Um exercício de planejamento

Eu hoje vou te propor um exercício de planejamento um pouquinho diferente.

Você pode fazer esse exercício com papel e caneta mesmo, mas se tiver mais familiaridade com softwares de planilhas numéricas, também serve.

Desenhe uma tabela com duas grandes seções. Na primeira você vai colocar suas RECEITAS, isso é, aquilo que as suas fontes pagadoras: seus clientes, empregadores, rendimentos. Na segunda seção, vão ficar as suas DESPESAS, isso é, tudo aquilo com o que você gasta a sua RECEITA.

Mas a gente vai ampliar um pouquinho essas duas noções. Em primeiro lugar, você vai pensar que RECEITA é algo que você obtém em troca da sua energia vital dispendida no tempo. Em segundo lugar, DESPESA vai ser tudo aquilo que você empreende para obter mais energia vital.

Equilibrar o orçamento doméstico é equilibrar o seu dispêndio de energia vital na construção da sua realidade. É muito importante lembrar dessa última parte: “na construção da sua realidade”. É extremamente importante. É aqui que entram os seus sonhos, seus projetos, suas alegrias.

Então não basta que a equação RECEITA – DESPESA se iguale a zero. É preciso gerar um excedente e é nessa sobra que está o futuro.

Para quem eu desejo ceder minha energia vital e meu tempo? Qual a maneira mais eficaz de obter energia vital e tempo para construir realidades?Agora vem a política na coisa toda. É uma pesquisa que vai te tomar um certo tempo, mas você só vai precisar fazer essa vez.

Ao lado de cada produto que você consome, na seção DESPESAS, você vai anotar o fabricante do produto. E ao lado do fabricante, o nome do dono da empresa, ou dos associados conhecidos. Essas pessoas são aquelas que você sustenta quando compra o que elas fornecem, com o tempo e energia vital delas, para suprir a sua energia vital.

Faça a mesma coisa na seção RECEITAS. Anote o nome da suas fontes pagadoras. As empresas, os proprietários e os principais nomes que você se lembrar. Você cede sua energia vital e tempo para que essas pessoas supram a energia vital delas.

Perceba agora como RECEITA e DESPESA se misturam nessa conta. A minha RECEITA é a DESPESA de alguém e vice-versa. A todo tempo você está trocando um quantum de energia vital com outros seres humanos.

E é preciso que a relação seja vantajosa para ambos, se todos quiserem o direito a realizar seus sonhos e projetos futuros. É preciso que se sejam relações que gerem excedentes, certo? Para ambos os elementos. E que ambos os elementos tenham autonomia para gerir esse excedente.

Agora olhe essa lista com sinceridade e veja o enorme desequilíbrio de alguns nomes que aparecem. Perceba agora que certos nomes da sua lista recebem energia vital de grandes conjuntos humanos. Estou falando de monstrengos corporativos com mil braços, que tentam ganhar dinheiro com qualquer movimento que você faz tentando correr atrás de energia vital.

Cada bloco desses sustenta um número de pessoas, age de uma determinada maneira no planeta e remove um quantum de energia que não é reposto. Para onde vai?

Você entende onde quero chegar?

Existe um conjunto (cada vez mais seleto) de pessoas no mundo que você sustenta com a sua energia vital. Na maior parte do tempo, você não percebe onde está colocando essa energia.

Mas esses senhores nos cercaram de tal maneira que, simplesmente por estar aqui vivo estou colocando energia na vida deles a cada movimento meu. E não tenho retorno na mesma medida.

Eu invisto muito nesses senhores. Muito.

Saiba quem são eles na sua vida.

Pare de colocar dinheiro neles.

Veja se é possível e como.

Corte suas relações com esses parasitas.

É isso o que eles são.

 

 

A medida de todas as coisas

Essas quatro afirmações e me parecem a mesma:

“O Todo é Mente, O Universo é Mental.”, Caibalion, Os três iniciados

O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são., por Protágoras

“O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa.”, Tábua das Esmeraldas, Hermes Trimegisto

“Trate os demais como queres ser tratado.”, A regra de ouro, por Silo.

Por alguma razão me pareceu que tudo o que o homem vê é a natureza da sua própria mente. Enquanto não conhece a si mesmo, não conhece nada e tudo o que vê são respostas transitórias à pergunta que intimamente faz a si mesmo: “quem sou eu?”

Aquilo que está em cima, nos céus é como aquele que está abaixo e olha para os céus. Então esse que olha para o outro sabendo que é como o outro, encontra o milagre da unidade, quando logra tratar o outro como quer ser tratado.

Como trato aquilo que está em cima e o que é que está acima do homem?

Economia que gera saúde

Queria partilhar esse aprendizado com o dinheiro. Eu sempre tive um certo rechaço com a idéia de concentração de recursos e desigualdade. Normalmente se cria uma justificativa para a concentração de renda tentando igualar diversidade com desigualdade, dizendo que é natural que algumas pessoas tenham mais capacidade de ganhar dinheiro do que outras e que isso faz com que a renda fique concentrada nas mãos de poucos.

