Um novo Nuremberg

Não há inocência ao se trabalhar numa organização que comete crimes contra a humanidade. O trabalho parece purificar qualquer crime e ganhar dinheiro parece eliminar o cheiro da morte. Mas a verdade é que você acorda e põe seu sangue, sua mente e seu corpo na máquina que mata milhões. Depois lamenta a ineficácia do Estado e do Governo, mas você mesmo já abriu mão da sociedade quando se tornou um soldado corporativo.

Você não tem mais horas para se dedicar à sociedade, para ser um cidadão. Você quer apenas votar, num dia de sol, escolher o mal menor e assistir a TV, cansado de ter dado o sangue para a Empresa, em troca da possibilidade de comprar mais cacarecos e de pagar mais contas. O Governo é esse amontoado de funcionários corruptos, numa Empresa ineficiente. Aliás, todo agrupamento humano que não é a Empresa é ineficiente, amador, corrupto.

Aquele Governo do lado de fora da Empresa não se relaciona com você. Ele parece impedi-lo de se desenvolver. Ele tarifa você e você pensa que é injusto, porque aquele Governo não trabalha para você, como a Empresa diz que faz. O Governo não te oferece benefícios. Não te bajula e ainda te tarifa para pagar os pobres, os velhos, os inválidos, os desempregados, os políticos, os juízes e os policiais.

Então o Estado se desmantela numa bandalheira. Os políticos, comprados também pelas Empresas, também eles soldados corporativos, eles fazem o que podem para implementar o novo regime. Atacam por todas as frentes, atropelam os direitos civis. O que são direitos civis, quando não há Estado? Quando não existe ninguém mediando, a não ser o lucro? Os improdutivos, os fracos, os não lucrativos, esses todos… Quem governa para eles? Ninguém.

Enxugam os custos dos nossos direitos e transformam direito em produto, com faixas de preços e níveis de atendimento. E só descobrimos a lástima de serviço prestado quando precisamos dele.

Mas você também envelhece, se deprime, perde o rumo da vida, fica em dívida. Finalmente deixa de ter utilidade para a Empresa e se vê pendurado no Estado. O terror é enorme, porque agora você é o pobre que  o Estado sustenta. Você se recusa a pedir o benefício e se contenta com as indenizações até ser recolocado. Mas seu preço baixa mais e mais. Agora tem um moleque mais novo que você e ainda mais implacável. Ele se vende por um preço ainda menor e é mais eficiente do que você. Você aceita trabalhar por menos, ou não. Mas não dura mais.

Te sobra ser um Empreendedor. Ninguém vai te contratar pelo preço que você vale. Então você abre uma pequena empresa para prestar serviço para as Empresas. Você não percebe, mas agora você é ainda menos que o funcionário, porque paga ainda mais para o governo, com mais responsabilidades. Fatalmente, em nome do lucro e do crescimento, você vai treinar mais moleques, pagando ainda menos, e com isso você vai preparando mais soldados para essa máquina. Gente que trabalha o mês inteiro para comprar o melhor celular que for possível, mesmo que fique em dívida eterna.

Esses serão os homens que matarão o mundo.

Ainda mais rápidos e ferozes do que você.

 

 

 

Dinheiro e Tabefe

Oi. Eu quero te ver pessoalmente.

Não dá para falar o que é preciso falar por aqui. Não é seguro pra nenhum de nós.

Eu sei que você está achando que está sozinho, que os outros estão loucos ou burros, que ninguém vai fazer nada, que não vai adiantar chorar, espernear, protestar, nada…

Eu sei que você está vendo esses senhores sinistros, recebendo seus cargos com a clara intenção de nos manter em silêncio, de retroceder os nossos direitos e de leiloar nossos bens. O Sinistrério é um balcão de negócios escusos. Os donos do golpe não vão aparecer nunca. Nunca.

Sei que parece que não há justiça, com um supremo agindo dessa maneira. Sei que parece que não existem os três poderes e sua independência. Sei que a mídia constrói a narrativa em termos de esperança, paz e vamos mudar de assunto…

Não brigue na sua timeline. Não.

Não se obrigue a corrigir seu parente. Não.

Não escreva em caixa alta.

Não faça piada.

Não ventile memes.

Saia da tela.

Largue o mouse, o celular, o tablet e o i-treco qualquer.

Vamos nos ver?

