O soldado corporativo é o inimigo da democracia

Surtou com a headline.

Isso porque ele fez todo o processo educacional para chegar a esse ponto, de trabalhar nesse grande empresa.

Aprendeu uma série de processos e de maneiras de coordenar ações; recebe uma série de bônus, quando desempenha sua missão de forma exemplar; goza de uma série de benefícios. Um terço do seu dia é dedicado a agir dessa maneira solicitada pela corporação. Entre um sexto e um décimo do seu dia ele gasta no trajeto. Com sorte, dorme outro terço de dia e goza o que sobra. Gozar o que sobra é comprar algo.

Na empresa ele é apenas uma pequena engrenagem de um grande sistema. É preciso realizar as etapas todas do processo no momento adequado, visando sempre o objetivo maior da empresa, que hoje é o de gerar lucro para seus acionistas.

Gerar lucro é moleza: criar valor e diminuir custos.

Você cria valor basicamente usando marketing, que é um jeito de temperar a carniça. Você baixa custos basicamente criando maneiras engenhosas de pagar menos por qualquer etapa do processo (acelerando-o, terceirizando mão de obra para reduzir o valor, usando matéria prima mais barata). Em resumo, o produto é essa coisa mal feita, que vai quebrar logo, que não atende o cliente, mas que você diz que atende. E bem.

As empresas vão ficando apenas com essas pessoas que desempenham funções que estão distantes desse lugar onde o custo precisa baixar.Gerentes, vendedores, técnicos operacionais, engenheiros….

O homem que faz o produto, aquele que realmente lida com a produção, ele trabalha o mais longe possível e de maneira mais barata. De preferência, num outro país, num continente longínquo.

Fora da empresa, naquelas horas que sobram pra ele: ele vê o país através dos meios de comunicação; ele paga suas contas, cada vez mais caras por serviços cada vez piores; ele não tem tempo para participar de política, política é aquela canalhice que aparece no jornal da noite; ele não tem tempo nem gosto de participar de uma reunião, porque as pessoas “falam falam e ninguém decide nada” e ele não vê que ficou acostumado a ter chefe, a receber ordem e que ele mesmo fala fala e não decide, porque tem medo de decidir; e porque está cansado também, porque passa horas e horas no trânsito ouvindo rádio de seguradora; quando ele caga, ele lê aquelas revistas que são empresas como a dele, dizendo as mesmas coisas que ele ouve dentro da empresa; ele não vê que a empresa cercou ele, que quando ele dorme, sonha que foi promovido, que está de férias. Na empresa sempre, mesmo no sonho.

Na TV os ladrões são esses homens que roubam os bancos, que levam as pessoas embora ou que recebem propina. Os ladrões pobres morrem em loop. Mas os ladrões ricos se candidatam a novos cargos. Os ladrões ricos dão lucro a alguém. Como ele. Ele não se sente ladrão, mas vocifera contra o trombadinha e não consegue ver o político sem uma certa dose de admiração. O político é, afinal de contas, um homem bem sucedido. É rico. Tem coisas.

Fatalmente chega o dia do desemprego. O nome: desemprego. Querendo dizer que você não serve para nada. Que você não funciona mais e por isso não merece ser funcionário. Uma coisa velha, sendo descartada com uma indenização e o fundo de garantia (cada vez mais ameaçado, porque uma empresa está de olho na lucratividade da previdência e um grupo de funcionários dessa empresa estuda maneiras de tomá-la de uma vez das mãos do governo). Ele entra com o pedido de seguro desemprego e volta para o mercado de trabalho.

Ele espera uma “recolocação”, porque agora faz parte do estoque de mão de obra desempregada. Ele vale menos agora. Porque a reserva está acabando e ninguém quer pagar o que ele ganhava. Ele precisa desesperadamente entrar no mercado, porque fora do mercado, fora da empresa, ele vê o país que ele construiu não com sua omissão, como ele costuma pensar vez ou outra. Ele vê o país que ele construiu ajudando a empresa a roubar o cidadão.

Mas ele volta aos políticos, aos juízes corruptos e ao fato de esse país ser o Brasil.

“O problema é a gente.”

A gente que ele sangra, quando trabalha e sangra.

A gente que ele é, mas esquece.