Não entendo que é bem assim, mas entendo essa confusão. No nosso aprendizado sobre a partilha,escolhemos um único mediador para a troca de todos os nossos recursos que é a dívida e não a fartura. A dívida do outro, para comigo e não o meu excesso daquele recurso, que se não for empregado na troca, vai virar lixo.

Então chamamos a dívida de dinheiro e supostamente criamos um isolante emocional para a degradação. Então as coisas passam a “valer” dinheiro e esse valor é supostamente algo objetivo e isento. Tudo pode ser trocado por dinheiro e cada coisa tem seu preço. O preço é dado pela lei de oferta e procura. Quanto menos se tem da coisa, mais valiosa ela se torna. Quanto mais banal, menos valor tem.

O macabro na coisa é isso: você diminui o dinheiro em circulação. Então o dinheiro se torna raro. Com isso, você precisa aumentar o preço das coisas, para que o dinheiro chegue na suas mãos o quanto antes. Para aumentar o preço das coisas, você precisa usar simultaneamente duas estratégias: primeiro precisa comprar barato, isso é usar menos dinheiro para adquirir as coisas; segundo, precisa vender mais caro, parecendo que o preço é justo.

Na primeira estratégia, você precisa degradar o produto de quem te fornece. Dizer que a qualidade não é boa, etc… Para isso, você vai precisar criar para ele um concorrente. Alguém que vende melhor e mais barato do que ele. Qualquer outra qualidade que esse suposto concorrente tenha a mais do que o sujeito em questão serve para baixar o preço da mercadoria. Mesmo que o concorrente não exista na realidade. E para que seus fornecedores não saibam disso, você precisa criar alguma maneira de dividi-los, alguma intriga, alguma coisa secundária. Isso já é o suficiente para que os preços se mantenham baixos.

Na segunda estratégia, basta que você atribua alguma vantagem fictícia ao produto vendido. Quer dizer, você faz exatamente o contrário do que foi feito na primeira estratégia. É preciso que você diga que o seu produto é algo valioso. Único. Você cria valores adicionais ao seu produto. Você pode vender um produto pior, comprado bem mais barato, pelo valor do produto em excelência. O que vale é como você chama o produto e como você agrega valor a ele. O “concorrente” nesse caso é o produto antigo. Que é sempre pior do que o novo, que é mais caro.

Se isso não for possível, crie variações sobre o mesmo tema. Venda tomates menores pelo preço antigo e tomates do tamanho antigo por um preço mais alto. Ou ainda, atribua o aumento do preço a instâncias não presentes, como o governo ou o sindicato. Não importa.

Essas estratégias no lidar com a matéria vão ficando cada vez mais enroladas, no momento em que tentamos estabelecer o valor de um “homem”. Seja através daquilo que ele faz, daquilo que ele significa emocionalmente para mim, não importa… Todo homem tem seu preço. Essa frase sozinha anula completamente toda a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Transforma o homem numa coisa a ser comprada pelo menor preço. Num escravo.

Então eu sou algo que passa a ter que valer mais que o outro. Para isso tenho que diminuir o outro. Ele é mais jovem, menos experiente, preto, mulher, homossexual, nordestino… qualquer coisa, menos eu, porque eu valho mais. E sempre com a sensação de que algo vai mal nessa conta. Porque sempre aparece aquele que é “mais”  que eu. Mais branco, mais bonito, mais inteligente, mais esperto…

E somos lançados ao lugar do fornecedor, ali daquele parágrafo sobre a primeira estratégia. O outro fornece algo melhor que eu e eu preciso me vender mais barato. Preciso aceitar qualquer condição, qualquer troca.

E com isso, o dinheiro passa a valer ainda mais e o homem cada vez menos. Com a mesma quantidade de dinheiro é possível comprar cada vez mais homens e tudo o que eles produzem.

E a concentração acontece dessa maneira, bem simples. E sabemos disso. Sabemos disso e não conseguimos sair dessa ciranda. Porquê?

Não é porque o ser humano é assim, ou qualquer besteira simples dita assim sem pensar. Não. É simples.

O que é que só você veio fazer aqui?

Você: único, diferente de qualquer outro ser humano que exista agora e de qualquer outro que já tenha existido.

Essa é a questão a ser respondida. A única que vale a pena e estamos afastados dela por tempo demais. E ela libera o recurso único que cada um de nós tem a oferecer.

Os hindus tem essa sabedoria das quatro grandes metas, que eu acho muito bonita, embora não tenha servido para resolver a questão da igualdade social na própria Índia: Cumprir o dever (realizar o propósito), Gerar fartura, Sentir prazer de estar vivo e por fim Liberação (fazer as coisas com um fim em si mesmas).

Se ocupar desse assunto e atender a que outros se ocupem desse assunto. Isso seria economia. Partilhar esse recurso e ao fazê-lo, colocar o outro em situação de fazer o mesmo.

Cada um de nós, ocupado em atender a esses quatro objetivos, de forma integral em nossa vida e estaríamos falando de economia, no sentido pleno. Economia de fartura, de recursos renováveis, de vida.

Uma economia que gere saúde.

Crochê

Antes de eu saber o que era mandala, eu aprendi o que era crochê.

Minha mãe e tias tinham aprendido a arte com a minha avó e durante a minha infância, acompanhei muitas horas dessas tramas sendo tecidas, enquanto elas conversavam sobre a própria vida ou a vida de outros.

