I know kung fu

Quarto nível. E agora a humildade, como virtude.

O terceiro nível foi percorrido com uma assiduidade regular. Priorizando a nova rotina no trabalho e sem muito tempo livre para repor as aulas perdidas.

Na hora do exame, algo ocorre: quando tento lembrar o próximo movimento da forma, esqueço o movimento. Quando esqueço o movimento da forma, executo o movimento. Um hiato entre a mente e o corpo.

“I know kung fu”.

Disciplina

“Disciplina é a capacidade de gerenciar a própria flexibilidade.”

Essa definição de disciplina me foi passada pelo Hugo Leal, no grupo de magia lá do Viavidya. E é somente a partir dessa definição que eu vou tentar imaginar aqui de que maneiras vou trabalhar a disciplina no kung fu.

No terceiro nível a gente começa a utilizar as armas. E a primeira delas é o bastão (kwun).

Meu comentário aqui é apenas referente à observação, porque ingressei no terceiro nível neste sábado e não tenho a experiência que comprove essa observação. Mas de algum jeito, parece que isso faz sentido para mim.

Para que o bastão cumpra a sua função como arma de impacto, quero dizer, para que a força do bastão se manifeste, o portador do bastão precisa trabalhar a própria flexibilidade. Se você é duro como o bastão, o golpe não atinge sua plena extensão. Você precisa se deixar fluir e então o bastão em sua dureza flui. E os golpes saem perfeitos.

Força de Vontade

Você passa desse ponto em que aprende o que é ter fé e então as dificuldades se acentuam.

Difícil dizer antes e depois nesse caso, mas aqueles hábitos e posturas que você tinha assumido como sendo você e que você agora não quer mais, eles seguem atuando. Estranho isso. Você já não é mais aquilo. Já percebe a possibilidade de continuar avançando. Mas ao mesmo tempo, você ainda está apegado ao que achava que é. Então você é o novo e aquilo que estava acomodado. A possibilidade e o hábito, coexistindo.

Eu costumava dizer: “Eu não sou mais aquilo…” e percebi que essa era a razão da desistência depois. Porque o hábito economizou energia na minha vida até então. Gerou dores no meu corpo, limites, contrações, crenças. O hábito segue em mim, como tendência. Então se digo que não sou mais aquele, o hábito cobra seu espaço e a fé desaparece, dando lugar à crença e daí à preguiça.

Então você decide avançar, sabendo que o hábito ainda é mais forte do que o caminho em que a fé te coloca.

Força de vontade é essa capacidade de seguir andando, apesar da dor no corpo.

A inércia foi gerando em mim uma certa acomodação a respeito de quem eu era. Então, certas posturas de vida, certas atitudes estavam colocadas como habituais e outras coisas estavam fora do meu alcance.

Eu escrevo essa reflexão com certo incômodo, porque sempre estive numa busca por ampliação das possibilidades. A verdade é que eu parti para essa busca sem desejar mudanças profundas, correndo atrás dos benefícios sem estar disposto a abandonar o conforto ilusório.

Então, para sair da inércia, descobri que é necessário primeiro ter fé.

Fé e não crença!

A crença mantém o sujeito na inércia, repetindo “verdades” que ele ouviu da boca de outros. Ser um crente é uma maneira de ser preguiçoso.

Você não quer se lançar na própria experiência, por medo do que possa lhe acontecer, por preguiça de mudar. Então alguém lhe diz que fazendo isso ou aquilo você vai se sentir melhor e você acredita, sem disciplina, sem força de vontade. Num grupo de crentes, um passa a dizer ao outro o que fazer, embora nenhum deles tenha a menor idéia do que fazer consigo mesmo. O crente teísta quer convencer o crente ateu de que deus existe. O crente ateu ridiculariza o crente teísta. E aí vamos…

Me parece que nenhuma crença sobrevive muito à experiência. E para se lançar numa experiência, é preciso fé.

Você tem dúvidas sobre aquele caminho. Você não sabe se aquilo vai resultar para você, mesmo assim, essa sensação estranha no coração vai dizendo a você para continuar andando, que mais ali adiante você vai perceber porque precisa fazer isso. Então você segue. E quando percebe, está fazendo algo que não acreditava ser possível.

Na primeira aula o Samuel me perguntou quantas flexões eu conseguia fazer. Me dei conta de que eu não sabia. Então fiz dez. Fiquei cansado, mas não tanto quanto eu achei que ficaria. Então ele pegou uma tábua e pediu que eu fizesse mais dez, com os punhos fechados em cima da tábua. Eu me apoiei naquilo e minhas mãos doeram muito. Eu comentei isso com ele. Então ele me pediu para virar a tábua do outro lado e ver se era mais macio. Eu cai no truque. Virei a tábua e “achei” mais macio. Crente.

Fiz mais dez flexões. As mãos doeram muito, ficaram feridas. Mas não cansei os braços como achei que aconteceria.

Essa equação entre o que eu achei que aconteceria e o que aconteceu de fato foi o que gerou o terreno apropriado para a fé.

A fé é essa constatação da própria ignorância à respeito do que se é. E o movimento que se faz em busca da experiência de si.

Fé é a certeza da dúvida. E o movimento, apesar disso.