Que ele é, mas parece que era na Indonésia, China, Índia, África, Haiti, Bolívia, Taiwan, Bom Retiro… O mesmo, ele.

 

Um exercício de planejamento

Eu hoje vou te propor um exercício de planejamento um pouquinho diferente.

Você pode fazer esse exercício com papel e caneta mesmo, mas se tiver mais familiaridade com softwares de planilhas numéricas, também serve.

Desenhe uma tabela com duas grandes seções. Na primeira você vai colocar suas RECEITAS, isso é, aquilo que as suas fontes pagadoras: seus clientes, empregadores, rendimentos. Na segunda seção, vão ficar as suas DESPESAS, isso é, tudo aquilo com o que você gasta a sua RECEITA.

Mas a gente vai ampliar um pouquinho essas duas noções. Em primeiro lugar, você vai pensar que RECEITA é algo que você obtém em troca da sua energia vital dispendida no tempo. Em segundo lugar, DESPESA vai ser tudo aquilo que você empreende para obter mais energia vital.

Equilibrar o orçamento doméstico é equilibrar o seu dispêndio de energia vital na construção da sua realidade. É muito importante lembrar dessa última parte: “na construção da sua realidade”. É extremamente importante. É aqui que entram os seus sonhos, seus projetos, suas alegrias.

Então não basta que a equação RECEITA – DESPESA se iguale a zero. É preciso gerar um excedente e é nessa sobra que está o futuro.

Para quem eu desejo ceder minha energia vital e meu tempo? Qual a maneira mais eficaz de obter energia vital e tempo para construir realidades?Agora vem a política na coisa toda. É uma pesquisa que vai te tomar um certo tempo, mas você só vai precisar fazer essa vez.

Ao lado de cada produto que você consome, na seção DESPESAS, você vai anotar o fabricante do produto. E ao lado do fabricante, o nome do dono da empresa, ou dos associados conhecidos. Essas pessoas são aquelas que você sustenta quando compra o que elas fornecem, com o tempo e energia vital delas, para suprir a sua energia vital.

Faça a mesma coisa na seção RECEITAS. Anote o nome da suas fontes pagadoras. As empresas, os proprietários e os principais nomes que você se lembrar. Você cede sua energia vital e tempo para que essas pessoas supram a energia vital delas.

Perceba agora como RECEITA e DESPESA se misturam nessa conta. A minha RECEITA é a DESPESA de alguém e vice-versa. A todo tempo você está trocando um quantum de energia vital com outros seres humanos.

E é preciso que a relação seja vantajosa para ambos, se todos quiserem o direito a realizar seus sonhos e projetos futuros. É preciso que se sejam relações que gerem excedentes, certo? Para ambos os elementos. E que ambos os elementos tenham autonomia para gerir esse excedente.

Agora olhe essa lista com sinceridade e veja o enorme desequilíbrio de alguns nomes que aparecem. Perceba agora que certos nomes da sua lista recebem energia vital de grandes conjuntos humanos. Estou falando de monstrengos corporativos com mil braços, que tentam ganhar dinheiro com qualquer movimento que você faz tentando correr atrás de energia vital.

Cada bloco desses sustenta um número de pessoas, age de uma determinada maneira no planeta e remove um quantum de energia que não é reposto. Para onde vai?

Você entende onde quero chegar?

Existe um conjunto (cada vez mais seleto) de pessoas no mundo que você sustenta com a sua energia vital. Na maior parte do tempo, você não percebe onde está colocando essa energia.

Mas esses senhores nos cercaram de tal maneira que, simplesmente por estar aqui vivo estou colocando energia na vida deles a cada movimento meu. E não tenho retorno na mesma medida.

Eu invisto muito nesses senhores. Muito.

Saiba quem são eles na sua vida.

Pare de colocar dinheiro neles.

Veja se é possível e como.

Corte suas relações com esses parasitas.

É isso o que eles são.

 

 

Partilhar

Nesse trabalho, o maior privilégio é ir construindo essa relação de parceria com pessoas que no início me eram completamente estranhas. Eu ainda sou ator, fazendo esse trabalho. Minha mente é a do ator, olhando para o conflito, tentando entender como o drama se forma.