A linha vem numa espiral enrolada num novelo. E então a gente vai desenrolando essa espiral e tecendo os nós com uma agulha em forma de gancho. O padrão vai emergindo aos poucos, à medida que as carreiras se entrelaçam e volteiam sobre si mesmas, fazendo novo traçado, numa nova dimensão. Então temos a linha, o nó (ou ponto), a carreira (ou corrente), as casas (cheias e vazias), os motivos de diferentes geometrias. Espirais sobre espirais. Tramas sobre tramas. Dimensões superpostas.

E então isso virava colcha, vestido, fronha, camiseta, almofada, toalha de mesa, barrado. A utilidade, configurando outra dimensão.

Essas coisas que doem no corpo da gente, essas tensões, a gente também chama de nós. Então um dia, massageando as dores de alguém, eu me lembrei do crochê. Me lembrei que quando algo imprevisto acontecia e minha mãe errava um ponto, ela tinha que desmanchar toda a carreira para começar tudo de novo.

Uma das coisas mais bonitas do crochê é essa percepção de que não se pode continuar de qualquer maneira, sem resolver os erros em cada etapa. Isso sempre vai comprometer todo o resultado. Você precisa aprender a fazer o ponto certo. Mas também precisa aprender a lidar com seus erros e a corrigi-los. Puxar a linha da trama, desfazer o nó incorreto, voltar a tecer a trama.

Essas histórias que a gente entrelaça uma nas outras a gente também chama de trama. Um dia, escrevendo uma peça de teatro, eu também me lembrei do crochê. Lembrei da minha mãe empilhando os motivos numa sacola para depois juntá-los e dar a forma de uma toalha. Sendo também a peça de teatro uma trama feita de motivos distintos.

Elas teciam sem olhar para a linha, em alguns momentos. Me surpreendia ver essa tia que tecia o crochê enquanto assistia televisão. Quando o ponto era muito complexo, ela olhava para o que estava fazendo. Quando aquilo se configurava como automatismo, ela conseguia assistir televisão. Entre uma coisa e outra, emitia uma opinião sobre o que estava acontecendo na novela e eu sempre me perguntava como era possível que ela nunca perdesse o fio da meada. É claro que perdia. Às vezes errava um ponto ou confundia algo na trama da novela. Mas no geral, seguia com o crochê, desenrolando o novelo, enquanto se enrolava na novela.

Esses automatismos que a gente vai desenvolvendo, são estratégias que a gente vai desenvolvendo para não perder o fio da meada. Dependendo de onde está a nossa atenção no momento em que os configuramos, nos desenrolamos com eles ou ficamos cada vez mais enrolados. Liberação ou aprisionamento, dependendo apenas de onde colocamos a nossa atenção.

Eu já era adolescente quando isso me ocorreu pela primeira vez. Eu no computador, fazendo um programa em BASIC, e minha mãe na sala, tecendo seu crochê.

Na programação, aprendi a criar funções. Você tem alguns problemas que se repetem, não importa qual seja o programa que você está desenvolvendo. Então você cria uma estrutura para resolver esses problemas e essa estrutura se chama algoritmo. Com um algoritmo, você pode escrever uma função em qualquer linguagem. Essas funções vão sendo agrupadas numa biblioteca. É como uma caixa de ferramentas de programação. Nem sempre você vai usar todas, mas elas estão ali, salvas em algum lugar e você só precisa acioná-las com alguns parâmetros estabelecidos e elas vão retornar valores que você vai usar adiante.

Isso se parecia com os motivos que minha mãe guardava sempre nas suas diversas sacolas. Coisas que ela achou que ficariam boas em suas construções, mas que não serviam. Ou coisas que ela tinha feito apenas para treinar um novo ponto. De repente, ela se lembrava daquele bloco já pronto e percebia que aquilo poderia virar uma aplicação numa toalha de banheiro.

Foi só muito depois que eu fui aprender algo sobre hinduísmo, que é uma outra caixa de ferramentas. Existe essa palavra, cheia de sentidos, que foi lida no ocidente apenas como pecado ou maldição. Uma das minhas tias sempre foi chamada por essa palavra até que um dia começou a duvidar que esse nome fosse bom para ela. Carma, minha tia.

Karma, método, procedimento, abordagem. A idéia de que o resultado de algo é o efeito das ações empregadas para gerá-lo. Você tem um problema e desenvolve um método para abordá-lo. Esse método se revela ineficaz em determinadas condições. Você refina o método, e tenta uma vez mais e outra ainda. Essa repetição infinita, o loop existencial é Samsara.

Quando o método se encontra perfeitamente refinado, vira uma ferramenta útil. E é possível se liberar dele.

Então a Mandala surge. E com ela, o sentido de unidade.

 

Uma nova geografia

A web se tornou um incrível impulso para o meu autodidatismo. Acredito que isso tenha sido bastante comum nessa época, mas somente hoje é que eu me dei conta da extensão desta invenção. Desde 1995 eu venho lidando com a ferramenta, passando primeiro pelo acesso mediado através dos BBSs e depois ao acesso direto.

