Münchhausen

Na Síndrome de Münchausen, a pessoa afetada exagera ou cria sintomas nela mesma para ganhar atenção, tratamento e simpatia. Em casos extremos, pessoas com esta síndrome têm um alto conhecimento sobre medicina e conseguem produzir sintomas para operações desnecessárias. Por exemplo, podem injetar na veia um material infectado, causando infecção e prolongando sua estada no hospital. É diferente de Hipocondria, o paciente com Münchausen sabe que está exagerando, enquanto o hipocondríaco acredita que está doente de fato.

Essa é uma prova de conceito. Eu desconheço a maneira exata de construir esse dispositivo, mas resolvi partilhar isso aqui, na esperança de que alguém mais capacitado possa realizar a idéia.

Os grandes conglomerados de mídia e informação estão firmemente empenhados em coletar o maior número de informações à nosso respeito. Câmeras e celulares com GPS, redes sociais diversas, captura de links e análise do tempo de visitação em sites… Tudo isso servindo para mapear e prever comportamentos.

Por trás da cortina de fumaça usada para encobrir o processo ocorrido com Julian Assange, do Wikileaks e os integrantes da hive conhecida como Anonymous,  estão sendo empregadas técnicas de cerceamento da liberdade através do uso de informações obtidas através dessas grandes corporações da internet.

Assim, as operadoras de pagamento digital bloquearam a movimentação financeira do Wikileaks. Assim foi possível encontrar o responsável pelo Megaupload. Assim têm encontrado alguns membros do Anonymous.

Obviamente que existem meios de se manter a privacidade, usando ferramentas de encriptação específicas. Mas a origem dessas ferramentas e sua eficácia não podem ser comprovadas pela maioria das pessoas.

Münchhausen propôe é um tecnologia chamada embaralhamento de perfil, que tornará impossível a predição de comportamentos.

Como funcionaria?

O software realizaria uma busca no serviço Adwords, procurando centenas de milhares de palavras, vídeos e imagens com alto índice de busca. Em seguida, um operador sintático geraria sentenças significativas com essas palavras e iniciaria uma postagem maciça em todas as redes sociais pertencentes a um determinado usuário. Os links ocultos em cada postagem apontariam para páginas que disseminariam a infecção em outros perfis, até que as redes sociais estivessem saturadas de informações irrelevantes sobre as pessoas.

Um segundo módulo desse software é o GPS Scrambler. Em realidade, o software mudaria as tags EXIF das imagens postadas pelo usuário gerando locações com latitude e longitude aleatórias, tornando impossível saber a localização em que as fotos foram tiradas. Com isso, as redes sociais perderiam seu poder de determinar sua localização através das fotos que você posta em determinado tempo.

O terceiro módulo alteraria informações gerais do perfil, como data de nascimento, local de nascimento, relações de parentesco, fotografias de perfil, marcações de foto, etc…

Infectando

As APIs fornecidas pelas redes sociais possuem comandos que capturam as informações do usuário, com seu consentimento, e enviam para determinados softwares na própria rede.

A primeira versão desse software poderia ser um SCAM de algum outro software popular já existente. Após a primeira execução, o software rastrearia na própria rede social quais são os softwares mais utilizados e clicados pelos usuários, gerando várias cópias do mesmo software como SCAMs dos softwares mais populares. A disseminação seria bastante rápida.

Continuar lendo Münchhausen

Princesa Isabel

Daqui a pouco vou lutar contra a escravidão.

Eu tenho que eleger um adversário nessa história e se eu dissesse que meu adversário é a corporação que vai tentar me sangrar e humilhar, eu estaria sendo ingênuo. Meu adversário é outro ser humano, como eu, escondido no anonimato da corporação. Cumprindo uma meta que vai ser recompensada no final do mês, com algum bônus por ter conseguido sangrar seus semelhantes. O cara vai tentar mutilar a lei, me convencer da minha própria ignorância, reinventar a matemática das dívidas. Vai me ameaçar com o descrédito, vai tentar me cortar a possibilidade de realizar meus desejos de consumo. E vai tentar me explicar que não é nada pessoal, que é só o trabalho dele.

Ele foi treinado para ser esse assassino. Essa corrupção faz parte do seu trabalho. É assim mesmo, o jogo é esse e você não pode ficar marcando.

Não adianta apelar para a humanidade do sujeito. Eu tenho poucas chances de sair vitorioso dessa batalha. Não tenho poder financeiro para corrompê-lo com um outro bônus. Não tenho afeto algum por ele, nem ele por mim. A máquina de cobrança da corporação foi programada para funcionar exatamente de acordo com uma determinada brecha na lei e eu vou pagar o preço por meu descuido.