Partilho com essas pessoas nossas histórias, nossas dores, nossos movimentos e crises. E tenho satisfação em tentar compreender como é que tudo isso se define e se expressa no corpo.

Pouco a pouco fui me instrumentalizando para encontrar essa abordagem que usa os jogos teatrais como instrumentos de investigação dessas tensões permanentes que nos definem em forma de dores e histórias e que temos a ousadia de chamar de “eu”.

É como se o trabalho do ator fosse o reverso do trabalho de terapeuta e no meio desses dois caminhos se encontra o personagem que escolhemos defender, com toda dificuldade de mantê-lo consistente num meio tão variável e complexo quanto a vida nesse mundo. Então eu fui entendendo que a gênese do personagem a que eu chamo de “eu” é algo efetuado através de um procedimento muito similar ao que usamos quando construímos o personagem no espetáculo a quem chamamos “o outro”.

Gestos, movimentos, escolhas de padrões, motivações ocultas, sub-textos. E assim, somos aquilo que criamos para nos relacionar com essa platéia de outros.

Mas atrás desse homem, que se transforma no personagem para agradar a outros, existe essa coisa que age. Esse, que age no mistério que somos é o ator. E ele quer mudar. Ele precisa mudar. Precisa de novos desafios, precisa desenvolver novos caminhos. O ator precisa sempre ser outro.

Ele é o que segue errando, o errante, que define seu rumo a partir das pegadas.

Esse meu amigo me perguntou um dia se havia um caminho que levaria o homem ao ator. Eu digo que há. Mas o ator, é esse que age na sombra do homem e que espreita o momento em que o homem desejará se livrar desse personagem fixo que o define para se tornar um outro, e com isso, se aprofundar no mistério chamado vida.

Então eu e a Claudia pensamos em criar esse espaço coletivo. Onde podemos ir investigando essa história que contamos a partir do corpo e da memória. E ir afrouxando esses laços, para que a ação ressurja no homem e ele se torne novamente, aquele que age, aquele que escreve a própria história. O ator.

O espaço onde o encontro com o outro é jogo, descoberta, investigação e apoio mútuo.

Para nós, espaço de fartura, de acolhida. Espaço onde muitos encontram muitos.

Propósito

Não como uma função ou um trabalho na linha de montagem da vida.

Um talento, talvez. Um dom, não como uma distinção que o coloque acima dos demais.

Um dever, não como algo imposto de fora, mas como algo que precisa se expressar de qualquer modo.

Então, essa ação interna é algo que se dirige a outros, mas não segundo os termos do outro. É algo que se feito, gera ao redor a fartura.

Fartura não como excesso de reservas, mas como fluxo. Como um rio, que sempre flui e está sempre disponível para ser gozado. Então é preciso ter a disposição e a ciência de gozar o rio, que não significa retê-lo na memória, atê-lo ao passado. Gozar no agora, no presente. Aceitar a possibilidade da mudança, o fluxo. Não matar o futuro, reduzindo-o a uma repetição do passado.

Acima de tudo, manter-se livre do outro. Do externo, da recompensa externa. Do resultado. Da estagnação.

Então como isso tudo é feito?

Como é a prática disso?

De mil maneiras se chega a isso, como algo interno. Mas nenhum método externo vai trazer qualquer resultado. Não é um efeito, um estado, um produto, um objeto a ser adquirido. Não é outra identidade.

É um jogo estranho esse…

Porque me sento aqui e escrevo sobre isso, na esperança de que você, ao ler, esteja instigado? Porque isso para mim, vem no lugar da fartura. É um oferta. Não espero nada de você. Não posso esperar.

Então você vem até mim e espera respostas e estamos os dois condenados.

Você me segue, porque espera que eu me responsabilize pelo que você deveria fazer. Você espera que eu diga o que você precisa fazer. Me autoriza a isso. Em mim, você vê algo que seria capaz de tomar a sua ação nas mãos e realizá-la. Você se isenta da responsabilidade e colhe os frutos daquilo que foi feito. Isso é o que você espera, quando decide me seguir.