Eu entrei na Universidade em 1996 e lá, o acesso era rápido e gratuito. A USP também dispunha de uma biblioteca multimeios, repleta de CDs musicais, DVDs, Filmes em VHS e até mesmo alguns CD-ROMs.

Na época, pude suprir deficiências na minha formação escolar. Li todos os clássicos da literatura universal que pude, ouvi muita música, refiz meu caminho nas histórias em quadrinhos, melhorei meu inglês, li sobre psicologia, filosofia, sociologia, neurociências, arquitetura, artes plásticas.

Eu aprendi muito usando as bibliotecas da USP, mas a utilização da Internet foi se tornando cada vez mais importante para mim. De casa eu acessava o sistema Dedalus e podia descobrir se havia um livro determinado em toda a rede de bibliotecas da Universidade. Eu podia levar um CD para casa e ripá-lo totalmente em MP3.

Mais tarde eu conseguia PDFs inteiros e podia imprimi-los (no começo eu ainda fazia muito isso) para consultar a qualquer momento. E ainda os filmes, as séries, as legendas, Youtube, Vimeo e tantas outras idéias.

O que sempre foi notável para mim era essa sensação de horizontalidade. Você podia começar a conhecer algo em qualquer ponto e encontrar pessoas no mundo todo, em diferentes momentos de estudo do mesmo conhecimento e pedir ajuda. A cultura do compartilhamento começou a se formar.

E como eu imaginava no início, a Internet começou a se tornar um espaço que também permitiria novas interações sociais e isso iria transformar nossa noção de governo, democracia e participação social.

Então o cerco se fechou. As grandes corporações começaram a comprar start-ups interessantes. As políticas de privacidade passaram a valorizar mais a capacidade de vendas dos dados do que a privacidade real. As interações com outras pessoas passaram a ser mais restritas, a não ser que você pague algo (e ainda assim, o resultado sempre me parece uma fraude completa). Empresas e órgãos de segurança começaram a formar essa aliança funesta, desvendada por Snowden e Assange.

E agora eu vejo essa geografia como uma espécie de vale de lágrimas. A internet virou o terreno da lamúria, da mentira, do inútil. A potência inicial ainda está lá, mas se tornou mais difícil de ser vista por todos. Estou preso a essa rede social limitada, porque todos os meus amigos estão lá…

Não.

Hoje eu vi isso. As corporações e o governo percebem o perigo de se estabelecer relações horizontais com seres humanos de qualquer lugar do planeta. Percebem que isso pode mexer nos bolsos desses 1% que dividem os 50% dos nossos recursos. Percebem que podemos compartilhar informações que nos permitam saber quem são esses, como estamos dando dinheiro a eles e de que maneira podemos cortar essa remessa de recursos.

Somente a web poderia trazer essa informação para todos.

Parece que é sobre a privacidade, parece que é sobre direitos autorais, ou sobre terrorismo. Mas na verdade é sobre uma possível democracia real que se vislumbra no horizonte.

A web pode ser uma espécie de Eldorado.

Um novo continente, com leis próprias.

 

Decrépita democracia

Eu hoje me dei conta de que faço parte de alguma minoria.

Eu não estou envolvido em militância partidária faz algum tempo. Não acredito nisso. Tenho procurado outras maneiras de viver a democracia e isso implicou em mudar meu estilo de vida, abrindo espaço na minha agenda para me envolver em participação social em alguns itens que realmente são essenciais para mim e minha família.

Então eu hoje faço parte do Conselho de Pais da escola dos meus filhos, trabalho atendendo as pessoas que precisam de amparo emocional para decidirem seus rumos de vida em situações de crise, acompanho alguns produtores orgânicos e ainda fico pensando o que mais eu poderia fazer com meus vizinhos e amigos para resolver as necessidades que temos em comum.

Mas existe o macro. Existem essas empresas que nos prestam serviços horríveis a preços exorbitantes com a anuência do governo e de seus órgãos reguladores. Existem essas corporações cuidando de bens essenciais, como a água e os nossos alimentos, fazendo o que bem entendem com eles, também com a anuência do governo.

E eu sei que a muito tempo, aquilo que chamamos de “governo” na verdade é uma fachada para negócios escusos entre proprietários, e nós estamos de fora. Nós trabalhamos para essa gente e pagamos impostos para eles. Nós consumimos as coisas que eles nos vendem. Pagamos produzindo, pagamos comprando, pagamos vendendo, pagamos jogando no lixo. E com o que pagamos? Com nossa energia vital, principalmente. É ela, e não o dinheiro, o que está em cheque aqui.

Então nos pintam esse cenário de escolhermos entre vermelhos e azuis. E nessa eleição, ainda tivemos a opção do magenta, além dos habituais tons de azul e vermelho, chegando ao preto absoluto em ambos os lados. Mas não há nada real ali. Os candidatos todos têm alguns minutos por dia para nos convencer a escolhê-los. E como fazem isso? Criando drama.