Nós precisamos construir outra coisa. Mas é preciso que a gente se encontre e converse. Nós precisamos reunir gente como a gente.

Temos que refazer um acordo. Temos que refazer uma nação.

Direitos

Hoje eu contei pra um amigo que muitos figuras do SEBRAE eram ligados ao PSDB. E que esse lance do M.E.I. (micro empreendedor individual) era um jeito de a gente ir aceitando a perda dos direitos trabalhistas. Comentei com ele que a “pejotização” do trabalho era uma das linhas de estratégia para essa agenda. E falei que a M.E.I., como alternativa “simples” era na verdade uma outra linha de estratégia dessa mesma agenda.

Eu fui caçando esses links porque tem um diretor do SEBRAE que saiu candidato pelo PSDB nas últimas eleições. Esse mesmo cara foi assessor do Geraldinho, na época em que eu estava na faculdade. Eu pensei isso sozinho, tá. Porque eu conheço o sujeito em questão, que era namorado de uma amiga minha (que eu adoro) e eu me lembrei dessa divergência. Só hoje é que eu achei essa notícia aqui: http://jornalggn.com.br/noticia/aparelhamento-politico-no-sebrae-sp-gera-demissoes

Daí que o SEBRAE tem palestra com o Skaf, da FIESP, que é membro do seu conselho deliberativo. E é também quem paga o pato.

O lance do M.E.I. é que parece um enorme benefício para quem está na informalidade (isso é, quem trabalha sem carteira assinada, sem contrato, sem benefício, etc…). A gente agora tem que ser empreendedor e é super bem assessorado pelo SEBRAE nesse processo. O negócio é que essa assessoria é uma baita vaselina para o sujeito que já está com os seus direitos trabalhistas reduzidos pela “pejotização” do trabalho aguentar a tora dessa agenda nefasta do neoliberalismo.

Então ninguém tá vendo que é a mesma coisa. Os políticos lá no congresso ou na assembléia (a legislativa e a de Deus) são só cortina de fumaça. Os operadores reais são as associações de empresários do nosso país, de empresários estrangeiros e os banqueiros. Então essa operação toda, que você fica achando que é coisa de Brasil corrupto é na verdade uma coisa toda orquestrada pelo pessoal que comanda onde é que o dinheiro vai estar. As corporações e seus funcionários.

São sempre os mesmos, entende?

Daí meu amigo “ficou de cara”, como ele mesmo disse…

Eu tô pensando que é engraçado esse negócio todo. Porque os empresários, mesmo os pequenos, reclamam que os encargos para o governo são enormes. E que a “máquina governamental” é ineficiente e corrupta. Que muito dinheiro desaparece…

Então a gente fala de reforma tributária. E ela não anda.

A gente fala de reforma política. E ela não anda.

E os políticos que deveriam ter essas coisas na pauta são financiados pelo setor que deseja ardentemente que o Estado seja ineficiente.

E eu me dou conta de que se o Estado for ineficiente, alguém vai ganhar com esses serviços que ele deveria prestar.

A democracia corre perigo aqui em casa. A gente sem emprego, tentando empreender nossas idéias, o país nesse estado. Sabe quem é que ganha com a minha mulher chorando? O banco.

Ele vai dar um empréstimo para a gente esperar a crise passar.

A crise que ele mesmo gerou.

E o governo, que deveria estar nos defendendo? Cadê ele?

Nunca houve. Não esse. Nem nenhum, já faz algum tempo.

O governo é essa coisa corroída por interesses corporativos.

Esse zumbi.

Então eu estou pensando que o governo não pode ser essa coisa gerida por políticos. Tem que ser algo gerido pelos miseráveis. Por mim. Pela Claudia, que chora. Pelos meus filhos e amigos. O parceiros da minha timeline real. Aqueles com quem eu tomo café, cerveja e discordo. Mas que lavam a louça antes de ir pra casa.

Eu não me importei com o fato desse rapaz que namorava a minha amiga na época pensar diferente de mim. Nós fomos criados em situações muito diferentes. E eu acho mesmo que ele é bastante eficiente naquilo que decidiu fazer. E ele encontra apoio de outras pessoas que também acreditam nisso.

Isso eu admiro neles. Eles encontram apoio uns nos outros, enquanto a gente desmorona, fracassa e se endivida. Porque a gente se envergonha disso e abaixa a cabeça. E fica sozinho no escuro. Esperando a crise passar.