E eu, me seduzo com isso, porque você, ao me seguir, parece estar validando a minha busca. Sem você, eu estaria reduzido aos meus fracassos insistentes. À dúvida de cada experiência. À luta, para não transformar tudo em morte, em memória, em medo. Ao movimento permanente em busca de equilíbrio. Você me estabiliza, me diz que eu já cheguei no lugar, que não preciso mais continuar a busca. Isso é o que eu espero, quando aceito que você me siga.

Então me ocupo de você. E de outros mil. Quanto mais seguidores, mais validado estou no meu caminho. Passo a depender dessas opiniões. Onde eu estou? Diariamente estou em vocês. Eu agora me chamo Legião, porque sou muitos. Eu tenho a cara daquilo que agrada a todos, daquilo que mantém todos vocês na linha, na minha linha. Naquilo que eu entendo por método.

Mas eu mesmo já me perdi do método. Eu agora sou vocês. E o que somos?

Eu amaria vocês se vocês fizessem exatamente como eu digo? Eu olho para você seguindo o meu método e você é infeliz com ele. Você é dependente dele, não consegue trilhar seu rumo sem ele. Eu olho para você e vejo meu método inutilizado em você. Eu inutilizo meu método, então. Não. Isso não dá certo para vocês. Não dá certo para mim.

Então estamos perdidos.

Mas eu não consigo deixar você de lado, porquê agora não tenho mais nenhum método para seguir. Ao menos você acredita em mim. Isso vai passar. Tudo passa. Daqui a pouco eu vou saber direito o que precisa ser feito.

Mas não sei. Não tenho tempo de saber. Você me ocupa. Vocês todos me ocupam. Preciso de todos vocês para me certificar de que meu método vai dar certo. Eu estou perdido. Estamos todos perdidos, mas eu estou na frente. Guiando todos vocês rumo a esse abismo que se tornou a minha ausência de método. Aonde vamos chegar com isso? Eu não sei. Não sei mais.

Mas preciso continuar. Eu sou a mentira e por isso, não posso deixar que ninguém perceba minha real natureza. E quanto mais me afirmo nisso, mais dúvida eu sou.

Não! Não venha atrás de mim! Eu agora já te odeio! Você e eu nos culpamos pela infelicidade que disputamos. Eu quero ser mais infeliz que você, porque isso te tornaria mais culpado. E você tem a mesma pretensão a meu respeito. Eu agora fico exigente, intransigente. Eu crio demandas impossíveis. Eu preciso ver quem vai sobrar ao meu lado. Eu preciso ficar só.

Mesmo o último dos meus asseclas me será sempre um traidor. Ele traiu a si mesmo, como poderá não me trair?

Não. Não vou por esse caminho.

Não me siga. Não me obedeça. Não adote o meu método.

Permaneça livre, em você mesmo. Fazendo a experiência segundo a sua particular maneira.

É preciso que eu lide com você desta maneira.

Esse é o único modo de nos mantermos livres.

Eu estarei aqui.

Eu aceito você desta maneira.

Mas não serei seu escravo.

Cuidado

Essa integridade do homem depende de um ambiente muito específico e delicado para acontecer.

Qualquer sinal de luta pela sobrevivência e o sujeito deixa de observar o outro. Ele abandona a prerrogativa do cuidado (no sentido de atender, auxiliar, amparar) e passa a ter cuidado (no sentido de temer, suspeitar, desconfiar). Nessa hora, é cada um por si.

Nós criamos todos esses artifícios de convívio, então criamos leis e regras. E aí, não funciona. Não dá certo. Nós insistimos e gastamos uma quantidade enorme de recursos criando mil maneiras de patrulhar o outro e corrigir seu curso. Mas acabamos por criar pequenas máquinas que nos tiranizam. E logo nos vemos novamente em sobrevivência, lutando com essas máquinas. Desobedecendo as pequenas leis que nós mesmos criamos para nos esconder da nossa responsabilidade com o outro.

A  máquina na forma de uma lei, ou de alguém exercendo um papel determinado porque foi autorizado por todos os outros a ser aquele que patrulha. Então esse, ele mesmo, ele comete um ato baseado no seu medo do outro. E então, ele escapa da máquina e novamente é necessário outra lei e outra coisa e outra punição.