Os marqueteiros constroem esses personagens durante meses e os vão adequando ao sabor das pesquisas. É uma enorme novela, o que vemos como campanha eleitoral. Vemos os debates e pensamos que significam algo. Mas não significam nada. Às vésperas das eleições eu tinha amigos me pedindo opinião sobre os deputados estaduais e federais. Gente que sabe que esses sujeitos vão lidar com as nossas leis e com os nossos direitos. Eles não sabiam onde encontrar a informação de que necessitavam. Não sabiam onde encontrar programas de governo e projetos de lei. Não tinham energia vital disponível para estudarem esse assunto e realmente decidirem em quem iriam votar.

Então temos esse resultado realmente assombroso nestas eleições:

39,9% dos eleitores optaram por não lidar com esse assunto. Ou votaram nulo (10,17%) ou em branco (10,18%) ou se abstiveram (19,55%). Isso referente às apurações para deputado estadual, aqui em São Paulo.

E então, se olharmos para os mais votados, temos Telhada, Xerife do Consumidor, Feliciano e toda uma gente que representa soluções simplistas, radicais e pouco prováveis, atacando algum “culpado social”, exatamente como foi feito na Alemanha de Hitler. São candidatos-produto, criados para satisfazer alguma demanda emocional da população.

É um indicador de pânico social. De impotência. Parece burrice, mas é impotência e falta de vivência do que é decidir em grupo…

Vamos ter muito trabalho pela frente… Existe algo sem nome que precisa ser articulado, no lugar dessa farsa que virou nossa democracia…

Eu me recuso a olhar para o resultado dessa eleição e achar que isso tem algo a ver com o país. Não é. Não foi o outro quem votou errado. Quase 40% das pessoas não achou que essa eleição iria mudar alguma coisa. Boa parte dos sujeitos eleitos foi criado dramaticamente para atender uma demanda emocional da população. É um indicador de esse modelo não funciona. É preciso ir além das urnas e começar a construir outra coisa. Não basta reclamar do vizinho. Não basta dizer que não temos opções. É preciso investir energia no que queremos construir. Se não são mais os políticos ou partidos, que seja outra democracia.

Mas é preciso agir.

 

 

Quadrilha

Eu sinto que é impossível ter qualquer opinião útil sobre o que está acontecendo. Me parece que estamos todos com os ânimos exaltados demais e nos deixamos influenciar por qualquer coisa que tenha o leve aroma de informação. Mas os fluxos de informação estão todos congestionados por um estado de “suspensão pelo terror”, que nada do que vejo e ouço me parece real. Não me refiro à informação que viria da mídia tradicional, porque faz algum tempo que não procuro esse tipo de canal para me informar. Tampouco o canal que utilizo habitualmente, que são alguns blogs e as timelines de alguns amigos queridos, porque os amigos são sempre a melhor fonte de informação, mesmo quando você não concorda com nada do que eles estão falando.

Não.

As ruas mesmo. Meu trajeto para o trabalho ou as visitas ao supermercado. A conversa entre as pessoas num ônibus e suas opiniões sobre o que “está acontecendo”. O que “está acontecendo” é o mesmo de sempre. O cara continua “fazendo” as mesmas coisas, tentando seguir seu programa diário e então, surgem essas histórias sobre a escassez futura. E o sujeito começa a imaginar o que ele terá que fazer para seguir seu programa, mesmo com essas novas condições, que ainda não se manifestaram. Ele vai preparando essa reação. Vai cozinhando essa resposta ao mundo dentro dele, com uma imaginação que vai crescendo a cada nova informação fragmentada que ele recebe.

As pessoas imaginam que sabem o que é a mentira. E isso não é o problema. A mentira é sempre a opinião com a qual eu não concordo. Isso é fato. O problema é que as pessoas sabem que não têm a menor idéia do que é a verdade, porque não recebem a informação completa e não conseguiriam lidar com ela, de qualquer modo. Então, entre a cruz e a espada, optam pela imaginação e pela manipulação. Estão sozinhas em sua opinião e buscam amparo no outro, tentando convencê-lo de uma história que contam para si mesmas, sobre um futuro terrível onde serão obrigadas a abandonar o programa que cumprem a contragosto em direção a algo absolutamente incerto e ameaçador.

Então as histórias sempre carregam esses mesmos elementos: aqueles que instauram o caos e a necessidade de que as forças da ordem se instaurem. Mas quem são as forças da ordem nesse momento? Aqueles que clamam justiça, se entendendo como vítimas de algo a que se sujeitam? Ou aqueles cujo programa consiste em eliminar as opiniões com as quais eu não concordo? Cada fragmento isolado em si mesmo, com as mesmas demandas e a mesma sensação de que a mentira é o outro.

E em mim sempre a sensação de que nos bastidores existem forças que operam quando os homens se vêem acuados por sua imaginação. Forças que lucram com esses movimentos precipitados.

E mesmo esses homens das coxias, mesmo eles, agora não detém um pensamento único. Estão em guerra entre eles, lutando para ver quem se alimentará do nosso terror. Então se expõem mutuamente, elaboram histórias sobre escassez para expor o adversário ao ridículo, enquanto exaltam seus acertos também fictícios. Recolhem informações que sejam suficientes para gerar na população o estado de terror desejado. Ficamos sem referência alguma, acreditando que o estado de terror se deve à uma polaridade não resolvida entre ordem e caos e já não sabemos quem pertence a que lado.

Enquanto isso, os homens das coxias investem pesado em ambos os lados da equação.