Eu não quero mais isso.

Quero tomar café com você, na crise mesmo. Quero te ajudar, com aquilo que eu puder. Eu estou aqui. Estou com você.

Quero atravessar isso e superar.

Eu não confio nesses senhores.

Não confio nem um pouco.

 

Humanum est

Eu fui crescendo e as coisas prontas do mundo foram aumentando.

Eu digo as coisas prontas, porque quando eu era menino, eu ia criando coisas com pedaços de coisas e fazendo isso, eu aprontava um mundo que se acabava em brincadeira.

No começo de quando eu fiquei grande, eu ainda era esse menino aprontador.
Eu pensei que trabalhar era isso e brincava no serviço, criando coisas que o cliente não aprovava. Num é certo.

Daí peguei o jeito daquilo que funciona pra todo mundo e quando eu vi, já estava fazendo coisas que estavam prontas antes mesmo de eu começar a fazê-las.

Daí a invenção foi se apagando e o mundo ficou cheio dessas coisas prontas.
E por mais que eu trabalhasse, não tinha nada pra fazer.
Já tava tudo feito.

Um dia eu acordei com dor no peito de ir pro trabalho.
Queria ficar na cama, achei aquilo tudo errado.
Tinha boleto, conta no vermelho, prestação e prazo.
Se eu levantasse aquele dia, era só pra ganhar dinheiro que eu acordaria.
Não quis acordar.
Não teve acordo.
Fiquei doente e era remédio que me deram.
Remédio pra eu ficar bom.
Pra amansar o peito.
Pra continuar acertando, fazendo o pronto.
Batendo ponto.

Daí não teve jeito de eu acertar o rumo.
E eu tive que sair.
Fiquei sem serviço.
Sem nada pra fazer.
Sem função nenhuma.
Sem emprego.

No começo eu nem achei falta.
Mas a vida tava toda tão penhorada nas contas, que uma hora eu me desmantelei.
A luz sumiu, cortaram a água, a saúde ficou sem plano e eu tive que devolver a casa.
Sobrou só as ferramentas.

Daí eu voltei pra trás, atrás do menino.
Fui caçar o rumo do acerto.
Fui brincar, zanzando pra lá e pra cá.

Eu queria experimentar coisas novas, mas não sabia botar dinheiro nelas.

Larguei mão dele, então.
Daí eu vi que num era o dinheiro.

Era que eu tinha medo que não gostassem.
Tinha medo de fazer de novo e de novo e de novo… até chegar numa coisa que o cliente gosta, mas eu acho bosta.

Tava com medo de fazer coisa errada.

Daí que eu pensei que a gente não pode levar a vida tentando agradar. A gente tem que se agradar dessa coisa que fica dentro de nós e que nunca tá pronta.

E a gente vai botando ela pra fora, nas coisas que a gente faz.

E que a gente não pode ter medo de errar.

A gente anda sem rumo, mas anda no nosso passo.

E vai tentando e tentando.

E quando cai, levanta.

E uma hora, fica bão.

Analógico

Eu descolei um iPhone 4S só para perceber o quanto estou me tornando analógico. O velho macbook branco ficando no canto da sala, fechado, cada vez mais tempo.

É complicado enxergar as postagens na timeline do iPhone. Isso faz com que eu passe menos tempo olhando o que meus amigos e conhecidos têm a dizer sobre aquilo que passou na TV ou na timeline. Só uso o iPhone com Wifi, porque não pretendo assinar esses pacotes de internet que as operadoras apresentam. Fico imaginando essa timeline de Facebook, que parece os jornais de Harry Potter, baixando vídeos a cada rolagem e os pacotes de download indo para o saco, enquanto eu permaneço distraído.

Gosto da agilidade do aparelho. E do tamanho. Tiro do bolso, abro um browser, pesquiso alguma coisa e fecho. Pronto. Tiro umas fotos e subo em algum lugar. Procuro um endereço para fazer qualquer coisa.

Eu mexo com essas máquinas desde que eu tinha 11 anos e a minha opinião é a de que elas foram ficando cada vez mais interessantes até se tornarem desinteressantes. É quase como se eu estivesse vendo acontecer com o meu uso de computadores o mesmo que já aconteceu com meu uso de televisão.

Passo boa parte do dia fazendo coisas manuais. Escrevendo minha pesquisa numa das mil cadernetas que eu tenho aqui em casa. Desenho, cuido da horta, dou pito na molecada, durmo, escrevo, leio livros impressos…

A máquina fica para essas horas em que eu não quero fazer nada.