E vamos fazendo as nossas manobras para garantir o máximo de eficácia com o mínimo esforço. E isso na relação com o outro, em modo de sobrevivência, se configura na criação disso que eu chamo de máquinas, que são esses automatismos criados em comum acordo, em pequenos grupos de nós, e que determinam como agiremos de maneira a não mudarmos o significado de cuidado.

Então me parece que o fundamental seria atender a esse ambiente em que o homem se sentisse acolhido. Primeiro isso e depois qualquer acordo, qualquer automatismo, qualquer máquina, mas sempre tendo isso como o primário.

Porque se o homem é lançado em sobrevivência, ele usa seus infinitos recursos para vencer qualquer condição extrema e ele triunfa. Isso é o melhor do homem e não deveria ser tolhido de maneira alguma.

Porque entramos em modo de sobrevivência quando nos relacionamos uns com os outros? Essa pergunta me parece ser fundamental, porque me parece que é algo que fazemos quando estamos em relação com o outro e interpretamos a sua conduta de maneira que ela nos parece ameaçadora. Então saímos do cuidado e entramos na zona de perigo.

Eu quero ser aceito. Quero ser considerado. Quero ser tratado de uma determinada maneira.

Quando o outro viola essa maneira, me sinto agredido e então, é cada um por si.

Como agir, com base nessa prerrogativa? Eu quero ser aceito. Quero ser tratado de determinada maneira. Então imponho isso ao outro? Com alguma chantagem? Pode ser então que o outro se submeta a isso, durante algum tempo. Mas sempre como algo para ele. Alguma vantagem oculta para ele como algo que lhe economiza energia, em sua relação para comigo.

Mas sempre que ajo assim com o outro, impondo algo a ele e submetendo-o à minha intenção de ser tratado de determinada maneira, passo a temer que alguém faça o mesmo comigo para que eu o trate da maneira como ele gostaria de ser tratado. Então eu me submeteria a isso, extraindo alguma vantagem para mim, algo que me poupe energia em minha relação com esse.

Estaríamos todos envoltos em uma nuvem de mentiras, escondidos atrás delas para que o outro nos deixe em paz com as nossas coisas. E a nossa vida, aquilo que realmente tem sentido para nós como sendo uma espécie de crime.

Então como começa isso?

Tratar o outro como eu gostaria de ser tratado. Como eu gostaria de ser tratado e porquê? Como eu poderia ser bem tratado sem que isso significasse a anulação do outro?

Porque eu entendo que essa determinada coisa a ser obtida (um bom tratamento) por que eu entendo que essa coisa é que me fará ser uma pessoa melhor?

Então primeiro eu recebo algo do outro para que eu possa lhe dar esse algo? E a ação fica tolhida, sem iniciativa. Fatalmente tendendo ao tipo de cuidado que significa perigo. Significa que o outro pode não me dar esse algo. Ele pode me trair. Novamente o blefe e uma vida abreviada.

E se eu olhasse para o outro.

Se eu o tratasse como eu gostaria de ser tratado.

Se eu desse sempre o primeiro passo, nesse sentido. Na direção de deixar claro para o outro como eu gostaria de ser tratado pela minha ação em direção a ele. Pelo cuidado, expresso nessa ação.

E o outro, como ele interpretaria esse meu cuidado? Como uma ofensa? Sim é possível. Possível que para mim seja um cuidado e o outro considere isso ofensivo e se retraia. Tendendo a mentira. Tendendo a um automatismo que lhe economize energia em relação a mim.

Então na retração do outro eu teria perdido a minha capacidade de compreender como poderia tê-lo tratado melhor. Novamente imerso nisso.

É preciso criar uma comunicação adequada, de uma maneira que nem eu nem o outro nos sujeitemos um ao outro. E ainda assim, cuidado. Zelando por um bom tratamento.

Talvez a palavra seja hospitalidade.

Como quando eu recebo uma pessoa na minha casa, alguém que eu gostaria de me relacionar por um tempo. Então eu ofereço o que tenho e a acolho.

Eu acolho essa pessoa no meu coração por algum momento.

Acolho e escuto.

Eu a trato com o que tenho de melhor e não espero nada dela. A não ser que ela tenha a capacidade de tratar alguém da mesma maneira. Com o que ela tem de melhor.

Isso é fartura e integridade.

E uma vida, fora das nuvens.