O que percebo é que isso nos coloca numa situação extremamente reacionária. Esse estado de terror faz com que entremos em modo de sobrevivência e nesse ponto, sacrificamos nossa parca racionalidade e capacidade de uma ação que vá além de cumprir um programa inútil e isolado. Nesse lugar, estamos prontos para as soluções milagrosas, as revoluções e os golpes.

Para mim, a pergunta continua sendo sempre a mesma: quem está ganhando com o homem que cumpre um programa, mesmo que o mundo caia ao seu redor? Quem é que diz “olha a cobra!”, para depois dizer “é mentira!”, levando a quadrilha de um lado a outro do arraiá?

O sintoma

Eu venho trabalhando essa idéia de que um líder é o sintoma da fragilidade de um grupo. O que não quer dizer que eu tenha abdicado da importância temporária de uma liderança.

Em dada circunstância, nos trabalhos em conjunto, quer por estreiteza das diversas perspectivas, quer seja por uma escassez objetiva de determinado recurso, o grupo se vê empacado na tomada de decisões, com diversas opiniões sobre um determinado assunto e dificuldade em levar a termo qualquer ação.

Nesses momentos de processo, por ansiedade ou determinação, surgem alguns indivíduos que se destacam através de uma iniciativa que abre passagem para o crescimento de todo o grupo. Esse é o líder, alguém que localiza um recurso onde os demais só percebem escassez.

A grande questão é que esse movimento acaba gerando prestígio para o indivíduo, através do reconhecimento por parte dos demais. Em muitas circunstâncias a iniciativa individual acontece porque o sujeito resolve agir, apesar das deliberações do conjunto, mas em casos ainda mais numerosos, o sujeito já se move dependendo do mérito que obterá dos demais. Já se move em busca de uma autoridade sobre os outros, o que significa que os outros lhe cederão a autonomia de suas ações por algum tempo(Assim deveria ser!)

Esse movimento em busca do reconhecimento já é o sinal de que algo vai mal na equipe. Por algum motivo, este sujeito se lança em busca de algo que o destaque dos demais e provavelmente, já se acentua o processo em que ele se sente desvalorizado por qualquer motivo. O que para mim é um indicador de que os processos de comunicação do grupo não estão funcionando à contento.

Por isso a manutenção do poder de um indivíduo sempre se dá às custas de uma comunicação direta e clara entre os indivíduos do grupo. O sujeito terá que se transformar na figura central em termos de comunicação, centralizando todas as respostas sobre aquele determinado assunto. Com o tempo, sua memória individual sobre os passos requeridos para se resolver aquela escassez temporária passará a se sobrepor sobre a capacidade dos outros indivíduos do grupo de desenvolverem outras iniciativas igualmente eficientes, segundo as suas particulares maneiras, o que abriria espaço para o grupo desenvolver-se ainda mais. Nesse caso, a cegueira de um passa a ser a cegueira de todos.

Ainda mais grave se torna esse processo quando este indivíduo passa a centralizar respostas para todo tipo de problemas. Neste caso, os demais membros do grupo abrem mão de sua autonomia em favor de “crenças” individuais sobre diversos assuntos. Então as ações se vêem tolhidas pela estreiteza de perspectiva de um indivíduo. E o mesmo sujeito se vê desprendendo enormes quantidades de energia para manter restrito o circuito de comunicação, usando todo tipo de estratégia para desqualificar as opiniões e impressões dos demais membros. Passa a buscar uma monocultura de mentes: a sua. O que é  sinal de doença e escassez.

Com o andamento desse processo, abre-se um hiato entre aquilo que os indivíduos declaram que irão realizar em benefício dos demais e aquilo que realmente fazem. Isso transparece pelo alargamento dos prazos na realização das tarefas. Possivelmente é um sinal de que aquele grupo não atende completamente a demanda daquele indivíduo e que ele precisa dividir seu tempo e suas prioridades com outras associações grupais. Isso passa a ser um indicador de problema no grupo em questão quando os indivíduos justificam sua inação neste grupo por estarem engajados em atribuições de outros grupos, realizando uma comparação que não possui nenhuma lógica coerente para o grupo, somente para o indivíduo em questão.

Fatalmente isso vai levar à dissidências, porque é o único recurso que o grupo dispõe, nesse tipo de processo, para novamente abrir espaço para lideranças emergentes e a diversidade.

Quando há suficiente autocrítica no grupo, a emergência das dissidências consiste num impulso para que os posicionamentos sejam revistos e em alguns casos ou ocorre uma alternância de líderes ou o próprio líder abre mão do papel que lhe consolidou no poder.

Liderança, acompanhada de comunicação direta, aberta e disposição para partilhar com os demais o conhecimento obtido por uma ação só pode implicar em autonomia. Para isso, o grupo precisa ter como acordo a autonomia completa dos indivíduos. Sob nenhum pretexto pode haver um ser humano acima dos demais. Mas a agenda do grupo não pode conter nada além do ser humano.

Manipulação é violência.

Poder é discriminação.

Um líder pode deixar de ser alguém que manda e se tornar alguém que orienta um processo consensual sem deixar de contemplar as iniciativas individuais, as lideranças emergentes, os novos focos de ação.