Houve um tempo que essa máquina significava trabalho. Eu me sentava aqui e explorava a máquina aprendendo algum software desafiador. Foi assim que eu fui aprendendo a editar imagens, diagramar, editar audio e vídeo, modelar objetos 3D, programar…

Depois virou um depositório de informações que eu podia acessar. Livros, músicas, quadrinhos, filmes, etc…

Com o tempo eu fui descobrindo esses mini computadores, a tal “internet das coisas”. Aprendi Arduíno, Beaglebone e finalmente o Raspberry Pi. Então montei essa maquininha que faz download automatizado dos filmes e séries que eu quero ver. Reduzi meu plano de TV à cabo, aumentei a velocidade da internet, pluguei a máquina na minha TV (com tubo ainda!) e então esqueço que essa máquina é um computador.

Parece que eu estou vivendo em 1984. Antes de começar meu interesse por essas máquinas.

Eu era esse moleque que construía coisas, brincava, e desenhava.

Totalmente analógico.

 

A função sempre atual do bardo

É uma conversa dura essa. Não tem jeito de não o ser.

Um importante aprendizado dessa minha aposentadoria foi o de ver o quanto o teatro está longe do sujeito paisano. É claro que se o sujeito quer ver teatro, as opções são as mais diversas. Mas o teatro não está aí por toda a parte para quem quiser ou não quiser ver. É realmente coisa de um nicho bem específico.

Eu não vi teatro por aqui, andando na feira, ou indo comprar pão no supermercado. Tampouco me dirigindo ao metrô Butantã, ou pedalando na ciclofaixa do comunismo. Ele não estava lá. Nestes três anos, desde que eu me declarei aposentado, divorciado, apartado, brigado, cansado do teatro, eu fui incapaz de encontrá-lo onde quer que eu fosse.

É claro que eu fui bem eficiente ao me afastar do teatro. Tão eficiente afastado dele como quando eu estava com ele unha e carne. Mas não encontrei a coisa em lugar algum. E isso me chamou muito a atenção. E tem sido um norte agora, que eu estou retomando a minha luta com a fera.

Qual a função disso agora? Para quê serve?

É lógico que eu estou morrendo de vontade de estar no palco jogando, pelo que isso significa na minha vida. Mas e o público? Qual a utilidade desse fazer para o público e para essa época?

Não posso deixar de fazer essa pergunta… Porque eu estive engajado com o Teatro durante vinte anos da minha vida. Nos últimos três eu o larguei e então não o vi em parte alguma. E digo que não fez diferença alguma na minha vida essa ausência… Então agora eu sinto a falta do jogo, da cena, do brincar, desse prazer de estar ali. Mas… e ver teatro? O que há ali para se ver que faça alguma diferença na minha vida ou na vida de qualquer um?

Hoje eu fiquei ponderando sobre esses meus afastamentos. Sim, porque o teatro foi só mais um desses. Muito antes eu me cansei de televisão aberta e deixei de assisti-la. No começo eu escutava isso de que eu deveria ver meus colegas. Mas eu me incomodava com a coisa toda sendo feita de maneira cada vez mais sofrível. E com o fato de essa maneira de fazer as coisas acabar se configurando no parâmetro de uma coisa bem feita. Não. Não era.

Logo eu abandonei a mídia impressa. Jornais, revistas. Comecei a ver esses conglomerados de mídia se formando, o jornalismo real se tornando cada vez mais raro. Então passei a ser um visitador de blogs, um assinante de rss e depois um contribuinte regular para reportagens financiadas por crowdfunding. Eu gosto de jornalismo investigativo e fui vendo isso se acabando por conta de interesses cada vez mais obscuros dos mesmos grupos econômicos de sempre. E então a coisa começou a ressurgir com os vazamentos todos e o financiamento coletivo de reportagens.

Atendendo as pessoas na massagem, eu comecei a perceber o que realmente significa “mundo” para cada um de nós. Mundo não é essa geografia espacial, com territórios, economias e notícias. Não. Mundo mesmo são umas 50 pessoas com as quais você se vincula emocionalmente. Esse é o viés pelo qual vemos a coisa chamada “mundo”. A política real é feita nesse pequeno grupo. Ali segregamos, partimos, dividimos, isolamos, aprisionamos. Ali está a chave para a liberdade também.