A cada mês, uma chibatada nas minhas possibilidades.

Minha única esperança é o meu treino. Essa capacidade de olhar aquele homem absolutamente afastado daquela corporação. Ali dentro há alguém lutando por seu futuro. Com medo de enfrentar a coisa toda sozinho, com toda dúvida metafísica de existir, ele se deixa acorrentar por essas regras, esperando que o amanhã seja melhor que hoje. Que amanhã ele possa mais do que agora. Mas eu sei que o sujeito vive uma ilusão.

Sei que ele nem conhece a lei que eu li exaustivamente. Sei que ele recebeu um telefonema do setor de cobrança, informando que eu estava descontente, tentando precavê-lo de meus argumentos, de minha defesa. Armando-o com dados. Sei que vou chegar lá e lidar com um sorriso e uma certa racionalidade superior, que vai tentar me convencer de que fui inapto com minhas economias e que devo pagar o preço por esse pecado.

Eu vou ouvir, vou negociar, vou pagar o preço justo.

Mas sei que não pequei. Não sinto culpa alguma.

Sei que a corporação estava só esperando esse deslize para me convencer de que eu mereço ser escravo.

Mas eu sei que não mereço.

E isso é o início da liberdade.

Bradesco quer me roubar

No dia 20/04, recebi uma ligação telefônica do serviço de cobrança do Banco, informando que havia um valor negativado em minha conta de R$ 149,25. Respondi que essa conta não era movimentada a anos e que eu desconhecia esse valor. A atendente me solicitou que comparecesse à agência 368-9, na Rua Clélia, para regularizar a pendência.

Me dirigi à agência para entender o ocorrido e a gerente Sônia me informa que o valor devido ao banco era de R$ 1500,00 (aproximadamente) e que o valor informado pelo setor de cobrança se referia apenas ao que foi excedido do meu limite do cheque especial (R$ 1300).

Ela abriu o extrato bancário, mostrando que o meu saldo tinha ficado negativado em setembro de 2010 no total de R$ 53,00. Esse valor foi acrescido de tarifas de manutenção da conta corrente, juros e IOF desde então.

O banco ofereceu um parcelamento da dívida em doze vezes de R$ 147,00 mas felizmente o sistema apresentou um problema de conexão. O gerente me pediu que voltasse à agência na segunda (hoje) para efetivarmos a negociação. Isso me deu tempo suficiente para verificar se a cobrança era legítima ou não. Verifiquei no site do Procon que o banco só poderia me cobrar taxa de manutenção durante seis meses, ao cabo dos quais deveria me contactar informando a iminência de minha conta se tornar inativa. Isso não aconteceu.

Protocolei a reclamação no SAC do banco agora pela manhã e logo em seguida recebi a ligação do gerente Paulo, me lembrando da renegociação. Eu então informei que havia entrado em contato com o SAC após pesquisa no site do PROCON e do BACEN. Após pesquisa em meu extrato ele ofereceu para renegociar minha dívida, deixando o valor de R$ 1300 (aproximadamente). Segundo ele, não poderia abrir mão dos juros e do IOF cobrados em minha conta e só seriam descontados os valores referentes à taxa de manutenção nos meses que excederam os seis meses previstos. Segundo ele, este valor de R$1300 foi obtido através da cobrança de tarifa de manutenção durante seis meses e do IOF referente ao limite de cheque especial. Isso não é injusto? Não há uma lei que impede o banco de cobrar o IOF em contas inativas a mais de um ano?

Um exercício de imaginação

Essa noite eu acordei com esse pensamento:

O fim dos tempos acontece daqui um tempo. Oito meses, para ser exato.

Digamos que isso não seja mais uma profecia furada, que no final das contas, os maias não sejam só a versão antiga da Mãe Dinah. Vamos dizer que Nostradamus estivesse se referindo aos nossos dias e não fosse vítima de um delírio de grandeza qualquer. Comecemos nosso exercício por aí.

Não temos certeza de que isso vai acontecer, nem de que não vai. Tudo bem?

Ok.

Então isso acontece amanhã.

Você acorda, sem despertador nenhum. Pega o celular, que fica na cabeceira da cama, olha as horas e percebe que o bicho está desligado. Tenta ligar, e nada acontece. Você então acha que o celular está descarregado e conecta o carregador no aparelho. Nada acontece. Você então acende as luzes para ver se fez alguma coisa errada, mas as luzes não se acendem.

