidade de refrigeração da lua se encontra favorecida, pois a influência do sol é diminuída pelas nuvens, ventos frescos, chuvas e tempestades. Os sabores azedo, salgado e doce, que causam oleosidade no corpo e retenção de líquidos, são acentuados.

O ciclo de desidratação se inicia nos meses de Julho a Setembro, com o final do inverno. Segue-se a primavera, entre Setembro e Novembro e finalmente o verão, de Dezembro a Janeiro. Neste período, os efeitos do sol são predominantes, pois os ventos são acentuados, velozes e muito secos, afastando a presença das nuvens. Os sabores amargos, adstringentes e pungentes, todos eles com efeitos desidratantes, são acentuados.

Os períodos críticos para a nossa saúde são o início do período de hidratação (Janeiro a Março) e o final do período de desidratação (Dezembro a Janeiro). Por outro lado, os períodos ótimos para a saúde são os meses de Maio a Setembro, que correspondem ao final do período de hidratação e o início do período de desidratação.

 

Ilusão

“Confusão dos sentidos que provoca distorção da percepção.”

Gosto da simplicidade e da elegância desta definição. E a procuro, quando me indago sobre as razões do sofrimento humano e da ignorância. Prefiro essa explicação simples do que o complexo conceito de “Maya” trazido dos círculos esotéricos e afins.

O sentidos estão constantemente aportando dados à consciência, que opera sobre eles à medida que estes ultrapassam um certo limiar perceptivo. O estímulo salta à consciência, um sentido fortemente estimulado, e a consciência direciona atenção a ele, deixando todo o resto do campo perceptivo ligeiramente desfocado.

Na área desfocada da percepção é que toda mágica acontece. Ali é o lugar onde o prestidigitador esconde a mecânica do truque, de tal maneira que, quando a nossa atenção volta a ficar disponível, o paradoxal já aconteceu.

Toda eficácia da mágica, do truque, da armadilha e do quebra-cabeças depende dessa simples compreensão. No desenho desse objeto há um percurso que induz a atenção a uma determinada direção, quando a solução, a saída e a resposta se encontram em outra. Oculta, à primeira vista.

Ignorância é justamente acreditar que há a possibilidade do paradoxal ser a realidade. Isso é o estar iludido.

O sofrimento parece ser justamente um quebra-cabeças filosófico, uma armadilha para a consciência. Associamos sofrimento à dor, mas são coisas distintas. A dor é um percepção imediata, a saturação de algum sentido, indicando que algo não vai bem presentemente e que é preciso adaptar-se.

Mas o sofrimento não está ligado a esse tipo de percepção presente. Está relacionado à memória de algo doloroso. Ou à expectativa de uma dor ainda não presente. Ou pela sensação difusa de que algo não vai bem e que não se sabe bem o que é. Me parece algo puramente mental, uma espécie de problema difícil no qual a consciência sempre está lançada, como em uma armadilha.

Mas a consciência não pode estar lançada a isso de forma voluntária, ou não teria tanto rechaço ao sofrimento. É preciso que a consciência seja conduzida ao sofrimento seguindo a trilha de algo que atraia fortemente a sua atenção. A isca. O não-sofrimento, associado a algo externo e permanente.

Então a mente se volta a esse algo, na forma de religião, filosofia, poesia, arte, remédio, e busca alívio para algo gerado por ela mesma.

 

 

 

Partilhar

Nesse trabalho, o maior privilégio é ir construindo essa relação de parceria com pessoas que no início me eram completamente estranhas. Eu ainda sou ator, fazendo esse trabalho. Minha mente é a do ator, olhando para o conflito, tentando entender como o drama se forma.

Partilho com essas pessoas nossas histórias, nossas dores, nossos movimentos e crises. E tenho satisfação em tentar compreender como é que tudo isso se define e se expressa no corpo.

Pouco a pouco fui me instrumentalizando para encontrar essa abordagem que usa os jogos teatrais como instrumentos de investigação dessas tensões permanentes que nos definem em forma de dores e histórias e que temos a ousadia de chamar de “eu”.