Então se você consegue ser engajado nessas relações e se de fato, vai ampliando a sua superfície de contato para contemplar um número cada vez maior de interações emocionais profundas, você passa realmente a se importar com esse “mundo” e mais, você tem a sensação de o estar construindo junto com outros. Por outro lado, a conduta de alheamento dessas relações vai gerar também a passividade e a sensação de que nada acontece, como acontece comigo agora em relação ao “mundo do teatro”.

Há uma noção de mundo que é dada pela opinião pública. E a forma de controlar essa besta é através da impressão de significados na forma de narrativas. A narrativa só gera comoção quando consegue se dirigir ao “pessoal” criando vínculos emocionais artificiais, identificações.

 

 

Cinco perguntas sobre paternidade

Você poderia listar 3 coisas que você gostaria de ter sabido com antecedência para se programar/preparar/integrar em relação a

1. Antes de conceber
2. A concepção em si
3. A gravidez
4. Pós parto, puerpério, amamentação
5. Os primeiros 3 anos de vida
Eu sempre quis gerar filhos. Três filhos. Nunca imaginei que seriam três meninos, mas quando eles chegaram, isso também não me incomodou.
Eu soube que a Clau tinha engravidado todas as quatro vezes. De algum jeito. A sensação corporal é um pouco diferente, e ainda hoje, eu não consigo explicar direito. Existe uma conexão diferente. Uma intensidade e profundidade diferentes.
Acho melhor falar de “Gravidezes”. Porque foram quatro e foram muito diferentes entre si.
Pedro: Nós nos casamos e fomos morar juntos, numa casa alugada lá na Vila Romana. Continuávamos nossa vida de ativistas do Movimento Humanista e de artistas de teatro. Mantínhamos uma rotina de namorados, ainda. Mesmo com a barriga enorme, ainda achávamos que a vida seguia igual. Eu já tinha algum receio de que a Clau estivesse forçando algumas situações, mas ela queria tocar a vida como se nada estivesse acontecendo. Pedro nos ensina o que é sonho e o que é real.
Gabriel: Nós havíamos comprado a nossa casa no Butantã. Gabriel veio num momento lindo, de prosperidade. Eu tinha feito uma websérie de duas temporadas, depois de ter feito um trabalho no Caribe. Logo em seguida, peguei um longa e acabei tendo algumas diárias extras. Virei professor de uma escola Waldorf muito perto da casa nova. E a Clau também tinha assumido mais coisas na ESPM. Eu queria mudar para a casa como estava mas a Claudia quis transformar logo a casa num sobrado. A gravidez do Gabriel foi a obra da reforma da casa.  A obra havia se convertido num campo de batalha! Com 36 semanas, Claudia me pede para acompanhá-la numa consulta ao obstetra. Eu fico irritado, indignado. Tenho tanta coisa para acompanhar da obra. E ela, porque não pega o carro e vai sozinha? Quando o médico disse a ela que ela já estava de 36 semanas, só aí eu me dei conta de que a gravidez estava tão avançada. Daí eu chorei. Chorei por ter sido injusto com ela, por ter sido insensível. Tive medo de não amar essa criança, de não notá-la, de não percebê-la… E ainda tenho. Gabriel nos ensina a tolerância e a autoridade.
Miguel(?): Eu teria outro menino? Mais um? Nunca soubemos. Depois de uma jornada intensa de auto-conhecimento nos trabalhos do Movimento Humanista, eu tive a intuição de estudar massagem Ayurvédica. As coisas se encaminharam de maneira que eu larguei o teatro, larguei as aulas e me dediquei exclusivamente a esse assunto.  E no meio disso, a gravidez. Não é hora. Eu não posso lidar com isso. E depois, eu terminei aceitando. Acreditando que a vida sempre dá um jeito. Apostando na vida sempre. Ela estava inquieta um dia. E me pediu uma massagem. Sentia algo estagnado… A noite veio e ela sangrava. Então fomos para o hospital. Eles não sabem dizer a palavra morte. Falam em termos mecânicos: coração que não bate, malformação… Morte. Um ano depois, na primavera, eu atendi uma cliente que havia abortado. E foi através dela que eu me lembrei do que tinha acontecido com a Clau. Liguei para casa e ela me disse que tinha sido algumas semanas antes. Que ela se lembrou, mas não quis contar nada. Ela assumiu isso sozinha. Dos partos, eu participei. Mas essa experiência, eu tive que resolver mais tarde. Muito depois. Com bodytalk, constelação familiar e missa. Miguel nos ensina a Morte.
Francisco: Chico, o pequeno. Eu não queria mais filhos. Na minha opinião, já havia tido os três que imaginava. Mesmo que o terceiro não estivesse presente. Pedro e Gabriel já formavam uma dupla, já brincavam entre eles. A casa estava completa! Quando descobrimos a gravidez, a Claudia ficou apreensiva, porque eu já tinha dito isso de não querer mais filhos. Mas eu não liguei. Fiquei feliz! Já tinha percebido essa coisa de a vida toda se alterar completamente quando surge a criança e estava sentindo que algo grande ia se passar comigo. “Eu vou ser pai de mim mesmo”. E estava com medo disso. Fiz um trabalhão gigante para reorganizar o masculino, assumir o poder, o dinheiro, a prosperidade, o meu tamanho. Eu tinha essa sensação de que o Chico vinha trazer isso tudo na minha vida. Chico me ensina a ser grande.
Nós temos a grande felicidade de contar com os meus pais por perto. Então, sempre temos esse apoio nas grandes transições. Minha sogra se chama Auxiliadora. E minha mãe, Socorro. Duas Marias. Dois amparos.
Essa fase do pós parto é a fase em que a gente aprende a dividir. Dividir o bebê com a mãe, dividir a mãe com o bebê. Dividir a família com a família. E também aprende a criar limites. No primeiro filho eu senti que delimitava a fronteira entre os nossos pais e os pais que somos. Quando o Gabri nasceu, eu ensinei o Pedro a não ser só. Quando nasceu o Chico, ensinei o Gabri a dividir, o Pedro a cuidar e Chico a conviver.
A molecada aqui de casa mama até cansar! Então isso fica incorporado na rotina. O que eu sempre tenho que trabalhar com eles é o limite da mãe… Porque pra ela é mais difícil…
E por fim, os três primeiros anos… Nesse caso, eu prefiro falar de forma geral. Eu acho esses três primeiros anos a escola da vida no planeta. Nós saímos ali, de seres unicelulares num meio líquido e vamos evolundo, mês a mês, como fetos. Depois, chegamos à terra. Primeiro imóveis, depois rastejando, engatinhando, ficando em pé, andando. Então aprendemos a criar linguagem, a negociar, a pedir. Criamos laços e por fim, a diferença.
Foi sendo melhor ter mais crianças em casa. Melhor para eles. E para a gente. Se eu fosse fazer tudo de novo, teria o primeiro filho numa casa em que já houvesse outras crianças. Isso seria a única coisa que eu faria diferente. A gente fica tenso demais quando tem uma criança só para cuidar. O melhor é que sejam muitas. Quanto mais melhor! Nem todas precisam ser geradas por você.