Diversidade é força.

 

Autonomia é Rebelião

Na escola eu aprendi que os modos de viver de outros povos eram atrasados e que a história era uma sucessão de progressos que levava fatalmente à Revolução Industrial, depois à Revolução Verde e finalmente à Hiroshima e depois ao Vietnã de Stallone. Na minha adolescência, a ficção e a história se misturaram definitivamente e durante algum tempo, eu cheguei a crer na guerra e na matança como ferramentas de limpeza daquilo que era indesejado. A guerra sendo o Pinho Sol da história.

Então o desconforto de achar algo errado nessa lógica. Esse desconforto e mais a imensa quantidade de hormônios circulando por todos os lados e uma enorme confusão mental.

E eu fui seguindo o roteiro pronto. Seguindo o roteiro pronto daquele que se rebela e resolve fazer as coisas “do seu jeito”. Então, enquanto meus amigos iam por ali, eu ia por lá. Enquanto se meteram a ganhar dinheiro, eu me opus a isso. E achei que essa oposição era fazer o que se gosta e que fazer o que se gosta era não ganhar dinheiro. Neguei o dinheiro. Neguei o meu próprio valor ao negar o dinheiro e o caminho de meus amigos. Na verdade, eu traçava o caminho dos meus amigos ao negá-lo. Era preciso que eu estivesse ali, negando esse caminho, para que aquele caminho se definisse como verdadeiro.

Fui dando o meu jeito de permanecer abastado, mesmo à margem. Mas permanecia dependente daquele caminho, como se aquele caminho também margeasse o meu. Como se, na ausência dessa oposição entre os caminhos, não houvesse nenhum contorno definido entre uma opção e outra. Como se nessa ausência, eu me desse conta de que não tínhamos ali nenhuma opção. Ficar entre alternativas já estabelecidas não significa fazer as coisas do seu jeito.

Qual a escolha real?

Fazer as coisas do meu jeito. O que significa isso? O quanto estou disposto a isso? Isso realmente significa autonomia? Eu precisaria me apartar de todos os outros para fazer as coisas do meu jeito?

Então vamos a isso.

Enquanto eu permanecer à margem, o caminho que impera vai continuar definido. Então não ficarei à margem. Enquanto eu negar esse caminho, ele se afirmará. Então não o negarei. Enquanto me oponho a ele, mas dependente dele eu fico. Não me oporei a ele. Mas também não posso colocar nele nenhum recurso meu. Nada. Nem meu afeto, nem minha mente, nem meus atos.

É preciso cortar a dependência desse outro caminho para que o meu se defina. Então é preciso definir o meu caminho para além da oposição. É preciso ganhar minha própria ação e arcar com a responsabilidade total sobre isso. Coração, mente e braços totalmente engajados nisso que chamo de autonomia. Que é um caminho meu apenas e não tem nada com o outro. Não tenho nada com ele e ao mesmo tempo, busco relação com ele sem me envolver nas suas coisas. Busco o benefício da relação, ofereço o meu melhor e deixo o outro em paz com sua escolha e seu caminho.

E sigo adiante, quando bem entender.

 

 

Chiaroscuro • A predominancia da visão

Sendo um blog, eu posso me dar ao luxo de publicar um artigo incompleto, uma reflexão ainda em processo. Não é uma tese, ou dissertação e ainda me faltam mais dados para expor claramente essas associações. Então elas ficam no lugar onde o artista predomina sobre o cientista, e logo ali adiante, num outro artigo ou numa conversa qualquer, a idéia brota inteira.

Celeritas, (velocidade ou a relação entre tempo e espaço) é a origem do nome da constante c=299 792 458 m/s, que corresponde à velocidade da luz no vácuo.  Um objeto a altas velocidades, próximo à velocidade da luz, não pode ser acelerado até, ou mais que, a velocidade da luz, não importando quanta energia é transferida ao sistema. Matéria estando sempre abaixo dessa velocidade, não importa quanta energia se transfira ao sistema. Quanto recurso se use para isso.

A quantia máxima de energia que se pode obter de um objeto é dada pela massa do objeto multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. E então, estamos limitados a isso, essa é uma espécie de cerca para os objetos materiais se manterem como objetos materiais, ali adiante, perdem coesão, perdem consistência e geram enormes quantidades de energia nestes processos. Uma energia que desintegra o objeto material como tal, que não lhe permite a continuidade. Então, em direção à luz, objeto material se converte em algo similar à luz, mas tal movimento não lhe acrescenta nada. Ao contrário, lhe desintegra completamente. Ele muda de qualidade.

E mais as equações complexas e mais as elocubrações sustentadas nessas equações. E mais o trabalho de mil homens e a prova cabal disso, de que a matéria convertida em energia se transforma em morte, quando bombardeamos Hiroshima. Então, essa violência nos colocou uma barreira. E dali em diante, a matéria e seus processos passou a ser cada vez mais degradada. E com isso o corpo. E todos os outros sentidos que o conectam com o mundo.