Vai ao banheiro, lava o rosto e escova os dentes. Liga o chuveiro, mas fica sem coragem de tomar banho frio. Desce até a cozinha e resolve fazer uma omelete, mas percebe que está sem fósforos e o acendimento automático do fogão não funciona. Você come um pãozinho seco, de ontem, com a manteiga, só para dar uma enganada no estômago até que você chegue à padaria mais próxima.

Na rua, uma confusão de buzinas. Os carros andam muito devagar e alguns motoristas começam a improvisar, desrespeitando as leis de trânsito. Você quase é atropelado, tentando entender o que acontece. Os semáforos estão desligados. Na padaria, pelo lado de fora, estão outras pessoas tentando entender o que acontece.

Você entra, pede um pão na chapa com café. O dono da padaria pergunta se você tem dinheiro, porque a máquina de cartões não está funcionando. Você tem algum trocado. Ele então faz o pedido. Um vizinho seu se aproxima e pergunta se você não pode pagar o café dele, porque ele só tem cartão. Você atualiza o pedido com o dono da padaria.

Sai da padaria e vai em direção ao ônibus. A fila é enorme. O cobrador anuncia que o bilhete único não está funcionando. Você gastou seu último trocado na padaria. Decide ir andando até o metrô. Quem sabe lá, o bilhete funciona. São apenas cinco quilômetros. Melhor ir até um telefone público e avisar o pessoal na firma.

Você tenta cinco ou seis orelhões até que percebe que eles não funcionam. No caminho, é possível notar as pessoas em conflito com seus telefones celulares, que não funcionam em hipótese nenhuma. As agências 24 horas estão com filas, mas as pessoas saem sem conseguir sacar seu dinheiro. As máquinas não funcionam. Bastam algumas quadras para a inquietação aumentar. Os seguranças bancários estão tensos.

Os postos de gasolina começam a fechar as correntes. Em alguns deles, surgem viaturas policiais. O mesmo acontece para os caixas 24 horas. As pessoas começam a ser evacuadas desses lugares. Não existe nenhuma explicação para isso. Um advogado resolve exercer sua autoridade com um policial, apresentando seus documentos da Ordem e exigindo maiores explicações. O policial o detém.

As pessoas então se exaltam e o protesto começa. O confronto é inevitável. São dois policiais e três seguranças patrimoniais contra vinte ou trinta pessoas. Os rádios não funcionam. A cadeia de comando é rompida. Os tiros acontecem em poucos minutos. As pessoas correm, buscam proteção. A polícia recolhe o corpo do advogado e o joga no camburão. Cinco ou seis pessoas ficam feridas e são detidas. A polícia se refugia no camburão e sai em disparada. As pessoas retornam ao banco e a depredação começa.

Os supermercados baixam as portas, os donos se armam e convocam a segurança patrimonial. As pessoas arremessam pedras e paus contra as portas de ferro. As ameaças se fazem ouvir. Há tiros, há gás, há protestos.

Sua curiosidade acaba e você resolve voltar para casa, para cuidar dos seus. Você se lembra de que não fez compras do mês, que a manteiga estava acabando, que não tinha fósforos. Resolve esperar mais um pouco para ver se o saque ao supermercado vai dar certo.

A porta finalmente se arrebenta e os linchamentos começam a acontecer. Você aproveita a confusão e resolve pegar um pouco de carne no açougue, mas a pancadaria é geral. A seção de hortifruti está em frangalhos. Pessoas e mais pessoas saem do supermercado enfurecidas, com um sorriso doente no rosto. Você pega o que consegue e sai correndo. A polícia chega do lado de fora. Mais tiros, mais gás.

Você resolve usar a camiseta como proteção contra o gás e deixa as mercadorias no chão. Corre para qualquer lugar onde o gás não esteja. Então vê a barricada. Os carros queimados. As pessoas vestindo lenços no rosto. Você corre pra lá, pensando um atalho que o leve até a sua casa.

Você tira a camiseta do rosto e escolhe um caminho afastado dos bancos, supermercados e postos de gasolina. Vai por dentro da vila, longe do comércio. Encontra algumas pessoas olhando para o celular e resolve aconselhar: “Não estão funcionando. Não vá para o lado do supermercado. A coisa está feia!”

Você então chega em casa e vê sua mulher e filhos sem TV, sem internet, sem celular, sem telefone. Você resolve encontrar uma barra de ferro, separa as facas, as ferramentas.