 

 

Dignidade

Querido amigo,

Eu hoje testemunhei o maior ato de bravura da minha vida, naquele teu olhar.

Eu só posso imaginar a tamanha dor ali contida, naquele luto, naquela despedida, naquela singela rosa depositada com tanto amor.

Eu estava lá e vi. Você, com seus oito anos, um homem nobre como teu pai. Como a tua mãe que hoje nos deixa.

Gratidão querido, desse teu amigo para toda vida.

“Deus te abençoe, filho”. Eu só pude dizer isso.

“Deus te abençoe”.

A utilidade da arte

“Pro amigo querido Paulo Panzeri e sua tese de doutoramento

Eu me formei numa época em que a busca na Arte era de uma linguagem, uma poética. Eu entendi que isso significava uma espécie de método estilístico, um “jeitão” de resolver esteticamente um problema.

Mas antes, eu era um técnico, habilitado a trabalhar na indústria na área de projetos. Então a gente era treinado para pensar em termos de problemas e soluções. A gente inventava soluções para automatizar tarefas repetitivas. Máquinas, circuitos, softwares.

Antes ainda eu era desenhista de histórias em quadrinhos, charges e caricaturas. E antes, um inventor dos meus brinquedos. E também, desde sempre, um “puta dum zueiro do caralho”, como podem atestar diversos amigos de infância, parentes e animais. E um leitor ávido, um filósofo e durante algum tempo, um freguês assíduo dos botecos.