É como se o trabalho do ator fosse o reverso do trabalho de terapeuta e no meio desses dois caminhos se encontra o personagem que escolhemos defender, com toda dificuldade de mantê-lo consistente num meio tão variável e complexo quanto a vida nesse mundo. Então eu fui entendendo que a gênese do personagem a que eu chamo de “eu” é algo efetuado através de um procedimento muito similar ao que usamos quando construímos o personagem no espetáculo a quem chamamos “o outro”.

Gestos, movimentos, escolhas de padrões, motivações ocultas, sub-textos. E assim, somos aquilo que criamos para nos relacionar com essa platéia de outros.

Mas atrás desse homem, que se transforma no personagem para agradar a outros, existe essa coisa que age. Esse, que age no mistério que somos é o ator. E ele quer mudar. Ele precisa mudar. Precisa de novos desafios, precisa desenvolver novos caminhos. O ator precisa sempre ser outro.

Ele é o que segue errando, o errante, que define seu rumo a partir das pegadas.

Esse meu amigo me perguntou um dia se havia um caminho que levaria o homem ao ator. Eu digo que há. Mas o ator, é esse que age na sombra do homem e que espreita o momento em que o homem desejará se livrar desse personagem fixo que o define para se tornar um outro, e com isso, se aprofundar no mistério chamado vida.

Então eu e a Claudia pensamos em criar esse espaço coletivo. Onde podemos ir investigando essa história que contamos a partir do corpo e da memória. E ir afrouxando esses laços, para que a ação ressurja no homem e ele se torne novamente, aquele que age, aquele que escreve a própria história. O ator.

O espaço onde o encontro com o outro é jogo, descoberta, investigação e apoio mútuo.

Para nós, espaço de fartura, de acolhida. Espaço onde muitos encontram muitos.

Estado de Jogo

Essa foi uma descoberta muito importante que o ambiente do teatro me proporcionou: o jogo, como propiciador do auto-conhecimento. O espaço do jogo tinha um fim em si mesmo. Não jogávamos para montar cenas, ou construir personagens. Jogávamos para explorar novos territórios.

É bonita essa definição do Huizinga: “O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da ‘vida cotidiana’.”

Eu tenho usado a ferramenta dos jogos teatrais como catalizador de descobertas pessoais. O jogo e o conflito. Normalmente eu elejo um tema a ser trabalhado e escolho alguns jogos que nos permitam explorar nossas tensões, resistências, dificuldades de mobilidade. Então o jogo em si e o conflito do ator-sujeito com o jogo e seus limites.

Nesses anos de jogador e condutor de jogos, fui aprendendo que é imprescindível criar esse ambiente permissivo, onde o jogador pode tudo, segundo as regras do jogo. Essa é a condição mais importante de todas. Existem essas situações em que o jogador se violenta, se obriga a vencer certas situações, se impõe seriedade excessiva no jogo. Nesses casos, eu fui aprendendo que é preciso ajudar o sujeito a voltar ao prazer do jogo em si. Excesso de tensão normalmente indica que o sujeito tem uma agenda oculta, e espreita resultados e objetivos alheios ao jogo.

Essa é a lição eterna que eu sempre aprendo com o Janô (Antonio Januzelli). Quando eu o conheci, eu era ator a pouco tempo. Minha formação anterior era a de Técnico em Eletrônica, pela Fundação Bradesco e antes ainda, num colégio católico de Osasco, o Instituto São Pio X. Eram ambientes muito rígidos e formais. Eu aprendi a ser um sujeito metódico, disciplinado e estudioso.

Minhas primeiras aulas de Improvisação Teatral com ele eram um inferno. Ele chegava, se sentava e não falava nada. Então começava a babar um cuspe estranho. A gente ria e ele continuava sem dizer nada. Só lidando com aquele cuspe. A gente ia se cansando do cuspe e se deitava, rolava, começava a se mover. Depois de um tempo, as pessoas estavam fazendo as coisas mais loucas do mundo e eu, excessivamente crítico e metódico, ficava testando o ambiente para ver se eu realmente poderia fazer qualquer coisa que eu quisesse. E podia.

O limite era a minha coragem de explorar certos limites de me expor. Por ele (Janô), eu poderia fazer o que bem entendesse. A única regra, que ele repetia constantemente era “Corpo-porcelana”. E aquelas perguntas, escritas em letras garrafais nos seus infinitos cadernos: “Qual o caminho que leva o homem ao ator”. Que diabo! Pergunta pro resto da vida! Com mil sentidos, que vão de como o ator faz para que o homem chegue ao teatro ou de que espécie de homem é o ator ou ainda, de como fazer o teatro chegar ao homem através do ator ou se existe uma trilha que tire o homem de um estado cotidiano e o leve a algo extra cotidiano, que seria a condição do ator…

E o que ele fazia em aula? Como fazia o que fazia?