Eles perguntam o que está acontecendo e você não sabe. Você conta o que viu.

Sua esposa vai conferir os mantimentos. Depois vai até a rua, conversar com a vizinha, tentar se inteirar do que aconteceu. Ninguém sabe mais do que você.

Vocês entram em acordo com os vizinhos, de solicitarem, caso precisem de algo.

Voltam para casa, esperando a luz voltar, esperando o telefone, esperando a internet. Isso dura três dias.

Os mantimentos começam a rarear. Vocês vão até os vizinhos e propõem algumas trocas. Alguns vizinhos concordam, outros não. Os mercados viraram zona de guerra e até os estoques foram saqueados. Os saqueadores estão escondidos, esperando a oportunidade para o melhor negócio.

Uma família de vizinhos resolve ir para o interior, para junto dos seus. As estradas estão impraticáveis. Os pedágios não funcionam, os postos não funcionam. Pouco a pouco, as estradas viram depósitos de carros sem combustível.

Os bairros começam a se atacar. Milícias são formadas. A polícia deixa de existir. O exército não funciona. Qualquer um com uma arma é um general.

Algum tempo depois é provável que um grupo de pessoas sem interesse no combate, comece a se unir e a propor alguma maneira de saírem da situação juntos. As balas começam a ser racionadas, os homens e mulheres, atormentados pelos crimes começam a ter crises de moral. Outros decaem ainda mais, abrindo mão de qualquer humanidade possível.

É impossível obedecer qualquer autoridade que seja.

As pessoas começam a se agrupar por afinidade e por utilidade, ao redor de homens e mulheres com habilidades úteis nesse contexto. Homens e mulheres hábeis e generosos, que não queiram lucrar com a desgraça alheia. Fazer fogo é a habilidade mais valiosa, seguido de perto por caçar, plantar, cozinhar e curar doenças.

Você se soma a um grupo desses e começa a trocar comida por trabalho. Sua força não é a mesma de antes. Você perdeu peso, perdeu dentes, perdeu entes queridos. Mas ainda é útil a essa comunidade. Pouco a pouco os conselhos de líderes começam a acontecer e redes de troca e comércio se formam.

Vocês resolvem criar cavalos.

A eletricidade volta em alguns pontos, através do uso criativo de painéis solares e geradores a combustível, usando óleo de mamona.

Um sistema de correspondência começa a existir, de forma rudimentar, através do transporte de mercadorias.

O papel é uma mercadoria escassa e algumas pessoas começam a usar argila, para seus registros e para a educação das crianças, agora reduzida à matemática, história, ciências, ética, filosofia e língua. A geografia é praticamente inútil. Se reduziu a um uso do senso de direção. As crianças aprendem ofícios úteis à comunidade e são postas para trabalhar.

As pessoas sentem faltam das antigas tecnologias e começam a trabalhar em maneiras de fazê-las funcionar com maior eficiência energética.

Algumas comunidades desenvolvem experiências com sucatas eletrônicas e conseguem criar um sistema de internet ponto a ponto, alimentado por painéis solares. Trocas começam a acontecer. As comunidades se especializam em serviços, que servem de moeda.

Em alguns anos, boa parte das comunidades mais ricas em talento estão com o sistema de internet refeito e as comunicações avançam. Conselhos de líderes começam a acontecer com maior freqüência, aumentando o intercâmbio de experiências.

Pouco a pouco se resgata a antiga tecnologia, com uma visão de autonomia e eficiência energética.

Casas são refeitas, cidades são repensadas.

O mundo renasce da ruína.

Sem chão

A crença é uma espécie de preguiça.

Já escrevi isso antes, quando comentei sobre a Fé.

Quando eu me coloco numa situação de experimentação e risco, tenho que abandonar um pouco as certezas. No terreno da exploração, as certezas me aparecem como impedimentos, muitas vezes. Pesquisando, sendo um cientista da vida, vou arriscando essa ruptura, testando a eficácia de algumas hipóteses e descartando algumas outras. Na prática mesmo, usando a vida como esse laboratório gigantesco.

Eu sinto que quando eu acredito em algo, não é como quando eu sei.

Eu sei que a coisa é assim porque tive uma experiência da coisa. Fico tentando traduzir que experiência é essa, buscando uma maneira de conversar contigo sobre ela. Vou tateando o caminho que fiz até chegar lá, mapeando o máximo de detalhes possíveis sobre as condições que geraram a experiência. Então me lanço de novo a ela, retendo mais uma vez os indicadores de avanço ou de impedimento. Então, quando me asseguro da eficácia desse guia, comunico a você como foi que eu fiz para realizar a coisa.