Então a arte ficou para mim num lugar entre a “zueira”, a invenção, a programação, a filosofia de botequim, a religião, a gambiarra, as más influências, os amigos verdadeiros e a falta de dinheiro.

De maneira que eu sempre fiquei me perguntando se aquilo tudo era útil para mais alguém…

Se eu não estava, na idade adulta, dando um jeito de continuar brincando enquanto alguém pagava as contas. Esse alerta da esposa, dos boletos, da casa, dos filhos que foram se somando, das mensalidades escolares… Então as aulas de teatro, uma mistura do que eu aprendi na catequese, com exercícios tirados de algum livro de teatro, com as coisas ditas nas aulas de teatro que eu freqüentava como aluno. Indicação da irmã, primeiro. Depois dos amigos.

E eu sempre inquieto com a escola. Sempre indisposto com ela, desde sempre, desde cedo. Desde o primeiro dia de aula.

Mas fui notando que o ator mais novo que eu, o ator de escola, ele não entendia certas coisas que a gente estudava na faculdade. Ele não tinha as referências que meu professor de teatro dizia serem essenciais. A diretora queria a peça para enfeitar a festa. Os pais queriam que os filhos falassem muito. A professora da sala queria que a coisa saísse bonita.

Foi ali que eu comecei a entender que de algum jeito, aquilo tudo cumpria uma função naquela comunidade. Não era a minha obra, mas a obra daquele grupo humano o que realmente importava. Claro que meu jeito de entender isso foi assim: eu fui sendo demitido inúmeras vezes. Ou então, pedia para sair porque não suportava essa idéia.

Como artista, queria essa coisa para mim, essa obra prima. O gênio, meu deus, o gênio!

Mas qual a utilidade disso?

Essa é a pergunta fundamental. Qual a utilidade desse meu pensar, sentir e atuar para criar essas novas realidades, integrado a essa comunidade que me cerca, mas não cerceia?

A comunidade, no papel de público da “minha obra” deve ser algum tipo de doença mental, dessa lista imensa que hoje temos.

Acho que se fez, nessa época, um arranjo macabro entre a idéia do self-made-man, que sustenta o capitalismo, com a idéia do gênio da renascença. É essa idéia alardeada por toda parte o que gerou essa pretensão toda da minha parte. E me fez querer ser uma mistura de Tony Stark com Leonardo Da Vinci…

E acho que isso é algo que afeta uma geração inteira de artistas.

Ao mesmo tempo, os problemas da vida civil se somam e as corporações nos cercam por toda a parte, comprando o apoio de governantes, na forma de contratos e leis que os favoreçam.

E nós, ocupados que estamos com os boletos que não param de chegar, lamentamos a falta de leis que subsidiem nossa arte. Que merda é essa?

Não.

Algo não vai bem.

Mesmo você, na crista da onda, sabe disso…

Mesmo você, com a casa cheia, viajando mundo a fora, escalado para a próxima produção, com vinte anos de pesquisa na companhia tal, mesmo você… você sabe disso. A casa está caindo irmão!

E o único jeito de fazermos algo me parece ser, justamente, pensar na utilidade do que fazemos para a nossa comunidade. Algo além do “vai me ver que eu estou em cartaz”.

Não é a besteira de formar mais artistas para o mercado.

Talvez seja a besteira de formar mais pessoas fora do mercado. Pensando outra maneira de se relacionar com a comunidade, que não seja o trabalho, ou o mercado, ou os produtos, ou a minha obra.

Um jeito de ajudar as pessoas a terem de volta o próprio sistema nervoso e serem criadores de sua própria realidade.

De algum jeito, isso me parece magia.

Coisa de pajé.

De xamã.

De palhaço sagrado.

Dionísio, novamente, se impondo.

A prisão

Lançado numa casa sem saída, ele temia o homem de mil faces.

Caminhava desde sempre, buscando a luz do dia. Mas não a encontrava em parte alguma. Sempre a sensação de estar passando pelo mesmo lugar. Sempre a mesma esquina. Sempre a mesma escuridão incerta.

E então, o homem surgia, armado sempre.

Lutavam, espantados um com o outro. Por fim, o homem morria com aquela face para ressurgir no dia seguinte, num outro ponto, numa outra escuridão, com face renovada e a mesma disposição assassina.

O Minotauro não tinha paz em sua prisão e o homem de mil faces era o seu demônio e seu castigo eterno.