Eu, e inúmeros colegas levamos essa questão a ele diversas vezes e a resposta é impossível. Janô é a resposta. Ele é o método e o que ele faz é deixar que você seja.

Eu só pude entrar nisso muito mais tarde.

Não como o ator, que muitas vezes jogava buscando construir uma partitura para um personagem que resolvesse uma cena de espetáculo. Não. Mas como o massagista, atento ao cliente e seus limites. Atento à dor do outro e buscando construir com ele esse espaço-laboratório onde ele possa ser quem é. Que não esteja chantageado pelas minhas expectativas em relação a ele. Para que ele possa se resolver com a sua dor e o personagem que ele não deseja mais para si.

Então fui percebendo no meu processo que jogar era uma boa maneira de lidar com aquelas características minhas que já não fazem sentido. O jogo me ajuda a diagnosticar minha inércia, minha rigidez, minha frivolidade. Jogando eu observo meus desvios e jogando eu aprendo a corrigi-los.

Muitas vezes, nos processos de auto-conhecimento, somos rígidos demais com nós mesmos. E esse excesso de rigidez adiciona uma camada ainda de tensão, que não serve para nada. Então é preciso essa coragem de ir fundo nas suas dores e ser capaz de brincar com isso tudo. Como o Louco, no início do caminho do Tarot. O Louco, errando no precipício é uma lição de como temos que lidar com nossos abismos. Com a coragem de sermos inocentes.

 

Fartura

Isso eu tenho aprendido:

Toda reserva tem sua duração. Se você guarda uma coisa por tempo demais ela se estraga. Então você precisa aprender a usar a coisa na melhor oportunidade. Eu vejo a geladeira de minha casa e penso nas coisas que eu comprei achando que iria comer porque são boas para a saúde. Elas estão podres e se eu não as uso na compostagem, ou jogo no lixo, elas vão infectar as outras coisas na geladeira. E a saúde que eu imaginei vira doença na realidade.

Então essas reservas que fazemos em relação à vida, esse tempo que levamos para decidir, esse jeito de guardar as coisas da vida para mais tarde, para quando eu pensar melhor, por que amanhã vai que falta… isso apodrece dentro da gente. E vira medo, arrependimento, timidez, veneno, ignorância, adiamento e velhice frustrada.

Eu olho para essas emoções todas aqui dentro, para essa fala guardada para algum dia, então eu abro e deixo isso tudo sair. Existem coisas que eu guardei para que servissem a uma determinada razão e agora elas perderam a potência para isso. Eu as guardei por tempo demais. Então preciso reutilizá-las, ver que novo uso dou a elas, ou partilho elas com a vida. A vida se alimenta de tudo e transforma tudo em alimento. A maçã podre adubando meu pé de maracujá doce.

A vida sempre dá tudo. Sempre.

Quando perdemos essa perspectiva, fatalmente entramos na escassez. Eu penso sempre no sujeito que decidiu comer um caracol e descobriu que era comestível, o escargot. Ou dos homens que comem insetos ou cães. Onde eu vejo asco, o outro viu um recurso, algo entre a vida e a morte. O asco me atrela ao escasso. Eu me restrinjo demais e o alimento que a vida me oferece não é aproveitado. Comer ou morrer, uma questão de perspectiva apenas.

Como alterar essa perspectiva de que a vida dói, de que é preciso me prevenir contra a vida, de que é preciso estar contraído para viver?

Gratidão.

Gratidão por estar aqui, fazendo parte disso.

Gratidão por mais essa oportunidade na forma de carne de cão ou caramujo.

Gratidão, alivia a contração, a retração, a restrição, a reserva diante da vida.

Gratidão é a expiração que alivia a dor incontável, indizível. A dor da minha reserva em relação ao outro.

Então descobri isso: fartura é o uso das reservas na melhor oportunidade, a partilha daquilo que se tem e a gratidão por estar vivo, aqui. partilhando essa experiência.