Acho que é mais ou menos nessa hora que o terreno da crença começa a aparecer. Porque é assim: se eu tenho a presunção de que aqueles indicadores que me foram úteis vão estar à serviço de todas as outras pessoas e se alguém lê o que comuniquei como um guia infalível para a obtenção de determinados resultados, a crença se instaura e com ela a preguiça e a ignorância.

O mapa não é o território. Nem sei de quem é essa frase, mas ela faz muito sentido nesse terreno da busca.

Nesse terreno da crença e da experiência não ficam imunes nem as religiões, nem as ciências, nem o misticismo, nem a política… Nada.

Essa época em que a gente vive é mesmo muito estranha.

O mundo está para acabar há doze anos. Em algum lugar, algum papel escrito por alguém dava detalhes de como seria o final dos tempos.

As instituições estão todas corrompidas, todas à serviço de qualquer outra coisa que não seja o ser humano. Os modelos de relação humana que temos são todos baseados na competição a qualquer preço. Não dá para saber nada com certeza. Isso aparece para muitos como o final dos tempos. Não dá para copiar o modelo dos seus pais e avós e seguir tocando a merda toda. E não sabemos muito o que fazer nessa situação.

Então começam a aparecer as teorias de tudo mais mirabolantes. São tentativas de manter as coisas acomodadas, de certa maneira, com alguma explicação que dê algum sentido a essa experiência coletiva maluca que estamos vivendo.

São os alienígenas, as energias místicas interplanetárias, os maias, a ilha de Páscoa, os gurus dos ateus, os pastores dos crentes, as forças cósmicas… Uma vitamina completa de teretetês que sabe-se lá o que pode resultar.

Crise, meu velho!

Hora certa para abrir mão dessa bosta toda e se lançar numa nova experiência.

Autoprivatização

Resolvi te escrever essa carta porque percebi que você não está fazendo as conexões certas. Os enganadores de sempre ainda estão funcionando muito bem. Ainda é mais fácil ligar a TV durante uma hora e acreditar que aquilo tudo é a sua realidade. Operando apenas cinco botões desse aparelho você consegue se enganar por mais algumas horas e vai dormir desejando que o seu salário caia logo para você poder se endividar um pouco mais.

O Egito estava governado por um ditador, a Grécia estava falida, assim como Portugal, a Espanha e a Itália. Os Estados Unidos não conseguem saldar seus compromissos. Os governos do mundo inteiro estão expostos no seu ridículo enquanto as corporações privadas e os bancos explicitam sua competência ao anunciarem seus lucros bilionários a cada semestre. Os protestos na Inglaterra são coisa de negros pobres. Os estudantes do Chile são pobres latinos.

Eu sei que eles estão dizendo sobre os crimes de pedofilia na internet. E também tem a história dos hackers, que roubam as senhas do seu cartão de crédito ao mesmo tempo em que atacam os sites dos governos e das empresas privadas, roubando senhas e expondo informações confidenciais. Os hackers que lançam vírus, que promovem a pirataria na rede. Eu sei que os governos estão dizendo que é preciso controlar a internet. Censurar o conteúdo. Violar a privacidade das pessoas, quando necessário. Eu sei que as empresas privadas colaboram prontamente com os governos, embora você tenha assinado um contrato com elas que garantia a sua privacidade. Embora a constituição do seu país garanta a sua privacidade.

Eu sei que a sua caixa de e-mails está lotada de SPAMs. Mensagens sobre o tamanho do seu pau, ou ensinando você a emagrecer. Sei dos bancos da Nigéria, que querem transferir um milhão de dólares para uma conta sua. Sei que você recebe propagandas todos os dias. E sei que quando você está com o saldo negativo, o caixa eletrônico imediatamente te oferece um empréstimo consignado, ou um crédito. Sei que quando a tua conta está cheia, o banco te oferece um aumento de limite de crédito. Tudo isso de forma automática.

Eu sei que você paga imposto sobre a circulação de veículos, para que o governo cuide das estradas. E sei que você paga pedágios, porque o governo não pode cuidar das estradas, mas a Sociedade Anônima (cujos acionistas são membros do governo) pode. As estradas melhoram quando são privatizadas.

Eu sei que você não quer pensar nisso porque amanhã tem que trabalhar, porque no final do mês vê o código da sua vida ficar preso em barras de pagamentos.

Você está virando propriedade de alguém, amigo.

E isso é escravidão.