Me parece que a equação é a bomba. A grande bomba, antes mesmo de ser detonada. E a detonação como trauma da equação, nos limitando a esse axioma de que, rumo à luz, estamos fadados à morte. E=mc² sendo o Cristo crucificado, a morte do Deus elevado à luz. Então, nos contemos. Paramos aí. Não seguimos adiante. Não avançamos ante à realidade paradoxal que a morte e o além da luz nos propõe. E nossa vida material perde atributos e valores.

Não te parece o mesmo? O mesmo recurso traduzido em novo idioma, em nova época, em nova cultura, mas o mesmo limite? A mesma luz, usada como cerca, o mesmo círculo de giz?

Fadados a permanecer sempre aquém desse ponto onde o particular se converte em movimento para fora, em movimento em direção a algo, sendo esse algo o outro eterno, a realidade para além da cerca do indivíduo.

Que passa com essas metáforas de realidade? De onde surgem essas idéias? E porque, para mim, a imagem de Einstein não difere em nada das construções taoístas de Yin e Yang, da árvore sefirotal Cabalística, do Zodíaco de diversos povos, do Arqueômetro?

Sete cores do arco-íris, doze cores somando as primárias, secundárias e terciárias. Sete e doze, aparecendo milhares de vezes em distintos povos para dividir distintos atributos. Luz e trevas, claro e escuro. A luz, aquilo que possibilita o horizonte e as trevas, que nos colocam em contato com os outros sentidos do corpo. Com aquilo que ouvimos, tateamos, sentimos de dentro de nós mesmos. Com a nossa introspecção. Com aquilo que sentimos para além do que deveríamos estar vendo.

E as ilusões visuais. O rei, vestido de ouro. O rei sol. O máximo em luz. Aquele a quem nós empoderamos porque é um deus. A fronteira para além da qual está a morte certa e a desintegração. E então, o cidadão-corpo, o cidadão-partícula, o cidadão-matéria, ele se conforma com a sua condição. Ele sonha. Ele é lançado nesse mundo de sonhos, onde a luz é algo a ser evitado para que a mente permaneça mais tempo sonhando. Ele abre o olho e então, as ilusões lhe são lançadas. A cerca está lá. A luz, gerada por outros para que ele permaneça ali, sendo particular em seu medo da morte.

E no corpo, o cidadão sente a fome, a escassez, a violência, a presença indesejada de um outro que se converte numa matéria tão suja quanto ele. Seus impulsos em direção ao outro são contidos por decretos, por religiões, por ameaças de todo o tipo. E ele segue só, sentindo que essas coisas são suas. Lhe falta a luz, para perceber o outro à distância. O outro com sua peculiaridade, distinto, mas ainda, o mesmo humano que ele. No escuro, ele só sente a si mesmo. E quanto mais registros de sofrimento tiver do próprio corpo, mais terror ele terá da luz, porque a luz desde sempre significou a morte.

Para onde vamos, quando a luz deixa de fazer sentido?

Para onde vamos quando não estamos atrelados àquilo que vemos e sim aquilo que sentimos? O que diabos é isso que chamamos de energia, que é maior que nós, que está em nós, que processamos de diferentes maneiras inclusive, vendo a realidade de maneira ilusória. Atrás dessa cortina chamada percepção visual.

Atados ao ritmo circadiano, agimos na luz e sonhamos nas sombras. Isso tem alguma relação com o hipotálamo, que regula nossa homeostase (capacidade de adaptação térmica),  conecta-se ao sistema endócrino (todas as secreções hormonais que regulam a química interna do corpo), e o sistema nervoso autônomo (sistema neurovegetativo ou sistema nervoso visceral – o lugar de excelência do centro Vegetativo, de Gurdjieff e Silo). O controle do sistema da vida está intimamente relacionado com a percepção do dia e da noite. O hipotálamo era chamado pelos egípcios de “Olho de Hórus” (o deus dos céus – ou da percepção do dia e da noite, pois um olho do deus era a lua e o outro o sol).

Não é possível atuar sobre esse aspecto do sistema nervoso voluntariamente, quer dizer, um indivíduo controlar o próprio sistema  nervoso autônomo (mas existem relatos de grandes iogues que chegaram a isso). No entanto, você conseguiria uma atuação sobre o sistema nervoso de outros seres humanos se fosse capaz de alterar a percepção deles do ambiente circundante. Como?

Manipulando a imagem. Gerando dia e noite a partir de imagens. Atribuindo significado a determinadas imagens poderosas. Representações de forças titânicas do homem como se fossem figuras externas, na forma de deuses e mitos.

Então você engendraria em milhares o temor à morte pelo temor à lucidez. E os manteria presos a um sonho.

Essa técnica tem sido usada milhares de vezes em distintos momentos da história e funciona repetidas vezes. Do mito de Prometeus  à Lúcifer, de Mitra a Cristo até chegar em Einstein e sua equação. A mesma tradução da luz como limite. E depois da luz, a noite paradoxal e sem imagens.

Por isso algumas iniciações podem ser assustadoras para o status quo. A idéia de “iluminação” (novamente a luz), de acordar de um sonho, de união com o divino, de realizar o propósito, de liberação e finalmente, sair da cerca e do circadiano.

Lucidez vai implicar em ação. Ação verdadeira. Ação conectada com o propósito, com a Verdadeira Vontade.

Dharma.

E rebelião.